Livros!Gostam de livros?
Pois.
A mim, de pequenino, ensinaram-me a estimá-los.
No livro da terceira classe, ou um desses, vinha uma história, das edificantes, género alguém a perguntar:
‘Viveis sempre só, Senhor Petrarca?’
‘Só?’, respondia o poeta, ‘Vivo sempre rodeado de amigos.’
E, arredando uma cortina, mostrava uma fila de livros.
Eu não sabia quem era esse tal Petrarca, mas a reposta dele estava de acordo com os conselhos maternos.
A Senhora Minha Mãe era uma leitora impenitente. Já bastante velhinha ainda olhava em redor, via um livro em cima de uma mesa e perguntava: «Que tal é este livro?»
E zás, antes de saber a resposta ou sequer se alguém o estava a ler ainda, começava a sua paulatina leitura. Parava, de vez em quando, para fazer um comentário.
Já com os seus oitenta, ou perto disso, leu A Montanha Mágica pela primeira vez. Adorou reencontrar um mundo ainda próximo daquele que viveu na sua meninice, quando a doença romântica era a tuberculose porque levava os jovens e quando uma senhora de sessenta anos «era de muita idade». Quando os vícios ainda não se chamavam adicções: eram o vinho, o tabaco e, o mais desgraçado de todos, o jogo.
E toda a gente, desde sempre, fazia troça. Contavam-se histórias das suas distracções.
A mais célebre era a do arroz.
“Vergonha,” decretou um dia o Milôr Fernandes, “não é fazer embrulho de papel de jornal. Vergonha é ler o embrulho.”
A minha Mãe passou por essa vergonha.
Foi assim: antigamente, quando havia tempo para essas coisas, tirava-se do lume o arroz ainda com muito caldo e punha-se na arca, embrulhado em jornais, a enxugar.
À hora da refeição, estava soberbamente cozido e solto.
Um dia em que a mandaram buscar o arroz à arca, obedeceu prontamente, mas nunca mais voltou. Dá para adivinhar que foram dar com ela, muito quieta, ao pé da arca, a ler um folhetim no papel do embrulho.
Esta foi a mais importante das influências que eu sofri.
Mas houve outras.
A minha Avó era da firme opinião de que ler fazia mal. Como tantos outros vícios, só moderadamente se devia abusar. «Tanto leu que tresleu!», dizia-se e era verdade. E vinha o exemplo:
- Olha o Dr. Ferrer! Tinha tantos livros que tinha uma criada só para limpar o pó à biblioteca! E tanto leu que ficou assim! (gesto significativo de senilidade precoce ou irremissível demência)
Para a Senhora minha Avó, uma asserção universal provava-se, sem possibilidade de contradição, por um exemplo socialmente admissível. E não valia a pena contraditá-la usando o contra-exemplo: que uma andorinha não fazia o Verão, também era indiscutível.
Outras pessoas da família, ou não liam ou saltavam as partes mais aborrecidas. Imagino que A Montanha Mágica, com as suas mil e tal páginas, se lesse em hora e meia: os discursos do Sr. Setembrini, decididamente, não tinham interesse nenhum.
Para a minha Mãe, não.
Um livro começava-se pelo princípio e lia-se todo. Era uma espécie de cobardia abandoná-lo a meio, fosse qual fosse o pretexto. Era como se nos tivéssemos deixado derrotar por um livro, um adversário que devíamos transformar em amigo para toda a vida.
Imaginam o que ela sentiu quando leu o seu primeiro Mário Cláudio.
Ela que devorara a escrita enredada e experimental do Abelaira, a falta de pontuação do Saramago, ela que apenas franzira o nariz ao erotismo serôdio do Jorge Amado em Teresa Batista, cansada de guerra e nem pestanejara com A obra completa de Sally Mara, do Quenaud, sentiu-se soçobrar perante o prosador do Norte.
Quando lhe confessámos que tínhamos tido as mesmas dificuldades, suspirou de alívio.
- Eu sei que estou a ficar velha - explicou-nos. – Mas, mesmo assim…
Por respeito pelo Mário Cláudio, não adiantou a conversa.
Não sei se tudo isto explica porque é que tenho a casa devorada pelos livros. Sei que o livro ainda é pior do que os priões da BSE. Fica a incubar anos e anos e, de repente, quando temos de mudar de casa ou tão só renovar a mobília, parece explodir: o nosso cérebro transformado em esponja mostra-se incapaz de dominar a situação.
Lembram-se do Patinhas a nadar na caixa-forte? É como nós nas bibliotecas. Mas o quaqualionário não se afundava, enquanto nós estamos quase a perder o pé. Estamos quase, quase, a morrer afogados em livros.
Rezem-nos pelas nossas almas, sim?
