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sábado, outubro 12, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (quarto episódio)

Tanto tempo se passou desde que aqui vim pela última vez para estar com a minha Senhorinha que não sei já onde íamos, nem onde, no episódio anterior, deixámos o seu Primo Carlinhos.
Quando digo «aqui», os Leitores já habituados sabem que me refiro à pequenina loja de fotocópias e informática da D. Fernanda. É sentado a esta mesa virada para a parede, com um teclado e um ecrã, que eu, a troco de uns dois ou três euritos, conforme vou arranjando, comunico com os meus Leitores. E sei que, ao tal ecrã onde as palavras que escrevo vão aparecendo, eu devia, para ser entendido, dar o verdadeiro nome que é o «monitor» se, por acaso, esse nome não tivesse sido dado já a tantas outras coisas tão diferentes.
E depois, vá-se lá saber de qual é que se está a falar. 
- Temos de prestar mais atenção ao contexto - diz-me tantas vezes a minha Senhorinha - Dois mais dois são sempre quatro, estejamos nós onde estivermos.
- Excepto quando eu estou lá atrás escondido a fazer batota - intromete-se um Diabrelho meu amigo, de quem hei-de falar muitas vezes, mesmo que não tenha tempo para isso neste momento.
Felizmente a minha Senhorinha não o ouviu:
- Mas ser como o Gulliver, o mais alto quando os outros são pigmeus e o mais baixo quando os outros são gigantes, faz com que «alto» e «baixo» dependam das outras coisas que estiverem à volta, quer dizer, do contexto. Não concorda, meu amigo?
Concordei, claro.
Concordo sempre com a minha Senhorinha, mesmo quando o Diabrelho, aqui ao lado me sussurra:
- Podemos sempre fazer como a Alice faz no País das Maravilhas. Umas vezes cresce até ficar com a cabeça por cima das nuvens, outras encolhe para poder entrar na toca dos ratinhos... Miúda esperta. Um dia destes apresento-te.
-
Mas enfim, tudo isto são conversas para outras alturas, ao canto da lareira, por exemplo, para os felizes que a tenham quando o frio aperta.
Mas o tempo que os euritos compram à D. Fernanda vai-se gastando e ainda nem comecei a falar-vos do Primo da minha Senhorinha.
Num momento de particular desânimo, estava ele sentado nos degraus da escada do quintal com a mochila dos livros ao lado, sem se atrever a entrar em casa, e o Sr. Julião a espreitar por cima do muro.
- Pá, hum? Prepara-te, pá. A tua Mãe já descobriu a gaiata que tu tinhas aí escondida.
-
O problema começara logo de manhãzinha, com o Carlinhos - um dia destes vou ter de passar a chamar-lhe Chuck, como ele gosta, mas ainda não me habituei, ele que me perdoe.  Com o Carlinhos, dizia eu, a ter de ir para a Escola e a Magrizela, farta de estar ali fechada, a querer ir com ele.
- Que mal é que faz? - indignava-se ela, sentada no tapete, a devorar as bolachas que o Primo da minha Senhorinha lhe tinha trazido para o pequeno almoço. - Eu deito-me num canto, ao pé de ti e vou ouvindo o teu professor. Ou então durmo.
E não entendia o festival que havia de ser uma sala de aula, cheia a abarrotar de gandulos, e uma garina deitada a um canto e a rosnar de cada vez que alguém se metesse com ela.
Por fim, meia vencida e menos de um terço convencida, amuara e voltara a enfiar-se lá para o fundo, debaixo da cama, de costas voltadas para o Carlinhos.
E foi a pensar nisso que, justamente na aula de História, nomeio da barulheira e com a pobre da Prof a tentar explicar o novo espírito trazido pelas Ordens Mendicantes, que ele contou ao Zé Nesgas o amuo da Magrizela.
- 'Tão, eu não te disse? E vamos fazer o quê? - tinha perguntado o Zé Nesgas depois, enquanto a Prof falava de São Francisco de Assis. - Meu, a gaja não é nenhuma prisioneira.
- Pois não. Prisioneira era ela lá no canil.
- Isso. E não a trouxeste para a prenderes outra vez.
- "Louvado sejas Tu, Senhor, pela nossa irmã, a Terra-Mãe, que nos suporta e nos conduz..." lia a professora, enquanto o Tavares, gritava:
- Hei! Alguém fez o têpêcê de matemática?
- "... e que produz os frutos diversos, com as flores coloridas e a erva..." - continuava ela.
- Chama-se como? - interrompeu, por seu turno o Carlinhos que, apesar de tudo, conseguira ouvir qualquer coisa da Irmã Água, e do Senhor Irmão Sol. 
- O quê, meu Filho?
- Isso do Irmão Sol.
- Está no quadro, Carlos. É o Cântico das Criaturas.
- Ah, obrigado, Stôra. - e passou ao Zé Nesgas, que passou ao Tavares, o caderno de matemática que já vinha lá de trás.
E a conversa ficou por ali.
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- A rapariga, hum, é um bocado desarranjada da cabeça, não é? - dizia entretanto o Sr. Julião. - Trouxeste-a para cá porquê, hum?
Num momento de fraqueza o Carlinhos disparou de um jacto só:
- Ela é uma cadela - foi o Deus dos Cães, está a ver - eu só queria um cão para jogar xadrez e depois o Deus dos Cães transformou-a e ela estava nua - eu não podia deixá-la ali sozinha, com os grandes da Alfredo Arroja, pois não?
Não posso jurar que o vizinho tenha percebido tudo. Mas as pessoas surpreendem, até a mim, que o conheço há tantos anos e que o tenho por um céptico inveterado:
- Parvoíces do Anúbis, hum? - resmungou ele.
- O Sr. Julião conhece-o? - espantou-se o Carlinhos.
- Ah. Mais ou menos. Somos parceiros da sueca uma vez por outra.
E acrescentou peremptório:
- Vá lá! Desanda! Vai lá ver da tua Mãe que deve estar a cortar o cabelo à miúda, antes que ela fique careca.
-
 
 
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quarta-feira, setembro 11, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (Episódio 3)

 
O quartinho onde vivia o Primo da minha Senhorinha, o Carlinhos, eu ainda não disse, mas convém dizê-lo desde já, ficava nas traseiras da pequenina vivenda onde morava com os seus Tios, no Bairro Social de Nossa Senhora dos Anjos.
Não era muito amplo, como não era nenhuma das divisões daquela casa, mas era o quartinho ideal para um menino sonhador se isolar com os seus livros, os seus cadernos e os seus lápis de côr. E, sobretudo, ficava longe do sofá do Pai - que detestava turbulências - como aliás detestava tudo, ou, pelo menos sempre me pareceu.
E, como ficava mesmo ao lado da cozinha, a Mãe achava que o podia manter debaixo de olho.
As razões por que, numa casinha tão pequenina havia um quarto com uma minúscula casa de banho separada do resto dos aposentos, só se compreendem se ainda nos lembrarmos das grandes diferenças sociais que separavam as pessoas pobres das que, dizia-se na altura, eram pelo menos «remediadas».
No projecto dos arquitectos, desenhado lá pelos anos trinta do século passado, o quartinho a que se juntara a casita de banho, era descrito como «quarto da criada».
Os mais jovens dos nossos Leitores já não conheceram essa figura, felizmente desaparecida, da «criada de servir».
Iam-se buscar, lá às aldeias onde tinham nascido, as meninas pobres com doze ou treze anos, às vezes menos ainda, para virem «servir», ou seja, para desempenharem as tarefas domésticas mais pesadas e desagradáveis, esfregar as escadas com escova e sabão amarelo e depois encerar, acartar baldes e sacas de carvão, fazer recados. E, muitas vezes, para apanharem pancada quando, como é natural na idade em que o corpo está tão ocupado a crescer, lhes pendiam os bracitos para a preguiça e os pensamentos para estarem em todo o lado menos onde a patroa mandava.
Mas adiante: esses quartinhos da criada ficavam lá ao lado da cozinha, o mais longe possível da sala onde os patrões ouviam a «telefonia» - só muitos anos depois apareceu a televisão, lembrem-se. E ficavam mesmo junto à escada de serviço para que as rapariguinhas com os cabazes das compras, não entrassem pela mesma porta que os «Senhores».
Era por essa escada que o Carlinhos e a Magrizela entravam e saíam, longe dos olhares vigilantes da Tia da minha Senhorinha - pelo menos quando ela não andava de roda das saladas com que gostaria de fazer perder peso ao marido.
Os bairros, porém, como os nossos leitores bem sabem, sobretudo os pequeninos, de casas baixas, têm muito mais olhos vigilantes para lá dos das Senhoras Mães.
E acontece que, mesmo ao lado dessa escada, começava o muro da casa do Sr. Julião, reformado dos Correios, como já devo ter dito, onde tinha sido desenhador.
Agora tudo se faz no computador. Até mesmo aquelas coisas que dantes exigiam experiências demoradas, simulações com maquetes e por aí fora,  são facilmente substituídas por meia dúzia de equações e uma equipe de programadores competentes.
No seu tempo, o Sr. Julião tinha um estirador, um complicado jogo de réguas e canetas de todas as espessuras e desenhava com uma paciência minuciosa e com as medidas exactas, as peças que os engenheiros pensavam e que, depois, operários que eram verdadeiros artistas, executavam. Era ainda no tempo em que as empresas fabricavam as seus próprios equipamentos. Agora, em tempos globalização, digo eu, compra-se aos americanos e aos alemães que, por sua vez, mandam fazer tudo na Tailândia, transferem os lucros para os Bancos Suíços e estes para as diversas offshore espalhadas pelo mundo.
O Sr. Julião não chegou a ser substituído por um computador que desenhasse melhor e mais depressa do que ele: quando as oficinas dos Correios fecharam e os engenheiros passaram a ser gestores, o Sr. Julião pediu a reforma e veio para casa fazer barcos com paus de fósforos para dar que fazer às mãos enquanto os pensamentos, esses voavam livres como sempre tinham sido. Por onde andavam, só ele sabe e, se tiver de ser, a seu tempo nos dirá.
Mas, se a um pobre sem abrigo como eu, a viver por onde calha, for permitido dar um conselho àqueles dos meus jovens Leitores que têm um temperamento menos competitivo e mais sonhador, recomendo-lhe vivamente, mesmo com o risco de ofender algum Pai mais extremoso: desenhem. Desenhem, desenhem, desenhem, que o desenho liberta ainda mais do que escrever coisas como estas que estão aqui a ler e que, receio bem, só sirvam para nos angustiar.
Mas, onde é que eu ia?
Felizmente a minha Senhorinha nunca se esquece estas coisas de que estávamos a falar do Sr. Julião, e de como ele ia envelhecendo a construir caravelas e outros mais recentes barcos, traineiras, rebocadores e até um grande petroleiro com mais de um metro.
De há muito abandonara ele os paus de fósforo, não sem que eles, pobres pauzinhos, não tivessem contribuído, à sua canhestra maneira, para lançar uma ponte entre as gerações e criar uma sólida amizade entre o Primo da minha Senhorinha e o antigo desenhador dos correios.
Tudo começara, ainda o Carlinhos, com quatro ou cinco anos, nem ia à escola, nem sonhava vir a chamar-se Chuck nem vir a encontrar uma Magrizela.
Costumava ele empoleirar-se num banco, de queixo esticado por cima muro de separação entre os dois quintais, a ver o Sr. Julião, com uma paciência de quem já não quer chegar a lado nenhum, a colar fosforinho a fosforinho, até erguer um mastro, construir uma amurada ou uma chaminé.
E como era lento aquele avanço. O rapazinho ia, esticava-se, espreitava, descia do banco e ia perseguir o gato para o abraçar, o gato fugia, ele voltava ao muro e o barquito ali encalhado por falta de fósforos num costado, o Sr. Julião debruçado sobre uma coisa nenhuma que se visse.
O Carlinhos convenceu-se de que era a falta dos pauzinhos ardidos numa ponta o que assim demorava a obra. E vá de se dirigir à cozinha, arrastar um banco, pôr-lhe outro em cima, trepar para a pedra da chaminé, apoiar-se no fogão e subir para o segundo banco.
A Mãe costumava guardar lá no cimo a reserva das caixas de fósforos, quatro, novinhas em folha, ainda dentro do involucro transparente. Mesmo esticando-se e oscilando perigosamente em cima dos bancos empilhados, as almejadas caixas ficavam muitos centímetros acima dos dedos de Carlinhos. Foi preciso descer, de novo com o apoio do fogão - felizmente apagado - ajoelhar-se em cima da pedra, descer para o chão  e procurar um qualquer coisa que lhe servisse de prolongamento para o braço, voltar a subir e, com a ajuda de uma colher de pau, precipitar lá de cima as caixas que caíram com estrondo sobre a tampa do balde do lixo.
A Mãe, felizmente, andava lá por cima com o aspirador.
Com os fósforos na mão, o Carlinhos marchou outra vez para o quintal, espreitou por cima do muro; do lado de lá, o velho Julião olhou-o por baixo das espessas sobrancelhas e perguntou:
- Hum! Estás de volta?
- A chaminé é muito alta - justificou-se o Carlinhos. e esticou o braço direito bem acima da cabeça.
- Hum-hum. É bom, para não morreres como o João Ratão, cozido e assado no caldeirão.
O Carlinhos achava aquela história parva porque os ratinhos não se aproximavam sequer de uma coisa quente, quanto mais ir um deles mexer no caldeirão, por muito bem que cheirasse.
Não disse nada: à uma, porque já percebera que discutir com os mais velhos é uma perda de tempo; e depois, porque acabara de pensar que os fósforos que trazia da cozinha não iam servir para nada. Tinham uma cabecinha encarnada e os que o Sr. Julião colava ali na bancada o que tinham era a ponta preta.
Um problema a resolver, decidiu ele. E, abrindo o invólucro, tirou um fósforo e riscou-o.
Estava proibido de o fazer e, no instante seguinte, quando as quatro caixas explodiram repentinamente, percebeu por quê.
Os mais jovens dos meus Leitores já se espantaram certamente com o temperamento de um fósforo quando o passamos pela lixa; parece estar para ali, numa soberana indiferença, e de repente, zás! A chama!
Imaginem o que aconteceu com quatro caixas, com cem fósforos cada. Uma enorme labareda subiu pelos ares e, felizmente, tão depressa tinha vindo como se foi e o Carlinhos recuou assustado caindo do banco abaixo.
O Sr. Julião veio resmungar por cima do muro.
- Hum! O rapaz é parvo! Olha lá, aleijaste-te, hum?
Sentado no chão, com os óculos pendurados só de uma orelha e um cheiro intenso a cabelos queimados, o Carlinhos olhava para aquilo tudo sem perceber bem o que lhe tinha acontecido.
- Estás bem, tu, hum? - insistia o Sr. Julião sem saber se os seus velhos anos e o reumático nas articulações lhe deixariam saltar o muro.
- 'Tou. - respondeu o Priminho da minha Senhorinha sem ter muito a certeza.
Depois endireitou os óculos e levantou-se para agarrar as caixas chamuscadas e ainda quentes.
- Toma. - disse ele e estendeu-as na direção do muro.
- Para mim, hum? Hum... ah. Obrigado.
E o que se seguiu, perdoarão as gentis Leitoras e os Cavalheiros, mas tem de ficar para a próxima vez, que a D. Fernanda quer fechar a loja e eu quero tudo, menos que ela se zangue comigo.
 

quarta-feira, setembro 04, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (segundo episódio)

Nesse dia, tenho de o dizer, o Zé Nesgas perdeu a paciência e desatou aos berros.
Não é que a voz dele, fininha como era, fosse impressionante, sobretudo porque vinha lá de baixo do seu palmo e a terça de altura (ou, talvez devesse dizer, de «baixura» se não fosse parecer que estava a ser sarcástico, o que não é, de todo, a minha intenção. A minha Senhorinha que me conhece, poderia ser nisso a minha fiadora, se não me repugnasse ser a causa de mais esse incómodo).
Bom, mas perguntam as gentis Leitoras, o que gritou então esse tal Zé Coiso? E eu reparo que têm toda a razão e acabei por não o dizer.
O autoritário brado foi simples:
- Man, isto tem de acabar! - e alteando a voz: - Tem de acabar, man, isto assim não é coisa nenhuma!
E não era, mesmo descontando que eu omiti alguns vocábulos, digamos, menos elegantes na fala do colérico rapazinho.
De facto, a Magrizela andava a acordar, lá ao fundo, debaixo da cama, com um humor de cão, o que, diga-se, não é de todo de estranhar.
Mas, perdoem-me que intercale aqui um aviso e um pedido de desculpas.
As Gentis Leitoras e os Cavalheiros que me estão a ler já protestaram, certamente,  contra esta entrada de chofre, tipo a pés juntos, na história do Carlinhos e dos seus amigos. Mas verão que era absolutamente necessária.
A minha Senhorinha conhece bem a tendência que eu tenho para andar por aí a «dar água sem caneco», uma expressão muito antiga, bem ao jeito da Senhora sua Tia. Mesmo tendo nascido na pequena vivenda do bairro de Nossa Senhora dos Anjos, como já devemos ter dito, a Mãe do seu Primo Carlinhos, tem uma forte costela rural; as suas opiniões, por vezes bem contundentes, exprimem-se quase sempre por provérbios, por expressões do tipo «nem sol na eira nem chuva no nabal» a propósito dos nossos governantes, e tantas outras que seria inútil tentar dizê-las a todas.
Mas reparo que, ainda antes de explicar porque é que a Magrizela acordava todos os dias com o tal humor de cão, talvez devesse dizer, mesmo se brevemente, o que é um «caneco», esse sem o qual tanta gente anda por aí a fingir que dá a água.
Hoje em dia, os que ainda por aí andam já são de plástico.
Dantes, porém, os canecos eram feitos de madeira, do mesmo modo como ainda se fazem as pipas para o vinho: as peças de castanheiro ou de carvalho, chamadas aduelas, eram encurvadas ao fogo e apertadas com arcos de ferro. Tinham uma pega cá em cima e, muitas vezes outra mais em baixo, do lado oposto. Levavam para aí uns vinte litros de vinho ou de água e acartavam-se às costas, o que não era pêra doce para ninguém.

 
Também eu, quando perdi o emprego, já lá vão muitos anos como a minha Senhorinha sabe, entre outros biscates, andei nas vindimas e acartei muitos deles ao ombro. Palavra que também eu preferiria andar a dar a tal água sem caneco nenhum.
Mas vejo que me afastei do assunto que, afinal, aqui nos trazia a todos.
Desde que chegara a casa, trazida à corda pelo Carlinhos, a Magrizela recusara-se a dormir num colchão macio, com almofada e lençóis.
Onde ela gostava de se enfiar era debaixo da cama do Primo da minha Senhorinha, lá bem ao fundo, enrolada num tapete.
Durante os primeiros tempos até dava jeito. A Mãe do Carlinhos podia entrar e sair, sem dar pela Magrizela que tinha bem a noção da estranheza daquilo tudo e, lá de baixo, rosnava tão baixinho quanto podia. Só havia um problema, mas esse, acredito, era bem mais embaraçoso.
A minha Senhorinha conhece o seu jovem Primo: tímido e contemplativo, com uma mais do que parca experiência das coisas do mundo. Como conseguia ele convencer a Magrizela quando, a meio da noite ela acordava e se dirigia para a porta decidida a ir para o quintal fazer... como direi? os necessários?
Bem tentava ele encaminhá-la para a casa de banho. Porém, para a Magrizela que até essa altura poucos dias passara debaixo de telha, uma sanita tinha sido apenas um sítio onde beber água quando os donos se esqueciam da tijela.
Felizmente, o Zé Nesgas tinha, em capítulos desses, alguma experiência.
Era o terceiro de uma irmandade de quatro em que tinha o azar de ser o único rapaz.
A minha Senhorinha, sendo filha única, não tem bem a noção de quanto duas irmãs mais velhas, sempre em segredinhos e risadinhas, podem ser cruéis para os irmãos mais novos.
O Zé Nesgas teve de tomar a defesa da mais pequenina e, no fundo, coube-lhe a ele a tarefa, nem sempre gratificante, de evitar que ela se ferisse com as tesouras que as mais velhas deixavam por ali depois de cortar as unhas, que caísse das escadas abaixo quando as outras deixavam a porta da rua aberta, de acudir quando a pequenita batia com a cabeça numa esquina e desatava num berreiro.
E frequentes vezes, quando ela abandonou as fraldas, a acompanhou ao bacio e a amparou na casa de banho para que ela não se enfiasse pela sanita abaixo.
Mas as gentis Leitoras e os Cavalheiros que nos lerem terão de me perdoar se eu entrar agora em pormenores que não constam normalmente em narrativas que possam ser lidas por crianças.
É consensual que, até esses dezoito anos, julgo eu, embora possa estar em erro - quem sou eu para discutir pedagogias e regras de boa e saudável educação? - é consensual, dizia eu então, que um jovenzinho possa matar marcianos, árabes ou chineses, bem como outros monstros variados, num videojogo. Mas nada de falar em xixis e cocós: as senhoras nos romances nunca estão com o período nem têm prisão de ventre.
E, se os Leitores ainda se lembram da gritaria que ia lá pelo quarto do Carlinhos, com o Zé Nesgas aos berros (desta vez sem omitir vocábulos:) «man, isto assim é uma merda, porra!», não ficarão admirados se eu lhes recordar que ajudar uma irmãzita de três ou quatro anos a ir à retrete e depois a lavar-se, não é exactamente a mesma coisa quando se tem doze anos e a rapariguita que se está ajudar tem catorze.
Como a D. Fernanda, que é a encarregada aqui da loja, já me veio dizer «tenho pena, mas olhe que já passa meia hora...» eu acrescento só mais uma coisinha:
A Magrizela, sem dar minimamente por isso, note-se, estava a causar uma perturbação desusada nas hormonas daqueles dois cachopos.
E eles, a falar francamente, não faziam ideia de como enfrentar a situação.


 
 

sexta-feira, agosto 30, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO

 

Bom Dia e um queijo é a narrativa cheia de peripécias das aventuras - e algumas desventuras - do Carlinhos - que também gosta de se chamar Chuck - da Magrizela e do Zé Nesgas, onde, se tivermos sorte, hão-de aparecer um ou dois Diabrelhos e várias outras figuras que, por serem invulgares, não são menos verdadeiras.
Tudo narrado fielmente por este que se assina
Alberto Tacci
(ou outro nome qualquer)
-
A minha Senhorinha lembra-se, certamente, dos nossos últimos encontros e do que então conversámos sobre o seu Primo Carlinhos.
Já lá vai algum tempo, mas, por essas alturas, comentámos, não sem alguma inquietação, o facto de que o jovem sonhador, alto e gorducho como era, estar a abandonar rapidamente a meninice e a entrar decidido pela adolescência.
Efeitos, receávamos, da presença da Magrizela lá em casa.
A minha Senhorinha conhece perfeitamente a pequena moradia - com um jardinzinho à frente e um pequeno pátio nas traseiras - onde a Senhora sua Tia, a Mãe do Carlinhos, sempre viveu.
Perdoará, no entanto, que eu junte aqui uma breve descrição do Bairro Social de Nossa Senhora dos Anjos, para dar a conhecer aos demais leitores que gentilmente nos acompanham, o lugar onde cresceu o seu Primo. E, de caminho, explicar - se explicação tiver - como foi possível, durante este tempo todo, que ninguém estranhasse a presença da clandestina Magrizela a pavonear-se por todo o lado na companhia do Carlinhos e do seu colega de turma e de há muito inseparável amigo, o Zé Nesgas.
-
O Bairro tinha sido planeado para se estender pela encosta abaixo, ter um jardim com um ringue de hóquei em patins e uma Igreja, e albergar com a devida decência e muito respeitinho, como era antigamente, duzentas famílias de militares de baixa patente, um ou outro chefe de polícia, funcionários da Câmara Municipal e empregados de comércio selecionados. E havia de ter também um pequeno miradouro com um busto do Sr. Ministro das Obras Públicas e banquinhos onde os mais idosos se iriam sentar à conversa e regalar-se a plenos pulmões com a magnífica vista sobre o rio.
Era uma coisa bonita.
Houve uma cerimónia solene para lançar a primeira pedra, com ministros e presidentes, uns quantos legionários da Legião Portuguesa, as criancinhas da Escola Primária mais próxima e uma menina vestida de organdi com um ramo de flores e um laço azul na cabeça.
Porém - e a minha Senhorinha já sabe como são estes «poréns», acaba sempre por haver meia dúzia - ainda o empreendimento não tinha passado do papel e a menina do laço azul ainda não tinha tropeçado e espalhado as flores pelo chão e já se dizia à boca pequena que alguém se tinha abotoado com as verbas.
Houve ajustes daqui e dali, roubou-se uma dezena de metros quadrados a cada quintalinho, um metro na largura da ruas e mais meio metro nos passeios que ficavam só um bocadinho mais estreitos.
Das duzentas vivendas construíram-se trinta e nove, agrupadas em seis pequeninos quarteirões e com seis casinhas cada um, e mais meio que, não se sabe porquê, ficou só com três - um nadinha maiores, é verdade, e com uma garagem atrás onde não sei se caberia um carro maior do que um Fiat Topolino - ou vá lá, para termos uma comparação mais dos nossos dias, um Smart ou um Citroën C-1.
Foi uma destas três que os Avós do Carlinhos e da minha Senhorinha adquiriram com algum sacrifício, diga-se, e que deixaram à filha mais nova quando se reformaram e foram para a terra, lá para os lados de Ponte de Lima ou dos Arcos de Valdevez.
Os terrenos previstos para a dita Igreja e para o jardim foram loteados e vendidos para fazer prédios e, como se diz agora, para se realizarem umas mais-valias que segurassem o descalabro nas contas do Município. O miradouro, esse ficou com uma bonita vista para as traseiras dos prédios onde as vizinhas dos segundos andares estendem a roupa.
Quando se puseram, finalmente, os candeeiros da iluminação pública, verificou-se que os estreitados passeios não davam para passar um carrinho de bebé, quanto mais uma cadeira de rodas.
-
Mas então, reclamam as Gentis Leitoras e os Benevolentes Cavalheiros, Meninas e Meninos que vinham cheios de curiosidade: então e o Carlinhos? E a Magrizela? Não era disso que se tratava e das aventuras deles e do Zé Nesgas?
Só posso pedir-lhes um pouco de paciência porque, arrumadas estas considerações - e se outras não vierem, aviso desde já, porque eu não sou de fiar como a minha Senhorinha tão bem sabe - iremos pé ante pé surpreender o nosso Carlinhos no quintal do Sr. Julião, reformado dos Correios que faz naus e caravelas com pauzinhos de fósforo.
Mas o que ele lá estava a fazer terá de ficar para depois, porque, confesso: já estou a ficar muito cansado e mal distingo as teclas em que vou aqui martelando.
Mas hei-de voltar, tão depressa quanto arranjar três euritos, que é quanto custa aqui nesta loja, o aluguer de um computador e da ligação à internet durante umas horas.
Prometo. 
 


terça-feira, fevereiro 12, 2008

O Cão que jogava xadrês XXI


Quando hoje de manhã me avistou, sentado na borda do passeio, não esperava que a minha Senhorinha reparasse neste seu fiel chevalier servant, quanto mais que me reconhecesse e, despida de vaidades, se viesse sentar no chão, a meu lado.

A minha comoção foi tal que ainda gaguejo, aqui diante destas teclas.

Não foi culpa minha se deixámos de nos ver.

E menos ainda que a narrativa dos extrordinárias ocorrências do Canil Municipal, SA, tivesse de ser suspensa.

Eu sei que passaram dias e dias, semanas, meses sem dar notícias e que a minha Senhorinha me procurou em vão.

Mas, o inimaginável aconteceu: estou curado. Eu.

Deram-me um papel carimbado, uma mão cheia de receitas para aviar numa farmácia qualquer e pronto: apontaram-me o caminho da porta.

Não que eu, ao fim de quinze anos de internato, não o soubesse. Mas, que havia de fazer?

Fingi-me atarantado, deambulei pelo átrio, com o saco a arrastar atrás de mim e á hora do almoço aproveitei a distracção dos seguranças que estavam a preencher o euro-milhões e esgueirei-me para o refeitório.

A chefe é Dona Carolina, uma gorducha de rabo empinado que anda a atirar os pés para fora e por isso, a gente chama-lhe a Pinguína. Deixou-me comer a sopa, a ela, se calhar tanto fazia, mas a Segurança mais o Médico de turno e a Assistente Social, chegaram todos ainda antes da massa guisada.

Que eu tinha família, que tinham sido avisados, dizia um, que vinham aí buscar-me acrescentava outro. E perguntaram-me se eu tinha dinheiro e onde estavam os meus documentos.

Família? Dinheiro? Documentos?

E os doentes mentais somos nós?

A Assistente, a abanar a cabeça para o Médico, como se a culpa fosse minha, escreveu imensa coisa num impresso que eu tive de assinar. A título de «põe-t'àndar-e-não-arranjes-mais-chatices» deu-me dez euros emprestados que eu teria de devolver no prazo de oito dias úteis.

Os seguranças, irritados por terem sido fintados por mais um débil mental e por me verem a sacar uns trocos, ainda por cima, acartaram comigo para a rua e ficaram a ver se eu não dava a volta e entrava de novo. Eu, bem que tentei. Mas não há nada mais cruel do que uma instituição quando tem de apertar os cordões à bolsa.

Que havia eu de fazer?

Fui tomar um café com dois pacotes de açúcar porque ainda estava a sentir fome.

A partir de agora ia ser assim.

Mas, pronto, não quis apoquentar a minha Senhorinha com as misérias deste mundo, nem quero agora incomodar as Gentis Damas e os Cavaleiros que ainda se derem ao trabalho de me ler.

Claro que, uma vez a viver na rua, com o resto de dez euros no bolso, não foi pêra doce aceder à internet. Quando se dorme nas portadas, em vãos de escada, embrulhado em jornais, sujeito, manhã atrás de manhã, a ser expulso pelo primeiro condómino que deixa o quentinho do lar, a caridade bem ordenada começa com o pequeno almoço se a tanto a sorte ajudar. Remédios, meias lavadas e acesso aos bens culturais, tudo se vai paulatinamente tornando num secundaríssimo luxo.

Basta, porém, de desculpas.

Não vim incomodar a Minha Senhorinha para me queixar e muito menos para pedinchar fosse o que fosse.

Lembra-se de que o Deus-dos-Cães (aka, ou melhor, aliás, como dizemos nós, Anúbis, aliás, o Deus-Chacal) tinha abandonado a Magrizela, o Carlinhos e o Zé Nesgas no meio da rua. Um salto prodigioso dos que só ele sabia dar levou-o ao telhado da Junta de Freguesia, onde um ruído de telhas partidas anunciou uma aterragem acidentada.

-Fosga-se, man! - exclamou o Zé Nesgas de boca aberta. - Aquilo era o Wolverine, ou era o quê?

Ninguém lhe respondeu. A Magrizela, agarrara de novo no blusão do Carlinhos e saracoteava-se com ele sem conseguir enfiar as mãos pelas mangas. Tinha já tentado enfiar um pé no bolso, mas verificara que não estava a ser muito bem sucedida. E o proprietário do dito blusão, além de tactear devagarinho a cara num sítio que enegrecia rápidamente, apercebera-se, se calhar pela primeira vez, da camisa de onze varas em que estava metido.

Levar para casa uma cadela, mesmo velha e sarnenta, era uma coisa.

Outra bem diferente era aparecer com uma chavala desavergonhadamente nua, que se agachava para fazer os necessários na borda do passeio e que insistia em lamber o focinho... perdão: o nariz dos seus novos amigos.

«Mas bem», pensou ele, «o que tem de ser tem muita força!»

Pelo menos, era o que dizia o Pai quando não acontecia nada do que ele esperava.

E lá convenceu a Magrizela a seguí-lo - para o que, diga-se, teve de puxar a corda com alguma insistência. Houvesse uma alternativa, nem que fosse fugir para o Nepal, e o seu Primo nem hesitaria. Mas o Zé Nesgas, consultado, não apresentou sugestões: hipnotizado pelo corpinho da Magrizela, estava mesmo sem préstimo nenhum.

A nossa casa, quando não se consegue pensar em mais nada e por pequenina que seja, mero tugúrio no em prédio degradado ou barraca de zinco na encosta do monte, é o nosso castelo apalaçado, a fortaleza de cujas muralhas resistimos a castelhanos e americanos, governantes e banqueiros e aos grande da Alfredo Arroja.
«É», diria a Stoura Laura, se por acaso andasse por alí, «o próprio devir histórico», fosse o que fosse que isso quisesse dizer.

Mesmo não sendo longe, o acesso ao lar não se realizou sem algumas dificuldades. A Mãe do Carlinhos e distinta Tia da minha Senhorinha, só para dar um exemplo, começou logo a ralhar:

- De onde é que o menino vem a uma hora destas? E olhe-me para essas calças! Onde é que as estragou dessa maneira, diga lá! Andou à briga outra vez lá na escola, já estou a ver! Já tirar essa roupa e tomar um banho!

O ar feroz da sua Tia era o menos. O Carlinhos estava habituado e se a Mãe julgava que as palmadas lhe faziam mossa, ora bem, desde que o Zé Nesgas conseguisse fazer entrar a Magrizela pelas trazeiras até ao quarto! O Carlinhos achou por bem fazer uma gritaria à laia de manobra de diversão:

- Aiai, Mãezinha, não me bata, aiai! - e marchou para a casa de banho seguido da Senhora sua Tia.

O seu Tio, esse, regressado do bar onde a doce Svetlhana lhe ouvira as queixas e os projectos e lhe ia renovando as taças do suave «Guy Fawlkes blue» a doze euros cada uma, começava a sentir um par de dores fininhas, de cabeça uma, de remorso, a outra.

Não poude por isso impedir-se de berrar como um paquiderme em trabalho de parto: «Gaita que não há sossego nesta casa!»; «Deixa lá o rapaz, irra! Já tem idade para se desenrascar sozinho!»; «Se não tiver, não tem, canudo! E o jantar, onde é que está? Não se janta hoje, está-se a ver!»

A sua Tia, lá do fundo e ainda a empurrar o seu Primo Carlinhos, retorquiu que, «se queria intervir na educação do seu filho, tivesse vindo a horas. E que, quem tarde viesse, comesse do que trouxesse, nunca tinha ouvido?»

O Carlinhos, um pouco mais animado porque a trovoada lhe passava por cima da cabeça e ia chover noutras planícies, entrou rápido para o duche enquanto o tom da troca de ideias entre os progenitores subia vários decibéis. A Mãe, de um lado, clamava por respeito. O Pai, do outro, também. E o Carlinhos, embrulhado no toalhão, aproveitou para se esgueirar para o quarto.

A Magrizela, tapada com o edredon no meio do tapete enrodilhado, dormia com um ar pacifíco enquanto o Zé Nesgas, agarrado ao teclado do computador, dava tiros aos extra-terrestres azuis que surgiam aos cantos do monitor.

- Man - disse ele sem desviar os olhos de um monstro castanho que emergia de uma bilha. - Essa garina é esquisita com'á porra! Mal entrou, começou às voltas no tapete e ferrou-se a dormir.

Interrompeu-se para disparar uma saraivada de balas contra o inimigo que se desfez em geleia.

- Assim em pelota e tudo. - continuou ele depois de gritar «g'anda tiro, viste?» - Tive de a tapar, com o teu edredon. Ond'é que tu arranjaste este embrulho? A minha irmã também não é grande coisa, mas esta bate-a aos pontos todos os dias da semana!

O seu Primo ofendeu-se e agarrou-o por um braço:

- Como é que tu sabes? - contrpôs ele. - Só hoje é que a viste!

- Eu sou ceguinho, não?... - interrompeu-se com um sobressalto e um berro: - Porra, man! Perdi por tua culpa!
O Game Over aparecia de facto no monitor que piscava triunfante. Os uofâres enchiam o quarto de acordes fúnebres.
De cenho franzido, o Zé Nesgas libertou-se da mão do Carlinhos.
- E quando é que ela se veste? - perguntou ele; e acrescentou escusadamente: - Não pode andar assim.
- Julgas que eu não sei? Mas onde é que eu vou arranjar-lhe roupa? E quem é que lhe ensina... hum... haaa... man, a gente tem de ter cuecas, tás a ver! E tem de as baixar, tás a ver, quando for á casa de banho e isso.
E, perante o esgar céptico do Zé Nesgas, o seu Primo lançou as mãos à cabeça:
- Fosga-se! Não tinha pensado nisso! O papel higiénico! A gaja não sabe usar o papel higiénico!
- És tótó ou tás a disfarçar? Com aquela idade e não havia de saber tudo isso e mais que tu?
- Não, não sabe. Ou achas que os cães precisam de saber essas coisas?
- Cães? Quais cães, meu? Os gajos da Arroja amachucaram-te os miolos! De certeza.
O Carlinhos esbravejou:
- Cães, sim, cães. Não vês a coleira dela? E não viste o salto do Deus-dos-Cães que partiu o telhado todo?
Sabe Deus, Gentil Senhorinha, onde teria levado a discussão se a sua Tia não tivesse batido à porta e chamado:
- Carlinhos! Já se vestiu? Convide o seu amigo e venha comer que já passa da hora. E não demore. Já hoje me fez perder a paciência!
Refiro-me, claro, ao nosso Deus. O tal Anúbis, esse desaparecera como se a sua missão na vida estivesse cumprida.
Mas, a razão pela qual eu a vim procurar, Gentil Senhorinha, terá de ficar para outro dia.
São quase horas de chegar a casa, vinda do seu trabalho, e eu não quero que sinta outra vez essa piedade funda que leio nos seus olhos.
Levo-lhe aquele pão pequeno, se me perdoa mais este abuso. Às vezes, à noite, quando o frio aperta, é bom ter uma côdea para ir rilhando.
Bem haja.

sexta-feira, setembro 21, 2007

O Cão que jogava xadrez XX

Lembra-se a minha gentil Senhorinha e lembram-se, talvez, as nobres Damas e os generosos Cavaleiros que nos lêem: quando as grandes desgraças da minha vida ocorreram, o Carlinhos, cheio de vontade de ir à casa de banho acabava de descobrir que, amarrada por um pedaço de cordão à coleira, trazia uma jovenzita em trajos zero.
Não fora a presença dos matulões da Alfredo Arroja - uma escola secundária ali perto, como já devo ter dito algures, no meio desta confusão - e o seu Priminho, que, tirando uma fotografias curiosas e uns sites mais ou menos explícitos e não muito pedagógicos, sobretudo para un jovencito de pocos años, teria ficado paralizado, os olhitos arregalados, porque, permita-me a minha Senhorinha dizê-lo: um corpo feminino, seja de menina, seja de velhinha, é a mais bela coisa que Deus criou. E o fascínio desta primeira visão nunca mais terá igual, por mais anos que se viva.
Mas, desculpe-me a minha Senhorinha, receio ter-me desviado.
Com estes remédios que me fazem o maior bem, devo dizê-lo, perco-me com alguma facilidade e a minha orientação espacial deixa um bocadinho a desejar. Suponho que... bom, peço perdão, já não sei bem o que é que eu supunha, pero me escusaran.
Vamos aos factos, que é onde eu menos me perco:
Perante os olhares gulosos (e um tanto envergonhados, convenho) de lúbrica concupisciência dos jovens secundaristas, o seu primo Carlinhos despiu rápido o blusão e fez com ele uma espécie de biombo. Queria, é óbvio, enquanto as bochechas se lhe cobriam de rubor, encobrir as desnudas intimidades da Magrizela.
Os crescidos da Alfredo Arroja, esses é que não concordaram. Não que os peitinhos da chavaleca fossem assim como as mamas da Pamela Anderson, nem que os seus pelitos púbicos estivessem tosquiados à moicano. Mas era o que havia, adolescente que se preza não é esquisito, porra!
Por isso, o mais reguila, que não o maior - esse ainda não tinha acabado de rir, umas gargalhadas que mais pareciam soluços - avançou com ar de ameaça:
- Sais da frente, ó minorcas, senão ainda levas na trombeta!
O Carlinhos tentou afastar a Magrizela empurrando-a com o blusão e tudo:
-Sai o quê! - refilou ele quase a chegar à esquina, de onde, aliás, nenhum socorro era de esperar. Mas o inesperado, muito embora com uma lamentável raridade, digo eu e a minha Senhorinha perdoar-me-á, por vezes ainda acontece.

Não foi, como leitores menos prevenidos poderiam ingenuamente esperar, uma intervenção da Divina Providência. Se fosse, algo de verdadeiramente sensacional havia de acontecer. Nos filmes de guerra americanos são os marines que desembarcam, loiros e escanhoados e com óculos ray ban para esconder a bondade intrínseca dos olhos azuis. Nos de cawboys e índios é a cavalaria que chega, comandada pelo velho e heróico coronel de farta cabeleira branca e impoluta casaca azul.
Ali, o que surdiu, a assobiar, gingão e de mãos nas algibeiras, foi o Zé Nesgas.- O Zé Nesgas? - perguntam as nobres Damas, os galhardos Cavaleiros.
Vejo-os daqui a franzirem os narizes. Como se alguma divindade a querer sacar de um herói, se lembrasse de um pequenitates, magrinho que nem um espeto e asmático ainda por cima.

Mas, acreditem ou não, por maldade ou ironia do destino, quem apareceu mesmo foi o próprio Zé Nesgas e ponto final.
- Fosga-se, man! - exclamou ele. - Que merdé-éstáqui?

E sem olhar a mais, sem querer perceber sequer, atirou-se para a molhada que se tinha formado entretanto.

Ele era uma perna do Carlinhos para aqui, um nariz da Alfredo Arroja esborrachado por um oportuno joelho, os óculos pisados com um crrac de mau agoiro e, Musas ajudai-me a descrever este gloriosos lance: que pensa a minha Senhorinha e que pensais vós, Damas e Cavaleiros, que terá feito a Magrizela?

Ora! Vieram-lhe ao de cima aqueles ímpetos caninos a que o delicioso aroma da adrenalina faz apelo e, com os beiços recuados a deixar ver uns dentitos brancos, rosnou um surdo rugido e lançou-se na refrega de um só galgão. E, curioso, desobriu ela, as mãos agarravam, fechavam-se sobre as coisas, um orelha no caso, enquanto os dentes rasgavam a gola do polar do infeliz secundarista.

- Man, a gaja é maluca, fosga-se! Ajuda aqui! - gritava a vítima.

Infelizmente para ele, um dos companheiros estava ocupado a sovar o Carlinhos e o outro estava a rodopiar aos pulinhos. Não se tratava, claro, nem de uma dança folclórica, nem de alguma extemporânea manifestação de júbilo. Era o Zé Nesgas que, se lhe agarrara de unhas e dentes à perna esquerda, as mãos fincadas no largo cinto pregueado, as pernas firmemente enganchadas à volta do joelho do grandalhão.

A coisa parecia empatada, o Carlinhos apanhava, a Magrizela mordia e o terceiro participante nesta guerra caseira não conseguia desenvencilhar-se do Zé Nesgas nem fazer-lhe grande mossa.

Foi então que o vozeirão do Deus-dos-Cães se fez ouvir:

- Não chega ainda, ó seus pamonhas?
Por mais de uns quantos segundos, até que a autoridade daquela voz penetrasse nas consciências dos lutadores, a molhada persistiu.
Mas já cansados, cada um afrouxou a presa e acharam-se os seis, arrojanos e amigos do seu Primo Carlinhos, sentados no passeio, exaustos, a respirar com força e a desentupir os narizes com esforçadas fungadelas.
Anúbis, o Deus-Chacal, empoleirado no tejadilho de uma Renault Trafic, olhava-os de cima para baixo, com desprezo.
- Seus xondranhecos! Bibicrichos! Não têm um grama de vergonha nessas trombas, seus futucas?
Ninguém lhe respondeu. A Magrizela porque ainda não conseguia descerrar os dentes. E os outros porque, esgotada a fúria inicial, já nem sabiam bem porque é que tinha começado a badérnia.
- Se haviam de lutar por mim, que sou a liberdade, a igualdade, a fraternidade e essas merdas todas, vocês, seus bardões, andam é à estalada uns com os outros. Não têm vergonha nessas trombas, ó parranas da porra?
Com as orelhas em pé, agigantava-se de tal modo que fazia lembrar a esfinge de Gizé.
Os alunos da Alfredo Arroja e o Zé Nesgas, que nunca tinham visto o Deus-dos-Cães e, diga-se, nem faziam ideia de que tal entidade pudesse existir, ainda recalcitraram qualquer coisa, mas pouca.
- Você tem alguma coisa com isto? - atirou o maior, a esfregar a orelha que a Magrizela tinha tentado arrancar.
Anúbis agigantou-se, os caninos subitamente a brilhar:
- E tu, queres levar um pão na tromba?
Não queria.
Os outros dois agarraram-no e deram-lhe a desculpa para basar sem perder a dignidade.
- Larguem-me! - dizia ele ainda enquanto os outros dois o levavam. - Aquele filho da...
Os impropérios perderam-se para lá da esquina.
Exaustos, mas triunfantes, os restantes contendores, ainda sentados no chão e a Magrizela pudicamente tapada pelo blusão do Carlinhos, olhavam para o Deus-dos-Cães.
- E agora? - perguntava Ele. - Que é que tu vais fazer?
Mas a resposta e, mais, a discussão que ela causou, só amanhã ou depois vou poder escrevê-la aqui para a minha Senhorinha.
É que está na hora da injeção e, pouco cristãmente, convenho, a enfermeira Rosinha que está hoje de serviço, não perdoa.

terça-feira, setembro 11, 2007

O Cão que jogava xadrez XIX

Há quanto tempo, Senhorinha, aqui não venho!
Quantos e quantos dias passaram sem que eu me pudesse escapar até à secretaria, o seu Primo Carlinhos e a Magrizela a contas com os crescidos da Alfredo Arroja e eu lá em baixo, numa caverna escura, ausente até de mim, atado à inapelável opinião dos doutores.
Tudo começou com uma simplicidade tão grande e tão simples, num dia gorduroso como tantos outros, com um céu baixo de trovoada, e a enfermeira Rosa, com a sua túnica branca engomada, sem uma mancha, sem uma prega!
Que diferença!
Ela imaculada, cheirando a alfazema, num passo decidido, as sapatilhas com um levíssimo "ssss" a descolar do chão de ladrilho e os copinhos com as nossas drageias a tilintarem no tabuleirinho.
Nós sebosos, suados das noites sem refrigério, barbas por fazer, cabelos empastados, com a consciência dos nossos corpos, machos e imundos, e a enfermeira Rosa, grácil, clestial e perfumada, carinhosa e doce.
- Então - ronronava ela de cama em cama - dormimos bem hoje?
E bajuladores uns, taciturnos outros, lá fomos respondendo, consoante a noite melhor ou pior dormida.
E eu, como a minha Senhorinha talvez já não recorde, andava a dormir muito pouco porque vinha para aqui, no escuro da noite, com a lanterna e o carregador de pilhas o qual, como recorda, não era o neto da idosa senhora da Loja dos Trezentos.
Ao menos através deste teclado, dizia-me eu a mim mesmo, podia estar todos os dias, nem que fosse muito pouco, com a minha gentil Senhorinha.
E nessa fatídica manhã, quando a celestial enfermeira Rosinha se aproximou da minha tarimba, eu, mal acordado, quis levantar-me para tomar os remédios e zás!
O carregador de pilhas que pesava que nem chumbo e eu, no meu cansaço, não disfarçara suficientemente bem, caiu direitinho no pé da enfermeira.
Ainda se fosse uma patorra calçada de Doc Martens! Mas qual! Era um pezinho mimoso, dentro de um sapatinho higiénico de lona branca. O carregador, que era de ferro fundido, com um espigão, uma roda e um pedal, parece que lhe acertou de quina, em cheio no dedo médio do pé direito. O tabuleirinho voou com uma espécie de arco-íris de comprimidos coloridos e ela gritou. Mas gritou mesmo.
Foi um berro rasgado, sem nada da suavidade vaporosa da enfermeira Rosa; pareceu-se mais com o barrido de uma Mãe elefante a quem acabam de roubar o bebé de três toneladas.
E se estes tectos abobadados fazem eco!
A minha Senhorinha e as nobres Damas que eventualmente ainda por aqui passem, adivinham facilmente o que se passou e depois.
Os seguranças apareceram a correr, só depois o Chefe dos Enfermeiros e os Doutores. E toda a gente falava ao mesmo tempo, só nós, os doentes, nem piávamos, paralíticos de medo.
Apenas quando um segurança deitou a mão ao carregador de baterias e eu, delicadamente lhe disse que, com o perdão da minha Senhorinha, nenhum filho de uma hetaíra ia tocar nas minhas coisas e que eu tinha direitos constitucionais e que me queria queixar ao Provedor... Bom! Foi demais para eles.
Saltaram-me em cima como os macacos indianos sobem para o tejadilho dos combóios nas suas migrações anuais. Pareciam um cacho, pendurados uns no meu braço direito, outros na perna esquerda, até que senti no, digamos, glúteo uma picada e gritei:
- Acudam que estão a drogar-me.
Se já viram um rebanho de ovelhas paradas a olhar para o cão que lhes ladra do outro lado da cerca, sabem as nobres Damas e os valorosos Cavalheiros como me olharam os meus irmãos de camarata e de infortúnio.
Em breve me senti paralizado, atirado para o catre e amarrado com as correias de segurança. Não sei o que aconteceu depois.
É uma sensação aterrorizante.
Mil vezes desejei que me tivessem posto uma daquelas camisas de forças, a minha Senhorinha não sabe como é: uma coisa de lona, cheia de correias que nos atam os braços como se estivéssemos a abraçar-nos a nós próprios sem nos deixar livres senão as pernas...
As drogas, essas a mim, pelo menos, deixam-me o espírito livre para querer, para odiar, para a cólera. Mas o corpo, esse não nos obedece. Com um esforço inaudito, o gesto esboça-se, a mão ergue-se para logo tombar exausta, sem querer próprio.
Dizemos: penso, logo existo! Eu sou eu! Mas não é um grande consolo.
Penso, logo existo! Não creio nos meus algozes! Não. Não é um grande consolo para quem, manietado, vê partir a sua lanterna, o carregador de pilhas, todos os pequeninos tesouros que lhe davam acesso à sua Senhorinha. A própria vida.
Se vida se lhe pode chamar.
Mas, se não for isto a vida, que outra coisa poderá ser?
Agora, porém, que todos com sorrisos rasgados me acham muito melhor, a caminho da verdadeira cura desde que não deixe de tomar os comprimidos, vou ter vagares, liberdades, carinhos, favores, tudo.
Sorrio pasmado para todas as coisas, carreiros de formigas, sapos no tanque, figuras de relevo na televisão, baratas nos corredores à noite, osgas a passear pela parede atrás das buganvílias. Como é bom o mundo quando os Doutores e a enfermeira Rosinha tomam conta de nós.


quinta-feira, julho 19, 2007

O Cão que jogava xadrez XVIII

Lembra-se a minha Senhorinha de que o seu Primo Carlinhos tinha ficado muito chocado com as declarações do Deus-dos-Cães - que a si mesmo chamava Anubis?

Pois ficou e nem admira, mesmo sabendo nós que a educação intransigentemente católica da sua excelente Tia já tinha sido um tanto moderada por algumas dúvidas bastante substantivas.

A culpa, diga-se, foi do inevitável Zé Nesgas que lhe disse sardónico quando o viu a sair da missa: «Ina man, porra! Também acreditas no Pai Natal?»

É claro que o seu Primo ficou danado e correu atrás do Zé Nesgas para lhe bater (ainda não eram amigos do peito). Tinha a vantagem das pernas mais compridas, mas, como perdia e muito no peso, em breve se esfalfaram ambos e sentaram-se, meio reconciliados, a ganhar fôlego.

«E tu», perguntou o Carlinhos, a romper o silêncio rancoroso, «tu não queres ir para o Céu?»

O Zé ainda gozou aquelas coisas do costume que todos ouvimos em miúdos, que não conhecia lá ninguém e que era só pobres de espírito a cavalo nas núvens. Mas depois, um bocadinho mais a sério, explicou que o Pai nunca lhe tinha ensinado essas coisas e que lá em casa só a Avó é que ia à missa, mas ele, Zé Nesgas, não ia à bola com «essas tretas para tótós».

E, como já tinham descansado, o seu Primo zangou-se outra vez e, claro, nova correria. Quando um gritou «chimpas» para atar um sapato esqueceram-se do assunto que, tem de se dizer, na altura não parecia merecer grande reflexão. Na pubredade as coisas são assim.

Mas a ideia de que «tudo aquilo» pudesse ser «treta para tótós», como o Pai Natal e o Menino Jesús a dar prendas aos betinhos, ficou a trabalhar-lhe lá dentro. Ná! O Zé Nesgas havia de ter alguma razão, senão era ele, Carlinhos, quem havia de ter ganho uma bicicleta pelos anos e não o mongas do Hugo Vinhas que só tinha negativas.
Uma coisa, porém, e as minhas Gentis Leitoras certamente já pensaram nisso, é duvidar um tanto dos deuses, admitir que este mundo pode ser assim, como que um simples jogo de forças cegas, indiferentes à justiça e ao bem.

Outra, cem vezes mais difícil, é ter umas réstias de crença, dar de caras com um deus ao vivo e perceber que ele aceita o mal com o mesmo destempero da Stora de Inglês que não tem mão na malta e, zás, marca faltas de castigo a torto e a direito. Isso é que é lixado.

Claro que a minha Senhorinha, as gentis Damas e os garbosos Cavaleiros que me lêem agastados com tanta heresia, se estão neste momento a interrogar: «Que terá toda esta conversa a ver com o que aconteceu ao Carlinhos e à Magrizela?» Mesmo compreendendo a vossa impaciência e sem querer eu, pobre demente, causar mais escândalo do que aquele que para aqui me trouxe e já não foi pouco, é necessário que vos explique o estado de espírito de um tímido jovem que ia só à procura de um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas. E que obteve ele? Uma cadela velha que não jogava coisa nenhuma?

E seria assim mesmo, sempre, que as coisas se passavam lá no Canil?

Enquanto seguia, cabisbaixo, pelas ruas afora, a Magrizela resignada à corda atrás dele, começava a pensar que nada daquilo tinha sido verdade.

- Sonhei - concluiu ele. - Ou então foi uma daquelas pedradas que a Stor Padre falou, que dão estas merdas: a gente fica marado e julga coisas. Aquele deus, Anubis ou lá o que era, não pode existir, foi o que disse a Sónia na catequese. Há um só Deus que governa no Céu e na Terra e que não me deu a bicicleta porque... pronto, não sei porquê, mas o Vinhas havia de merecer mais do que eu...

Ia assim concentrado, entretido no seu processo de denegação, e nem ouviu a Magrizela, lá atrás, a dizer «olha que giro! Sou capaz de andar como tu!» Foi só ao virar da esquina, já perto de casa, que se deparou com os matulões, da Alfredo Arroja de certeza, a barrar o caminho. Pareciam mais embaraçados do que agressivos.

- Que é que tu trazes aí, ó puto? - quase gaguejava um deles.

O Carlinhos tirou vantagem da situação e respondeu, no tom mais agreste que conseguiu:

- É um cão, não se vê?
Mas, ao dizer isto e enquanto um dos parvalhões da Alfredo Arroja se rebolava em gargalhadas alarves, «um cão, fosga-se, ouviste, o puto diz que é um cão», virou-se para apontar a Magrizela e o queixo caiu-lhe até ao peito.

Na ponta do cordão, com a coleira ao pescoço, estava uma chavalita, nuínha como tinha vindo ao mundo, bonitinha e sorridente.

- Tás a ver como eu consigo andar nas patas de trás como tu? - dizia ela.


O que aconteceu a seguir, se me escapar amanhã à noite, vou tentar contá-lo, por muito incrível que pareça. Basta dizer que o Deus-dos-Cães voltou a aparecer, empoleirado em cima de uma velha camioneta à beira do passeio, para as minhas gentis Leitoras terem uma ideia do estranho que tudo aquilo foi, para mais em pleno coração do populoso bairro.

quarta-feira, julho 04, 2007

O Cão que jogava xadrez XVII

Anúbis, o Deus-dos-Cães, ou se as minhas gentis Leitoras preferirem, o Deus-Chacal, tinha prometido resolver o problema do Carlinhos e que era, se se lembram, arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas.
Porém, mesmo tendo o olhar do artista que transforma e subverte o real - e por isso, aliás, tinha de usar aquela horrorosa e sebenta pala preta inibidora dos raios criativos, sim, mas incorrectíssimos do ponto de vista das políticas vigentes no Olimpo - não teve tempo de o usar.
Ou porque tinha levado uma pancada enorme na sua divina cabeça, ou porque as coisas são mesmo assim, mal levantou a pala do olho cego para realizar o milagre e já um vigoroso estrondo anunciava o despertar do desmaiado Guarda.
Não desejo, longe de mim, que a minha Senhorinha se ponha na situação de um Todo-Poderoso Guarda que acorda com um enorme galo na testa, o joelho sangrando devido à tábua com pregos do seu Primo Carlinhos, e, ainda por cima, as mãos e pés atados com arames.
O rugido de desespero foi tal que abalou as sólidas paredes de pedra e tijolo do centenário edifício.
Como, mas como?
Como podia ser assim contestada uma gestão de dois anos que reduzira a despeza do Canil em 18%, mesmo se, por causa do investimento e das despesas extraordinárias com os cartões de crédito da Gerência, o déficit de exercício aumentara uns ligeiros 34 pontos percentuais?
A sua fúria foi horrenda e temerosa.
Os arames resistiram a um primeiro puxão, mas ao segundo rebentaram e um coro de alarme ergueu-se entre os cães que, fechados ainda nas suas gaiolas, não tinham podido escapar.
Os próprios Diabretes se precipitaram, «ó da Guarda, ó da Guarda» esquecendo-se, claro, de que quem assim os assustava era o próprio Guarda.
Mas o Deus-dos-Cães já se erguia, pronto para a batalha.
- Vocês, ó bardajolas! Toca a pirar que isto agora vai ser a sério.
- Pirar para onde? - perguntou, não sem um certo sentido das oportunidades, o seu Primo Carlinhos.
Enquanto preparava o morteiro de 85, o Deus-dos-Cães, irritado, proferiu um ror de palavras que, pelo sua conotação, as minhas gentis Leitoras me dispensarão de repetir.
- Desapareçam, fosga-se! - acrescentou ele. - Tu e essa cadela sarnenta.
Uma bomba saiu do cano do morteiro e foi explodir contra a porta do matadouro, rebentando a parede, uma das vigas do tecto e fazendo cair uma infinidade de telhas. E logo outra granada, disparada pelo buraco recém aberto, ia direita ao telhado e rebentava pouco depois com uma chuva de cacos de telha, tijolo e raspas de madeira.
Anúbis, com um sorriso de orelha a orelha, acolitado pelos Diabretes que acorriam armados até aos dentes, bombardeava alegremenbte a sala onde, encolhidos nas suas gaiolas, cães, gatos e outros bichos mais ou menos inocentes se tentavam abrigar.
- Corre, - gritou a Magrizela.
E correram. As paredes ruiam, o telhado desmoronava-se, cães uivavam e Pitbuxos com cimitarras nos dentes e crisses malaios à cintura começavam a invadir a cozinha.
A Magrizela e o seu Primo Carlinhos escaparam-se por entre os destroços, uma granada que rebentou demasiado próximo - mesmo que fosse do outro lado do planeta ainda seria demasiado - deixou-os atordoados por um momento. Mas, felizmente, ali estava uma porta, daquelas de ferro que precisam de muito óleo e, volta e meia, nos entalam os dedos, mas que escolha havia?
A cadela Magrizela e o seu Primo Carlinhos precipitaram-se pela fenda entreaberta e logo a porta se fechou com um estrondo metálico e um bem-aventurado silêncio se fez.
- Então, - disse uma voz amigável. - Encontraste o teu cão, pelo que estamos a ver...
O Carlinhos olhou para cima e avistou as longas pernas e os jeans estreitinhos da garina que o tinha recebido à entrada. Estava corada e parecia feliz; respirava com força como se viver fosse uma agradável surpresa.
O Carlinhos achou-a mais bonita e, até, talvez, mais simpática.
- Não achas que é um bocado velhote para tu o levares? - perguntava entretanto a garina com a cabecinha loira um pouco inclinada. - O costume é vocês levarem um cachorrinho, sabes? São fáceis de educar, a tua mãe havia de gostar mais.
- Muito obrigado. Esta mesma aqui é que é, se puder ser.
- Então, tu é que sabes. Levas aqui o certificado e, não te esqueças: tens só quinze dias para o devolver se não se derem bem.
- Possas, a chavala é parva! - rosnou a Magrizela.
Mas, felizmente, a garina não entendeu:
- Ah, é uma cadela, e velha, ainda por cima... - disse ela. - Pronto. Aqui tens. Levas este cordão a fazer de trela, sabes, estes cães já não estão habituados a andar por aí, e além disso é a lei, ninguém cumpre, mas é o que diz a lei...
O Carlinhos despediu-se e antes de transpor o grande portão que o conduzia à rua, olhou em redor.
Nada indicava que a guerra continuasse lá no interior: o Carlinhos olhou para a Magrizela, achou-a uma velhota e perguntou a si mesmo se tinha sonhado com aquilo tudo.
- Bora daqui, - rosnou a cadela, ansiosa e mal-humorada.
E puxou pelo cordão até quase desiquilibrar o Carlinhos.
- Não é por aí - gritou ele. - É por este lado...
- Não grites, que eu não sou surda. É por esse lado porquê?
- Porque é a nossa casa. Vais tomar um banho e depois arranjo-te qualquer coisa para comeres...
- Um banho? Blheaac! Não podemos ir para qualquer outro lado?
- Não. Já estou com fome e, além disso, tenho de ir à casa-de-banho, tázaver? Já estou um bocado à rasca.
- Então? Qual é? Não tens aí árvores que bastem?
O seu Primo, Senhorinha, não soube o que responder. É que, pensava ele, mesmo se por palavras mais cruas, «como hei-de ensinar o que é pudor a uma cadela de catorze anos?»
E, se a minha Senhorinha, as nobres Damas e os bravos Cavaleiros o permitirem, como por hoje já estou cansado, deixaremos esta relevante questão para uma próxima vez em que eu me consiga esgueirar até aqui.
Pode ser?

segunda-feira, julho 02, 2007

O Cão que jogava xadrez XVI

Pois, Gentil Senhorinha.
Tinha jurado não mais voltar a este computador, nem de dia, quanto mais pela calada da noite. Tinha dito a mim próprio que devo aceitar a minha própria cobardia, os meus medos e não mais arrostar com os terrores de uma escuridão em que a lanterna cria um estreito cone de luz deixando como que em negativo toda uma zona incerta de onde as mais horríveis abominações nos espreitam.
Mas vim. Acabei por vir, após voltas e reviravoltas no estreito catre, mais estreito ainda por ocultar todo o meu tesouro nesta enfermaria de loucos de que faço parte e em que diariamente a minha personalidade se dissolve.
Nesta camarata, enfermaria, sala de exposições aberrantes, que me resta nas longas noites?
E não resisti ao apelo deste ecrã fracamente iluminado. Não resisti a falar um momento mais com a minha Senhorinha, nem me resignei a abandonar o seu Primo Carlinhos que, como talvez não recorde, tinha ido ao Canil Municipal, SA - ou EP, ou uma sigla dessas cujo significado não abranjo - para arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado porque a Mãe (a sua estimável Tia), com a mania das limpezas, jamais consentiria no menor pelo na carpete.

Ora, porém, a dificuldade está realmente aí: ser aspirado, gentilmente, como a sua Tia não deixaria de fazer, era o menos.
Jogar xadrez é que era mais complicado.
Não, como as benévolas Leitoras e os Cavaleiros que as acompanham talvez tenham pensado, por inferioridade do córtex cerebral ou por falta de um polegar oponível com que mover as pedras no tabuleiro. Não, os cães, como explicou a Magrizela mais tarde, jogam jogos muito complexos como, se a minha Senhorinha me perdoa a expressão que para eles é naturalíssima, o «Cheira aqui que eu cá mijei» ou o «Mija bem, quem quem?».
Este último jogo, sobretudo, merecia uma análise mais completa do que a que eu estou habilitado a fazer.
A minha Senhorinha já reparou certamente que os cães, ao contrário de nós, não vivem num mundo instantâneo. O sentido dominante nestes nossos amigos, sendo o olfato, permite-lhes «ver» um pessoa, por exemplo, um pouco antes e até muito depois de ela passar. Nós primatas, mantemos na nossa retina, as imagens poucas centésimas de segundo. A nossa amada, para os felizes que a têm, desaparece da nossa vista mal dobra a esquina.
Para o nosso cão, ela está ainda ali, e estará por tanto tempo quanto as moléculas do seu odor se não dissiparem por completo, o que pode demorar dias. Ou então, como para nós se vê mal em dias de nevoeiro, também para eles há dias em que os cheiros se misturam e se confundem como o templo e a taberna do Fradique Mendes.

Mas vejo, Senhorinha, que a estou a impacientar.
O que eu queria dizer é que os cães realmente bons nestes complexos jogos, escolhem estes dias de nevoeiro olfactivo para os seus campeonatos de «Mija bem, quem, quem?» E o vencedor, por vezes um rafeirote como a Magrizela ou um bassêzeco de rodas baixas, ganha no bairro um prestígio que nada na sua falta de elegãncia e dotes concursáveis faria prever.
Mas xadrêz, não. Como comer uma peça e deixar de contar com ela se o seu cheiro, a sua essência, no fundo, permanece em jogo?
Por isso, Anofis, o Deus Chacal resolveu que tinha de compensar o seu primo Carlinhos de algum modo.
Como o fez, isso, Senhorinha, receio só conseguir dizê-lo mais e depois.

domingo, junho 17, 2007

O Cão que jogava xadrez XV

Vejo agora, minha Gentil Senhorinha, em que trabalhos se meteu o Deus-dos-Cães ao querer explicar o inexplicável.
Lembra-se, como se lembram as Belas Damas e os Garbosos Cavaleiros que me escutam, da questão metafísica que o seu Primo Carlinhos lhe colocou e que, em resumo se pode formular assim:
«Se tu és um Deus, daqueles que pode tudo, porque é que a vida não é uma Graça e a temos de pagar com o sofrimento?»
Claro, não foram estas as palavras exactas do Carlinhos que nunca tinha ouvido falar de Auschewitz, nem dos bombardeamentos de Guernica ou de Dresden.
Nem sabia (os Professores de hoje em dia não ensinam nada de jeito) das bombas de fósforo ou de fragmentação, nem dos rockets de nariz perfurante que penetram em cavernas onde velhos, mulheres e crianças se julgaram abrigados.
Nem sequer ouvira falar, ou talvez sim, mas distraidamente, ao sabor dos inócuos programas da televisão, daquelas coisas que só se percebem nas entrelinhas: das crianças-soldado, por exemplo, que são drogadas com haxixe para caminharem para a morte enquanto disparam as kalaschsnikov.
Compreende agora, Senhorinha, porque me internaram aqui, neste cemitério para vivos que eles se encarregam de transformar num infantário para mortos?
É por eu ser capaz de ver, mesmo onde não o querem mostrar, o escândalo da dor. A dor do bebé-foca, morto à paulada, como a dor do cão estrangulado com um arame, a dor de uma menina a ser violada por um cidadão deste mundo crápula.
O seu Primo, com os escassos onze anos, não tinha ainda ouvido falar de nada destas coisas. Nem ouvira dizer que as raposas são muitas vezes esfoladas vivas – coisa que ouvi eu e que era a pior das torturas chinesas, ao que consta – só porque a pele fica mais brilhante e rende mais cinco euros e trinta e cinco a peça. Mas tinha visto a Emplumada viva e via-lhe agora o corpito espetado num gancho.
Percebo, ao longe, os protestos das minhas Gentis Leitoras, incomodadas com estas pouco dignificantes considerações:
- Pronto, já percebemos, homem de Deus - dizem as Nobres Damas – O que nós queremos é o resto da história.
Eu, porém, sem querer ofender a delicadeza dos vossos sentimentos e, sobretudo, o vosso bom gosto, peço licença para intercalar só mais isto e volto já ao Carlinhos:
Como pode o particular subsumir o universal, é uma questão para os filósofos e gente dessa, que gosta de saber o que diz.
Mas para o Zé Nesgas, lembrai-vos, a prepotência do grandalhão da Alfredo Arroja tinha sido a de todos os grandes do mundo. Só se lhes respondia, decidiu ele nesse instante, de dedo espetado, muito malcriadamente, convenho, mesmo que depois se leve na tromba.
E para o Carlinhos, a Emplumada foi a crueldade indiferente dos homens, quiçá, também dos deuses.
- Irra! - impacientam-se as Damas e Cavaleiros e cheios de razão.
- Que respondeu afinal o raio do Deus-dos-Cães? - perguntam.
Alonguei-me. Defeito meu que a Minha Senhorinha já conhece e pelo qual, por mais de uma vez, lhe pedi desculpas.
Que disse ele?
Ora, que havia de dizer?
Desviou a conversa, foi o que foi.
Já estou a ouvir os protestos que não deixarão de ter proferido as minhas gentis leitoras:
- Mas ele explicou ou não? – perguntam-me.
E eu respondo que não me compete a mim, pobre internado num Hospício em Rilhafoles, alterar uma vírgula aos eventos, se é que estes também usam a pontuação dos gramáticos.
- Man, - foi, portanto, exactamente o que disse o auto-denominado Deus-dos-Cães – vinhas cá para arranjar um cão que jogasse xadrez ou não?
O seu Primo, mesmo exaltado, teve de concordar.
- Isso. E que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa.
- Então, pronto, já aí a tens. Põe-te na alheta e não queiras emendar o que já está feito.
- Porquê? – perguntou o Carlinhos.
- Mas eu não sei jogar xadrez. – interrompeu, timidamente, a Magrizela. - E já sou burra demasiado velha para aprender línguas.
- Isso dá-se um jeito. Como é que há-de ser?
- Mas, - insistiu o Carlinhos, olhando lá para cima para o gancho – e ela?
- Ela o quê, pá? Não sabes que a vida é como um comboio, para que uns vão entrando, outros têm de sair? E não chateies, porra. Estou aqui a querer ajudar-te e tu não deslargas!
- Mas eu só quero perceber! – gritou o Carlinhos outra vez exaltado. – Porque é que não me explicas isto tudo?
- Porque também não sei, porra! Julgas que é fácil entender?
Calou-se amuado.
Mas depois espetou um dedo direito ao seu Primo:
- Este Canil, por exemplo, desde 1878, foi sempre gerido pela Liga dos Indefectíveis dos Animais, tázaver, uns fixes que recolhiam os vadios, aí como a Magrizela, tiravam-lhes as carraças, davam-lhes de comer e tentavam arranjar-lhes uma casa. E pronto. Era isso.
Fez outra pausa meditativa.
Os Diabretes que, como a minha Senhorinha se lembra, tinham andado à pancada, vieram sentar-se ali ao lado, a lamber as nódoas negras.
- E eu já desde o advento do cristianismo, século III ou IV, tinha largado tudo: templos incendiados, crentes perseguidos... eu que era o Anubis, o Deus-Chacal, já andava a passear pela Índia, pela África, pelo espaço para todos que ainda havia, homens, cães, feras…
- Chamas-te Anubis, é? – perguntou o seu Primo Carlinhos. – Já vi uma pintura com o teu retrato. Não estás muito parecido, pois não?
- Bico! Perguntaste, não foi? Agora ouves. Onde é que eu ia? Ah! A África. Depois foi o Livingstone, I presume, e o Capelo e Ivens e o Serpa Pinto que não presumiam nada, e as carabinas com balas dum-dum, todas essas porcarias e lá se foram os elefantes, os leões, o resto dos ursos. E fiquei eu com o problema nos braços.
“Como é que eu ia salvar os cães e as raposas, lobos, hienas, chacais e os coiotes, hem? E os mabecos? Sabes o que são os mabecos? E os dingos? Não sabes, ninguém sabe. Matam-nos, pum-pum, e esquecem-se de que são vocês que dão cabo da caça com os químicos e pesticidas. Uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca, também nunca ouviste dizer, pois não? O que é que tu sabes, puto? Não sabes nada, estás para aí a armar-te!
“As raposas foi fácil, à custa de algum sofrimento, claro, como Ápis salvou os toiros para morrerem nas praças…
“Os lobos, os lobos é que são o problema, porque estás a ver, os cães havia sempre alguém que tomava conta de um ou de outro, um de guarda outro de caça, os mais sacrificados eram os de regaço, tázaver! E aqui a Liga dos Indefectíveis fazia o que podia, em Inglaterra, em França havia clubes, uns do Boxer, outros do Setter ou do Bull Terrier… A coisa ia andando, era uma no cravo, outra na ferradura, mas ia andando.
“Até que houve uns gajos que começaram a perguntar para onde é que iam os impostos deles, e que não queriam pagar do seu dinheiro hospícios para os velhos que não tinham um seguro saúde e de coisa e tal… e que gostavam era de peixinhos doirados, porque é que o estado subsidiava este Canil Municipal que só dava despesa?
“E vá de se atirarem aos Indefectíveis. Que não mantinham a higiene, que os cães não estavam em espaços mínimos recomendados pela Comissão Europeia…
“Inventaram tudo, tázatopar, ó mongas?
“Agora passou a ser assim: espaço mínimo exigido, porreiro. Se há mais um cão que seja por hectare, que é que tu pensas que se faz?
“Pois, é isso. Tira-se-lhe o pio. Nhofas, arame ao pescoço e quando já não respira, às vezes antes até, crac, pendurado ali no gancho.
“Sim, porque ninguém é obrigado a pagar pelos cães quando gosta é de gatos, nem pelos gatos quando gosta é de canários. Rentabilidade, tázaver, rentabilidade, auto-sustentabilidade, racionalização de custos, essas coisas todas. Tás a perceber o que eu te estou a dizer?
O seu Primo, Senhorinha, abanou a cabeça desconsolado.
Queria uma resposta pão-pão, queijo-queijo, tipo «Deus está no Céu, na Terra e em toda a parte», «Fé, Esperança e Caridade», e «a treze de Maio, na Cova da Iria».
E o que lhe davam, era uma salada mais esquisita do que as da Mãe quando resolvia que estavam a engordar e precisavam de fazer dieta. E o tal Deus-dos-Cães, Anubis ou o que tinha sido, ainda fazia troça.
- Mas tu alguma vez viste alguma coisa, tu? Que é que tu queres da vida, sim, tu, ó mongas?”
- Ele ainda é um puppy! – rosnou a Magrizela, porque o seu Primo, Senhorinha, atónito, se tinha deixado descair para o chão. - Que é que tu tens que estar a chateá-lo?
O Anubis, Chacal ou o que fosse, encolheu os ombros:
- Sei lá. Que é que tu queres, tu também? É a vida.
- Não, não é. - respondeu a Magrizela, sem saber que, meio século antes, já um tal Boris Vian tinha respondido a mesma coisa. Mas o Boris Vian, como a minha Senhorinha tão bem sabe, adorava todos os animais, desde os ratinhos aos buldogues, mesmo se tinha uma clara preferência pelas meninas bonitas.
E, Senhorinha, gentis Leitoras, Cavaleiros, algum ou outro vilão como as enfermeiras aqui do hospício que se tenha subtilmente imiscuído: estou esgotado. Têm sido demasiadas as emoções, os terrores.
Juro que nunca mais venho aqui de noite, descalço, sujeito a pisar baratas, lesmas ou bichos de conta, só para vos escrever neste computador lento e caprichoso. Nunca mais, mesmo que a história do Carlinhos fique incompleta.
Se eu conseguir manter o juramento.

domingo, junho 10, 2007

O Cão que jogava xadrez XIV

Sabe, Senhorinha, minha Gentil, que estou em pensar que quem quer que tenha escolhido os letreiros das portas do Canil Municipal, acabou por mostrar um perverso sentido de humor?
Aquela por onde passou o cortejo liderado pela Magrizela, tinha uma lustrosa placa de plástico preto com letras amarelas e uma única palavra:

AVERNUS
Claro que ninguém era versado na língua latina. O seu primo Carlinhos, que suava as estopinhas nos varais lá de trás da padiola (onde ia deitado, talvez em coma, o Deus-dos-Cães) andava no 6º ano e ainda não chegara a essas complexidades. A Magrizela e os restantes canídeos que se lhes juntaram, esses além do caniguês materno, falavam a língua dos lares onde tinham nascido, quando se davam a esse trabalho.
E os Diabretes que tinham trazido a padiola e penavam agora nos varais da frente, se alguém se tivesse lembrado de lhes perguntar, teriam respondido com o gesto de apontar: o Averno? Bom, era aquilo ali dentro.
- Sim, mas o que é que quer dizer? – teria perguntado o Carlinhos se o suor que lhe escorria para os olhos não lhe turvasse até a curiosidade.
A resposta teria sido, no entanto, muito semelhante à que foi: um dos Diabretes que ia à frente, sem largar o varal que lhe competia, deu um pontapé na porta metálica que se escancarou.
Do outro lado era a visão do horror.
Cães e gatos pendiam de ganchos como se estivessem no talho, separados por tamanhos.
Uma enorme caldeira borbulhava ruidosamente mais além. Umas máquinas de plástico e metal ocupavam-se de incompreensíveis tarefas diante de ecrãs de computador. Lá em cima, as fileiras dos ganchos rangiam e avançavam aos sacões.
E foi horrorizados que o seu Primo Carlinhos, a Magrizela e os restantes cães, viram surgir, de olhos fechados e língua pendente, o corpito frágil da Emplumada.
- Chegámos tarde! – murmurou a Magrizela. – Demasiado tarde!
Um cão grande que os seguira deitou-se no chão a gemer baixinho.
- Mas isto… - gaguejou o seu Primo – isto é o quê?
- Então, - disse o Diabrete mais velho. – É que está escrito na porta: é o Schlachthoffünf. Não, o fünf é outra coisa. Pronto, aqui é a cozinha.
- Cozinha? Qual cozinha? Já estás é fora de prazo – troçou o mais novo. – Uma cozinha com guilhotinas e electrochoques? Aqui é, mas é o matadouro.
- És mesmo um margolim. Não vês que é a mesma coisa? – tornou o mais velho.
- Ai é? Margolim és tu, ó picochoso! – e zás.
Num momento estavam ao pontapé um ao outro.
O Carlinhos estava tão apardalado que nem notava as sacudidelas da padiola.
Quem notou foi o Deus-dos-Cães que, saindo do coma, levantou a cabeça, com as orelhas perigosamente para trás.
- Vocês aí, toca a acabar com a baderna! Já não se pode dormir em paz, não?
Foi demais, Gentil Senhorinha, para o seu Primo.
- Quer dizer… quer dizer que aqui matam os cães? E tu deixas?
- Tu aí, ó bardajola! Porta-te bem ou ainda te transformo em rato.
- Mas tu deixas?
- Claro que deixo. Que é querias que eu fizesse? Sabes quantos cães nascem por dia? Achas que há comida para todos? E casas? Achas?
O Carlinhos atirou com os varais ao chão e o Deus-dos-Cães à mistura.
- Mas tu não dizes que és o Deus dos Cães, tu? – numa fúria, cresceu para o outro que ainda nem se levantara e agarrou-o pela gola do blusão.
- Deslarga-me, ó mongas. Tázóvir?
- Só te largo quando me explicares isto tudo! Como é que tu deixas?
- Vê-se mesmo que não percebes nada de economia, pá. Vá lá, ou me deslargas e eu explico ou transformo-te em rato e vais parar ali ao caldeiro.
- Quero lá saber do caldeiro! Que é isso da economia?
E abanava mais e mais os colarinhos do Deus-dos-Cães, sem ligar à Magrizela aflita que tentava separá-los a bem.
- Deslarga-o lá que ele explica! Tu é que és muito puppy e ainda não sabes quanto custa estar vivo.
- Estar vivo o quê? A vida é um dom de Deus! – gritou o Carlinhos impaciente, como lhe tinham ensinado na Catequese.
O Deus-dos-Cães desatou a rir-se:
- Um dom? Pá, vê se aprendes alguma coisa, ouviste?
E sacudido pelas estrondosas gargalhadas, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara e a ensoparem-se na barba, a estranha divindade perdia as forças, deixava-se cair para o chão, a tal ponto que o seu Primo teve de o largar.
Foi a Magrizela quem, tão suavemente quanto pode, o esclareceu:
- Pois, sabes? Dantes julgava-se era assim. Agora já se percebeu...
- Já se percebeu o quê?
- Que a vida não nos é dada. É alugada, percebes? Tens de pagar a renda, pontualmente. Ou os teus pais por ti. Se não tiveres dinheiro, estás bom ali para o caldeiro, percebes?
- Tu não davas, nem cinquenta latas de almôndegas com molho para cão. – troçou o Deus-dos-Cães, já levantado e a sacudir o pó das mangas do blusão. – Mesmo muito disfarçado, não passavas por cabrito. Se fosses um gato ainda prestavas para alguma coisa. Sempre te podiam vender por lebre!
- Mas porquê? – insistia o Carlinhos. – Tu não és um Deus, daqueles que pode tudo?
O Deus-dos-Cães corou e ficou embatucado.
Como o Huck Finn, fingiu que tinha um osso atravessado na garganta.
Há quanto tempo não tinha de responder a uma pergunta daquelas?
E o que é que podia dizer?
Infelizmente tenho de parar por agora. Mas prometo, Senhorinha, Nobres Damas e Generosos Cavaleiros, que tudo o que for dito pelo Deus-dos-Cães, será aqui fielmente relatado se, por algum acaso dos comprimidos e cápsulas que me obrigam a tomar aqui no hospício, eu me não esquecer.

terça-feira, maio 29, 2007

O Cão que jogava xadrez XIII

Se é verdade, Gentil Senhorinha, que os Deuses me protegem, como estou em crer após a sucessão de milagres que me têm acontecido nestes dias, estou em crer também que é mais por causa do seu Primo Carlinhos e da Magrizela.
Que poderiam os Deuses querer deste seu chevalier servant, senão que os leve a bom porto, agora que, ajudados pelos atakadores e por uma tábua com pregos, derrubaram o Gigante Guarda-Mor e libertaram o Deus-dos-Cães?
É certo, Senhorinha, que a gratidão nunca andou bem distribuída, desde o dia da criação. Os cães, pobres deles, ficaram com toda. Deuses, homens, cucos, ratazanas e gaivotas ficaram sem nada que se visse.
O caso foi que, caído lá de cima, depois da estrondosa marradela na mais alta das traves de ferro, o Deus-dos-Cães nem sequer agradeceu:
- Seus paspalhos! - foi o que ele disse: - Tava tudo sob controle!
Levantou-se um pouco de esguelha, apoiado a uma rima de jaulas:
- Que é que vocês tinham de meter o focinho, hem?
Deu mais dois passos cambaleantes e declarou: «Tudo sob contrôle, ouviram seus paspalhões?»
E despenhou-se novamente.
Os cães mais próximos, os que ainda não tinham conseguido fugir das jaulas amachucadas com os trambulhões, protestaram:
- Não durmas ainda, Senhor! Salva-nos, salva-nos agora!
E logo outros das jaulas contíguas, mas que não conseguiam ver o que se passava, juntaram-se ao coro uivando «Salva-nos, salva-nos!»
A Magrizela suspirou.
- Tomem conta dele - pediu. - Vou ali pedir ajuda!
E lá foi, no seu trote coxo, corredor afora.
O seu Primo Carlinhos e o Diabrete a atavam o gigantesco Guarda o melhor possível com uns arames enquanto os atakadores, em delírio, se tinham batido uns com os outros pelas ilhós e estavam num novelo inextricável. Os sapatos, esses jaziam de lado, todos retraçados.
- Vou passar dias a desenredá-los! - choramingava o Diabrete.
- Deixa lá, eu depois ajudo-te. - ofereceu-se o Carlinhos.
- Mas é que tu não sabes. É preciso untá-los com um azeitinho de primeira para ficarem bem soltinhos. Depois tens de mexer suavemente com um garfo, ir juntando mais azeite até formarem uma pasta uniforme. É assim que eles se vão separando, um a um, percebes? Tu agarras nesse com cuidadinho, secas com papel absorvente, passas por açucar em calda e guardas num saco lavado. Depois fazes a mesma coisa até ao último estar arranjadinho e fechas o saco até serem precisos outra vez.
A Magrizela aparecera neste meio tempo.
- Agora não há tempo para isso - ordenou ela. - Temos de levar o Senhor daqui antes que este acorde. Não pensem que ele não parte os arames com uma penada, tão a ouvir?
- Mas eu não posso ir... - gemeu o Diabrete. - São os meus bichinhos de estimação, olha para eles, não os posso levar assim!
- Ai não? - rosnou a Magrizela. - Queres ver que podes? Vocês aí! Já para dentro do saco!
Avançou para o molho dos atakadores com os dentes todos à mostra. Já não eram muitos, mas os atakadores começaram a tremer como geleia .
- Eu conto até três. Depois começo a retraçá-los à dentada que vocês nem sabem de que terra são! Um...
Com guinchinhos de pavor os filamentos começaram a separar-se.
- Tu és uma malvada! - choramingou o Diabrete. - Venham cá, meus pequeninos, venham ao papá...
- Dois...
Os atakadores, literalmente, saltaram para dentro do saquinho que os tinha trazido. Foi tão precipitado, Senhorinha, que o seu Primo Carlinhos só se lembrou do dia em que a Mãe ia abrir um pacote de esparguetes e ele se rompeu por baixo e a sua Tia desatou a chorar. Pois bem, era ao contrário: era como se os esparguetes arrependidos saltassem do chão, de debaixo do fogão, do frigorífico, dos armários de volta para o pacote e as lágrimas trepassem outra vez, rosto acima, até aos olhos da pobre Senhora.
Mas a Magrizela não consentiu em mais demoras:
- Agora toca a andar! Tu vai buscar a padiola e vê se arranjas ajuda. E tu, miúdo, anda depressa comigo. Sabe Deus o que eles vão fazer à Emplumada.
Correram de novo. O Deus-dos-Cães continuava estendido, completamente desacordado ou talvez estivesse só a aproveitar para dormir uma sesta: o certo é que nem se tinha mexido. O pequeno grupo de cães à sua volta, esse, porém, tinha engrossado a olhos vistos e entupia consideravelmente o corredor entre as jaulas.
- Deixem passar, deixem passar
Como, sob o comando firme da Magrizela, se organizou a procissão e o Deus-dos-Cães foi levado de padiola e o que aconteceu a tão estranho cortejo, só posso dizer amanhã ou depois porque já me doi a perna de estar aqui a dar ao pedal do carregador das baterias e, de qualquer modo, a manhã está a chegar.
Por isso, se a minha Gentil Senhorinha, as Nobres Damas que me lêem e os Valorosos Cavaleiros derem licença, vou ver se roubo qualquer coisita na cozinha enquanto as cozinheiras não entram ao serviço e não nos dão o pequeno almoço - que, deve dizer-se, geralmente é mesmo muito pequeno.
Mas, que se há-de fazer quando se está num Rilhafoles como este?
Pois. Eu também não sei.