Mostrar mensagens com a etiqueta Beatriz Lamas de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Beatriz Lamas de Oliveira. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, agosto 08, 2011

Domínio público, Mil e uma noites frágeis e O homem do turbante verde

-
1.
Quem visse assim, sem mais, o título deste post, havia de achar que se tratava do início de um conto do Jarry, ou, no mínimo, de um apontamento deixado por um desses poetas que dantes publicavam nas páginas literárias.
Mas não: são os títulos dos três livros que mais recentemente por aqui andaram, curiosamente, a velocidades muito desiguais.
Explicando: 
Como toda a gente já reparou, as pessoas que lêem, não importa se são amantes de música pimba ou se reviram os olhos a ouvir Kodály, lêem de maneiras diferente.
Umas são grandes leitoras, levam um livro de duzentas e vinte páginas debaixo do braço quando vão para o emprego de manhã. À hora do almoço já se passeiam meditativamente pela Bertrand ou pela Fnac, petisca aqui, petisca ali, e, ao fim do dia, durante a viagem de combóio para Mem Martins, devorado o último capítulo, só lhes resta espreitar o jornal do vizinho.
Há também os que preferem as leituras saboreadas, reflectidas. O Stig Larsen, nos seus três tomos volumosos, dá-lhes para um ano e meio e ainda sobra; um Gonçalo Tavares, para um semestre.
Outros ainda, arrastam o livro pela mesa de cabeceira, levam-no para o restaurante e para as esplanadas em fim de tarde; acabam por o perder sem a vista lhes ter alcançado mais do que alguns parágrafos.
Esquecê-lo no Metro, foi uma bem-vinda arrelia, um inconfessado alívio.
Nós aqui no Portugal, Caramba! acumulamos esses três modos de ler e ainda lhes juntamos mais alguns que agora não nos ocorrem. Ou sim: os livros da má consciência, já ouviram falar?
Compramo-los, às vezes só por dever, mas arrastam-se por aí; passamos por eles da cozinha para a sala de estar e fazemos vista grossa não vá ele gritar-nos «então? fale à gente e guarde o seu dinheiro!»
2. 
O Domínio Público, do Paulo Castilho (LeYa, D. Quixote, 2011), foi um exemplo do primeiro caso.
Note-se que se trata de um dos nossos autores favoritos, portanto, é um daqueles que nos fazem precipitar-nos para a livraria mal nos damos conta de que um novo livro saiu do prelo. Infelizmente não é muito célere a informação: já o Domínio Público andava pelos escaparates desde Junho e eu só no fim de Julho me dei conta disso. A Leya não deve ter investido muito na exposição do livro porque, mesmo à procura dele, não foi fácil encontrá-lo, escondido como estava entre os que o tempo já obscureceu.
Enfim: tardou, mas arrecadou!
Domínio Público, como todos os livros de Paulo Castilho, lê-se de um trago.
Primeiro porque voltamos a encontrar a Rita e o Filipe, gente que conhecemos novinhos em Por outras palavras. Tínhamos já reencontrado o Filipe em Letra e Música,  agora vêmo-lo novamente reunido com a Rita.
Paulo Castilho, ele que nos perdoe, tem em comum com a Enid Blyton uma tendência para a série: Novas aventuras de Rita e Filipe, Rita e Filipe partem para outra, etc., seriam títulos bem-vindos a seguir ao Domínio Público se os editores fossem todos como o Honorato - outra das personagens reincidentes de Paulo Castilho. 
O Honorato é o sarcástico - e cínico q. b. - editor do Filipe com quem, de longe, vai dialogando, regra geral por mail. Nunca, que nos lembremos, aparece nas histórias, senão por interposta correspondência, toda no estilo "gosto muito de intelectuais obscuros. Alguns dos meus amigos são intelectuais obscuros. Mas o problema dos intelectuais obscuros é que só outros intelectuais obscuros fingem que os lêem." (Letra e música, p. 22)
Também a Rita é reincidente, mas quem sabe se não está ali para representar um tipo quando a própria aceita definir-se pelas palavras do seu ex-namorado Filipe?
"... Só quero o teu bem," diz ela, "portanto, conselho gratuito da Rita, arranja uma menina boazinha, é mais o teu género. Eu não estou disponível e, além disso, achas que sou difícil e imprevisível e cansativa e não se pode contar comigo - como tiveste em tempos a amabilidade de me explicar, mas felizmente nunca me chateio." (Domínio Público, pp. 66, 67)
A personagem aparecia-nos já esboçada na Patrícia de Sinais exteriores, por exemplo, e desdobra-se neste Domínio Público. A Sofia e a Filomena ["Na minha sala vive-se e portanto estão lá os objectos com que eu vivo. Não estão desarrumados. Estão a viver comigo." (D.P. p. 81)]  são variações de um mesmo espírito improvisador e desarrumado, que, aliás, partilham com muitas das personagens masculinas, como se, para Paulo Castilho, Portugal fosse esta desarrumação indolente em que um ou outro rasgo acaba às vezes por emergir, para nos salvar da banalidade.
Enquanto esse rasgo vem e não vem, a família da Sofia, da Filomena e do Tiago - que namora a nossa conhecida Rita - projecta uma Fundação que perpetue a memória e o legado do avô Póvoa - mas com o dinheiro que ele tinha herdado do sogro e depois do cunhado. Infelizmente, tudo irá soçobrar em mais improvisações: habituada a gastar até à delapidação do património, com o àvontade de quem não depende do seu próprio trabalho, a Família Póvoa (também dita Alves) recorre a um corretor da Wall Steet e a investimentos ilegais para ir mantendo o rendimento anterior. Acaba, azares da vida, por cair nas malhas da justiça americana: computadores apreendidos, acções confiscadas, multas.
O resultado está à vista: verdadeira imagem do nosso país, a supérflua Fundação é a primeira coisa a desaparecer no urgente downsizing da família.
A Rita e o Filipe perdem o emprego e, num final digno da corrida no Aterro, dos Maias, decidem que vão emigrar para a Irlanda, para a Bélgica; entram numa pastelaria; ela come uma brisa, ele um pastel de nata.  
"Isto é que me reconcilia com a vida", remata a Rita.
E sim, se o Domínio Público não nos reconcilia com a vida, pelo menos faz-nos sorrir à custa dela.
Se estivessemos em Inglaterra, havia a possibilidade de uma BBC agarrar nesta novela e fazer uma série, quatro episódios de quarenta e cinco minutos cada, já imaginaram? Com actores escolhidos a dedo, cenários de encanto e o argumento devidamente trabalhado para não se saber ao certo, até ao último momento, quem era o responsável pelo descalabro económico da Fundação.
Talvez os maus fossem castigados para se salvar a moral, mas isso, está bem de ver, só acontece na televisão. Não propriamente na realidade e ainda menos nos romances de Paulo Castilho.  
3.
Outro livro dos que queríamos falar custou-nos a ler, mas não pensem que a culpa foi nossa; nem, diga-se desde já, da novela Mil e uma noites frágeis de Beatrriz Lamas de Oliveira (LuLu, 2010).
Mas acontece que nem tudo dá jeito a toda a gente.
O telemóvel sim, normalmente, mas se quisermos andar por aí no mais severo anonimato, o melhor é deixá-lo em casa, desligado e escondido com o cartão de crédito, na mais funda das gavetas, debaixo das camisolas de inverno. As portagens na auto-estrada também se pagam com umas moedinhas - foi para isso que o dinheiro foi inventado, muito antes da Via Verde, lembram-se? E telefonar, só das cabines públicas. 
A nós, no entanto, o que mais nos encanita nesta coisa das tecnologias novas são os livros.
Habituámo-nos, defeitos de educação, a ler na cama, nem que seja umas linhas, antes de nos rendermos ao sono.
Sabemos que faz mal à vista, que incomoda as nossas companheiras, não só porque mantemos a luz acesa quando elas querem dormir, mas até porque, sem dar por isso, adormecemos, o calhamaço desprende-se-nos das mãos e tomba fragorosamente! Acordam elas com a disposição que se imagina, o pobre cão que dormia pacificamente no tapete apanha com a lombada em cima e desperta ele também com um salto e um ganido: cena completa!
Quando o livro nos chega pela net, em formato PDF, então os problemas tornam-se graves. Para o ler tem de se ficar sentado aqui a esta secretária, com o ecrã na frente, a tecla do PgDn em vez do tranquilo molhar com cuspo o indicador e voltar a página. Nem pensar em levar o portátil para o quarto. Já imaginaram o estrondo que o pobre aparelho fazia se nos caísse das mãos? E em que estado ficaria o pobre cachorro, que olhar de espanto e censura não nos deitaria?
Havia outros recursos, claro. 
Uma tablet, por exemplo. Ou a impressora.
Mas a tablet pesa pelo menos meio quilo e não se recomenda deixá-la cair muitas vezes.
Imprimir as cento e quarenta e três páginas da novela da Beatriz Lamas de Oliveira, isso sim, era uma alternativa, mesmo se o formato A4 não é nada cómodo e também obriga a um peso nada despiciendo.
Aqui há tempos quisemos ler a tese de mestrado de uma amiga e, catástrofe: pesava um quilo e tresentos, as páginas desataram a soltar-se umas das outras, pareciam loucas a enfiar-se para baixo dos móveis. 
- Que Diabo? - praguejámos. - Porque não hão-de os editores exercer as funções a que Deus os destinou e não imprimem eles  próprios - por interposto tipógrafo, está bem de ver - aquelas coisas que nós gostamos de ler?
4.
Mas, adiante!
Temos estado a ler, em PDF, é certo, o livro de Beatriz Lemas de Oliveira que já referimos, Mil e uma noites frágeis, e por mais de uma vez tivemos de interromper a leitura, desligar o computador, com grave prejuízo das nossas pequenas manias: sublinhar, voltar atrás, rabiscar um comentário nas margens, levá-lo connosco para o consultório do dentista, ler umas linhas enquanto se espera que abra a passagem de nível ou mude o sinal vermelho. 
Da autora, já tínhamos lido O Insecto Imperfeito, publicado em 1999 pela a Gradiva, editora que desperdiçou a oportunidade de publicar também esta segunda novela.
Insecto Imperfeito retratava-nos a relação entre uma mulher jovem, da classe média-superior e um «estranjeiro», "amputado de ressonância interna, curto-circuitado entre o desejar e acto imediato de cumprir o desejo na pele, na boca, nas mãos, no sexo, quase sempre hirto." (p. 19) O estranjeiro, cuja única habilidade parece ser um desporto radical - a pentacolada - cola-se económica e sentimentalmente à sua nova conquista e permite-se chamar "estupidezes" às tarefas domésticas (e não só) que tornam possível o viver comum.
Não é um livro ameno, mesmo se a dor da protagonista quase se não deixa surpreender.
Em Mil e uma noites frágeis, pelo contrário, é ela o tema dominante, primeiro como tristeza, luto por um amor trágico, só depois como aceitação de si própria, abertura para a possibilidade de um renovado êxtase.
Na narrativa, misturam-se, aparentemente ao acaso, o percurso interior da narradora, Teresa de seu nome, com os episódios de uma excursão à Tunísia em que ela se inscreveu como quem compra um parentesis no tempo.
Viaja tão anónima quanto possível, escondendo a sua identidade de médica psiquiatra e fazendo-se passar por uma menos comprometedora assistente de consultório: evita estabelecer laços com os companheiros de viagem, absorve-se na leitura de si mesma, do diário que escreveu em tempos de crise emocional.
As rotinas destas excursões, as pausas para o espanto ou para a gula, os momentos livres que se abrem ao convívio e aos namoricos mais ou menos inconsequentes, os longos percursos entre cidades e monumentos, horas em autocarros com ar condicionado, tudo isso permite um recolher-se a si mesmo, uma fuga ao seu eu habitual, à sua história, num sentido muito amplo, ao seu currículo. 
Também a alienígena narradora de  O insecto imperfeito recorria a um inner-space, "uma vastidão de silêncio onde nos podemos recolher sempre que o espaço exterior seja sentido como desagradável ou opressivo." (O Insecto..., p. 6)
De modo semelhante, Teresa descreve-se como recolhida nesse inner-space, mas numa longa espera: 
"Eu, é um pouco como se estivesse há muito, muito tempo, com a mala tão cheia e pesada, uma mala cheia de perplexidade, procurando a estação, a estação do ano, da camioneta, do metro, do combóio, do navio, onde há-de estar escrito o lugar do meu destino." (Mil e uma noites frágeis, p. 81)
Esta espera, este longo arrastar de perplexidades é, primeiramente, a zona de refúgio, de recusa, como era o inner-space para a alienígena de O Insecto:
"Vi-lhe o brilho de triunfo no olhar quando [...] o deixei avançar para os botões da minha blusa.
Fechei os olhos e comecei a recuar para o meu silencioso inner-space. Lá fora, Uriel, triunfante, exercia uma imaginária, mas milenar, exibição de poder masculino." (O Insecto..., p. 36)
Mas esse refúgio, que pode ser apenas o banco da retaguarda de um autocarro onde se vai fumar um transgressor cigarro,  é também a zona da espera e do acolhimento.
"Enamoro-me" escrevera Teresao, a narradora  de As mil e uma noites, no seu diário, "quando no outro pressinto (ou imagino?) a igualdade no uso de sinais e de símbolos que permitem o acesso ao meu mundo interno."
E conclui:
"Entrego-me num desejo de absoluto e de fusão. A fragilidade da entrega reside na lucidez de a saber impossível." (Mil e uma noites..., pp. 82, 83)
Mas, como a novela irá mostrar, ao menos por momentos, a fusão acontece.
5. 
Em vez de lermos os livro de fio a pavio, como nos aconteceu com Guerra e Paz ou com  A Montanha mágica, agora pegamos e largamos meia dúzia deles ao mesmo tempo: sacrifica-se a Anna Arendt ao Irmão Cadfael, e este abandona-se a favor do Afonso Cruz - de quem, um destes dias, em Deus querendo, se há-de falar neste blog.
São os sinais do tempo, da velhice que já vai espreitando ou, se calhar, apenas da fartura: quando o dinheirinho, o vil metal era ainda mais escasso nos nossos jovens bolsos, comprava-se com sacrifício um volumezito da Coleção Miniatura ou da Argonauta, e quinze tostões de uma bica e três e quinhentos de um maço de Porto davam para uma tarde inteira, as aulas que se lixassem.
O livro acabava-se enquanto o diabo esfrega um olho e, no resto do mês, se um amigo não tivesse a generosidade de nos emprestar a Ana Karenina ou A Mãe do Gorki, só restava reler o que lá por casa houvesse.
A ilha do tesouro, por exemplo, pela quarta ou pela vigésima vez.
Agora vai-se ao supermercado e, à mistura com a alface e os camarões congelados, compra-se um Joseph Ratzinger ou um Miguel Sousa Tavares, assim reduzidos à dimensão das hortaliças.
Não foi o caso do Mário de Carvalho, mas quase.
Não demos por este O homem do turbante verde (Caminho, 2011) senão quando, ainda a digerir A arte de morrer longe (Caminho, 2010), deparámos com ele num centro comercial.
Lemos os dois primeiros contos, «O homem do turbante verde» e «Na terra dos Makalueles» e, francamente, o entusiasmo não foi grande. Admitimos perfeitamente que o Mário de Carvalho se divertiu a escrevê-los. Os mais sagrados deveres de um escritor, cremos, são para consigo mesmo e divertir-se, em calhando não é o menor.
Mas só com «A rua dos Remolares» ou «A secção de campo», para começar, nos sentimos a aderir - mesmo se com um travozinho a castigar-nos o riso.
E, entre o divertimento de «O celacanto» e o tal travo amargo de «A longa marcha», a decisão impôs-se: O homem do turbante verde é um livro para andar por aí, por cima das mesas, para pegar e ler umas páginas sempre que os discursos ministeriais ou o último Dan Brown nos agoniarem um pouco para além do costume.
6.
E pronto: ata est.
Nunca um post foi tão comprido neste blog. Safa!

segunda-feira, abril 14, 2008

O Insecto Imperfeito, de Beatriz Lamas de Oliveira

Quem tem farelos?






um



Julguei durante longo tempo ter sido a única pessoa neste mundo a dar-se conta d'O insecto imperfeito.
Não era um livro particularmente chamativo. Tinha uma capa alaranjada, um desenho a negro, tipo um grilo dentro de uma gaiola nem por isso muito bem desenhados. A Gradiva não tinha feito um esforço muito notório.

O nome da autora, Beatriz, provavelmente a Bia como a tratariam os amigos, e os apelidos Lamas de Oliveira pelo lado familiar, não diziam nada. Porque é que se compra um livro destes, é um mistério. Haverá um Anjo da Guarda dos leitores empedrenidos? Sabem? Aquele que nos puxa pela manga e, sem contemplações, nos grita ao ouvido:

- Leva esse, ó estúpido!
O desatento comprador agarra-o, um pouco ao calhas, entala-o entre outros mais sonantes: um policial que nunca mais recordará, um importante autor norte-americano com direito a página e meia nos suplementos literários e os poemas do Nuno Júdice.


dois




E a leitura, quando chega, é surpreendente. Uma história de sedução, quase os anos de aprendizagem de um velho abusador.

Lembrou-me uma amiga que, num daqueles dias desesperados, perguntava: «Mas porque é que os homens são tão aproveitadinhos? Não nos querem, mas aproveitam sempre uma queca de borla...»

Foi gentil e poupou o meu amor-próprio: não disse «vocês os homens». Eu era muito jovem, muito apaixonado, casado há pouco tempo, e ter-me-ia magoado. Mas fiquei a pensar. E voltei a pensar. E penso de cada vez que a barca da paixão cruza a linha do horizonte e o gajeiro grita de lá de cima: «cachopa à vista!». É uma das minhas dúvidas mais recorrentes. Porque é que nós, os homens, tínhamos de ir a todas?

Emprestei o livro à esquerda e à direita (honnit soit...).

Procurei outros exemplares pelas livrarias para o oferecer. Fiz a sua apresentação numa escola secundária.

E, tirando a minha modesta pessoa, só encontro outras duas que parecem ter reparado n'O insecto imperfeito.


três





Uma delas acabo de a encontrar através de um motor de pesquisa: a Fernanda Botelho, que em 99 fez para a Gulbenkien a recensão do livro. Trancrevo como encontrei, se bem que, apostaria uma garrafa de bom tinto Duas Quintas contra uma de reles cola: a Fernanda Botelho, se tivesse sido ela, escrevia muito melhor do que isto:

"A obra está cuidadosamente escrita, com boa clarividência psicológica, mas o leitor? eu pelo menos, não entende lá muito bem a finalidade, o objectivo, a mensagem a recolher da leitura?..."

A Fernanda Botelho era uma mulher muito inteligente. Como tenho lido muito poucas, e muito poucos. Acredito que deixou estas perguntas para si própria, sem nenhuma intenção de fazer delas uma nota crítica. Mas é o que se encontra na net.



quatro



A outra pessoa que reparou no livro de Beatriz Lamas de Oliveira foi o Sérgio de Sousa que tem honrado este blog com a sua atenção (não muita) e sobre ele escreveu na revista «Leiamos» de Maio de 2000 (Edição de Editorial Escritor, Lda).

Com a devida vénia, transcrevo o que a este livro diz respeito:


"... Embirrei com o livro antes de o ter lido," escreve Sérgio de Sousa, "quando o vi numa livraria. Seria algum contraponto à novela de Júlio Moreira, O Insecto Perfeito? Folheei-o e não me pareceu. Romance, dizia-se. Com 98 páginas, apenas duas personagens principais? Resmunguei, apegado a antigos critérios de classificar as prosas.

Depois, de uma amiga, circunstancialmente colega de liceu da autora, ouvi o comentário: «É giro, achei-lhe alguma piada.» E assim se dá cabo, autenticamente esfrangalha um livro.

Por aspectos marginais, sem minimamente ter tomado conhecimento do seu texto, eu já embirrava com o livro.

Li-o e fiquei a gostar dele.

A primeira impressão foi: Que impacto teve uma relação amorosa na autora, que ela teve de vir dissecá-la na pele de extraterrestre.»



cinco



«O livro é mais profundo do que um ajuste de contas, é imaginativo e rigoroso.

Também existem mulheres que acalentam sonhos grandiosos e vagos, que levam a vida a imaginar êxitos, que jamais pensaram no que precisavam de fazer para os alcançar, que entretanto vão seduzindo homens que se deixam encantar pelos seus cantos de sereias e outros encantos mais palpáveis, e as vão sustentando, e depois essas mulheres acabam muitas vezes sós, sem amparo. Também há mulheres «pentacoladoras», e Beatriz Lamas de Oliveira não o ignora.

Mas não é delas que trata este seu livro, em que a protagonista desperta, com uma serenidade científica, da envolvência numa relação que nos relata com palavras precisas.»



seis



«A protagonista é uma extraterrestre colocada em Braga, num corpo de mulher, que ali se envolve sentimentalmente com um estrangeiro. Termo de duplo sentido, estrangeiro porque catalão, e porque, pelo menos para a protagonista, à partida estranho, o que comporta também múltiplos significados, desconhecido, esquisito.

Incarnada mulher, a extraterrestre representa o papel respectivo. A duplicidade da personagem vai servir a análise do envolvimento a que como mulher se presta, e a do distanciamento a que, como extraterrestre, dilucida a evolução do relacionamento.

E o jogo entre os comportamentos da extraterrestre e da mulher resolve-se numa síntese que é a missão.

Missão para cujo cumprimento a extraterrestre foi enviada à Terra, missão que é afinal o sentido «extraterrestre» da atitude feminina, de se deixar envolver e persistir numa relação com premissas para si erradas, empenhando-se numa transformação.»



sete


«Enquanto mulher, a protagonista inscreve-se na classe média superior, presta auditoria a empresas que preferem pagar caro a ela, para se verem livres de uma caterva de empregados a quem pagam pouco.

O estrangeiro é filho de uma prostituta, criado um pouco ao deus-dará, que foi passando pelo insucesso escolar, pelo «desenrascar-se» na tropa, e aprendendo expedientes de sobrevivência, «o valor dos favores como um capital de troca acumulável», «a usar o sexo, por um lado como afirmação das suas capacidades masculinas, por outro, como uma cenoura, que se vai acenando ao burro para o manter no bom caminho», confiando na sua experiência junto de mulheres carentes, a arranjar desculpas «para matar o tempo que era incapaz de utilizar», «em vez de envidar esforços para concretizar algum projecto de vida... a espraiar-se... em projectos de fantasia desinibida...» não se dispondo a desenvolver competências próprias, mas a aproveitar-se das dos outros, reclamando «direitos de proprietário em descanso merecido», desprezando todo o trabalho tido como feminino, revelando-se na realidade inábil, mas muito treinado a inventar desculpas para as suas incapacidades, nunca reconhecidas, antes sobrestimadas as capacidades, confundindo compartilhar com acomodar-se, aproveitar-se, julgando-se, ou agindo como se fosse, isento das obrigações comuns, insensível ao gostar e a compreender o desgosto, e por fim a repulsa, que isso provoca nos outros, o estrangeiro acabara vivendo sempre, afinal, à custa de sucessivas, temporárias, esperançadas amantes.»


oito




«A esta conclusão acabou por chegar a protagonista que, também ela, em espírito de missão, atinge contudo um momento em que quer apenas voltar a sentir que é responsável tão-só pela sua vida, que verbaliza que «duas pessoas não podem viver juntas só porque uma delas acha muito triste viver sozinha...»

O momento em que recusa um homem de quem tenha de tomar conta como um filho, em que quer ter uma relação «de igual para igual», com um homem responsável, com projectos e meios próprios, um homem cuja vida se não resuma à actividade de «pentacolar».



nove




«Beatriz Lamas de Oliveira, que ao longo da sua narrativa vai inserindo várias palavras com uma precisão cirúrgica, de que são exemplo as «tuas estupidezes», pag. 18, referindo-se aos trabalhos domésticos, «que quase nunca se atrapalhava» (o estrangeiro), referindo-se aos seus subterfúgios, e muitas outras, com especial destaque para os termos castelhanos, inventou ainda essa palavra conceptual, «pentacolar».

A «pentacolada» é um desporto radical imaginário, cuja prática requer um equipamento com cordas e ganchos, mas nada mais é precisado. O leitor, que já assistiu, pelo menos pela televisão, a largadas de pára-pentes, a escaladas alpinas, a gincanas de motocross, facilmente se identifica com esta actividade, que requer «audácia, esperteza, força, atributos masculinos», daí que surja como «a actividade masculina iniciática predominante». Em que, atrevo-me, permanentemente se oscila colado, dependente.»


dez




«A novela, prefiro chamar-lhe assim, de Beatriz Lamas de Oliveira, narra um caso extremo de vida de um homem que, na verdade, sempre se colou, e dependeu, pelo sexo, de mulheres que o foram temporariamente sustentando, oscilando entre umas e outras. Mas este caso extremo tem ressonâncias apenas ligeiramente atenuadas no machismo generalizado, e no comportamento típico masculino.

A relação homem-mulher, em que aquele que se pretende depositário da responsabilidade familiar, mas que se revela inábil na resolução de assuntos práticos e rotineiros da vida, imaturo, e a mulher acaba por arcar com o assegurar do dia-a-dia, o prevenir, o proteger, com paciência missionária, é um padrão ainda dominante.
(...)»

onze


«Pentacolada». Pois.
Tout communique, diria o Jacques Tatti.
Porque é que vocês os homens são tão aproveitadinhos, perguntava a minha amiga, há já muitos anos. Não creio que ela se lembre. Ainda bem, porque ela é uma Senhora.
Mas eu lembro-me, porque a dúvida foi ela quem a lançou. Receio não ter sido sempre um cavalheiro. Mas quem nunca praticou essa tal «pentacolada» que me atire a primeira pedra.