Tudo começou com uma simplicidade tão grande e tão simples, num dia gorduroso como tantos outros, com um céu baixo de trovoada, e a enfermeira Rosa, com a sua túnica branca engomada, sem uma mancha, sem uma prega!terça-feira, setembro 11, 2007
O Cão que jogava xadrez XIX
Tudo começou com uma simplicidade tão grande e tão simples, num dia gorduroso como tantos outros, com um céu baixo de trovoada, e a enfermeira Rosa, com a sua túnica branca engomada, sem uma mancha, sem uma prega!terça-feira, agosto 28, 2007
Concha y Toro, 1981
que, a partir dos caquinhos quase invisíveis, conseguem reconstituir um vasinho romano completo ou o crânio de um Neandertal. É que eu nem um simples papel molhado consigo.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Que farei com este bloco?
das meninges, também pode servir para miudinhas fantasias de batalhas. Pega-se num lápis e acrescentam-se muralhas, torres, telhados, janelas. E com uma caneta de bico fino pranta-se-lhe dentro habitantes armados de lança ou espada em grande grita e correria. Do lado de fora as catapultas, os cavaleiros, engenhos de guerra e muitos, muitos bonequinhos.
segunda-feira, agosto 20, 2007
Should any acquaintance be forgotten
Em cena está a Gi. Entram o Carlinhos, o Zé Nesgas, a Cusca e vários figurantes.
Cusca - É agora é que a gente canta?
Zé Nesgas - Pst! Quem é que manda aqui? Primeiro é o discurso. Vá lá, ó mongas. Tá'záspera de quê?
Carlinhos (lendo) -Hum-hhhum! S'Dona Gi, a gente veio cá, é só p'ra dizer que é assim mesmo, a gente acha que sim senhora!
A S'Dona Gi tem direito a Contradizer-se e a Ir-se embora, que são aqueles direitos que não vêm na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Parece que foi o Camus quem disse e era um g'anda maluco que escreveu sobre a peste. A gente acha que a sida é que dava jeito, mas ele, sobre as outras doenças, não disse mais nada.
E também podia era ter escrito sobre outra coisa que falta lá nos direitos do Homem e que é o Direito à Preguiça e isso é que era bué da fixe, a ver se os profes não passavam tantos têpêcês. Mas o pai alí do Zé diz que essa coisa dos Direitos do Homem é só para armar em gente fina é outra nice, porque quem não tem papel não tem vícios, é o que ele diz, e os Direitos do Homem é como os cigarros, já não se fuma nos escritórios, nem nas fábricas. Lá na Escola é que se fuma, mas é só os alunos, lá ao fundo, ao pé do Ginásio. As auxiliares são velhas e não podem correr atrás da maralha. Por isso só os Stores é que não fumam, tá a ver?
A gente acha que os Direitos do Homem é a mesma coisa, é uma g'anda treta. A S´Dona Gi não é homem, por exemplo, a Magrizela também não e é assim, o mundo tem pais e mães e pronto. E então, é como? Não têm Direitos? Não podia ir-se embora e tudo isso?
A gente acha é que sim e prontos.
Só ali a Cusca é que diz que havia lá no Bairro dela uma senhora que era amiga dos cães e gatos vadios e ia lá todos os dias dar-lhes um tacho de arroz e ossos e coisas dessas. E um dia, coitada, teve de ir para o hospital, que já era bué da velhinha e, pronto, nunca mais apareceu. A malta, tá-se a ver, teve de ir à vida para outro lado. Mas a Cusca diz que há um cão que ainda vai todos os dias à porta da velhinha, a chamá-la assim com as unhas na porta.
E é o que a gente tinha p'ra dizer. Acho que não havia mais nada, pois não? Mas, olhe, se a S'Dona Gi ouvir arranhar na porta, não ligue, não precisa de abrir. É só algum cão vadio com saudades, assim com'a gente.
Zé Nesgas - A gora é que é a cantiga.
Todos - She is a jolly good fellow, /She is a jolly good fellow, /She is a jolly good fellow, /and so say all of us...
Cai o pano
terça-feira, agosto 07, 2007
Mariazinha em África
Nunca tinha lido nenhuma das Mariazinhas, mas, lá por casa, contavam-se episódios, sobretudo os do cozinheiro Vicente, guineense que, no fim do livro, obtém licença para acompanhar a família de volta a Portugal.
sábado, agosto 04, 2007
Tolices e amarguras

E lê-se:
"...Depois as nossas bocas colavam-se num grande beijo, e eu, nervos lassos, adormecia no aconchêgo deliciosamente môrno dos braços da minha amante, de bem com Deus e com os homens (...)!
Decorriam venturosos êsses dias de Setembro de 1928, que agora, volvidos dois lustros, vou rememorando na amargura da saüdade.
A tolice expia-se confessando-a e relembrando-a, dizia Camilo, que entendia de tolices e amarguras. Eu, sempre que posso, trago estas recordações a molde, porque sinto depois a consciência mais leveira.
quarta-feira, agosto 01, 2007
África, Mariazinha em
Cristina Malhão-Pereira, Venturas e aventuras em África, Porto, Civilização Editora, 2007Enfim, apesar do tom em «Eu Maior», é um livrinho bom de se ler, e simpático, ainda por cima.
domingo, julho 29, 2007
Guerra do Silêncio
quinta-feira, julho 26, 2007
Homem ao Mar!
Livros!Gostam de livros?
Pois.
A mim, de pequenino, ensinaram-me a estimá-los.
No livro da terceira classe, ou um desses, vinha uma história, das edificantes, género alguém a perguntar:
‘Viveis sempre só, Senhor Petrarca?’
‘Só?’, respondia o poeta, ‘Vivo sempre rodeado de amigos.’
E, arredando uma cortina, mostrava uma fila de livros.
Eu não sabia quem era esse tal Petrarca, mas a reposta dele estava de acordo com os conselhos maternos.
A Senhora Minha Mãe era uma leitora impenitente. Já bastante velhinha ainda olhava em redor, via um livro em cima de uma mesa e perguntava: «Que tal é este livro?»
E zás, antes de saber a resposta ou sequer se alguém o estava a ler ainda, começava a sua paulatina leitura. Parava, de vez em quando, para fazer um comentário.
Já com os seus oitenta, ou perto disso, leu A Montanha Mágica pela primeira vez. Adorou reencontrar um mundo ainda próximo daquele que viveu na sua meninice, quando a doença romântica era a tuberculose porque levava os jovens e quando uma senhora de sessenta anos «era de muita idade». Quando os vícios ainda não se chamavam adicções: eram o vinho, o tabaco e, o mais desgraçado de todos, o jogo.
E toda a gente, desde sempre, fazia troça. Contavam-se histórias das suas distracções.
A mais célebre era a do arroz.
“Vergonha,” decretou um dia o Milôr Fernandes, “não é fazer embrulho de papel de jornal. Vergonha é ler o embrulho.”
A minha Mãe passou por essa vergonha.
Foi assim: antigamente, quando havia tempo para essas coisas, tirava-se do lume o arroz ainda com muito caldo e punha-se na arca, embrulhado em jornais, a enxugar.
À hora da refeição, estava soberbamente cozido e solto.
Um dia em que a mandaram buscar o arroz à arca, obedeceu prontamente, mas nunca mais voltou. Dá para adivinhar que foram dar com ela, muito quieta, ao pé da arca, a ler um folhetim no papel do embrulho.
Esta foi a mais importante das influências que eu sofri.
Mas houve outras.
A minha Avó era da firme opinião de que ler fazia mal. Como tantos outros vícios, só moderadamente se devia abusar. «Tanto leu que tresleu!», dizia-se e era verdade. E vinha o exemplo:
- Olha o Dr. Ferrer! Tinha tantos livros que tinha uma criada só para limpar o pó à biblioteca! E tanto leu que ficou assim! (gesto significativo de senilidade precoce ou irremissível demência)
Para a Senhora minha Avó, uma asserção universal provava-se, sem possibilidade de contradição, por um exemplo socialmente admissível. E não valia a pena contraditá-la usando o contra-exemplo: que uma andorinha não fazia o Verão, também era indiscutível.
Outras pessoas da família, ou não liam ou saltavam as partes mais aborrecidas. Imagino que A Montanha Mágica, com as suas mil e tal páginas, se lesse em hora e meia: os discursos do Sr. Setembrini, decididamente, não tinham interesse nenhum.
Para a minha Mãe, não.
Um livro começava-se pelo princípio e lia-se todo. Era uma espécie de cobardia abandoná-lo a meio, fosse qual fosse o pretexto. Era como se nos tivéssemos deixado derrotar por um livro, um adversário que devíamos transformar em amigo para toda a vida.
Imaginam o que ela sentiu quando leu o seu primeiro Mário Cláudio.
Ela que devorara a escrita enredada e experimental do Abelaira, a falta de pontuação do Saramago, ela que apenas franzira o nariz ao erotismo serôdio do Jorge Amado em Teresa Batista, cansada de guerra e nem pestanejara com A obra completa de Sally Mara, do Quenaud, sentiu-se soçobrar perante o prosador do Norte.
Quando lhe confessámos que tínhamos tido as mesmas dificuldades, suspirou de alívio.
- Eu sei que estou a ficar velha - explicou-nos. – Mas, mesmo assim…
Por respeito pelo Mário Cláudio, não adiantou a conversa.
Não sei se tudo isto explica porque é que tenho a casa devorada pelos livros. Sei que o livro ainda é pior do que os priões da BSE. Fica a incubar anos e anos e, de repente, quando temos de mudar de casa ou tão só renovar a mobília, parece explodir: o nosso cérebro transformado em esponja mostra-se incapaz de dominar a situação.
Lembram-se do Patinhas a nadar na caixa-forte? É como nós nas bibliotecas. Mas o quaqualionário não se afundava, enquanto nós estamos quase a perder o pé. Estamos quase, quase, a morrer afogados em livros.
Rezem-nos pelas nossas almas, sim?
quinta-feira, julho 19, 2007
O Cão que jogava xadrez
O Cão que jogava xadrez XVIII
Mas a ideia de que «tudo aquilo» pudesse ser «treta para tótós», como o Pai Natal e o Menino Jesús a dar prendas aos betinhos, ficou a trabalhar-lhe lá dentro. Ná! O Zé Nesgas havia de ter alguma razão, senão era ele, Carlinhos, quem havia de ter ganho uma bicicleta pelos anos e não o mongas do Hugo Vinhas que só tinha negativas.
Uma coisa, porém, e as minhas Gentis Leitoras certamente já pensaram nisso, é duvidar um tanto dos deuses, admitir que este mundo pode ser assim, como que um simples jogo de forças cegas, indiferentes à justiça e ao bem.
Outra, cem vezes mais difícil, é ter umas réstias de crença, dar de caras com um deus ao vivo e perceber que ele aceita o mal com o mesmo destempero da Stora de Inglês que não tem mão na malta e, zás, marca faltas de castigo a torto e a direito. Isso é que é lixado.
Claro que a minha Senhorinha, as gentis Damas e os garbosos Cavaleiros que me lêem agastados com tanta heresia, se estão neste momento a interrogar: «Que terá toda esta conversa a ver com o que aconteceu ao Carlinhos e à Magrizela?» Mesmo compreendendo a vossa impaciência e sem querer eu, pobre demente, causar mais escândalo do que aquele que para aqui me trouxe e já não foi pouco, é necessário que vos explique o estado de espírito de um tímido jovem que ia só à procura de um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas. E que obteve ele? Uma cadela velha que não jogava coisa nenhuma?
E seria assim mesmo, sempre, que as coisas se passavam lá no Canil?
Enquanto seguia, cabisbaixo, pelas ruas afora, a Magrizela resignada à corda atrás dele, começava a pensar que nada daquilo tinha sido verdade.
- Sonhei - concluiu ele. - Ou então foi uma daquelas pedradas que a Stor Padre falou, que dão estas merdas: a gente fica marado e julga coisas. Aquele deus, Anubis ou lá o que era, não pode existir, foi o que disse a Sónia na catequese. Há um só Deus que governa no Céu e na Terra e que não me deu a bicicleta porque... pronto, não sei porquê, mas o Vinhas havia de merecer mais do que eu...
Ia assim concentrado, entretido no seu processo de denegação, e nem ouviu a Magrizela, lá atrás, a dizer «olha que giro! Sou capaz de andar como tu!» Foi só ao virar da esquina, já perto de casa, que se deparou com os matulões, da Alfredo Arroja de certeza, a barrar o caminho. Pareciam mais embaraçados do que agressivos.
- Que é que tu trazes aí, ó puto? - quase gaguejava um deles.
O Carlinhos tirou vantagem da situação e respondeu, no tom mais agreste que conseguiu:
- É um cão, não se vê?
Mas, ao dizer isto e enquanto um dos parvalhões da Alfredo Arroja se rebolava em gargalhadas alarves, «um cão, fosga-se, ouviste, o puto diz que é um cão», virou-se para apontar a Magrizela e o queixo caiu-lhe até ao peito.
Na ponta do cordão, com a coleira ao pescoço, estava uma chavalita, nuínha como tinha vindo ao mundo, bonitinha e sorridente.
- Tás a ver como eu consigo andar nas patas de trás como tu? - dizia ela.

O que aconteceu a seguir, se me escapar amanhã à noite, vou tentar contá-lo, por muito incrível que pareça. Basta dizer que o Deus-dos-Cães voltou a aparecer, empoleirado em cima de uma velha camioneta à beira do passeio, para as minhas gentis Leitoras terem uma ideia do estranho que tudo aquilo foi, para mais em pleno coração do populoso bairro.
domingo, julho 08, 2007
Diz o quê?
A gente aqui não conhece o Senhor António Balbino Caldeira, do Portugal Profundo. E ele, a nós, ainda menos.quarta-feira, julho 04, 2007
O Cão que jogava xadrez XVII
Anúbis, o Deus-dos-Cães, ou se as minhas gentis Leitoras preferirem, o Deus-Chacal, tinha prometido resolver o problema do Carlinhos e que era, se se lembram, arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas. Mas o Deus-dos-Cães já se erguia, pronto para a batalha.
segunda-feira, julho 02, 2007
O Cão que jogava xadrez XVI
Mas vim. Acabei por vir, após voltas e reviravoltas no estreito catre, mais estreito ainda por ocultar todo o meu tesouro nesta enfermaria de loucos de que faço parte e em que diariamente a minha personalidade se dissolve.
domingo, junho 17, 2007
O Cão que jogava xadrez XV
Vejo agora, minha Gentil Senhorinha, em que trabalhos se meteu o Deus-dos-Cães ao querer explicar o inexplicável.Lembra-se, como se lembram as Belas Damas e os Garbosos Cavaleiros que me escutam, da questão metafísica que o seu Primo Carlinhos lhe colocou e que, em resumo se pode formular assim:
«Se tu és um Deus, daqueles que pode tudo, porque é que a vida não é uma Graça e a temos de pagar com o sofrimento?»
Claro, não foram estas as palavras exactas do Carlinhos que nunca tinha ouvido falar de Auschewitz, nem dos bombardeamentos de Guernica ou de Dresden.
Nem sequer ouvira falar, ou talvez sim, mas distraidamente, ao sabor dos inócuos programas da televisão, daquelas coisas que só se percebem nas entrelinhas: das crianças-soldado, por exemplo, que são drogadas com haxixe para caminharem para a morte enquanto disparam as kalaschsnikov.
Compreende agora, Senhorinha, porque me internaram aqui, neste cemitério para vivos que eles se encarregam de transformar num infantário para mortos?
É por eu ser capaz de ver, mesmo onde não o querem mostrar, o escândalo da dor. A dor do bebé-foca, morto à paulada, como a dor do cão estrangulado com um arame, a dor de uma menina a ser violada por um cidadão deste mundo crápula.
O seu Primo, com os escassos onze anos, não tinha ainda ouvido falar de nada destas coisas. Nem ouvira dizer que as raposas são muitas vezes esfoladas vivas – coisa que ouvi eu e que era a pior das torturas chinesas, ao que consta – só porque a pele fica mais brilhante e rende mais cinco euros e trinta e cinco a peça. Mas tinha visto a Emplumada viva e via-lhe agora o corpito espetado num gancho.
- Pronto, já percebemos, homem de Deus - dizem as Nobres Damas – O que nós queremos é o resto da história.
Eu, porém, sem querer ofender a delicadeza dos vossos sentimentos e, sobretudo, o vosso bom gosto, peço licença para intercalar só mais isto e volto já ao Carlinhos:
Como pode o particular subsumir o universal, é uma questão para os filósofos e gente dessa, que gosta de saber o que diz.
Mas para o Zé Nesgas, lembrai-vos, a prepotência do grandalhão da Alfredo Arroja tinha sido a de todos os grandes do mundo. Só se lhes respondia, decidiu ele nesse instante, de dedo espetado, muito malcriadamente, convenho, mesmo que depois se leve na tromba.
E para o Carlinhos, a Emplumada foi a crueldade indiferente dos homens, quiçá, também dos deuses.
- Irra! - impacientam-se as Damas e Cavaleiros e cheios de razão.
Alonguei-me. Defeito meu que a Minha Senhorinha já conhece e pelo qual, por mais de uma vez, lhe pedi desculpas.
Que disse ele?
Ora, que havia de dizer?
Já estou a ouvir os protestos que não deixarão de ter proferido as minhas gentis leitoras:
- Mas ele explicou ou não? – perguntam-me.
E eu respondo que não me compete a mim, pobre internado num Hospício em Rilhafoles, alterar uma vírgula aos eventos, se é que estes também usam a pontuação dos gramáticos.
- Man, - foi, portanto, exactamente o que disse o auto-denominado Deus-dos-Cães – vinhas cá para arranjar um cão que jogasse xadrez ou não?
O seu Primo, mesmo exaltado, teve de concordar.
- Isso. E que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa.
- Então, pronto, já aí a tens. Põe-te na alheta e não queiras emendar o que já está feito.
- Porquê? – perguntou o Carlinhos.
- Mas eu não sei jogar xadrez. – interrompeu, timidamente, a Magrizela. - E já sou burra demasiado velha para aprender línguas.
- Isso dá-se um jeito. Como é que há-de ser?
- Mas, - insistiu o Carlinhos, olhando lá para cima para o gancho – e ela?
- Ela o quê, pá? Não sabes que a vida é como um comboio, para que uns vão entrando, outros têm de sair? E não chateies, porra. Estou aqui a querer ajudar-te e tu não deslargas!
- Mas eu só quero perceber! – gritou o Carlinhos outra vez exaltado. – Porque é que não me explicas isto tudo?
- Porque também não sei, porra! Julgas que é fácil entender?
Calou-se amuado.
- Este Canil, por exemplo, desde 1878, foi sempre gerido pela Liga dos Indefectíveis dos Animais, tázaver, uns fixes que recolhiam os vadios, aí como a Magrizela, tiravam-lhes as carraças, davam-lhes de comer e tentavam arranjar-lhes uma casa. E pronto. Era isso.
- E eu já desde o advento do cristianismo, século III ou IV, tinha largado tudo: templos incendiados, crentes perseguidos... eu que era o Anubis, o Deus-Chacal, já andava a passear pela Índia, pela África, pelo espaço para todos que ainda havia, homens, cães, feras…
- Chamas-te Anubis, é? – perguntou o seu Primo Carlinhos. – Já vi uma pintura com o teu retrato. Não estás muito parecido, pois não?
- Bico! Perguntaste, não foi? Agora ouves. Onde é que eu ia? Ah! A África. Depois foi o Livingstone, I presume, e o Capelo e Ivens e o Serpa Pinto que não presumiam nada, e as carabinas com balas dum-dum, todas essas porcarias e lá se foram os elefantes, os leões, o resto dos ursos. E fiquei eu com o problema nos braços.
“Como é que eu ia salvar os cães e as raposas, lobos, hienas, chacais e os coiotes, hem? E os mabecos? Sabes o que são os mabecos? E os dingos? Não sabes, ninguém sabe. Matam-nos, pum-pum, e esquecem-se de que são vocês que dão cabo da caça com os químicos e pesticidas. Uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca, também nunca ouviste dizer, pois não? O que é que tu sabes, puto? Não sabes nada, estás para aí a armar-te!
“As raposas foi fácil, à custa de algum sofrimento, claro, como Ápis salvou os toiros para morrerem nas praças…
“Os lobos, os lobos é que são o problema, porque estás a ver, os cães havia sempre alguém que tomava conta de um ou de outro, um de guarda outro de caça, os mais sacrificados eram os de regaço, tázaver! E aqui a Liga dos Indefectíveis fazia o que podia, em Inglaterra, em França havia clubes, uns do Boxer, outros do Setter ou do Bull Terrier… A coisa ia andando, era uma no cravo, outra na ferradura, mas ia andando.
“Até que houve uns gajos que começaram a perguntar para onde é que iam os impostos deles, e que não queriam pagar do seu dinheiro hospícios para os velhos que não tinham um seguro saúde e de coisa e tal… e que gostavam era de peixinhos doirados, porque é que o estado subsidiava este Canil Municipal que só dava despesa?
“E vá de se atirarem aos Indefectíveis. Que não mantinham a higiene, que os cães não estavam em espaços mínimos recomendados pela Comissão Europeia…
“Inventaram tudo, tázatopar, ó mongas?
“Agora passou a ser assim: espaço mínimo exigido, porreiro. Se há mais um cão que seja por hectare, que é que tu pensas que se faz?
“Pois, é isso. Tira-se-lhe o pio. Nhofas, arame ao pescoço e quando já não respira, às vezes antes até, crac, pendurado ali no gancho.
“Sim, porque ninguém é obrigado a pagar pelos cães quando gosta é de gatos, nem pelos gatos quando gosta é de canários. Rentabilidade, tázaver, rentabilidade, auto-sustentabilidade, racionalização de custos, essas coisas todas. Tás a perceber o que eu te estou a dizer?
- Mas tu alguma vez viste alguma coisa, tu? Que é que tu queres da vida, sim, tu, ó mongas?”
- Ele ainda é um puppy! – rosnou a Magrizela, porque o seu Primo, Senhorinha, atónito, se tinha deixado descair para o chão. - Que é que tu tens que estar a chateá-lo?
O Anubis, Chacal ou o que fosse, encolheu os ombros:
domingo, junho 10, 2007
O Cão que jogava xadrez XIV
Sabe, Senhorinha, minha Gentil, que estou em pensar que quem quer que tenha escolhido os letreiros das portas do Canil Municipal, acabou por mostrar um perverso sentido de humor?Aquela por onde passou o cortejo liderado pela Magrizela, tinha uma lustrosa placa de plástico preto com letras amarelas e uma única palavra:
AVERNUS
E os Diabretes que tinham trazido a padiola e penavam agora nos varais da frente, se alguém se tivesse lembrado de lhes perguntar, teriam respondido com o gesto de apontar: o Averno? Bom, era aquilo ali dentro.
- Sim, mas o que é que quer dizer? – teria perguntado o Carlinhos se o suor que lhe escorria para os olhos não lhe turvasse até a curiosidade.
A resposta teria sido, no entanto, muito semelhante à que foi: um dos Diabretes que ia à frente, sem largar o varal que lhe competia, deu um pontapé na porta metálica que se escancarou.
Do outro lado era a visão do horror.
Cães e gatos pendiam de ganchos como se estivessem no talho, separados por tamanhos.
Uma enorme caldeira borbulhava ruidosamente mais além. Umas máquinas de plástico e metal ocupavam-se de incompreensíveis tarefas diante de ecrãs de computador. Lá em cima, as fileiras dos ganchos rangiam e avançavam aos sacões.
E foi horrorizados que o seu Primo Carlinhos, a Magrizela e os restantes cães, viram surgir, de olhos fechados e língua pendente, o corpito frágil da Emplumada.
- Chegámos tarde! – murmurou a Magrizela. – Demasiado tarde!
Um cão grande que os seguira deitou-se no chão a gemer baixinho.
- Mas isto… - gaguejou o seu Primo – isto é o quê?
- Então, - disse o Diabrete mais velho. – É que está escrito na porta: é o Schlachthoffünf. Não, o fünf é outra coisa. Pronto, aqui é a cozinha.
- Cozinha? Qual cozinha? Já estás é fora de prazo – troçou o mais novo. – Uma cozinha com guilhotinas e electrochoques? Aqui é, mas é o matadouro.
- És mesmo um margolim. Não vês que é a mesma coisa? – tornou o mais velho.
- Ai é? Margolim és tu, ó picochoso! – e zás.
Num momento estavam ao pontapé um ao outro.
O Carlinhos estava tão apardalado que nem notava as sacudidelas da padiola.
Quem notou foi o Deus-dos-Cães que, saindo do coma, levantou a cabeça, com as orelhas perigosamente para trás.
- Vocês aí, toca a acabar com a baderna! Já não se pode dormir em paz, não?
Foi demais, Gentil Senhorinha, para o seu Primo.
- Quer dizer… quer dizer que aqui matam os cães? E tu deixas?
- Tu aí, ó bardajola! Porta-te bem ou ainda te transformo em rato.
- Mas tu deixas?
- Claro que deixo. Que é querias que eu fizesse? Sabes quantos cães nascem por dia? Achas que há comida para todos? E casas? Achas?
O Carlinhos atirou com os varais ao chão e o Deus-dos-Cães à mistura.
- Mas tu não dizes que és o Deus dos Cães, tu? – numa fúria, cresceu para o outro que ainda nem se levantara e agarrou-o pela gola do blusão.
- Deslarga-me, ó mongas. Tázóvir?
- Só te largo quando me explicares isto tudo! Como é que tu deixas?
- Vê-se mesmo que não percebes nada de economia, pá. Vá lá, ou me deslargas e eu explico ou transformo-te em rato e vais parar ali ao caldeiro.
- Quero lá saber do caldeiro! Que é isso da economia?
E abanava mais e mais os colarinhos do Deus-dos-Cães, sem ligar à Magrizela aflita que tentava separá-los a bem.
- Deslarga-o lá que ele explica! Tu é que és muito puppy e ainda não sabes quanto custa estar vivo.
- Estar vivo o quê? A vida é um dom de Deus! – gritou o Carlinhos impaciente, como lhe tinham ensinado na Catequese.
O Deus-dos-Cães desatou a rir-se:
- Um dom? Pá, vê se aprendes alguma coisa, ouviste?
E sacudido pelas estrondosas gargalhadas, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara e a ensoparem-se na barba, a estranha divindade perdia as forças, deixava-se cair para o chão, a tal ponto que o seu Primo teve de o largar.
Foi a Magrizela quem, tão suavemente quanto pode, o esclareceu:
- Pois, sabes? Dantes julgava-se era assim. Agora já se percebeu...
- Já se percebeu o quê?
- Que a vida não nos é dada. É alugada, percebes? Tens de pagar a renda, pontualmente. Ou os teus pais por ti. Se não tiveres dinheiro, estás bom ali para o caldeiro, percebes?
- Tu não davas, nem cinquenta latas de almôndegas com molho para cão. – troçou o Deus-dos-Cães, já levantado e a sacudir o pó das mangas do blusão. – Mesmo muito disfarçado, não passavas por cabrito. Se fosses um gato ainda prestavas para alguma coisa. Sempre te podiam vender por lebre!
- Mas porquê? – insistia o Carlinhos. – Tu não és um Deus, daqueles que pode tudo?
O Deus-dos-Cães corou e ficou embatucado.
Como o Huck Finn, fingiu que tinha um osso atravessado na garganta.
Há quanto tempo não tinha de responder a uma pergunta daquelas?
E o que é que podia dizer?
terça-feira, maio 29, 2007
O Cão que jogava xadrez XIII
Se é verdade, Gentil Senhorinha, que os Deuses me protegem, como estou em crer após a sucessão de milagres que me têm acontecido nestes dias, estou em crer também que é mais por causa do seu Primo Carlinhos e da Magrizela. Levantou-se um pouco de esguelha, apoiado a uma rima de jaulas:
quarta-feira, maio 23, 2007
O Cão que jogava xadrez XII
Mal aqui cheguei e a minha Senhorinha pergunta-me, não sem alguma legítima rispidez, por que razões estranhas não tenho dito nada acerca do seu Primo Carlinhos. Aceito a sua censura, minha Gentil interlocutora, como de si aceito tudo, menos, como sabe, que me pague o café e os cigarros quando me vem visitar e o bom tempo nos permite sentar ali a uma das mesas que o Sr. Jerónimo tem a fingir de esplanada.Claro que não é segredo. Sempre que a enfermeira me diz com aquele ar de quem julga que está a fazer troça «a tua Menina vem para a semana» e acrescenta «agora não vás para a rua pedir esmola, ouviste?», é claro que é isso mesmo o que eu vou fazer.
Passeio acima, passeio abaixo, com o uniforme de presidiário que nos dão aqui no asilo e a pulseira electrónica bem à vista no pulso esquerdo, há sempre quem se condoa de nós e nos dê uma moedita de vinte centavos, raramente de mais, mas ao fim de dois ou três dias já tenho os cinco ou seis eurozitos que são precisos.
Nunca tínhamos falado nisto, bem sei, e nunca o faríamos se não soubesse eu perfeitamente que as enfermeiras, com o seu arzinho maternal, têm um prazer sádico em contar tudo o que é suposto humilhar os pacientes.
Mesmo assim, só menciono este facto porque, como sabe, a lanterna à luz da qual trabalho durante a noite na secretaria ficou sem pilhas.
E de que me havia eu de lembrar?
Há uma loja chinesa ao fundo da calçada, daquelas que é um mundo inteiro de roupinhas pindéricas, brinquedos monstruosos que dão pesadelos às crianças – e a mim – plásticos garridos, detergentes, vassouras e ferramentas de todos os tipos. Teriam pilhas também?
Portando-me bem no refeitório e fingindo que estou a ver atentamente a telenovela, lá acham que eu estou «compensado» e têm-me deixado sair às tardes.
Hoje, já com dez euros e tal, lá entrei na loja e dirigi-me à chinesinha velhinha que estava atrás do balcão, mostrei-lhe a lanterna e perguntei se tinha pilhas.
Pacientemente, a senhora abriu um grosso dicionário, folheou para trás e para diante e perguntou, com voz doce e um sorriso cortês:
- Pila ou pilia?
- Pilha. Pi-lha!- repeti eu.
- Ah! Sim, sim, pilia. - seguiu com o dedinho fino as linhas do dicionário, parou e voltou atrás: -Pilia de empiliar ou pilia de piliar?
Abanei a cabeça, perplexo.
- Desculpe… Não estou a perceber…
Mais dicionário para trás, mais para a frente:
- Hunos piliar Roma ou carregador empiliar pilia de caixote?
- Não, não, desculpe. Não é nada disso. – e já a falar como ela: - Pilia de electricidade. Aqui, oh! Luz? Entende?
- Ah? – procurou de novo e o rosto iluminou-se-lhe: - Lâmpada! Vem, sim?
E partiu à minha frente, passinhos curtos, ao longo dos corredores até à secção das electricidades, à estante onde as lâmpadas opalescentes e de baixo consumo se empilhavam (empiliavam, creio) à mistura com fichas triplas, extensões e muitas mais coisas que não menciono para não enfastiar mais a minha Gentil Senhorinha nem as Respeitáveis Damas e os Cavaleiros que me lêem.
Imagino que estão, neste momento, a ver a minha desilusão: dias e dias para cima e para baixo no passeio, os olhares desdenhosos dos outros pacientes e dos médicos que entram e saem da consulta externa, e tudo para nada.
A senhora Chinesa, com o seu ar doce, aguardava que eu me decidisse e eu não sabia como explicar-lhe que, não, não era nada disso, quando... só posso chamar-lhe assim: o milagre voltou a acontecer. A velhinha inclinou-se para arrumar umas caixinhas com parafusos que estavam fora do lugar e destapou acidentalmente – mas haverá acidentes neste estranho universo? – um estranho engenhoco, pesadote e com um pedal.
Tinha encontrado, se não pilhas novas, ao menos um carregador de baterias por, o preço estava lá bem marcado, nove euros e noventa.
- Carregador de bateria? – perguntou a senhora abismada quando eu, saltitando de felicidade, lhe mostrava a minha escolha: - Não, não, não vende carregador de bateria. Carregador de todas coisas é meu neto, não pode vender …
Mas eu mostrei-lhe o objecto pretendido com muitos «aqui, aqui, carregador isto!» e ela, com o sorriso de novo iluminado, condescendeu em aceitar a nota de dez euros:
- Desculpa. Eu não percebida. Português difícil. Língua muito polissémica, sabe?
E ficámos mais um bocado a trocar ideias: não achava ela o inglês ainda mais polissémico do que as línguas latinas? Não achava eu que o chinês resolvia acertadamente a polissemia recorrendo aos diferentes tons e semitons?
Separámo-nos cordialmente, como velhos confrades.
E, Gentil Senhorinha, como vê pelo facto de estar aqui a falar consigo através da Internet, o carregador, mesmo sem ser neto da velha Senhora, carrega as pilhas perfeitamente.
Só tenho um problema que ainda não consegui resolver: como é que o vou esconder debaixo do colchão durante dias e dias, sem que ninguém note os altos que há-de fazer.

Mas, sejamos optimistas, talvez um novo milagre aconteça e a tempo de a odisseia do Seu Primo Carlinhos e da Magrizela serem contadas. E, quem sabe, até, se um dia destes não aparecerá o Zé Nesgas a dar umas ajudas para que tudo termine em bem?
quarta-feira, maio 09, 2007
O Cão que jogava xadrez XI
Para que serve uma tábua, mesmo com pregos, pergunto eu, ainda por cima ferrugentos? Contra um Gigante, daqueles mesmo grandes, que podem com um Deus debaixo do braço?
Quão pouco, Gentil Senhorinha, tem este seu chevalier servant para tirar o Carlinhos da sua perigosa situação!
É certo que mesmo atrás do seu Primo ia aos gritos o Diabrete:
- Ó balofo! Toma lá isto, pá! Tázóvir, ó coiso?
Mas, como o Carlinhos não parava, o Diabrete continuou a correr, aos gritos, e estou em crer que a massa de que se fazem os heróis é mesmo assim, um galope perdido, ninguém a ouvir ninguém, e o que tiver de acontecer, olha, aconteceu!
E digo-lhe, Senhorinha, e às benévolas Leitoras também, aos nobres Cavaleiros se se dignarem a escutar-me estes instantes: quando o Calinhos desembocou lá ao fundo, já o Gigante apanhado a Magrizela pelo cachaço.
Não havia lugar a hesitações e não hesitou. Trás! Foi direito à perna mais próxima e descarregou a paulada como pôde, um pouco acima do joelho, que mais alto não chegava.
Talvez tivesse sido um prego da tábua que se lhe cravou em sítio crítico, ou tão só a surpresa, quem sabe?
O gigantesco Guarda-Mor soltou um uivo disforme e tentou fazer tudo ao mesmo tempo. Dar dois saltos, tentar tirar a tábua ao Carlinhos com a mão que segurava a Magrizela e sem largar, do outro lado, o Deus-dos-Cães, era obra!
Quis meter a cadelita no bolso mas, como ela esperneava e tinha os poucos dentes que lhe restavam ferrados na manga do seu captor, o bolso rasgou-se.
Tentou dar um pontapé no Carlinhos e acertou com toda a força numa pilha de jaulas que desabou fragorosa por entre ganidos de susto, de dor dos canitos que caíram mais de cima e se aleijaram.
Foi nessa altura que o Diabrete que, se a Minha Senhorinha se recorda ainda, vinha a correr atrás do seu Primo, se decidiu a lançar a sua arma terrífica: os Atakadores.
Os sapatos das Gentis leitoras, regra geral não têm necessidade desse artifício, mas não há nenhuma que não conheça os efeitos deletérios desses seres abomináveis, parecidos com finíssimas enguias e, como elas, difíceis de agarrar.
Os Atakadores, dizem os cientistas, vivem obcecados pelas ilhós. Uma só não lhes chega para perpetuarem os seu genes, no mínimo querem sempre um par, o ideal são quatro ou cinco pares. Satisfeita, porém, a sua concupiscência, logo desatam à procura de novas ilhós, desfazem os laços, rojam-se pelo chão a cheirar os rastos e, mal encontram um rival atacam-no ferozmente, emaranham-se nele e, não raro acabam os dois por morrer, cortados ao meio pelos puxões um do outro.
Era essa a arma secreta do Diabrete.
Aproveitando o momento em que o Guarda-Mor desferia um segundo pontapé na direcção do Carlinhos – que já ia longe, a gritar «nha-nha-nhããã» – o Diabrete abriu o saquinho: os Atakadores precipitaram-se serpenteantes, instantaneamente apaixonados, para os sapatos do inimigo.
A Gentil Senhorinha perdoará a minha falta de talento se eu não conseguir mostrar em toda a sua extensão o efeito catastrófico de um ataque de atakadores no meio de um Canil Municipal, SA, onde todos os cães ladram, gatos, mais ao longe, miam desesperados, até um papagaio egresso de um destino culinário e a viver escondido lá por cima no telhado, gritava «Valha-me Deus, valha-me Deus!» num entusiasmo incontido.
O que aconteceu foi que os Atakadores descobriram as ilhós já ocupadas e não acharam graça nenhuma: engalfinharam-se numa luta de vida e de morte, e quando quis dar o passo seguinte na corrida para apanhar o Carlinhos, o gigantesco Guarda estatelou-se, a Magrizela voou pelos ares com um pedaço de manga nos dentes e só parou em cima do pobre Diabrete que berrava por socorro.
E o Deus-dos-Cães, esse achou maneira de se torcer na queda e aterrar na barriga do Gigante onde ressaltou a pés juntos como se fosse uma bola de ténis ou um acrobata em saltos de mesa alemã. Voou graciosamente num passo artístico, falhou por mais de um metro o passadiço e as Gentis Leitoras e os respeitáveis Cavaleiros nem imaginam o estrondo quando bateu com a cabeça numa viga de ferro mais lá em cima.
Ficarieis admirados se vos dissesse, Gentis Meninas e Minhas Senhoras, que e viga oscilou, que alguns tijolos na parede abriram fendas e que o Deus-dos-Cães tombou como uma pedra no meio de um dos corredores, ressaltou no chão de cimento, alguma coisa fez crrrrac como se se tivesse partido e ficou completamente imóvel.
Quer dizer, imóvel até ao momento em que a Magrizela, ainda muito combalida do trambolhão, veio a coxear dar-lhe uma lambidela no nariz que é o que se faz aos cachorrinhos constipados. Só nessa altura, quando o Deus-dos-Cães espirrou e disse «tira-te daqui, ó parvalhona!» a Magrizela que era mais para o agnóstica, acreditou que ele era de facto um Deus: só podia ser, com uma cabeça dura daquelas!
E o que aconteceu depois também foi interessante, mas a lanterna está a ficar sem pilhas e só dá uma luzinha de nada, por isso terão de me perdoar se tiver de deixar a continuação para amanhã. Para amanhã, claro, se o chinês ao fundo da rua tiver pilhas e se eu conseguir uns eurozitos que dêem para as comprar e, já agora, para um macito de cigarros, que a vida não pode ser assim tão virtuosa sem se tornar numa chatice.
sexta-feira, maio 04, 2007
O Cão que jogava xadrez X

Dizer que aquele Guarda era só um Guarda, pode parecer desdenhoso, como se ele fosse um simples guarda-portão, ou um GNR, ou coisa assim.
Como vê, Senhorinha, hoje decidi não perder tempo, atravessei corredores silenciosos iluminados pela nova lanterna, e aqui estou a responder aos apelos do seu primo Carlinhos que estava farto de estar parado nesta história. Mais impaciente ainda, estava a Magrizela:
- Então, esta treta não anda nem desanda? – perguntava ela. – Julgam que eu ainda tenho idade para engonhices? Pede lá à tua prima, fonix, não tens uma prima?
De modo que, Senhorinha, tendo-a a si como advogada, como poderia eu deixar de atender o apelo do Carlinhos, mais do que justo ainda por cima?
Hesito, no entanto: como resolver com uma boa intriga a situação em que se meteram o seu Primo (o Carlinhos, como já toda a gente sabe e que andava na sua demanda de um cão que jogasse… ah, já disse? Bom: ) e a Magrizela, toda ossos já artríticos, pelo cor-de-burro-quando-foge já a embranquecer, e um focinho bem-humorado quando não rosnava de impaciência, como me deve estar a fazer a mim neste momento.
O caso, se a minha Senhorinha e as Gentis Leitoras, depois disto tudo, ainda recordam é que, na sua correria para salvar a Emplumada, a Magrizela, seguida pelo aflito Carlinhos, se foi precipitar, por assim dizer, nos braços do Gigante que era o Guarda (mas Guarda-Mor, ou talvez o Presidente Director Geral da Guarda ou assim) e que trazia o Deus-dos-Cães debaixo do braço.
A primeira reacção da Magrizela foi ladrar:
- Tu, ó obeso! Larga já aí o Nosso Deus, tázóvir?
Coragem ou loucura, quem não esperou para saber foi o Carlinhos que meteu travões às quatro rodas e inverteu a marcha enquanto uma gargalhada ribombava pelos corredores, pior e mais sonora do que quando o Zé Nesgas tinha um ataque de tosse na aula de Educação Cívica sem conseguir falar.
Era o Priscas, ao lado, quem dizia: «ó Stora, o Nesgas tá aflito, eu vou lá fora com ele».
E logo o Tavares, «perá-í, qu’eu é que sei aquela coisa da respiração artificial» e outro «é preciso é os zérossóiszes, é melhor eu ir também» e todos tinham uma coisa para ajudar e iam saindo e a professora ficava com ar de choro a ouvir a tosse do Zé Nesgas no corredor.
O Carlinhos, às vezes até tinha pena dela, mas como não era maricas nenhum, ia também «Stora, se calhar a gente vai é ao hospital, eu vou lá dizer…»
Mas a tosse do Zé Nesgas que era meio a sério, não metia nem a metade do medo que metia gargalhada do Gigante a ouvir a Magrizela que lhe rosnava cá de baixo, rentinha ao chão.
Mas não foi, Senhorinha, a valentia da Magrizela o que fez parar o Carlinhos: tinha chegado ao fim dum corredor e lá do lado esquerdo, onde uma pilha de caixotes escondiam a continuação, a voz sumida do Diabrete chamava por ele.
- Por aqui ó beldroegas! – o nariz preto e os olhos desmesuradamente abertos espreitavam por trás de umas tábuas. - Esconde-te, pá!
O Carlinhos parou para respirar fundo e a voz saiu-lhe rouca:
- Man, e a minha dona? Qu’é qu’eu faço?
- Pá, a gaja desengoma-se! E depois, já é velha, pá. Esconde-te.
O Carlinhos ainda hesitou, mas lembrou-se, isso é que foi, daquela vez em que o gajo da Secundária Alfredo Arroja o tinha agarrado pelo capuz do anoraque e «chavalo, manda aí os trocos»!
O Tó Pires tinha desatado logo a correr rua abaixo.
E o Zé Nesgas lá do palmo e a terça de altura pusera-se a crescer para o grande:
- Trocos o quê, ó mongas? Julgas qu’és o maior, julgas? Trocos é, mas é isto!
E, de lá de baixo, espetou bem em evidência um dedo malcriadíssimo de que, Senhorinha, nem ouso sequer insinuar o significado.
Claro, levaram os dois na tromba e ficaram sem os trocos à mesma. Mas foi baratinho para ficarem assim amigos e depois deu à vontade para mês e meio de gabarolice lá na Escola.
E agora era ele quem ia, por assim dizer, a fugir rua abaixo como o Tó Pires e a abandonar a Magrizela?
Não, poças!
À falta de outra coisa, deitou a mão a uma tábua ainda com pregos e correu rua acima:
- Dá-lhe com força! – gritavam os cães lá das jaulas. – Arreia-lhe…
Também o Diabrete aterrorizado vinha a correr atrás dele:
- Ele vai-te matar! Toma lá isto… Ó parvalhão, ao menos toma lá isto!
O que tinha o Diabrete para dar ao seu Primo Carlinhos e que serventia pode ter uma tábua contra um Gigante, a minha Gentil Senhorinha, só vai poder saber na próxima vez. A aurora, para mal dos meus pecados, já começou a tingir de púrpura os vidros foscos das janelas e não tarda nada é a hora da ronda e dos remédios.
E eu tenho de fingir que ainda estou mergulhado num sono profundo.
Não vai ser difícil. Já há dias que passo as noites em branco.




