sábado, março 31, 2007

O cão que jogava xadrez (2)



Parece que Deus quis, por isso, senhorinha, cá vai:

O primeiro impulso foi fechar a porta. O Carlinhos sabia que os bichos têm cheiro, a Mãe (e sua Tia, como já sabe) andava sempre a dizer que o gato da vizinha de cima deixava as escadas empestadas, mas, pomba! nunca tinha visto (cheirado) nada como aquilo. Ainda com a mão no ferrolho reflectiu: queria um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não deixar pelos na alcatifa ou não queria?

Fechou a porta atrás de si e avançou uns passos. As gaiolas feitas de rede iam até lá muito em cima, empilhadas umas nas outras, entaladas num emaranhado de escadas e passadiços que faziam lembrar as histórias do Homem-Aranha e de todos os lados surgiam as pontinhas pretas ou rosadas de focinhos de cães que ganiam, ladravam ou uivavam. nas jaulas que ficavam à altura dos olhos, os canitos pretos, brancos, malhados ou castanhosabanavam furiosamente os rabos e perguntavam:

- Sabes onde é a minha casa?

Ou então:

- Sabes dos meus donos?

Outros ainda, só queriam que ele lhes dissesse como é que se saía dali.

- Tu também vens para cá? - perguntou uma magrizela com o focinho embranquecido, a segurar-se com as unhas à rede da gaiola de baixo, num esforço para o cheirar.

O seu Primo (o Carlinhos, claro) pôs-se de cócoras para a ver melhor.

- A minha dona, logo vem-me buscar - informou da jaula ao lado uma outra, de cauda emplumada quase sem pelo, o nariz empinado.

- Coitada - disse a Magrizela baixando a voz. - Já não está muito boa da cabeça. Há quinze dias que diz a mesma coisa. E tu, afinal, o que é que fazes aqui?

- Sabes jogar xadrez?

- Ná. Não sei jogar coisa nenhuma. E olha, já estou muito velha para aprender. Sabes quantos anos tenho? Catorze. E tu, tu ainda és uma cria. Tu tens o quê, oito meses?

O Carlinhos fez contas de cabeça: sete anos de homem fazem um de cão, portanto já devia ter um ano e coisa. Mas nem teve tempo de dizer fosse o que fosse:

- Não viste lá fora a minha dona? - interrompia a emplumada. - Está a preencher os papéis para me vir bucar.

- Vi - mentiu o Carlinhos. - Mandou dizer que só te pode vir buscar amanhã, mas vem logo de manhâzinha cedo.

Com o indicador (era o que cabia nas malhas da rede) fez uma festa no nariz da Magrizela e acrescentou:

- Esperem um bocadinho. Venho já.

Ergueu-se para continuar pelo corredor.

- É um bom mentiroso - murmurou a Magrizela para si mesma. - Há-de ser pai de muitas ninhadas.

Deitou-se a um canto da sua cela e adormeceu a sentir uma pontinha de calor, como se estivesse de novo deitada ao pé da fogueira.

O Carlinhos, esse, pelo corredor fora via tantos cãezitos e canzarrões que não sabia o que fazer. Perguntara, um a um, para a esquerda e para a direita, de baixo até tão alto quanto os bicos dos pés alcançavam: «Sabes jogar xadrez?» E a resposta era invariavelmente:

- Não chateies, meu. Diz lá, mas é quando é que a gente pode bazar daqui.

O Carlinhos tomou uma decisão. Assim não ia a lado nenhum, havia centos de cãezinhos por ali acima, para lá dos passadiços. O melhor mesmo era, em cada bocado de corredor, gritar com quantas forças tivesse «há aí alguem que saiba jogar xadrez?» e esperar pelas respostas.

Parecia, de facto, a melhor solução, mas não foi. Por dois motivos. Mas, para os ficar a saber, minha gentil senhorinha, terá de esperar pelo próximo capítulo (se Deus quiser, claro).

(continua no próximo número)

sexta-feira, março 30, 2007

O cão que jogava xadrez

Olhe, minha jovem senhorinha, velha era a sua Tia e casou-se.
Mas como, coitadinha, não era maluca, passou a vida a aspirar a mesma alcatifa, com o mesmo aspirador e o seu Tio todos os dias calçava as mesmas pantufas para não a sujar.
Fizeram amor quatorze vezes (embora não muito de seguida) e daí nasceu o seu Primo Carlinhos, pósmaturo com seis quilos e seicentos e um QI de 148. Aos doze anos, contemplando o Pai (o seu Tio por afinidade) que dormia a sesta no sofá forrado com um pano azul, o ventre subindo e descendo com um som assobiado, e a Mãe (a sua venerável Tia) que tirava o fio ao feijão verde com um alguidar cor-de-rosa, decidiu:
- Vou arranjar um cão.
O problema era arranjar um que jogasse xadrez e não se importasse de ser aspirado todos os dias para não espalhar pelos na alcatifa.
Ao sair da escola, esmurrado um mangas que lhe chamara gordo, dirigiu-se ao canil municipal. Teve de bater à porta uma data de vezes até aparecer uma garina muita grande, muita corada, com muita mau-humor, a ajeitar os botões dos jeans e com uma respiração que parecia a do Zé Nesgas quando estava com um ataque de asma.
- Está doente? - condoeu-se o Carlinhos.
- Quéquetuquerezóputo?
- Quero um cão, um que jogue xadrez e que não se importe com o aspirador para não largar pelos pela alcatifa toda! - explicou o Carlinhos.
A garina fungou, uma coisa que a Mãe (a sua Tia, como já referimos anteriormente) dizia sempre que era feio e não se devia fazer. O Carlinhos extraiu do bolso um lenço de papel já usado e perguntou se a senhora precizava.
- Pisga-tó mongas! - disse a garina, ainda com pior humor.
- Mas eu quero um cão que jogue xadrez e não s'importe...
- Tá bem, desampara-m'a loja. Olha aí, pra lá dessa porta, há uma data de corredores com cães e gatos. Quando achares alguma coisa ficas quieto até eu ir lá ver de ti.
O Carlinhos ficou um minuto a olhar para ela que desaparecia à pressa na casota envidraçada onde parecia agitar-se alguma coisa.
- Fogo! - pensou o rapaz - Até parecia a Stora de Inglês quando está c'os sangues!
Encolheu os ombros robustos e abriu a porta. Um cheiro agoniante e um coro de ladridos chegaram-lhe de imediato, vindos das gaiolas de rede que faziam um lado e outro do corredor que se lhe abria na frente.
(continua no próximo número, se Deus quiser)

terça-feira, março 27, 2007

Trop maigre pour être malhonnête



Bien sur, l'argent n'a pas d'odeur,

Mais pas d'odeur nous monte au nez...

terça-feira, março 20, 2007

Ecce Homo


Iesus Christus aka Nazareno aka Rex Iudeorum

sexta-feira, março 16, 2007

quarta-feira, março 07, 2007

"aos cépticos como eu..."





Imitação de morte é esta vida,
nem morte ainda, mas nem vida já,
à força de penosa e corrompida,
em que mais a razão desperta está,
e, porque desperta, mais vencida.
Imitação de vida é esta morte
quotidiana, que nos coube em sorte.


Armindo Rodrigues, Entre o quotidiano e a aventura, VII

quinta-feira, março 01, 2007

Fora da Graça de Deus

Andando eu, Tacci, muito fora da Graça de Deus, por razões que jamais virão ao caso, e não tendo nada de novo para aqui colocar, deixo por substituto uma visão assaz subjectiva de um concerto de jazz ouvido e contemplado no Centro Comercial de Belém.


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Os Portugueses, Caramba!


Dum modo geral, concordo até com as opiniões do autor. Permito-me reservar apenas o meu juízo quanto à reivindicação que o sr. dr. Boléo faz da Galiza e de parte das Astúrias para a costituïção do que seria o verdadeiro Portugal à face das determinantes geográficas. Não duvido de que essa teria sido uma grande Nação, um Portugal Maior, e até de que poderia ir mais longe, à Andaluzia, à África Menor, à Bretanha, à área da talassocracia ocidental do começo do bronze, o domínio dum grande Império Português do Ocidente, Atlântida magnífica dos tempos modernos.

Mas a geografia suscita muitos devaneios imperialistas, que na prática tem os seus perigos e as suas objecções. Fiquemos, pois, em que êste nosso Portugal, e não outro, êste portugal em que nascemos, em que vivemos, que servimos, que amamos, é pela vontade de Deus, da natureza e dos homens, o verdadeiro Portugal.

A. A. Mendes Corrêa, Raízes de Portugal, 1944


Sem título


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Sem Título


Pronto!
Hoje é só um passante.
Não sei nada dele.
Nem donde vinha, nem para onde foi, nem o que ia a pensar.
Atravessou a rua na minha frente e nunca mais o vi.
Se o voltar a ver, pode ser que não o reconheça.
Foi, provavelmente, o milionésimo passante a atravessar uma rua na minha frente.
Mesmo sem ser cliente, podia ter direito a um brinde.
Este desenho, por exemplo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Os defeitos do infiel

Caminhamos dous dias com a maior pressa que nos foi possiuel, posto que com trabalho, por razão das neues que neste logar começauâo a se passar com difficuldade; se não quando a outro dia pella menhâa chegaram a nós outros tres serranos, mandados pelo Gouernador da terra com grandes ameaças e medo aos que nos guiauão, se fossem mais por diante; dizendolhe que sua molher e filhos ficauão em estreita prizão, e seu fato confiscado; e se não voltasse, auião de morrer todos; e a mim com varias ameaças e medos, procurarão amedrontar, dizendo que meu companheiro, que estaua na aldeia, passaria muito mal, se eu logo não voltasse; e o fatinho que tinhamos, seria tomado por perdido, e sobre tudo que auia de morrer infalivelmente, se hia por diante, por não ser ainda tempo de passar aquelle deserto, com outras muitas cousas e espantos desta calidade. O serrano que nos guoiaua, voltou logo; e eu como tinha todas as informaçoens do caminho, me fui por diante com dous moços, por não se atreuerem tres que tinhão vindo a mais, que a nos mouerem com palauras. Inuocado o nome de Jesu e ajuda do Senhor, continuamos por diante; porém o trabalho que passamos foi muito excessiuo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encrauados dentro na neue, hora até os hombros, hora até os peitos, de ordinario até o joelho, cançando a sair asima, mais do que se pode crer, e suando suores frios, vendonos não poucads vezes em risco de vida; muitas vezes nos era necessario ir por cima da neue com o corpo, como quem vai nadando...
Nos pes, mãos e rosto, não tinhamos sentimento, porque com o demasiado rigor do frio, ficauamos totalmente sem sentido; aconteceome pegando em não sei que, cahirme hum bom pedaço de dedo, sem eu dar fee disso, nem sentir a ferida, se não fora o muito sangue que della corria. Os pees foram apodrecendo de maneira, que de muy inchados, nolos queimauão depois com brazas viuas, e ferros abrazados, e com muy pouco sentimento nosso...
P. António Andrade, O descobrimento do Tibet

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

As margens do Mondego



Primeiro: 1894

Enquanto às suas ideias - não lhe parece que o nativismo e o tradicionalismo, como fins supremosdo esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria - e um ser pensante não pode decentemente passar a existência a murmurar extaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado, o tradicionalismo em literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 - e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita e que o meu amigo dele espera.

[...] O dever dos homens de inteligência, num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar o rouxinóis do Choupal de Coimbra.

Eça de Queiroz, Correspondência, a Alberto de Oliveira, 1894


Segundo: 1925


Tinham dado a volta à cerca. Tornavam lentamente. Jorge insistia, arredava:

- Deixa lá os parques de Paris que, por muito belos que sejam, não valem para nós a beleza destas amigas árvores que nos viram crescer, nem a desses limoeiros entrèvadinhos que me fizeram chorar quando os tornei agora a ver. E não te desoles. Uma demão ligeira nestas coisas, alguma erva ruim mondada, uma tesoirada aqui e ali no arvoredo que se tornou bravio, e fica tudo como deve ser. E olha, Maria Clara, que é êste simples tratamento de que está precisando a nossa terra. O que isto está é maltratado, abafado pelo parasitismo nulo que tudo invadiu e não deixa vingar a boa semente. Crê, Maria Clara, é o alheamento dos bons valores que deixou chegar o nosso país a êste estado; e se não lhe acudirmos tôdos pode o desastre ser irremediável. Se há justos melindres que não permitem a colaboração em certos campos, ninguém tem o direito de se negar a contribuir para o bem-estar da sua pátria. Há melhor exemplo do que o teu, Maria Clara, com as tuas escólazinhas tão simpáticas e prestimosas?

Maria Clara acudiu modesta:

- Ora, um simples passatempo.

- Se todos tivéssemos dêsses passatempos, encontraríamos mais socêgo e mais alegria na vida. Aborrecemo-nos, justamente porque porque não temos artes para arquitectar a vida com atitudes belas. Quem não conhece o valor da vida é quase indigno de viver.

Pisavam de novo os tejolos gastos da varanda. Jorge deteve-se circumvagando a vista em roda. Da borda descortinavam-se as eminências majestosas da cidade, as Ursulinas, as Terezinhas, a Universidade, os rebaixos das encostas verdes do Seminário, e as cordilheiras longínquas, a leste, nas neblinas vagas. O ar transparecia em pureza diáfana e acarinhava como olôr tépido. A luz cendrava as coisas de contornos vaporosos, doirando-as.

- Mas basta de filosofias. Quando se contempla uma natureza tão bela o que apetece é adorar.

- Adorar mas é a Deus, daqui a pouco nos altares. E não podemos demorar-nos, notou Maria Clara.

Manuel Ribeiro, A Colina Sagrada, 1925

sábado, fevereiro 10, 2007

Manuel Ribeiro (1878 / 1941)

Ao "Deus não existe ou é cego", de Raúl Brandão, teremos, quem sabe, de acrescentar que, a não ser nenhuma dessas coisas, então está de má fé, como o homem que fez à Sua semelhança.
Não sei se não terá sido este o maior problema com que se defrontaram os jovens intelectuais saídos da república. Quando confrontados com as realidades duras da militância, os ideais, as utopias, as mais firmes doutrinas tendem a esboroar-se. As verdades mais evidentes, mais bem apoiadas pela observação, são constantemente postas em causa pela cegueira dos adversários. Teoria nenhuma, por mais bela, por mais altruísta, resiste às cedências, aos jogos políticos, aos acordos secretos.
"O idealista revolucionário", escreve Manuel Ribeiro em 1929, na carta-prefácio a Os Vínculos Eternos, "que não sem ironia a gíria social alcunha de puritano, por sua intransigência feroz em matéria de princípios, é um tipo curiosíssimo de rigidez austera, de sentimentalidade extrema, ingènuamente puro e simples, leal e franco..."
O próprio Manuel Ribeiro conheceu em primeira mão estas qualidades que atribui ao revolucionário. Ele próprio o foi, segundo reivindica: expulso da C.P. onde trabalhava, por militância anarco-sindicalista, colaborador de O Sindicalista e de A Batalha, e, posteriormente fundador de A Bandeira Vermelha, que era o órgão da Federação Maximalista Portuguesa.
Na década de 20, a sua trilogia social, A Catedral, O Deserto e Ressurreição, alcança um êxito inesperado ao traçar o percurso de Luciano, um arquitecto apaixonado pelas vetustezas da Sé de Lisboa, desde a arte da pedra até Deus.
Pouco depois foi reintegrado na C.P. e, posteriormente, transitou para a Biblioteca Nacional primeiro e a seguir para a Torre do Tombo como conservador.
Os Vínculos Eternos, que tenho vindo a citar, é o último livro de uma segunda trilogia, a trilogia nacional de que constam ainda Colina Sagrada e Planície Heróica. Desta trilogia, ainda não consegui encontrar a Planície Heróica.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os Vínculos Eternos


- É verdade, sr. reitor! - exclamou Mateus com energia - Nada eu soubesse! Desse pouco que aprendi não recolho senão trabalhos, ralações, apoquentações! Valeu a pena! Antes ser como o José Pedroso que encara a vida como ela é e há-de acabá-la bem gozada! Mete-me inveja! Não lhe quero mal; não quero mal a pessoa nenhuma. Vivem todos como se deve viver, aí está! Eu é que falhei, porque não me adapto a nada...
O acento desconsolado que o rapaz pusera nas suas palavras, impressionou o padre que abanou tristemente a cabeça.
- Valeu bem a pena, valeu!
Contreiras, que se debatia numa crise sentimental, comoveu-se, exaltou-se.
- E o sr. nem faz ideia do que eu fui, do que eu passei, do que sofri, em pura perda, para me causticar agora a verdade scientífica, a rir-se do burlesco e do ridículo de tudo!... Arremessado na cidade, onde o prazer é feito com o sangue dos oprimidos, e todo o gôzo alicerça em dores obscuras, fui mais miserável que todos os miseráveis, por ser sensível e consciente. Tantas vezes errante sem guarida, tantas vezes faminto, escorraçado, só para resguardar sem mácula a flor sagrada de um nobre ideal! E puro, sr. reitor, grutescamente puro, para ter o orgulho de afrontar a crápula, e gozar esta alegria moral, tão boa, de nos sentirmos coerentes!
Manuel Ribeiro, Os vínculos eternos, 1929

terça-feira, fevereiro 06, 2007

AVISO:

A todos os bloguistas que costumam ser visitados por nós, se faz saber que, por motivos alheios à nossa vontade, a electrónica não tem permitido deixar os comentários que, por vezes, apetecia fazer.
Tal situação, que se deseja breve, não impedirá que passemos as nossas horas a passear pelos vossos blogues, com o prazer e o proveito do costume.
A bem do Portugal, Caramba,
a) Tacci

domingo, fevereiro 04, 2007

Um "emalho" do Sérgio de Sousa


«... a partir de meados do século que findara, nas grandes cidades do sul da Europa, cresceu significativamente o número das famílias constituídas por um casal e seus, poucos, filhos. A mulher passou a trabalhar também fora de casa, em escritórios. Num primeiro período cumulou sozinha o trabalho doméstico com o que exercia fora; a seguir, o homem foi chamado a colaborar na chamada lia da casa, primeiro como auxiliar, depois com responsabilidade em trabalhos repartidos.

A partir de então, lentamente passou-se a tentar atenuar as diferenças na educação entre a dirigida a filhos e filhas. Em casa todos tinham de contribuir para os desempenhos imprescindíveis à vivência comum: numa semana cabia ao filho por a mesa e á filha lavar a loiça, na semana seguinte estes papéis invertiam-se.

Sair á noite para se divertir deixou de ser uma prerrogativa exclusivamente masculina.

Não foi sem resistências que o modelo principiou a instalar-se, não sendo naturalmente do agrado dos rapazes, antes isentos das obrigações que impunha, mostrando-se por vezes as raparigas demasiado intolerantes quanto à mínima infracção que lhes fosse desfavorável, a realidade era que os próprios pais que procuravam impô-lo traziam incutidos hábitos que lhe eram contrários.

Franqueados às massas de raparigas da classe média o ensino secundário e posteriormente o superior, às que concluíam os estudos, empregos no sector terciário, elas logo compreenderam a oportunidade de se libertar de dependências seculares. Por instinto, protecção dos filhos, escolherão parceiros que acreditem lhes lhes conferirão segurança, mas ganharam confiança em si próprias, na sua capacidade de se sustentarem, de não terem de se precipitar em escolhas, de poderem corrigir passos em falso. Acedem com mais facilidade do que os rapazes às faculdadesa, tornam-se aí em maior número, obtêm boas notas.

Olham em volta. Vêem um mundo ainda dominado por homens em lugares chaves, mas vêem também que todos os dias uma mulher atinge um posto cimeiro, e isso inevitavelmente constitui um estímulo para todas.

Chegaram, numa parcela só do velho mundo, apenas para as integrantes de um estrato social, por enquanto, tempos de emancipação feminina.

E quanto aos rapazes que coabitam no mesmo meio? Há que reconhecer algum descalabro. Perderam o modelo, ainda não o substituiram, não sabem o que fazer com as suas vidas. Os seus pais não são mais os senhores ociosos credores dos prazeres terrenos. São seres que todos os dias cedem privilégios face ás reivindicações femininas, perdem espaços, autoridade, autonomia. Muitos rapazes olham para tudo isso com uma sensação de desamparo e de revolta.

Os machos acomodaram-se numa soberba que, quando as fêmeas lha não acalentam, os deixa desorientados.»

Sérgio de Sousa, Na boda

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Alicante

Une orange sur la table
Ta robe sur le tapis
Et toi dans mon lit
Doux présent du présent
Fraicheur de la nuit
Chaleur de ma vie.
Jaques Prévert, Paroles

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Sevilha, 1911

Foi na feira de Sevilha de 1911 que eu e o meu compadre João Perestrelo [... ] apresentámo-nos a todos como sendo toureiros. Ao declinar o nosso nome é que foram elas, num cais a desoras.
[...] Dizia um: «A que si», respondia o outro: «A que nó», e mano João larga-lhe um estalo à portuguesa e depois... nunca vi tanto geito de sermos cosidos à facada. Dalí fomos ao «Puesto Fernando» onde se faziam encierros e fizemos lá tantos estragos e só de louça partida foram oitenta duros...
Arnaldo Futscher Reys e Souza, Ergue a campa Vimioso

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Deserdados

«Se escrever alguma coisa sobre Açoreira não se esqueça cá do rapaz...»
Mas não têm tempo de dizer mais nada. A desordem rebentou numa mesa do outro lado da sala, com copos e garrafas partidos de mistura com exclamações que afundam a música.
William encaminha-se para a mesa, calmamente, bamboleando as ancas, mas levanta-se um dos latagões que a ocupam para o enfrentar na atitude de desafio de quem vai pegar um toiro. São membros de um grupo de forcados de qualquer terra alentejana, todos de físico desenvolvido, ao contrário da maioria dos presentes, expressões hostis e trocistas. Em todos os actos da sua vida usam a mesma atitude que exibem na arena: desplante e coragem inútil. Para eles, William, pálido e esguio, o rosto mais franzino pela cabeleira enorme, assemelha-se a um fraco novilho que uma simples palmada entre a cornadura derrubará facilmente.
«Os senhorres... é favorr abandonar a sala...»
O que lhe faz frente e parece ser o cabo do grupo, avança de mão aberta e gargalhada escarninha:
«Seu maricas! Vou já tirar-lhe essa camisa cor de laranja!»
Os pares imobilizaram-se, algumas raparigas soltam gritinhos, de medo ou de espanto, e só a voz do disco continua a dominar o ambiente, desvanecendo a violência da cena ou tornando-a ridícula:
Si jávais Brigitte Bardot
Ah! si jávais Brigitte Bardot...
Não se movendo quase, William evita o punho fechado do forcado e projecta-lhe um murro em pleno queixo. O outro sofre a surpresa, mas não se arreda um milímetro sequer do local em que está, e nesse instante, como a um sinal do cabo, os restantes, que já varreram para o chão quantos copos e garrafas havia em cima da mesa, ergueram-se e secundaram o chefe ultrajado.
[...] O guarda pretende entrar no grupo, tornar-se simpático, pressentindo que deve tanta consideração àqueles homens de autoridade e força, por certo de bom nascimento, como ao próprio dono da boite a quem se obrigam a defender.
[...] «Deviam fechar isto, senhor guarda, este coio de maricas. Olhe-me para estes tipos todos e diga-me lá se distingue os machos das fêmeas... Mas nós pagamos, pagamos tudo, descanse...»
Perante a cena, os demais frequentadores do Welcome, William, Camacho, as inglesas de menos de vinte anos, os moços atrevidos mas agora silenciosos, o próprio José Álvaro, ficaram estranhamente deslocados e insignificantes.
Mário Ventura, O Despojo dos Insensatos

domingo, janeiro 21, 2007

Et revoilá...

Toi, t'etais pas mal, ce temps-lá.
Tu t'aimais un tout petit peu de trop,
peutêtre.
Mais voilá.
Je t'aimais surtout
quand t'avais tes coups de pompe.
C'est encore quand je t'aime le plus.
Mêmme.
Si.
Je te vois plus, depuis des eternités.

Três tristes Taccis ao quadrado

Graças ao "Pequenos nadas" da Gi (que pode ser clicado aqui mesmo, do lado direito) e, através dele ao blog da Wind (http://wind9.blogspot.com/) passei uns momentos bem divertidos enquanto ia ouvindo o Whalerider, da Lisa Gerrard.
Hei-de aprender a mostrar a música que, uma vez por outra, consigo ouvir.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

terça-feira, janeiro 16, 2007

Vimioso, Caramba!

Como se chamava o pequeno cinema à ilharga do edifício do Éden, no rés-do-chão?
O homem que ali vendia gravatas, andando para trás e para diante no passeio, com as gravatas dependuradas de uma barra sobre o peito, a barra sustentada por uma correia que lhe passava por detrás do pescoço. E uns conhecidos rapazes de boas famílias, irmãos e desordeiros, metidos em lides tauromáquicas e automobilísticas, que se divertiam a fingir que escolhiam uma gravata, tirando uma após outra do expositor e lançando-as sucessivamente no chão. No chão onde certo dia um daqueles valentões andou de gatas, a apanhar as gravatas, com uma pistola apontada à cabeça pelo vendedor ambulante.
Sérgio de Sousa, Errar

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O Rudolfo fez plaff no asfalto como um sapo despejado de sétimo andar

No grupo havia um indivíduo extra-bisonho, Zé de nome e Rudolfo por alcunha. Fumava sem parar, além do que rosnava, comentários imprecisos. Uma vez por mês tinha um ataque de fúria animal e espatifava quanto houvesse a espatifar - antes que alguém metesse ali ponto final, no queixo ou em qualquer outro interruptor dessas correntes. A presença dele onde quer que fosse parecia provir da responsabilidade do Gaspar, exclusiva. Um dia perguntei: «Porquê o Rudolfo?» «Bem», disse o Gaspar. «Eu nunca faria o gajo, mas está vivo, não? Então? Tem de circular.»
Nuno Bragança, A noite e o riso

terça-feira, janeiro 09, 2007

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Finalmente, Caramba! A banda de Bucelas!

Entrou! Milagres da electrónica! Ou, quem sabe, as penas do Inferno. Seja como for, entrou. Obrigado, Bill Gates.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Por motivos alheios à nossa vontade...

O blogger, por uma daquelas muitas e misteriosas razões só da electrónica, não me deixa inserir um boneco com a banda de Bucelas que devia, pensava eu, acompanhar o texto do Nuno Bragança. O blogger é de opinião contrária. provavelmente tem mais bom-gosto (já sei, já sei!) do que eu. Em sua substituição, aqui fica o «japona retocado 2».

terça-feira, janeiro 02, 2007

Os Vimioso e a Banda de Bucelas

Quando nas suas iras, o Rudolfo gostava imenso de bater. Arrumar um adversário despachável à primeira, nem pensar. Organizava as lutas de molde a chegar à última trancada nuns vagares, gourmet de sexo a retardar o orgasmo. Escolhia as vítimas a dedo, sem as estudar antes de lhes saltar em cima. Tinha a pontaria de quem se movimenta em função do puro instinto.
O homem de Bucelas mostrava-se uma presa ideal. Porque tinha agilidade e força, e era corajoso.
[...] Durante um naco de tempo, o Rudolfo foi demolindo o outro, camponesa de bons dentes absorvendo um cacho de Ferral
Os bucelenses extra-banda, estarrecidos, não tinham receita apropriada. De cada lado dos contendores(1) , uma fila de tocadores de Banda desfilava, narizes no papel pautado.
Foi um saxofonista quem virou a página. Ao ver o sucedente, passou o instrumento ao companheiro de trás. Atravessando tudo e todos numa implacabilidade de furão em rasto certo, chegou-se ao Zé-Rudolfo e deu-lhe uma na nuca com o talhe da mão.
O Rudolfo fez plaff no asfalto, como um sapo despejado do sétimo andar. «Este é músico», disse o Simão, olhando o saxofonista atenciosamente, nuns carinhos. Após o que, chegou-se a ele e foi-lhe às ventas, com o sorriso duma Madre Superiora afagando noviça que promete.
A intervenção do [Simão] C. C.: copo de gasolina entornado em chama de caruma. Num já-está, a selecção de Bucelas e o meu grupo defrontaram-se num vale-tudo incluindo instrumentos musicais servindo de matracas. Para os polícias, que andavam pela orla dos passeios de cacetete em erecção constante, esta oportunidade de molhar a sopa em nova frente foi éclair de chocolate à mão de uma madame.
Nuno Bragança, A noite e o riso
(1)A minha edição (Moraes, 1971) regista «contentores», o que me parece claramente uma gralha. A não o ser, o Nuno Bragança terá de me perdoar: não me passou pela cabeça emendar-lhe a escrita, nem a ninguém, quanto mais a ele.

Alcaïns - 4

Esta Senhora, infelizmente já partiu.
Para uma vida melhor, de certeza, se existir uma seja onde for.
O Senhor Padre Novo também, mas esse cooptado pelo seu Bispo para cargos mais exigentes do que mandar fechar a Capela do Espírito Santo à meia noite.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Alcaïns - 3

O Sr. Padre Novo, que não era nada tolo, apercebeu-se rapidamente de que a religiosidade, por não seguir sempre o canon de Roma - nem, por vezes, o bom senso - não deixa de ser religiosidade, profunda e sentida. A tradição de intolerância foi mais forte. Deixou de se opor. Mas foi incapaz de participar.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Alcaïns - 2

A vida na Beira Interior foi sempre muito dura. Contam as pessoas mais antigas que, muitas vezes, o jantar era uma malga de feijão pequeno (o feijão frade), com um fio de azeite -se havia. E uma bucha de pão para levar para o trabalho. Ou para a escola. A professora batia. Com a régua, nas mãos inchadas pelas frieiras e geladas do frio.
Até ao surto da emigração, nos anos sessenta e setenta, passava-se fome. E no Inverno, muito, muito frio, nas casas de telha vã e chão de pedra.
Era assim, contam ainda.

Alcaïns - 1


Já lá vão alguns anos.
Havia, é claro, um padre novo na paróquia, que com ser novo também nos anos, quis modernizar os hábitos. Talvez por achar mórbida a tradição, decidiu que a capela mortuária fecharia à meia-noite. No dia seguinte, logo pela manhã, abria-se de novo, o velório dos falecidos continuaria depois de todos terem descansado.
Que tal foste fazer:
À primeira tentativa de impedir que o velório durasse a noite toda, como é devido, as senhoras ergueram o estandarte da revolta. Um grupinho de gente antiga decidiu postar-se na capela. E ai de quem as fosse de lá tirar.
Como não ficava bem à família deixar que o falecido fosse velado apenas pelo grupo, fiquei lá eu também a fazer companhia. Éramos seis, cinco senhoras e eu.
Não sei se os mortos nos podem ouvir, lá do sítio para onde migram as almas. O que sei é que toda a noite se contaram histórias, umas do volfrâmio, outras de padres, as senhoras picaram-se umas às outras e riram-se. O falecido, que era um bom conversador, havia de ter gostado de participar.
Consegui depois, de memória, desenhar quatro das minhas cinco companheiras. A quinta que me perdoe por não figurar aqui senão na recordação daquelas horas.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

- Sim, titi.


Numa sala forrada a papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dois óculos defumados. por trás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para mim, com o peito trespassado de espadas.

- Esta é a titi - disse-me o Sr. Matias. - É necessário gostar muito da titi... É necessário dizer sempre que sim à titi!

Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, duma frialdade de pedra; e logo a titi recuou enojada.

- Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo!

Assustado, com o beicinho já atremer, ergui os olhos para ela, murmurei:

- Sim, titi.

Eça de Queiroz, A Relíquia

segunda-feira, dezembro 18, 2006

"...intimidação cruel."









A fama, que pelas aldeias circunvizinhas apregoava o nome do missionário, atraíra imensa gente a escutar o sermão.
No fim de alguns minutos aparecia no púlpito a figura bem nutrida e pouco atrente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes [...]
Enfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa e principiou.
[...] As mais tétricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, inúmeras torturas, a que o menor delito, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntária falta à missa, uma penitência esquecida, uma oração suprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada pecado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. o tribunal de Deus arvorado em tribunal do Santo Ofício, onde os autos de fé, os potros, e cavaletes aguardavam os delinquentes arrastados até ali; eis o resumo da oração. A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no pórtico do inferno, traçava-a este sobre os umbrais do tribunal do Eterno.
Na escultura do Cristo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto de um acusador, surgindo ali a pedir vingança, e não o do redentor sublime, a implorar e prometer perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociais, contra a obra do século, contra os descobrimentos, contra a ciência, contra tudo em que se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as ideias em sentido menos favorável à propaganda reaccionária.`
À medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; aumentava a desordem dos gestos e refinava a selvajaria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditório, e principalmente da parte feminina dele, ia crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cedo era já um angustioso clamor em toda a igreja.
Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Hainnish Mãe

A Hainnish gosta de escrever pequenas histórias, pelo menos enquanto não tem tempo para as grandes. Por vezes, o tempo é tão pouco que só lhe resta dar aos filhos um pequenino poema. Eles decoram-no logo, divertidos e orgulhosos.
A Minha Mãe

Debaixo da cama

Tenho um lobo mau.

E no meu armário

Vive um animal.

Mas no quarto ao lado

Dorme a minha mãe

Que guarda o meu sono

Como mais ninguém.


quinta-feira, dezembro 14, 2006



O absurdo máximo é viver e morrer! Ser e não ser! A vida é um sim que significa - não! O homem exclama: sim! Os ecos respondem-lhe: não!

Erguer e deitar abaixo! Fazer e desfazer! Deus, o que há de infantil na tua Obra!

O culto do Menino Deus! Deus é o Deus Menino. Lá está num altar da minha igreja, e tem o mundo na mão. Para quê? Para brincar com ele.

A esperança desespera, o amor odeia, a razão endoudece! É o desvario infantil que vem da Origem e trespassa todas as cousas...

E a Morte? O prazer com que ela mata certas pessoas! É uma criança a esfarrapar uma boneca.

A Criação é uma obra infantil, porque Deus é o Deus Menino. O velho barbudo de Israel é um pesadelo do Deserto.

Teixeira de Pascoaes, O Bailado,«Sombra e Pedra», VI a XI

sábado, dezembro 09, 2006

O velho, a carroça e o burro


Era uma vez um burrico, como qualquer burrico que dantes por aí andavam, de carga às costas ou a puxar pela carroça. Não tinha nome sequer, era o «arre burro», o «estupor do burro», quando não era pior.
Durante o dia carregava lenha, sacas de feijão ou de batata, seiras de azeitona. Ao fim do dia acartava com o dono adormecido, da taberna para casa. E se o dono era pesado!
Um dia, porém (tinha de haver um dia diferente, senão não havia história para contar) o burro zangou-se. Não era justo, caramba, era sempre ele quem puxava pela carroça, porque é que não havia ele, a partir de agora de ir sentado lá em cima?
E se bem o pensou, melhor o fez. Quando o dono saiu da taberna a trocar os passos e se quis apoiar à carroça, o jerico deu um passo em frente, o dono estatelou-se e ficou a dormir de borco na valeta.
'Agora é que é', disse o jerico. 'Vou fugir na carroça!'
E, libertando-se das rédeas, trepou para cima do veículo (hipomóvel, como diz o sr. Cabo da Guarda) : 'Arre burro', disse ele.
Mas, como os leitores todos já tinham previsto, a carroça não andou. E o burrico, desanimado, pensou que, bolas, não valia a pena dizer 'arre burro', porque o burro era ele. E usar o chicote, tá quieto! Não era parvo para bater em si mesmo.
'Bom, olha, o melhor mesmo é ir à pata, como sempre fui', decidiu.
E meteu os cascos ao caminho, cheirando os perfumes da noite e parando aqui e ali para tasquinhar uma ervinha.
Até hoje não voltou a casa.
Na aldeia toda a gente se ri quando vê passar o antigo dono a puxar ele próprio a carroça. Está bastante mais magro, dizem.
Moral desta história? Tem de ter uma? Então cá vai:
«Se não queres ter dono, tens de prescindir da carroça»
Feliz Natal!
Nota: Esta historinha é dedicada a todos os blogues por onde me passeio, mas muito especialmente aos autores do Blasfémias.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Intercidades



Intercidades
I
e
II

domingo, dezembro 03, 2006

Na senda dos utopistas

"...Na sala de aula do velho liceu a sua mesa alinhava-se numa fila lateral, havendo um espaço entre esta e a parede onde, a meia altura, se postavam as janelas amplas.
O padre Cristóvão gostava de colocar-se naquele espaço, em que a figura se lhe recortava contra a luz nas suas costas...
... ao aproximar-se o Natal, o padre Cristóvão narrava que José, vendo avolumar-se o ventre de Maria sabendo que para isso não dera causa, decidira fugir sorrateiramente de casa pela calada da noite - usava mesmo estas expressões feitas - mas eis que lhe saía oa caminho o arcanjo e o interpelava: «Ó José, o que vais fazer?» O «Ó» gritava-o o padre Cristóvão com todo o fôlego de acólito escandalizado, provocando nos alunos um riso incontido.
Era sábia, a intromissão daquele grito na narrativa. O padre tinha acabado de franquear os limites de um tabu ao reportar-se ainda que subentendidamente a uma prática sexual - naquele tempo estudava-se na Botânica o androceu e o gineceu das flores e os modos de polinização, mas na Zoologia omitia-se qualquer referência aos aparelhos reprodutores dos animais e não se falava em fecundação - por isso havia que fazer os alunos de imediato a excitação criada com o pequeno passo em terreno proíbido. Francamente, só mesmo um padre se podia permitir falar numa aula de sexualidade humana, ainda por cima na de Maria."
Sérgio de Sousa, Na senda dos utopistas, «Blow-up», Lisboa, 2001

sábado, novembro 25, 2006

Vimioso for ever

... El-Rei separou-se dos que o acompanhavam, e quando estava a alguma distância passaram por ele três homens. Travou-se uma briga entre esses três homens e Afonso VI, e este, embaraçadp pelas esporas, caiu de costas logo aos primeiros golpes, e foi ferido gravemente. Trouxeram-no em braços para o paço, onde esteve bastantes dias enfermo.
O que nesta noite, de que falamos aqui aconteceu ao rei, sucedia quase todas as noites a alguém que, pouco acompanhado ou pouco habituado a servir-se das armas, se atrevia a andar pelas ruas da cidade. Os homens, sobretudo os militares e os fidalgos da corte, julgavam quase um dever de honra fraternizar quando se encontravam de noite nas ruas, dando-se mutuamente algumas cutiladas...
Andrade Corvo, Um ano na corte, Porto, Lello & Irmão, s.d.

Tacci par lui-même

terça-feira, novembro 21, 2006

Como é diferente o amor em Portugal


Um duelo provocado pela bela Fornarina
*
Quando vinha trabalhar a Lisboa, a Bela Fornarina, cancionetista mundialmente conhecida, disputada e requestada por reis, engatava sempre com o meu grande amigo Abreu Loureiro, simpático rapaz, belo ginasta e galã de outros tempos. Havia, porém, um «ataché», o Dr. Cezar Pensador, uma criança a roçar pelos setenta e careca também, que tinha uma paixão assolapada pela beldade que lhe correspondia com galanteios esperançosos que mais o convenciam da sinceridade do seu amor. Apesar de andar ao «pingalim» do Abreu Loureiro, quando estava com o «cio» chegava a insultá-lo e a provocá-lo, pelo que se combinou um duelo de florete derimido no Velodromo de Palhavã de que o Abreu era empresário e a que assistiram os amigos e a própria Fornarina. Foi o Dr. Cezar admirável de coragem, batendo-se com denodo pela sua dama sendo «touché doucement» pelo antagonista umas dúzias de vezes o que convidava a assistência a desmanchar-se em risos. Findo o assalto, a Fornarina, de permeio, obrigou-os a reconciliarem-se no campo. Houve grande gaudio ao ser o moço apaixonado beijado na careca por ela própria. Acabou tudo no Suisso que, encerrando as portas, estava por conta do Abreu Loureiro.
Festa que nunca mais se esquece e que teve uma singular apoteose: uma cascata de champagne caindo em catadupas dos épicos seios da Bela Fornarina (cada vez estou mais mamífero) em pé em cima da mesa, onde estava sentado o Dr. Cezar e em cuja careca ia morrer o caudal já sem espuma por ter sido filtrado no serpentear do seu curso. Não te arrependas, querido amigo, de levares o papinho cheio.
Arnaldo Futscher Reys e Souza, Ergue a campa Vimioso, 1955

quinta-feira, novembro 16, 2006

...duas respostas.


Soubeste, claro, que estive em Ceuta, no ano passado. Um capricho? Não sei. O cheiro a sal, claro, e os mastros rangendo, o bater das velas... Sim, tudo isso. E também porque queria espaço, o largo.
Tu que viajaste, recordas-te dos teus primeiros dias no mar?
O que ainda sinto de cada vez que me vem à memória é espantosa beleza de toda a costa, as praias de areia... rosa? De que cor são as praias, tu que te dizes poeta? Da cor do pão branco, um pouco tostado pelo forno, concordas?
E os cheiros, aquele cheiro da madeira molhada, salgado e azedo a um tempo.
Dizem que embarquei secretamente. Não vale nem um encolher de ombros. Como se eu conseguisse dar dois passos sem um jesuíta na minha esteira. Hei-de falar-te dos jesuítas um dia, quando calhar.
Não: fui lá para ver com os meus próprios olhos. Um governador, seja da mais pequena das praças fortes, até ao Vice-Rei das Índias nunca consegue saber coisa nenhuma... Não, espera. Quando se pergunta qualquer coisa, há sempre duas respostas. Se não há, é porque perguntaste às pessoas erradas. Vê só um exemplo: porque é que as gentes do meu reino passam fome?
Pronto, bem sei, eu se passar é porque quero. Mas tu passas quer queiras quer não. Basta não chover este ano, o sol queimar ou o frio fazer cair a geada ou não sei o quê - o Rei não tem de perceber estas coisas mesquinhas, não é? - e pronto. Passas fome.
Há dias, em Sintra, na livraria do palácio entretive-me a estudar uns documentos do tempo do meu bisavô Manuel. Sabes que houve uma grande fome em Portugal, justamente quando ele se passeava com girafas e leopardos por Lisboa, numa carruagem folheada a oiro?
Quando da Mina e da Flandres vinham rios de oiro, o Tejo formigava de naus que traziam especiarias das Índias, o açúcar crescia na Madeira, nas cidades não havia pão.
E os mercadores reclamavam de El-Rei que os autorizasse a importar trigo e centeio, baratos, claro, para os vender caros cá dentro. E os concelhos reclamavam que o pouco que por cá crescia apodrecia nos celeiros porque ninguém lá o ia comprar...
Quem tinha razão, Luís Vaz? E para onde iam os rios de dinheiro que, diz-se nessas cartas, corriam para os nossos cofres?
Percebes porque tive de ir ao reino do Muley-Moluk ver com os meus próprios olhos porque abandonámos tantas praças e porque é que não podemos sustentar as que ainda temos?

quarta-feira, novembro 15, 2006

...aborto e horror da brava Natureza

A Senhora de Brabante Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo e lindo,
tirar de uma viola estranhas máguas,
pelas noites que os cravos vão abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara suas tranças pretas,
- e os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. - Oculta mágua
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente Dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! -
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto.
- pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
..............
Gomes Leal, Claridades do Sul

segunda-feira, novembro 13, 2006

segunda-feira, novembro 06, 2006

Memórias do cárcere: o alienista

...
Na minha infância, o nosso pai pensou em internar-me.
Aos 20 anos, qualquer médico escreveu num relatório que eu era um "psicopata constitucional". Foi o dr. Sobrinho, psiquiatra que dirigia a 20ª enfermaria do hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques. O enfermeiro-chefe quando me surpreendia a ler, cá fora, nas escadas, ao crepúsculo, dizia-me: "Então você, durante o dia não lê, e agora que há pouca luz..." Sorria.
Como vês, o diagnóstico estava a confirmar-se. Eu ali, no uniforme do hospício, uma vestimenta que lembrava a dos prisioneiros dos campos de concentração nazis, estava a ler Hegel.
...
Sebastião Alba, Albas, /139/ quasi, 2003, pag. 73

domingo, novembro 05, 2006

De novo o Alba

Sebastião Alba era o pseudónimo de um vagabundo, alcoólico, sem bilhete de identidade e sem paciência para o ir tirar.
Do pai, professor que ensinava grego e latim aos mais pequeninos dos alunos, herdou o rigor. De quem a ascese da pobreza, esse querer ser um homeless e, apesar disso, sentir saudades do carinho das filhas, das gentes próximas, dos amigos que tinha e que perdia?
"Sem religião específica", diz Maria de Santa Cruz, "mas bebendo de todas a decantada superstição: 'São Francisco de Assis' ou a morena Santa Sara, dita 'egípcia' (gipsy) ..."
Sem - religião - específica:
(sem religião, especifica:)
"Lê hoje se puderes, o primeiro parágrafo de 'O mito de Sísifo', de Camus", escreve Sebastião Alba. "Meu pai teve, aos 35 anos, um amigo íntimo que era Major do Exército. Todas as noites se encontravam no mesmo café. Ele era alto e vigoroso; à mesa nunca deixava que ninguém pagasse as contas; trazia sempre no bolso, conta meu pai, rebuçados para as crianças.
Não casou, mas amava as mulheres. Nenhuma em particular. Um dia, com uma Walter 7.65, meteu uma bala na cabeça. Deixou um bilhete: 'estava farto de abotoar e desabotoar os botões do dolman'. Meu pai leu-o, estupefacto. Quase 50 anos depois, o meu velhote ainda diz que morrerá sem entender aquilo."
Albas, 233, quasi, 2003, pag. 135.

sábado, novembro 04, 2006

Sebastião Alba

Olvido Lleno de Memoria

Ao reconhecer que a sorte nos contemplou com alguma perfeição, devemos apagar-nos um pouco, para não humilharmos os outros.
"O que estás a dizer é muito grave, Alba?"
"É. Estabelece o limite entre nós e as pessoas vulgares."
"Temos que escorrer o nosso orgulho, mesmo que legítimo?"
"Escorrer, dizes bem. É uma espécie de lodo em que nos afundamos, dentro de nós."
"Leste isso em S. Francisco de Assis, Alba?"
Sebastião Alba, Albas, quasi, 2003, /181/ pag. 183