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quinta-feira, abril 24, 2008

Violenta repressão em Cuba

- Então! Nem um cassetete, ao menos, porra?

sexta-feira, abril 04, 2008

Joseph Ratzinger V

Francamente! Não me lembro de os Bispos de ali ao lado, nas Espanhas, terem sido chamados ao Vaticano e, em calhando, nem era preciso.
Mas os nossos foram. Não sei porquê: pinta-me que se andavam a portar mal. Tolerantes? Acomodados?
Não que se tivessem tornado verdadeiros pais, sofredores com o rebanho dos seus filhos, padres de espírito conciliar chamando à Igreja os mais humildes.
Não. Não era bem isso.
Mas, num povo de costumes tão brandos, irritável e agressor, sim, por vezes, mas logo manso e arrependido?
Melhor era que se deixasse estar, não era nenhuma fera, mas porquê acordá-lo? Talvez não mostrasse ameaçadoras presas, mas disparate era o mais provável.
O Senhor Papa, porém, é teutónico! Duvido que entenda estas nossas subtilezas. Para ele o pão é pão e o queijo é queijo.
A religião, sendo uma velhíssima hitória, é um património com dois mil anos. A Hierarquia é a sua única proprietária, a sua única intérprete com patente registada, a única dispensadora da Graça e do Perdão. Perdoarás a quem te ofendeu? Não. O Perdão é um dom divino que só a Hierarquia pode dispensar.
Amarás o próximo como a ti mesmo? Sim, desde que perguntes ao teu «legítimo Superior» quem, e o que fez para ser o teu próximo.
Pôr termo ao laxismo, como se vê, era imperioso.
E, se os Bispos nuestros hermanos endureceram as suas atitudes, ao ponto, por exemplo, de apelarem ao voto contra os partidos que aprovaram o casamento de homossexuais - os da esquerda, óbvio, se estes pobres socialistas como se chamam, ainda o são... - a Conferência Episcopal Portuguesa reelegeu o Senhor D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga.
Nada contra.
Os Senhores Bispos que elejam quem muito bem puderem.
Mas que o eleito corra logo a gritar «ah! sacrilégio! laicismo! ateus! expulsaram-nos da praça pública!», isso já não parece tão curial.
Tanto mais que, já antes tinha saído a terreiro a clamar que iam proibir a assistência religiosa nos hospitais e por aí fora. Não era bem verdade, mas que importa?
Se, de facto, ainda não vimos ninguém do governo, ou mesmo fora dele, sair para a rua a gritar horrorosos insultos como «católicos!» ou «papa-missas!», também não deixa de ser facto que, cada vez mais, as pessoas se divorciam sem pedir conselho espiritual, que se juntam em pecado em vez de casar como deve ser. E agora as mulheres até já podem abortar legalmente em vez de se submeterem à penitência do opróbrio e do vão de escada, ao medo e à dor.
É o escândalo, percebem?
Quase tão mau como rezar a Santa Missa de frente para os fiéis, numa língua que eles entendem.
Ah, caramba!
Que o Papa seja infalível... pois. Tem de ser.
Mas o João XXIII, Senhor... ?
Porque nos dais tanta dor? Porque padecemos assim?

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Justiça Privada

No Diário de Notícias de Segunda-feira, 3 de Dezembro do ano da Graça de 2007, vem esta preciosa notícia. Os ingénuos que julgavam que a Justiça era da competência exclusiva dos Tribunais, têm agora a possibilidade de se actualizar.

Justiça?

Porquê pagar mais?

Faça você mesmo!


O Portugal Caramba! propõe-lhe um kit de sobrevivência judiciária que lhe garantirá direitos reais, imaginários e locupletários.


1. Espingarda Holland & Holland, London, de canos e coronha já serrados, de modo a adaptar-se ao seu punho. A classe de uma arma personalizada, de fecharia de prata, coronha de nogueira e garantia para toda a vida.






Até os agentes do Estado o respeitarão.



2. Pistola metralhadora Uzi.



A garantia da eficiência da Mossad ao serviço da sua Justiça privada.

Se é o medo quem guarda a vinha, a Uzi guardará ainda mais eficientemente os seus direitos.





3. Um motorista da Agência Flanders & Gates, Assistência e Protecção, S. A., California, com provas dadas no Iraque, na Gâmbia e no Sudão.

Todos os nossos colaboradores têm cursos de Intimidação, Extorsão(1) e outras coisas que não seriam aprovadas pelo Tribunal Internacional dos Direitos do Homem. Mas, pronto, quem puder pagar, também pode mandar, não será?

Sim, e porquê só os outros?

(1) Extorsão, extorsão, extorsão.

quinta-feira, julho 26, 2007

Homem ao Mar!

Livros!
Gostam de livros?
Pois.
A mim, de pequenino, ensinaram-me a estimá-los.
No livro da terceira classe, ou um desses, vinha uma história, das edificantes, género alguém a perguntar:
‘Viveis sempre só, Senhor Petrarca?’
‘Só?’, respondia o poeta, ‘Vivo sempre rodeado de amigos.’
E, arredando uma cortina, mostrava uma fila de livros.
Eu não sabia quem era esse tal Petrarca, mas a reposta dele estava de acordo com os conselhos maternos.
A Senhora Minha Mãe era uma leitora impenitente. Já bastante velhinha ainda olhava em redor, via um livro em cima de uma mesa e perguntava: «Que tal é este livro?»
E zás, antes de saber a resposta ou sequer se alguém o estava a ler ainda, começava a sua paulatina leitura. Parava, de vez em quando, para fazer um comentário.
Já com os seus oitenta, ou perto disso, leu A Montanha Mágica pela primeira vez. Adorou reencontrar um mundo ainda próximo daquele que viveu na sua meninice, quando a doença romântica era a tuberculose porque levava os jovens e quando uma senhora de sessenta anos «era de muita idade». Quando os vícios ainda não se chamavam adicções: eram o vinho, o tabaco e, o mais desgraçado de todos, o jogo.
E toda a gente, desde sempre, fazia troça. Contavam-se histórias das suas distracções.
A mais célebre era a do arroz.
“Vergonha,” decretou um dia o Milôr Fernandes, “não é fazer embrulho de papel de jornal. Vergonha é ler o embrulho.”
A minha Mãe passou por essa vergonha.
Foi assim: antigamente, quando havia tempo para essas coisas, tirava-se do lume o arroz ainda com muito caldo e punha-se na arca, embrulhado em jornais, a enxugar.
À hora da refeição, estava soberbamente cozido e solto.
Um dia em que a mandaram buscar o arroz à arca, obedeceu prontamente, mas nunca mais voltou. Dá para adivinhar que foram dar com ela, muito quieta, ao pé da arca, a ler um folhetim no papel do embrulho.
Esta foi a mais importante das influências que eu sofri.
Mas houve outras.
A minha Avó era da firme opinião de que ler fazia mal. Como tantos outros vícios, só moderadamente se devia abusar. «Tanto leu que tresleu!», dizia-se e era verdade. E vinha o exemplo:
- Olha o Dr. Ferrer! Tinha tantos livros que tinha uma criada só para limpar o pó à biblioteca! E tanto leu que ficou assim! (gesto significativo de senilidade precoce ou irremissível demência)
Para a Senhora minha Avó, uma asserção universal provava-se, sem possibilidade de contradição, por um exemplo socialmente admissível. E não valia a pena contraditá-la usando o contra-exemplo: que uma andorinha não fazia o Verão, também era indiscutível.
Outras pessoas da família, ou não liam ou saltavam as partes mais aborrecidas. Imagino que A Montanha Mágica, com as suas mil e tal páginas, se lesse em hora e meia: os discursos do Sr. Setembrini, decididamente, não tinham interesse nenhum.
Para a minha Mãe, não.
Um livro começava-se pelo princípio e lia-se todo. Era uma espécie de cobardia abandoná-lo a meio, fosse qual fosse o pretexto. Era como se nos tivéssemos deixado derrotar por um livro, um adversário que devíamos transformar em amigo para toda a vida.
Imaginam o que ela sentiu quando leu o seu primeiro Mário Cláudio.
Ela que devorara a escrita enredada e experimental do Abelaira, a falta de pontuação do Saramago, ela que apenas franzira o nariz ao erotismo serôdio do Jorge Amado em Teresa Batista, cansada de guerra e nem pestanejara com A obra completa de Sally Mara, do Quenaud, sentiu-se soçobrar perante o prosador do Norte.
Quando lhe confessámos que tínhamos tido as mesmas dificuldades, suspirou de alívio.
- Eu sei que estou a ficar velha - explicou-nos. – Mas, mesmo assim…
Por respeito pelo Mário Cláudio, não adiantou a conversa.
Não sei se tudo isto explica porque é que tenho a casa devorada pelos livros. Sei que o livro ainda é pior do que os priões da BSE. Fica a incubar anos e anos e, de repente, quando temos de mudar de casa ou tão só renovar a mobília, parece explodir: o nosso cérebro transformado em esponja mostra-se incapaz de dominar a situação.
Lembram-se do Patinhas a nadar na caixa-forte? É como nós nas bibliotecas. Mas o quaqualionário não se afundava, enquanto nós estamos quase a perder o pé. Estamos quase, quase, a morrer afogados em livros.
Rezem-nos pelas nossas almas, sim?