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quinta-feira, maio 25, 2017

O LIVRO DE AKA


O destino das ruas é ser caminhadas, claro,
e aquelas por onde Aka andava não eram excepção
mesmo se corrê-las todas fosse impossível
porque umas levam às outras e as outras a outras,
como as palavras num dicionário labiríntico
 onde nunca fosse preciso voltar atrás.
Por isso, e porque a temperatura descera
e a neve pisada se tornava negra e escorregadia
deixou   o Chemin Vert, que afinal era uma rua como as outras,
entrou um pouco ao acaso pelo Boulevard Beaumarchais, 
à procura da Rue de Tournelles
e reconheceu que já não sabia para que lado andar.
Havia, claro, o gps e o infatigável Mahamoud a sinalizar as coordenadas
 de cada um dos passos andados
 - pensou Aka pela centésima vez, 
já sem o prazer de antigamente por ser personagem numa história de série B
- ninjas vestidos de negro, armados até aos dentes
e logo um helicóptero a descer, mesmo na rua mais estreita, 
para a resgatar do perigo, 
gato assanhado, Rottweiler mal disposto,
bêbado incomodativo, enamorado persistente
- se, por troça dos djin, 
tal lhe fosse autorizado ao menos uma vez, 
foi o que ela pensou -
e descobriu que Mahamoud não estava à vista.
Por momentos sentiu-se liberta
apeteceu-lhe saltar ao pé-coxinho, jogar seksek 
(il gioco del mondo, la marelle)
nos desenhos que as pedras do passeio faziam
onde a neve derretera.
- Vem, disse uma pequenina voz junto do joelho dela, suave mas insistente
a puxar-lhe a ponta do nikab
uma criança a olhá-la lá baixo com um rosto de velho.
- És o meu djin?
- Que te importa? Anda.
- Onde?
O pequeno ser começou andar num passo miúdo,
do tamanho das pernas miúdas,
como se estivesse certo de ser seguido.
Aka olhou de novo em volta,
o lugar de Mahamoud estava quase vazio,
preenchido apenas pelo vulto diminuto da criança velha que se afastava.
- Porque não? Pode ser que neste mundo haja mais mundos
e de uns se passe para os outros como na Wikipedia
e neste aqui tudo seja ao contrário dos que eu uso
- pensou ela enquanto tomava uma decisão -
bem precisava de alguns contrários 
por exemplo, dava-me jeito passar a ser homem
uma vez por outra.
Mas, e se nenhum dos meus mil nomes
servisse para uma eu masculina?
Acrescentava
Harun-al-Rachid?
Hercule Poirot?
Riu-se e deixou a questão para mais tarde
(se mais tarde chegasse a chegar ao lugar dos agora)
e saltitou ao pé-coxinho
na esteira do seu diminuto guia.
Um portão de ferro tosco abriu-lhes a porta de homem,
Aka entrou com uma ponta de medo,
na sua frente a larga passagem dava acesso a um pátio:
- Voilà, disse a criança velha, tu es à la goguette des nains.
Um braseiro era a única iluminação à volta da qual,
num passo balançado,
se moviam sombras.
O som fanhoso de um bigofone soava mais longe
misturando-se com os protestos de uma galinha que alguém agarrara.
- Bom vinda à corte dos milagres. - disse um dos vultos. - Ceias connosco?
- Hoje é dia de festa - riu-se outro - precisamos de uma boa fogueira.
 Foram-se chegando, um gordo que parecia um barril de palmo e meio
com um braçado de livros
que foi mostrando antes de os atirar para o braseiro,
- Espinosa, leu Aka.
- Montaigne - ajuntou o gordo - e o Divino Marquês...
um segundo com
um com a ave já degolada
atirava para o lume punhados de penas
que erguiam no ar gelado nuvens de fumo pestilento.
- Estamos quase no fim dos livros.
A seguir temos de passar para os quadros,
explicou a criança com rosto de velho.
Tinha ido buscar um velho tambor de lata
e batucava o que parecia uma marcha fúnebre.
- Petit a petit, toute la France y passera, cantarolou ele,
enquanto o bigofone soltava gemidos a compasso.
- Já sei, exclamou Aka.
Tu és o Óscar.
- Je dis pas non, cantarolou o anãozinho.
E os outros entoaram em coro:
- Il dit pas non, il dit pas non...
Começava a cheirar a galinha assada
Aka sentiu água a crescer-lhe na boca.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Subsídios para o Livro de Aka (final)

Aka abrira o tampo do clavicórdio,
brincara com as teclas num arremedo da Dansa Russa e,
com um alicate, entreteve-se por momentos a cortar-lhe as cordas.
Depois tinha-se ajoelhado no tapete,
junto à mesa que fazia de palco à Petite danseuse de catorze ans.
O olhar,
como se fosse ainda menina,
razava a nogueira polida do tampo,
e o dedo estendido contra a base da estatueta
empurrava devagarinho,
como se a pudesse fazer dançar.
A Petite danseuse erguia os olhos para lá,
para onde havia um lustre.
«Não estás num verdadeiro palco com uma ribalta», disse Aka.
«Nem aquilo ali em cima é a verdadeira luz.
É só um vidro, cristal de Veneza dizem,
pingentes que cintilam, falsos brilhantes, cintilações...
Banalidades. Palavras. Deus, se tivesse bom gosto nunca as usaria.
Mas Ele só fala a linguagem dos dins cantores, a linguagem da glória.»
Uma volta mais leve deixou a Petite Danseuse à beira do seu tablado.
«Antes de cairmos, dei-te um dos meus nomes,
o que eu mais gosto por me lembrar o Petruska do bailado.
Perdoa-me, Petra, amanhã faço quinze anos.
Leva o meu nome e a minha alma contigo para que ninguém mais nos use.»
Do tapete, deitada de lado, com as pernas partidas,
a Petite Danseuse olhava-a enfim, de olhos nos olhos.

domingo, julho 25, 2010

Subsídios para o livro de Aka XXIV

Quando ouviu gritar "Jaqui", Aka não se voltou logo, apesar da onda de frescura,
como alguém que, de noite, numa rua mal iluminada, sentisse de súbito o cheiro do pão quente.
Com mais de mil nomes,
ninguém se devia espantar se Aka não se reconhecesse em todos.
Mas espantavam-se.
Espantavam-se que detestasse os mais vulgares,
aqueles em que as pessoas vulgares na sua vida teimavam,
como se ela fosse pertença de meras palavras,
a private joke de cada vulgaridade.
Algumas vezes, Aka reconhecia-se imediatamente.
Jaqui era o nome que lhe dava a doutora Wali,
a mãe velha que montara o pequenino hospital de mulheres onde a Aia a levara muitas vezes em criança.
"Não, Jaqui", dissera a médica: "Não és tu quem tem as alergias.
O mundo é que é alérgico a ti e não quer deixar-se tratar.
Vem ver-me só quando te apetecer uma coca-cola, combinado?"
Jaqui foi muitas vezes beber uma coca-cola com a doutora Wali
até que ela desapareceu,
levada por um projecto mais urgente,
uma dor do mundo mais aguda,
uma fractura,
uma ferida mais infectada.
Aka ficou a olhar as duas mulheres que se abraçavam,
a Jaqui era uma mulher alta, de meia idade,
a amiga era preta e muito bonita,
muito diferentes de Aka ou da doutora Wali,
mas, por um momento, sem se darem conta disso, espalharam uma pequenina onda de bem-estar por toda a rua.
O mundo, que é alérgico à felicidade, trouxe logo uma ambulância,
apertou-a no trânsito, deixou-a muito tempo a gritar a sua urgência.
Aka entrou na loja dos animais para comprar um peixinho encarnado.

quinta-feira, maio 13, 2010

Subsídios para o Livro de Aka XXIII

O puto aproximava-se num enviezado deslizar,
mansinho como se não fosse dali,
os ténis gastos, num repente pontapearam o pombo
que rolou e logo foi agarrado, pescoço partido num gesto seco.
Aka agarrou-o pela roupa.
- Larga, gritou o puto.
Rolou para fora da t-shirt, mostrando o corpo sujo, de ossinhos miudos, nódoas negras de andar à pancada, correadas de pai, apertos de chui, esfoladelas de tombos.
Aka apanhou o pombo caído, quente, magro também ele, julgou sentir um último estremecimento.
- É meu, gritou ainda o puto, a encurtar o metro de distância, uma pedra bem cerrada na mão esquerda.
- Que mal te fez ele, perguntou Aka ainda zangada, olhos nos olhos corruscantes.
- Que mal te fez a lagosta que tu comeste ontem, ó parvalhona?
- Mas tu não vais comer isto.
- Eu? Não. Eu deito-o fora e tu vais apanhá-lo.
Aka abrandou, estendeu-lhe a t-shirt e o pequeno cadáver.
- Não devias comer pombos das cidades. Estão cheios de doenças. E sabem a esgoto.
- É bom saber, disse o puto com um riso súbito nos olhos.
- O quê?
- Que os esgotos sabem a pombo frito.
- Raspa-te antes que eu me arrependa!
- Heu, que medo!
Dá-me um euro e digo-te uma coisa que tu não sabias.
Aka estendeu-lhe a moeda.
- O quê?
- A tua lagosta. Eu vi uma vez.
Deitaram a gaja para a água a ferver.
Parou um instante como quem recorda alguma coisa preciosa:
- Havias de ouvir os ruídos que ela fez a morrer.
- Puto estafermo! - murmurou Aka.
Mas ele já ia longe, saltitante,
com o seu pombo e o seu euro.
-

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXI)

-
- O que é que faz esta gente toda? - perguntou Aka.
- Gente? Que gente?
Aka designou com um gesto a pequena multidão que saía do Metropolitano.
- Não sei. Aquele, por exemplo, podia ser um ajudente de cozinha no nosso hotel. E a mulher que vem com ele, talvez trabalhe na lavandaria.
- Estão aqui só para cuidar de nós? Não fazem nada?
- Tens uma ideia muito estranha do que é fazer ou não fazer.
- Não, eu percebo que eles trabalham e ganham o seu dinheiro e metem-no nos bancos e os bancos têm gente que trabalha para o guardar e os hospitais quando adoecem e o Pére Lachaise quando morrem. Mas a cidade, assim toda junta, serve para quê?
- Olha, para podermos vir cá ver os quadros que vamos ver.
- Mas, é só isso?
- Aka, se queres fazer uma análise de funções, muito bem. Mas não fales alto: as pessoas vão pensar que tens o síndrome de Asperger.
- Mas não tenho. Sabes perfeitamente que as Aspergers nunca se riem. E eu rio-me.
- Sim. Quando calculas a raiz cúbica de 12. 290 mais depressa que o teu computador.
- Devias ter dito 12. 167. Era uma raiz perfeita. Mas isso é só quando eu me chamo Wolfgang, o que é muito raro quando se é só uma rapariga.
-

quarta-feira, julho 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XX)


O pássaro chamou-a de entre os ramos:
- Tu, ó miúda!
Aka parou.
- Quem te ensinou a arte da camuflagem não era lá grande espingarda, pois não?
- Não, creio que não.
Posso sentar-me aí ao pé?
O pássaro afastou-se para lhe arranjar lugar.
Aka trepou pelo ramo principal.
- Nós, as mulheres - disse ela depois - se calhar, temos de aprender tudo sozinhas.
Porquê?
- Com essas roupas, ainda chamas mais a atenção.
Para te esconderes, tens de fazer como eu.
Atrás de um jornal, pensam que és lixo.
Ninguém quer saber do lixo.
- Mas eu não me queria esconder, sabes?
Queria ser livre, queria ser bonita. Queria correr o mundo.
- Eras logo caçada.
- São eles quem me esconde nestas roupas.
- Pobre miúda!
Pertences a uma reserva para caçadores ricos.
São as piores: engodam-nos, engordam-nos e depois, pás, pás, pás!
Caímos que nem os tordos.
- Tu não és um tordo?
- É um modo de falar. Não faço a mínima ideia.
- A mim disseram-me que nunca devia esquecer que sou.
- E tu não te esquceste. És tu.
- Sou. Eu sei que sou. Mas às vezes, não me lembro a tempo.
- Olha, fica com este jornal.
Precisas mais dele do que eu.

quinta-feira, junho 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVIII)



Não era anormal dirigirem-se a ela;
o guarda-costas limitava-se a vigiar, lá de longe.
- Não olhes as pessoas nos olhos. - ralhava a Aia.
Mas Aka nascera assim, perguntadora.
Os olhos, castanhos ou verdes, conforme a luz, inquisidores, captavam tudo e todos.
Deixavam-se captar por todos e por tudo.
O mágico tirou do turbante uma rolinha branca, depois olhou em volta, fê-la desaparecer nas mãos de um jovem de cabelos para a testa, em seguida pegou nas de Aka, colocou-lhe a direita em concha sobre a esquerda:
- Ah-ah! Voilá notre petitte voleuse! Quer mostrar-nos o que tem aí escondido?
Aka sentiu cócegas na palmas das mãos, como se um animalzinho crescesse e lutasse para sair.
Quando as abriu, a aranha sentiu-se livre, saltou para o chão.
Houve gritos, gente em fuga, uma rola branca voou.
O skin da grande barriga tentou com a bota, uma vez e outra, esmagar a aranha assustada.
Com as suas grandes patas, correu por entre pés de gente e de cadeiras.
Num instante surgiu um grupo para dar caça à "tarântula" e outro para defender os direitos da pobre «bestiole assustada».
Não viram o mágico curvar-se profundamente, mãos postas diante do rosto.
- Posso saber o nome daquela a quem devo ter visto um milagre? - perguntou ele.

sexta-feira, maio 08, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVII)

-
- Um problema sanitário é um problema sanitário, disse a Aia.
- Temos de sair do hotel.
Aka achou engraçado estarem a ser expulsas por uma tautologia:
- Problemas sanitários duas vezes?
- A desratização, Aka. Já te expliquei, não foram duas vezes.
Foram mais de cem.
Aka não retorquiu.
A graça da coisa era que uma desratização num hotel fosse sempre precedida por uma desumanização.
- Se eu fosse rato, quando visse os humanos a abandonar o navio, deitava-me logo à água.
- Deixa de ser ridícula, Aka. Tu não és um rato.
- Graças a Deus.
Mas não tinha muito a certeza.
Talvez devesse ter-se feito pequenina e seguido o primeiro coelho branco que passasse.
Ainda estaria a tempo?
-

quinta-feira, abril 23, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVI)


"The Virgin started from her seat, & with a shriek"

-

- Como te chamas, jóia?, perguntou a Cartomante.

- Não sei, respondeu Aka. Tenho mais de mil nomes.

- Como Nosso Senhor, hem? Não és modesta. E como te chamava a tua mãe, além de minha bonequinha fofa?

- A Mãe foi morta quando eu tinha cinco meses, dizem. Mas a minha primeira ama, a que me deu de mamar, chamava-me Diniza.

- A tua Mãe foi morta? E por quem, minha preciosa?

Aka abanou a cabeça.

- Não lhe posso dizer.

- A mim podes dizer tudo, pequena. Mas não queres, não é assim? Bom! Diniza? Diniza, num dialecto muito antigo que aprendi num sonho, queria dizer «filho de Deus".

- No meu também. Mas «din» ou «djin» junto com «iza», que quer dizer pequenino, é o que se usa para os enjeitados, sabes? Cria de Deus, filhote. Alguém que foi deixado à porta do Pai mais velho.

- Hum-hum? E depois?

- Depois o Pai mais velho decide se a criança merece viver e dá-a a criar a uma ama, a uma mulher que esteja a amamentar. Ou decide que não... A mim podem ter decidido que eu vivesse.

- Que história triste, pequena. Tens a certeza do que contas?

- Não, sabe, «dinisa» também se usa para uma rapariguinha endiabrada, um diabinho em forma de gente. A diferença é que os letrados ocidentais escrevem com «s». Nós usamos a escrita antiga, que não é só fonética.

- E tu, eras um desses diabinhos?

- Ainda sou.

- Seja Diniza, então! Com «z» ou com «s», tanto faz.

Soletrou e foi espalhando cartas em polígono à medida que recitava as letras.

- Ui! Que violência, minha querida. Vês? Esta carta é o teu pai.

Colocou em rápida sucessão mais seis cartas ao lado das anteriores.

- Sim, vejo-te com uma coroa de rainha, diamantes, safiras... e uma espada sobre a tua cabeça. Pés descalços, sobre as silvas. Quem és tu, Diniza? Com esse rosto tapado deves ser muçulmana... Não, espera... és de uma seita que te condenou... que interessante, Deniza: estás condenada à morte! Não acredito que tenhas poderes suficientes para fazer mentir as cartas. Só o Demónio o consegue.

- Eu sou um diabinho, lembra-se?

- Mostra-me as tuas mãos! Consegue-se fazer mentir todo o corpo. Hás-de aprender isso um dia, talvez quando casares, se viveres até lá. Mas, não te esqueças! As linhas das mãos, nunca mentem porque a mentira fica gravada para sempre.

Aka estendeu ambas as mãos, com as palmas viradas para cima e fechou os olhos:

- Why cannot the Ear be closed to its own destruction? - perguntou ela. - Não se preocupe: foi qualquer coisa que aprendi nas aulas de Inglês. Um preto qualquer, como eu.

- Modesta, como sempre, hem? Eu também estudei inglês, rapariga. O William Black só era preto de nome. E tu nem issso. E agora cala-te. Quero ver o que dizem estas linhas.

quarta-feira, abril 15, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XV)


A Aia baixara o khimar, sorria,
o velho marchand dizia coisas redondas,
era excelente o gosto da «sua jovem amiga»,
dava palmadinhas na caixa poisada na mesa de apoio a seu lado,
a mão fina, manicurada,
os olhos a mostrarem Aka,
«a quem pedia que lhe perdoasse a insignificancia»,
«só justificada pelo o seu juvenil entusiasmo».
«Não, eu nunca perdoo», pensou Aka, «às vezes esqueço, é só isso»,
mas baixou os olhos como fora ensinada a fazer.
O velho, vagaroso, desembrulhou a figurinha da petitte danseuse reduzida a dois palmos.
- Vraiment superbe! - murmurou contemplativo
e a Aia repetiu:
- Oui. Superbe.
Aka levantou-se, fez uma vénia,
«vous m'excuserez», e saiu da sala.
- Não repare - pediu a Aia. - É a idade. É para esconder a comoção...
- Oh! É muito mais grave do que isso, minha querida amiga. Está na idade em que ainda é possivel recusar a banalidade. - acariciou o tule da estatueta com o dedo mindinho estendido e pareceu triste por momentos: - Receio que a vida a venha a desiludir muito.
Mas mesmo muito, mesmo muito...
-

domingo, março 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIV)

- O essencial, sabes, continua a ser invisível para os olhos - disse a raposa. - O problema é saber como podemos torná-lo visível.
Aka fez que sim com a cabeça.
- Os cientistas, por vezes, usam os microscópios.
- Pois. Mas encontram essências muito, muito pequeninas.

sexta-feira, março 06, 2009

Still looking for Aka II

Aka achou engraçada a instalação feita de pequenas peças de mármore, vidro e metais e deu um piparote numa bolinha que partiu pelo tabuleiro fora fazendo vários plins.
- Desculpa ter-te estragado a teia - disse ela à aranha pequenina que fugia espavorida das peças em movimento.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIII)


- Aia - chamou Aka, em voz baixa, meditativa. - Podemos ir Nova Iorque?
- Não. Porquê?
Aka não respondeu.
Em vez disso, argumentou:
- Podíamos ficar em casa da Tia Louella. Mesmo que fosse só por dois ou três dias. O Tio Abraham ainda é representante no FMI, acho eu. Era quase só o dinheiro para o avião e para os taxis.E podíamos ir naquela classe, tu sabes, a menos cara.
- Seríamos um embaraço para o pobre Abraham, Aka.
- Mesmo que fosse só ir e voltar no voo seguinte? Cinco ou seis horas bastavam, Aia.
- Aka! Bastavam para quê?
- Para irmos ao Metropolitan Museum.
- Não me parece mal. Mas em cinco horas é um disparate, Aka. Se queres, para o ano que vem podemos passar um par de semanas a visitá-lo.
- Mas Aia, depois podemos pensar em ver tudo o que tu quiseres. Agora era só ver uma coisa e voltar.
- O que é que tu queres ir ver?
- A Petite danseuse de quatorze ans.
Este livro idiota conta a história de um jovem poeta que vai passear ao Jeu de Paume e apaixona-se pela Danseuse.
Fui ao Jeu de Paume e os Degas já lá não estavam.
Fui ao Orsai e a escultura não está lá, não sei porquê.
De qualquer maneira é só a porcaria de uma cópia.
Em Nova Iorque há outra um bocadinho diferente.
O original, foi um asiático qualquer que o comprou há pouco tempo .
Achas que foi aqule amigo do Pai, o Georges Eduard Fu?
Há dois anos comprou um Rembrant e já tinha outros quase tão caros.
- Aka, não faço ideia nenhuma.
De qualquer maneira, se não temos dinheiro para ir a Nova Iorque, a Hong Kong ainda menos. Vamos lá para o ano, se daqui até lá não te esqueceres.
- Para o ano já não quero ir.
Já não tenho catorze anos.
O tempo não pára, Aia.
Não é estúpido?
-
- Sabes, Aia? Afinal já não é preciso ir a Nova Iorque.
Podiamos ir só a Londres, à Tate.
- Talvez. Não vejo porque não.
De qualquer modo, telefonei ao marchand do teu pai que é um homem amável.
A escultura que tu queres ver está de volta ao Orsai no fim do mês que vem.
Esteve emprestada no Brasil, acho eu.
Não sei bem onde é São Paulo.
Mas são tudo cópias, Aka.
Podes ter uma se quiseres, disse ele.

sábado, fevereiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XII)

- Psst! Miúda! Avia aí os trocos.
Aka olhou para ele, sem amenidade.
Era branco e não tinha o ar muito limpo.
Mas ali, sentado numa caixa, com um copo e um livro, não parecia ameaçador.
- Estás a ler o quê? - perguntou ela, sentando-se nos calcanhares em frente dele.
- Tens alguma coisa a ver com isso?
Aka mostrou-lhe uma nota de dez euros.
- Os trocos, lembras-te? O pedinte és tu, não sou eu.
- Só tens isso?
- Se o livro valer a pena pode ser que eu volte... E pode ser que tu me mostres outros livros e pode ser que vá havendo mais uns trocos...
- Ah bom. Queres fazer de mim um investidor, é?
- Não. Um mestre? O meu preceptor dizia que temos de escolher os nossos mestres. Mas não és obrigado...
- E em em que é que eu me pareço com um mestre?
Aka pensou.
- Em nada, acho eu. Achas que é por isso?
Ficou a olhar para ela, muito tempo até que mostrou a capa do livro.
- Ouve. É um gajo muito antigo, chamado Gide, André Gide, que já ninguém lê. Chama-se La porte étroite. Começa assim:
Outros poderiam fazer um romance; mas, eu consumi todas as minhas forças e virtudes a viver a história que vou contar...
Passou uma série de páginas e voltou a ler:
- A minha alma está hoje ligeira e alegre como um passarinho que tivesse feito o seu ninho no céu. É hoje que ele deve vir; sinto-o, sei-o; quisera gritá-lo a todos ... Não posso esconder por mais tempo a minha alegria... Interessa-te?
Aka fez que sim com a cabeça.
- Quem é ela? E quem é que vai chegar?
- Ela? Como é que sabes que é uma ela? Pode ser um ele. Ou um maricas. Ou um marciano. Os marcianos não têm sexo, sabias?
- Não. E tu, já viste muitos?
- Espertinha! Vendo-te o livro por esses dez euros. Mas com uma condição. Aceitas?
- Qual?
Ele percorreu as folhas do livro e rasgou as últimas duas ou três.
- Juras sobre o Corão que nunca tentarás saber o fim da história que ele vai contar?
- Não sou muçulmana. Mas tenho muito respeito pelo Corão. Juro.
- Toma. Deves-me dez euros.
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa em caracteres latinos.
Acompanhada pela Aia e seguida à distância pelo Mahamoud, Aka voltou à ilha de Saint Louis.
O pórtico em obras lá estava.
Mas o ocupante era outro: gordo, a barba por fazer, a garrafa do vinho tinto.
- Le pettit con? Vieram buscá-lo, les flics ou les bleus, des comme ça.
Falou para a Aia que se mantinha distante:
- Vou-z-auriez-pa-z-une piéce, vous, la grand-dame? J'ai jamais toué personne, hê?
Mais não sabia.
O «pettite tête» não «pertencia», era um passante, não entrava na festa la fête com toda a gente.
- Ele era toc-toc. -concluiu e estendeu o boné para encerrar a conversa.
- Porque não compras outro exemplar desse livro e não o lês até ao fim? - sugeriu a Aia.- Esse, de qualquer modo, tens de o deitar fora, está sebento.
- Fiz um juramento - respondeu Aka.
E não explicou mais.
-
Ou:
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa da esquerda para a direita.
O pórtico em obras lá estava, com o sem abrigo encolhido no seu anoraque enxovalhado.
Mas sem livro.
Parecia ter-se ido embora e esquecido ali o corpo.
Da boca aberta escorria um pequeno fio de baba.
Aka, ajoelhada ao seu lado, ficou uns minutos quieta.
- Talvez tenha de ser assim com os meus mestres - murmurou.
Não sabia como chamar uma ambulância, mas, do outro lado do telemóvel alguém havia de saber.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XI)

Aka andava pela Ilha de São Louis quando encontrou o Senhor.
Vinha a rir-se porque, depois da seriedade de uma Ecole de garçons a ter feito pensar pela milésima vez «mas porque é que eu fui nascer rapariga?», os olhos depararam-se com um restaurante com o nome L'Ilot Vache.
Aka não sabia francês suficiente para conhecer os múltiplos sentidos que a palavra «vache» pode ter, para além dos mais evidentes. Mas já tinha aprendido que dizer de qualquer coisa que «c'est vache» ou «c'est vachement con», não é propriamente um elogio.
Foi então que tropeçou n'Ele.
Vinha absorto, a ler um livrinho.
Quase chocaram. E sorriram-se.
Diga-se:
Os fiéis das grandes religiões, os cristãos, os islamitas ou os judeus, já não sabem sorrir a Deus. Os sacerdotes proclamam que é um Pai bondoso e justo; porém, só eles têm a chave dos tabernáculos onde O encerraram.
Talvez haja mais do que um Deus único, pensa Aka, porque o seu é ao contrário dos outros:
vive com o seu povo.
Como toda a gente.
É por isso que os antropólogos acham que a religião dela é um animismo.
Por isso, e por não precisar de sacerdotes.
O Tio Mais Velho orienta a oração da noite quando estão todos juntos.
De resto, Aka reza quando a alma lhe pede.
- Com que então a rir do restaurante onde eu almocei. -disse Ele interrompendo a leitura.
Aka fez um sorrisinho mais largo a que juntou um pequenino encolher dos ombros.
- E o que fazes aqui sozinha? Não é costume, pois não?
Aka, com os olhos, indicou o guarda-costas que se aproximara, a mão dentro do anoraque, no bolso do peito.
- É um chato, nem sequer Te reconheceu. - riu-se ela. - Não podemos pregar-lhe uma partida?
- Não. Não seria justo. Está a fazer pela vida, da única maneira que sabe.
- Pois. É o que me diz a Aia.
- Então deve ser verdade, não é?
Riram-se de novo.
E depois, não havia muito a dizer, foi a despedida.
O Senhor seguiu os Seus caminhos mergulhado no livrinho e Aka, pela rua de Saint Louis afora, de alma cheia, com o andar saltitante e uma canção desafinada nos lábios.
- Não era simpático perguntar-lhe porque existe, pois não? - interrogou-se ela.
E concluiu que não.
Há coisas que não se deve perguntar, mesmo que se saiba já a resposta.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (X)

-
Aka estava encantada com o livrinho pequeno e gorducho,
meias páginas, meios poemas,
meio outra coisa que Aka não soube definir.
O que primeiro a tinha atraído, no tabuleiro do bouquiniste, fora a encadernação vistosa,
bastante oiro, grandes letras gravadas em cabedal.
E logo depois, a dedicatória:
«À mon ami, mon amor, source de mes envoûtements...»
numa letrinha muito parecida com a da própria Aka.
- Foi decerto muito infeliz - pensou.
- Senão este livro nunca estaria aqui à venda.
-

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

domingo, janeiro 25, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (IX)


Aka, com os lábios apertados, sem prestar atenção ao que estava a fazer, deixava os dedos correr pelas teclas do clavicórdio, suavemente por vezes, brusca, quase violenta noutras.
- Aia?
Os dedos insistiram no mesmo acorde, repetido uma vez e outra e outra.
A Aia cortou a linha com os dentes e examinou o bordado:
- Hum? - fez ela.
- A igreja é uma associação de pedófilos homossexuais?
- Igreja? Qual igreja?
- Esta. - com um gesto do queixo indicou as revistas abertas, espalhadas pelo tapete.
- Claro que não, Aka. Como podes dizer uma coisa dessas?
- Não sei. - os dedos interromperam o acorde e ficaram como que a tocar o ar e as suas teclas invisíveis. - Não sei nada, Aia. O que é um homossexual? Aqui diz que os surdos mudos foram sodomizados num colégio de padres. Eu tenho um irmão que é surdo mudo, sabes? Não sei como se chama, é o filho mais velho da segunda concubina do meu Pai, lembras-te, aquela que é mahori e tem o rosto tatuado? Quando nós vivíamos em Florença e ele vinha brincar connosco para o terraço grande, do lado do Arno, nós dizíamos «sschiu.... agora ninguém fala: quem ele entender primeiro, ganha!» Chamávamos-lhe o Shiu-biu e ele nunca nos disse se tinha outro nome.
Os dedos voltaram às teclas para as primeiras frases de Limelight.
- E o que é sodomizar?
- Aka, nada disso é da tua conta. Esquece essas revistas, por favor. Se o teu Pai soubesse das porcarias que tu lês, não te tinha mandado aprender. A culpa é minha que te deixo trazer isso tudo para casa.
- Estou a pensar...
- Aka! Chega! Proíbo-te de pensares mais seja o que for.
- Achas que o Papa desta vez lhe vai enviar um pedido de desculpas?
- Desculpas? A quem?
Só os acordes do clavicórdio lhe responderam.
A Aia atirou a caixa de costura para o chão.
- Estás a ficar insuportável, Aka.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII) - cont.

- Aka! - gritou a Aia, já exasperada: - Já chega. Se não sais daí, rebento a porta.
«Aí» era um closet, meio armário, meio quarto de vestir.
Mas não foi preciso: a maçaneta de porcelana girou tranquila, com se nunca tivesse estado trancada.
As roupas lá estavam, levemente agitadas por uma brisa que vinha da parede de fundo, de uma porta antes encoberta por paineis de madeira.
Num hotel antigo, tantas vezes adaptado, com tantas crescenças, nada daquilo era para admirar.
Aka era um diabinho esperto, uma verdadeira Peri quando crescesse, sabia-se lá por onde andava agora.
A Aia não era timorata e ainda recordava os livros da Enid Blyton, cheios de passagens secretas. Um pouco embaraçada pela longa capa, desceu a escadinha íngreme. Acordes metálicos de guitarra enchiam o ar quando chegou a um corredor largo e atapetado, uma longa curva para a direita, lado onde estavam as portas numeradas.
- Parecem camarotes de um teatro - pensou a Aia. E entrou.
Vultos indecisos na penumbra voltaram-se para lhe dar as boas-vindas.
- Também foste abusada, irmã? - perguntou alguém num murmúrio. - Podes tirar o niqab. Sabes, aqui ninguém precisa de ter vergonha e muito menos sentimentos de culpa.
A Aia inclinou-se para espreitar o palco.
Por um instante pareceu-lhe reconhecer Aka na cantora magra e de cabelos rapados, mas, claro, não podia ser ela.
- É a Sinhead O'Connor - explicou a mesma voz murmurada. - Veio cantar o War, sabes, aquele cântico em que ela grita: «child abuse, yeah!»
- Nós estamos aqui para a proteger se for preciso - disse outra voz.
- Who'll dig his grave? - perguntou a Aia, com um sorriso melancólico.
- I, with my pick and shovel, I'll dig her grave.
Voltaram-se para ver quem tinha falado, mas era apenas mais um vulto na sombra.
-