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quinta-feira, novembro 08, 2012

quinta-feira, março 31, 2011

II centenário de Kleist


Pensar, reflectir

- o que lhe queiramos chamar quando,

partindo de imagens e esquemas,

perseguimos os conceitos -

é um hábito que tem tanto de absolutamente necessário

como de pernicioso.

(Eu, em dia não)

-

Transcrevo, com a vossa licença, de um caderno já muito antigo:


"Ouvido durante a conferência do [Professor Doutor] Carmo Ferreira no D. João de Castro:

1810 (1) - o sucídio de Kleist. Motivo: Não há verdades absolutas, só há verdades condicionadas à nossa intuição sensível.

A Metafísica como uma amante arisca para Kant.


A paixão move-nos para ela, não podemos viver sem a Metafísica e, no entanto, ela não nos gratifica, comporta-se como uma ingrata. A Metafísica é a ciência dos limites da Razão e, ao apaixonarmo-nos por ela, apaixonamo-nos pela fronteira do não-mais-além.


A Razão kanteana é, assim, sentimento.

Sente a carência de totalidade, capta a insuficiência, o interesse move-a, é a razão da razão que, no entanto, como uma outra traição, apenas se interessa por si própria. O interesse (ou a paixão, ou o sentimento) e, no entanto, o único acesso para o outro, para a alteridade. A razão reduz o outro a objecto submisso às condições a priori, ao espaço, ao tempo, às categorias, ao mundo, irremediavelmente aquilo fenoménico, númeno inatingível. O interesse, no entanto, instância última e fundamento, lugar do não-recuo, sentimento prático, leva-nos ao outro, indivíduo, identidade, gozo enquanto conhecimento e acção.

E a Metafísica? É a decepção, tripla decepção porque nada nos diz e nos reenvia à fé, porque a lei moral não é eficaz por si mesma e, enfim, porque o máximo que a Metafísica nos diz é que tudo se passa como se...

De onde a morte decepcionada de Kleist.

-

Que devemos então esperar?

A resposta é tautológica: devemos esperar a esperança, que é agir, arriscar.

A recompensa para isto é parca, respondeu Kleist. Para Kant, a recompensa, a plenitude, vem do Belo. E Belo, verdadeiramente Belo, é o rosto do outro quando age livremente."




(1) De facto em 1811. Erro meu, decerto, ao tomar os apontamentos.

sexta-feira, maio 22, 2009

sexta-feira, maio 15, 2009

Sem título

Mais saudades

quinta-feira, maio 14, 2009

Sem título

Hoje, excepcionalmente, decidi ter saudades de mim mesmo.

terça-feira, março 03, 2009

quarta-feira, agosto 20, 2008

Férias mais que tontas

Quando não se tem tempo para mais, abre-se a arca... e encontra-se esta singela homenagem à hoje tão esquecida Drª. Celeste Cardona.

quarta-feira, julho 02, 2008

Filinto Elísio, da velha França...

O Portugal, Caramba! decidiu criar o «Super-Tinto Blog Award» e, como a Caridade bem ordenada, por si próprio é começada, atribuiu-se logo a distinção a si mesmo.
Nada de egoísmos porém. Se alguém desejar a mesma distinção, faça o favor. É só copiá-la e pôr junto das que já lá tiver.
A iniciativa nem sequer é original, mas era cativante. Não que, como o Salgador da Pátria, donde picámos a ideia, não gostemos de uma cerveja bem fresca em dias de calor.
Mas, enfim, um vinhinho branco, muito seco e levemente refrescado, não é somente muito melhor: é infinitamente preferível.
E quando se chega aos tintos, que dizer?
Nada se não a música pode dar conta desse doce enebriamento.
Conhecem a velha canção de bêbados, o Filinto Elísio?
É assim:
Filinto Elísio/ da velha França/ enche-me a pança/ deste sabor!
Malditas tripas/ que não comportam/ trinta mil pipas/ deste licor!
Depois, os bebedores, à vez, emborcam o copo cheio e despejam-no goela abaixo. Todos os outros cantam:
Primeiro atirador, atira atira/ primeiro atirador, atira atira..., até que o copo seja completamente esvaziado.
O bebedor deve, então, virar o copo para baixo e mostrar que não sobrou nem uma gota. A malta entusiasmada canta:
Mas que belo compinchão/ que bem comporta o seu quinhão!
Claro, se cair uma só gota que seja, canta-se:
Mas que mau compinchão/ que não comporta o seu quinhão!
E o mal-jeitoso deve abandonar de imediato o círculo dos bebedores.
Segue-se o bebedor seguinte e o outro, e o outro:
Segundo atirador, atira atira... Terceiro atirador... Quarto atirador...
A ideia é que, a pouco e pouco, os bons bebedores comecem a ficar um tanto entornados e comecem a não ser capazes de beber o seu copo até ao fim sem entornar uma gota sequer.
O último a cair para o lado é o glorioso vencedor e a boa moral que se lixe. A gente atura-o enquanto ele vomita, ouve-lhe os despautérios e as dores da alma, acarta com ele para casa... e pronto. Amanhã o melhor será outro. E depois de amanhã, se calhar, ainda outro.
«Super-Tinto blog award»

quarta-feira, abril 30, 2008

Quem sai aos seus, voa baixinho.


Há já muitos anos, aí por 75, talvez, lembro-me de um jovem a quem se não chamava então «gestor», a berrar indignado! Chamava-se Pedro Costa, ou Sousa ou Alves, uma coisa assim.

Era licenciado numas Letras quaisquer, argumentava sempre com um esquema diante dos olhos e achava que, acima de tudo, tinha de se ser coerente.

Nós nem por isso: verdade era dialética, as contradições faziam parte do processo revolucionário e a vanguarda da classe operária é que era, nós, mais ou menos intelectuais só podíamos estar a seu lado. E passávamos horas à roda da mesa, como dantes soía, reuniões atrás de reuniões, a decidir da linha justa. Estávamos, como se dizia então, «a serrar presunto». O Pedro Alves, porém, que era maçarico naquelas coisas, achava que estávamos era a perder tempo. A bem dizer, a gente suspeitava de que ele se tinha apaixonado por uma senhora casada - as paixões revolucionárias foram mato, naquelas eras, quem não se separou nem participou em dúbios encontros que atire a primeira pedra - e queria aproveitar aquele bocadinho antes de ela ir ter com o marido.
Apesar disso, muitas vezes fomos dar com ele a trabalhar até altas horas no gabinete, com planos e reestuturações que eram chumbados liminarmente porque os sectores implicados tinham sempre coisas muito mais importantes em que pensar.
- Mas o quê, caramba, mas o quê? - indignava-se.
Não obtinha resposta... ou sim: relambórios revolucionários, cheios de palavreado redondo, parágrafos tirados do Lenine ou do Enghels.
- Tás a ver? - acalmava-o eu. - É um período revolucionário, pá, só acontece uma vez na vida.
- Mas qual revolução, pá? - gritava ele. - Se não há trabalho revolucionário, como é que há revolução?
Nós encolhíamos os ombros. Algum mais exaltado respondia que tudo isso eram conceitos burgueses, contra-revolucionários. Tarefismo. E por aí fora. O jovem gestor não tardou a ser suspenso, transferido, reduzido á sua insignificância; um dia, o Pedro chateou-se e declarou-nos que se ia embora.
- A gota de água, pá. - explicou-nos ele. - Atingi o meu limite. Não aturo mais aquele gajo. Ou sai o Director ou saio eu.
Tinhamos ido almoçar em grupo, ali adiante da Escola Politécnica que ainda não tinha ardido, e estávamos já nas bagaceiras. Eu tinha acendido o cachimbo com um tabaco pestilencial - era para o que dava o vencimento - e enchia a atafulhada sala com as largas baforadas de espesso nevoeiro, mas nessa altura ainda não era pecado.
- Qual Director? Ele há quatro! - perguntei eu
- Três. O outro é o presidente. - precisou o Leonel.
E o nosso camarada alumiou o nome ao santo.
A empresa em que trabalhávamos tinha sido considerada estratégica, tanto antes como depois de Abril, e estava cheia de «fascistas». Por isso achou-se bem que fosse intervencionada: os militares sucediam-se nos diferente pelouros e o Director em causa qualificara-se para o cargo pelo facto de ser Capitão, piloto aviador da Força Aérea, provável ex-bombardeador de tabancas indefesas.

A proposta que o Pedro Lemos, gestor gestor recém-eleito e, já agora, o engenheiro Lousa, responsável por um importante sector técnico da empresa, tentavam que fosse discutida dizia respeito à concentração dos múltiplos edifícios pelos quais se espalhava a actividade da empresa. O produto principal dividia-se por três edifícios, tão distantes uns dos outros que exigiam um corropio de viaturas para se manterem em contacto. A manutenção dos equipamentos, essa podia requerer, no mínimo, umas cinco oficinas, cada uma instalada num inferninho à parte. A empresa fôra, ao longo das décadas, adquirindo edifício atrás de edifício, aluga daqui, compra dali, para instalar tão importantes necessidades.

O património imobiliário era impressionante. Das complexidades correlativas nem se fala: diga-se apenas que um carrossel de carrinhas 4L girava incessante, por vezes com um só papel, mas acompanhado do respectivo protocolo - um caderno de capa preta que tinha de ser preenchido à mão - que devia ser assinado pelo contínuo do serviço destinatário antes de a carrinha, vazia agora, percorrer de volta o caminho para mais um molho de folhas.

Fazer um grande edifício que concentrasse tudo isto parecia ao jovem camarada, bem como ao camarada engenheiro responsável pelo produto, uma medida razoável. O financiamento estava á vista: bastava alienar dois ou três dos edifícios para garantir a viabilidade da nova sede.

- Vamos lá a voar baixinho, disse peremptório, o Sr. Capitão piloto aviador, pondo ordem na reunião de planeamento.

- A voar baixinho, estão a ver? Como é que os gajos querem que se faça alguma coisa? - e repetiu: - Se ninguém faz trabalho nenhum, como é que querem fazer a revolução?

- Tens a certeza de que alguém quer? - provoquei eu a escarafunchar no cachimbo que se tinha entupido. - Olha que eu não sei se acredite...

- E então, vais-te embora só por isso? - perguntou o Leonel.

- Só por isso? Achas que não chega? Um parvalhão que não sabe ler nem escrever, um analfabeto de pai e mãe, a mandar a malta voar baixinho? Se não tem envergadura para dirigir uma empresa deste tamanho, andor. Não vai ele, vou eu. Tenho mais que fazer, pá. Vou trabalhar para a Nanterre, que há lá muitos livros.

- Pá - intervim eu a pôr água na fervura. - Que é que tu queres? O gajo o que aprendeu lá na tropa foi a voar assim. E sabes porquê? Com aquelas latas velhas dos Fiates e dos T-3 e os helicópteros da Grande Guerra, eles têm é medo de ir mais alto. O programa revolucionário dos gajos tem de ser a mesma coisa, pá, é rasteirinho, pronto.

A resposta do Pedro Costa não foi lá muito bem educada e questão ficou por ali, que remédio. Ele partiu, escreveu uma meia dúzia de cartas aos amigos, publicou um par de livros, ainda me mandou um e o outro encontrei-o, por acaso, numa livraria em Montmartre, quando por lá andava com uma amiga, em turismo romântico.

- Olha, olha! - exclamei eu deliciado.

A Voilá veio espreitar, leu o título que falava da enteléquia e quis saber a razão dos meus entusiasmos.

Contei-lhe, por alto, com o fim da história, de que entretanto me inteirara.

Vinte e cinco anos depois da partida do Pedro (Lemos Costa, como estava na capa do livro), mais mês, menos mês, mais ano, menos ano, com alguns (bastantes, para não dizer muitíssimos) milhões de contos de prejuízos acumulados, a empresa contratou finalmente um gestor a sério: não importa a sua filiação partidária. Não parece que tenha saneado as contas, mas o que fez logo, além de despedir meia dúzia de pessoas mais ou menos incómodas, claro, e contratar meio cento de outras, foi vender os imóveis inúteis e concentrar os serviços.

Não soube dizer à Voilá, nem provavelmente o saberão, quer o Engenheiro responsável, quer o outrora jovem Pedro Costa, que luvas terá havido nessas transacções ou até, quem sabe, se não terá havido nenhumas. O que é certo é que, durante vinte e tal anos, a contar por baixo, se andou a voar muito baixinho.

Éramos assim antes do célebre dia 25. Mas como do nada, nada sai, assim continuámos a ser.
Quem quis ser diferente, emigrou. Nós, em matéria de voos, queremos e havemos de continuar a ser assim rasteirinhos, rasteirinhos...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Tribunal de Família


Pão compota,
Pão com palha,
Pão com pulha.
Etc.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

José Pacheco Pereira

Num antiquíssimo bloco Castelo (talvez de 1990) achei este desenho com um a piada já bastante desactualizada. Não me lembrava sequer de a ter feito, mas tenho de pedir desculpa ao Pacheco Pereira. Resistiu. Votou contra o seu próprio partido pelo menos uma vez, por causa de despenalização do aborto.
Mesmo tendo alguma simpatia pelo Pedro Santana Lopes - talvez por ser um tanto bardino, sei lá - pergunto-me: porque raio o PSD nunca elegeu este tipo para seu lider?
Mistério. Segredos das camarilhas?
Para mim, que sou de esquerda, quero que se lixe.
Mas é intrigante, não é?

sexta-feira, novembro 16, 2007

DÉJEUNER DU MATIN, Jaques Prévert



Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cirarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s’est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu’il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j’ai pris
Ma tête dans ma main
Et j’ai pleuré.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Para que servem as toalhas de papel nos restaurantes?

Para as mais variadas coisas, claro. A principal é fazer rabiscos, distraídamente, enquanto se saboreia a aguardentezinha, o charuto e um pedaço de boa prosa.

Não sei se no tempo em que o Stuart andava pelas tabernas a desenhar varinas com um pau de fósforo queimado, já os taberneiros as estendiam sobre o mármore das mesas. O que sei é que, se as houvesse e em vez do ordinário papel reciclado, se usassem folhas de 300 gramas, grão fino e 100% algodão, nem vos conto o salto que as artes teriam dado em Portugal. E que centros artísticos se teriam formado na Espelunca, ao lado do Liceu Camões ou mesmo na Suprema e no Vává, alí à Estados Unidos. Ou mesmo um pouco por todo o lado.
Em calhando, digo eu.

terça-feira, agosto 28, 2007

Concha y Toro, 1981

Confesso aqui a minha mais profunda admiração pelos arqueólogos e sobretudo, pelos técnicos do laboratório que, a partir dos caquinhos quase invisíveis, conseguem reconstituir um vasinho romano completo ou o crânio de um Neandertal. É que eu nem um simples papel molhado consigo.

Mas convém explicar.

Antigamente os rótulos das garrafas descolavam-se facilmente. Punha-se a garrafa dentro de água e passada uma horinha iam-se encontrar flutuando descansadamente, os retângulos impressos e a garrafa, já despida dos seus pergaminhos, podia-se vender ao trapeiro que vinha gritar:

- Há jornai-zó-garrafach... queira-vender!

Ontem, porque queria aqui mostrar uma garrafa em especial e, como não me imaginava a passá-la pelo scanner (e afinal, teve de ser) experimentei descolar o rótulo. Bom, descobri que, se a cola não era solúvel na água, o papel do rótulo, esse era. Os pedacinhos mais minúsculos separavam-se, cheios de boa vontade, da cola subjacente, abandonando os seus irmãos sem quaisquer remorsos.

Tudo o que se aproveitou, paciente e desajeitadamente colado, foi a gravata vermelha e o colarinho.

A garrafa, claro, tinha história.

Um amigo, lá pelos anos oitenta e poucos, numa de «eu estou cá para ver tudo», viajou até à América do Sul e dessas turísticas andanças trouxe-me, generosa lembrança, uma garrafa de vinho tinto chileno, Concha y Toro, Casillero del Diablo de 81.

De esquerda como somos ambos desde que nos entendemos tant bien que mal neste mundo, logo ali combinámos que eu guardaria preciosamente o precioso líquido para o bebermos quando o Pinochas - vulgo, o ditador Augusto Pinochet, é escusado dizer - fosse derrubado com o estrondo devido e labéu de malfeitor.

O mal é que os anos foram passando. O torcionário, obrigado pelos amaricanos que não aguentavam já tanta má-consciência, deixou-se afastar com garantias de impunidades e de contas bancárias bem recheadas.

Não foi derrubado, como o muro de Berlim, não caiu com estrondo; deu um passo ao lado e recolheu-se a uma privacidade vigilante. Não achámos que houvesse motivos para celebrações. A garrafa do Casillero del Diablo lá ficou pacientemente, deitadinha em repouso. Mudou de casa, ao sabor de divórcios e separações, duas vezes.

Os ex-ditadores não confiam nos médicos dos seus países, et pour cause. Sabe-se lá quando é que, num hospital ou numa clínica, o enfermeiro de serviço ou a chefe da equipe médica, têm um pai ou uma mãe, torturados e mortos, para vingar!

O general Pinochas, sentindo-se envelhecer e já com alguma maleita, resolveu ir para Inglaterra tratar-se. A impunidade precedia-o na Loira Albion e tudo se teria passado pelo melhor se, entre os torturados, mortos e desaparecidos não houvesse uns quantos cidadãos espanhóis, pretexto suficiente para que a justiça de Espanha pedisse a sua extradição.

Rejubilámos e pensámos: «G'anda Baltazar, desta vez é que é!»

Eu fui espreitar a garrafa. O vinho mantinha a cor e o aspecto límpido, não parecia ter pé. Agendámos as comemorações.

Hélas! O Governo de Sua Majestade a Raínha Isabel II, por motivos humanitários, imagine-se, não concedeu a extradição e deixou-o voltar para casa à conta de que, pobre velhinho, já tão doentinho, agora já não seria justiça, apenas vingança!

Devíamos ter bebido o vinho nessa altura. Não se deve querer mais do que este baixo mundo tem para dar. O velho tinha sido tratado como devia, como um criminoso. Safara-se graças a um pretexto reles. Devíamos estar contentes, mas não estávamos. Lembravamo-nos de um Presidente, morto no exercício das suas funções. Tinhamos lido o livro da Isabel Allende, De amor e de sombra, os relatórios da Amnistia Internacional.

Mesmo reduzido a criminoso perseguido pela justiça, queríamos só mais um pouco: que fosse mesmo julgado. Que reconhecesse em tribunal umas culpazitas e que, em seu nome, um advogado pedisse misericórdia ao povo chileno na figura do seu Tribunal. A pena que lhe fosse aplicada nem era importante: para um velho como ele seria sempre simbólica. Mas nós, que ainda sonhamos com a Justiça, com maiúscula, acharíamos bem. Um euro de indemnização aos familiares dos desaparecidos, uns anos de prisão domiciliária... tanto fazia.

E a garrafa do tinto chileno continuou, imperturbável na sua pose de Grande Senhora, à espera do dia adequado.

Mas a esperança renascia. O Pinochas, no seu próprio país, com a imunidade levantada ou coisa assim, era acusado, ia ser réu de coisas passadas durante a ditadura.

Agora é que vai ser, pensámos nós.

Qual o quê. Paulatinamente, confortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja, o estafermo passou-se. Que terá ele dito ao seu confessor antes de receber a extrema-unção? Já não importa. Escapou, o crime compensa, pelo menos se for apoiado pelos camonas.

Há dias, sem grande entusiasmo, abrimos a celebrativa garrafa de Concha y Toro, tinto de 1981. Como o Pinochas, também ela tinha morrido: deu para provar, fazer uma saúde silenciosa, mas pusemo-la de parte. Esperara demasiado.

- Filho d'uma vaca d'um... - comentou o meu amigo poisando o copo. - Nem a porcaria de um vinho nos deixou beber!


terça-feira, agosto 07, 2007

Mariazinha em África

Fernanda de Castro, Mariazinha em Africa, seguido de Novas Aventuras de Mariazinha, Círculo de Leitores, 2007

Nunca tinha lido nenhuma das Mariazinhas, mas, lá por casa, contavam-se episódios, sobretudo os do cozinheiro Vicente, guineense que, no fim do livro, obtém licença para acompanhar a família de volta a Portugal.
A cena que melhor recordava, de todas as que me terão sido contadas, fui achá-la na sequela já europeia das aventuras da Mariazinha:
A Mãe - referida sempre como «a mãe» - resolveu ir a Lisboa às compras e levar a Mariazinha e o Vicente, 'este último', explica a autora, 'para as ajudar a carregar com os embrulhos.'
Mas quando voltam para casa - moravam numa quinta na outra banda e nos anos vinte do século passado não havia ainda ponte sobre o Tejo - não trazem o Vicente.
'- Fizemos bastantes compras', explica a «mãe», 'e como já estávamos muito carregadas, entreguei os embrulhos ao Vicente e disse-lhe que esperasse no elevador de Santa Justa. Não sei o que aconteceu, mas esperámos quase duas horas e a respeito de Vicente, nada!'
Mais duas horas se passam e o Vicente lá aparece, 'extenuado, com os embrulhos feitos num figo, descalso, de botas na mão, nem quase podia falar!'
O que tinha acontecido? O Vicente esperou no elevador, como lhe tinham ordenado, e ninguém o veio buscar:
'Inlivador pra baixo, inlivador pra cima, mim dentro inlivador, branco ladrão tirar dois tostões pra baixo, dois tostões pra cima, mim gastar tostão todo, mim ter fome, mim doer pé, mim ser coitado, mim querer ir Guiné!' (Novas aventuras, pags. 173 e 181)
Mas o que mais me espanta nestas historinhas para crianças é a ingénua tranquilidade com que se narra o impensável:
Devido, provavelmente a um aterro feito 'por detrás da Alfândega' uma epidemia misteriosa assola Bolama, então o principal porto e a capital da Guiné. Ataca de preferência os brancos, que inconveniência, o que não impede 'Mamadi, o pretinho Mamadi,' de estar quinze dias 'entre a vida e a morte'.
'- É um pavor! - dissera o médico. - Só chega um barco por mês e não há recursos, não há enfermarias, não há camas bastantes! E o pior... - acrescentara - o pior, meu caro amigo, é que o quinino está a acabar!
(...) 'O pai de Mariazinha, que era um homem previdente, logo que começaram a aparecer os primeiros casos do estranho mal, telegrafou imediatamente para Lisboa a fim de marcar lugares no primeiro barco que passasse por Bolama com rumo a Portugal. E, como já tinha direito a licença, fácilmente conseguiu autorização do ministério para acompanhar a mulher e os filhos.' (Mariazinha, pags. 90 e 91)
E Fernanda de Castro dedica as restantes páginas do capítulo a descrever a debandada dos valorosos colonos, na esteira das Autoridades como o Pai da Mariazinha que era o comandante do porto, ou o Governador, que se apressa a mandar também a filha embora.
Não creio que seja preciso dizer muito mais.
Só que me foi muito simpático encontrar estas historinhas que fizeram, em tempos muito idos, os encantos da ainda menina, senhora minha Mãe.

sábado, agosto 04, 2007

Tolices e amarguras

Arrumar livros é um dos maiores prazeres que Deus Nosso Senhor inventou.
Abre-se uma mala, daquelas de madeira, com os cantos reforçados a lata e ripas ao comprimento, e fica-se sentado no chão, a reler os livros da nossa infância; perdemo-nos nas velhas colecções Branca da Clássica Editora, ou na "Civilização" (séries Amarela ou Azul) das nossas avós. Descobrimos autores com que nem sonhávamos.
Por exemplo, Octávio Sérgio, que escreveu este livro e lhe desenhou a capa:


E lê-se:

"...Depois as nossas bocas colavam-se num grande beijo, e eu, nervos lassos, adormecia no aconchêgo deliciosamente môrno dos braços da minha amante, de bem com Deus e com os homens (...)!

Decorriam venturosos êsses dias de Setembro de 1928, que agora, volvidos dois lustros, vou rememorando na amargura da saüdade.

A tolice expia-se confessando-a e relembrando-a, dizia Camilo, que entendia de tolices e amarguras. Eu, sempre que posso, trago estas recordações a molde, porque sinto depois a consciência mais leveira.

A Santa Madre Igreja, instituindo a confissão, sabia bem que de um malandrim raro se faz um santo, mas entendeu que o pecador, emquanto se alivia, não comete outro pecado além do gôzo que sente em relembrar os que já lá vão.
Nisto não diferem os novelistas dos católicos praticantes.
Eu trago, sempre que posso, estas recordações à balha, porque assim torno a viver um pouco. Nenhuma espécie de arrependimento me move à confissão. Peco quando recordo, porque sinto ainda na epiderme o contacto môrno dos lábios de Milu.
Os pecados lembram muito mais do que as virtudes. Por isso é que a Igreja manda confessar os pecados e não as virtudes."
Octávio Sérgio, A Quimera, pags. 77 e 78, 1938