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terça-feira, setembro 11, 2012

Hegel

 
 
Ao ilustre filósofo
Georges Wilhelm Friedrich Hegel
 
O Pavão
 
De tanto molhar as penas
No tinteiro da razão,
Entalou o ego em dilemas,
Furou com o aparo o tinteiro
E tratado que levou ao livreiro
Não passava de um borrão.
Não há belo sem senão.
 

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

sábado, abril 21, 2012

In fine

Se se nos acabar o tempo
(que é a essência do fundamento)
Lamento,
Mas quero lá saber:
Já não vamos estar cá
Para ver.

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

terça-feira, janeiro 26, 2010

Dados empíricos



- Diz, Titi: tu não tens pipi.
- Disparate, João.
Toda a gente tem.
A Tia também.
- Não tens, não.
No outro dia,
na pia,
estavas a fazer xixi,
eu espreitei
e não vi.


João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

terça-feira, outubro 07, 2008

A Metafísica é uma arma ...


Manipansicas 1

Penso panso, manipanso,
manipanso Malpertuis.

Panso penso, manipanso,
Moi je pense, donc je suis.
João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

terça-feira, agosto 26, 2008

Mails de férias

(Resposta a um convite para ir almoçar a Lisboa e percorrer depois, em passo descansado e facunda conversa, a Feira das Velharias de Belém)

Não, meu caro Sérgio, mesmo que hoje fosse a mais interessante das feiras do Relógio ou de Carcavelos, melhor ainda do que a da Ladra, hoje não me apanhavas em Lisboa nem por um decreto.
Amanhã é que a minha ida (com o perdão pela palavra má:) é bué da provável. Eu explico. Hoje de manhã apanhei um susto terrível.
O caso não foi para menos.
Os meus cães que dormem nos tapetes do meu quarto, um de cada lado da cama, devem ter ouvido ruídos de automóveis, vozes, gente a passar. Como sabes, moro num sítio isolado e esses gentis animais nossos amigos consideram que que se passa a menos de um quilómetro do portão é uma clara invasão do seu território. E vá de fazer um escândalo tal que me acordou espavorido.
Na altura, nem me lembrei do poema:
«Aos domingos é uma chiça/ só se fazem coisas tôlas:/ as putas vão para a missa/ os maridos, à caça às rôlas.» (1)
Mas, enfim, tudo isto para dizer que, completamente estremunhado, talvez mesmo em estado agudo de sonambulismo, lá fui tropeçando abrir a porta do quintal. Os cães saíram em grande grita e atropelo, espero que tenham dado alarme às três rolas que sobraram do ano passado e que elas tenham dito umas para as outras:
«Fosga-se! Porque é que estes gajos não se agarram uns aos outros em vez de nos virem fornicar a nós?»
E foi quando, sem querer, encarei com a minha própria imagem, a olhar-me do lado de lá do espelho, olhar vítreo, as pálpebras a meia haste como se estivessem a cumprir um luto nacional qualquer.
Em alturas destas não admira que nos ocorram as mais pitecantrópicas reflexões.
Para além das metafísicas, do tipo «então isto é que é a imagem e semelhança de Nosso Senhor?» e «é pá, além de velho, estás ficar feio como o caraças», surgiram outros pensamentos mais comezinhos (mas igualmente vãos) do tipo «amanhã vais a Lisboa e cortas essa trunfa toda a ver se ficas com melhor cara, òvistes
E pronto: as mais graves e solenes decisões da história da humanidade – por exemplo, quando o Hitler disse a si mesmo, «pá, bora invadir a Polónia!» – são tomadas com a mesma ponderação com que eu declarei: «Amanhã vais a Lisboa, cortas o cabelo e almoças com o Sérgio! Tá decidido!»
E pronto.
Receio que, ao receberes este mail, estranhes a linguagem em que vai escrito, desbragada e tão contra os meus cavalheirescos costumes. Mas tem uma explicação que talvez ajude a desculpá-la. É que todos estes graves acontecimentos ocorreram às seis da manhã. Imaginas? Quase de véspera!
Um abraço.
Tacci
(1) Linda quadra do João Bessa, se ainda te lembras.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Mea Culpa

A propósito de um post do "Portugal, Caramba", um amigo mandou-nos um mail, nem por isso muito educado e que eu transcrevo sem vénia nenhuma porque ele não merece:


«Pá, escreveste uma coisa sobre ter o rei na barriga e não te lembraste da quadra do João? Não achas que era tua obrigação falar nele, e já agora, no Leal?»

A este «amigo», que não me autorizou a chamar os bois pelo nome (toma!), só posso dizer que pode ficar com a bicicleta: eu não conhecia esta quadra do João Bessa, como não devo conhecer duzentas mil outras que estão na colecção privada dos amigos recolectores de guardanapos, toalhas de papel e bilhetes de autocarro.

Quanto ao Zé, o José Bação Leal, eu não o conheci tão bem como este «amigo» e creio que o recente filme da senhorinha Luísa Marinho, de seu nome "Poeticamente exausto, verticalmente só» contribuirá muito mais e muito melhor para o dar a compreender.

Posto isto, e dado que o «amigo» tem razão (mesmo se eu me recuso a dar-lha) aqui fica a quadra do João Bessa:

Eu queria ser Monárquico,

mas há uma coisa que m'intriga:

haverá rei bastante,

p'ra tanto qu'o traz na barriga?