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sábado, janeiro 03, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII)


O homem não soube como começar. Olhou o gerente que, com um sorriso desdenhoso, o mirava uma vez por outra.
A Aia não se dignava olhá-lo.
- Porque trouxe aqui esse indivíduo? - perguntou ela.
O gerente pensou que os olhos, do fundo do niqab, se riam deles.
- Quem me dera poder resistir a uma ordem da administração. - respondeu.
Era um filósofo.
A Aia, numa voz suave como uma lixa muito fina, ordenou:
- Diga tudo o que tem a dizer. Poupe-me os detalhes.
O homem, atabalhoadamente, falou em assinaturas, compras exorbitantes, dezenas de milhar de euros, falta de garantias.
- A menina em questão - explicou ele - ultrapassou os limites todos do crédito. Vossa Excelência compreenderá que tenhamos de tomar algumas precauções, ter a certeza de que não se trata de um abuso... ou mesmo uma fraude! Até para protecção dos próprios clientes...
- Que nome?
- Repare, não digo que haja...
- Que nome?
- Petra von Goethe ibn Sadar ibn Sadham, é o nome que a menina assinou. Mas não sabemos, verdadeiramente não sabemos, pode tratar-se de uma falsificação, compreende, ou assim...
- Se é o nome da princesa Petra que aí está, todas as facturas serão pagas. Falsas ou não falsas, não interessa. Pode retirar-se.
Abalado, mas com visível alívio, o homem deixou-se empurrar.
Quando a porta se cerrou nas costas dos intrusos, a Aia dirigiu-se à sala onde Aka, de djilahba negra e o rosto coberto, a olhava inquieta.
- Compreendes o que fizeste, minha pequenina?
- Ó Aia! Os meus irmãos podem partir bordéis inteiros, gastar reinos em Monte Carlo e o meu pai não diz nada. Não podes fingir que nada disto aconteceu?
- Sabes que não, Aka. Se não mostrarmos que sou capaz de te disciplinar, não podemos ficar
em Paris. Queres voltar para casa?
- Não, Aia, voltar não.
- Sabes que vintes chicotadas é o mínimo que os teus tutores aceitarão?
- Ó Aia, com muita força não...
- Não, com muita força não. Mas quanto mais depressa, melhor. Levanta o vestido.
O segurança de serviço ao circuito video, rebobinou vezes sem conto as imagens do chicote e do rabito de Aka enquanto se masturbava.
-
Ou, por exemplo:
- O meu nome hoje é Liddell, Aia, - disse Aka assim que os intrusos saíram.
- Alice Liddell.
Bebeu um gole de um licor doirado e voltou a poisar o frasquinho de cristal em cima da consola, antes de começar a diminuir de tamanho.
- Acreditaste verdadeiramente que aceitaríamos seguranças do sexo masculino a vigiar os nossos quartos, minha tolinha?
Mas Aka, com poucos centímetros, já se tinha sumido no interir da gaveta aberta e não respondeu.
-
Ou ainda:
- Aka! - chamou a Aia - Já chega! Sai desse armário imediatamente!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VII)

As horas correram num ápice: Aka saltitou de boutique em boutique.
Ignorou as joalharias.
Quando sentiu fome sentou-se num banco alto do bar e comeu um gelado enjoativo, mas com umas óptimas bolachinhas espetadas.
Saiu sem pensar na conta.
Antiquários e porcelanas interessaram-na.
Parou a ver um relógio de mesa, com uma pastorinha em esmalte, de longo vestido e um pequenino fauno com uns pequeninos chifres e minúsculos pés de cabra e que giravam vagarosos num bailado solene, de mãos dadas, dentro de uma redoma.
Depois, demorou-se a contemplar as T-shirts Monica Hikikomori.
A assistente aproximou-se cautelosa, para tocar muito ao de leve o tecido do niqab, observar as escravas que Aka se esquecera de tirar dos braços: na profissão aprende-se muito cedo a não confundir os guardanapos com os esfregões.
- São modelos únicos, pintados à mão e assinados - esclareceu ela.
- Talvez me deixem usá-las - murmurou Aka. E em voz alta, porque lhe tinham dito que não devia ser açambarcadora: - Há problema se eu levar estas todas?

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (VI)

As oportunidades e as enxaquecas, às vezes, aparecem a quem delas precisa.
Aka não precisava da enxaqueca propriamente dita, mas achou oportuno que a Aia tivesse uma e preparou-se para o momento em que ela, completamente desesperada e cega de dor, tomasse o blister inteiro dos comprimidos e adormecesse no quarto completamente às escuras.
Então, pé ante pé, Aka ousou:
Tirou rápida o kain panjang com que disfarçava as calças compridas roubadas do vestiário do hotel, atirou-o para debaixo da própria cama e conseguiu sair sem bater a porta.
No corredor enrolou ao pescoço o lenço que lhe servia de niqab e procurou impaciente o elevador onde havia um espelho numa grande moldura doirada e onde poude ver uma rapariguita modestamente vestida, o cabelo depenteado, o rosto sem sombra de pintura.
- Mademoiselle deseja... - perguntou o ascensorista com uma pequenina vénia.
- Nunca. - respondeu Aka, sem desfitar o espelho. - Por razões religiosas, entre outras, percebe?
- Pardon? - disse o ascensorista, já sem vénia.
Aka reparou no tom da voz e corou. Corava com muita facilidade, nos últimos tempos.
- Descemos ao lobby - disse no tom áspero que aprendera com o Pai.
- Bien, Mademoiselle.
- É verdade que não devo desejar, - explicou Aka, já num tom mais gentil, enquanto desciam. - Mas nada me proíbe de ser voluntariosa. A vontade e o desejo são coisas diferentes, como sabe.
- Curioso. - comentou o ascensorista com o boné na mão direita, enquanto lhe abria a porta com a esquerda. - Nunca teria pensado nisso.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (V)

- Odeio o nicab. - protestou Aka.
- Porque é que não me deixam tirá-lo, ao menos no quarto?
- Porque o teu pai exigiu câmaras de vigilância em todo o hotel
- repondeu a aia cheia de paciência.
- E nunca se sabe quem te está a ver.
Aka mordiscou o lábio inferior.
- Espero que quem quer que lá esteja aprecie o striptease.
Vou tomar um duche.
Felizmente que ainda não é interdito.
- Não - concordou a Aia.
- Só fazes quinze anos no ano que vem.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (IV)

- As pregas do seu trajo
têm um cair muito sensual
- disse o cortejador.
Aka baixou os olhos e fez um meio sorriso, o que nela signifacava:
"Nem mereces que te mande abater pelo meu guarda-costas."
O cortejador achou que ela estava no papo.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Subsídios para o livro de Aka (III)

Havia gravuras ao longo das paredes dos longos corredores.
Algumas eram de Goya, Aka nunca descobriu se eram originais ou cópias de cópias.
Quando o Núncio fazia os seus discursos, copiados, esses sim, de cópias já antigas,
e todos concordavam que sim,
que cada vida humana era única, preciosa e irrepetível,
Aka lembrava-se dos mortos e das violações encaixilhadas,
dos pássaros de pesadelo,
dos fuzilamentos, dos canhões, dos corpos estilhaçados
em molduras doiradas e vidros anti-reflexo.
Pensava:
- Ninguém devia poder dizer que a vida é um dom precioso
antes de ter tentado vender preservativos furados em Covent Garden.
E recitava, de si para si:
- A pound dear father is the sum that clears the wicket.
Mas, claro, não dizia nada.
Não era suposto que uma virgem,
real ou suposta também,
soubesse das coisas que ela tinha para dizer.
O mundo, achava Aka, abusava dos supostos.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (II)


No Louvre, em frente da Vénus de Milo.
- Sou mais bonita. - pensou Aka.
E acrescentou com melancolia:
- Mas nela vê-se muito mais.

Subsídios para o Livro de Aka (I)


Aka, aliás, Aliás.
Ou outro nome, talvez.
Aka, como Deus, tem mais de mil nomes.
Aka viaja.
- O mundo é como que um espelho partido em muitos bocadinhos. - disse ela para a sua Aia. - Em cada um deles é a nós mesmas que vemos. Achas que eu podia dar a cada fragmento um dos meus nomes? Era como se fosse outra em cada lugar que visito.
A Aia não despegou os olhos do catálogo.
- A este sítio, que nome darias?
-Não sei. Paris, por exemplo. Que achas?
- Só se fosses ainda mais vaidosa do que és. - retorquiu a Aia secamente.
- Para que serve então ter tantos nomes?