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domingo, fevereiro 03, 2013

Ora Zico!

Já não há muito a dizer sobre o pittbull, actualmente a residir num canil em Beja, se ainda não morreu, que dá (ou dava) pelo nome de Zico.
Não foi, como só acontece ao Mário de Carvalho (onde é que eu já escrevi isto? nem me lembro...) o caso de um Bispo ter mordido o cão, mas foi quase.
Na falta de melhor, cortes de subsídios de doença, por exemplo, ou despedimentos em massa, a malta precipitou-se quando viu - num vídeo, suponho - o Zico a ser levado entre duas cordas. E, para mais, com aquele ar de parvo que os cães têm quando não percebem o que lhes está a acontecer.
Não faço a mais pequena ideia de quantos habitantes deste rectângulo esquecido por Deus têm conta aberta - e algumas delas bem chorudas - nesse BPN da banalidade que é o facebook.
Seja que número fôr, setenta mil dessas pessoas a assinar uma petição para que a vida do Zico fosse poupada, é obra. Sobretudo se pensarmos que sobre a cabeça do canídeo pesava a suspeita de ser um assassino e que a lei portuguesa, boa ou má, manda que os animais perigosos sejam abatidos, ponto final.
Se estas setenta mil assinaturas - e o chorrilho de asneiras e de insultos cruzados entre os assinantes e os que se recusaram a assinar - não são um sinal claríssimo do mal-estar da nossa cultura, não sei o que sejam.
Não tenhamos ilusões: em Portugal, na Espanha, na China, milhares e milhares de cães são mortos todos os anos. Até na filantrópica Inglaterra de onde nos vieram as primeiras preocupações com o bem-estar dos cavalos!
Porquê agora e porquê o Zico?
Que matou realmente uma criança de ano e meio, não oferece grandes dúvidas.
Argumentou-se, um pouco por todo o lado, que a criança não apresentava marcas das dentadas que não deixaria de apresentar caso tivesse sido morta pelo cão e, sim, tinha sofrido um traumatismo craneano. Mas o relatório da autópsia, a acreditar nos jornais, é bastante claro: há marcas do ataque, sim senhor, características, insofismáveis.
Se a palavra assassino tem significado, então o Zico é um cão assassino, e outro ponto final.
Mas alto!
«Merde! a guarda morre, mas não se rende!», como disse exemplarmente o general Cambronne. Os defensores do Zico têm mais argumentos.
Partindo do princípio sagrado de que o bicho é meigo, incapaz de actos violentos, só poderia ter sido trocado: um outro pittbull, esse sim, agressivo e bom para a luta seria o responsável pela morte da criança. Valia, porém, demasiado dinheiro em combates clandestinos. O Zico, bom e carinhoso, teria sido sacrificado em nome da ganância do dono que preferia perder um palerma sem préstimo a ficar sem o seu gladiador.
A dúvida metódica que tanto trouxe à cultura ocidental obriga-nos a levar a sério essa hipótese. Se uma coisa é possível, de certeza acontece, nem que seja na infinidade dos mundos - ou na infinidade do tempo, como pretendia Gell-Mann, o prémio Nobel da Física de 1969.
Terá acontecido justamente aqui e agora, neste mundo e no ano da graça de 2013? Será o Zico um outro Zico?
Talvez se possa ainda saber: se os defensores da tese do «Zico meigo» ainda forem a tempo e quiserem provar a sua (dele) inocência, que se prestem a pagar o teste de ADN, como vemos nas televisivas séries do CSI-Qualquer Coisa: há-de haver vestígios da saliva do cão em qualquer sítio, não?
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Os defensores do Zico têm-se dividido em dois grupos principais: os que afirmam a sua inocência a todo o custo - não, o cão não matou a criança - e os que, aceitando que tenha sido ele o autor das dentadas fatais, atiram as responsabilidades para os donos do animal.
E chegamos aqui à razão de ser deste post.
Nem uns nem outros têm razão.
A começar pelos que acham que um cão meigo não pode ter atitudes de uma extrema violência, são cegos ou nunca viram o caniche deles próprios atirar-se com os dentes todos de fora ao gato da vizinha. Podem, claro, como as crianças, como nós próprios: o caso é haver uma provocação que vá para lá dos limites da educação ou do medo. Um gato, por exemplo.
E os que acham que o cão, por ser um animal irracional, não pode ser responsabilizado, também não se mostram muito mais razoáveis.
Em primeiro lugar: irracional é o quê?
«Razão» nunca foi fácil de definir. Parece, no entanto pacífico que ser capaz de abstrair, de concluir acerca de coisas que não se vêem a partir dos dados percepcionados, é a capacidade fundamental da razão; e sabe-se, desde Crisipo (sec. III aC) que os cães são capazes deste tipo de raciocínios. Continuar a chamar-lhes, a eles e tantos outros, irracionais, diria eu, parece-se imenso com um preconceito, tanto mais que está solidamente estabelecido o uso da linguagem por espécies não humanas: chimpanzés, por exemplo, ou papagaios.
Porque não o cão? Tal como nós, humanos, também o cão é um animal social. E como todos os animais sociais, também ele necessita de uma linguagem que lhe permita ocupar um lugar na sociedade, interpretar sinais, dar a conhecer os seus estados interiores: com fome, amigável ou agressivo, aborrecido, interessado e curioso, desconfiado, com medo.
Que estes sinais são claramente interpretados pelos outros cães não parece oferecer grandes dúvidas:  cada um deles corresponde a um (chamemos-lhe assim:) protoconceito, a que correspondem comportamentos adequados, quer sejam inatos, quer adquiridos através dos mecanismos de inserção nas diferentes matilhas. E parece evidente que todos os cães aprendem a controlar, por exemplo, a fome enquanto esperam que os mais velhos, os mais acima na hierarquia, os donos, os deixem comer. O mesmo se passa com os outros impulsos, como é óbvio.
Também o Zico trouxe consigo, desde que nasceu, impulsos destes que a vida em sociedade lhe teria ensinado a controlar, moderando ou inibindo os seus esquemas básicos de comportamento. Quando nasceu, não era meigo ou agressivo: não dava afectuosas lambidelas nem mordia a torto e a direito; mas esses comportamentos faziam parte do seu equipamento de sobrevivência e ensaiou-os abundantemente enquanto bebé: mordiscou, lambeu, lutou e adormeceu aquietado junto dos seus irmãos de ninhada.
Teve de ser ensinado a que a sua agressividade é inútil porque na sua matilha - constituida geralmente pelos donos - não o agride; e que a «meiguice» lhe permite uma muito melhor integração. As escolas tentam fazer isso mesmo aos nossos filhos, mas raramente são bem sucedidas porque nós não os ensinámos de forma eficiente enquanto eram cachorrinhos.
E depois lá vem a desculpa:
- Pois, coitadinho do puto! Vem de uma família disfuncional ...
E são perdoados, como foram os assassinos da Gisberta, também eles institucionalizados porque as famílias de que vinham não os controlavam, não é?
E o Zico, veio de onde?
Alguma assistente social avaliou se alguém o mandava à escola, se estava bem alimentado, se fazia exercício, se, se, se?
Porque esses eram os seus direitos, e são os direitos o que lhe conferia deveres.
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Não tenhamos dúvida: um cão pode ser culpado e não apenas causador de um prejuízo. Ou pode estar inocente.
Quero dizer que ele tem capacidade para aprender normas, que interiorizou os seus deveres e que sabe quando os desrespeita.
A prova é que o faz justamente quando nós não estamos a olhar; tem medo de ser castigado, pois tem. É como eu: até hoje nunca entendi por que raio têm as câmaras municipais o direito de me alugar o espaço público (que, por ser público, já é meu) quando quero estacionar o carro. E se o fiscal da EMEL não fosse uma ameaça bem presente no meu espírito, eu bem vos digo quem é que lá metia as moedas.
Tal como o meu cão quando resolve trepar para o sofá e dormir lá uma sesta bem quentinha.
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Dizer que os animais, por serem irracionais não podem ser julgados ou que podem ser castigados sem julgamento, não se parece demasiado com afirmações do tipo «ah! os pretos não percebem nada de nada, são todos terroristas»? E que, portanto, a tropa portuguesa podia entrar por uma aldeia adentro e matar a torto e a direito? Não era semelhante a justificação da escravatura?
Não é essa a justificação das toiradas, dos ferros cravados, do animal torturado para gáudio dos espectadores?
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E para terminar, já agora, uma perguntinha só:
O leitor já leu O Mandarim, do Eça de Queiroz.
Se o leitor visse um homem a torturar um cão e tivesse uma campaínha, do género da que o Senhor Diabo deu ao amanuense Teodoro, ou vá lá: uma caçadeira - e a certeza de que não seria descoberto - a quem matava?
O homem ou o cão? 

domingo, agosto 01, 2010

Festa Brava & Companhia

Homenagem à Catalunha
"Ai daquele por quem o escândalo vem!"
Lucas, XVII, 1
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A dor é um escândalo, o escândalo dos escândalos!
Lembram-se do que disse Cristo quando O crucificaram?
«Pai, Pai, porque me abandonaste», não foi?
Que terá Ele dito, horas depois, quando esteve cara a cara com o próprio Pai?
«Pai, perdoo-te»?
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Que dirá um toiro, à chegada ao céu?
«Meu Senhor e meu Deus, perdoo-te»?
Ou não perdoará nunca, num rancor eterno?
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Os apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João legaram-nos muitos dos episódios da vida de Cristo: a mulher adúltera a quem aquele que nunca tivesse pecado atiraria a primeira pedra... Sorte a dela, eram honestos os judeus que não se acharam assim tão impolutos. Se fossem os nossos governantes, pobre mulher!
Narraram também o milagre das bodas de Caná, a água transformada em vinho... não que os mixordeiros aqui da zona não fossem capazes do mesmo: tonéis e tonéis de água, palha, um pouco de açúcar, e pronto: chamava-se vinho a martelo. Vendia-se à tropa, claro, que os magalas bebiam tudo, e às tabernas, os bêbados do costume, preciso era que tivesse álcool.
Nós também o bebíamos, em casotas de fado, ao jarro, um líquido azurrapado, que o dinheiro não chegava para mais. Se desse ressaca, pronto, era como diria o António Variações, é p'rámanhã, deixa lá, não penses já!
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Mas nada de perdermos o fio à meada: há o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes - e já que estamos a falar de peixes - há também a pesca milagrosa e o caminhar sobre as águas do lago Tiberíades, e há o Lázaro ressuscitado...
Esqueceram-se os Evangelistas de mostrar o que Cristo pensava dos nossos irmãos mais simples. Claro que havia o jumentinho em que Cristo fez a entrada em Jerusalém, havia o burrinho e a vaca que assistiram ao seu nascimento, mas apenas como humildes figurantes. Foi preciso esperar por São Francisco de Assis, pelo hino ao irmão Sol, pelo irmão Lobo.
É claro que o Lobo também caça. E também mata.
É claro que o gato é cruel, brinca com o rato enquanto a fome não aperta. E a leoa, com as garras a rasgar os quartos traseiros do boi cavalo pode também parecer cruel. Mas, nem o gato, nem a leoa têm opção. O que tem de ser, tem muita força.
E não acarreta culpa.
Ou sim?
De quem?
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Culpa de um Criador que fez um Mundo para a dor?
Há muito quem não perdoe a Deus por a ter inventado.
É útil, sem dúvida, quando ensina que o fogo queima, que nos entrou uma pedra para o sapato, que cairmos de um ramo mais alto da árvore aleija.
Mas, para lá desta finalidade, digamos, pedagógica, também há a dor inútil: a dor de uma criança com uma doença terminal, por exemplo. Ou a dor que enlouquece, quando se nos parte um dente. Por isso inventámos os analgésicos. Por isso inventámos os cuidados paliativos. Por isso inventámos as anestesias.
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O século XIX foi crucial em muitos aspectos.
Foi quando se aboliu a escravatura, lembram-se?
Foi quando se aboliu a prisão por dívidas, lembram-se?
Foi quando as crianças foram olhadas como seres com identidade própria, com direito a crescer, a educar-se.
Foi quando nasceu Maria Montessori.
Foi quando Anna Sewell publicou Black Beauty, a autobiografia de um Cavalo, traduzida do original equino...
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Os toiros não.
Nenhum best seller se lhes refere senão do ponto de vista da festa brava. Hemmingway, The sun also rises e Death in the afternoon, claro, mas pior ainda: Bataille e Histoire de l'oeil. Se ao primeiro é a luta de morte, a guerra, enfim, o que o fascina, e sobre isso escreverá até ao fim dos seus dias, Bataille o que vê na morte do toiro é a identidade do prazer e da dor. Eros e thanatos, de braço dado no meio do redondel.
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Quando alguém fala dos toiros, daqueles animais pretos, de olhar calmo quando andam pelas lezírias, o palavreado que jorra imediatamente é do mais curioso: começa pela festa que é bravura, valentia, pundunor; é nobreza, é orgulho, é coragem; e é emoção, é arte...
E, quase sempre, é tradição, é patriotismo, os nossos reis também foram toureiros. E fadistas, quando calha.
E depois, as cores quentes: a festa brava é vermelha e amarela, cores do verão, do calor, os trajes são de luces, as mulheres são belas e vestem cores garridas. Os cavalos, que dantes eram esventrados na arena, oferecidos à fúria do toiro em pontas, sangravam, cobriam-se também do vermelho, como sangram às vezes os cavalos de lide, montados por cavaleiros com aguçadas esporas. E como sangram os forcados quando colhidos.
Mas o sangue sacrificial, aquele que é feito jorrar sob o ferro do picador, sob as bandarilhas, o estoque e a choupa, o sangue que faz subir ao rubro toda a praça, esse é o do toiro.
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Dizem-me que as vacas, quando as separam dos vitelos, quando as arrastam para o matadouro, choram.
Não sei se os toiros na arena o fazem. Não sabemos se, lá do fundo do seu cérebro de bovinos, não estarão a perguntar:
«Pai, pai, porque me abandonaste?»
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O Parlamento da Catalunha, na sequência de uma petição com muitos milhares de assinaturas, decidiu por maioria, como fazem todos os parlamentos, proibir as toiradas. Não os encierros, as largadas, ou pamplonas como por aqui lhes chamamos.
Apenas o costume de espetar ferros num animal sem outra defesa, com barbelas para não caírem e para continuarem a sangrá-lo. Apenas o costume de lhe espetar um estoque para que uma multidão entusiasta grite «olé!»
Honra seja ao Parlamento catalão.
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Fernando Savater, um indivíduo que é dito ser «filósofo e escritor», e que mereceu alguma notoriedade pelo seu livrinho Ética para Amador (1991; Amador era o nome do seu filho, jóvem na altura), publicou no El País uma crónica intitulada "Vuelve el Santo Ofício".
Entre outras coisas curiosas, escreve:
"Se deixarmos de lado essa sandice de que o aficionado desfruta com a crueldade e o sofrimento que vê na praça: se o que quisesse fosse ver sofrer, bastar-lhe-ia passear-se pelo matadouro municipal..."
Para ele, pois, o aficcionado não é um sádico, é um esteta; o matadouro é feio. O sofrimento dos animais que são abatidos não tem o charme de uma grande encenação, é inestético. E aqui se situa o cerne desta polémica: o animal de lide, é para ser lidado - o que é uma tautologia, ou melhor ainda: é definir pelo definido - as considerações éticas aqui não têm cabimento.
A ética trata das relações com os nossos semelhantes e não com a Natureza. São Francisco estava errado, os ecologistas estão errados.
Eu estou errado.
Que bom ter um Fernando Savater para me ensinar estas coisas.
Ainda bem que, finalmente, compreendemos que os matadouros - que não são visita aconselhável às crianças - e as praças de touros - que tabém não, supomos nós - têm igual estatuto ético.
Que mais dizer?