Eu sei que não é bonito contar estas coisas, mas eu e o meu computador, vivendo em união de facto, tínhamos a relação quase perfeita.
Trabalhávamos juntos horas a fio, divertíamo-nos com coisas tolas inventando variações aos jogos do Windows, bisbilhotando a wikipedia, pulando de blog em blog.
Fazíamos um belo par de jarras, o meu portátil e eu.
Porque é que não se casavam, pergunta-me toda a gente.
Não sei, se calhar foi por causa da lei portuguesa que ainda discrimina este tipo de casos.
Ou então, quem sabe, apenas porque não havia sexo entre nós: questões de pudor, ele era um jovem notebook, cheio de vigor e de capacidade; e eu insisto em admitir, até para mim mesmo, no segredo dos meus pensamentos mais recônditos, que já vou tendo a minha idade. Nada nos proibia de irmos juntos àqueles sites, vocês sabem a que é que eu me refiro, e, enfim... mas não. Não tínhamos segredos um para o outro, mas, confesso, não conseguia rever-me na imagem com que ele iria ficar, por muito verdadeira que se tivesse tornado. O homem tem destas contradições, não é?
Os gregos, porém, tinham razão quando nos preveniam contra a inveja dos Deuses.
A minha relação com o pequeno portátil era demasiado perfeita e o que tinha de acontecer, pois aconteceu.
Estávamos a trabalhar juntos, já nem sei em quê, não queríamos fazer uma pausa sequer para o almoço e zás: a imprudência ocorreu. Um sandes para aqui, uma cerveja para ali, começámos a ficar um nadinha entornados - sobretudo a garrafa que essa se lhe entorntornou completamente por cima do teclado.
Não vos conto da aflição, do pânico; o meu companheiro com um último estremecimento escreveu umas coisas sem sentido e entrou em coma alcoólico e eu corri como um desesperado para a clinica dos PCs mais próxima. Leveram um mês a constatar o óbito.
Como qualquer companheiro sobrevivo nestas coisas, passei as longas noites do luto a recuperar, a pouco e pouco, os seus desenhos, os seus programas, os escritos que só ele guardava.
Agora para aqui estou, com um novo companheiro, mas há-de passar muito tempo até que seja a mesma coisa.
Acreditem.







