
O homem não soube como começar. Olhou o gerente que, com um sorriso desdenhoso, o mirava uma vez por outra.
A Aia não se dignava olhá-lo.
- Porque trouxe aqui esse indivíduo? - perguntou ela.
O gerente pensou que os olhos, do fundo do niqab, se riam deles.
- Quem me dera poder resistir a uma ordem da administração. - respondeu.
Era um filósofo.
A Aia, numa voz suave como uma lixa muito fina, ordenou:
- Diga tudo o que tem a dizer. Poupe-me os detalhes.
O homem, atabalhoadamente, falou em assinaturas, compras exorbitantes, dezenas de milhar de euros, falta de garantias.
- A menina em questão - explicou ele - ultrapassou os limites todos do crédito. Vossa Excelência compreenderá que tenhamos de tomar algumas precauções, ter a certeza de que não se trata de um abuso... ou mesmo uma fraude! Até para protecção dos próprios clientes...
- Que nome?
- Repare, não digo que haja...
- Que nome?
- Petra von Goethe ibn Sadar ibn Sadham, é o nome que a menina assinou. Mas não sabemos, verdadeiramente não sabemos, pode tratar-se de uma falsificação, compreende, ou assim...
- Se é o nome da princesa Petra que aí está, todas as facturas serão pagas. Falsas ou não falsas, não interessa. Pode retirar-se.
Abalado, mas com visível alívio, o homem deixou-se empurrar.
Quando a porta se cerrou nas costas dos intrusos, a Aia dirigiu-se à sala onde Aka, de djilahba negra e o rosto coberto, a olhava inquieta.
- Compreendes o que fizeste, minha pequenina?
- Ó Aia! Os meus irmãos podem partir bordéis inteiros, gastar reinos em Monte Carlo e o meu pai não diz nada. Não podes fingir que nada disto aconteceu?
- Sabes que não, Aka. Se não mostrarmos que sou capaz de te disciplinar, não podemos ficar
em Paris. Queres voltar para casa?
- Não, Aia, voltar não.
- Sabes que vintes chicotadas é o mínimo que os teus tutores aceitarão?
- Ó Aia, com muita força não...
- Não, com muita força não. Mas quanto mais depressa, melhor. Levanta o vestido.
O segurança de serviço ao circuito video, rebobinou vezes sem conto as imagens do chicote e do rabito de Aka enquanto se masturbava.
-
Ou, por exemplo:
- O meu nome hoje é Liddell, Aia, - disse Aka assim que os intrusos saíram.
- Alice Liddell.
Bebeu um gole de um licor doirado e voltou a poisar o frasquinho de cristal em cima da consola, antes de começar a diminuir de tamanho.
- Acreditaste verdadeiramente que aceitaríamos seguranças do sexo masculino a vigiar os nossos quartos, minha tolinha?
Mas Aka, com poucos centímetros, já se tinha sumido no interir da gaveta aberta e não respondeu.
-
Ou ainda:
- Aka! - chamou a Aia - Já chega! Sai desse armário imediatamente!







