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quinta-feira, novembro 24, 2011

o CADERNO de MAYA, ou os crimes da AVÓ Allende

 
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o CADERNO de MAYA
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Não é um grande livro.
Não que eu alguma vez soubesse o que quer dizer a expressão «grande livro».
De A Montanha Mágica, de Thomas Mann, as coisas mais importantes que recordo são os espantosos discursos de Mynheer Peeperkorn:
- Minha filha - disse ele. - Vai tudo bem. Mas que acha?... Por favor, não me interprete mal. A vida é breve, a nossa capacidade de satisfazer-lhe as exigências... É assim que... São factos, minha filha. Leis. Inexoráveis. Em resumo, minha filha, em resumo, perfeitamente.
E é tudo, julgo, do prémio Nobel de 1929.
De Isabel Allende tenho presentes muito mais coisas: primeiro que tudo, as suas espantosas avós, os seus espantosos avôs.
As diversas voragens das vidas que vamos sofrendo fizeram-me perder, de há muito, livros como A casa dos espíritos, De amor e de sombra, ou Eva Luna (que hei-de voltar a comprar: é o que mais vontade tenho de reler neste momento, pelo menos.) 
Mas julgo recordar uma longa fila de avós sempre presentes, nem sempre de forma discreta, mas acolhedoras, como o ninho a que é bom regressar quando se tem a asa ferida.
Desde a céptica Avó Cold d' A Cidade dos Deuses Selvagens até esta absurda avó Nini que criou Maya na confiança de que os milagres estão lá para nos salvar quando tudo o mais nos abandona, os avôs são os espíritos benfazejos que pairam à nossa volta.
Gunther Grass, em O tambor, também fala de uma avó acolhedora, debaixo de cujas saias o anãozinho Óscar se refugia. Mas trata-se de avós como as de antigamente: velhotas ainda enérgicas, mas tão só isso.
As avós de Isabel Allende são (quase todas) sexuadas e é por pouco que não as vemos de mini-saia.  Os avôs desejam-nas, mimam-nas, protegem-nas, como amam e protegem as netas.
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A segunda coisa que logo se me apresenta, quando penso Isabel Allende, é a amizade. A amizade fiel, eterna e desinteressada.
Maya, mesmo na mais negra miséria, encharcada em drogas, Maya tem um amigo, o subnutrido Freddy que lhe salva a vida por duas vezes - e o seu avatar, Juanito, outra. Eva Luna tem um fiel amigo transexual, a heroína de De amor e de sombra, faz amizade com um padre que a acompanha na desesperada busca pelos desaparecidos do regime de Pinochet.
Não há uma grande variedade nas personagens de Isabel Allende: vão-se parecendo umas com as outras, mas nós gostamos de as reencontrar, como gostávamos de reencontrar o Júlio, a Ana, a Zé e o David quando líamos os Famous Five. São humanas, são falíveis, pecadoras e aventureiras, mas há nelas, salvo quando lhes está destinado o papel de maus da fita, uma generosidade que escasseia, cada vez mais, nos nossos horizontes.
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Uma nota final: este livro é, de algum modo o reencontro de Isabel Allende com o Chile - mesmo se quase como se fosse uma mera turista na ilha Chiloé - e com as memórias do golpe vibrado por Kissinger nas esperanças dos anos sessenta: um mundo onde a felicidade era possível.
Cito apenas uma pequena passagem para não roubar a surpreza a quem quiser ler o livro:
"Aquela violência era tão inimaginável no Chile, orgulhoso da sua democracia e das suas instituições, que Manuel foi incapaz de avaliar a gravidade do que sucedera [...]. Levaram-no de olhos vendados até ao Estádio Nacional, que estava transformado em centro de detenção. Ali se encontravam pessoas que haviam sido presas durante aqueles dois dias, maltratadas e famintas, que dormiam deitadas no chão de cimento e passavam o dia sentadas nas bancadas, rezando em silêncio para não incluídas entre os desafortunados que conduzidos à enfermaria para interrogatório. Ouviam-se os gritos das vítimas e, à noite, os tiros das execuções."
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segunda-feira, junho 01, 2009

Quando os Vascos eram Gonçalves


A Beatriz Costa já cá não está para me perdoar o abuso. Para ela, jovem nos anos quarenta, os Vascos, obviamente, eram Santanas.
Os tempos mudaram, como sempre fizeram e hão-de fazer, pelo menos, enquanto o Pai Cronos que é o dono das ampulhetas os deixar brincar com a Criação.
E quando esses mudados tempos vieram, as Beatriz Costa e as Amália Rodrigues deram-se conta de que também os Vascos não eram os mesmos.
Agora era o Vasco Lourenço, claro, capitão em Abril.
E o Vasco Gonçalves que depois foi primeiro ministro.
Diga-se o que se disser: quando por um qualquer erro da Mãe-natureza, certamente congénito, também eu ligo a televisão e me ponho a olhar, a primeira coisa que me assalta é a saudade dos discursos do Vasco Gonçalves.
Eu sei que ele era comunista, o que, hoje em dia, corresponde mais ou menos a ser um melquetrefe desclassificado.
Mas quem não foi, ao menos, compagnon de route, colaborador ou cúmplice numa qualquer fase da sua vida, das duas uma: ou era ferozmente salazarista como a Senhora minha Avó que Deus guarde, ou era tontinho da cabeça. E a alternativa não é exclusiva: muitas vezes, acumulavam.
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Percebam que não estou a falar de quem, felizmente, é demasiado novo para compreender o sufoco em que se vivia nos tempos de O Pai Tirano ou de O Pátio das cantigas.
Do que estou a falar é do Senhor Cardeal Patriarca a abençoar as tropas que iam para as colónias enquanto as polícias, a política e as outras, perseguiam os desertores, os emigrantes que tinham de ir a salto para França. Do que estou a falar é do número ridículo de estudantes que chegavam à faculdade e depois conseguiam acabar um curso. Do que estou a falar é dos bairros de lata que foram crescendo à volta de Lisboa e do Porto. Do Delfim, que tocava clarinete na filarmónica e vivia numa casa de terra batido, telhado de telha vã, sem água nem esgotos.
Do que estou, enfim, a falar é dos movimentos de libertação das ex-colónias que, ao ganharem a guerra, não libertaram só os pretos de lá. Libertaram-nos também a nós, os pretos de cá.
E, nos discursos do Vasco Gonçalves, ao fim de anos e anos santimoniosos, de untuosas palestras, surgia uma espontaneidade, uma tão grande fé nos humanos que, concordasse-se ou não, cativavam.
Mas, claro, ele era um major do nosso pouco glorioso exército.
Para os militares como ele, as coisas são simples, as pessoas são honestas ou não, trabalham ou não, são exploradoras ou são exploradas, é tudo sim ou tudo não. As meias tintas, a conversa para empatar, não lhe cabiam no discurso: meio jantar pode ser melhor que nada, mas não é jantar nenhum, ponto.
Foi fácil chamar-lhe Vasco, o Louco, como ao Francisco Costa Gomes chamaram o Chico Rolha. A louca sinceridade sempre assustou os bem pensantes que têm estômago para engolir tudo menos uma verdade crua.
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Cronos, entretanto, abanou as ampulhetas outra vez.
E a pouco e pouco fomos assistindo ao regresso do discurso da Senhora minha Avó.
Ela não era monárquica: era talassa. Com muita honra!
E repetia: Muita honra!
Contava com orgulho as pequenas patifarias da Tia Margarida pelos idos de 1910, de loja em loja a perguntar:
- Tem bolo-Rei?
E quando o orgulhoso empregado lhe dizia que agora, com a República, se chamava bolo-Nacional, respondia:
- Então, muito obrigada, mas não quero!
Também a minha Avó se recusava a aceitar que, quase sempre, se tem de mudar o nome às coisas para que elas fiquem na mesma. Ou, quando não se quer uma coisa, deixa-se-lhe o nome e sapam-se-lhe os alicerces. Escuso de dar exemplos, não escuso?
Para ela, o Salazar era tudo. O salvador da paz e da tranquilidade, a dela própria para começar.
O guardião da decência.
O seu único defeito? Não era bonito, não dava explendorosos bailes em Queluz.
Quanto ao resto... o resto não havia! Nós não nos metíamos em coisa nenhuma! Que ficasse bem claro!
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Claro que nos metemos.
Timidamente embora, fomos às manifestações. Distribuímos comunicados das Associações de Estudantes, o Avante, o Recuante e o Laterante, todos com montes de foices e martelos, todos dos verdadeiros partidos da classe operária. Muitas vezes recebíamo-los em embrulhinhos e distribuíamo-los antes mesmo de os ler. E houve outras pequeninas coisas que agora já não interessam, que não fizemos para que nos agradecessem.
Mas os tempos passaram e um outro Vasco escreve, com a maior das naturalidades: "parece que, no fim de contas, Salazar não se enganava [1]: Portugal prefere um único partido (se não exactamente um partido único). Um partido 'neutro', sem cor e sem princípios, com a autoridade necessária para salvar a pátria de si própria. Pela força, como é óbvio." E conclui, linhas mais abaixo que "a solução lógica seria assim eleger em Outubro uma força parlamentar irresistível, limitar a liberdade de imprensa (em sentido lato [2]) e submeter a justiça às conveniências do executivo." (Público de 30 de Maio)
Neutra, essa força irresistível?
Talvez. Mas a Europa, nos idos de 1933, não teve uma boa experiência com a eleição de "uma força parlamentar irresistível" na Alemanha. E ver o Vasco Pulido Valente a escrever as coisas que e Senhora minha Avó dizia aos oitenta anos, confesso, não me deixa nada tranquilo.
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1] E, decerto, raramente tinha dúvidas. O VPV não se pronunciou.
2] Lato?