domingo, junho 17, 2007

O Cão que jogava xadrez XV

Vejo agora, minha Gentil Senhorinha, em que trabalhos se meteu o Deus-dos-Cães ao querer explicar o inexplicável.
Lembra-se, como se lembram as Belas Damas e os Garbosos Cavaleiros que me escutam, da questão metafísica que o seu Primo Carlinhos lhe colocou e que, em resumo se pode formular assim:
«Se tu és um Deus, daqueles que pode tudo, porque é que a vida não é uma Graça e a temos de pagar com o sofrimento?»
Claro, não foram estas as palavras exactas do Carlinhos que nunca tinha ouvido falar de Auschewitz, nem dos bombardeamentos de Guernica ou de Dresden.
Nem sabia (os Professores de hoje em dia não ensinam nada de jeito) das bombas de fósforo ou de fragmentação, nem dos rockets de nariz perfurante que penetram em cavernas onde velhos, mulheres e crianças se julgaram abrigados.
Nem sequer ouvira falar, ou talvez sim, mas distraidamente, ao sabor dos inócuos programas da televisão, daquelas coisas que só se percebem nas entrelinhas: das crianças-soldado, por exemplo, que são drogadas com haxixe para caminharem para a morte enquanto disparam as kalaschsnikov.
Compreende agora, Senhorinha, porque me internaram aqui, neste cemitério para vivos que eles se encarregam de transformar num infantário para mortos?
É por eu ser capaz de ver, mesmo onde não o querem mostrar, o escândalo da dor. A dor do bebé-foca, morto à paulada, como a dor do cão estrangulado com um arame, a dor de uma menina a ser violada por um cidadão deste mundo crápula.
O seu Primo, com os escassos onze anos, não tinha ainda ouvido falar de nada destas coisas. Nem ouvira dizer que as raposas são muitas vezes esfoladas vivas – coisa que ouvi eu e que era a pior das torturas chinesas, ao que consta – só porque a pele fica mais brilhante e rende mais cinco euros e trinta e cinco a peça. Mas tinha visto a Emplumada viva e via-lhe agora o corpito espetado num gancho.
Percebo, ao longe, os protestos das minhas Gentis Leitoras, incomodadas com estas pouco dignificantes considerações:
- Pronto, já percebemos, homem de Deus - dizem as Nobres Damas – O que nós queremos é o resto da história.
Eu, porém, sem querer ofender a delicadeza dos vossos sentimentos e, sobretudo, o vosso bom gosto, peço licença para intercalar só mais isto e volto já ao Carlinhos:
Como pode o particular subsumir o universal, é uma questão para os filósofos e gente dessa, que gosta de saber o que diz.
Mas para o Zé Nesgas, lembrai-vos, a prepotência do grandalhão da Alfredo Arroja tinha sido a de todos os grandes do mundo. Só se lhes respondia, decidiu ele nesse instante, de dedo espetado, muito malcriadamente, convenho, mesmo que depois se leve na tromba.
E para o Carlinhos, a Emplumada foi a crueldade indiferente dos homens, quiçá, também dos deuses.
- Irra! - impacientam-se as Damas e Cavaleiros e cheios de razão.
- Que respondeu afinal o raio do Deus-dos-Cães? - perguntam.
Alonguei-me. Defeito meu que a Minha Senhorinha já conhece e pelo qual, por mais de uma vez, lhe pedi desculpas.
Que disse ele?
Ora, que havia de dizer?
Desviou a conversa, foi o que foi.
Já estou a ouvir os protestos que não deixarão de ter proferido as minhas gentis leitoras:
- Mas ele explicou ou não? – perguntam-me.
E eu respondo que não me compete a mim, pobre internado num Hospício em Rilhafoles, alterar uma vírgula aos eventos, se é que estes também usam a pontuação dos gramáticos.
- Man, - foi, portanto, exactamente o que disse o auto-denominado Deus-dos-Cães – vinhas cá para arranjar um cão que jogasse xadrez ou não?
O seu Primo, mesmo exaltado, teve de concordar.
- Isso. E que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa.
- Então, pronto, já aí a tens. Põe-te na alheta e não queiras emendar o que já está feito.
- Porquê? – perguntou o Carlinhos.
- Mas eu não sei jogar xadrez. – interrompeu, timidamente, a Magrizela. - E já sou burra demasiado velha para aprender línguas.
- Isso dá-se um jeito. Como é que há-de ser?
- Mas, - insistiu o Carlinhos, olhando lá para cima para o gancho – e ela?
- Ela o quê, pá? Não sabes que a vida é como um comboio, para que uns vão entrando, outros têm de sair? E não chateies, porra. Estou aqui a querer ajudar-te e tu não deslargas!
- Mas eu só quero perceber! – gritou o Carlinhos outra vez exaltado. – Porque é que não me explicas isto tudo?
- Porque também não sei, porra! Julgas que é fácil entender?
Calou-se amuado.
Mas depois espetou um dedo direito ao seu Primo:
- Este Canil, por exemplo, desde 1878, foi sempre gerido pela Liga dos Indefectíveis dos Animais, tázaver, uns fixes que recolhiam os vadios, aí como a Magrizela, tiravam-lhes as carraças, davam-lhes de comer e tentavam arranjar-lhes uma casa. E pronto. Era isso.
Fez outra pausa meditativa.
Os Diabretes que, como a minha Senhorinha se lembra, tinham andado à pancada, vieram sentar-se ali ao lado, a lamber as nódoas negras.
- E eu já desde o advento do cristianismo, século III ou IV, tinha largado tudo: templos incendiados, crentes perseguidos... eu que era o Anubis, o Deus-Chacal, já andava a passear pela Índia, pela África, pelo espaço para todos que ainda havia, homens, cães, feras…
- Chamas-te Anubis, é? – perguntou o seu Primo Carlinhos. – Já vi uma pintura com o teu retrato. Não estás muito parecido, pois não?
- Bico! Perguntaste, não foi? Agora ouves. Onde é que eu ia? Ah! A África. Depois foi o Livingstone, I presume, e o Capelo e Ivens e o Serpa Pinto que não presumiam nada, e as carabinas com balas dum-dum, todas essas porcarias e lá se foram os elefantes, os leões, o resto dos ursos. E fiquei eu com o problema nos braços.
“Como é que eu ia salvar os cães e as raposas, lobos, hienas, chacais e os coiotes, hem? E os mabecos? Sabes o que são os mabecos? E os dingos? Não sabes, ninguém sabe. Matam-nos, pum-pum, e esquecem-se de que são vocês que dão cabo da caça com os químicos e pesticidas. Uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca, também nunca ouviste dizer, pois não? O que é que tu sabes, puto? Não sabes nada, estás para aí a armar-te!
“As raposas foi fácil, à custa de algum sofrimento, claro, como Ápis salvou os toiros para morrerem nas praças…
“Os lobos, os lobos é que são o problema, porque estás a ver, os cães havia sempre alguém que tomava conta de um ou de outro, um de guarda outro de caça, os mais sacrificados eram os de regaço, tázaver! E aqui a Liga dos Indefectíveis fazia o que podia, em Inglaterra, em França havia clubes, uns do Boxer, outros do Setter ou do Bull Terrier… A coisa ia andando, era uma no cravo, outra na ferradura, mas ia andando.
“Até que houve uns gajos que começaram a perguntar para onde é que iam os impostos deles, e que não queriam pagar do seu dinheiro hospícios para os velhos que não tinham um seguro saúde e de coisa e tal… e que gostavam era de peixinhos doirados, porque é que o estado subsidiava este Canil Municipal que só dava despesa?
“E vá de se atirarem aos Indefectíveis. Que não mantinham a higiene, que os cães não estavam em espaços mínimos recomendados pela Comissão Europeia…
“Inventaram tudo, tázatopar, ó mongas?
“Agora passou a ser assim: espaço mínimo exigido, porreiro. Se há mais um cão que seja por hectare, que é que tu pensas que se faz?
“Pois, é isso. Tira-se-lhe o pio. Nhofas, arame ao pescoço e quando já não respira, às vezes antes até, crac, pendurado ali no gancho.
“Sim, porque ninguém é obrigado a pagar pelos cães quando gosta é de gatos, nem pelos gatos quando gosta é de canários. Rentabilidade, tázaver, rentabilidade, auto-sustentabilidade, racionalização de custos, essas coisas todas. Tás a perceber o que eu te estou a dizer?
O seu Primo, Senhorinha, abanou a cabeça desconsolado.
Queria uma resposta pão-pão, queijo-queijo, tipo «Deus está no Céu, na Terra e em toda a parte», «Fé, Esperança e Caridade», e «a treze de Maio, na Cova da Iria».
E o que lhe davam, era uma salada mais esquisita do que as da Mãe quando resolvia que estavam a engordar e precisavam de fazer dieta. E o tal Deus-dos-Cães, Anubis ou o que tinha sido, ainda fazia troça.
- Mas tu alguma vez viste alguma coisa, tu? Que é que tu queres da vida, sim, tu, ó mongas?”
- Ele ainda é um puppy! – rosnou a Magrizela, porque o seu Primo, Senhorinha, atónito, se tinha deixado descair para o chão. - Que é que tu tens que estar a chateá-lo?
O Anubis, Chacal ou o que fosse, encolheu os ombros:
- Sei lá. Que é que tu queres, tu também? É a vida.
- Não, não é. - respondeu a Magrizela, sem saber que, meio século antes, já um tal Boris Vian tinha respondido a mesma coisa. Mas o Boris Vian, como a minha Senhorinha tão bem sabe, adorava todos os animais, desde os ratinhos aos buldogues, mesmo se tinha uma clara preferência pelas meninas bonitas.
E, Senhorinha, gentis Leitoras, Cavaleiros, algum ou outro vilão como as enfermeiras aqui do hospício que se tenha subtilmente imiscuído: estou esgotado. Têm sido demasiadas as emoções, os terrores.
Juro que nunca mais venho aqui de noite, descalço, sujeito a pisar baratas, lesmas ou bichos de conta, só para vos escrever neste computador lento e caprichoso. Nunca mais, mesmo que a história do Carlinhos fique incompleta.
Se eu conseguir manter o juramento.

domingo, junho 10, 2007

O Cão que jogava xadrez XIV

Sabe, Senhorinha, minha Gentil, que estou em pensar que quem quer que tenha escolhido os letreiros das portas do Canil Municipal, acabou por mostrar um perverso sentido de humor?
Aquela por onde passou o cortejo liderado pela Magrizela, tinha uma lustrosa placa de plástico preto com letras amarelas e uma única palavra:

AVERNUS
Claro que ninguém era versado na língua latina. O seu primo Carlinhos, que suava as estopinhas nos varais lá de trás da padiola (onde ia deitado, talvez em coma, o Deus-dos-Cães) andava no 6º ano e ainda não chegara a essas complexidades. A Magrizela e os restantes canídeos que se lhes juntaram, esses além do caniguês materno, falavam a língua dos lares onde tinham nascido, quando se davam a esse trabalho.
E os Diabretes que tinham trazido a padiola e penavam agora nos varais da frente, se alguém se tivesse lembrado de lhes perguntar, teriam respondido com o gesto de apontar: o Averno? Bom, era aquilo ali dentro.
- Sim, mas o que é que quer dizer? – teria perguntado o Carlinhos se o suor que lhe escorria para os olhos não lhe turvasse até a curiosidade.
A resposta teria sido, no entanto, muito semelhante à que foi: um dos Diabretes que ia à frente, sem largar o varal que lhe competia, deu um pontapé na porta metálica que se escancarou.
Do outro lado era a visão do horror.
Cães e gatos pendiam de ganchos como se estivessem no talho, separados por tamanhos.
Uma enorme caldeira borbulhava ruidosamente mais além. Umas máquinas de plástico e metal ocupavam-se de incompreensíveis tarefas diante de ecrãs de computador. Lá em cima, as fileiras dos ganchos rangiam e avançavam aos sacões.
E foi horrorizados que o seu Primo Carlinhos, a Magrizela e os restantes cães, viram surgir, de olhos fechados e língua pendente, o corpito frágil da Emplumada.
- Chegámos tarde! – murmurou a Magrizela. – Demasiado tarde!
Um cão grande que os seguira deitou-se no chão a gemer baixinho.
- Mas isto… - gaguejou o seu Primo – isto é o quê?
- Então, - disse o Diabrete mais velho. – É que está escrito na porta: é o Schlachthoffünf. Não, o fünf é outra coisa. Pronto, aqui é a cozinha.
- Cozinha? Qual cozinha? Já estás é fora de prazo – troçou o mais novo. – Uma cozinha com guilhotinas e electrochoques? Aqui é, mas é o matadouro.
- És mesmo um margolim. Não vês que é a mesma coisa? – tornou o mais velho.
- Ai é? Margolim és tu, ó picochoso! – e zás.
Num momento estavam ao pontapé um ao outro.
O Carlinhos estava tão apardalado que nem notava as sacudidelas da padiola.
Quem notou foi o Deus-dos-Cães que, saindo do coma, levantou a cabeça, com as orelhas perigosamente para trás.
- Vocês aí, toca a acabar com a baderna! Já não se pode dormir em paz, não?
Foi demais, Gentil Senhorinha, para o seu Primo.
- Quer dizer… quer dizer que aqui matam os cães? E tu deixas?
- Tu aí, ó bardajola! Porta-te bem ou ainda te transformo em rato.
- Mas tu deixas?
- Claro que deixo. Que é querias que eu fizesse? Sabes quantos cães nascem por dia? Achas que há comida para todos? E casas? Achas?
O Carlinhos atirou com os varais ao chão e o Deus-dos-Cães à mistura.
- Mas tu não dizes que és o Deus dos Cães, tu? – numa fúria, cresceu para o outro que ainda nem se levantara e agarrou-o pela gola do blusão.
- Deslarga-me, ó mongas. Tázóvir?
- Só te largo quando me explicares isto tudo! Como é que tu deixas?
- Vê-se mesmo que não percebes nada de economia, pá. Vá lá, ou me deslargas e eu explico ou transformo-te em rato e vais parar ali ao caldeiro.
- Quero lá saber do caldeiro! Que é isso da economia?
E abanava mais e mais os colarinhos do Deus-dos-Cães, sem ligar à Magrizela aflita que tentava separá-los a bem.
- Deslarga-o lá que ele explica! Tu é que és muito puppy e ainda não sabes quanto custa estar vivo.
- Estar vivo o quê? A vida é um dom de Deus! – gritou o Carlinhos impaciente, como lhe tinham ensinado na Catequese.
O Deus-dos-Cães desatou a rir-se:
- Um dom? Pá, vê se aprendes alguma coisa, ouviste?
E sacudido pelas estrondosas gargalhadas, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara e a ensoparem-se na barba, a estranha divindade perdia as forças, deixava-se cair para o chão, a tal ponto que o seu Primo teve de o largar.
Foi a Magrizela quem, tão suavemente quanto pode, o esclareceu:
- Pois, sabes? Dantes julgava-se era assim. Agora já se percebeu...
- Já se percebeu o quê?
- Que a vida não nos é dada. É alugada, percebes? Tens de pagar a renda, pontualmente. Ou os teus pais por ti. Se não tiveres dinheiro, estás bom ali para o caldeiro, percebes?
- Tu não davas, nem cinquenta latas de almôndegas com molho para cão. – troçou o Deus-dos-Cães, já levantado e a sacudir o pó das mangas do blusão. – Mesmo muito disfarçado, não passavas por cabrito. Se fosses um gato ainda prestavas para alguma coisa. Sempre te podiam vender por lebre!
- Mas porquê? – insistia o Carlinhos. – Tu não és um Deus, daqueles que pode tudo?
O Deus-dos-Cães corou e ficou embatucado.
Como o Huck Finn, fingiu que tinha um osso atravessado na garganta.
Há quanto tempo não tinha de responder a uma pergunta daquelas?
E o que é que podia dizer?
Infelizmente tenho de parar por agora. Mas prometo, Senhorinha, Nobres Damas e Generosos Cavaleiros, que tudo o que for dito pelo Deus-dos-Cães, será aqui fielmente relatado se, por algum acaso dos comprimidos e cápsulas que me obrigam a tomar aqui no hospício, eu me não esquecer.

terça-feira, maio 29, 2007

O Cão que jogava xadrez XIII

Se é verdade, Gentil Senhorinha, que os Deuses me protegem, como estou em crer após a sucessão de milagres que me têm acontecido nestes dias, estou em crer também que é mais por causa do seu Primo Carlinhos e da Magrizela.
Que poderiam os Deuses querer deste seu chevalier servant, senão que os leve a bom porto, agora que, ajudados pelos atakadores e por uma tábua com pregos, derrubaram o Gigante Guarda-Mor e libertaram o Deus-dos-Cães?
É certo, Senhorinha, que a gratidão nunca andou bem distribuída, desde o dia da criação. Os cães, pobres deles, ficaram com toda. Deuses, homens, cucos, ratazanas e gaivotas ficaram sem nada que se visse.
O caso foi que, caído lá de cima, depois da estrondosa marradela na mais alta das traves de ferro, o Deus-dos-Cães nem sequer agradeceu:
- Seus paspalhos! - foi o que ele disse: - Tava tudo sob controle!
Levantou-se um pouco de esguelha, apoiado a uma rima de jaulas:
- Que é que vocês tinham de meter o focinho, hem?
Deu mais dois passos cambaleantes e declarou: «Tudo sob contrôle, ouviram seus paspalhões?»
E despenhou-se novamente.
Os cães mais próximos, os que ainda não tinham conseguido fugir das jaulas amachucadas com os trambulhões, protestaram:
- Não durmas ainda, Senhor! Salva-nos, salva-nos agora!
E logo outros das jaulas contíguas, mas que não conseguiam ver o que se passava, juntaram-se ao coro uivando «Salva-nos, salva-nos!»
A Magrizela suspirou.
- Tomem conta dele - pediu. - Vou ali pedir ajuda!
E lá foi, no seu trote coxo, corredor afora.
O seu Primo Carlinhos e o Diabrete a atavam o gigantesco Guarda o melhor possível com uns arames enquanto os atakadores, em delírio, se tinham batido uns com os outros pelas ilhós e estavam num novelo inextricável. Os sapatos, esses jaziam de lado, todos retraçados.
- Vou passar dias a desenredá-los! - choramingava o Diabrete.
- Deixa lá, eu depois ajudo-te. - ofereceu-se o Carlinhos.
- Mas é que tu não sabes. É preciso untá-los com um azeitinho de primeira para ficarem bem soltinhos. Depois tens de mexer suavemente com um garfo, ir juntando mais azeite até formarem uma pasta uniforme. É assim que eles se vão separando, um a um, percebes? Tu agarras nesse com cuidadinho, secas com papel absorvente, passas por açucar em calda e guardas num saco lavado. Depois fazes a mesma coisa até ao último estar arranjadinho e fechas o saco até serem precisos outra vez.
A Magrizela aparecera neste meio tempo.
- Agora não há tempo para isso - ordenou ela. - Temos de levar o Senhor daqui antes que este acorde. Não pensem que ele não parte os arames com uma penada, tão a ouvir?
- Mas eu não posso ir... - gemeu o Diabrete. - São os meus bichinhos de estimação, olha para eles, não os posso levar assim!
- Ai não? - rosnou a Magrizela. - Queres ver que podes? Vocês aí! Já para dentro do saco!
Avançou para o molho dos atakadores com os dentes todos à mostra. Já não eram muitos, mas os atakadores começaram a tremer como geleia .
- Eu conto até três. Depois começo a retraçá-los à dentada que vocês nem sabem de que terra são! Um...
Com guinchinhos de pavor os filamentos começaram a separar-se.
- Tu és uma malvada! - choramingou o Diabrete. - Venham cá, meus pequeninos, venham ao papá...
- Dois...
Os atakadores, literalmente, saltaram para dentro do saquinho que os tinha trazido. Foi tão precipitado, Senhorinha, que o seu Primo Carlinhos só se lembrou do dia em que a Mãe ia abrir um pacote de esparguetes e ele se rompeu por baixo e a sua Tia desatou a chorar. Pois bem, era ao contrário: era como se os esparguetes arrependidos saltassem do chão, de debaixo do fogão, do frigorífico, dos armários de volta para o pacote e as lágrimas trepassem outra vez, rosto acima, até aos olhos da pobre Senhora.
Mas a Magrizela não consentiu em mais demoras:
- Agora toca a andar! Tu vai buscar a padiola e vê se arranjas ajuda. E tu, miúdo, anda depressa comigo. Sabe Deus o que eles vão fazer à Emplumada.
Correram de novo. O Deus-dos-Cães continuava estendido, completamente desacordado ou talvez estivesse só a aproveitar para dormir uma sesta: o certo é que nem se tinha mexido. O pequeno grupo de cães à sua volta, esse, porém, tinha engrossado a olhos vistos e entupia consideravelmente o corredor entre as jaulas.
- Deixem passar, deixem passar
Como, sob o comando firme da Magrizela, se organizou a procissão e o Deus-dos-Cães foi levado de padiola e o que aconteceu a tão estranho cortejo, só posso dizer amanhã ou depois porque já me doi a perna de estar aqui a dar ao pedal do carregador das baterias e, de qualquer modo, a manhã está a chegar.
Por isso, se a minha Gentil Senhorinha, as Nobres Damas que me lêem e os Valorosos Cavaleiros derem licença, vou ver se roubo qualquer coisita na cozinha enquanto as cozinheiras não entram ao serviço e não nos dão o pequeno almoço - que, deve dizer-se, geralmente é mesmo muito pequeno.
Mas, que se há-de fazer quando se está num Rilhafoles como este?
Pois. Eu também não sei.

quarta-feira, maio 23, 2007

O Cão que jogava xadrez XII

Mal aqui cheguei e a minha Senhorinha pergunta-me, não sem alguma legítima rispidez, por que razões estranhas não tenho dito nada acerca do seu Primo Carlinhos. Aceito a sua censura, minha Gentil interlocutora, como de si aceito tudo, menos, como sabe, que me pague o café e os cigarros quando me vem visitar e o bom tempo nos permite sentar ali a uma das mesas que o Sr. Jerónimo tem a fingir de esplanada.
Claro que não é segredo. Sempre que a enfermeira me diz com aquele ar de quem julga que está a fazer troça «a tua Menina vem para a semana» e acrescenta «agora não vás para a rua pedir esmola, ouviste?», é claro que é isso mesmo o que eu vou fazer.
Passeio acima, passeio abaixo, com o uniforme de presidiário que nos dão aqui no asilo e a pulseira electrónica bem à vista no pulso esquerdo, há sempre quem se condoa de nós e nos dê uma moedita de vinte centavos, raramente de mais, mas ao fim de dois ou três dias já tenho os cinco ou seis eurozitos que são precisos.
Nunca tínhamos falado nisto, bem sei, e nunca o faríamos se não soubesse eu perfeitamente que as enfermeiras, com o seu arzinho maternal, têm um prazer sádico em contar tudo o que é suposto humilhar os pacientes.
Mesmo assim, só menciono este facto porque, como sabe, a lanterna à luz da qual trabalho durante a noite na secretaria ficou sem pilhas.
E de que me havia eu de lembrar?
Há uma loja chinesa ao fundo da calçada, daquelas que é um mundo inteiro de roupinhas pindéricas, brinquedos monstruosos que dão pesadelos às crianças – e a mim – plásticos garridos, detergentes, vassouras e ferramentas de todos os tipos. Teriam pilhas também?
Portando-me bem no refeitório e fingindo que estou a ver atentamente a telenovela, lá acham que eu estou «compensado» e têm-me deixado sair às tardes.
Hoje, já com dez euros e tal, lá entrei na loja e dirigi-me à chinesinha velhinha que estava atrás do balcão, mostrei-lhe a lanterna e perguntei se tinha pilhas.
Pacientemente, a senhora abriu um grosso dicionário, folheou para trás e para diante e perguntou, com voz doce e um sorriso cortês:
- Pila ou pilia?
- Pilha. Pi-lha!- repeti eu.
- Ah! Sim, sim, pilia. - seguiu com o dedinho fino as linhas do dicionário, parou e voltou atrás: -Pilia de empiliar ou pilia de piliar?
Abanei a cabeça, perplexo.
- Desculpe… Não estou a perceber…
Mais dicionário para trás, mais para a frente:
- Hunos piliar Roma ou carregador empiliar pilia de caixote?
- Não, não, desculpe. Não é nada disso. – e já a falar como ela: - Pilia de electricidade. Aqui, oh! Luz? Entende?
- Ah? – procurou de novo e o rosto iluminou-se-lhe: - Lâmpada! Vem, sim?
E partiu à minha frente, passinhos curtos, ao longo dos corredores até à secção das electricidades, à estante onde as lâmpadas opalescentes e de baixo consumo se empilhavam (empiliavam, creio) à mistura com fichas triplas, extensões e muitas mais coisas que não menciono para não enfastiar mais a minha Gentil Senhorinha nem as Respeitáveis Damas e os Cavaleiros que me lêem.
Imagino que estão, neste momento, a ver a minha desilusão: dias e dias para cima e para baixo no passeio, os olhares desdenhosos dos outros pacientes e dos médicos que entram e saem da consulta externa, e tudo para nada.
A senhora Chinesa, com o seu ar doce, aguardava que eu me decidisse e eu não sabia como explicar-lhe que, não, não era nada disso, quando... só posso chamar-lhe assim: o milagre voltou a acontecer. A velhinha inclinou-se para arrumar umas caixinhas com parafusos que estavam fora do lugar e destapou acidentalmente – mas haverá acidentes neste estranho universo? – um estranho engenhoco, pesadote e com um pedal.
Tinha encontrado, se não pilhas novas, ao menos um carregador de baterias por, o preço estava lá bem marcado, nove euros e noventa.
- Carregador de bateria? – perguntou a senhora abismada quando eu, saltitando de felicidade, lhe mostrava a minha escolha: - Não, não, não vende carregador de bateria. Carregador de todas coisas é meu neto, não pode vender …
Mas eu mostrei-lhe o objecto pretendido com muitos «aqui, aqui, carregador isto!» e ela, com o sorriso de novo iluminado, condescendeu em aceitar a nota de dez euros:
- Desculpa. Eu não percebida. Português difícil. Língua muito polissémica, sabe?
E ficámos mais um bocado a trocar ideias: não achava ela o inglês ainda mais polissémico do que as línguas latinas? Não achava eu que o chinês resolvia acertadamente a polissemia recorrendo aos diferentes tons e semitons?
Separámo-nos cordialmente, como velhos confrades.
E, Gentil Senhorinha, como vê pelo facto de estar aqui a falar consigo através da Internet, o carregador, mesmo sem ser neto da velha Senhora, carrega as pilhas perfeitamente.
Só tenho um problema que ainda não consegui resolver: como é que o vou esconder debaixo do colchão durante dias e dias, sem que ninguém note os altos que há-de fazer.

Mas, sejamos optimistas, talvez um novo milagre aconteça e a tempo de a odisseia do Seu Primo Carlinhos e da Magrizela serem contadas. E, quem sabe, até, se um dia destes não aparecerá o Zé Nesgas a dar umas ajudas para que tudo termine em bem?

quarta-feira, maio 09, 2007

O Cão que jogava xadrez XI

Para que serve uma tábua, mesmo com pregos, pergunto eu, ainda por cima ferrugentos? Contra um Gigante, daqueles mesmo grandes, que podem com um Deus debaixo do braço?
Quão pouco, Gentil Senhorinha, tem este seu chevalier servant para tirar o Carlinhos da sua perigosa situação!
É certo que mesmo atrás do seu Primo ia aos gritos o Diabrete:
- Ó balofo! Toma lá isto, pá! Tázóvir, ó coiso?
Mas, como o Carlinhos não parava, o Diabrete continuou a correr, aos gritos, e estou em crer que a massa de que se fazem os heróis é mesmo assim, um galope perdido, ninguém a ouvir ninguém, e o que tiver de acontecer, olha, aconteceu!
E digo-lhe, Senhorinha, e às benévolas Leitoras também, aos nobres Cavaleiros se se dignarem a escutar-me estes instantes: quando o Calinhos desembocou lá ao fundo, já o Gigante apanhado a Magrizela pelo cachaço.
Não havia lugar a hesitações e não hesitou. Trás! Foi direito à perna mais próxima e descarregou a paulada como pôde, um pouco acima do joelho, que mais alto não chegava.
Talvez tivesse sido um prego da tábua que se lhe cravou em sítio crítico, ou tão só a surpresa, quem sabe?
O gigantesco Guarda-Mor soltou um uivo disforme e tentou fazer tudo ao mesmo tempo. Dar dois saltos, tentar tirar a tábua ao Carlinhos com a mão que segurava a Magrizela e sem largar, do outro lado, o Deus-dos-Cães, era obra!
Quis meter a cadelita no bolso mas, como ela esperneava e tinha os poucos dentes que lhe restavam ferrados na manga do seu captor, o bolso rasgou-se.
Tentou dar um pontapé no Carlinhos e acertou com toda a força numa pilha de jaulas que desabou fragorosa por entre ganidos de susto, de dor dos canitos que caíram mais de cima e se aleijaram.
Foi nessa altura que o Diabrete que, se a Minha Senhorinha se recorda ainda, vinha a correr atrás do seu Primo, se decidiu a lançar a sua arma terrífica: os Atakadores.
Os sapatos das Gentis leitoras, regra geral não têm necessidade desse artifício, mas não há nenhuma que não conheça os efeitos deletérios desses seres abomináveis, parecidos com finíssimas enguias e, como elas, difíceis de agarrar.

Os Atakadores, dizem os cientistas, vivem obcecados pelas ilhós. Uma só não lhes chega para perpetuarem os seu genes, no mínimo querem sempre um par, o ideal são quatro ou cinco pares. Satisfeita, porém, a sua concupiscência, logo desatam à procura de novas ilhós, desfazem os laços, rojam-se pelo chão a cheirar os rastos e, mal encontram um rival atacam-no ferozmente, emaranham-se nele e, não raro acabam os dois por morrer, cortados ao meio pelos puxões um do outro.
Era essa a arma secreta do Diabrete.
Aproveitando o momento em que o Guarda-Mor desferia um segundo pontapé na direcção do Carlinhos – que já ia longe, a gritar «nha-nha-nhããã» – o Diabrete abriu o saquinho: os Atakadores precipitaram-se serpenteantes, instantaneamente apaixonados, para os sapatos do inimigo.
A Gentil Senhorinha perdoará a minha falta de talento se eu não conseguir mostrar em toda a sua extensão o efeito catastrófico de um ataque de atakadores no meio de um Canil Municipal, SA, onde todos os cães ladram, gatos, mais ao longe, miam desesperados, até um papagaio egresso de um destino culinário e a viver escondido lá por cima no telhado, gritava «Valha-me Deus, valha-me Deus!» num entusiasmo incontido.

O que aconteceu foi que os Atakadores descobriram as ilhós já ocupadas e não acharam graça nenhuma: engalfinharam-se numa luta de vida e de morte, e quando quis dar o passo seguinte na corrida para apanhar o Carlinhos, o gigantesco Guarda estatelou-se, a Magrizela voou pelos ares com um pedaço de manga nos dentes e só parou em cima do pobre Diabrete que berrava por socorro.

E o Deus-dos-Cães, esse achou maneira de se torcer na queda e aterrar na barriga do Gigante onde ressaltou a pés juntos como se fosse uma bola de ténis ou um acrobata em saltos de mesa alemã. Voou graciosamente num passo artístico, falhou por mais de um metro o passadiço e as Gentis Leitoras e os respeitáveis Cavaleiros nem imaginam o estrondo quando bateu com a cabeça numa viga de ferro mais lá em cima.

Ficarieis admirados se vos dissesse, Gentis Meninas e Minhas Senhoras, que e viga oscilou, que alguns tijolos na parede abriram fendas e que o Deus-dos-Cães tombou como uma pedra no meio de um dos corredores, ressaltou no chão de cimento, alguma coisa fez crrrrac como se se tivesse partido e ficou completamente imóvel.

Quer dizer, imóvel até ao momento em que a Magrizela, ainda muito combalida do trambolhão, veio a coxear dar-lhe uma lambidela no nariz que é o que se faz aos cachorrinhos constipados. Só nessa altura, quando o Deus-dos-Cães espirrou e disse «tira-te daqui, ó parvalhona!» a Magrizela que era mais para o agnóstica, acreditou que ele era de facto um Deus: só podia ser, com uma cabeça dura daquelas!

E o que aconteceu depois também foi interessante, mas a lanterna está a ficar sem pilhas e só dá uma luzinha de nada, por isso terão de me perdoar se tiver de deixar a continuação para amanhã. Para amanhã, claro, se o chinês ao fundo da rua tiver pilhas e se eu conseguir uns eurozitos que dêem para as comprar e, já agora, para um macito de cigarros, que a vida não pode ser assim tão virtuosa sem se tornar numa chatice.



sexta-feira, maio 04, 2007

O Cão que jogava xadrez X


Dizer que aquele Guarda era só um Guarda, pode parecer desdenhoso, como se ele fosse um simples guarda-portão, ou um GNR, ou coisa assim.
Como vê, Senhorinha, hoje decidi não perder tempo, atravessei corredores silenciosos iluminados pela nova lanterna, e aqui estou a responder aos apelos do seu primo Carlinhos que estava farto de estar parado nesta história. Mais impaciente ainda, estava a Magrizela:
- Então, esta treta não anda nem desanda? – perguntava ela. – Julgam que eu ainda tenho idade para engonhices? Pede lá à tua prima, fonix, não tens uma prima?
De modo que, Senhorinha, tendo-a a si como advogada, como poderia eu deixar de atender o apelo do Carlinhos, mais do que justo ainda por cima?
Hesito, no entanto: como resolver com uma boa intriga a situação em que se meteram o seu Primo (o Carlinhos, como já toda a gente sabe e que andava na sua demanda de um cão que jogasse… ah, já disse? Bom: ) e a Magrizela, toda ossos já artríticos, pelo cor-de-burro-quando-foge já a embranquecer, e um focinho bem-humorado quando não rosnava de impaciência, como me deve estar a fazer a mim neste momento.
O caso, se a minha Senhorinha e as Gentis Leitoras, depois disto tudo, ainda recordam é que, na sua correria para salvar a Emplumada, a Magrizela, seguida pelo aflito Carlinhos, se foi precipitar, por assim dizer, nos braços do Gigante que era o Guarda (mas Guarda-Mor, ou talvez o Presidente Director Geral da Guarda ou assim) e que trazia o Deus-dos-Cães debaixo do braço.
A primeira reacção da Magrizela foi ladrar:
- Tu, ó obeso! Larga já aí o Nosso Deus, tázóvir?
Coragem ou loucura, quem não esperou para saber foi o Carlinhos que meteu travões às quatro rodas e inverteu a marcha enquanto uma gargalhada ribombava pelos corredores, pior e mais sonora do que quando o Zé Nesgas tinha um ataque de tosse na aula de Educação Cívica sem conseguir falar.
Era o Priscas, ao lado, quem dizia: «ó Stora, o Nesgas tá aflito, eu vou lá fora com ele».
E logo o Tavares, «perá-í, qu’eu é que sei aquela coisa da respiração artificial» e outro «é preciso é os zérossóiszes, é melhor eu ir também» e todos tinham uma coisa para ajudar e iam saindo e a professora ficava com ar de choro a ouvir a tosse do Zé Nesgas no corredor.
O Carlinhos, às vezes até tinha pena dela, mas como não era maricas nenhum, ia também «Stora, se calhar a gente vai é ao hospital, eu vou lá dizer…»
Mas a tosse do Zé Nesgas que era meio a sério, não metia nem a metade do medo que metia gargalhada do Gigante a ouvir a Magrizela que lhe rosnava cá de baixo, rentinha ao chão.
Mas não foi, Senhorinha, a valentia da Magrizela o que fez parar o Carlinhos: tinha chegado ao fim dum corredor e lá do lado esquerdo, onde uma pilha de caixotes escondiam a continuação, a voz sumida do Diabrete chamava por ele.
- Por aqui ó beldroegas! – o nariz preto e os olhos desmesuradamente abertos espreitavam por trás de umas tábuas. - Esconde-te, pá!
O Carlinhos parou para respirar fundo e a voz saiu-lhe rouca:
- Man, e a minha dona? Qu’é qu’eu faço?
- Pá, a gaja desengoma-se! E depois, já é velha, pá. Esconde-te.
O Carlinhos ainda hesitou, mas lembrou-se, isso é que foi, daquela vez em que o gajo da Secundária Alfredo Arroja o tinha agarrado pelo capuz do anoraque e «chavalo, manda aí os trocos»!
O Tó Pires tinha desatado logo a correr rua abaixo.
E o Zé Nesgas lá do palmo e a terça de altura pusera-se a crescer para o grande:
- Trocos o quê, ó mongas? Julgas qu’és o maior, julgas? Trocos é, mas é isto!
E, de lá de baixo, espetou bem em evidência um dedo malcriadíssimo de que, Senhorinha, nem ouso sequer insinuar o significado.
Claro, levaram os dois na tromba e ficaram sem os trocos à mesma. Mas foi baratinho para ficarem assim amigos e depois deu à vontade para mês e meio de gabarolice lá na Escola.
E agora era ele quem ia, por assim dizer, a fugir rua abaixo como o Tó Pires e a abandonar a Magrizela?
Não, poças!
À falta de outra coisa, deitou a mão a uma tábua ainda com pregos e correu rua acima:
- Dá-lhe com força! – gritavam os cães lá das jaulas. – Arreia-lhe…
Também o Diabrete aterrorizado vinha a correr atrás dele:
- Ele vai-te matar! Toma lá isto… Ó parvalhão, ao menos toma lá isto!
O que tinha o Diabrete para dar ao seu Primo Carlinhos e que serventia pode ter uma tábua contra um Gigante, a minha Gentil Senhorinha, só vai poder saber na próxima vez. A aurora, para mal dos meus pecados, já começou a tingir de púrpura os vidros foscos das janelas e não tarda nada é a hora da ronda e dos remédios.
E eu tenho de fingir que ainda estou mergulhado num sono profundo.
Não vai ser difícil. Já há dias que passo as noites em branco.

sábado, abril 28, 2007

O Cão que jogava xadrez IX


Não sei se foi milagre, julgo que sim!
Ontem ia corredor fora, a caminho da secretaria e ia às apalpadelas, porque já passava das onze e aqui as luzes apagam-se às nove da noite. E nem imaginam as minhas Gentis Leitoras o que me aconteceu.
Os corredores são compridos e não se vê nada, que as janelas estão muito no alto - por causa dos suicidas, acho eu, mesmo se este pavilhão só tem primeiro andar - e há apenas uma claridade muito vaga no tecto. De modo que eu ia a olhar para cima, com a mão na parede da direita, porque à esquerda estão uns armários de ferro que parecem tambores quando a gente tropeça neles. O problema é que, do lado direito há uma espécie de cadeiras de pau, muito compridas, onde a gente se pode sentar quando tem visitas.
Foi quando me afastava de um desses bancos que perdi o norte e devo ter pisado um bicho qualquer que ia a passar. Devia ser ratazana porque gatos, aqui, não os há (as cozinheiras não deixam escapar nenhum e ratazanas ninguém as apanha a todas). O que sei é que resvalei, fui de ventas à torneira, como se costuma dizer, e bumba num armário, tóóóiiing!
As Gentis Leitoras e a minha Senhorinha imaginam o estrondo a ecoar nestes corredores conventuais.
Claro que tratei de me levantar a correr.
E foi quando me apoiei na cadeira para ajudar, que a mão direita poisou num objecto grande e cilíndrico, que, para meu espanto, se acendeu e iluminou o corredor todo por ali fora.
A Gentil Senhorinha e as Damas que têm acompanhado as aventuras do Carlinhos no Canil Municipal, já adivinharam que se tratava de uma sólida lanterna, pesada das pilhas e cuja luz eu tive de apagar o mais depressa que consegui descobrir o botão, porque os neons do tecto se acenderam e ouvi o som do elevador. Era o segurança do pavilhão e o enfermeiro de turno, pela certa, de modo que eu, para escapar, não tinha tempo.
Que hei-de eu fazer, que não hei-de eu fazer, agarro-me à mão direita com a esquerda e desato a gritar «Mordeu-me, mordeu-me…»
A vantagem de estar num hospital destes – estou em Rilhafoles, como já devo ter mencionado alguma vez – é que a gente pode dizer o quiser e toda a gente acredita.
Por isso, quando o enfermeiro me viu a estender a mão e a gritar que me tinham mordido, nem pensou que eu estava a segurar a lanterna debaixo do braço e tentou acalmar-me com boas palavras e levar-me para a enfermaria antes de eu ter tempo de amotinar o Pavilhão.
E eu, claro, não queria que ele me desse a injecção dos furiosos, por isso fingi que me acalmava e deixei-me levar enquanto ia mostrando as marcas de dentes dos Pitbuxos e lamuriava uma história de cães, Diabretes e do seu Primo Carlinhos.
Mas como hoje, graças à lanterna milagrosa, consegui chegar à secretaria e contar-lhes, Gentis Leitoras, o que me aconteceu, já não vou ter tempo para falar do Gigante que levava o Deus-dos-Cães debaixo do braço (o qual Gigante, posso adiantar, era o próprio Guarda).
Nem do que fizeram a Magrizela e o Carlinhos para salvar a Emplumada!
Mas, graças à lanterna, amanhã não hei-de faltar e, se as Gentis Senhoras e Senhorinhas e os Nobres Cavaleiros tiverem a bondade de aqui voltar, então sim, sensacionais revelações vos esperam.
Ou talvez não.
Não sei bem.

quarta-feira, abril 25, 2007

O Cão que jogava Xadrez´VIII

Saiba, Senhorinha, que estou, dizem elas, muito melhor.
Primeiro, porque já não me espanta nada que a Terra e os astros todos estejam suspensos, por assim dizer, de liames gravíticos e, barra, ou deformações do espaço-tempo.
E segundo porque já não acordo a meio da noite aos gritos quando as minhas pernas se estão a separar de mim ou quando estou a lavar as mãos no lavatório e elas se derretem na água corrente e eu as vejo ir pelo ralo abaixo.
Por isso, tive autorização para usar o computador da secretaria. Já arranjei até uma chave falsa e descobri a palavra de passe, de modo que agora, sempre que acordar a meio da noite, posso vir até cá conversar consigo sobre o seu Primo.
O Carlinhos, tenho ideia de já lhe ter dito, acabara de ser dado à Magrizela e estavam os dois a discutir com um Diabrete. Os Diabretes, para quem não saiba, são para o Deus-dos-Cães o mesmo que os Anjos são para o Deus verdadeiro que está no Céu verdadeiro e há até teólogos que opinam que o Deus-dos-Cães é o próprio Diabo que habita nos Infernos. Mas eu, Senhorinha, não possuindo as habilitações necessárias em Transcendência Civil, tenho um medo dessas coisas que me fino, que ó e depois, ainda dizem que eu não tomei os comprimidos.
O que posso dizer é que estavam eles três à conversa e o Diabrete a dizer que apostava em que o Guarda não tardava aí mal percebesse que os seus Pitbuxos estavam presos e eis que se ouve um estrondo enorme, como se uma porta tivesse sido arrancada dos gonzos:
- É o Guarda! Fujam! – gritou o Diabrete.
E desatou numa correria por entre as jaulas dos cães que, aliás, desataram também a ganir de um pavor infrene. Novos estrondos rebentaram, lá ao fundo, ainda mal ele tinha virado a última esquina.
Atarantado, o seu Primo ia para lhe seguir o exemplo quando a Magrizela o agarrou pela perna da calça que ainda estava inteira e lha rasgou mais um bocadinho.
- Olha lá, a gente não pode ir sem a Emplumada!
O Carlinhos, mal-humorado, tentou compor o novo rasgão:
- Tá bem, prontos! – e emendou logo a seguir, porque a Mãe (a sua estimável Tia) passava a vida a corrigi-lo. – Quer dizer: pronto! E onde é que ela está?
- Sei lá! Só a vi a ser levada pelos Pitbuxos. Havemos de descobrir para onde!
E decidida, começou num trote ligeirinho, um nadinha coxo porque os dias da sua agilidade já tinham passado há muito. E ia na direcção dos estrondos. O Carlinhos apressou-se a segui-la, de novo com a barriga aos saltos e mais ofegante do que o Zé Nesgas quando tinha asma e jogava à bola, tudo ao mesmo tempo. Como arranjou fôlego para, mesmo assim, gritar à Magrizela «Por aí não! Por aí não!» não lhe posso dizer, Gentil Senhorinha, porque também não sei.
O que sei é que, bem vistas as coisas, o seu Primo tinha razão. Na correria foram dar de caras com um gigante de óculos escuros e gravata azul-cueca que trazia debaixo do braço, firmemente agarrado, o Deus-dos-Cães, com o seu único olho e um ar muito infeliz.
Se o Gigante era o Guarda e o que aconteceu aos nossos heróis – o seu Primo e a quase caquéctica Magrizela – só lho poderei dizer mais logo à noite se conseguir escapulir-me na sombra dos corredores, até aqui à secretaria.

sexta-feira, abril 20, 2007

O cão que jogava xadrez VII


Devido ao estado da minha saúde, diz a enfermeira velha
(rabugenta e cabelos raquíticos, mais rabo-de-corvo a depenar-se do que asa viçosa, a descolar-se do crânio cor-de-rosa e com farto bigode)
só posso, Gentil Senhorinha, escrever umas linhas sobre o que se passa com o seu Primo Carlinhos que, como sabe, anda à procura de um cão que jogue xadrez e não se importe de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa da Mãe
(a sua Tia, como sabe se eu já tiver dito, o que não garanto, às vezes dão-me estes esquecimentos, mas não são, como diz o Doutor, falhas de memória, a prova é que ainda sei o que quero contar sobre o pavoroso acidente na auto-estrada de Mértola a Berjenjas.)

E então era assim:

De Mértola ao Fundão vai um passo de anão.
Do Fundão a Alpedrinha, um voo de andorinha.
(Ponháqui a s'a mãozinha, ponh'aqui o sê pézão.)

Diz-me, Senhorinha, com a sua proverbial delicadeza que o Pica-Pão-Manel-João não é seu Primo, quem é, esse sim, é o Carlinhos que foi dado à Magrizela pelo Diabrete.
Se a Senhorinha o afirma - ainda que com a sua proverbial suavidade - então é certo, ainda que eu pense que é estranho que um rapazinho de tão boas famílias, seja assim dado a uma cadela rafeira e, vai-se a ver, até bastante entrada em anos. Diz-me, apesar disso, Senhorinha, que a Magrizela cumprimentou o Carlinhos à maneira dos cães, isto é, saltando para tentar lamber-lhe a cara (com o que terão os óculos ficado de esguelha outra vez) e deitando-se para receber festas na barriga.
O Diabrete, esse, insiste suave a Gentil Senhorinha a tentar que eu me lembre do que, aparentemente, eu próprio lhe contei, e que foi, então o tal Diabrete ter-se zangado!
- Olha lá! Tu não estás nhã-ã-ã? - terá ele dito. - Eu dei-te o puto e tu ficas aí, em cortesias, como se isto fosse a night ali nas docas?
A Magrizela, primeiro, olha, parece que rosnou ao tal Diabrete, mas logo a seguir terá abanado a cauda conciliatória.
- Vá lá, não te escames, que ninguém te paga para isso. O que é que vai acontecer?
- Se eu fosse bruxo em vez de Diabrete, montava uma loja de vender bilhetes da lotaria, e essas coisa, raspadinhas e assim, e depois vendia as que não tinham nada e as premiadas, tá-se a ver, não é, eram aqui para a Santa Casa.
Suponho, pelo que me contou, que a Magrizela rosnou outra vez.
- Pronto, pronto. Mesmo sem ser bruxo, sou capaz de adivinhar que o Guarda há-de vir aí, não tarda. E, nessa altura, tás a ver, eu cá fujo!
- Mas porquê? - pergutou o Carlinhos. - A garina lá de fóra é que me deixou entrar para ver se havia um cão que jogasse xadrez e que...
- Olha, puto! Isso foi antes de tu teres arranjado este chavascal todo, tás a ouvir? Agora é pirar e acabou-se.
E, Gentil Senhorinha, mesmo que me tenha contado mais alguma coisa, agora a enfermeira já veio dar-me aqueles comprimidos azuis e já não me lembro de nada.
Mas como, dizem eles, agora tenho de desligar esta coisa por causa de não sei quê, o resto do que eu me lembrar fica para a vez seguinte que eu consiga escapulir-me até aqui.
Resta-me, Senhorinha, apresentar-lhe os meus respeitos e, como já me querem levar à força, digo-lhe adeus, até à

sexta-feira, abril 13, 2007

O cão que jogava xadrez VI


Decerto a minha Gentil ouvinte se lembra de que deixámos o Carlinhos muito atrapalhado, a tentar ver se um dos desalmados Pitbuxos do Guarda se preparava para o atacar, como prevenira o Diabrete. E lembra-se decerto que o seu Primo, com o susto, ao tentar olhar, fugir e equilibrar-se ao mesmo tempo, ficou de braços e pernas à volta da trave, numa posição muito incómoda, os óculos pendurados só duma orelha. É claro que não havia nada atrás dele.
Lá em baixo, porém, o Diabrete rebolava-se a rir:
- Primeiro de Abril! – gritava ele entre gargalhadas: - Primeiro de Abril!
- Mas hoje já são dezasseis! – protestou o Carlinhos indignado.
- Isso é no calendário Gregoriano, ó mongas. – ria-se cada vez mais. - No nosso, cada vez que é feriado, é Primeiro de Abril, ficas já sabendo! – conseguiu ele dizer. - Isto, para o caso de cá ficares muito tempo, o que não acredito.
- Porquê?
A custo conseguira sentar-se de novo na trave.
- Porque és um anjolas. Acreditaste no que eu disse. E agora eu digo-te assim: eu minto sempre. Acreditas ou não?
O Carlinhos pensou.
- Não. Se mentisses sempre não me podias dizer isso porque então era verdade e tu não mentias sempre.
O Diabrete pareceu ficar amuado.
- Assim não vale. Tens mais de cinquenta e cinco de QI. E então, se for falso que eu minto sempre, qual é a verdade?
O Carlinhos conseguira desprender o sapato e descobrira um varão que descia até lá baixo.
- Sei lá! – disse ele, a apalpar o ferro que era sólido e áspero, e agarrar-se bem. – Se for falso que mentes? Então é porque dizes a verdade, não é?
- Há-há-há! – riu-se de novo o Diabrete. - Nem penses nisso. É verdade que algumas afirmações que eu faço são verdadeiras, mas isso não exclui que algumas outras sejam falsas. Não te ensinam nada na escola? Duas afirmações que se contrariam podem ser ambas verdadeiras se forem particulares, é a regra! Não sabias? Vais descer por aí? Ficas sem pele nas mãos.
Ficou.
Quando cá chegou a baixo, o Carlinhos soprava devagarinho nas mãos e olhava consternado para mais um rasgão nas calças.
- Só tens essas? – perguntou o Diabrete. – Mas ainda estão boas, senão emprestava-te estes.
- Tá-se bem. - apressou-se o Carlinhos, a olhar a sujidade dos calções - O que eu precisava era de um cão, mas um que…
- ...que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa da tua Mãe. Já toda a gente sabe, pá. Sabes o que te digo, eu que ando aqui por este canil desde a fundação? Tu é que precisas de um dono. Um dono, tás a ouvir?
- Mas a gente não tem dono! - gritou o Carlinhos. - Os cães e os gatos e os piriquitos é que têm.
O Diabrete largou de novo a rir.
- Man, és um puto bué da palhaço!
Pôs-se de pé, a custo, e depois olhou para o Carlinhos com um ar feroz:
- Não viste o letreiro acolá na porta, quando entraste?
- Vi. Proíbida a entrada a pessoas estranhas ao serviço. Mas eu não tive a culpa, foi a garina de lá de fora que me mandou entrar, eu só queria um cão que jogasse xadrez e não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa...
- Já sei, já sei. - disse o Diabrete resignado. - Mas não era esse aviso, que eu esse nunca vi. Era o outro, grande, por cima da porta: Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate! É uma frase bonita, do Dante. Ou do Horácio ou de um desses indianos que fazem picanha enlatada. Nunca comeste?
- Não. O que é quer dizer essa coisa?
- Qual?
- Essa do laxata do tóni ganza...
- Quer dizer que aqui é tudo ao contrário. Aqui, quem manda é o Guarda. Logo depois, quando ele não está, somos a gente, o Senhor Deus e nós. Depois são os cães. Depois os gatos e as tartarugas. Os peixes, e os pássaros, esses atiram-se logo para o caldeirão da comida. E depois é que vêm os Pitebuxos e no finzinho de tudo são vocês, as pulgas e as carraças. Tudo aquilo que havia de haver um remédio como o DDT. Tás a ver, ó meu? Aqui tens de ter um dono, senão, comem-te vivo. Pás! É a ordem da Criação.
O Carlinhos não disse nada.
Amuado, seguuiu atrás do Diabrete que inspecionava as jaulas uma a uma, resmungando. Depois parou e a baixou-se.
- Sim, podes ser tu. Já não és muito nova, mas ainda serves.
Virou-se para o Carlinhos.
- Dou-te a esta aqui, e vais com sorte, que nunca foste de um cão mais baril. E ai de ti! Ouviste, ai de ti se não te portares bem e não a tratares como merece!
Com o dedo grande do pé abriu o trinco.
A Magrizela, com um ar estonteado assomou à porta.
- Que é tu queres, hem? Hoje não há direito a um bocadinho de sossego? – perguntou ela.
Mas, atentando melhor na sua fraca vista, reparou:
– Oh, és tu, ó sedutor?
- Não – respondeu o Carlinhos. – Sou só eu.
E pronto!
Leiam, Gentil Senhorinha e Nobres Damas, a continuação destas prodigiosas aventuras, já amanhã, depois ou noutro dia que calhar, quando e o Pai do Céu permitir e me dêem uma abébia aqui em Rilhafoles, onde às vezes me deixam usar o computador se eu não estiver muito descompensado - dizem eles.

O cão que jogava xadrez V


Sabei, Nobres Senhores, Gentis Damas e Cavaleiros, que as Aventuras verdadeiras do Carlinhos (de sua Mãe) em busca do Cão que joga xadrez e não se importa de ser aspirado para que o pelo não conspurque a higiénica morada onde ressona o Pai, não está prestes a terminar.
Lembrais-vos, certamente de que o Deus dos Cães, na sua inverosímil divindade, corria pela viga de ferro, à altura de um segundo andar de qualquer prédio antigo.
E porque correm as divindades, perguntais-me, a mim, contador destas e muitas outras histórias, como se esperásseis resposta.
- Então não têm os Deuses diante de si a eternidade? - argumentais. - Para quê, então, correr?
Que vos posso eu, que não sou teólogo, dizer?
Que, talvez sim, que talvez um segundo de corrida ou um milénio, seja a mesma coisa?
Mas imaginastes, porventura que o Carlinhos, lá atrás, arrastando-se pela estreita pista de ferro, já com a perna da calça rasgada e, agora com o fundilhos negros do pó que décadas tinham depositado naqueles inacessíveis espaços, podia esperar tanto tempo?
A verdade, porém, Gentil Senhorinha que com o olhar perplexo tem vindo a seguir o desenrolar destes eventos, a verdade verdadeira, é que o Deus dos Cães, esse mesmo que corria ali adiante sem olhar para trás, estava com fome. Uma fome canina. E assim se esqueceu de que o pobre Carlinhos também vinha, arrastando-se sobre o não-senhor, e em dois saltos bem ousados, desapareceu pela abertura do telhado, mais parecendo de facto o rei dos Gatos do que o Deus dos Cães.
- Hei! – gritou o Carlinhos – Então e o meu cão que sabe jogar xadrez e que não se importa…
Mas já não havia ninguém, o que, acrescento, não passa de um modo de dizer.
Lá por baixo, os Diabretes corriam alegremente atrás dos Pitbuxos, cavalgando às costas uns dos outros e gritando sonoros "iiiiupiiiis" de cada vez que atiravam o laço, como se fossem gaúchos à solta nas pampas do Rio Grande do Sul.
Mesmo na vertical do lugar onde o Carlinhos, agarrado á viga do tecto, podia espreitar, um laço apanhou um dos perseguidos que rolou pelo corredor, ganindo o seu desespero.
Das jaulas erguia-se um rosnar surdo que se transformava em ladridos, à medida que os Diabretes arrastavam o seu prisioneiro para fora do armazém.
Muito tempo decorreu em correrias cá por baixo e o Carlinhos lá em cima, pobre dele, começava a sentir uma certa vontade de ir à casa de banho...
As jaulas, porém, lá em baixo, iam-se aquietando, os Pitbuxos já não estavam à vista, um grupo de Diabretes em passo de marcha fúnebre passou solene revista aos corredores entoando uma versão bonita do hino da Maria da Fonte:
«Vivá Maria Cachucha», começava o alto,
«Com a su' voz de trovão!»
E logo o coro:
«P'rassustar os Pitbuxos
Que são tredos à raça de Cão!»
E também eles foram seguindo, as vozes já desafinadas, misturadas de risos, desvaneciam-se ao longe.
Apenas um Diabrete, a um canto, parecia entretido a tirar umas coisinhas pretas de entre os dedos dos pés, cheirava-as cuidadosamente e limpava o dedo aos calções antigamente, pelo menos, se calhasse, verdes.
- Posso descer? – perguntou-lhe lá de cima o Carlinhos.
- Não sei. Podes?
- Quer dizer, se não há aí nenhum desses cães…
- De quais? Destes? – apontou com o dedo sujo para as jaulas. – Há milhares. Ou milhões? Quantos são um milhão? São mais que dez?
Parecia perplexo e coçou a cabeça com a unha suja.
- São. – disse o Carlinhos. – Mas dos outros, dos cães do Guarda, aqueles com capacete e tudo.
- Desses, - disse o Diabrete. – Aqui em baixo não. Mas, talvez te interesse saber que está um mesmo atrás de ti.
O Carlinhos deu um salto, tentou olhar para trás e equilibrar-se ao mesmo tempo, um dos ténis prendeu-se num parafuso. Conseguiu agarrar-se in extremis, braços e pernas à volta da trave, os óculos pendurados só duma orelha.
O que vai acontecer agora ao vosso Primo, Gentil Senhorinha, Nobres Damas e Garbosos Cavaleiros, não o sabereis senão no próximo episódio se o Senhor Quiser e eu me lembrar de alguma coisa que concerte este desconcerto que para aqui vai.

segunda-feira, abril 09, 2007

A Gi faz anos (Peça em um acto e uma Cena)

Carlinhos - S'Dona Gi: cá a maralha, heu...
Cão da Direita baixa - Avia-te, man, qu'eu já me piquei outra vez.
Cão do Centro baixo - Não ligues a esse tótó. Anda lá par'diante!
Cão da Db - Tótó eras tu, ó carraçoso!
Carlinhos - Chiu! Ou vocês se portam fininho, ou eu não digo nada e vocês... Heu... atão era assim, S'Dona Gi, a gente vinha cá, tipo deixar-lhe estas florinhas qu'a gente gamámos lá no jardim, enquanto ali o Roscas fintava o jardineiro, e trazíamos também um bolo, qu'era da 'nha Mãe, mas, heu, ali a Sarota não percebeu qu'era p'ra S'Dona Gi e vai, zaca, morfou-o, 'táss'a ver, não deixou nem as velas, queram poucachinhas porque a minha Prima só fez nove anos.
Cão da Esquerda Alta - A Sarota sou eu. Tava baril, tinha creme e tudo! (para os outros:) É agora que eu tenho de pedir desculpa? Eu cá dizia era obrigada!
Carlinhos - Tu ficavas era bic'alada! Heu, atão era assim...
Cão da Ea - Então parabéns, e desculpe lá aquela coisa do bolo...
Cão da Db - Assim é que é! É a aviar! Parabéns, S'Dona Gi.
Cães todos (em coro:) - Parabéns S'Dona Gi,
nesta data querida,
muitas felicidades,
muitos anos de vida...
Carlinhos (indignado) - Não era nada assim, primeiro a gente dizia...
Cães todos, depois mais Carlinhos (em coro) - Hoje é dia de festa,
abanam as nossas caudas,
para menina Gi,
uma salva de palmas...
Todos (menos o Carlinhos) ladram em coro. O Carlinhos bate palmas.
(Cai o Pano)
Ainda se ouve a voz da Sarota:
Sarota (de fora) - Uma salva de palmas é o quê?

domingo, abril 08, 2007

O cão que jogava xadrez IV

Mas, Senhorinha Minha, eis que tudo se precipita, Carlinhos, escada, os Cães do Guarda, tudo desaba fragorosamente arrastando na queda jaulas, redes, passadiços, tralha indistinta numa confusão de ferros torcidos, arames enredados, água jorrando em repuxos vários, o coro dos ladridos, rosnadelas e uivos.
- Um pandemónio!
Era o que diria a Mãe do Carlinhos (e sua estimável Tia) se visse um livro do mesmo Carlinhos poisado em qualquer braço de uma das poltronas em frente à televisão.
E era mesmo! O Demónio estava por todo o lado, a fazer das suas!
Sobrepondo-se ao já de si elevado ruído, um mais agudo e irritante uivo se ergueu enquanto luzes azuis se acendiam, alternando com as vermelhas que se apagavam, avisos de cores diferentes acendiam-se à vez.
«Sorria, está a ser filmado», dizia um.
«Para sua segurança», dizia outro, «tudo o que fizer está a ser gravado e pode ser usado em tribunal contra si».
E foi, quando a escada perigosamente inclinada estava quase a cuspir fora o Calinhos, que o senhor desgrenhado só com um olho lhe deitou a garra à gola do polar e o içou para cima de uma viga de ferro:
- Tás a ver o que fizeste, ó bardajola?
Em equilíbrio precário – e pré-cárie também, como explicou o odontologista à Mãe do Carlinhos noutra altura. Estavam nas traseiras da Loja dos Chineses onde ele tinha o consultório de acumpuntura e outras especialidades rentáveis – e não sei, Gentil Senhorinha, se não incluiriam a massagem tailandesa lá mais para o fim da tarde.
Mas isso é outra história que contaremos um dia, se Deus nos der vida e saúde e a electrónica não faltar.
Voltemos, portanto, ao Carlinhos que se agarrava com unhas e dentes, à viga de ferro, olhando para a confusão lá de baixo e sem perceber bem o que dizia o homem desgrenhado só com um olho. E é pena, porque ele dizia coisas interessantes:
- Um Canil Municipal é uma coisa séria, rapazinho! Inscreve-se no grande rio da vida canina como os hospitais e os asilos para os velhadas se inscreve no da vida humana, não percebes? Temos cá sempre um ou dois estudantes a investigar, lá para aquelas trapalhadas dos doutoramentos. E agora olha! Estragaste tudo!
Mostrava com a mão o caos lá em baixo.
- O Senhor é que é o Guarda?
- Eu? – deu uma sonora gargalhada – Não, rapazinho! Eu sou o Deus dos cães! Não vês as minhas orelhas?
- Não tinha reparado. – disse o Carlinhos, um tanto ofendido por se estarem a rir dele.
Além disso, tinha ouvido falar num Deus Único, lá na Igreja, quando fizera a preparação para a Primeira Comunhão. Não acreditava que fosse aquele sem-abrigo! Um Deus Único a sério tinha de vestir assim de branco até ao chão, mesmo se aquela maneira de vestir à tropa até fosse muito mais fixe para andar por cima das traves.
Mas, e se fosse verdade? À cautela, acrescentou:
- Então o senhor é que me pode encontrar um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias para não largar pelos na alcatifa!
- Não me parece, rapazinho, não me parece! Os cães não jogam… às vezes brincam, mas não jogam. O jogo, sabes, é uma mentira e os cães, ás vezes, lá que são fingidos… Mas não, jogar xadrez não me parece. Não preferes um chimpanzé?
- Não. O que eu quero é um cão que saiba jogar xadrez e não se importe…
- … De ser aspirado, já percebi. Mas espera…
Debruçou-se na viga de ferro e soltou um assobio agudo que se sobrepôs ao grito enrouquecido dos alarmes que começavam já a estar sem bateria.
Uns vultos pretos surgiram lá de baixo e treparam às gaiolas para ouvir melhor. O homem sem um olho que dizia que era o Deus dos Cães perguntou:
- Não chega ainda de diversão, seus diabretes?
- Só mais um bocadinho…
- Sim, sim, só mais umas corridas...
- Pronto! Mas só até eu chegar lá abaixo. Depois prendem os cães do guarda e arrumam tudo.
- Fixe! – gritaram os diabretes.
E o pandemónio redobrou.
- Anda comigo, tu ó bardajola!
Desatou a correr pela viga fora, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.
O Carlinhos, trémulo de medo, lá se foi arrastando atrás dele.
Onde chegaram, no entanto, só o posso inventar mais e depois.
Por isso, Senhorinha, embora tenhamos de deixar a continuação para a próxima ocasião, confiemos em Deus (não, não é o dos cães, é o Outro) e a continuação não há-de faltar.

sábado, abril 07, 2007

segunda-feira, abril 02, 2007

O cão que jogava xadrez III


Se ainda se recorda, gentil senhorinha, abandonámos o seu Primo (o Carlinhos, dado que tem muitos outros) no Canil Municipal, prestes a gritar «Há aí algum cão que saiba jogar xadrez?»

Reparo, no entanto, que me diz, daí desse lado:

- Meu Querido Amigo, sei que não abandonou o meu pobre Priminho. Está a brincar, não está? Diga-me que sim... (1)

Tem toda a razão e não posso deixar de esclarecer que este "abandonámos" é meramente retórico. Nem o Carlinhos se deixaria abandonar sem um protesto sequer - a menos que lhe desse jeito ficar sozinho - nem eu teria coragem para o abandonar sem mais aquelas, como vai ver.

Reprova-me também, ainda que com a sua proverbial discrição, aquela insensata frase onde digo que tem "muitos outros [primos] no Canil Manicipal" e que se presta a interpretações de duvidoso gosto.

E tem, mais uma vez, toda a razão, a culpa é das minhas fraquíssimas notas a Matemática. Nunca soube se se soma primeiro e se multiplica depois ou o contrário e o que é que se tem de meter dentro dos parêntesis. Consultei, porém, o seu Primo Carlinhos e ele, impaciente por sair do mesmo sítio e continuar a busca de um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias pela Mãe (a sua estimável Tia, Mãe do Carlinhos, não do cão... hum... acho que me perdi... onde é que nós íamos? ah!:) ...para não largar pelo na alcatifa, explicou-me como é que devia fazer.

Portanto, gentil senhorinha, quando reler esta narrativa verificará que já emendei o clamoroso erro e que, tendo tudo isto perdido a razão de ser, sou obrigado a apagar desde o princípio e começar de novo com receio de algum paraoxo acidental.

Portanto, cansado de perguntar à esquerda e à direita, para baixo e para cima, o Carlinhos (o seu Primo, já tinha dito, não tinha?) parou no mais próximo cruzamento de corredores e dessa encruzilhada lançou um grito:

- Alguém aí sabe jogar xadrez?

O efeito foi catastrófico: não só porque o grito terminou com uma fífia de todo o tamanho (o Carlinhos estava na muda da voz), como de todos os lados, de cima e de baixo, da frente e lá de trás, da esquerda e da direita, se elevou um clamor imenso de ladradelas, ganidos, uivos e rosnidos.

- Calados, já! - ordenou o Carlinhos para o ar e sem qualquer efeito.

Tapou os ouvidos, mas o som atravessava as mãos, feria os tímpanos, fazia tremer as gaiolas com um som metálico como se estivessem a ser abanadas por um novo 1755, daqueles que a prof de História e Geografia tinha mostrado no power point e a maralha tinha começado a imitar batendo com as mesas e com os pés, trum-trum-trum e depois o Zé Nesgas gritou:

- Professora, bute fazer a evacuação da Escola!

E desataram todos a fugir e a gritar pelo corredor fora, «tremor de terra, tremor de terra!» e era portas a abrir-se e putos a correr por todo o lado e a contínua Gracinda a gritar também e só Stora de História é que dizia «não é nada, não é nada!»

Qual não era nada! Era mas era treze putos para o Seguro Escolar fazer curativos, uma pancada de vidros e cadeiras partidos, livros e canetas pisados, roupas rasgadas. E só suspensões, foi um dia para a turma toda, três para o Tavares e para o Anjolas e cinco para o Zé Nesgas que não convenceu ninguém de que nesse dia tinha faltado porque estava com asma.

E, no meio do alarido (do Canil, não da aula de História), o Carlinhos reparou que havia cães nos corredores.

- Corre - gritou-lhe um rafeiro da jaula ao lado. - São os Pitbuxos do Guarda!

- Trepa - gritou-lhe outro. - Eles correm mais do que tu!

- Trepo onde? - pensou o Carlinhos e desatou a correr, com a barriga a saltitar e os bofes a sair-lhe pela boca.

Havia uma escada de ferro, daquelas verticais, que levava lá acima ao passadiço. O seu Primo (o Carlinhos) atirou-se para o quarto degrau, voou para o quinto e o sexto enquanto meia perna da calça se rasgava e caía para o chão com um Pitbuxo agarrado.

Trepou ainda mais três degraus e teve de parar, agarrado com quantas forças tinha, o corpo todo a tremer como se fosse geleia e a respiração pior do que a da garina da entrada. Em baixo os Pitbuxos saltavam a tentar chegar-lhe aos ténis.

Foi quando lá de cima, do passadiço, lhe chegou um berro tonitroante que se sobrepôs ao vozear do cães. Uma cabeça desgrenhada espreitava-o de lá de cima. No meio do seu pânico, o Carlinhos reparou que aquela carantonha horrível só tinha um olho.

(1) Para os jovens menos afeitos a estes jurássicos falares, deixo aqui uma tentativa de tradução: «Com'ék'é, ó palhaço? Deslarga-s'assim o baril k´é meu primo?»

(continua, Deus sabe até quando, nos próximos números)

sábado, março 31, 2007

O cão que jogava xadrez (2)



Parece que Deus quis, por isso, senhorinha, cá vai:

O primeiro impulso foi fechar a porta. O Carlinhos sabia que os bichos têm cheiro, a Mãe (e sua Tia, como já sabe) andava sempre a dizer que o gato da vizinha de cima deixava as escadas empestadas, mas, pomba! nunca tinha visto (cheirado) nada como aquilo. Ainda com a mão no ferrolho reflectiu: queria um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não deixar pelos na alcatifa ou não queria?

Fechou a porta atrás de si e avançou uns passos. As gaiolas feitas de rede iam até lá muito em cima, empilhadas umas nas outras, entaladas num emaranhado de escadas e passadiços que faziam lembrar as histórias do Homem-Aranha e de todos os lados surgiam as pontinhas pretas ou rosadas de focinhos de cães que ganiam, ladravam ou uivavam. nas jaulas que ficavam à altura dos olhos, os canitos pretos, brancos, malhados ou castanhosabanavam furiosamente os rabos e perguntavam:

- Sabes onde é a minha casa?

Ou então:

- Sabes dos meus donos?

Outros ainda, só queriam que ele lhes dissesse como é que se saía dali.

- Tu também vens para cá? - perguntou uma magrizela com o focinho embranquecido, a segurar-se com as unhas à rede da gaiola de baixo, num esforço para o cheirar.

O seu Primo (o Carlinhos, claro) pôs-se de cócoras para a ver melhor.

- A minha dona, logo vem-me buscar - informou da jaula ao lado uma outra, de cauda emplumada quase sem pelo, o nariz empinado.

- Coitada - disse a Magrizela baixando a voz. - Já não está muito boa da cabeça. Há quinze dias que diz a mesma coisa. E tu, afinal, o que é que fazes aqui?

- Sabes jogar xadrez?

- Ná. Não sei jogar coisa nenhuma. E olha, já estou muito velha para aprender. Sabes quantos anos tenho? Catorze. E tu, tu ainda és uma cria. Tu tens o quê, oito meses?

O Carlinhos fez contas de cabeça: sete anos de homem fazem um de cão, portanto já devia ter um ano e coisa. Mas nem teve tempo de dizer fosse o que fosse:

- Não viste lá fora a minha dona? - interrompia a emplumada. - Está a preencher os papéis para me vir bucar.

- Vi - mentiu o Carlinhos. - Mandou dizer que só te pode vir buscar amanhã, mas vem logo de manhâzinha cedo.

Com o indicador (era o que cabia nas malhas da rede) fez uma festa no nariz da Magrizela e acrescentou:

- Esperem um bocadinho. Venho já.

Ergueu-se para continuar pelo corredor.

- É um bom mentiroso - murmurou a Magrizela para si mesma. - Há-de ser pai de muitas ninhadas.

Deitou-se a um canto da sua cela e adormeceu a sentir uma pontinha de calor, como se estivesse de novo deitada ao pé da fogueira.

O Carlinhos, esse, pelo corredor fora via tantos cãezitos e canzarrões que não sabia o que fazer. Perguntara, um a um, para a esquerda e para a direita, de baixo até tão alto quanto os bicos dos pés alcançavam: «Sabes jogar xadrez?» E a resposta era invariavelmente:

- Não chateies, meu. Diz lá, mas é quando é que a gente pode bazar daqui.

O Carlinhos tomou uma decisão. Assim não ia a lado nenhum, havia centos de cãezinhos por ali acima, para lá dos passadiços. O melhor mesmo era, em cada bocado de corredor, gritar com quantas forças tivesse «há aí alguem que saiba jogar xadrez?» e esperar pelas respostas.

Parecia, de facto, a melhor solução, mas não foi. Por dois motivos. Mas, para os ficar a saber, minha gentil senhorinha, terá de esperar pelo próximo capítulo (se Deus quiser, claro).

(continua no próximo número)

sexta-feira, março 30, 2007

O cão que jogava xadrez

Olhe, minha jovem senhorinha, velha era a sua Tia e casou-se.
Mas como, coitadinha, não era maluca, passou a vida a aspirar a mesma alcatifa, com o mesmo aspirador e o seu Tio todos os dias calçava as mesmas pantufas para não a sujar.
Fizeram amor quatorze vezes (embora não muito de seguida) e daí nasceu o seu Primo Carlinhos, pósmaturo com seis quilos e seicentos e um QI de 148. Aos doze anos, contemplando o Pai (o seu Tio por afinidade) que dormia a sesta no sofá forrado com um pano azul, o ventre subindo e descendo com um som assobiado, e a Mãe (a sua venerável Tia) que tirava o fio ao feijão verde com um alguidar cor-de-rosa, decidiu:
- Vou arranjar um cão.
O problema era arranjar um que jogasse xadrez e não se importasse de ser aspirado todos os dias para não espalhar pelos na alcatifa.
Ao sair da escola, esmurrado um mangas que lhe chamara gordo, dirigiu-se ao canil municipal. Teve de bater à porta uma data de vezes até aparecer uma garina muita grande, muita corada, com muita mau-humor, a ajeitar os botões dos jeans e com uma respiração que parecia a do Zé Nesgas quando estava com um ataque de asma.
- Está doente? - condoeu-se o Carlinhos.
- Quéquetuquerezóputo?
- Quero um cão, um que jogue xadrez e que não se importe com o aspirador para não largar pelos pela alcatifa toda! - explicou o Carlinhos.
A garina fungou, uma coisa que a Mãe (a sua Tia, como já referimos anteriormente) dizia sempre que era feio e não se devia fazer. O Carlinhos extraiu do bolso um lenço de papel já usado e perguntou se a senhora precizava.
- Pisga-tó mongas! - disse a garina, ainda com pior humor.
- Mas eu quero um cão que jogue xadrez e não s'importe...
- Tá bem, desampara-m'a loja. Olha aí, pra lá dessa porta, há uma data de corredores com cães e gatos. Quando achares alguma coisa ficas quieto até eu ir lá ver de ti.
O Carlinhos ficou um minuto a olhar para ela que desaparecia à pressa na casota envidraçada onde parecia agitar-se alguma coisa.
- Fogo! - pensou o rapaz - Até parecia a Stora de Inglês quando está c'os sangues!
Encolheu os ombros robustos e abriu a porta. Um cheiro agoniante e um coro de ladridos chegaram-lhe de imediato, vindos das gaiolas de rede que faziam um lado e outro do corredor que se lhe abria na frente.
(continua no próximo número, se Deus quiser)

terça-feira, março 27, 2007

Trop maigre pour être malhonnête



Bien sur, l'argent n'a pas d'odeur,

Mais pas d'odeur nous monte au nez...

terça-feira, março 20, 2007

Ecce Homo


Iesus Christus aka Nazareno aka Rex Iudeorum

sexta-feira, março 16, 2007

quarta-feira, março 07, 2007

"aos cépticos como eu..."





Imitação de morte é esta vida,
nem morte ainda, mas nem vida já,
à força de penosa e corrompida,
em que mais a razão desperta está,
e, porque desperta, mais vencida.
Imitação de vida é esta morte
quotidiana, que nos coube em sorte.


Armindo Rodrigues, Entre o quotidiano e a aventura, VII

quinta-feira, março 01, 2007

Fora da Graça de Deus

Andando eu, Tacci, muito fora da Graça de Deus, por razões que jamais virão ao caso, e não tendo nada de novo para aqui colocar, deixo por substituto uma visão assaz subjectiva de um concerto de jazz ouvido e contemplado no Centro Comercial de Belém.


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Os Portugueses, Caramba!


Dum modo geral, concordo até com as opiniões do autor. Permito-me reservar apenas o meu juízo quanto à reivindicação que o sr. dr. Boléo faz da Galiza e de parte das Astúrias para a costituïção do que seria o verdadeiro Portugal à face das determinantes geográficas. Não duvido de que essa teria sido uma grande Nação, um Portugal Maior, e até de que poderia ir mais longe, à Andaluzia, à África Menor, à Bretanha, à área da talassocracia ocidental do começo do bronze, o domínio dum grande Império Português do Ocidente, Atlântida magnífica dos tempos modernos.

Mas a geografia suscita muitos devaneios imperialistas, que na prática tem os seus perigos e as suas objecções. Fiquemos, pois, em que êste nosso Portugal, e não outro, êste portugal em que nascemos, em que vivemos, que servimos, que amamos, é pela vontade de Deus, da natureza e dos homens, o verdadeiro Portugal.

A. A. Mendes Corrêa, Raízes de Portugal, 1944


Sem título


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Sem Título


Pronto!
Hoje é só um passante.
Não sei nada dele.
Nem donde vinha, nem para onde foi, nem o que ia a pensar.
Atravessou a rua na minha frente e nunca mais o vi.
Se o voltar a ver, pode ser que não o reconheça.
Foi, provavelmente, o milionésimo passante a atravessar uma rua na minha frente.
Mesmo sem ser cliente, podia ter direito a um brinde.
Este desenho, por exemplo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Os defeitos do infiel

Caminhamos dous dias com a maior pressa que nos foi possiuel, posto que com trabalho, por razão das neues que neste logar começauâo a se passar com difficuldade; se não quando a outro dia pella menhâa chegaram a nós outros tres serranos, mandados pelo Gouernador da terra com grandes ameaças e medo aos que nos guiauão, se fossem mais por diante; dizendolhe que sua molher e filhos ficauão em estreita prizão, e seu fato confiscado; e se não voltasse, auião de morrer todos; e a mim com varias ameaças e medos, procurarão amedrontar, dizendo que meu companheiro, que estaua na aldeia, passaria muito mal, se eu logo não voltasse; e o fatinho que tinhamos, seria tomado por perdido, e sobre tudo que auia de morrer infalivelmente, se hia por diante, por não ser ainda tempo de passar aquelle deserto, com outras muitas cousas e espantos desta calidade. O serrano que nos guoiaua, voltou logo; e eu como tinha todas as informaçoens do caminho, me fui por diante com dous moços, por não se atreuerem tres que tinhão vindo a mais, que a nos mouerem com palauras. Inuocado o nome de Jesu e ajuda do Senhor, continuamos por diante; porém o trabalho que passamos foi muito excessiuo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encrauados dentro na neue, hora até os hombros, hora até os peitos, de ordinario até o joelho, cançando a sair asima, mais do que se pode crer, e suando suores frios, vendonos não poucads vezes em risco de vida; muitas vezes nos era necessario ir por cima da neue com o corpo, como quem vai nadando...
Nos pes, mãos e rosto, não tinhamos sentimento, porque com o demasiado rigor do frio, ficauamos totalmente sem sentido; aconteceome pegando em não sei que, cahirme hum bom pedaço de dedo, sem eu dar fee disso, nem sentir a ferida, se não fora o muito sangue que della corria. Os pees foram apodrecendo de maneira, que de muy inchados, nolos queimauão depois com brazas viuas, e ferros abrazados, e com muy pouco sentimento nosso...
P. António Andrade, O descobrimento do Tibet

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

As margens do Mondego



Primeiro: 1894

Enquanto às suas ideias - não lhe parece que o nativismo e o tradicionalismo, como fins supremosdo esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria - e um ser pensante não pode decentemente passar a existência a murmurar extaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado, o tradicionalismo em literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 - e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita e que o meu amigo dele espera.

[...] O dever dos homens de inteligência, num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar o rouxinóis do Choupal de Coimbra.

Eça de Queiroz, Correspondência, a Alberto de Oliveira, 1894


Segundo: 1925


Tinham dado a volta à cerca. Tornavam lentamente. Jorge insistia, arredava:

- Deixa lá os parques de Paris que, por muito belos que sejam, não valem para nós a beleza destas amigas árvores que nos viram crescer, nem a desses limoeiros entrèvadinhos que me fizeram chorar quando os tornei agora a ver. E não te desoles. Uma demão ligeira nestas coisas, alguma erva ruim mondada, uma tesoirada aqui e ali no arvoredo que se tornou bravio, e fica tudo como deve ser. E olha, Maria Clara, que é êste simples tratamento de que está precisando a nossa terra. O que isto está é maltratado, abafado pelo parasitismo nulo que tudo invadiu e não deixa vingar a boa semente. Crê, Maria Clara, é o alheamento dos bons valores que deixou chegar o nosso país a êste estado; e se não lhe acudirmos tôdos pode o desastre ser irremediável. Se há justos melindres que não permitem a colaboração em certos campos, ninguém tem o direito de se negar a contribuir para o bem-estar da sua pátria. Há melhor exemplo do que o teu, Maria Clara, com as tuas escólazinhas tão simpáticas e prestimosas?

Maria Clara acudiu modesta:

- Ora, um simples passatempo.

- Se todos tivéssemos dêsses passatempos, encontraríamos mais socêgo e mais alegria na vida. Aborrecemo-nos, justamente porque porque não temos artes para arquitectar a vida com atitudes belas. Quem não conhece o valor da vida é quase indigno de viver.

Pisavam de novo os tejolos gastos da varanda. Jorge deteve-se circumvagando a vista em roda. Da borda descortinavam-se as eminências majestosas da cidade, as Ursulinas, as Terezinhas, a Universidade, os rebaixos das encostas verdes do Seminário, e as cordilheiras longínquas, a leste, nas neblinas vagas. O ar transparecia em pureza diáfana e acarinhava como olôr tépido. A luz cendrava as coisas de contornos vaporosos, doirando-as.

- Mas basta de filosofias. Quando se contempla uma natureza tão bela o que apetece é adorar.

- Adorar mas é a Deus, daqui a pouco nos altares. E não podemos demorar-nos, notou Maria Clara.

Manuel Ribeiro, A Colina Sagrada, 1925

sábado, fevereiro 10, 2007

Manuel Ribeiro (1878 / 1941)

Ao "Deus não existe ou é cego", de Raúl Brandão, teremos, quem sabe, de acrescentar que, a não ser nenhuma dessas coisas, então está de má fé, como o homem que fez à Sua semelhança.
Não sei se não terá sido este o maior problema com que se defrontaram os jovens intelectuais saídos da república. Quando confrontados com as realidades duras da militância, os ideais, as utopias, as mais firmes doutrinas tendem a esboroar-se. As verdades mais evidentes, mais bem apoiadas pela observação, são constantemente postas em causa pela cegueira dos adversários. Teoria nenhuma, por mais bela, por mais altruísta, resiste às cedências, aos jogos políticos, aos acordos secretos.
"O idealista revolucionário", escreve Manuel Ribeiro em 1929, na carta-prefácio a Os Vínculos Eternos, "que não sem ironia a gíria social alcunha de puritano, por sua intransigência feroz em matéria de princípios, é um tipo curiosíssimo de rigidez austera, de sentimentalidade extrema, ingènuamente puro e simples, leal e franco..."
O próprio Manuel Ribeiro conheceu em primeira mão estas qualidades que atribui ao revolucionário. Ele próprio o foi, segundo reivindica: expulso da C.P. onde trabalhava, por militância anarco-sindicalista, colaborador de O Sindicalista e de A Batalha, e, posteriormente fundador de A Bandeira Vermelha, que era o órgão da Federação Maximalista Portuguesa.
Na década de 20, a sua trilogia social, A Catedral, O Deserto e Ressurreição, alcança um êxito inesperado ao traçar o percurso de Luciano, um arquitecto apaixonado pelas vetustezas da Sé de Lisboa, desde a arte da pedra até Deus.
Pouco depois foi reintegrado na C.P. e, posteriormente, transitou para a Biblioteca Nacional primeiro e a seguir para a Torre do Tombo como conservador.
Os Vínculos Eternos, que tenho vindo a citar, é o último livro de uma segunda trilogia, a trilogia nacional de que constam ainda Colina Sagrada e Planície Heróica. Desta trilogia, ainda não consegui encontrar a Planície Heróica.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os Vínculos Eternos


- É verdade, sr. reitor! - exclamou Mateus com energia - Nada eu soubesse! Desse pouco que aprendi não recolho senão trabalhos, ralações, apoquentações! Valeu a pena! Antes ser como o José Pedroso que encara a vida como ela é e há-de acabá-la bem gozada! Mete-me inveja! Não lhe quero mal; não quero mal a pessoa nenhuma. Vivem todos como se deve viver, aí está! Eu é que falhei, porque não me adapto a nada...
O acento desconsolado que o rapaz pusera nas suas palavras, impressionou o padre que abanou tristemente a cabeça.
- Valeu bem a pena, valeu!
Contreiras, que se debatia numa crise sentimental, comoveu-se, exaltou-se.
- E o sr. nem faz ideia do que eu fui, do que eu passei, do que sofri, em pura perda, para me causticar agora a verdade scientífica, a rir-se do burlesco e do ridículo de tudo!... Arremessado na cidade, onde o prazer é feito com o sangue dos oprimidos, e todo o gôzo alicerça em dores obscuras, fui mais miserável que todos os miseráveis, por ser sensível e consciente. Tantas vezes errante sem guarida, tantas vezes faminto, escorraçado, só para resguardar sem mácula a flor sagrada de um nobre ideal! E puro, sr. reitor, grutescamente puro, para ter o orgulho de afrontar a crápula, e gozar esta alegria moral, tão boa, de nos sentirmos coerentes!
Manuel Ribeiro, Os vínculos eternos, 1929

terça-feira, fevereiro 06, 2007

AVISO:

A todos os bloguistas que costumam ser visitados por nós, se faz saber que, por motivos alheios à nossa vontade, a electrónica não tem permitido deixar os comentários que, por vezes, apetecia fazer.
Tal situação, que se deseja breve, não impedirá que passemos as nossas horas a passear pelos vossos blogues, com o prazer e o proveito do costume.
A bem do Portugal, Caramba,
a) Tacci

domingo, fevereiro 04, 2007

Um "emalho" do Sérgio de Sousa


«... a partir de meados do século que findara, nas grandes cidades do sul da Europa, cresceu significativamente o número das famílias constituídas por um casal e seus, poucos, filhos. A mulher passou a trabalhar também fora de casa, em escritórios. Num primeiro período cumulou sozinha o trabalho doméstico com o que exercia fora; a seguir, o homem foi chamado a colaborar na chamada lia da casa, primeiro como auxiliar, depois com responsabilidade em trabalhos repartidos.

A partir de então, lentamente passou-se a tentar atenuar as diferenças na educação entre a dirigida a filhos e filhas. Em casa todos tinham de contribuir para os desempenhos imprescindíveis à vivência comum: numa semana cabia ao filho por a mesa e á filha lavar a loiça, na semana seguinte estes papéis invertiam-se.

Sair á noite para se divertir deixou de ser uma prerrogativa exclusivamente masculina.

Não foi sem resistências que o modelo principiou a instalar-se, não sendo naturalmente do agrado dos rapazes, antes isentos das obrigações que impunha, mostrando-se por vezes as raparigas demasiado intolerantes quanto à mínima infracção que lhes fosse desfavorável, a realidade era que os próprios pais que procuravam impô-lo traziam incutidos hábitos que lhe eram contrários.

Franqueados às massas de raparigas da classe média o ensino secundário e posteriormente o superior, às que concluíam os estudos, empregos no sector terciário, elas logo compreenderam a oportunidade de se libertar de dependências seculares. Por instinto, protecção dos filhos, escolherão parceiros que acreditem lhes lhes conferirão segurança, mas ganharam confiança em si próprias, na sua capacidade de se sustentarem, de não terem de se precipitar em escolhas, de poderem corrigir passos em falso. Acedem com mais facilidade do que os rapazes às faculdadesa, tornam-se aí em maior número, obtêm boas notas.

Olham em volta. Vêem um mundo ainda dominado por homens em lugares chaves, mas vêem também que todos os dias uma mulher atinge um posto cimeiro, e isso inevitavelmente constitui um estímulo para todas.

Chegaram, numa parcela só do velho mundo, apenas para as integrantes de um estrato social, por enquanto, tempos de emancipação feminina.

E quanto aos rapazes que coabitam no mesmo meio? Há que reconhecer algum descalabro. Perderam o modelo, ainda não o substituiram, não sabem o que fazer com as suas vidas. Os seus pais não são mais os senhores ociosos credores dos prazeres terrenos. São seres que todos os dias cedem privilégios face ás reivindicações femininas, perdem espaços, autoridade, autonomia. Muitos rapazes olham para tudo isso com uma sensação de desamparo e de revolta.

Os machos acomodaram-se numa soberba que, quando as fêmeas lha não acalentam, os deixa desorientados.»

Sérgio de Sousa, Na boda

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Alicante

Une orange sur la table
Ta robe sur le tapis
Et toi dans mon lit
Doux présent du présent
Fraicheur de la nuit
Chaleur de ma vie.
Jaques Prévert, Paroles