quarta-feira, abril 25, 2007

O Cão que jogava Xadrez´VIII

Saiba, Senhorinha, que estou, dizem elas, muito melhor.
Primeiro, porque já não me espanta nada que a Terra e os astros todos estejam suspensos, por assim dizer, de liames gravíticos e, barra, ou deformações do espaço-tempo.
E segundo porque já não acordo a meio da noite aos gritos quando as minhas pernas se estão a separar de mim ou quando estou a lavar as mãos no lavatório e elas se derretem na água corrente e eu as vejo ir pelo ralo abaixo.
Por isso, tive autorização para usar o computador da secretaria. Já arranjei até uma chave falsa e descobri a palavra de passe, de modo que agora, sempre que acordar a meio da noite, posso vir até cá conversar consigo sobre o seu Primo.
O Carlinhos, tenho ideia de já lhe ter dito, acabara de ser dado à Magrizela e estavam os dois a discutir com um Diabrete. Os Diabretes, para quem não saiba, são para o Deus-dos-Cães o mesmo que os Anjos são para o Deus verdadeiro que está no Céu verdadeiro e há até teólogos que opinam que o Deus-dos-Cães é o próprio Diabo que habita nos Infernos. Mas eu, Senhorinha, não possuindo as habilitações necessárias em Transcendência Civil, tenho um medo dessas coisas que me fino, que ó e depois, ainda dizem que eu não tomei os comprimidos.
O que posso dizer é que estavam eles três à conversa e o Diabrete a dizer que apostava em que o Guarda não tardava aí mal percebesse que os seus Pitbuxos estavam presos e eis que se ouve um estrondo enorme, como se uma porta tivesse sido arrancada dos gonzos:
- É o Guarda! Fujam! – gritou o Diabrete.
E desatou numa correria por entre as jaulas dos cães que, aliás, desataram também a ganir de um pavor infrene. Novos estrondos rebentaram, lá ao fundo, ainda mal ele tinha virado a última esquina.
Atarantado, o seu Primo ia para lhe seguir o exemplo quando a Magrizela o agarrou pela perna da calça que ainda estava inteira e lha rasgou mais um bocadinho.
- Olha lá, a gente não pode ir sem a Emplumada!
O Carlinhos, mal-humorado, tentou compor o novo rasgão:
- Tá bem, prontos! – e emendou logo a seguir, porque a Mãe (a sua estimável Tia) passava a vida a corrigi-lo. – Quer dizer: pronto! E onde é que ela está?
- Sei lá! Só a vi a ser levada pelos Pitbuxos. Havemos de descobrir para onde!
E decidida, começou num trote ligeirinho, um nadinha coxo porque os dias da sua agilidade já tinham passado há muito. E ia na direcção dos estrondos. O Carlinhos apressou-se a segui-la, de novo com a barriga aos saltos e mais ofegante do que o Zé Nesgas quando tinha asma e jogava à bola, tudo ao mesmo tempo. Como arranjou fôlego para, mesmo assim, gritar à Magrizela «Por aí não! Por aí não!» não lhe posso dizer, Gentil Senhorinha, porque também não sei.
O que sei é que, bem vistas as coisas, o seu Primo tinha razão. Na correria foram dar de caras com um gigante de óculos escuros e gravata azul-cueca que trazia debaixo do braço, firmemente agarrado, o Deus-dos-Cães, com o seu único olho e um ar muito infeliz.
Se o Gigante era o Guarda e o que aconteceu aos nossos heróis – o seu Primo e a quase caquéctica Magrizela – só lho poderei dizer mais logo à noite se conseguir escapulir-me na sombra dos corredores, até aqui à secretaria.

sexta-feira, abril 20, 2007

O cão que jogava xadrez VII


Devido ao estado da minha saúde, diz a enfermeira velha
(rabugenta e cabelos raquíticos, mais rabo-de-corvo a depenar-se do que asa viçosa, a descolar-se do crânio cor-de-rosa e com farto bigode)
só posso, Gentil Senhorinha, escrever umas linhas sobre o que se passa com o seu Primo Carlinhos que, como sabe, anda à procura de um cão que jogue xadrez e não se importe de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa da Mãe
(a sua Tia, como sabe se eu já tiver dito, o que não garanto, às vezes dão-me estes esquecimentos, mas não são, como diz o Doutor, falhas de memória, a prova é que ainda sei o que quero contar sobre o pavoroso acidente na auto-estrada de Mértola a Berjenjas.)

E então era assim:

De Mértola ao Fundão vai um passo de anão.
Do Fundão a Alpedrinha, um voo de andorinha.
(Ponháqui a s'a mãozinha, ponh'aqui o sê pézão.)

Diz-me, Senhorinha, com a sua proverbial delicadeza que o Pica-Pão-Manel-João não é seu Primo, quem é, esse sim, é o Carlinhos que foi dado à Magrizela pelo Diabrete.
Se a Senhorinha o afirma - ainda que com a sua proverbial suavidade - então é certo, ainda que eu pense que é estranho que um rapazinho de tão boas famílias, seja assim dado a uma cadela rafeira e, vai-se a ver, até bastante entrada em anos. Diz-me, apesar disso, Senhorinha, que a Magrizela cumprimentou o Carlinhos à maneira dos cães, isto é, saltando para tentar lamber-lhe a cara (com o que terão os óculos ficado de esguelha outra vez) e deitando-se para receber festas na barriga.
O Diabrete, esse, insiste suave a Gentil Senhorinha a tentar que eu me lembre do que, aparentemente, eu próprio lhe contei, e que foi, então o tal Diabrete ter-se zangado!
- Olha lá! Tu não estás nhã-ã-ã? - terá ele dito. - Eu dei-te o puto e tu ficas aí, em cortesias, como se isto fosse a night ali nas docas?
A Magrizela, primeiro, olha, parece que rosnou ao tal Diabrete, mas logo a seguir terá abanado a cauda conciliatória.
- Vá lá, não te escames, que ninguém te paga para isso. O que é que vai acontecer?
- Se eu fosse bruxo em vez de Diabrete, montava uma loja de vender bilhetes da lotaria, e essas coisa, raspadinhas e assim, e depois vendia as que não tinham nada e as premiadas, tá-se a ver, não é, eram aqui para a Santa Casa.
Suponho, pelo que me contou, que a Magrizela rosnou outra vez.
- Pronto, pronto. Mesmo sem ser bruxo, sou capaz de adivinhar que o Guarda há-de vir aí, não tarda. E, nessa altura, tás a ver, eu cá fujo!
- Mas porquê? - pergutou o Carlinhos. - A garina lá de fóra é que me deixou entrar para ver se havia um cão que jogasse xadrez e que...
- Olha, puto! Isso foi antes de tu teres arranjado este chavascal todo, tás a ouvir? Agora é pirar e acabou-se.
E, Gentil Senhorinha, mesmo que me tenha contado mais alguma coisa, agora a enfermeira já veio dar-me aqueles comprimidos azuis e já não me lembro de nada.
Mas como, dizem eles, agora tenho de desligar esta coisa por causa de não sei quê, o resto do que eu me lembrar fica para a vez seguinte que eu consiga escapulir-me até aqui.
Resta-me, Senhorinha, apresentar-lhe os meus respeitos e, como já me querem levar à força, digo-lhe adeus, até à

sexta-feira, abril 13, 2007

O cão que jogava xadrez VI


Decerto a minha Gentil ouvinte se lembra de que deixámos o Carlinhos muito atrapalhado, a tentar ver se um dos desalmados Pitbuxos do Guarda se preparava para o atacar, como prevenira o Diabrete. E lembra-se decerto que o seu Primo, com o susto, ao tentar olhar, fugir e equilibrar-se ao mesmo tempo, ficou de braços e pernas à volta da trave, numa posição muito incómoda, os óculos pendurados só duma orelha. É claro que não havia nada atrás dele.
Lá em baixo, porém, o Diabrete rebolava-se a rir:
- Primeiro de Abril! – gritava ele entre gargalhadas: - Primeiro de Abril!
- Mas hoje já são dezasseis! – protestou o Carlinhos indignado.
- Isso é no calendário Gregoriano, ó mongas. – ria-se cada vez mais. - No nosso, cada vez que é feriado, é Primeiro de Abril, ficas já sabendo! – conseguiu ele dizer. - Isto, para o caso de cá ficares muito tempo, o que não acredito.
- Porquê?
A custo conseguira sentar-se de novo na trave.
- Porque és um anjolas. Acreditaste no que eu disse. E agora eu digo-te assim: eu minto sempre. Acreditas ou não?
O Carlinhos pensou.
- Não. Se mentisses sempre não me podias dizer isso porque então era verdade e tu não mentias sempre.
O Diabrete pareceu ficar amuado.
- Assim não vale. Tens mais de cinquenta e cinco de QI. E então, se for falso que eu minto sempre, qual é a verdade?
O Carlinhos conseguira desprender o sapato e descobrira um varão que descia até lá baixo.
- Sei lá! – disse ele, a apalpar o ferro que era sólido e áspero, e agarrar-se bem. – Se for falso que mentes? Então é porque dizes a verdade, não é?
- Há-há-há! – riu-se de novo o Diabrete. - Nem penses nisso. É verdade que algumas afirmações que eu faço são verdadeiras, mas isso não exclui que algumas outras sejam falsas. Não te ensinam nada na escola? Duas afirmações que se contrariam podem ser ambas verdadeiras se forem particulares, é a regra! Não sabias? Vais descer por aí? Ficas sem pele nas mãos.
Ficou.
Quando cá chegou a baixo, o Carlinhos soprava devagarinho nas mãos e olhava consternado para mais um rasgão nas calças.
- Só tens essas? – perguntou o Diabrete. – Mas ainda estão boas, senão emprestava-te estes.
- Tá-se bem. - apressou-se o Carlinhos, a olhar a sujidade dos calções - O que eu precisava era de um cão, mas um que…
- ...que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa da tua Mãe. Já toda a gente sabe, pá. Sabes o que te digo, eu que ando aqui por este canil desde a fundação? Tu é que precisas de um dono. Um dono, tás a ouvir?
- Mas a gente não tem dono! - gritou o Carlinhos. - Os cães e os gatos e os piriquitos é que têm.
O Diabrete largou de novo a rir.
- Man, és um puto bué da palhaço!
Pôs-se de pé, a custo, e depois olhou para o Carlinhos com um ar feroz:
- Não viste o letreiro acolá na porta, quando entraste?
- Vi. Proíbida a entrada a pessoas estranhas ao serviço. Mas eu não tive a culpa, foi a garina de lá de fora que me mandou entrar, eu só queria um cão que jogasse xadrez e não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa...
- Já sei, já sei. - disse o Diabrete resignado. - Mas não era esse aviso, que eu esse nunca vi. Era o outro, grande, por cima da porta: Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate! É uma frase bonita, do Dante. Ou do Horácio ou de um desses indianos que fazem picanha enlatada. Nunca comeste?
- Não. O que é quer dizer essa coisa?
- Qual?
- Essa do laxata do tóni ganza...
- Quer dizer que aqui é tudo ao contrário. Aqui, quem manda é o Guarda. Logo depois, quando ele não está, somos a gente, o Senhor Deus e nós. Depois são os cães. Depois os gatos e as tartarugas. Os peixes, e os pássaros, esses atiram-se logo para o caldeirão da comida. E depois é que vêm os Pitebuxos e no finzinho de tudo são vocês, as pulgas e as carraças. Tudo aquilo que havia de haver um remédio como o DDT. Tás a ver, ó meu? Aqui tens de ter um dono, senão, comem-te vivo. Pás! É a ordem da Criação.
O Carlinhos não disse nada.
Amuado, seguuiu atrás do Diabrete que inspecionava as jaulas uma a uma, resmungando. Depois parou e a baixou-se.
- Sim, podes ser tu. Já não és muito nova, mas ainda serves.
Virou-se para o Carlinhos.
- Dou-te a esta aqui, e vais com sorte, que nunca foste de um cão mais baril. E ai de ti! Ouviste, ai de ti se não te portares bem e não a tratares como merece!
Com o dedo grande do pé abriu o trinco.
A Magrizela, com um ar estonteado assomou à porta.
- Que é tu queres, hem? Hoje não há direito a um bocadinho de sossego? – perguntou ela.
Mas, atentando melhor na sua fraca vista, reparou:
– Oh, és tu, ó sedutor?
- Não – respondeu o Carlinhos. – Sou só eu.
E pronto!
Leiam, Gentil Senhorinha e Nobres Damas, a continuação destas prodigiosas aventuras, já amanhã, depois ou noutro dia que calhar, quando e o Pai do Céu permitir e me dêem uma abébia aqui em Rilhafoles, onde às vezes me deixam usar o computador se eu não estiver muito descompensado - dizem eles.

O cão que jogava xadrez V


Sabei, Nobres Senhores, Gentis Damas e Cavaleiros, que as Aventuras verdadeiras do Carlinhos (de sua Mãe) em busca do Cão que joga xadrez e não se importa de ser aspirado para que o pelo não conspurque a higiénica morada onde ressona o Pai, não está prestes a terminar.
Lembrais-vos, certamente de que o Deus dos Cães, na sua inverosímil divindade, corria pela viga de ferro, à altura de um segundo andar de qualquer prédio antigo.
E porque correm as divindades, perguntais-me, a mim, contador destas e muitas outras histórias, como se esperásseis resposta.
- Então não têm os Deuses diante de si a eternidade? - argumentais. - Para quê, então, correr?
Que vos posso eu, que não sou teólogo, dizer?
Que, talvez sim, que talvez um segundo de corrida ou um milénio, seja a mesma coisa?
Mas imaginastes, porventura que o Carlinhos, lá atrás, arrastando-se pela estreita pista de ferro, já com a perna da calça rasgada e, agora com o fundilhos negros do pó que décadas tinham depositado naqueles inacessíveis espaços, podia esperar tanto tempo?
A verdade, porém, Gentil Senhorinha que com o olhar perplexo tem vindo a seguir o desenrolar destes eventos, a verdade verdadeira, é que o Deus dos Cães, esse mesmo que corria ali adiante sem olhar para trás, estava com fome. Uma fome canina. E assim se esqueceu de que o pobre Carlinhos também vinha, arrastando-se sobre o não-senhor, e em dois saltos bem ousados, desapareceu pela abertura do telhado, mais parecendo de facto o rei dos Gatos do que o Deus dos Cães.
- Hei! – gritou o Carlinhos – Então e o meu cão que sabe jogar xadrez e que não se importa…
Mas já não havia ninguém, o que, acrescento, não passa de um modo de dizer.
Lá por baixo, os Diabretes corriam alegremente atrás dos Pitbuxos, cavalgando às costas uns dos outros e gritando sonoros "iiiiupiiiis" de cada vez que atiravam o laço, como se fossem gaúchos à solta nas pampas do Rio Grande do Sul.
Mesmo na vertical do lugar onde o Carlinhos, agarrado á viga do tecto, podia espreitar, um laço apanhou um dos perseguidos que rolou pelo corredor, ganindo o seu desespero.
Das jaulas erguia-se um rosnar surdo que se transformava em ladridos, à medida que os Diabretes arrastavam o seu prisioneiro para fora do armazém.
Muito tempo decorreu em correrias cá por baixo e o Carlinhos lá em cima, pobre dele, começava a sentir uma certa vontade de ir à casa de banho...
As jaulas, porém, lá em baixo, iam-se aquietando, os Pitbuxos já não estavam à vista, um grupo de Diabretes em passo de marcha fúnebre passou solene revista aos corredores entoando uma versão bonita do hino da Maria da Fonte:
«Vivá Maria Cachucha», começava o alto,
«Com a su' voz de trovão!»
E logo o coro:
«P'rassustar os Pitbuxos
Que são tredos à raça de Cão!»
E também eles foram seguindo, as vozes já desafinadas, misturadas de risos, desvaneciam-se ao longe.
Apenas um Diabrete, a um canto, parecia entretido a tirar umas coisinhas pretas de entre os dedos dos pés, cheirava-as cuidadosamente e limpava o dedo aos calções antigamente, pelo menos, se calhasse, verdes.
- Posso descer? – perguntou-lhe lá de cima o Carlinhos.
- Não sei. Podes?
- Quer dizer, se não há aí nenhum desses cães…
- De quais? Destes? – apontou com o dedo sujo para as jaulas. – Há milhares. Ou milhões? Quantos são um milhão? São mais que dez?
Parecia perplexo e coçou a cabeça com a unha suja.
- São. – disse o Carlinhos. – Mas dos outros, dos cães do Guarda, aqueles com capacete e tudo.
- Desses, - disse o Diabrete. – Aqui em baixo não. Mas, talvez te interesse saber que está um mesmo atrás de ti.
O Carlinhos deu um salto, tentou olhar para trás e equilibrar-se ao mesmo tempo, um dos ténis prendeu-se num parafuso. Conseguiu agarrar-se in extremis, braços e pernas à volta da trave, os óculos pendurados só duma orelha.
O que vai acontecer agora ao vosso Primo, Gentil Senhorinha, Nobres Damas e Garbosos Cavaleiros, não o sabereis senão no próximo episódio se o Senhor Quiser e eu me lembrar de alguma coisa que concerte este desconcerto que para aqui vai.

segunda-feira, abril 09, 2007

A Gi faz anos (Peça em um acto e uma Cena)

Carlinhos - S'Dona Gi: cá a maralha, heu...
Cão da Direita baixa - Avia-te, man, qu'eu já me piquei outra vez.
Cão do Centro baixo - Não ligues a esse tótó. Anda lá par'diante!
Cão da Db - Tótó eras tu, ó carraçoso!
Carlinhos - Chiu! Ou vocês se portam fininho, ou eu não digo nada e vocês... Heu... atão era assim, S'Dona Gi, a gente vinha cá, tipo deixar-lhe estas florinhas qu'a gente gamámos lá no jardim, enquanto ali o Roscas fintava o jardineiro, e trazíamos também um bolo, qu'era da 'nha Mãe, mas, heu, ali a Sarota não percebeu qu'era p'ra S'Dona Gi e vai, zaca, morfou-o, 'táss'a ver, não deixou nem as velas, queram poucachinhas porque a minha Prima só fez nove anos.
Cão da Esquerda Alta - A Sarota sou eu. Tava baril, tinha creme e tudo! (para os outros:) É agora que eu tenho de pedir desculpa? Eu cá dizia era obrigada!
Carlinhos - Tu ficavas era bic'alada! Heu, atão era assim...
Cão da Ea - Então parabéns, e desculpe lá aquela coisa do bolo...
Cão da Db - Assim é que é! É a aviar! Parabéns, S'Dona Gi.
Cães todos (em coro:) - Parabéns S'Dona Gi,
nesta data querida,
muitas felicidades,
muitos anos de vida...
Carlinhos (indignado) - Não era nada assim, primeiro a gente dizia...
Cães todos, depois mais Carlinhos (em coro) - Hoje é dia de festa,
abanam as nossas caudas,
para menina Gi,
uma salva de palmas...
Todos (menos o Carlinhos) ladram em coro. O Carlinhos bate palmas.
(Cai o Pano)
Ainda se ouve a voz da Sarota:
Sarota (de fora) - Uma salva de palmas é o quê?

domingo, abril 08, 2007

O cão que jogava xadrez IV

Mas, Senhorinha Minha, eis que tudo se precipita, Carlinhos, escada, os Cães do Guarda, tudo desaba fragorosamente arrastando na queda jaulas, redes, passadiços, tralha indistinta numa confusão de ferros torcidos, arames enredados, água jorrando em repuxos vários, o coro dos ladridos, rosnadelas e uivos.
- Um pandemónio!
Era o que diria a Mãe do Carlinhos (e sua estimável Tia) se visse um livro do mesmo Carlinhos poisado em qualquer braço de uma das poltronas em frente à televisão.
E era mesmo! O Demónio estava por todo o lado, a fazer das suas!
Sobrepondo-se ao já de si elevado ruído, um mais agudo e irritante uivo se ergueu enquanto luzes azuis se acendiam, alternando com as vermelhas que se apagavam, avisos de cores diferentes acendiam-se à vez.
«Sorria, está a ser filmado», dizia um.
«Para sua segurança», dizia outro, «tudo o que fizer está a ser gravado e pode ser usado em tribunal contra si».
E foi, quando a escada perigosamente inclinada estava quase a cuspir fora o Calinhos, que o senhor desgrenhado só com um olho lhe deitou a garra à gola do polar e o içou para cima de uma viga de ferro:
- Tás a ver o que fizeste, ó bardajola?
Em equilíbrio precário – e pré-cárie também, como explicou o odontologista à Mãe do Carlinhos noutra altura. Estavam nas traseiras da Loja dos Chineses onde ele tinha o consultório de acumpuntura e outras especialidades rentáveis – e não sei, Gentil Senhorinha, se não incluiriam a massagem tailandesa lá mais para o fim da tarde.
Mas isso é outra história que contaremos um dia, se Deus nos der vida e saúde e a electrónica não faltar.
Voltemos, portanto, ao Carlinhos que se agarrava com unhas e dentes, à viga de ferro, olhando para a confusão lá de baixo e sem perceber bem o que dizia o homem desgrenhado só com um olho. E é pena, porque ele dizia coisas interessantes:
- Um Canil Municipal é uma coisa séria, rapazinho! Inscreve-se no grande rio da vida canina como os hospitais e os asilos para os velhadas se inscreve no da vida humana, não percebes? Temos cá sempre um ou dois estudantes a investigar, lá para aquelas trapalhadas dos doutoramentos. E agora olha! Estragaste tudo!
Mostrava com a mão o caos lá em baixo.
- O Senhor é que é o Guarda?
- Eu? – deu uma sonora gargalhada – Não, rapazinho! Eu sou o Deus dos cães! Não vês as minhas orelhas?
- Não tinha reparado. – disse o Carlinhos, um tanto ofendido por se estarem a rir dele.
Além disso, tinha ouvido falar num Deus Único, lá na Igreja, quando fizera a preparação para a Primeira Comunhão. Não acreditava que fosse aquele sem-abrigo! Um Deus Único a sério tinha de vestir assim de branco até ao chão, mesmo se aquela maneira de vestir à tropa até fosse muito mais fixe para andar por cima das traves.
Mas, e se fosse verdade? À cautela, acrescentou:
- Então o senhor é que me pode encontrar um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias para não largar pelos na alcatifa!
- Não me parece, rapazinho, não me parece! Os cães não jogam… às vezes brincam, mas não jogam. O jogo, sabes, é uma mentira e os cães, ás vezes, lá que são fingidos… Mas não, jogar xadrez não me parece. Não preferes um chimpanzé?
- Não. O que eu quero é um cão que saiba jogar xadrez e não se importe…
- … De ser aspirado, já percebi. Mas espera…
Debruçou-se na viga de ferro e soltou um assobio agudo que se sobrepôs ao grito enrouquecido dos alarmes que começavam já a estar sem bateria.
Uns vultos pretos surgiram lá de baixo e treparam às gaiolas para ouvir melhor. O homem sem um olho que dizia que era o Deus dos Cães perguntou:
- Não chega ainda de diversão, seus diabretes?
- Só mais um bocadinho…
- Sim, sim, só mais umas corridas...
- Pronto! Mas só até eu chegar lá abaixo. Depois prendem os cães do guarda e arrumam tudo.
- Fixe! – gritaram os diabretes.
E o pandemónio redobrou.
- Anda comigo, tu ó bardajola!
Desatou a correr pela viga fora, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.
O Carlinhos, trémulo de medo, lá se foi arrastando atrás dele.
Onde chegaram, no entanto, só o posso inventar mais e depois.
Por isso, Senhorinha, embora tenhamos de deixar a continuação para a próxima ocasião, confiemos em Deus (não, não é o dos cães, é o Outro) e a continuação não há-de faltar.

sábado, abril 07, 2007

segunda-feira, abril 02, 2007

O cão que jogava xadrez III


Se ainda se recorda, gentil senhorinha, abandonámos o seu Primo (o Carlinhos, dado que tem muitos outros) no Canil Municipal, prestes a gritar «Há aí algum cão que saiba jogar xadrez?»

Reparo, no entanto, que me diz, daí desse lado:

- Meu Querido Amigo, sei que não abandonou o meu pobre Priminho. Está a brincar, não está? Diga-me que sim... (1)

Tem toda a razão e não posso deixar de esclarecer que este "abandonámos" é meramente retórico. Nem o Carlinhos se deixaria abandonar sem um protesto sequer - a menos que lhe desse jeito ficar sozinho - nem eu teria coragem para o abandonar sem mais aquelas, como vai ver.

Reprova-me também, ainda que com a sua proverbial discrição, aquela insensata frase onde digo que tem "muitos outros [primos] no Canil Manicipal" e que se presta a interpretações de duvidoso gosto.

E tem, mais uma vez, toda a razão, a culpa é das minhas fraquíssimas notas a Matemática. Nunca soube se se soma primeiro e se multiplica depois ou o contrário e o que é que se tem de meter dentro dos parêntesis. Consultei, porém, o seu Primo Carlinhos e ele, impaciente por sair do mesmo sítio e continuar a busca de um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias pela Mãe (a sua estimável Tia, Mãe do Carlinhos, não do cão... hum... acho que me perdi... onde é que nós íamos? ah!:) ...para não largar pelo na alcatifa, explicou-me como é que devia fazer.

Portanto, gentil senhorinha, quando reler esta narrativa verificará que já emendei o clamoroso erro e que, tendo tudo isto perdido a razão de ser, sou obrigado a apagar desde o princípio e começar de novo com receio de algum paraoxo acidental.

Portanto, cansado de perguntar à esquerda e à direita, para baixo e para cima, o Carlinhos (o seu Primo, já tinha dito, não tinha?) parou no mais próximo cruzamento de corredores e dessa encruzilhada lançou um grito:

- Alguém aí sabe jogar xadrez?

O efeito foi catastrófico: não só porque o grito terminou com uma fífia de todo o tamanho (o Carlinhos estava na muda da voz), como de todos os lados, de cima e de baixo, da frente e lá de trás, da esquerda e da direita, se elevou um clamor imenso de ladradelas, ganidos, uivos e rosnidos.

- Calados, já! - ordenou o Carlinhos para o ar e sem qualquer efeito.

Tapou os ouvidos, mas o som atravessava as mãos, feria os tímpanos, fazia tremer as gaiolas com um som metálico como se estivessem a ser abanadas por um novo 1755, daqueles que a prof de História e Geografia tinha mostrado no power point e a maralha tinha começado a imitar batendo com as mesas e com os pés, trum-trum-trum e depois o Zé Nesgas gritou:

- Professora, bute fazer a evacuação da Escola!

E desataram todos a fugir e a gritar pelo corredor fora, «tremor de terra, tremor de terra!» e era portas a abrir-se e putos a correr por todo o lado e a contínua Gracinda a gritar também e só Stora de História é que dizia «não é nada, não é nada!»

Qual não era nada! Era mas era treze putos para o Seguro Escolar fazer curativos, uma pancada de vidros e cadeiras partidos, livros e canetas pisados, roupas rasgadas. E só suspensões, foi um dia para a turma toda, três para o Tavares e para o Anjolas e cinco para o Zé Nesgas que não convenceu ninguém de que nesse dia tinha faltado porque estava com asma.

E, no meio do alarido (do Canil, não da aula de História), o Carlinhos reparou que havia cães nos corredores.

- Corre - gritou-lhe um rafeiro da jaula ao lado. - São os Pitbuxos do Guarda!

- Trepa - gritou-lhe outro. - Eles correm mais do que tu!

- Trepo onde? - pensou o Carlinhos e desatou a correr, com a barriga a saltitar e os bofes a sair-lhe pela boca.

Havia uma escada de ferro, daquelas verticais, que levava lá acima ao passadiço. O seu Primo (o Carlinhos) atirou-se para o quarto degrau, voou para o quinto e o sexto enquanto meia perna da calça se rasgava e caía para o chão com um Pitbuxo agarrado.

Trepou ainda mais três degraus e teve de parar, agarrado com quantas forças tinha, o corpo todo a tremer como se fosse geleia e a respiração pior do que a da garina da entrada. Em baixo os Pitbuxos saltavam a tentar chegar-lhe aos ténis.

Foi quando lá de cima, do passadiço, lhe chegou um berro tonitroante que se sobrepôs ao vozear do cães. Uma cabeça desgrenhada espreitava-o de lá de cima. No meio do seu pânico, o Carlinhos reparou que aquela carantonha horrível só tinha um olho.

(1) Para os jovens menos afeitos a estes jurássicos falares, deixo aqui uma tentativa de tradução: «Com'ék'é, ó palhaço? Deslarga-s'assim o baril k´é meu primo?»

(continua, Deus sabe até quando, nos próximos números)

sábado, março 31, 2007

O cão que jogava xadrez (2)



Parece que Deus quis, por isso, senhorinha, cá vai:

O primeiro impulso foi fechar a porta. O Carlinhos sabia que os bichos têm cheiro, a Mãe (e sua Tia, como já sabe) andava sempre a dizer que o gato da vizinha de cima deixava as escadas empestadas, mas, pomba! nunca tinha visto (cheirado) nada como aquilo. Ainda com a mão no ferrolho reflectiu: queria um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não deixar pelos na alcatifa ou não queria?

Fechou a porta atrás de si e avançou uns passos. As gaiolas feitas de rede iam até lá muito em cima, empilhadas umas nas outras, entaladas num emaranhado de escadas e passadiços que faziam lembrar as histórias do Homem-Aranha e de todos os lados surgiam as pontinhas pretas ou rosadas de focinhos de cães que ganiam, ladravam ou uivavam. nas jaulas que ficavam à altura dos olhos, os canitos pretos, brancos, malhados ou castanhosabanavam furiosamente os rabos e perguntavam:

- Sabes onde é a minha casa?

Ou então:

- Sabes dos meus donos?

Outros ainda, só queriam que ele lhes dissesse como é que se saía dali.

- Tu também vens para cá? - perguntou uma magrizela com o focinho embranquecido, a segurar-se com as unhas à rede da gaiola de baixo, num esforço para o cheirar.

O seu Primo (o Carlinhos, claro) pôs-se de cócoras para a ver melhor.

- A minha dona, logo vem-me buscar - informou da jaula ao lado uma outra, de cauda emplumada quase sem pelo, o nariz empinado.

- Coitada - disse a Magrizela baixando a voz. - Já não está muito boa da cabeça. Há quinze dias que diz a mesma coisa. E tu, afinal, o que é que fazes aqui?

- Sabes jogar xadrez?

- Ná. Não sei jogar coisa nenhuma. E olha, já estou muito velha para aprender. Sabes quantos anos tenho? Catorze. E tu, tu ainda és uma cria. Tu tens o quê, oito meses?

O Carlinhos fez contas de cabeça: sete anos de homem fazem um de cão, portanto já devia ter um ano e coisa. Mas nem teve tempo de dizer fosse o que fosse:

- Não viste lá fora a minha dona? - interrompia a emplumada. - Está a preencher os papéis para me vir bucar.

- Vi - mentiu o Carlinhos. - Mandou dizer que só te pode vir buscar amanhã, mas vem logo de manhâzinha cedo.

Com o indicador (era o que cabia nas malhas da rede) fez uma festa no nariz da Magrizela e acrescentou:

- Esperem um bocadinho. Venho já.

Ergueu-se para continuar pelo corredor.

- É um bom mentiroso - murmurou a Magrizela para si mesma. - Há-de ser pai de muitas ninhadas.

Deitou-se a um canto da sua cela e adormeceu a sentir uma pontinha de calor, como se estivesse de novo deitada ao pé da fogueira.

O Carlinhos, esse, pelo corredor fora via tantos cãezitos e canzarrões que não sabia o que fazer. Perguntara, um a um, para a esquerda e para a direita, de baixo até tão alto quanto os bicos dos pés alcançavam: «Sabes jogar xadrez?» E a resposta era invariavelmente:

- Não chateies, meu. Diz lá, mas é quando é que a gente pode bazar daqui.

O Carlinhos tomou uma decisão. Assim não ia a lado nenhum, havia centos de cãezinhos por ali acima, para lá dos passadiços. O melhor mesmo era, em cada bocado de corredor, gritar com quantas forças tivesse «há aí alguem que saiba jogar xadrez?» e esperar pelas respostas.

Parecia, de facto, a melhor solução, mas não foi. Por dois motivos. Mas, para os ficar a saber, minha gentil senhorinha, terá de esperar pelo próximo capítulo (se Deus quiser, claro).

(continua no próximo número)

sexta-feira, março 30, 2007

O cão que jogava xadrez

Olhe, minha jovem senhorinha, velha era a sua Tia e casou-se.
Mas como, coitadinha, não era maluca, passou a vida a aspirar a mesma alcatifa, com o mesmo aspirador e o seu Tio todos os dias calçava as mesmas pantufas para não a sujar.
Fizeram amor quatorze vezes (embora não muito de seguida) e daí nasceu o seu Primo Carlinhos, pósmaturo com seis quilos e seicentos e um QI de 148. Aos doze anos, contemplando o Pai (o seu Tio por afinidade) que dormia a sesta no sofá forrado com um pano azul, o ventre subindo e descendo com um som assobiado, e a Mãe (a sua venerável Tia) que tirava o fio ao feijão verde com um alguidar cor-de-rosa, decidiu:
- Vou arranjar um cão.
O problema era arranjar um que jogasse xadrez e não se importasse de ser aspirado todos os dias para não espalhar pelos na alcatifa.
Ao sair da escola, esmurrado um mangas que lhe chamara gordo, dirigiu-se ao canil municipal. Teve de bater à porta uma data de vezes até aparecer uma garina muita grande, muita corada, com muita mau-humor, a ajeitar os botões dos jeans e com uma respiração que parecia a do Zé Nesgas quando estava com um ataque de asma.
- Está doente? - condoeu-se o Carlinhos.
- Quéquetuquerezóputo?
- Quero um cão, um que jogue xadrez e que não se importe com o aspirador para não largar pelos pela alcatifa toda! - explicou o Carlinhos.
A garina fungou, uma coisa que a Mãe (a sua Tia, como já referimos anteriormente) dizia sempre que era feio e não se devia fazer. O Carlinhos extraiu do bolso um lenço de papel já usado e perguntou se a senhora precizava.
- Pisga-tó mongas! - disse a garina, ainda com pior humor.
- Mas eu quero um cão que jogue xadrez e não s'importe...
- Tá bem, desampara-m'a loja. Olha aí, pra lá dessa porta, há uma data de corredores com cães e gatos. Quando achares alguma coisa ficas quieto até eu ir lá ver de ti.
O Carlinhos ficou um minuto a olhar para ela que desaparecia à pressa na casota envidraçada onde parecia agitar-se alguma coisa.
- Fogo! - pensou o rapaz - Até parecia a Stora de Inglês quando está c'os sangues!
Encolheu os ombros robustos e abriu a porta. Um cheiro agoniante e um coro de ladridos chegaram-lhe de imediato, vindos das gaiolas de rede que faziam um lado e outro do corredor que se lhe abria na frente.
(continua no próximo número, se Deus quiser)

terça-feira, março 27, 2007

Trop maigre pour être malhonnête



Bien sur, l'argent n'a pas d'odeur,

Mais pas d'odeur nous monte au nez...

terça-feira, março 20, 2007

Ecce Homo


Iesus Christus aka Nazareno aka Rex Iudeorum

sexta-feira, março 16, 2007

quarta-feira, março 07, 2007

"aos cépticos como eu..."





Imitação de morte é esta vida,
nem morte ainda, mas nem vida já,
à força de penosa e corrompida,
em que mais a razão desperta está,
e, porque desperta, mais vencida.
Imitação de vida é esta morte
quotidiana, que nos coube em sorte.


Armindo Rodrigues, Entre o quotidiano e a aventura, VII

quinta-feira, março 01, 2007

Fora da Graça de Deus

Andando eu, Tacci, muito fora da Graça de Deus, por razões que jamais virão ao caso, e não tendo nada de novo para aqui colocar, deixo por substituto uma visão assaz subjectiva de um concerto de jazz ouvido e contemplado no Centro Comercial de Belém.


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Os Portugueses, Caramba!


Dum modo geral, concordo até com as opiniões do autor. Permito-me reservar apenas o meu juízo quanto à reivindicação que o sr. dr. Boléo faz da Galiza e de parte das Astúrias para a costituïção do que seria o verdadeiro Portugal à face das determinantes geográficas. Não duvido de que essa teria sido uma grande Nação, um Portugal Maior, e até de que poderia ir mais longe, à Andaluzia, à África Menor, à Bretanha, à área da talassocracia ocidental do começo do bronze, o domínio dum grande Império Português do Ocidente, Atlântida magnífica dos tempos modernos.

Mas a geografia suscita muitos devaneios imperialistas, que na prática tem os seus perigos e as suas objecções. Fiquemos, pois, em que êste nosso Portugal, e não outro, êste portugal em que nascemos, em que vivemos, que servimos, que amamos, é pela vontade de Deus, da natureza e dos homens, o verdadeiro Portugal.

A. A. Mendes Corrêa, Raízes de Portugal, 1944


Sem título


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Sem Título


Pronto!
Hoje é só um passante.
Não sei nada dele.
Nem donde vinha, nem para onde foi, nem o que ia a pensar.
Atravessou a rua na minha frente e nunca mais o vi.
Se o voltar a ver, pode ser que não o reconheça.
Foi, provavelmente, o milionésimo passante a atravessar uma rua na minha frente.
Mesmo sem ser cliente, podia ter direito a um brinde.
Este desenho, por exemplo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Os defeitos do infiel

Caminhamos dous dias com a maior pressa que nos foi possiuel, posto que com trabalho, por razão das neues que neste logar começauâo a se passar com difficuldade; se não quando a outro dia pella menhâa chegaram a nós outros tres serranos, mandados pelo Gouernador da terra com grandes ameaças e medo aos que nos guiauão, se fossem mais por diante; dizendolhe que sua molher e filhos ficauão em estreita prizão, e seu fato confiscado; e se não voltasse, auião de morrer todos; e a mim com varias ameaças e medos, procurarão amedrontar, dizendo que meu companheiro, que estaua na aldeia, passaria muito mal, se eu logo não voltasse; e o fatinho que tinhamos, seria tomado por perdido, e sobre tudo que auia de morrer infalivelmente, se hia por diante, por não ser ainda tempo de passar aquelle deserto, com outras muitas cousas e espantos desta calidade. O serrano que nos guoiaua, voltou logo; e eu como tinha todas as informaçoens do caminho, me fui por diante com dous moços, por não se atreuerem tres que tinhão vindo a mais, que a nos mouerem com palauras. Inuocado o nome de Jesu e ajuda do Senhor, continuamos por diante; porém o trabalho que passamos foi muito excessiuo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encrauados dentro na neue, hora até os hombros, hora até os peitos, de ordinario até o joelho, cançando a sair asima, mais do que se pode crer, e suando suores frios, vendonos não poucads vezes em risco de vida; muitas vezes nos era necessario ir por cima da neue com o corpo, como quem vai nadando...
Nos pes, mãos e rosto, não tinhamos sentimento, porque com o demasiado rigor do frio, ficauamos totalmente sem sentido; aconteceome pegando em não sei que, cahirme hum bom pedaço de dedo, sem eu dar fee disso, nem sentir a ferida, se não fora o muito sangue que della corria. Os pees foram apodrecendo de maneira, que de muy inchados, nolos queimauão depois com brazas viuas, e ferros abrazados, e com muy pouco sentimento nosso...
P. António Andrade, O descobrimento do Tibet

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

As margens do Mondego



Primeiro: 1894

Enquanto às suas ideias - não lhe parece que o nativismo e o tradicionalismo, como fins supremosdo esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria - e um ser pensante não pode decentemente passar a existência a murmurar extaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado, o tradicionalismo em literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 - e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita e que o meu amigo dele espera.

[...] O dever dos homens de inteligência, num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar o rouxinóis do Choupal de Coimbra.

Eça de Queiroz, Correspondência, a Alberto de Oliveira, 1894


Segundo: 1925


Tinham dado a volta à cerca. Tornavam lentamente. Jorge insistia, arredava:

- Deixa lá os parques de Paris que, por muito belos que sejam, não valem para nós a beleza destas amigas árvores que nos viram crescer, nem a desses limoeiros entrèvadinhos que me fizeram chorar quando os tornei agora a ver. E não te desoles. Uma demão ligeira nestas coisas, alguma erva ruim mondada, uma tesoirada aqui e ali no arvoredo que se tornou bravio, e fica tudo como deve ser. E olha, Maria Clara, que é êste simples tratamento de que está precisando a nossa terra. O que isto está é maltratado, abafado pelo parasitismo nulo que tudo invadiu e não deixa vingar a boa semente. Crê, Maria Clara, é o alheamento dos bons valores que deixou chegar o nosso país a êste estado; e se não lhe acudirmos tôdos pode o desastre ser irremediável. Se há justos melindres que não permitem a colaboração em certos campos, ninguém tem o direito de se negar a contribuir para o bem-estar da sua pátria. Há melhor exemplo do que o teu, Maria Clara, com as tuas escólazinhas tão simpáticas e prestimosas?

Maria Clara acudiu modesta:

- Ora, um simples passatempo.

- Se todos tivéssemos dêsses passatempos, encontraríamos mais socêgo e mais alegria na vida. Aborrecemo-nos, justamente porque porque não temos artes para arquitectar a vida com atitudes belas. Quem não conhece o valor da vida é quase indigno de viver.

Pisavam de novo os tejolos gastos da varanda. Jorge deteve-se circumvagando a vista em roda. Da borda descortinavam-se as eminências majestosas da cidade, as Ursulinas, as Terezinhas, a Universidade, os rebaixos das encostas verdes do Seminário, e as cordilheiras longínquas, a leste, nas neblinas vagas. O ar transparecia em pureza diáfana e acarinhava como olôr tépido. A luz cendrava as coisas de contornos vaporosos, doirando-as.

- Mas basta de filosofias. Quando se contempla uma natureza tão bela o que apetece é adorar.

- Adorar mas é a Deus, daqui a pouco nos altares. E não podemos demorar-nos, notou Maria Clara.

Manuel Ribeiro, A Colina Sagrada, 1925

sábado, fevereiro 10, 2007

Manuel Ribeiro (1878 / 1941)

Ao "Deus não existe ou é cego", de Raúl Brandão, teremos, quem sabe, de acrescentar que, a não ser nenhuma dessas coisas, então está de má fé, como o homem que fez à Sua semelhança.
Não sei se não terá sido este o maior problema com que se defrontaram os jovens intelectuais saídos da república. Quando confrontados com as realidades duras da militância, os ideais, as utopias, as mais firmes doutrinas tendem a esboroar-se. As verdades mais evidentes, mais bem apoiadas pela observação, são constantemente postas em causa pela cegueira dos adversários. Teoria nenhuma, por mais bela, por mais altruísta, resiste às cedências, aos jogos políticos, aos acordos secretos.
"O idealista revolucionário", escreve Manuel Ribeiro em 1929, na carta-prefácio a Os Vínculos Eternos, "que não sem ironia a gíria social alcunha de puritano, por sua intransigência feroz em matéria de princípios, é um tipo curiosíssimo de rigidez austera, de sentimentalidade extrema, ingènuamente puro e simples, leal e franco..."
O próprio Manuel Ribeiro conheceu em primeira mão estas qualidades que atribui ao revolucionário. Ele próprio o foi, segundo reivindica: expulso da C.P. onde trabalhava, por militância anarco-sindicalista, colaborador de O Sindicalista e de A Batalha, e, posteriormente fundador de A Bandeira Vermelha, que era o órgão da Federação Maximalista Portuguesa.
Na década de 20, a sua trilogia social, A Catedral, O Deserto e Ressurreição, alcança um êxito inesperado ao traçar o percurso de Luciano, um arquitecto apaixonado pelas vetustezas da Sé de Lisboa, desde a arte da pedra até Deus.
Pouco depois foi reintegrado na C.P. e, posteriormente, transitou para a Biblioteca Nacional primeiro e a seguir para a Torre do Tombo como conservador.
Os Vínculos Eternos, que tenho vindo a citar, é o último livro de uma segunda trilogia, a trilogia nacional de que constam ainda Colina Sagrada e Planície Heróica. Desta trilogia, ainda não consegui encontrar a Planície Heróica.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os Vínculos Eternos


- É verdade, sr. reitor! - exclamou Mateus com energia - Nada eu soubesse! Desse pouco que aprendi não recolho senão trabalhos, ralações, apoquentações! Valeu a pena! Antes ser como o José Pedroso que encara a vida como ela é e há-de acabá-la bem gozada! Mete-me inveja! Não lhe quero mal; não quero mal a pessoa nenhuma. Vivem todos como se deve viver, aí está! Eu é que falhei, porque não me adapto a nada...
O acento desconsolado que o rapaz pusera nas suas palavras, impressionou o padre que abanou tristemente a cabeça.
- Valeu bem a pena, valeu!
Contreiras, que se debatia numa crise sentimental, comoveu-se, exaltou-se.
- E o sr. nem faz ideia do que eu fui, do que eu passei, do que sofri, em pura perda, para me causticar agora a verdade scientífica, a rir-se do burlesco e do ridículo de tudo!... Arremessado na cidade, onde o prazer é feito com o sangue dos oprimidos, e todo o gôzo alicerça em dores obscuras, fui mais miserável que todos os miseráveis, por ser sensível e consciente. Tantas vezes errante sem guarida, tantas vezes faminto, escorraçado, só para resguardar sem mácula a flor sagrada de um nobre ideal! E puro, sr. reitor, grutescamente puro, para ter o orgulho de afrontar a crápula, e gozar esta alegria moral, tão boa, de nos sentirmos coerentes!
Manuel Ribeiro, Os vínculos eternos, 1929

terça-feira, fevereiro 06, 2007

AVISO:

A todos os bloguistas que costumam ser visitados por nós, se faz saber que, por motivos alheios à nossa vontade, a electrónica não tem permitido deixar os comentários que, por vezes, apetecia fazer.
Tal situação, que se deseja breve, não impedirá que passemos as nossas horas a passear pelos vossos blogues, com o prazer e o proveito do costume.
A bem do Portugal, Caramba,
a) Tacci

domingo, fevereiro 04, 2007

Um "emalho" do Sérgio de Sousa


«... a partir de meados do século que findara, nas grandes cidades do sul da Europa, cresceu significativamente o número das famílias constituídas por um casal e seus, poucos, filhos. A mulher passou a trabalhar também fora de casa, em escritórios. Num primeiro período cumulou sozinha o trabalho doméstico com o que exercia fora; a seguir, o homem foi chamado a colaborar na chamada lia da casa, primeiro como auxiliar, depois com responsabilidade em trabalhos repartidos.

A partir de então, lentamente passou-se a tentar atenuar as diferenças na educação entre a dirigida a filhos e filhas. Em casa todos tinham de contribuir para os desempenhos imprescindíveis à vivência comum: numa semana cabia ao filho por a mesa e á filha lavar a loiça, na semana seguinte estes papéis invertiam-se.

Sair á noite para se divertir deixou de ser uma prerrogativa exclusivamente masculina.

Não foi sem resistências que o modelo principiou a instalar-se, não sendo naturalmente do agrado dos rapazes, antes isentos das obrigações que impunha, mostrando-se por vezes as raparigas demasiado intolerantes quanto à mínima infracção que lhes fosse desfavorável, a realidade era que os próprios pais que procuravam impô-lo traziam incutidos hábitos que lhe eram contrários.

Franqueados às massas de raparigas da classe média o ensino secundário e posteriormente o superior, às que concluíam os estudos, empregos no sector terciário, elas logo compreenderam a oportunidade de se libertar de dependências seculares. Por instinto, protecção dos filhos, escolherão parceiros que acreditem lhes lhes conferirão segurança, mas ganharam confiança em si próprias, na sua capacidade de se sustentarem, de não terem de se precipitar em escolhas, de poderem corrigir passos em falso. Acedem com mais facilidade do que os rapazes às faculdadesa, tornam-se aí em maior número, obtêm boas notas.

Olham em volta. Vêem um mundo ainda dominado por homens em lugares chaves, mas vêem também que todos os dias uma mulher atinge um posto cimeiro, e isso inevitavelmente constitui um estímulo para todas.

Chegaram, numa parcela só do velho mundo, apenas para as integrantes de um estrato social, por enquanto, tempos de emancipação feminina.

E quanto aos rapazes que coabitam no mesmo meio? Há que reconhecer algum descalabro. Perderam o modelo, ainda não o substituiram, não sabem o que fazer com as suas vidas. Os seus pais não são mais os senhores ociosos credores dos prazeres terrenos. São seres que todos os dias cedem privilégios face ás reivindicações femininas, perdem espaços, autoridade, autonomia. Muitos rapazes olham para tudo isso com uma sensação de desamparo e de revolta.

Os machos acomodaram-se numa soberba que, quando as fêmeas lha não acalentam, os deixa desorientados.»

Sérgio de Sousa, Na boda

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Alicante

Une orange sur la table
Ta robe sur le tapis
Et toi dans mon lit
Doux présent du présent
Fraicheur de la nuit
Chaleur de ma vie.
Jaques Prévert, Paroles

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Sevilha, 1911

Foi na feira de Sevilha de 1911 que eu e o meu compadre João Perestrelo [... ] apresentámo-nos a todos como sendo toureiros. Ao declinar o nosso nome é que foram elas, num cais a desoras.
[...] Dizia um: «A que si», respondia o outro: «A que nó», e mano João larga-lhe um estalo à portuguesa e depois... nunca vi tanto geito de sermos cosidos à facada. Dalí fomos ao «Puesto Fernando» onde se faziam encierros e fizemos lá tantos estragos e só de louça partida foram oitenta duros...
Arnaldo Futscher Reys e Souza, Ergue a campa Vimioso

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Deserdados

«Se escrever alguma coisa sobre Açoreira não se esqueça cá do rapaz...»
Mas não têm tempo de dizer mais nada. A desordem rebentou numa mesa do outro lado da sala, com copos e garrafas partidos de mistura com exclamações que afundam a música.
William encaminha-se para a mesa, calmamente, bamboleando as ancas, mas levanta-se um dos latagões que a ocupam para o enfrentar na atitude de desafio de quem vai pegar um toiro. São membros de um grupo de forcados de qualquer terra alentejana, todos de físico desenvolvido, ao contrário da maioria dos presentes, expressões hostis e trocistas. Em todos os actos da sua vida usam a mesma atitude que exibem na arena: desplante e coragem inútil. Para eles, William, pálido e esguio, o rosto mais franzino pela cabeleira enorme, assemelha-se a um fraco novilho que uma simples palmada entre a cornadura derrubará facilmente.
«Os senhorres... é favorr abandonar a sala...»
O que lhe faz frente e parece ser o cabo do grupo, avança de mão aberta e gargalhada escarninha:
«Seu maricas! Vou já tirar-lhe essa camisa cor de laranja!»
Os pares imobilizaram-se, algumas raparigas soltam gritinhos, de medo ou de espanto, e só a voz do disco continua a dominar o ambiente, desvanecendo a violência da cena ou tornando-a ridícula:
Si jávais Brigitte Bardot
Ah! si jávais Brigitte Bardot...
Não se movendo quase, William evita o punho fechado do forcado e projecta-lhe um murro em pleno queixo. O outro sofre a surpresa, mas não se arreda um milímetro sequer do local em que está, e nesse instante, como a um sinal do cabo, os restantes, que já varreram para o chão quantos copos e garrafas havia em cima da mesa, ergueram-se e secundaram o chefe ultrajado.
[...] O guarda pretende entrar no grupo, tornar-se simpático, pressentindo que deve tanta consideração àqueles homens de autoridade e força, por certo de bom nascimento, como ao próprio dono da boite a quem se obrigam a defender.
[...] «Deviam fechar isto, senhor guarda, este coio de maricas. Olhe-me para estes tipos todos e diga-me lá se distingue os machos das fêmeas... Mas nós pagamos, pagamos tudo, descanse...»
Perante a cena, os demais frequentadores do Welcome, William, Camacho, as inglesas de menos de vinte anos, os moços atrevidos mas agora silenciosos, o próprio José Álvaro, ficaram estranhamente deslocados e insignificantes.
Mário Ventura, O Despojo dos Insensatos

domingo, janeiro 21, 2007

Et revoilá...

Toi, t'etais pas mal, ce temps-lá.
Tu t'aimais un tout petit peu de trop,
peutêtre.
Mais voilá.
Je t'aimais surtout
quand t'avais tes coups de pompe.
C'est encore quand je t'aime le plus.
Mêmme.
Si.
Je te vois plus, depuis des eternités.

Três tristes Taccis ao quadrado

Graças ao "Pequenos nadas" da Gi (que pode ser clicado aqui mesmo, do lado direito) e, através dele ao blog da Wind (http://wind9.blogspot.com/) passei uns momentos bem divertidos enquanto ia ouvindo o Whalerider, da Lisa Gerrard.
Hei-de aprender a mostrar a música que, uma vez por outra, consigo ouvir.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

terça-feira, janeiro 16, 2007

Vimioso, Caramba!

Como se chamava o pequeno cinema à ilharga do edifício do Éden, no rés-do-chão?
O homem que ali vendia gravatas, andando para trás e para diante no passeio, com as gravatas dependuradas de uma barra sobre o peito, a barra sustentada por uma correia que lhe passava por detrás do pescoço. E uns conhecidos rapazes de boas famílias, irmãos e desordeiros, metidos em lides tauromáquicas e automobilísticas, que se divertiam a fingir que escolhiam uma gravata, tirando uma após outra do expositor e lançando-as sucessivamente no chão. No chão onde certo dia um daqueles valentões andou de gatas, a apanhar as gravatas, com uma pistola apontada à cabeça pelo vendedor ambulante.
Sérgio de Sousa, Errar

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O Rudolfo fez plaff no asfalto como um sapo despejado de sétimo andar

No grupo havia um indivíduo extra-bisonho, Zé de nome e Rudolfo por alcunha. Fumava sem parar, além do que rosnava, comentários imprecisos. Uma vez por mês tinha um ataque de fúria animal e espatifava quanto houvesse a espatifar - antes que alguém metesse ali ponto final, no queixo ou em qualquer outro interruptor dessas correntes. A presença dele onde quer que fosse parecia provir da responsabilidade do Gaspar, exclusiva. Um dia perguntei: «Porquê o Rudolfo?» «Bem», disse o Gaspar. «Eu nunca faria o gajo, mas está vivo, não? Então? Tem de circular.»
Nuno Bragança, A noite e o riso

terça-feira, janeiro 09, 2007

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Finalmente, Caramba! A banda de Bucelas!

Entrou! Milagres da electrónica! Ou, quem sabe, as penas do Inferno. Seja como for, entrou. Obrigado, Bill Gates.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Por motivos alheios à nossa vontade...

O blogger, por uma daquelas muitas e misteriosas razões só da electrónica, não me deixa inserir um boneco com a banda de Bucelas que devia, pensava eu, acompanhar o texto do Nuno Bragança. O blogger é de opinião contrária. provavelmente tem mais bom-gosto (já sei, já sei!) do que eu. Em sua substituição, aqui fica o «japona retocado 2».

terça-feira, janeiro 02, 2007

Os Vimioso e a Banda de Bucelas

Quando nas suas iras, o Rudolfo gostava imenso de bater. Arrumar um adversário despachável à primeira, nem pensar. Organizava as lutas de molde a chegar à última trancada nuns vagares, gourmet de sexo a retardar o orgasmo. Escolhia as vítimas a dedo, sem as estudar antes de lhes saltar em cima. Tinha a pontaria de quem se movimenta em função do puro instinto.
O homem de Bucelas mostrava-se uma presa ideal. Porque tinha agilidade e força, e era corajoso.
[...] Durante um naco de tempo, o Rudolfo foi demolindo o outro, camponesa de bons dentes absorvendo um cacho de Ferral
Os bucelenses extra-banda, estarrecidos, não tinham receita apropriada. De cada lado dos contendores(1) , uma fila de tocadores de Banda desfilava, narizes no papel pautado.
Foi um saxofonista quem virou a página. Ao ver o sucedente, passou o instrumento ao companheiro de trás. Atravessando tudo e todos numa implacabilidade de furão em rasto certo, chegou-se ao Zé-Rudolfo e deu-lhe uma na nuca com o talhe da mão.
O Rudolfo fez plaff no asfalto, como um sapo despejado do sétimo andar. «Este é músico», disse o Simão, olhando o saxofonista atenciosamente, nuns carinhos. Após o que, chegou-se a ele e foi-lhe às ventas, com o sorriso duma Madre Superiora afagando noviça que promete.
A intervenção do [Simão] C. C.: copo de gasolina entornado em chama de caruma. Num já-está, a selecção de Bucelas e o meu grupo defrontaram-se num vale-tudo incluindo instrumentos musicais servindo de matracas. Para os polícias, que andavam pela orla dos passeios de cacetete em erecção constante, esta oportunidade de molhar a sopa em nova frente foi éclair de chocolate à mão de uma madame.
Nuno Bragança, A noite e o riso
(1)A minha edição (Moraes, 1971) regista «contentores», o que me parece claramente uma gralha. A não o ser, o Nuno Bragança terá de me perdoar: não me passou pela cabeça emendar-lhe a escrita, nem a ninguém, quanto mais a ele.

Alcaïns - 4

Esta Senhora, infelizmente já partiu.
Para uma vida melhor, de certeza, se existir uma seja onde for.
O Senhor Padre Novo também, mas esse cooptado pelo seu Bispo para cargos mais exigentes do que mandar fechar a Capela do Espírito Santo à meia noite.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Alcaïns - 3

O Sr. Padre Novo, que não era nada tolo, apercebeu-se rapidamente de que a religiosidade, por não seguir sempre o canon de Roma - nem, por vezes, o bom senso - não deixa de ser religiosidade, profunda e sentida. A tradição de intolerância foi mais forte. Deixou de se opor. Mas foi incapaz de participar.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Alcaïns - 2

A vida na Beira Interior foi sempre muito dura. Contam as pessoas mais antigas que, muitas vezes, o jantar era uma malga de feijão pequeno (o feijão frade), com um fio de azeite -se havia. E uma bucha de pão para levar para o trabalho. Ou para a escola. A professora batia. Com a régua, nas mãos inchadas pelas frieiras e geladas do frio.
Até ao surto da emigração, nos anos sessenta e setenta, passava-se fome. E no Inverno, muito, muito frio, nas casas de telha vã e chão de pedra.
Era assim, contam ainda.

Alcaïns - 1


Já lá vão alguns anos.
Havia, é claro, um padre novo na paróquia, que com ser novo também nos anos, quis modernizar os hábitos. Talvez por achar mórbida a tradição, decidiu que a capela mortuária fecharia à meia-noite. No dia seguinte, logo pela manhã, abria-se de novo, o velório dos falecidos continuaria depois de todos terem descansado.
Que tal foste fazer:
À primeira tentativa de impedir que o velório durasse a noite toda, como é devido, as senhoras ergueram o estandarte da revolta. Um grupinho de gente antiga decidiu postar-se na capela. E ai de quem as fosse de lá tirar.
Como não ficava bem à família deixar que o falecido fosse velado apenas pelo grupo, fiquei lá eu também a fazer companhia. Éramos seis, cinco senhoras e eu.
Não sei se os mortos nos podem ouvir, lá do sítio para onde migram as almas. O que sei é que toda a noite se contaram histórias, umas do volfrâmio, outras de padres, as senhoras picaram-se umas às outras e riram-se. O falecido, que era um bom conversador, havia de ter gostado de participar.
Consegui depois, de memória, desenhar quatro das minhas cinco companheiras. A quinta que me perdoe por não figurar aqui senão na recordação daquelas horas.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

- Sim, titi.


Numa sala forrada a papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dois óculos defumados. por trás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para mim, com o peito trespassado de espadas.

- Esta é a titi - disse-me o Sr. Matias. - É necessário gostar muito da titi... É necessário dizer sempre que sim à titi!

Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, duma frialdade de pedra; e logo a titi recuou enojada.

- Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo!

Assustado, com o beicinho já atremer, ergui os olhos para ela, murmurei:

- Sim, titi.

Eça de Queiroz, A Relíquia

segunda-feira, dezembro 18, 2006

"...intimidação cruel."









A fama, que pelas aldeias circunvizinhas apregoava o nome do missionário, atraíra imensa gente a escutar o sermão.
No fim de alguns minutos aparecia no púlpito a figura bem nutrida e pouco atrente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes [...]
Enfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa e principiou.
[...] As mais tétricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, inúmeras torturas, a que o menor delito, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntária falta à missa, uma penitência esquecida, uma oração suprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada pecado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. o tribunal de Deus arvorado em tribunal do Santo Ofício, onde os autos de fé, os potros, e cavaletes aguardavam os delinquentes arrastados até ali; eis o resumo da oração. A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no pórtico do inferno, traçava-a este sobre os umbrais do tribunal do Eterno.
Na escultura do Cristo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto de um acusador, surgindo ali a pedir vingança, e não o do redentor sublime, a implorar e prometer perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociais, contra a obra do século, contra os descobrimentos, contra a ciência, contra tudo em que se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as ideias em sentido menos favorável à propaganda reaccionária.`
À medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; aumentava a desordem dos gestos e refinava a selvajaria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditório, e principalmente da parte feminina dele, ia crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cedo era já um angustioso clamor em toda a igreja.
Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Hainnish Mãe

A Hainnish gosta de escrever pequenas histórias, pelo menos enquanto não tem tempo para as grandes. Por vezes, o tempo é tão pouco que só lhe resta dar aos filhos um pequenino poema. Eles decoram-no logo, divertidos e orgulhosos.
A Minha Mãe

Debaixo da cama

Tenho um lobo mau.

E no meu armário

Vive um animal.

Mas no quarto ao lado

Dorme a minha mãe

Que guarda o meu sono

Como mais ninguém.


quinta-feira, dezembro 14, 2006



O absurdo máximo é viver e morrer! Ser e não ser! A vida é um sim que significa - não! O homem exclama: sim! Os ecos respondem-lhe: não!

Erguer e deitar abaixo! Fazer e desfazer! Deus, o que há de infantil na tua Obra!

O culto do Menino Deus! Deus é o Deus Menino. Lá está num altar da minha igreja, e tem o mundo na mão. Para quê? Para brincar com ele.

A esperança desespera, o amor odeia, a razão endoudece! É o desvario infantil que vem da Origem e trespassa todas as cousas...

E a Morte? O prazer com que ela mata certas pessoas! É uma criança a esfarrapar uma boneca.

A Criação é uma obra infantil, porque Deus é o Deus Menino. O velho barbudo de Israel é um pesadelo do Deserto.

Teixeira de Pascoaes, O Bailado,«Sombra e Pedra», VI a XI

sábado, dezembro 09, 2006

O velho, a carroça e o burro


Era uma vez um burrico, como qualquer burrico que dantes por aí andavam, de carga às costas ou a puxar pela carroça. Não tinha nome sequer, era o «arre burro», o «estupor do burro», quando não era pior.
Durante o dia carregava lenha, sacas de feijão ou de batata, seiras de azeitona. Ao fim do dia acartava com o dono adormecido, da taberna para casa. E se o dono era pesado!
Um dia, porém (tinha de haver um dia diferente, senão não havia história para contar) o burro zangou-se. Não era justo, caramba, era sempre ele quem puxava pela carroça, porque é que não havia ele, a partir de agora de ir sentado lá em cima?
E se bem o pensou, melhor o fez. Quando o dono saiu da taberna a trocar os passos e se quis apoiar à carroça, o jerico deu um passo em frente, o dono estatelou-se e ficou a dormir de borco na valeta.
'Agora é que é', disse o jerico. 'Vou fugir na carroça!'
E, libertando-se das rédeas, trepou para cima do veículo (hipomóvel, como diz o sr. Cabo da Guarda) : 'Arre burro', disse ele.
Mas, como os leitores todos já tinham previsto, a carroça não andou. E o burrico, desanimado, pensou que, bolas, não valia a pena dizer 'arre burro', porque o burro era ele. E usar o chicote, tá quieto! Não era parvo para bater em si mesmo.
'Bom, olha, o melhor mesmo é ir à pata, como sempre fui', decidiu.
E meteu os cascos ao caminho, cheirando os perfumes da noite e parando aqui e ali para tasquinhar uma ervinha.
Até hoje não voltou a casa.
Na aldeia toda a gente se ri quando vê passar o antigo dono a puxar ele próprio a carroça. Está bastante mais magro, dizem.
Moral desta história? Tem de ter uma? Então cá vai:
«Se não queres ter dono, tens de prescindir da carroça»
Feliz Natal!
Nota: Esta historinha é dedicada a todos os blogues por onde me passeio, mas muito especialmente aos autores do Blasfémias.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Intercidades



Intercidades
I
e
II

domingo, dezembro 03, 2006

Na senda dos utopistas

"...Na sala de aula do velho liceu a sua mesa alinhava-se numa fila lateral, havendo um espaço entre esta e a parede onde, a meia altura, se postavam as janelas amplas.
O padre Cristóvão gostava de colocar-se naquele espaço, em que a figura se lhe recortava contra a luz nas suas costas...
... ao aproximar-se o Natal, o padre Cristóvão narrava que José, vendo avolumar-se o ventre de Maria sabendo que para isso não dera causa, decidira fugir sorrateiramente de casa pela calada da noite - usava mesmo estas expressões feitas - mas eis que lhe saía oa caminho o arcanjo e o interpelava: «Ó José, o que vais fazer?» O «Ó» gritava-o o padre Cristóvão com todo o fôlego de acólito escandalizado, provocando nos alunos um riso incontido.
Era sábia, a intromissão daquele grito na narrativa. O padre tinha acabado de franquear os limites de um tabu ao reportar-se ainda que subentendidamente a uma prática sexual - naquele tempo estudava-se na Botânica o androceu e o gineceu das flores e os modos de polinização, mas na Zoologia omitia-se qualquer referência aos aparelhos reprodutores dos animais e não se falava em fecundação - por isso havia que fazer os alunos de imediato a excitação criada com o pequeno passo em terreno proíbido. Francamente, só mesmo um padre se podia permitir falar numa aula de sexualidade humana, ainda por cima na de Maria."
Sérgio de Sousa, Na senda dos utopistas, «Blow-up», Lisboa, 2001