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segunda-feira, agosto 08, 2011

Domínio público, Mil e uma noites frágeis e O homem do turbante verde

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1.
Quem visse assim, sem mais, o título deste post, havia de achar que se tratava do início de um conto do Jarry, ou, no mínimo, de um apontamento deixado por um desses poetas que dantes publicavam nas páginas literárias.
Mas não: são os títulos dos três livros que mais recentemente por aqui andaram, curiosamente, a velocidades muito desiguais.
Explicando: 
Como toda a gente já reparou, as pessoas que lêem, não importa se são amantes de música pimba ou se reviram os olhos a ouvir Kodály, lêem de maneiras diferente.
Umas são grandes leitoras, levam um livro de duzentas e vinte páginas debaixo do braço quando vão para o emprego de manhã. À hora do almoço já se passeiam meditativamente pela Bertrand ou pela Fnac, petisca aqui, petisca ali, e, ao fim do dia, durante a viagem de combóio para Mem Martins, devorado o último capítulo, só lhes resta espreitar o jornal do vizinho.
Há também os que preferem as leituras saboreadas, reflectidas. O Stig Larsen, nos seus três tomos volumosos, dá-lhes para um ano e meio e ainda sobra; um Gonçalo Tavares, para um semestre.
Outros ainda, arrastam o livro pela mesa de cabeceira, levam-no para o restaurante e para as esplanadas em fim de tarde; acabam por o perder sem a vista lhes ter alcançado mais do que alguns parágrafos.
Esquecê-lo no Metro, foi uma bem-vinda arrelia, um inconfessado alívio.
Nós aqui no Portugal, Caramba! acumulamos esses três modos de ler e ainda lhes juntamos mais alguns que agora não nos ocorrem. Ou sim: os livros da má consciência, já ouviram falar?
Compramo-los, às vezes só por dever, mas arrastam-se por aí; passamos por eles da cozinha para a sala de estar e fazemos vista grossa não vá ele gritar-nos «então? fale à gente e guarde o seu dinheiro!»
2. 
O Domínio Público, do Paulo Castilho (LeYa, D. Quixote, 2011), foi um exemplo do primeiro caso.
Note-se que se trata de um dos nossos autores favoritos, portanto, é um daqueles que nos fazem precipitar-nos para a livraria mal nos damos conta de que um novo livro saiu do prelo. Infelizmente não é muito célere a informação: já o Domínio Público andava pelos escaparates desde Junho e eu só no fim de Julho me dei conta disso. A Leya não deve ter investido muito na exposição do livro porque, mesmo à procura dele, não foi fácil encontrá-lo, escondido como estava entre os que o tempo já obscureceu.
Enfim: tardou, mas arrecadou!
Domínio Público, como todos os livros de Paulo Castilho, lê-se de um trago.
Primeiro porque voltamos a encontrar a Rita e o Filipe, gente que conhecemos novinhos em Por outras palavras. Tínhamos já reencontrado o Filipe em Letra e Música,  agora vêmo-lo novamente reunido com a Rita.
Paulo Castilho, ele que nos perdoe, tem em comum com a Enid Blyton uma tendência para a série: Novas aventuras de Rita e Filipe, Rita e Filipe partem para outra, etc., seriam títulos bem-vindos a seguir ao Domínio Público se os editores fossem todos como o Honorato - outra das personagens reincidentes de Paulo Castilho. 
O Honorato é o sarcástico - e cínico q. b. - editor do Filipe com quem, de longe, vai dialogando, regra geral por mail. Nunca, que nos lembremos, aparece nas histórias, senão por interposta correspondência, toda no estilo "gosto muito de intelectuais obscuros. Alguns dos meus amigos são intelectuais obscuros. Mas o problema dos intelectuais obscuros é que só outros intelectuais obscuros fingem que os lêem." (Letra e música, p. 22)
Também a Rita é reincidente, mas quem sabe se não está ali para representar um tipo quando a própria aceita definir-se pelas palavras do seu ex-namorado Filipe?
"... Só quero o teu bem," diz ela, "portanto, conselho gratuito da Rita, arranja uma menina boazinha, é mais o teu género. Eu não estou disponível e, além disso, achas que sou difícil e imprevisível e cansativa e não se pode contar comigo - como tiveste em tempos a amabilidade de me explicar, mas felizmente nunca me chateio." (Domínio Público, pp. 66, 67)
A personagem aparecia-nos já esboçada na Patrícia de Sinais exteriores, por exemplo, e desdobra-se neste Domínio Público. A Sofia e a Filomena ["Na minha sala vive-se e portanto estão lá os objectos com que eu vivo. Não estão desarrumados. Estão a viver comigo." (D.P. p. 81)]  são variações de um mesmo espírito improvisador e desarrumado, que, aliás, partilham com muitas das personagens masculinas, como se, para Paulo Castilho, Portugal fosse esta desarrumação indolente em que um ou outro rasgo acaba às vezes por emergir, para nos salvar da banalidade.
Enquanto esse rasgo vem e não vem, a família da Sofia, da Filomena e do Tiago - que namora a nossa conhecida Rita - projecta uma Fundação que perpetue a memória e o legado do avô Póvoa - mas com o dinheiro que ele tinha herdado do sogro e depois do cunhado. Infelizmente, tudo irá soçobrar em mais improvisações: habituada a gastar até à delapidação do património, com o àvontade de quem não depende do seu próprio trabalho, a Família Póvoa (também dita Alves) recorre a um corretor da Wall Steet e a investimentos ilegais para ir mantendo o rendimento anterior. Acaba, azares da vida, por cair nas malhas da justiça americana: computadores apreendidos, acções confiscadas, multas.
O resultado está à vista: verdadeira imagem do nosso país, a supérflua Fundação é a primeira coisa a desaparecer no urgente downsizing da família.
A Rita e o Filipe perdem o emprego e, num final digno da corrida no Aterro, dos Maias, decidem que vão emigrar para a Irlanda, para a Bélgica; entram numa pastelaria; ela come uma brisa, ele um pastel de nata.  
"Isto é que me reconcilia com a vida", remata a Rita.
E sim, se o Domínio Público não nos reconcilia com a vida, pelo menos faz-nos sorrir à custa dela.
Se estivessemos em Inglaterra, havia a possibilidade de uma BBC agarrar nesta novela e fazer uma série, quatro episódios de quarenta e cinco minutos cada, já imaginaram? Com actores escolhidos a dedo, cenários de encanto e o argumento devidamente trabalhado para não se saber ao certo, até ao último momento, quem era o responsável pelo descalabro económico da Fundação.
Talvez os maus fossem castigados para se salvar a moral, mas isso, está bem de ver, só acontece na televisão. Não propriamente na realidade e ainda menos nos romances de Paulo Castilho.  
3.
Outro livro dos que queríamos falar custou-nos a ler, mas não pensem que a culpa foi nossa; nem, diga-se desde já, da novela Mil e uma noites frágeis de Beatrriz Lamas de Oliveira (LuLu, 2010).
Mas acontece que nem tudo dá jeito a toda a gente.
O telemóvel sim, normalmente, mas se quisermos andar por aí no mais severo anonimato, o melhor é deixá-lo em casa, desligado e escondido com o cartão de crédito, na mais funda das gavetas, debaixo das camisolas de inverno. As portagens na auto-estrada também se pagam com umas moedinhas - foi para isso que o dinheiro foi inventado, muito antes da Via Verde, lembram-se? E telefonar, só das cabines públicas. 
A nós, no entanto, o que mais nos encanita nesta coisa das tecnologias novas são os livros.
Habituámo-nos, defeitos de educação, a ler na cama, nem que seja umas linhas, antes de nos rendermos ao sono.
Sabemos que faz mal à vista, que incomoda as nossas companheiras, não só porque mantemos a luz acesa quando elas querem dormir, mas até porque, sem dar por isso, adormecemos, o calhamaço desprende-se-nos das mãos e tomba fragorosamente! Acordam elas com a disposição que se imagina, o pobre cão que dormia pacificamente no tapete apanha com a lombada em cima e desperta ele também com um salto e um ganido: cena completa!
Quando o livro nos chega pela net, em formato PDF, então os problemas tornam-se graves. Para o ler tem de se ficar sentado aqui a esta secretária, com o ecrã na frente, a tecla do PgDn em vez do tranquilo molhar com cuspo o indicador e voltar a página. Nem pensar em levar o portátil para o quarto. Já imaginaram o estrondo que o pobre aparelho fazia se nos caísse das mãos? E em que estado ficaria o pobre cachorro, que olhar de espanto e censura não nos deitaria?
Havia outros recursos, claro. 
Uma tablet, por exemplo. Ou a impressora.
Mas a tablet pesa pelo menos meio quilo e não se recomenda deixá-la cair muitas vezes.
Imprimir as cento e quarenta e três páginas da novela da Beatriz Lamas de Oliveira, isso sim, era uma alternativa, mesmo se o formato A4 não é nada cómodo e também obriga a um peso nada despiciendo.
Aqui há tempos quisemos ler a tese de mestrado de uma amiga e, catástrofe: pesava um quilo e tresentos, as páginas desataram a soltar-se umas das outras, pareciam loucas a enfiar-se para baixo dos móveis. 
- Que Diabo? - praguejámos. - Porque não hão-de os editores exercer as funções a que Deus os destinou e não imprimem eles  próprios - por interposto tipógrafo, está bem de ver - aquelas coisas que nós gostamos de ler?
4.
Mas, adiante!
Temos estado a ler, em PDF, é certo, o livro de Beatriz Lemas de Oliveira que já referimos, Mil e uma noites frágeis, e por mais de uma vez tivemos de interromper a leitura, desligar o computador, com grave prejuízo das nossas pequenas manias: sublinhar, voltar atrás, rabiscar um comentário nas margens, levá-lo connosco para o consultório do dentista, ler umas linhas enquanto se espera que abra a passagem de nível ou mude o sinal vermelho. 
Da autora, já tínhamos lido O Insecto Imperfeito, publicado em 1999 pela a Gradiva, editora que desperdiçou a oportunidade de publicar também esta segunda novela.
Insecto Imperfeito retratava-nos a relação entre uma mulher jovem, da classe média-superior e um «estranjeiro», "amputado de ressonância interna, curto-circuitado entre o desejar e acto imediato de cumprir o desejo na pele, na boca, nas mãos, no sexo, quase sempre hirto." (p. 19) O estranjeiro, cuja única habilidade parece ser um desporto radical - a pentacolada - cola-se económica e sentimentalmente à sua nova conquista e permite-se chamar "estupidezes" às tarefas domésticas (e não só) que tornam possível o viver comum.
Não é um livro ameno, mesmo se a dor da protagonista quase se não deixa surpreender.
Em Mil e uma noites frágeis, pelo contrário, é ela o tema dominante, primeiro como tristeza, luto por um amor trágico, só depois como aceitação de si própria, abertura para a possibilidade de um renovado êxtase.
Na narrativa, misturam-se, aparentemente ao acaso, o percurso interior da narradora, Teresa de seu nome, com os episódios de uma excursão à Tunísia em que ela se inscreveu como quem compra um parentesis no tempo.
Viaja tão anónima quanto possível, escondendo a sua identidade de médica psiquiatra e fazendo-se passar por uma menos comprometedora assistente de consultório: evita estabelecer laços com os companheiros de viagem, absorve-se na leitura de si mesma, do diário que escreveu em tempos de crise emocional.
As rotinas destas excursões, as pausas para o espanto ou para a gula, os momentos livres que se abrem ao convívio e aos namoricos mais ou menos inconsequentes, os longos percursos entre cidades e monumentos, horas em autocarros com ar condicionado, tudo isso permite um recolher-se a si mesmo, uma fuga ao seu eu habitual, à sua história, num sentido muito amplo, ao seu currículo. 
Também a alienígena narradora de  O insecto imperfeito recorria a um inner-space, "uma vastidão de silêncio onde nos podemos recolher sempre que o espaço exterior seja sentido como desagradável ou opressivo." (O Insecto..., p. 6)
De modo semelhante, Teresa descreve-se como recolhida nesse inner-space, mas numa longa espera: 
"Eu, é um pouco como se estivesse há muito, muito tempo, com a mala tão cheia e pesada, uma mala cheia de perplexidade, procurando a estação, a estação do ano, da camioneta, do metro, do combóio, do navio, onde há-de estar escrito o lugar do meu destino." (Mil e uma noites frágeis, p. 81)
Esta espera, este longo arrastar de perplexidades é, primeiramente, a zona de refúgio, de recusa, como era o inner-space para a alienígena de O Insecto:
"Vi-lhe o brilho de triunfo no olhar quando [...] o deixei avançar para os botões da minha blusa.
Fechei os olhos e comecei a recuar para o meu silencioso inner-space. Lá fora, Uriel, triunfante, exercia uma imaginária, mas milenar, exibição de poder masculino." (O Insecto..., p. 36)
Mas esse refúgio, que pode ser apenas o banco da retaguarda de um autocarro onde se vai fumar um transgressor cigarro,  é também a zona da espera e do acolhimento.
"Enamoro-me" escrevera Teresao, a narradora  de As mil e uma noites, no seu diário, "quando no outro pressinto (ou imagino?) a igualdade no uso de sinais e de símbolos que permitem o acesso ao meu mundo interno."
E conclui:
"Entrego-me num desejo de absoluto e de fusão. A fragilidade da entrega reside na lucidez de a saber impossível." (Mil e uma noites..., pp. 82, 83)
Mas, como a novela irá mostrar, ao menos por momentos, a fusão acontece.
5. 
Em vez de lermos os livro de fio a pavio, como nos aconteceu com Guerra e Paz ou com  A Montanha mágica, agora pegamos e largamos meia dúzia deles ao mesmo tempo: sacrifica-se a Anna Arendt ao Irmão Cadfael, e este abandona-se a favor do Afonso Cruz - de quem, um destes dias, em Deus querendo, se há-de falar neste blog.
São os sinais do tempo, da velhice que já vai espreitando ou, se calhar, apenas da fartura: quando o dinheirinho, o vil metal era ainda mais escasso nos nossos jovens bolsos, comprava-se com sacrifício um volumezito da Coleção Miniatura ou da Argonauta, e quinze tostões de uma bica e três e quinhentos de um maço de Porto davam para uma tarde inteira, as aulas que se lixassem.
O livro acabava-se enquanto o diabo esfrega um olho e, no resto do mês, se um amigo não tivesse a generosidade de nos emprestar a Ana Karenina ou A Mãe do Gorki, só restava reler o que lá por casa houvesse.
A ilha do tesouro, por exemplo, pela quarta ou pela vigésima vez.
Agora vai-se ao supermercado e, à mistura com a alface e os camarões congelados, compra-se um Joseph Ratzinger ou um Miguel Sousa Tavares, assim reduzidos à dimensão das hortaliças.
Não foi o caso do Mário de Carvalho, mas quase.
Não demos por este O homem do turbante verde (Caminho, 2011) senão quando, ainda a digerir A arte de morrer longe (Caminho, 2010), deparámos com ele num centro comercial.
Lemos os dois primeiros contos, «O homem do turbante verde» e «Na terra dos Makalueles» e, francamente, o entusiasmo não foi grande. Admitimos perfeitamente que o Mário de Carvalho se divertiu a escrevê-los. Os mais sagrados deveres de um escritor, cremos, são para consigo mesmo e divertir-se, em calhando não é o menor.
Mas só com «A rua dos Remolares» ou «A secção de campo», para começar, nos sentimos a aderir - mesmo se com um travozinho a castigar-nos o riso.
E, entre o divertimento de «O celacanto» e o tal travo amargo de «A longa marcha», a decisão impôs-se: O homem do turbante verde é um livro para andar por aí, por cima das mesas, para pegar e ler umas páginas sempre que os discursos ministeriais ou o último Dan Brown nos agoniarem um pouco para além do costume.
6.
E pronto: ata est.
Nunca um post foi tão comprido neste blog. Safa!

terça-feira, março 11, 2008

A Sala Magenta


O José Rodrigues Miguéis tinha pouca sorte com os barbeiros.
Eu, salvas as devidas distâncias, é com os escritores portugueses que tenho azar. Aos maiores, não os leio. Confesso o meu mau gosto: nem a Agostina, nem o Mário Cláudio, nem o Lobo Antunes. O José Saramago vou lendo, mas nem sempre com o mesmo gosto.
Saudei, como toda a gente o Memorial do Convento, mas não o reli. Da Jangada de Pedra, sim. Gostei e releio-o uma vez por outra. Detestei aquele do Cerco de Lisboa, voltei a gostar do Todos os nomes e nem por isso do Evangelho. E por aí fora.
Depois, começa o meu azar.
A Fernanda Botelho faleceu. Ponto final.
A Ana Teresa Pereira, com uma escrita linda, para minha perplexidade, parece-me andar a reescrever sempre o mesmo livro. O defeito, certamente, é meu. Mas que fazer?
A Beatriz Lamas de Oliveira, essa, que eu saiba, escreveu um só livro. Se alguém souber de outros, por favor, avise-me. Correrei Seca e Meca para os achar, mesmo correndo o risco, como a Raínha Victória quando mandou comprar a obra completa de Lewis Carroll, de me achar com um tratado de topologia nas mãos. Até lá, passo melancólico pela estante, pego n'O Insecto Imperfeito que já conheço quase de cor e penso que há desperdícios imperdoáveis. O desta escritora, por exemplo.

O Paulo Castilho foi também, durante alguns anos, aquele autor cujo aparecimento nos escaparates eu vigiava ansioso. Não que tivesse gostado particularmente de Fora de Horas. Mas, se me permitem o pretenciosismo, percebia-se que estava ali um escritor. E Sinais exteriores, depois Parte incerta, confirmaram-me no meu interesse. Finalmente veio o Por outras palavras. Já lá vão vários anos. Desde então para cá, continuo a procurar em vão a letra «C» nas prateleiras das livrarias e a reler, de vez em quando as ...Outras palavras, os Sinais. Algum amigo (certamente mais do alheio do que meu) ficou-me com a Parte incerta. Procuro-a, até hoje, pelos alfarrabistas porque não há reedições.
É a isto que eu chamo pouca sorte.

Há também o João Aguiar.
Explêndido o Navegador Solitário.
Divertido e imaginativo com O Homem sem nome e com a Encomendação das almas. E com o juvenil O Sétimo Herói.
Que importam os dois primeiros livros da sua trilogia inspirada em Macau se o último, A Catedral verde, se lê de penalti, como fazem os miúdos com os shots nas discotecas e os pedreiros nas tabernas com copos de três?
No meu pouco modesto critério, a marca de um bom livro (ou como dizia o Professor Manuel Antunes, de um óptimo livro) é que vale a pena relê-lo. E o Diálogo das Compensadas, a par com Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Gabriela Cravo e Canela, A cidade e as serras e poucos mais, lê-se sempre com o mesmo prazer, como se fosse um livro novo. Se só pudesse levar dez livros para uma ilha deserta, as Flores ou o Corvo, vá lá, eu recusava-me a ir, claro.
Mas, se fossem cem ou cento e cinquenta... levava as Compensadas e ia. Tinham era de me jurar que nem o Cavaco nem o Sócrates passavam por lá em visita de Estado. (Aqui para nós que ninguém nos ouve, que história é essa das presidências abertas? Porque é que não as fecham e não as enterram bem fundo? Não há já poluição que chegue? Desculpem. Onde é que íamos? Ah, sim:)
No entanto, será impressão minha ou o João Aguiar está em crise? Se ele me perdoa, O jardim das delícias é repetitivo. Como nos livros da Ana Teresa Pereira, eu tive a impressão de que já o tinha lido e relido não há muito tempo. Dos livros infantis, prefiro não dizer nada. E o Neandertalzinho do Lapedo parece-me bom jornalismo, muito interessante, primorosamente escrito, mas só isso. Bem sei, já são qualidades que cheguem. Mas eu continuo à espera de outro Navegador solitário que não há meio de vir.
Pouca sorte? Espero bem que não. Já estou a bater com os nós dos dedos na madeira e a dizer «lagarto, lagarto, lagarto!»
Mas não o tenho procurado pelas livrarias da Baixa com o empenho que dantes soía.

O terceiro dos autores portugueses cuja escrita tento acompanhar é o Mário de Carvalho. O primeiro livro que dele li, há já vários e tormentosos anos, foi A paixão do Conde de Fróis. Mesmo sendo radicalmente desconfiado de narrativas illo temporais, gostei da novela. O Mário de Carvalho conseguia não lhe dar um tom bafiento, erudito-gradioso. E havia, lá por trás, sempre presente, um sólido cepticismo, uma concepção sarcástica do heroísmo pátrio, do nacional politiquismo. Mas devo dizer que só prestei realmente atenção ao escritor a partir do Era bom que trocássemos ums ideias sobre o assunto. Erro meu. Em vez de ter lido logo Os Alferes, ainda ando à procura deles. Encontrei o Fabulário, os Casos do Beco das Sardinheiras, mas não os Quatrocentos mil sestércios.

Foi, no entanto, a Fantasia para dois coronéis e uma piscina, talvez o menos «sério» de todos os seus livros, a lembrar a magia de Casos, o que eu mais gostei. Nos Casos havia quem engolisse a Lua, uma torneira que se abria no Céu, confundia-se "o Manel Germano com o género humano".

Na Fantasia aparecem deuses pendurados nas árvores, seguimos atentamente as impressões trocadas entre um melro e um mocho, assistimos à destruição dos vestígios de uma vila romana e à odisseia marítima de uma Renault 4.

Tudo podia acontecer e acontece mesmo. Uma claque de desportivos quadrúpedes destrói uma estação de serviço na auto-estrada e o «mocinho» desta fantasiosa cavalgada, heróico escaquista (onde raio foi o Mário de Carvalho desencantar este sinónimo de jogador de xadrêz?) aproveita para se deixar seduzir pela bar-tender da cafetaria. O realismo fantástico, que não raro apanha o escritor numa núvem espessa de misticismo (como aconteceu com a Isabel Allende, com o Didier van Couwelaert e o próprio João Aguiar), é no Mário de Carvalho assumido como paródia e como paródia deve ser lido. Tudo é fogo de artifício: da política ao heróico patriotismo, das velhas gerações inúteis dos anos sessenta aos jovens Cláudios a cumprir pena por delitos vários, drogas diversas, orfandades múltiplas.

E, de súbito, um'A sala magenta.

«Magenta» é uma cor. Entre o vermelho e o azul, uma cor quente e uma fria, aí está o «fúcsia», a cor feminina por excelência. As deusas já não precisam de se pendurar nas árvores, na torre das igrejas: estão por todo o lado nas paredes magenta.

"Não sei se é uma história de amor, se é uma história de paixão", diz o autor a Rodrigues da Silva numa entrevista. "E de raiva e de ressentimento, também."

O romance também não nos esclarece. Pode ser que tenha uma continuação, como Os três mosqueteiros em Vinte anos depois.

Pouca sorte. Vamos ter de aguardar.