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sexta-feira, agosto 18, 2017

quarta-feira, abril 23, 2014

TURBAMULTA

 
 
Tome-se um ponto de vista ao acaso, uma cadeira de plástico hospitalar, por exemplo, de frente para a fila de espera e é quase fácil imaginar 
que aquele ali bate na mulher, e a mulher a quem ele bate é como aquela além, de ar amargurado, a quem ninguém respeita,
nem já os filhos, quando tiver netos pior será, tornada transparente como um móvel que só estorva, em que se tropeça,
por enquanto diz-se «mãe, mãe, não há leite» ou «não compraste cerveja, nesta casa nunca há nada...»
e ela vinga-se num marido tetraplégico
como aquele outro encostado além, impotente na sua cadeira de rodas por causa da escavadora ébria e do seguro que apodrece nas prateleiras do tribunal cível
e vai-se por aí fora, a cada um o seu vício, a sua mesquinhez, a sua crueldade,
distância, mesmo sem razão para os detestar, distância,
de muito muito longe já nem parecem gentes,
vistos lá em baixo no passeio, são o carreiro de formigas, pontinhos pretos sem ego, como dizia o Harry Lime (e o Graham Green)
"Look down there. Tell me. Would you really feel any pity if one of this dots stopped moving forever?"
E os pontinhos apertam-se além, no cais à espera do metro e depois, na carruagem, todos de olhos baixos, corpo contra corpo, são gentalha,
ao pé, mesmo ao pé, tudo se complica,
quando os víamos como multidão, comungávamos porque éramos nós e é o povo em marcha «os ricos que paguem a crise» e somos campeões,
ou enraivece, são eles, os comunas, os lagartos, os lampiões, a turba desordeira
«vai trabalhar, cabrão!»
ah, mas  depois vem um senhor, diz «com licença» e chama a senhora, ainda bonita, modestamente vestida como ele, «senta-te aqui», «não, senta-te tu», «não, vá, que eu já me sento ali adiante»
e dás contigo de pé, feito parvo, e ouvires-te dizer, «não, não, sente-se, sente-se, eu estava mesmo a ir lá fora ao bar beber um café...»
"Would you feel any pity", se eles ainda fossem pontinhos, lá longe?
 Sim, gaita. Sim, mesmo se personagens de ficções.
Cá fora, entre ti e o bar, atravessa-se uma réstia de Sol.

quarta-feira, março 06, 2013

Beppe Grillo e a água do banho

Há muito tempo, confesso para minha grande vergonha, que não seguia o blog do Beppe Grillo. 
O meu italiano não é grande coisa, por isso costumava preferir a edição em inglês onde lia frequentemente comentários algo contundentes às políticas europeias. Talvez porque nos idos de 2006, 2007, a Crise, esta malfadada Crise, era ainda uma ameaça longínqua, e porque tínhamos aqui mais ao pé coisas com que nos preocupar, uma direita cada vez mais agressiva e um partido que se dizia socialista e cada vez mais colado às mesmas políticas, esqueci-me do Beppe Grillo. 
A sério: esqueci-me.
Erros meus, má fortuna, e, suponho, infortúnio de muita gente.
Quando voltámos a ouvir falar dele, foi em grande. 
A Itália resolvera correr com o seu eurocrata de serviço - nós ainda não conseguimos livrar-nos dos nossos - e o Movimento Cinco Estrelas (raio de nome!), acusado de populismo por todos os lados, recusava-se a emprestar os seus 25% de votos às soluções tipo «mais do mesmo».
Beppe Grillo, que já era o «comediante» para toda a gente, sobretudo para quem nunca o tinha lido, foi promovido: passou a ser o «palhaço».  
E entretanto toda a gente se esquecia de que o movimento M5S, tem muito mais gente e que não é assim tão certo que sejam todos tão apalhaçados como se gosta de pensar que é o seu chefe: reuniram-se, elegeram por braço no ar os seus lideres no parlamento e no senado e declararam-nos cargos rotativos.
Será populismo, não tenho a certeza. 
O populismo é, diz o meu dicionário, um «movimento protagonizado por um chefe carismático e paternalista que apela à simpatia das bases populares». 
Quanto a «carisma», estamos conversados: estou farto dos moscas-mortas tipo Cavaco Silva, Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Prefiro as pessoas com o tal carisma - seja isso o que for - aos velhacos, aos sonsos, aos que dissimulam a sua mesquinhez e as suas ambiçõezinhas medíocres.
E quanto ao «paternalismo», francamente, qual é o político que se pode gabar de nunca a ele ter recorrido? O Gaspar, quando se põe a dizer que somos «o melhor povo do mundo»? O Soares? O Barroso? Os banqueiros, como o o João Salgueiro quando nos manda limpar as matas se perdermos o emprego?
Mas populista ou não, o M5S tem lá imensa gente muito, muito jovem. 
E a «revolução», escrevi eu próprio em 75, a um ano do 25 de Abril, «é quando os jovens enxotam os velhos e realizam, com a doce inconsciência de que são capazes, as coisas impossíveis». 
Quem sabe?
A esperança é como o bebé: não deve ser deitado fora com a água suja das políticas profissionais, pois não?

domingo, fevereiro 03, 2013

Ora Zico!

Já não há muito a dizer sobre o pittbull, actualmente a residir num canil em Beja, se ainda não morreu, que dá (ou dava) pelo nome de Zico.
Não foi, como só acontece ao Mário de Carvalho (onde é que eu já escrevi isto? nem me lembro...) o caso de um Bispo ter mordido o cão, mas foi quase.
Na falta de melhor, cortes de subsídios de doença, por exemplo, ou despedimentos em massa, a malta precipitou-se quando viu - num vídeo, suponho - o Zico a ser levado entre duas cordas. E, para mais, com aquele ar de parvo que os cães têm quando não percebem o que lhes está a acontecer.
Não faço a mais pequena ideia de quantos habitantes deste rectângulo esquecido por Deus têm conta aberta - e algumas delas bem chorudas - nesse BPN da banalidade que é o facebook.
Seja que número fôr, setenta mil dessas pessoas a assinar uma petição para que a vida do Zico fosse poupada, é obra. Sobretudo se pensarmos que sobre a cabeça do canídeo pesava a suspeita de ser um assassino e que a lei portuguesa, boa ou má, manda que os animais perigosos sejam abatidos, ponto final.
Se estas setenta mil assinaturas - e o chorrilho de asneiras e de insultos cruzados entre os assinantes e os que se recusaram a assinar - não são um sinal claríssimo do mal-estar da nossa cultura, não sei o que sejam.
Não tenhamos ilusões: em Portugal, na Espanha, na China, milhares e milhares de cães são mortos todos os anos. Até na filantrópica Inglaterra de onde nos vieram as primeiras preocupações com o bem-estar dos cavalos!
Porquê agora e porquê o Zico?
Que matou realmente uma criança de ano e meio, não oferece grandes dúvidas.
Argumentou-se, um pouco por todo o lado, que a criança não apresentava marcas das dentadas que não deixaria de apresentar caso tivesse sido morta pelo cão e, sim, tinha sofrido um traumatismo craneano. Mas o relatório da autópsia, a acreditar nos jornais, é bastante claro: há marcas do ataque, sim senhor, características, insofismáveis.
Se a palavra assassino tem significado, então o Zico é um cão assassino, e outro ponto final.
Mas alto!
«Merde! a guarda morre, mas não se rende!», como disse exemplarmente o general Cambronne. Os defensores do Zico têm mais argumentos.
Partindo do princípio sagrado de que o bicho é meigo, incapaz de actos violentos, só poderia ter sido trocado: um outro pittbull, esse sim, agressivo e bom para a luta seria o responsável pela morte da criança. Valia, porém, demasiado dinheiro em combates clandestinos. O Zico, bom e carinhoso, teria sido sacrificado em nome da ganância do dono que preferia perder um palerma sem préstimo a ficar sem o seu gladiador.
A dúvida metódica que tanto trouxe à cultura ocidental obriga-nos a levar a sério essa hipótese. Se uma coisa é possível, de certeza acontece, nem que seja na infinidade dos mundos - ou na infinidade do tempo, como pretendia Gell-Mann, o prémio Nobel da Física de 1969.
Terá acontecido justamente aqui e agora, neste mundo e no ano da graça de 2013? Será o Zico um outro Zico?
Talvez se possa ainda saber: se os defensores da tese do «Zico meigo» ainda forem a tempo e quiserem provar a sua (dele) inocência, que se prestem a pagar o teste de ADN, como vemos nas televisivas séries do CSI-Qualquer Coisa: há-de haver vestígios da saliva do cão em qualquer sítio, não?
-
Os defensores do Zico têm-se dividido em dois grupos principais: os que afirmam a sua inocência a todo o custo - não, o cão não matou a criança - e os que, aceitando que tenha sido ele o autor das dentadas fatais, atiram as responsabilidades para os donos do animal.
E chegamos aqui à razão de ser deste post.
Nem uns nem outros têm razão.
A começar pelos que acham que um cão meigo não pode ter atitudes de uma extrema violência, são cegos ou nunca viram o caniche deles próprios atirar-se com os dentes todos de fora ao gato da vizinha. Podem, claro, como as crianças, como nós próprios: o caso é haver uma provocação que vá para lá dos limites da educação ou do medo. Um gato, por exemplo.
E os que acham que o cão, por ser um animal irracional, não pode ser responsabilizado, também não se mostram muito mais razoáveis.
Em primeiro lugar: irracional é o quê?
«Razão» nunca foi fácil de definir. Parece, no entanto pacífico que ser capaz de abstrair, de concluir acerca de coisas que não se vêem a partir dos dados percepcionados, é a capacidade fundamental da razão; e sabe-se, desde Crisipo (sec. III aC) que os cães são capazes deste tipo de raciocínios. Continuar a chamar-lhes, a eles e tantos outros, irracionais, diria eu, parece-se imenso com um preconceito, tanto mais que está solidamente estabelecido o uso da linguagem por espécies não humanas: chimpanzés, por exemplo, ou papagaios.
Porque não o cão? Tal como nós, humanos, também o cão é um animal social. E como todos os animais sociais, também ele necessita de uma linguagem que lhe permita ocupar um lugar na sociedade, interpretar sinais, dar a conhecer os seus estados interiores: com fome, amigável ou agressivo, aborrecido, interessado e curioso, desconfiado, com medo.
Que estes sinais são claramente interpretados pelos outros cães não parece oferecer grandes dúvidas:  cada um deles corresponde a um (chamemos-lhe assim:) protoconceito, a que correspondem comportamentos adequados, quer sejam inatos, quer adquiridos através dos mecanismos de inserção nas diferentes matilhas. E parece evidente que todos os cães aprendem a controlar, por exemplo, a fome enquanto esperam que os mais velhos, os mais acima na hierarquia, os donos, os deixem comer. O mesmo se passa com os outros impulsos, como é óbvio.
Também o Zico trouxe consigo, desde que nasceu, impulsos destes que a vida em sociedade lhe teria ensinado a controlar, moderando ou inibindo os seus esquemas básicos de comportamento. Quando nasceu, não era meigo ou agressivo: não dava afectuosas lambidelas nem mordia a torto e a direito; mas esses comportamentos faziam parte do seu equipamento de sobrevivência e ensaiou-os abundantemente enquanto bebé: mordiscou, lambeu, lutou e adormeceu aquietado junto dos seus irmãos de ninhada.
Teve de ser ensinado a que a sua agressividade é inútil porque na sua matilha - constituida geralmente pelos donos - não o agride; e que a «meiguice» lhe permite uma muito melhor integração. As escolas tentam fazer isso mesmo aos nossos filhos, mas raramente são bem sucedidas porque nós não os ensinámos de forma eficiente enquanto eram cachorrinhos.
E depois lá vem a desculpa:
- Pois, coitadinho do puto! Vem de uma família disfuncional ...
E são perdoados, como foram os assassinos da Gisberta, também eles institucionalizados porque as famílias de que vinham não os controlavam, não é?
E o Zico, veio de onde?
Alguma assistente social avaliou se alguém o mandava à escola, se estava bem alimentado, se fazia exercício, se, se, se?
Porque esses eram os seus direitos, e são os direitos o que lhe conferia deveres.
-
Não tenhamos dúvida: um cão pode ser culpado e não apenas causador de um prejuízo. Ou pode estar inocente.
Quero dizer que ele tem capacidade para aprender normas, que interiorizou os seus deveres e que sabe quando os desrespeita.
A prova é que o faz justamente quando nós não estamos a olhar; tem medo de ser castigado, pois tem. É como eu: até hoje nunca entendi por que raio têm as câmaras municipais o direito de me alugar o espaço público (que, por ser público, já é meu) quando quero estacionar o carro. E se o fiscal da EMEL não fosse uma ameaça bem presente no meu espírito, eu bem vos digo quem é que lá metia as moedas.
Tal como o meu cão quando resolve trepar para o sofá e dormir lá uma sesta bem quentinha.
-
Dizer que os animais, por serem irracionais não podem ser julgados ou que podem ser castigados sem julgamento, não se parece demasiado com afirmações do tipo «ah! os pretos não percebem nada de nada, são todos terroristas»? E que, portanto, a tropa portuguesa podia entrar por uma aldeia adentro e matar a torto e a direito? Não era semelhante a justificação da escravatura?
Não é essa a justificação das toiradas, dos ferros cravados, do animal torturado para gáudio dos espectadores?
-
E para terminar, já agora, uma perguntinha só:
O leitor já leu O Mandarim, do Eça de Queiroz.
Se o leitor visse um homem a torturar um cão e tivesse uma campaínha, do género da que o Senhor Diabo deu ao amanuense Teodoro, ou vá lá: uma caçadeira - e a certeza de que não seria descoberto - a quem matava?
O homem ou o cão? 

quarta-feira, setembro 19, 2012

Ultraleve

-
Ligeiro,
ligeiramente surdo,
desculpa, querida,
importas-te de repetir?
As lentes grossas, já aligeiradas,
e um ligeiro espessamento das mucosas
esqueci-me onde.
Um ligeiro coxear, claro, quando começo a andar,
uma ligeira calvície, sim, quando a luz incide de cima,
que queres,
é a idade
[mas pára! Pára de beber, pára de fumar, faz dieta, não comas, não bebas, vive sem viver]
Felizmente,
ainda é ligeiro o colesterol,
e ligeira acumulação de gordura no fígado e a ligeira obesidade,
apneia/hipopneia de grau ligeiro
ligeiro, ligeiro,
não sei que mais,
esqueci-me das
ligeiras perdas de memória,
[como se chamava aquele tipo, aquele António, estou a vê-lo, o rosto de cavalo ligeiramente torto e a barba por aparar, como se chama ele déja?]
É, talvez, uma ligeira a perda de leveza no ser,
quiçá por insustentável, como o crescimento nos países terceiros.
Grave, grave, 9,6 metros por segundo quadrado,
só a perda de uma  ligeireza que dantes vinha sem se fazer rogada.
-


terça-feira, março 15, 2011

E Almaraz aqui tão perto!

- Começo a perceber porque é que eles diziam que small is beautiful...



quinta-feira, novembro 25, 2010

Greve geral

´


Só há uma coisa verdadeiramente irritante nesta coisa da aposentação: já viram, toda a malta a fazer greve e a gente aqui, a não poder fazer também?

segunda-feira, outubro 25, 2010

Tema para a meditação de hoje


Se tu ainda acreditas que se pode "enganar toda a gente durante algum tempo, que se pode enganar algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar toda a gente durante o tempo todo", então o mais provável é que não tenhas televisão em casa.

segunda-feira, julho 19, 2010

Cêpêéle... o quê?


- Não, não!
Tenho muito pena,
mas receio que a minha pátria não seja a língua portuguesa...

domingo, outubro 11, 2009

Not enough cooks


O Carneiro guisado de hoje deve ser o único stew do mundo que, quantos mais cozinheiros lhe meterem a mão, melhor fica.
O nosso, estamos em crer, tem tido muita falta de gente ali à volta.

quinta-feira, outubro 08, 2009

... tipo, há três anos inteirinhos


Este post anda por aqui atravessado há já um bom par de dias.
Porquê, vejam se percebem.
Nós aqui, no Portugal, Caramba! estamos no ar - uma expressão vinda da rádio - tipo, há três anos inteirinhos.
Desde o dia 6 de Outubro de 2006.
Impunha-se uma comemoração, claro, com pastéis de bacalhau e uns decilitros, azeitonas, queijinhos de Évora e mais decilitros, bagaceira e charutos.
Mas não seria a altura de perguntar: «que diabo estamos nós aqui a fazer, caramba?
Tínhamos um propósito quando começámos. Como a natureza é vária, não publicámos nenhuma carta de intenções e ainda bem; mas queríamos compreender «como é que chegámos aqui».
Durante algum tempo foi a nossa preocupação: português, sim, mas o quê?
Onde e quando começámos a ser os pequenotes convencidos de que inventávamos alguma coisa quando dizíamos «cozido à portuguesa», ou mesmo «socialismo à portuguesa»? Quando nos extasiávamos perante a Torre de Belém e revirávamos os olhos exclamando «ah! como são lindas as margens do Mondego»?
Para amadores como nós, a melhor via, em calhando, seria a literatura.
Percorremos os alfarrabistas em busca de escritores portugueses (quanto mais «carambistas!», melhor).
Lemos e demos conta de autores que, na melhor das hipóteses já ninguém lê, na pior, de quem nem sequer se ouviu falar. Intervalámos com outros, mais conhecidos ou mais recentes, desde o Gomes Leal até ao Nuno Bragança.
E como somos apaixonadamente leitores de histórias, todas as histórias, mesmo em quadradinhos; e como somos obsessivos contadores de historinhas, todas as historinhas, mesmo as mais tolas, decidimos acompanhar cada post com um desenho.
E temos cumprido, caramba!
Ao fim de trezentos e quarenta e cinco entradas, fizemos duzentos e setenta (270) desenhos, recuperámos das gavetas e cadernos mais quarenta (40), copiámos daqui e dali (capas de livros, ou assim) uma dúzia e meia (18); fotografias com a devida vénia, isso é que foi pouco: vinte e duas (22). Tudo isto mais ou menos, está bem de ver. Quem quiser que conte melhor.
Mas deu trabalho, pois deu.
E ao fim e ao cabo, talvez a ambição fosse desmedida, mas continuamos a não perceber como foi possível «chegarmos aqui».
Aqui, irmãos! Aqui.
Não nos referimos, como seria de esperar, à pobreza, à insignificância deste rectângulozinho de que até o Alberto João faz troça: não é isso que importa.
O facto é que por cá andamos há oitocentos anos, sempre em crise, com fomes e pestes, sempre com leis salvadoras como a das Sesmarias, sempre com ideias miraculosas como a Índia ou os oiros do Brasil, as colónias e a CEE. E ainda estamos entre os trinta países mais ricos, mais livres, mais tudo o que nos apetecer, do mundo inteiro.
E, em vez de nos ajoelharmos e agradecermos ao Senhor, ao acaso, à geografia, à divindade mais do vosso agrado, arrepelamos os cabelos, choramos em grande grita.
Porquê?
Para quê?
É isto Portugal, caramba?
Pois. Estamos em crer que é.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Clever Boys & Nice Girls


- Chorai, ó pedras da calçada - soluça o poeta arrancando do peito vasto a T-shirt dos Clever Boys. - Nenhuma mulher, por mais honesta que seja, está livre de dar à luz um filho da puta.
- Um quê? - ruge Nosso Senhor.
- Paradoxos... - diz o Diabo, com um risinho murmurado.
O Alberto Pimenta encolhe os ombros:
- E só agora é que deste por isso?
Os Clever Boys não disseram nada, entretidos como estavam com as Nice Girls.

sábado, novembro 29, 2008

A Itália também não...

" Italy is not a democracy. It’s a telecracy, an oligarchy, a mafiocracy. All of these together, but not a democracy. The citizens cannot elect their representatives. So it is not an elected democracy. The citizens cannot participate in public decision making. So it is not a participatory democracy. The citizens have no right to be informed. So they cannot make decisions. But if citizens cannot elect or participate or be informed, what is left? "
23 de Novembro,
Democracy or not

quinta-feira, novembro 27, 2008

- Grande arrelia, caramba!

"O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!"
Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras

terça-feira, novembro 25, 2008

Nada na manga


- Nada numa manga!...
Nada na outra!...
Nada no BCP!
Nada no BPN!

sexta-feira, setembro 26, 2008

Projectos para o futuro

- Temos de nos lembrar de mandar arrancar esta alcatifa.

quarta-feira, setembro 24, 2008

«Injecções extraordinárias de liquidez»


Se ainda não perceberam o que aconteceu àquele pastel todo que eles, segundo fontes bem informadas, andaram a ganhar nas bolsas, o Portugal, Caramba! pode adiantar que a culpa se afigura como sendo do colisionador de hadrões que recentemente foi inaugurado na Suiça.

Estamos recordados de que, de acordo com os cientistas do CERN, o destapar de um buraco negro era uma possibilidade negligenciável. Não terá sido assim.

Segundo alguns financeiros, a entrada em funcionamento do gigantesco acelerador abriu uma singularidade no mercado de capitais, a qual se terá alegadamente constituido num autêntico sorvedouro de liquidez.

Tanto a Reserva Federal como o Banco Central Europeu estariam a estudar a constituição de uma comissão conjunta de inquérito para determinar o fundamento destas alegações e levar diante da justiça os eventuais culpados.

«Os cientistas que paguem a crise», declarou uma fonte próxima da do Colégio de Reguladores da Euronext que pediu o anonimato.

Fontes contactadas pelo Portugal, Caramba!, no entanto, consideraram que estas acusações podem ter resultado apenas da confusão entre o "acelerador de hadrões" que pertence, de facto, ao CERN, e os vários "aceleradores de ladrões" que se têm vindo a constituir à sombra dos grandes bancos de investimento.

sexta-feira, março 28, 2008

É a saúde, estúpido!


Malpecado
Acto único, cena única

A cena passa-se no consultório. O Médico está sozinho. Ouve-se a voz da recepcionista:)
Recepcionista (de fora) - Faz favor de entrar.

Paciente (entrando) - Obrigado. Como está, Soutor? Eu vinha cá para mostrar assim aquelas radigrafias que me mandou fazer, e as análises...

Médico - Sente-se, homem! (o paciente executa) Análises? Pra quê?

Paciente - Para quê?

Médico - Sim, análises, radiografias, toda essa treta para quê? (pausa) Basta olhar para si. (apontando um dedo:) Clinicamente morto.

Paciente - Desculpe, Soutor, mas...

Médico - Deixe ver as unhas (o doente mostra). Unhas raiadas, vê estes riscos? E arroxeadas. Não sente uma dor aí, por de baixo do mamilo esquerdo?

Paciente (com alívio) - Não, isso não...

Médico - Pode ser um bocado mais abaixo. Está cheio de gordura no fígado.

Paciente - Mas não sinto, não.

Médico - Vai sentir. É um sintoma que nunca falha. Pode ser da próstata. Quantas vezes é que se levanta durante a noite para ir mijar?

Paciente - Não. Pronto, quer dizeer, é muito raro, Soutor. Claro, às vezes, assim com os rapazes, um petisco, bebe-se um pouco mais de cerveja...

Médico - Cerveja? O meu amigo bebe cerveja? Nesse estado e bebe cerveja?

Paciente - Não, é só umas canecas de vez em quando. Mas, ó Soutor, qual estado? O Soutor não...

Médico (interrompe) - Pá! O amigo é que sabe, pá. Apanhe as bebedeiras que lhe apetecer. Mas não me venha para cá dizer que lhe dói o fígado. (abre o envelope e tira uma folha de papel) Olha-me só para esta ósteo: zero, setecentos e setenta e cinco gramas por centímetro quadrado.

Paciente - Gramas por centímetro quadrado?

Médico - Sim. Quadrado. Queria que fosse redondo, ia à Caixa. Isto é um consultório a sério.

Paciente - Não. É só porque gramas por centímetro quadrado não faz sentido. Um centímetro quadrado tem espessura zero, como é que pode ter peso?

Médico (enche-se de paciência) - Pá! Olhe, meu amigo! Os gajos andaram mais de vinte anos a calibrar esta merda e o meu amigo vem-me para aqui com gaitas? E eu a aturá-lo? Ou quer ou não quer, porra! Eu digo as coisas: olhe-me esse fígado, essa dor vai-se agravar, pá, não toma cuidado, e depois, bumba! Missa de sétimo dia e tal... começam à conversa, pois, o médico é que não viu nada. E vêm os seus cunhados, os seus primos, essa gente, ai coitadinho, era tão bom chefe de família, e bumba: processa-se o médico, que, por acaso até sou eu. Acha bem?

Paciente - Não, oiça Doutor...

Médico - Não faz mal. Não diga nada! Eu já estou habituado, quero lá saber! Até já sei porque é que o meu amigo cá veio! Quer viagra! Todos querem!

Paciente - Ó Soutor, desculpe! Aguente aí os cavalos!

Médico - Mas não quer viagra? Olha, é estranho.

Paciente - Não. Sim, quero, mas não é bem isso.

Médico - É o quê, então?

Paciente - Pronto, Doutor, é assim: eu ando a deixar de beber e de fumar, essas coisas que fazem mal, é o que se diz...

Médico - Meu filho! Meu irmão! Tu fumas?

Paciente - Pois, Senhor Doutor, infelizmente...

Médico - Pá! Tu fumas e não dizias nada? (abre a gaveta e extrai um tabuleiro com tabacos vários:) Fumas o quê? Eu vou tirar um destes. Recomendo-tos: puros!

Paciente - Ena pai! Tem aí Stagonov, um dos melhores tabacos do mundo. Dá-me licença de que encha um cachimbo? (executa) E podemos fumar aqui no consultório?

Médico (acendendo o charuto) - Se prometes que não dizes nada à Asae... Ah...

Paciente (acende o cachimbo) - Hum...

Médico - É... também estava a precisar... hum... Afinal, veio cá porquê?

Paciente - É que não consigo deixar de fumar, está a ver? E sabe, com um copo ou outro...

Médico - Sei, ó se sei! (tira de baixo da secretária dois cálices e uma garrafa e começa a servir) Vai uma gota? É uma aguardentezinha bagaceira, destilada à saída do lagar. É tão boa, pá, que já deve ser proíbida.

Paciente - Agradeço... (prova e estala a língua ) Preciosa! Tintos da Estremadura, talvez ali mais perto do Ribatejo... Alenquer! Não, Carregado ou Azambuja! Acertei?

Médico - Quase! Vila Nova da Raínha. Uma quinta de uns amigos meus. Lá é que ainda se vive bem. Cavalos, dinheiros da Cê-é-é... Ainda bem, que lhes preste! Ao menos sempre sobra alguma coisa.

Paciente - Pois. Ele há coisas... Esta bagaceira, os enchidos... Às vezes sinto-me assim esquisito. Não é que eu seja religioso, mas penso que Deus nos está a castigar, só assim, por sermos felizes e estarmos bem. E pronto, tenho medo. Tenho medo das cirroses, tenho medo dum a-vê-cê, tenho medo do cancro... é mesmo verdade que o tabaco é cancerígeno?

Médico (mirando o charuto) - É. Receio bem que seja mesmo. Mas sabes uma coisa? Há uma vacina porreirinha contra tudo isso. Amandas-te do nono andar, com a cabeça para baixo de preferência. 100% de eficácia. É um bocado radical, mas garanto-te que não apanhas mais doença nenhuma!

Paciente - Porra! Prefiro este cachimbo.

Médico - Viver é cancerígeno, pá. Não sabias? Mas olha, podes fazer como o palerma do chinês: sentas-te à beira do rio e esperas o tempo suficiente. Verás o cadáver dos teus cancros passar na corrente. Olha, e se não vires, também não perdeste nada. Ganhaste o teu cachimbo, não foi? E, meu caro amigo, vou-lhe passar a receita do viagra enquanto acaba o seu copo. Trate-me, mas é desse seu dente: com o bagaço e o tabaco de cachimbo, vai ficar com um mau hálito do caraças.

(cai o pano)