terça-feira, setembro 11, 2007

O Cão que jogava xadrez XIX

Há quanto tempo, Senhorinha, aqui não venho!
Quantos e quantos dias passaram sem que eu me pudesse escapar até à secretaria, o seu Primo Carlinhos e a Magrizela a contas com os crescidos da Alfredo Arroja e eu lá em baixo, numa caverna escura, ausente até de mim, atado à inapelável opinião dos doutores.
Tudo começou com uma simplicidade tão grande e tão simples, num dia gorduroso como tantos outros, com um céu baixo de trovoada, e a enfermeira Rosa, com a sua túnica branca engomada, sem uma mancha, sem uma prega!
Que diferença!
Ela imaculada, cheirando a alfazema, num passo decidido, as sapatilhas com um levíssimo "ssss" a descolar do chão de ladrilho e os copinhos com as nossas drageias a tilintarem no tabuleirinho.
Nós sebosos, suados das noites sem refrigério, barbas por fazer, cabelos empastados, com a consciência dos nossos corpos, machos e imundos, e a enfermeira Rosa, grácil, clestial e perfumada, carinhosa e doce.
- Então - ronronava ela de cama em cama - dormimos bem hoje?
E bajuladores uns, taciturnos outros, lá fomos respondendo, consoante a noite melhor ou pior dormida.
E eu, como a minha Senhorinha talvez já não recorde, andava a dormir muito pouco porque vinha para aqui, no escuro da noite, com a lanterna e o carregador de pilhas o qual, como recorda, não era o neto da idosa senhora da Loja dos Trezentos.
Ao menos através deste teclado, dizia-me eu a mim mesmo, podia estar todos os dias, nem que fosse muito pouco, com a minha gentil Senhorinha.
E nessa fatídica manhã, quando a celestial enfermeira Rosinha se aproximou da minha tarimba, eu, mal acordado, quis levantar-me para tomar os remédios e zás!
O carregador de pilhas que pesava que nem chumbo e eu, no meu cansaço, não disfarçara suficientemente bem, caiu direitinho no pé da enfermeira.
Ainda se fosse uma patorra calçada de Doc Martens! Mas qual! Era um pezinho mimoso, dentro de um sapatinho higiénico de lona branca. O carregador, que era de ferro fundido, com um espigão, uma roda e um pedal, parece que lhe acertou de quina, em cheio no dedo médio do pé direito. O tabuleirinho voou com uma espécie de arco-íris de comprimidos coloridos e ela gritou. Mas gritou mesmo.
Foi um berro rasgado, sem nada da suavidade vaporosa da enfermeira Rosa; pareceu-se mais com o barrido de uma Mãe elefante a quem acabam de roubar o bebé de três toneladas.
E se estes tectos abobadados fazem eco!
A minha Senhorinha e as nobres Damas que eventualmente ainda por aqui passem, adivinham facilmente o que se passou e depois.
Os seguranças apareceram a correr, só depois o Chefe dos Enfermeiros e os Doutores. E toda a gente falava ao mesmo tempo, só nós, os doentes, nem piávamos, paralíticos de medo.
Apenas quando um segurança deitou a mão ao carregador de baterias e eu, delicadamente lhe disse que, com o perdão da minha Senhorinha, nenhum filho de uma hetaíra ia tocar nas minhas coisas e que eu tinha direitos constitucionais e que me queria queixar ao Provedor... Bom! Foi demais para eles.
Saltaram-me em cima como os macacos indianos sobem para o tejadilho dos combóios nas suas migrações anuais. Pareciam um cacho, pendurados uns no meu braço direito, outros na perna esquerda, até que senti no, digamos, glúteo uma picada e gritei:
- Acudam que estão a drogar-me.
Se já viram um rebanho de ovelhas paradas a olhar para o cão que lhes ladra do outro lado da cerca, sabem as nobres Damas e os valorosos Cavalheiros como me olharam os meus irmãos de camarata e de infortúnio.
Em breve me senti paralizado, atirado para o catre e amarrado com as correias de segurança. Não sei o que aconteceu depois.
É uma sensação aterrorizante.
Mil vezes desejei que me tivessem posto uma daquelas camisas de forças, a minha Senhorinha não sabe como é: uma coisa de lona, cheia de correias que nos atam os braços como se estivéssemos a abraçar-nos a nós próprios sem nos deixar livres senão as pernas...
As drogas, essas a mim, pelo menos, deixam-me o espírito livre para querer, para odiar, para a cólera. Mas o corpo, esse não nos obedece. Com um esforço inaudito, o gesto esboça-se, a mão ergue-se para logo tombar exausta, sem querer próprio.
Dizemos: penso, logo existo! Eu sou eu! Mas não é um grande consolo.
Penso, logo existo! Não creio nos meus algozes! Não. Não é um grande consolo para quem, manietado, vê partir a sua lanterna, o carregador de pilhas, todos os pequeninos tesouros que lhe davam acesso à sua Senhorinha. A própria vida.
Se vida se lhe pode chamar.
Mas, se não for isto a vida, que outra coisa poderá ser?
Agora, porém, que todos com sorrisos rasgados me acham muito melhor, a caminho da verdadeira cura desde que não deixe de tomar os comprimidos, vou ter vagares, liberdades, carinhos, favores, tudo.
Sorrio pasmado para todas as coisas, carreiros de formigas, sapos no tanque, figuras de relevo na televisão, baratas nos corredores à noite, osgas a passear pela parede atrás das buganvílias. Como é bom o mundo quando os Doutores e a enfermeira Rosinha tomam conta de nós.


terça-feira, agosto 28, 2007

Concha y Toro, 1981

Confesso aqui a minha mais profunda admiração pelos arqueólogos e sobretudo, pelos técnicos do laboratório que, a partir dos caquinhos quase invisíveis, conseguem reconstituir um vasinho romano completo ou o crânio de um Neandertal. É que eu nem um simples papel molhado consigo.

Mas convém explicar.

Antigamente os rótulos das garrafas descolavam-se facilmente. Punha-se a garrafa dentro de água e passada uma horinha iam-se encontrar flutuando descansadamente, os retângulos impressos e a garrafa, já despida dos seus pergaminhos, podia-se vender ao trapeiro que vinha gritar:

- Há jornai-zó-garrafach... queira-vender!

Ontem, porque queria aqui mostrar uma garrafa em especial e, como não me imaginava a passá-la pelo scanner (e afinal, teve de ser) experimentei descolar o rótulo. Bom, descobri que, se a cola não era solúvel na água, o papel do rótulo, esse era. Os pedacinhos mais minúsculos separavam-se, cheios de boa vontade, da cola subjacente, abandonando os seus irmãos sem quaisquer remorsos.

Tudo o que se aproveitou, paciente e desajeitadamente colado, foi a gravata vermelha e o colarinho.

A garrafa, claro, tinha história.

Um amigo, lá pelos anos oitenta e poucos, numa de «eu estou cá para ver tudo», viajou até à América do Sul e dessas turísticas andanças trouxe-me, generosa lembrança, uma garrafa de vinho tinto chileno, Concha y Toro, Casillero del Diablo de 81.

De esquerda como somos ambos desde que nos entendemos tant bien que mal neste mundo, logo ali combinámos que eu guardaria preciosamente o precioso líquido para o bebermos quando o Pinochas - vulgo, o ditador Augusto Pinochet, é escusado dizer - fosse derrubado com o estrondo devido e labéu de malfeitor.

O mal é que os anos foram passando. O torcionário, obrigado pelos amaricanos que não aguentavam já tanta má-consciência, deixou-se afastar com garantias de impunidades e de contas bancárias bem recheadas.

Não foi derrubado, como o muro de Berlim, não caiu com estrondo; deu um passo ao lado e recolheu-se a uma privacidade vigilante. Não achámos que houvesse motivos para celebrações. A garrafa do Casillero del Diablo lá ficou pacientemente, deitadinha em repouso. Mudou de casa, ao sabor de divórcios e separações, duas vezes.

Os ex-ditadores não confiam nos médicos dos seus países, et pour cause. Sabe-se lá quando é que, num hospital ou numa clínica, o enfermeiro de serviço ou a chefe da equipe médica, têm um pai ou uma mãe, torturados e mortos, para vingar!

O general Pinochas, sentindo-se envelhecer e já com alguma maleita, resolveu ir para Inglaterra tratar-se. A impunidade precedia-o na Loira Albion e tudo se teria passado pelo melhor se, entre os torturados, mortos e desaparecidos não houvesse uns quantos cidadãos espanhóis, pretexto suficiente para que a justiça de Espanha pedisse a sua extradição.

Rejubilámos e pensámos: «G'anda Baltazar, desta vez é que é!»

Eu fui espreitar a garrafa. O vinho mantinha a cor e o aspecto límpido, não parecia ter pé. Agendámos as comemorações.

Hélas! O Governo de Sua Majestade a Raínha Isabel II, por motivos humanitários, imagine-se, não concedeu a extradição e deixou-o voltar para casa à conta de que, pobre velhinho, já tão doentinho, agora já não seria justiça, apenas vingança!

Devíamos ter bebido o vinho nessa altura. Não se deve querer mais do que este baixo mundo tem para dar. O velho tinha sido tratado como devia, como um criminoso. Safara-se graças a um pretexto reles. Devíamos estar contentes, mas não estávamos. Lembravamo-nos de um Presidente, morto no exercício das suas funções. Tinhamos lido o livro da Isabel Allende, De amor e de sombra, os relatórios da Amnistia Internacional.

Mesmo reduzido a criminoso perseguido pela justiça, queríamos só mais um pouco: que fosse mesmo julgado. Que reconhecesse em tribunal umas culpazitas e que, em seu nome, um advogado pedisse misericórdia ao povo chileno na figura do seu Tribunal. A pena que lhe fosse aplicada nem era importante: para um velho como ele seria sempre simbólica. Mas nós, que ainda sonhamos com a Justiça, com maiúscula, acharíamos bem. Um euro de indemnização aos familiares dos desaparecidos, uns anos de prisão domiciliária... tanto fazia.

E a garrafa do tinto chileno continuou, imperturbável na sua pose de Grande Senhora, à espera do dia adequado.

Mas a esperança renascia. O Pinochas, no seu próprio país, com a imunidade levantada ou coisa assim, era acusado, ia ser réu de coisas passadas durante a ditadura.

Agora é que vai ser, pensámos nós.

Qual o quê. Paulatinamente, confortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja, o estafermo passou-se. Que terá ele dito ao seu confessor antes de receber a extrema-unção? Já não importa. Escapou, o crime compensa, pelo menos se for apoiado pelos camonas.

Há dias, sem grande entusiasmo, abrimos a celebrativa garrafa de Concha y Toro, tinto de 1981. Como o Pinochas, também ela tinha morrido: deu para provar, fazer uma saúde silenciosa, mas pusemo-la de parte. Esperara demasiado.

- Filho d'uma vaca d'um... - comentou o meu amigo poisando o copo. - Nem a porcaria de um vinho nos deixou beber!


segunda-feira, agosto 27, 2007

Que farei com este bloco?

Grande Concurso de Blocos Castelo


Um bloco Castelo serve para escrever, para tomar apontamentos. Mas, em horas de tédio, de neura ou de simples vagabundagem das meninges, também pode servir para miudinhas fantasias de batalhas. Pega-se num lápis e acrescentam-se muralhas, torres, telhados, janelas. E com uma caneta de bico fino pranta-se-lhe dentro habitantes armados de lança ou espada em grande grita e correria. Do lado de fora as catapultas, os cavaleiros, engenhos de guerra e muitos, muitos bonequinhos.

O Guiness certamente reconhecerá mais este recorde nacional, só comparável aos vinte e não sei quantos indígenas dentro de um Mini ou os dezoito (ou coisa assim) dentro de uma cabine telefónica. Isto, claro, quando as havia e não eram simples campânulas partidas com os fios arrancados.

Na imagem abaixo há, segundo as contagens, 35, 36 ou 37 cavaleiros. E os peões, são 86 os atacantes e 24 a 27 os defensores. Solicita-se um júri independente para a contagem definitiva.

E o concurso está aberto

Claro que há mais opções.
Por exemplo, substituir os cavalos por tanques de guerra, encher os ares de helicópteros pairantes, arruinar o castelo e mostrar os seus habitantes já esventrados - o que será um notável feito no campo da miniaturização. Ou então esconder o castelo dentro de um campo de forças que o protege dos raios e coriscos das naves de Altair 65.

O desafio está lançado.

Portugueses e Portuguesas: o Guiness dos Blocos Castelo tem de ser nosso.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Should any acquaintance be forgotten

Auto da Visitação

Acto único
cena única

Em cena está a Gi. Entram o Carlinhos, o Zé Nesgas, a Cusca e vários figurantes.

Cusca - É agora é que a gente canta?

Zé Nesgas - Pst! Quem é que manda aqui? Primeiro é o discurso. Vá lá, ó mongas. Tá'záspera de quê?

Carlinhos (lendo) -Hum-hhhum! S'Dona Gi, a gente veio cá, é só p'ra dizer que é assim mesmo, a gente acha que sim senhora!

A S'Dona Gi tem direito a Contradizer-se e a Ir-se embora, que são aqueles direitos que não vêm na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Parece que foi o Camus quem disse e era um g'anda maluco que escreveu sobre a peste. A gente acha que a sida é que dava jeito, mas ele, sobre as outras doenças, não disse mais nada.

E também podia era ter escrito sobre outra coisa que falta lá nos direitos do Homem e que é o Direito à Preguiça e isso é que era bué da fixe, a ver se os profes não passavam tantos têpêcês. Mas o pai alí do Zé diz que essa coisa dos Direitos do Homem é só para armar em gente fina é outra nice, porque quem não tem papel não tem vícios, é o que ele diz, e os Direitos do Homem é como os cigarros, já não se fuma nos escritórios, nem nas fábricas. Lá na Escola é que se fuma, mas é só os alunos, lá ao fundo, ao pé do Ginásio. As auxiliares são velhas e não podem correr atrás da maralha. Por isso só os Stores é que não fumam, tá a ver?

A gente acha que os Direitos do Homem é a mesma coisa, é uma g'anda treta. A S´Dona Gi não é homem, por exemplo, a Magrizela também não e é assim, o mundo tem pais e mães e pronto. E então, é como? Não têm Direitos? Não podia ir-se embora e tudo isso?

A gente acha é que sim e prontos.

Só ali a Cusca é que diz que havia lá no Bairro dela uma senhora que era amiga dos cães e gatos vadios e ia lá todos os dias dar-lhes um tacho de arroz e ossos e coisas dessas. E um dia, coitada, teve de ir para o hospital, que já era bué da velhinha e, pronto, nunca mais apareceu. A malta, tá-se a ver, teve de ir à vida para outro lado. Mas a Cusca diz que há um cão que ainda vai todos os dias à porta da velhinha, a chamá-la assim com as unhas na porta.

E é o que a gente tinha p'ra dizer. Acho que não havia mais nada, pois não? Mas, olhe, se a S'Dona Gi ouvir arranhar na porta, não ligue, não precisa de abrir. É só algum cão vadio com saudades, assim com'a gente.

Zé Nesgas - A gora é que é a cantiga.

Todos - She is a jolly good fellow, /She is a jolly good fellow, /She is a jolly good fellow, /and so say all of us...

Cai o pano




terça-feira, agosto 07, 2007

Mariazinha em África

Fernanda de Castro, Mariazinha em Africa, seguido de Novas Aventuras de Mariazinha, Círculo de Leitores, 2007

Nunca tinha lido nenhuma das Mariazinhas, mas, lá por casa, contavam-se episódios, sobretudo os do cozinheiro Vicente, guineense que, no fim do livro, obtém licença para acompanhar a família de volta a Portugal.
A cena que melhor recordava, de todas as que me terão sido contadas, fui achá-la na sequela já europeia das aventuras da Mariazinha:
A Mãe - referida sempre como «a mãe» - resolveu ir a Lisboa às compras e levar a Mariazinha e o Vicente, 'este último', explica a autora, 'para as ajudar a carregar com os embrulhos.'
Mas quando voltam para casa - moravam numa quinta na outra banda e nos anos vinte do século passado não havia ainda ponte sobre o Tejo - não trazem o Vicente.
'- Fizemos bastantes compras', explica a «mãe», 'e como já estávamos muito carregadas, entreguei os embrulhos ao Vicente e disse-lhe que esperasse no elevador de Santa Justa. Não sei o que aconteceu, mas esperámos quase duas horas e a respeito de Vicente, nada!'
Mais duas horas se passam e o Vicente lá aparece, 'extenuado, com os embrulhos feitos num figo, descalso, de botas na mão, nem quase podia falar!'
O que tinha acontecido? O Vicente esperou no elevador, como lhe tinham ordenado, e ninguém o veio buscar:
'Inlivador pra baixo, inlivador pra cima, mim dentro inlivador, branco ladrão tirar dois tostões pra baixo, dois tostões pra cima, mim gastar tostão todo, mim ter fome, mim doer pé, mim ser coitado, mim querer ir Guiné!' (Novas aventuras, pags. 173 e 181)
Mas o que mais me espanta nestas historinhas para crianças é a ingénua tranquilidade com que se narra o impensável:
Devido, provavelmente a um aterro feito 'por detrás da Alfândega' uma epidemia misteriosa assola Bolama, então o principal porto e a capital da Guiné. Ataca de preferência os brancos, que inconveniência, o que não impede 'Mamadi, o pretinho Mamadi,' de estar quinze dias 'entre a vida e a morte'.
'- É um pavor! - dissera o médico. - Só chega um barco por mês e não há recursos, não há enfermarias, não há camas bastantes! E o pior... - acrescentara - o pior, meu caro amigo, é que o quinino está a acabar!
(...) 'O pai de Mariazinha, que era um homem previdente, logo que começaram a aparecer os primeiros casos do estranho mal, telegrafou imediatamente para Lisboa a fim de marcar lugares no primeiro barco que passasse por Bolama com rumo a Portugal. E, como já tinha direito a licença, fácilmente conseguiu autorização do ministério para acompanhar a mulher e os filhos.' (Mariazinha, pags. 90 e 91)
E Fernanda de Castro dedica as restantes páginas do capítulo a descrever a debandada dos valorosos colonos, na esteira das Autoridades como o Pai da Mariazinha que era o comandante do porto, ou o Governador, que se apressa a mandar também a filha embora.
Não creio que seja preciso dizer muito mais.
Só que me foi muito simpático encontrar estas historinhas que fizeram, em tempos muito idos, os encantos da ainda menina, senhora minha Mãe.

sábado, agosto 04, 2007

Tolices e amarguras

Arrumar livros é um dos maiores prazeres que Deus Nosso Senhor inventou.
Abre-se uma mala, daquelas de madeira, com os cantos reforçados a lata e ripas ao comprimento, e fica-se sentado no chão, a reler os livros da nossa infância; perdemo-nos nas velhas colecções Branca da Clássica Editora, ou na "Civilização" (séries Amarela ou Azul) das nossas avós. Descobrimos autores com que nem sonhávamos.
Por exemplo, Octávio Sérgio, que escreveu este livro e lhe desenhou a capa:


E lê-se:

"...Depois as nossas bocas colavam-se num grande beijo, e eu, nervos lassos, adormecia no aconchêgo deliciosamente môrno dos braços da minha amante, de bem com Deus e com os homens (...)!

Decorriam venturosos êsses dias de Setembro de 1928, que agora, volvidos dois lustros, vou rememorando na amargura da saüdade.

A tolice expia-se confessando-a e relembrando-a, dizia Camilo, que entendia de tolices e amarguras. Eu, sempre que posso, trago estas recordações a molde, porque sinto depois a consciência mais leveira.

A Santa Madre Igreja, instituindo a confissão, sabia bem que de um malandrim raro se faz um santo, mas entendeu que o pecador, emquanto se alivia, não comete outro pecado além do gôzo que sente em relembrar os que já lá vão.
Nisto não diferem os novelistas dos católicos praticantes.
Eu trago, sempre que posso, estas recordações à balha, porque assim torno a viver um pouco. Nenhuma espécie de arrependimento me move à confissão. Peco quando recordo, porque sinto ainda na epiderme o contacto môrno dos lábios de Milu.
Os pecados lembram muito mais do que as virtudes. Por isso é que a Igreja manda confessar os pecados e não as virtudes."
Octávio Sérgio, A Quimera, pags. 77 e 78, 1938

quarta-feira, agosto 01, 2007

África, Mariazinha em

Cristina Malhão-Pereira, Venturas e aventuras em África, Porto, Civilização Editora, 2007

Não sei, mas, em calhando, a Fernanda de Castro, em Mariazinha em África, criou um dos mais curiosos mitos da nossa cultura recente, ou, se preferirmos, um dos mais retorcidos caminhos (sem saída, claro) do nosso Labirinto da saudade.
A imagem é bonita: a menina de vestidinho branco, os longos cabelos apanhados em laços ou soltos pelos ombros, o largo chapéu de palha, quando não mesmo um capacete colonial, para que não lhe amareleça a cútis. Em fundo, pode vir a Mãe preta, espécie de baby-sitter colonial, ou o menino negro, também ele uma espécie brinquedo descartável quando a Mariazinha crescer.
É claro que a Mariazinha tem de pertencer à classe dominante, àquela onde os Governadores são recrutados, e num futuro não muito longínquo casará com um militar. Não será bem uma Lady Mountbatten, mas jogará as suas partidas de ténis com uma saiita branca e, se tiver sorte, habituar-se-á a montar.

O livro de Maria Cristina Malhão-Pereira é um livro de esposa, esposa de um oficial de Marinha, primeiro na Guiné - 1969-1970 - e em Moçambique depois, até 75.
O padrão «Mariazinha no baile do Governador» ou «Mariazinha vai à caça dos leões», embora adaptado a países ocupados militarmente, com guerras sabe Deus onde, lá para o mato onde estoiram minas e o perigo espreita o nosso marido, é seguido tão à risca quanto possível. À consciência da superioridede moral e civilizacional sempre presente, vem, no entanto, juntar-se, uma vez por outra, a sombra de uma dúvida:
"Nem queria pensar que ia ficar ali, na praça da Bajuda, sozinha e de noite", narra a autora. "Estava quase a chorar, quando vi um taxi a dar a volta na rotunda. Fiz-lhe sinal, mas do outro lado adiantou-se um africano enorme, de balandrau branco até aos pés, cofió na cabeça e ar altivo.
"Quando o vi já dentro do carro, o meu desapontamento não podia ter sido maior. Mas, o taxi aproximou-se de mim e parou. Fiquei varada de susto. O homem do cofió saiu e disse-me que me cedia o taxi, pois eu estava com uma criança e, como era perto do médico, se calhar doente. Fiquei ainda mais receosa com aquela atitude pouco usual. [...] Ele sorriu com uma ar entendedor, delicado e ao mesmo tempo muito triste, pois percebera muitíssimo bem toda a minha atitude. Fiquei desconfortável, chocada comigo mesma..." (pag. 39)
Mas à desconfiança, ao desconforto, pode seguir-se uma verdadeira esperança:
"Tive a certeza, que grande parte dos meus dias no futuro se passar iam naquela lindíssima praia."
"[...] Fomos logo nesse dia convidados para vários eventos sociais a ter lugar durante a competição de pesca e ficou assente que iríamos, passados dias, ao jantar de distribuição de prémios. Todo aquele colorido e animação fizeram com que encarasse os quatro anos a passar em Moçambique como, com certeza, muito agradáveis." (pag. 159)

Enfim, apesar do tom em «Eu Maior», é um livrinho bom de se ler, e simpático, ainda por cima.

domingo, julho 29, 2007

Guerra do Silêncio

Margarida Calafate Ribeiro, África no Feminino, As mulheres portuguesas e a guerra colonial, Porto, Afrontamento, 2007
É uma recolha de depoimentos de mulheres que acompanharam os seus maridos nas mobilizações para as colónias, Angola, Guiné e Moçambique sobretudo. Esposas de soldados, portanto, militares de carreira e oficiais na sua maioria.
Pode ser uma limitação deste trabalho de Margarida Calafate Ribeiro. Ou talvez não. Poderíamos ter sido informados de quais os critérios da recolha e, já agora, dos critérios de transcrição. São depoimentos orais, gravados e trancritos? São depoimentos escritos? Como foram escolhidas estas mulheres para participarem nesta compilação? Que problemas lhe suscitou o método adoptado? Viu-se obrigada a rever a metodologia?
Enfim, Margarida C. Ribeiro não nos diz e é pena. Seria um livro completo. Assim é apenas muito interessante, se "apenas" se aplicar a um caso destes.
Com a devida vénia, transcrevo uns pedacinhos, quase ao acaso, para dar uma amostra daquilo que pareceu mais importante. Mas é melhor ler o livro todo, claro.
Depoimento IV:
"Disse-lhe: «Já viu? Morreu um homem e as pessoas fizeram a festa e fizeram o baile?!», e ele respondeu-me: «Em que planeta é que você está? Em que planeta é que você está? Já leu hoje o jornal? Já leu hoje o jornal?» Eu respondi: «Li». E ele disse-me: «Alguma vez, desde que chegou aqui a Angola, viu alguma notícia de guerra no jornal? Alguma vez ouviu falar de guerra?!", «Esta gente...» - não estava lá mais ninguém, estávamos os dois sozinhos - «... esta gente alguma vez fala da guerra?! Para eles a guerra existe?! A guerra não existe, não percebeu?». (pag. 93)
Depoimento III:
"Na rua onde eu morava havia o comando da polícia uns metros abaixo. Parecia uma polícia normal, mas o que é certo é que se ouviam os gritos. Eu lembro-me de diariamente, durante a noite, haver gritos lancinantes! Era impossível não ouvir, mas ninguém falava nisso, ninguém sequer comentava aquelas noites rasgadas de gritos." (pag. 76)
"O regresso não foi, portanto, brilhante. Perante todas as convulsões e confrontado com determinadas situações, o meu marido recomeçou a ter medo e recomeçou a beber. Lembro-me de ele começar a beber de manhã, por volta das dez horas, e tornou-se extremamente agressivo. Começou a maltratar sobretudo o filho que sempre rejeitou e a mim. E a partir de 78-79, 80-81, até 84, foi a pior guerra que eu vivi." (pag. 81)
Depoimento XVI:
"Para todos nós, acho que esse tempo africano é um tempo de saudade e foi muito importante estarmos sempre juntos. Na altura, os meus filhos não se aperceberam da guerra, do que era a guerra, porque a guerra não se sentia no nosso dia-a-dia."

quinta-feira, julho 26, 2007

Homem ao Mar!

Livros!
Gostam de livros?
Pois.
A mim, de pequenino, ensinaram-me a estimá-los.
No livro da terceira classe, ou um desses, vinha uma história, das edificantes, género alguém a perguntar:
‘Viveis sempre só, Senhor Petrarca?’
‘Só?’, respondia o poeta, ‘Vivo sempre rodeado de amigos.’
E, arredando uma cortina, mostrava uma fila de livros.
Eu não sabia quem era esse tal Petrarca, mas a reposta dele estava de acordo com os conselhos maternos.
A Senhora Minha Mãe era uma leitora impenitente. Já bastante velhinha ainda olhava em redor, via um livro em cima de uma mesa e perguntava: «Que tal é este livro?»
E zás, antes de saber a resposta ou sequer se alguém o estava a ler ainda, começava a sua paulatina leitura. Parava, de vez em quando, para fazer um comentário.
Já com os seus oitenta, ou perto disso, leu A Montanha Mágica pela primeira vez. Adorou reencontrar um mundo ainda próximo daquele que viveu na sua meninice, quando a doença romântica era a tuberculose porque levava os jovens e quando uma senhora de sessenta anos «era de muita idade». Quando os vícios ainda não se chamavam adicções: eram o vinho, o tabaco e, o mais desgraçado de todos, o jogo.
E toda a gente, desde sempre, fazia troça. Contavam-se histórias das suas distracções.
A mais célebre era a do arroz.
“Vergonha,” decretou um dia o Milôr Fernandes, “não é fazer embrulho de papel de jornal. Vergonha é ler o embrulho.”
A minha Mãe passou por essa vergonha.
Foi assim: antigamente, quando havia tempo para essas coisas, tirava-se do lume o arroz ainda com muito caldo e punha-se na arca, embrulhado em jornais, a enxugar.
À hora da refeição, estava soberbamente cozido e solto.
Um dia em que a mandaram buscar o arroz à arca, obedeceu prontamente, mas nunca mais voltou. Dá para adivinhar que foram dar com ela, muito quieta, ao pé da arca, a ler um folhetim no papel do embrulho.
Esta foi a mais importante das influências que eu sofri.
Mas houve outras.
A minha Avó era da firme opinião de que ler fazia mal. Como tantos outros vícios, só moderadamente se devia abusar. «Tanto leu que tresleu!», dizia-se e era verdade. E vinha o exemplo:
- Olha o Dr. Ferrer! Tinha tantos livros que tinha uma criada só para limpar o pó à biblioteca! E tanto leu que ficou assim! (gesto significativo de senilidade precoce ou irremissível demência)
Para a Senhora minha Avó, uma asserção universal provava-se, sem possibilidade de contradição, por um exemplo socialmente admissível. E não valia a pena contraditá-la usando o contra-exemplo: que uma andorinha não fazia o Verão, também era indiscutível.
Outras pessoas da família, ou não liam ou saltavam as partes mais aborrecidas. Imagino que A Montanha Mágica, com as suas mil e tal páginas, se lesse em hora e meia: os discursos do Sr. Setembrini, decididamente, não tinham interesse nenhum.
Para a minha Mãe, não.
Um livro começava-se pelo princípio e lia-se todo. Era uma espécie de cobardia abandoná-lo a meio, fosse qual fosse o pretexto. Era como se nos tivéssemos deixado derrotar por um livro, um adversário que devíamos transformar em amigo para toda a vida.
Imaginam o que ela sentiu quando leu o seu primeiro Mário Cláudio.
Ela que devorara a escrita enredada e experimental do Abelaira, a falta de pontuação do Saramago, ela que apenas franzira o nariz ao erotismo serôdio do Jorge Amado em Teresa Batista, cansada de guerra e nem pestanejara com A obra completa de Sally Mara, do Quenaud, sentiu-se soçobrar perante o prosador do Norte.
Quando lhe confessámos que tínhamos tido as mesmas dificuldades, suspirou de alívio.
- Eu sei que estou a ficar velha - explicou-nos. – Mas, mesmo assim…
Por respeito pelo Mário Cláudio, não adiantou a conversa.
Não sei se tudo isto explica porque é que tenho a casa devorada pelos livros. Sei que o livro ainda é pior do que os priões da BSE. Fica a incubar anos e anos e, de repente, quando temos de mudar de casa ou tão só renovar a mobília, parece explodir: o nosso cérebro transformado em esponja mostra-se incapaz de dominar a situação.
Lembram-se do Patinhas a nadar na caixa-forte? É como nós nas bibliotecas. Mas o quaqualionário não se afundava, enquanto nós estamos quase a perder o pé. Estamos quase, quase, a morrer afogados em livros.
Rezem-nos pelas nossas almas, sim?

quinta-feira, julho 19, 2007

O Cão que jogava xadrez

AVISO:
Não se sabe por que bulas, o Blogger entendeu que o XVIII episódio da Saga do Carlinhos e da Magrizela, já fora do Canil Municipal, ficava melhor lá mais abaixo.
Em querendo localizá-lo, é melhor clicar aqui ao lado.
Que se há-de fazer?
Impõe-se a resignação.
PS: Graças à Ana, que deu as necessárias dicas, o episódio tresmalhado voltou para o seu lugar, como era devido. Ainda dizem que vivemos num mundo sem solidariedade e que é cada um por si. O «Portugal, Caramba!» tem muita honra em vir aqui, publicamente, desmentir essas atoardas e, se permitem o neologismo, agradecer à «dicadora».
Bem-haja.

O Cão que jogava xadrez XVIII

Lembra-se a minha Senhorinha de que o seu Primo Carlinhos tinha ficado muito chocado com as declarações do Deus-dos-Cães - que a si mesmo chamava Anubis?

Pois ficou e nem admira, mesmo sabendo nós que a educação intransigentemente católica da sua excelente Tia já tinha sido um tanto moderada por algumas dúvidas bastante substantivas.

A culpa, diga-se, foi do inevitável Zé Nesgas que lhe disse sardónico quando o viu a sair da missa: «Ina man, porra! Também acreditas no Pai Natal?»

É claro que o seu Primo ficou danado e correu atrás do Zé Nesgas para lhe bater (ainda não eram amigos do peito). Tinha a vantagem das pernas mais compridas, mas, como perdia e muito no peso, em breve se esfalfaram ambos e sentaram-se, meio reconciliados, a ganhar fôlego.

«E tu», perguntou o Carlinhos, a romper o silêncio rancoroso, «tu não queres ir para o Céu?»

O Zé ainda gozou aquelas coisas do costume que todos ouvimos em miúdos, que não conhecia lá ninguém e que era só pobres de espírito a cavalo nas núvens. Mas depois, um bocadinho mais a sério, explicou que o Pai nunca lhe tinha ensinado essas coisas e que lá em casa só a Avó é que ia à missa, mas ele, Zé Nesgas, não ia à bola com «essas tretas para tótós».

E, como já tinham descansado, o seu Primo zangou-se outra vez e, claro, nova correria. Quando um gritou «chimpas» para atar um sapato esqueceram-se do assunto que, tem de se dizer, na altura não parecia merecer grande reflexão. Na pubredade as coisas são assim.

Mas a ideia de que «tudo aquilo» pudesse ser «treta para tótós», como o Pai Natal e o Menino Jesús a dar prendas aos betinhos, ficou a trabalhar-lhe lá dentro. Ná! O Zé Nesgas havia de ter alguma razão, senão era ele, Carlinhos, quem havia de ter ganho uma bicicleta pelos anos e não o mongas do Hugo Vinhas que só tinha negativas.
Uma coisa, porém, e as minhas Gentis Leitoras certamente já pensaram nisso, é duvidar um tanto dos deuses, admitir que este mundo pode ser assim, como que um simples jogo de forças cegas, indiferentes à justiça e ao bem.

Outra, cem vezes mais difícil, é ter umas réstias de crença, dar de caras com um deus ao vivo e perceber que ele aceita o mal com o mesmo destempero da Stora de Inglês que não tem mão na malta e, zás, marca faltas de castigo a torto e a direito. Isso é que é lixado.

Claro que a minha Senhorinha, as gentis Damas e os garbosos Cavaleiros que me lêem agastados com tanta heresia, se estão neste momento a interrogar: «Que terá toda esta conversa a ver com o que aconteceu ao Carlinhos e à Magrizela?» Mesmo compreendendo a vossa impaciência e sem querer eu, pobre demente, causar mais escândalo do que aquele que para aqui me trouxe e já não foi pouco, é necessário que vos explique o estado de espírito de um tímido jovem que ia só à procura de um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas. E que obteve ele? Uma cadela velha que não jogava coisa nenhuma?

E seria assim mesmo, sempre, que as coisas se passavam lá no Canil?

Enquanto seguia, cabisbaixo, pelas ruas afora, a Magrizela resignada à corda atrás dele, começava a pensar que nada daquilo tinha sido verdade.

- Sonhei - concluiu ele. - Ou então foi uma daquelas pedradas que a Stor Padre falou, que dão estas merdas: a gente fica marado e julga coisas. Aquele deus, Anubis ou lá o que era, não pode existir, foi o que disse a Sónia na catequese. Há um só Deus que governa no Céu e na Terra e que não me deu a bicicleta porque... pronto, não sei porquê, mas o Vinhas havia de merecer mais do que eu...

Ia assim concentrado, entretido no seu processo de denegação, e nem ouviu a Magrizela, lá atrás, a dizer «olha que giro! Sou capaz de andar como tu!» Foi só ao virar da esquina, já perto de casa, que se deparou com os matulões, da Alfredo Arroja de certeza, a barrar o caminho. Pareciam mais embaraçados do que agressivos.

- Que é que tu trazes aí, ó puto? - quase gaguejava um deles.

O Carlinhos tirou vantagem da situação e respondeu, no tom mais agreste que conseguiu:

- É um cão, não se vê?
Mas, ao dizer isto e enquanto um dos parvalhões da Alfredo Arroja se rebolava em gargalhadas alarves, «um cão, fosga-se, ouviste, o puto diz que é um cão», virou-se para apontar a Magrizela e o queixo caiu-lhe até ao peito.

Na ponta do cordão, com a coleira ao pescoço, estava uma chavalita, nuínha como tinha vindo ao mundo, bonitinha e sorridente.

- Tás a ver como eu consigo andar nas patas de trás como tu? - dizia ela.


O que aconteceu a seguir, se me escapar amanhã à noite, vou tentar contá-lo, por muito incrível que pareça. Basta dizer que o Deus-dos-Cães voltou a aparecer, empoleirado em cima de uma velha camioneta à beira do passeio, para as minhas gentis Leitoras terem uma ideia do estranho que tudo aquilo foi, para mais em pleno coração do populoso bairro.

domingo, julho 08, 2007

Diz o quê?

A gente aqui não conhece o Senhor António Balbino Caldeira, do Portugal Profundo. E ele, a nós, ainda menos.
Dizem que, se um tal José Sócrates de Sousa não chegou a ser engenheiro, a ele o deve. Mas, mal-agradecidamente, em vez de ficar contente, não: processou-o. Pessoalmente, se pessoalmente contamos alguma coisa - e até hoje não se viu - a gente acha que não foi a melhor opção. Se amor com amor se paga, nos blogues é a mesma coisa. O Senhor José, se tinha alguma coisa a dizer, bem-educadamente chamava um dos seus secretários e dizia-lhe:
- Pá! Faz aí um blogue para responder a esse paínço.
Mas, a vida tem destas coisas. Em vez desta atitude razoável, resolveu apresentar queixa, a gente não sabe em que balcão: «aquele menino é mau, usou a Net, que é o meio de comunicação mais universal e portanto não serve para isso, para denegrir na minha reputação...»
- Qual, qual? - perguntámos nós, ansiosos e perturbados.
O caso não era para menos: na nossa santa ignorância, lorpa e iletrada, não déramos conta de que ele tivesse uma, a menos que fosse a de ser Primeiro Ministro não sei de onde. Mas isso não acreditamos, nem nós, nem ninguém. Nem o mongas do Quim Gordo que quis ser palhaço, carroceiro, princês, treinador de elefantes e acabou varredor da câmara, alguma vez lhe passou pela cabeça que se pudesse ser tal coisa.
Debruçámo-nos atentos sobre a blogaria.
Éramos uma roda de compadres, todos na casa do povo, à volta do portátil, com o wireless, como eles dizem e que quer dizer que tem arame a menos, e percebemos.
O Senhor Pinto de Sousa, que também assina como Engº José Sócrates, Primeiro Ministro enquanto tal e cidadão...
Olhámos uns para os outros.
Cidadão, cidadões, enfim, éramos todos, excepto o Quim Mongas que não era nada porque já tinha bebido um par de canecas e ressonava que nem um porco, e o Václáv, que, lá por saber umas coisas de computadores, não julgasse que era gente.
Primeiro Ministro é que era o diabo. Não sabíamos o que isso era há tantos anos, um tinha querido continuar a ser e por causa do tabu, outro casou-se e foi para os refugiados, outro ainda teve mais gosto, parece que Bruxelas, enfim, o Filipe da Carlota esteve lá a trabalhar no batiment como plombier e sabe como é, «gajas é o que se quiser, nem é preciso ter dinheiro, leva-zas todas a comer uma de moules et des frites, pás! Tá no papo!»
«Mas podia ser perigoso, lá isso...» «O quê, o papo?» «Não, porra, isso de primeiro ministro.»
- Mas a gente não diz nada?
- E aquele desenho?
Podia ser o desenho. Não dizia muito, mas era solidário, lá isso...
Mas havia dúvidas: solidário, sim, mas com quê?
- Com quê? T'ézés parvo. Então não se vê que é com a censura na Net?
- E então eu agora sou solidário com isso?
As dúvidas agravavam-se.
- Pronto. Telefona-se ao advogado.
Era uma ideia. Toda a minha gente rapou dos telemóveis e desatámos a gritar. Foi preciso o Canina impor-se: «Porra, pá! Chiça! Eu é que falo!»
Vieram mais umas imperiais enquanto ele tentava explicar. O pobre do advogado, mal dele que era um gajo porreiro, perguntou, do outro lado se a gente sabia que horas eram.
É que ele tinha um julgamento em Beja às nove horas e tinha de se levantar às seis...
Ninguém queria saber. A solidariedade é que era importante, o Canina tentou explicar ajudado pelos que ainda não tinham sossobrado, mas, é claro, de um lado só ouvíamos metade, do outro também, de modo que o Canina berrava de cá: «Diz o quê?»
E a gente a apoiá-lo, claro, que é que a gente havia de dizer que não tivesse ainda dito?
- Diz claimer, pá? Ó pá, mas eu não sei dizer essas merdas, pá, isso é estrangeiro ou quê?
Lá chegámos a acordo, a malta desconfia que foi só porque o advogado o que queria era ir dormir.
Então era assim: a gente publicava o desenho do tal Sócrates a puxar as orelhas ao Tacci, mas dizia que não era nossa a responsabilidade.
- Tá bem, pronto. - disse o Marrafas, já a querer ir-se embora. - Mas, se não é nossa, é de quem?
Era um problema. Julgam que a gente ficou agradecida ao Marrafas?
Nem pó.
Com o Jacinto a querer fechar a tasca, o melhor era adiar as questões ingentes e abalar até às nossas esposas amantíssimas que nos aguardavam pacientes, na frescura dos nossos lençois, se não tivesse lá chegado outro primeiro.

quarta-feira, julho 04, 2007

O Cão que jogava xadrez XVII

Anúbis, o Deus-dos-Cães, ou se as minhas gentis Leitoras preferirem, o Deus-Chacal, tinha prometido resolver o problema do Carlinhos e que era, se se lembram, arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos nas alcatifas.
Porém, mesmo tendo o olhar do artista que transforma e subverte o real - e por isso, aliás, tinha de usar aquela horrorosa e sebenta pala preta inibidora dos raios criativos, sim, mas incorrectíssimos do ponto de vista das políticas vigentes no Olimpo - não teve tempo de o usar.
Ou porque tinha levado uma pancada enorme na sua divina cabeça, ou porque as coisas são mesmo assim, mal levantou a pala do olho cego para realizar o milagre e já um vigoroso estrondo anunciava o despertar do desmaiado Guarda.
Não desejo, longe de mim, que a minha Senhorinha se ponha na situação de um Todo-Poderoso Guarda que acorda com um enorme galo na testa, o joelho sangrando devido à tábua com pregos do seu Primo Carlinhos, e, ainda por cima, as mãos e pés atados com arames.
O rugido de desespero foi tal que abalou as sólidas paredes de pedra e tijolo do centenário edifício.
Como, mas como?
Como podia ser assim contestada uma gestão de dois anos que reduzira a despeza do Canil em 18%, mesmo se, por causa do investimento e das despesas extraordinárias com os cartões de crédito da Gerência, o déficit de exercício aumentara uns ligeiros 34 pontos percentuais?
A sua fúria foi horrenda e temerosa.
Os arames resistiram a um primeiro puxão, mas ao segundo rebentaram e um coro de alarme ergueu-se entre os cães que, fechados ainda nas suas gaiolas, não tinham podido escapar.
Os próprios Diabretes se precipitaram, «ó da Guarda, ó da Guarda» esquecendo-se, claro, de que quem assim os assustava era o próprio Guarda.
Mas o Deus-dos-Cães já se erguia, pronto para a batalha.
- Vocês, ó bardajolas! Toca a pirar que isto agora vai ser a sério.
- Pirar para onde? - perguntou, não sem um certo sentido das oportunidades, o seu Primo Carlinhos.
Enquanto preparava o morteiro de 85, o Deus-dos-Cães, irritado, proferiu um ror de palavras que, pelo sua conotação, as minhas gentis Leitoras me dispensarão de repetir.
- Desapareçam, fosga-se! - acrescentou ele. - Tu e essa cadela sarnenta.
Uma bomba saiu do cano do morteiro e foi explodir contra a porta do matadouro, rebentando a parede, uma das vigas do tecto e fazendo cair uma infinidade de telhas. E logo outra granada, disparada pelo buraco recém aberto, ia direita ao telhado e rebentava pouco depois com uma chuva de cacos de telha, tijolo e raspas de madeira.
Anúbis, com um sorriso de orelha a orelha, acolitado pelos Diabretes que acorriam armados até aos dentes, bombardeava alegremenbte a sala onde, encolhidos nas suas gaiolas, cães, gatos e outros bichos mais ou menos inocentes se tentavam abrigar.
- Corre, - gritou a Magrizela.
E correram. As paredes ruiam, o telhado desmoronava-se, cães uivavam e Pitbuxos com cimitarras nos dentes e crisses malaios à cintura começavam a invadir a cozinha.
A Magrizela e o seu Primo Carlinhos escaparam-se por entre os destroços, uma granada que rebentou demasiado próximo - mesmo que fosse do outro lado do planeta ainda seria demasiado - deixou-os atordoados por um momento. Mas, felizmente, ali estava uma porta, daquelas de ferro que precisam de muito óleo e, volta e meia, nos entalam os dedos, mas que escolha havia?
A cadela Magrizela e o seu Primo Carlinhos precipitaram-se pela fenda entreaberta e logo a porta se fechou com um estrondo metálico e um bem-aventurado silêncio se fez.
- Então, - disse uma voz amigável. - Encontraste o teu cão, pelo que estamos a ver...
O Carlinhos olhou para cima e avistou as longas pernas e os jeans estreitinhos da garina que o tinha recebido à entrada. Estava corada e parecia feliz; respirava com força como se viver fosse uma agradável surpresa.
O Carlinhos achou-a mais bonita e, até, talvez, mais simpática.
- Não achas que é um bocado velhote para tu o levares? - perguntava entretanto a garina com a cabecinha loira um pouco inclinada. - O costume é vocês levarem um cachorrinho, sabes? São fáceis de educar, a tua mãe havia de gostar mais.
- Muito obrigado. Esta mesma aqui é que é, se puder ser.
- Então, tu é que sabes. Levas aqui o certificado e, não te esqueças: tens só quinze dias para o devolver se não se derem bem.
- Possas, a chavala é parva! - rosnou a Magrizela.
Mas, felizmente, a garina não entendeu:
- Ah, é uma cadela, e velha, ainda por cima... - disse ela. - Pronto. Aqui tens. Levas este cordão a fazer de trela, sabes, estes cães já não estão habituados a andar por aí, e além disso é a lei, ninguém cumpre, mas é o que diz a lei...
O Carlinhos despediu-se e antes de transpor o grande portão que o conduzia à rua, olhou em redor.
Nada indicava que a guerra continuasse lá no interior: o Carlinhos olhou para a Magrizela, achou-a uma velhota e perguntou a si mesmo se tinha sonhado com aquilo tudo.
- Bora daqui, - rosnou a cadela, ansiosa e mal-humorada.
E puxou pelo cordão até quase desiquilibrar o Carlinhos.
- Não é por aí - gritou ele. - É por este lado...
- Não grites, que eu não sou surda. É por esse lado porquê?
- Porque é a nossa casa. Vais tomar um banho e depois arranjo-te qualquer coisa para comeres...
- Um banho? Blheaac! Não podemos ir para qualquer outro lado?
- Não. Já estou com fome e, além disso, tenho de ir à casa-de-banho, tázaver? Já estou um bocado à rasca.
- Então? Qual é? Não tens aí árvores que bastem?
O seu Primo, Senhorinha, não soube o que responder. É que, pensava ele, mesmo se por palavras mais cruas, «como hei-de ensinar o que é pudor a uma cadela de catorze anos?»
E, se a minha Senhorinha, as nobres Damas e os bravos Cavaleiros o permitirem, como por hoje já estou cansado, deixaremos esta relevante questão para uma próxima vez em que eu me consiga esgueirar até aqui.
Pode ser?

segunda-feira, julho 02, 2007

O Cão que jogava xadrez XVI

Pois, Gentil Senhorinha.
Tinha jurado não mais voltar a este computador, nem de dia, quanto mais pela calada da noite. Tinha dito a mim próprio que devo aceitar a minha própria cobardia, os meus medos e não mais arrostar com os terrores de uma escuridão em que a lanterna cria um estreito cone de luz deixando como que em negativo toda uma zona incerta de onde as mais horríveis abominações nos espreitam.
Mas vim. Acabei por vir, após voltas e reviravoltas no estreito catre, mais estreito ainda por ocultar todo o meu tesouro nesta enfermaria de loucos de que faço parte e em que diariamente a minha personalidade se dissolve.
Nesta camarata, enfermaria, sala de exposições aberrantes, que me resta nas longas noites?
E não resisti ao apelo deste ecrã fracamente iluminado. Não resisti a falar um momento mais com a minha Senhorinha, nem me resignei a abandonar o seu Primo Carlinhos que, como talvez não recorde, tinha ido ao Canil Municipal, SA - ou EP, ou uma sigla dessas cujo significado não abranjo - para arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado porque a Mãe (a sua estimável Tia), com a mania das limpezas, jamais consentiria no menor pelo na carpete.

Ora, porém, a dificuldade está realmente aí: ser aspirado, gentilmente, como a sua Tia não deixaria de fazer, era o menos.
Jogar xadrez é que era mais complicado.
Não, como as benévolas Leitoras e os Cavaleiros que as acompanham talvez tenham pensado, por inferioridade do córtex cerebral ou por falta de um polegar oponível com que mover as pedras no tabuleiro. Não, os cães, como explicou a Magrizela mais tarde, jogam jogos muito complexos como, se a minha Senhorinha me perdoa a expressão que para eles é naturalíssima, o «Cheira aqui que eu cá mijei» ou o «Mija bem, quem quem?».
Este último jogo, sobretudo, merecia uma análise mais completa do que a que eu estou habilitado a fazer.
A minha Senhorinha já reparou certamente que os cães, ao contrário de nós, não vivem num mundo instantâneo. O sentido dominante nestes nossos amigos, sendo o olfato, permite-lhes «ver» um pessoa, por exemplo, um pouco antes e até muito depois de ela passar. Nós primatas, mantemos na nossa retina, as imagens poucas centésimas de segundo. A nossa amada, para os felizes que a têm, desaparece da nossa vista mal dobra a esquina.
Para o nosso cão, ela está ainda ali, e estará por tanto tempo quanto as moléculas do seu odor se não dissiparem por completo, o que pode demorar dias. Ou então, como para nós se vê mal em dias de nevoeiro, também para eles há dias em que os cheiros se misturam e se confundem como o templo e a taberna do Fradique Mendes.

Mas vejo, Senhorinha, que a estou a impacientar.
O que eu queria dizer é que os cães realmente bons nestes complexos jogos, escolhem estes dias de nevoeiro olfactivo para os seus campeonatos de «Mija bem, quem, quem?» E o vencedor, por vezes um rafeirote como a Magrizela ou um bassêzeco de rodas baixas, ganha no bairro um prestígio que nada na sua falta de elegãncia e dotes concursáveis faria prever.
Mas xadrêz, não. Como comer uma peça e deixar de contar com ela se o seu cheiro, a sua essência, no fundo, permanece em jogo?
Por isso, Anofis, o Deus Chacal resolveu que tinha de compensar o seu primo Carlinhos de algum modo.
Como o fez, isso, Senhorinha, receio só conseguir dizê-lo mais e depois.

domingo, junho 17, 2007

O Cão que jogava xadrez XV

Vejo agora, minha Gentil Senhorinha, em que trabalhos se meteu o Deus-dos-Cães ao querer explicar o inexplicável.
Lembra-se, como se lembram as Belas Damas e os Garbosos Cavaleiros que me escutam, da questão metafísica que o seu Primo Carlinhos lhe colocou e que, em resumo se pode formular assim:
«Se tu és um Deus, daqueles que pode tudo, porque é que a vida não é uma Graça e a temos de pagar com o sofrimento?»
Claro, não foram estas as palavras exactas do Carlinhos que nunca tinha ouvido falar de Auschewitz, nem dos bombardeamentos de Guernica ou de Dresden.
Nem sabia (os Professores de hoje em dia não ensinam nada de jeito) das bombas de fósforo ou de fragmentação, nem dos rockets de nariz perfurante que penetram em cavernas onde velhos, mulheres e crianças se julgaram abrigados.
Nem sequer ouvira falar, ou talvez sim, mas distraidamente, ao sabor dos inócuos programas da televisão, daquelas coisas que só se percebem nas entrelinhas: das crianças-soldado, por exemplo, que são drogadas com haxixe para caminharem para a morte enquanto disparam as kalaschsnikov.
Compreende agora, Senhorinha, porque me internaram aqui, neste cemitério para vivos que eles se encarregam de transformar num infantário para mortos?
É por eu ser capaz de ver, mesmo onde não o querem mostrar, o escândalo da dor. A dor do bebé-foca, morto à paulada, como a dor do cão estrangulado com um arame, a dor de uma menina a ser violada por um cidadão deste mundo crápula.
O seu Primo, com os escassos onze anos, não tinha ainda ouvido falar de nada destas coisas. Nem ouvira dizer que as raposas são muitas vezes esfoladas vivas – coisa que ouvi eu e que era a pior das torturas chinesas, ao que consta – só porque a pele fica mais brilhante e rende mais cinco euros e trinta e cinco a peça. Mas tinha visto a Emplumada viva e via-lhe agora o corpito espetado num gancho.
Percebo, ao longe, os protestos das minhas Gentis Leitoras, incomodadas com estas pouco dignificantes considerações:
- Pronto, já percebemos, homem de Deus - dizem as Nobres Damas – O que nós queremos é o resto da história.
Eu, porém, sem querer ofender a delicadeza dos vossos sentimentos e, sobretudo, o vosso bom gosto, peço licença para intercalar só mais isto e volto já ao Carlinhos:
Como pode o particular subsumir o universal, é uma questão para os filósofos e gente dessa, que gosta de saber o que diz.
Mas para o Zé Nesgas, lembrai-vos, a prepotência do grandalhão da Alfredo Arroja tinha sido a de todos os grandes do mundo. Só se lhes respondia, decidiu ele nesse instante, de dedo espetado, muito malcriadamente, convenho, mesmo que depois se leve na tromba.
E para o Carlinhos, a Emplumada foi a crueldade indiferente dos homens, quiçá, também dos deuses.
- Irra! - impacientam-se as Damas e Cavaleiros e cheios de razão.
- Que respondeu afinal o raio do Deus-dos-Cães? - perguntam.
Alonguei-me. Defeito meu que a Minha Senhorinha já conhece e pelo qual, por mais de uma vez, lhe pedi desculpas.
Que disse ele?
Ora, que havia de dizer?
Desviou a conversa, foi o que foi.
Já estou a ouvir os protestos que não deixarão de ter proferido as minhas gentis leitoras:
- Mas ele explicou ou não? – perguntam-me.
E eu respondo que não me compete a mim, pobre internado num Hospício em Rilhafoles, alterar uma vírgula aos eventos, se é que estes também usam a pontuação dos gramáticos.
- Man, - foi, portanto, exactamente o que disse o auto-denominado Deus-dos-Cães – vinhas cá para arranjar um cão que jogasse xadrez ou não?
O seu Primo, mesmo exaltado, teve de concordar.
- Isso. E que não se importasse de ser aspirado para não largar pelos na alcatifa.
- Então, pronto, já aí a tens. Põe-te na alheta e não queiras emendar o que já está feito.
- Porquê? – perguntou o Carlinhos.
- Mas eu não sei jogar xadrez. – interrompeu, timidamente, a Magrizela. - E já sou burra demasiado velha para aprender línguas.
- Isso dá-se um jeito. Como é que há-de ser?
- Mas, - insistiu o Carlinhos, olhando lá para cima para o gancho – e ela?
- Ela o quê, pá? Não sabes que a vida é como um comboio, para que uns vão entrando, outros têm de sair? E não chateies, porra. Estou aqui a querer ajudar-te e tu não deslargas!
- Mas eu só quero perceber! – gritou o Carlinhos outra vez exaltado. – Porque é que não me explicas isto tudo?
- Porque também não sei, porra! Julgas que é fácil entender?
Calou-se amuado.
Mas depois espetou um dedo direito ao seu Primo:
- Este Canil, por exemplo, desde 1878, foi sempre gerido pela Liga dos Indefectíveis dos Animais, tázaver, uns fixes que recolhiam os vadios, aí como a Magrizela, tiravam-lhes as carraças, davam-lhes de comer e tentavam arranjar-lhes uma casa. E pronto. Era isso.
Fez outra pausa meditativa.
Os Diabretes que, como a minha Senhorinha se lembra, tinham andado à pancada, vieram sentar-se ali ao lado, a lamber as nódoas negras.
- E eu já desde o advento do cristianismo, século III ou IV, tinha largado tudo: templos incendiados, crentes perseguidos... eu que era o Anubis, o Deus-Chacal, já andava a passear pela Índia, pela África, pelo espaço para todos que ainda havia, homens, cães, feras…
- Chamas-te Anubis, é? – perguntou o seu Primo Carlinhos. – Já vi uma pintura com o teu retrato. Não estás muito parecido, pois não?
- Bico! Perguntaste, não foi? Agora ouves. Onde é que eu ia? Ah! A África. Depois foi o Livingstone, I presume, e o Capelo e Ivens e o Serpa Pinto que não presumiam nada, e as carabinas com balas dum-dum, todas essas porcarias e lá se foram os elefantes, os leões, o resto dos ursos. E fiquei eu com o problema nos braços.
“Como é que eu ia salvar os cães e as raposas, lobos, hienas, chacais e os coiotes, hem? E os mabecos? Sabes o que são os mabecos? E os dingos? Não sabes, ninguém sabe. Matam-nos, pum-pum, e esquecem-se de que são vocês que dão cabo da caça com os químicos e pesticidas. Uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca, também nunca ouviste dizer, pois não? O que é que tu sabes, puto? Não sabes nada, estás para aí a armar-te!
“As raposas foi fácil, à custa de algum sofrimento, claro, como Ápis salvou os toiros para morrerem nas praças…
“Os lobos, os lobos é que são o problema, porque estás a ver, os cães havia sempre alguém que tomava conta de um ou de outro, um de guarda outro de caça, os mais sacrificados eram os de regaço, tázaver! E aqui a Liga dos Indefectíveis fazia o que podia, em Inglaterra, em França havia clubes, uns do Boxer, outros do Setter ou do Bull Terrier… A coisa ia andando, era uma no cravo, outra na ferradura, mas ia andando.
“Até que houve uns gajos que começaram a perguntar para onde é que iam os impostos deles, e que não queriam pagar do seu dinheiro hospícios para os velhos que não tinham um seguro saúde e de coisa e tal… e que gostavam era de peixinhos doirados, porque é que o estado subsidiava este Canil Municipal que só dava despesa?
“E vá de se atirarem aos Indefectíveis. Que não mantinham a higiene, que os cães não estavam em espaços mínimos recomendados pela Comissão Europeia…
“Inventaram tudo, tázatopar, ó mongas?
“Agora passou a ser assim: espaço mínimo exigido, porreiro. Se há mais um cão que seja por hectare, que é que tu pensas que se faz?
“Pois, é isso. Tira-se-lhe o pio. Nhofas, arame ao pescoço e quando já não respira, às vezes antes até, crac, pendurado ali no gancho.
“Sim, porque ninguém é obrigado a pagar pelos cães quando gosta é de gatos, nem pelos gatos quando gosta é de canários. Rentabilidade, tázaver, rentabilidade, auto-sustentabilidade, racionalização de custos, essas coisas todas. Tás a perceber o que eu te estou a dizer?
O seu Primo, Senhorinha, abanou a cabeça desconsolado.
Queria uma resposta pão-pão, queijo-queijo, tipo «Deus está no Céu, na Terra e em toda a parte», «Fé, Esperança e Caridade», e «a treze de Maio, na Cova da Iria».
E o que lhe davam, era uma salada mais esquisita do que as da Mãe quando resolvia que estavam a engordar e precisavam de fazer dieta. E o tal Deus-dos-Cães, Anubis ou o que tinha sido, ainda fazia troça.
- Mas tu alguma vez viste alguma coisa, tu? Que é que tu queres da vida, sim, tu, ó mongas?”
- Ele ainda é um puppy! – rosnou a Magrizela, porque o seu Primo, Senhorinha, atónito, se tinha deixado descair para o chão. - Que é que tu tens que estar a chateá-lo?
O Anubis, Chacal ou o que fosse, encolheu os ombros:
- Sei lá. Que é que tu queres, tu também? É a vida.
- Não, não é. - respondeu a Magrizela, sem saber que, meio século antes, já um tal Boris Vian tinha respondido a mesma coisa. Mas o Boris Vian, como a minha Senhorinha tão bem sabe, adorava todos os animais, desde os ratinhos aos buldogues, mesmo se tinha uma clara preferência pelas meninas bonitas.
E, Senhorinha, gentis Leitoras, Cavaleiros, algum ou outro vilão como as enfermeiras aqui do hospício que se tenha subtilmente imiscuído: estou esgotado. Têm sido demasiadas as emoções, os terrores.
Juro que nunca mais venho aqui de noite, descalço, sujeito a pisar baratas, lesmas ou bichos de conta, só para vos escrever neste computador lento e caprichoso. Nunca mais, mesmo que a história do Carlinhos fique incompleta.
Se eu conseguir manter o juramento.

domingo, junho 10, 2007

O Cão que jogava xadrez XIV

Sabe, Senhorinha, minha Gentil, que estou em pensar que quem quer que tenha escolhido os letreiros das portas do Canil Municipal, acabou por mostrar um perverso sentido de humor?
Aquela por onde passou o cortejo liderado pela Magrizela, tinha uma lustrosa placa de plástico preto com letras amarelas e uma única palavra:

AVERNUS
Claro que ninguém era versado na língua latina. O seu primo Carlinhos, que suava as estopinhas nos varais lá de trás da padiola (onde ia deitado, talvez em coma, o Deus-dos-Cães) andava no 6º ano e ainda não chegara a essas complexidades. A Magrizela e os restantes canídeos que se lhes juntaram, esses além do caniguês materno, falavam a língua dos lares onde tinham nascido, quando se davam a esse trabalho.
E os Diabretes que tinham trazido a padiola e penavam agora nos varais da frente, se alguém se tivesse lembrado de lhes perguntar, teriam respondido com o gesto de apontar: o Averno? Bom, era aquilo ali dentro.
- Sim, mas o que é que quer dizer? – teria perguntado o Carlinhos se o suor que lhe escorria para os olhos não lhe turvasse até a curiosidade.
A resposta teria sido, no entanto, muito semelhante à que foi: um dos Diabretes que ia à frente, sem largar o varal que lhe competia, deu um pontapé na porta metálica que se escancarou.
Do outro lado era a visão do horror.
Cães e gatos pendiam de ganchos como se estivessem no talho, separados por tamanhos.
Uma enorme caldeira borbulhava ruidosamente mais além. Umas máquinas de plástico e metal ocupavam-se de incompreensíveis tarefas diante de ecrãs de computador. Lá em cima, as fileiras dos ganchos rangiam e avançavam aos sacões.
E foi horrorizados que o seu Primo Carlinhos, a Magrizela e os restantes cães, viram surgir, de olhos fechados e língua pendente, o corpito frágil da Emplumada.
- Chegámos tarde! – murmurou a Magrizela. – Demasiado tarde!
Um cão grande que os seguira deitou-se no chão a gemer baixinho.
- Mas isto… - gaguejou o seu Primo – isto é o quê?
- Então, - disse o Diabrete mais velho. – É que está escrito na porta: é o Schlachthoffünf. Não, o fünf é outra coisa. Pronto, aqui é a cozinha.
- Cozinha? Qual cozinha? Já estás é fora de prazo – troçou o mais novo. – Uma cozinha com guilhotinas e electrochoques? Aqui é, mas é o matadouro.
- És mesmo um margolim. Não vês que é a mesma coisa? – tornou o mais velho.
- Ai é? Margolim és tu, ó picochoso! – e zás.
Num momento estavam ao pontapé um ao outro.
O Carlinhos estava tão apardalado que nem notava as sacudidelas da padiola.
Quem notou foi o Deus-dos-Cães que, saindo do coma, levantou a cabeça, com as orelhas perigosamente para trás.
- Vocês aí, toca a acabar com a baderna! Já não se pode dormir em paz, não?
Foi demais, Gentil Senhorinha, para o seu Primo.
- Quer dizer… quer dizer que aqui matam os cães? E tu deixas?
- Tu aí, ó bardajola! Porta-te bem ou ainda te transformo em rato.
- Mas tu deixas?
- Claro que deixo. Que é querias que eu fizesse? Sabes quantos cães nascem por dia? Achas que há comida para todos? E casas? Achas?
O Carlinhos atirou com os varais ao chão e o Deus-dos-Cães à mistura.
- Mas tu não dizes que és o Deus dos Cães, tu? – numa fúria, cresceu para o outro que ainda nem se levantara e agarrou-o pela gola do blusão.
- Deslarga-me, ó mongas. Tázóvir?
- Só te largo quando me explicares isto tudo! Como é que tu deixas?
- Vê-se mesmo que não percebes nada de economia, pá. Vá lá, ou me deslargas e eu explico ou transformo-te em rato e vais parar ali ao caldeiro.
- Quero lá saber do caldeiro! Que é isso da economia?
E abanava mais e mais os colarinhos do Deus-dos-Cães, sem ligar à Magrizela aflita que tentava separá-los a bem.
- Deslarga-o lá que ele explica! Tu é que és muito puppy e ainda não sabes quanto custa estar vivo.
- Estar vivo o quê? A vida é um dom de Deus! – gritou o Carlinhos impaciente, como lhe tinham ensinado na Catequese.
O Deus-dos-Cães desatou a rir-se:
- Um dom? Pá, vê se aprendes alguma coisa, ouviste?
E sacudido pelas estrondosas gargalhadas, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara e a ensoparem-se na barba, a estranha divindade perdia as forças, deixava-se cair para o chão, a tal ponto que o seu Primo teve de o largar.
Foi a Magrizela quem, tão suavemente quanto pode, o esclareceu:
- Pois, sabes? Dantes julgava-se era assim. Agora já se percebeu...
- Já se percebeu o quê?
- Que a vida não nos é dada. É alugada, percebes? Tens de pagar a renda, pontualmente. Ou os teus pais por ti. Se não tiveres dinheiro, estás bom ali para o caldeiro, percebes?
- Tu não davas, nem cinquenta latas de almôndegas com molho para cão. – troçou o Deus-dos-Cães, já levantado e a sacudir o pó das mangas do blusão. – Mesmo muito disfarçado, não passavas por cabrito. Se fosses um gato ainda prestavas para alguma coisa. Sempre te podiam vender por lebre!
- Mas porquê? – insistia o Carlinhos. – Tu não és um Deus, daqueles que pode tudo?
O Deus-dos-Cães corou e ficou embatucado.
Como o Huck Finn, fingiu que tinha um osso atravessado na garganta.
Há quanto tempo não tinha de responder a uma pergunta daquelas?
E o que é que podia dizer?
Infelizmente tenho de parar por agora. Mas prometo, Senhorinha, Nobres Damas e Generosos Cavaleiros, que tudo o que for dito pelo Deus-dos-Cães, será aqui fielmente relatado se, por algum acaso dos comprimidos e cápsulas que me obrigam a tomar aqui no hospício, eu me não esquecer.

terça-feira, maio 29, 2007

O Cão que jogava xadrez XIII

Se é verdade, Gentil Senhorinha, que os Deuses me protegem, como estou em crer após a sucessão de milagres que me têm acontecido nestes dias, estou em crer também que é mais por causa do seu Primo Carlinhos e da Magrizela.
Que poderiam os Deuses querer deste seu chevalier servant, senão que os leve a bom porto, agora que, ajudados pelos atakadores e por uma tábua com pregos, derrubaram o Gigante Guarda-Mor e libertaram o Deus-dos-Cães?
É certo, Senhorinha, que a gratidão nunca andou bem distribuída, desde o dia da criação. Os cães, pobres deles, ficaram com toda. Deuses, homens, cucos, ratazanas e gaivotas ficaram sem nada que se visse.
O caso foi que, caído lá de cima, depois da estrondosa marradela na mais alta das traves de ferro, o Deus-dos-Cães nem sequer agradeceu:
- Seus paspalhos! - foi o que ele disse: - Tava tudo sob controle!
Levantou-se um pouco de esguelha, apoiado a uma rima de jaulas:
- Que é que vocês tinham de meter o focinho, hem?
Deu mais dois passos cambaleantes e declarou: «Tudo sob contrôle, ouviram seus paspalhões?»
E despenhou-se novamente.
Os cães mais próximos, os que ainda não tinham conseguido fugir das jaulas amachucadas com os trambulhões, protestaram:
- Não durmas ainda, Senhor! Salva-nos, salva-nos agora!
E logo outros das jaulas contíguas, mas que não conseguiam ver o que se passava, juntaram-se ao coro uivando «Salva-nos, salva-nos!»
A Magrizela suspirou.
- Tomem conta dele - pediu. - Vou ali pedir ajuda!
E lá foi, no seu trote coxo, corredor afora.
O seu Primo Carlinhos e o Diabrete a atavam o gigantesco Guarda o melhor possível com uns arames enquanto os atakadores, em delírio, se tinham batido uns com os outros pelas ilhós e estavam num novelo inextricável. Os sapatos, esses jaziam de lado, todos retraçados.
- Vou passar dias a desenredá-los! - choramingava o Diabrete.
- Deixa lá, eu depois ajudo-te. - ofereceu-se o Carlinhos.
- Mas é que tu não sabes. É preciso untá-los com um azeitinho de primeira para ficarem bem soltinhos. Depois tens de mexer suavemente com um garfo, ir juntando mais azeite até formarem uma pasta uniforme. É assim que eles se vão separando, um a um, percebes? Tu agarras nesse com cuidadinho, secas com papel absorvente, passas por açucar em calda e guardas num saco lavado. Depois fazes a mesma coisa até ao último estar arranjadinho e fechas o saco até serem precisos outra vez.
A Magrizela aparecera neste meio tempo.
- Agora não há tempo para isso - ordenou ela. - Temos de levar o Senhor daqui antes que este acorde. Não pensem que ele não parte os arames com uma penada, tão a ouvir?
- Mas eu não posso ir... - gemeu o Diabrete. - São os meus bichinhos de estimação, olha para eles, não os posso levar assim!
- Ai não? - rosnou a Magrizela. - Queres ver que podes? Vocês aí! Já para dentro do saco!
Avançou para o molho dos atakadores com os dentes todos à mostra. Já não eram muitos, mas os atakadores começaram a tremer como geleia .
- Eu conto até três. Depois começo a retraçá-los à dentada que vocês nem sabem de que terra são! Um...
Com guinchinhos de pavor os filamentos começaram a separar-se.
- Tu és uma malvada! - choramingou o Diabrete. - Venham cá, meus pequeninos, venham ao papá...
- Dois...
Os atakadores, literalmente, saltaram para dentro do saquinho que os tinha trazido. Foi tão precipitado, Senhorinha, que o seu Primo Carlinhos só se lembrou do dia em que a Mãe ia abrir um pacote de esparguetes e ele se rompeu por baixo e a sua Tia desatou a chorar. Pois bem, era ao contrário: era como se os esparguetes arrependidos saltassem do chão, de debaixo do fogão, do frigorífico, dos armários de volta para o pacote e as lágrimas trepassem outra vez, rosto acima, até aos olhos da pobre Senhora.
Mas a Magrizela não consentiu em mais demoras:
- Agora toca a andar! Tu vai buscar a padiola e vê se arranjas ajuda. E tu, miúdo, anda depressa comigo. Sabe Deus o que eles vão fazer à Emplumada.
Correram de novo. O Deus-dos-Cães continuava estendido, completamente desacordado ou talvez estivesse só a aproveitar para dormir uma sesta: o certo é que nem se tinha mexido. O pequeno grupo de cães à sua volta, esse, porém, tinha engrossado a olhos vistos e entupia consideravelmente o corredor entre as jaulas.
- Deixem passar, deixem passar
Como, sob o comando firme da Magrizela, se organizou a procissão e o Deus-dos-Cães foi levado de padiola e o que aconteceu a tão estranho cortejo, só posso dizer amanhã ou depois porque já me doi a perna de estar aqui a dar ao pedal do carregador das baterias e, de qualquer modo, a manhã está a chegar.
Por isso, se a minha Gentil Senhorinha, as Nobres Damas que me lêem e os Valorosos Cavaleiros derem licença, vou ver se roubo qualquer coisita na cozinha enquanto as cozinheiras não entram ao serviço e não nos dão o pequeno almoço - que, deve dizer-se, geralmente é mesmo muito pequeno.
Mas, que se há-de fazer quando se está num Rilhafoles como este?
Pois. Eu também não sei.

quarta-feira, maio 23, 2007

O Cão que jogava xadrez XII

Mal aqui cheguei e a minha Senhorinha pergunta-me, não sem alguma legítima rispidez, por que razões estranhas não tenho dito nada acerca do seu Primo Carlinhos. Aceito a sua censura, minha Gentil interlocutora, como de si aceito tudo, menos, como sabe, que me pague o café e os cigarros quando me vem visitar e o bom tempo nos permite sentar ali a uma das mesas que o Sr. Jerónimo tem a fingir de esplanada.
Claro que não é segredo. Sempre que a enfermeira me diz com aquele ar de quem julga que está a fazer troça «a tua Menina vem para a semana» e acrescenta «agora não vás para a rua pedir esmola, ouviste?», é claro que é isso mesmo o que eu vou fazer.
Passeio acima, passeio abaixo, com o uniforme de presidiário que nos dão aqui no asilo e a pulseira electrónica bem à vista no pulso esquerdo, há sempre quem se condoa de nós e nos dê uma moedita de vinte centavos, raramente de mais, mas ao fim de dois ou três dias já tenho os cinco ou seis eurozitos que são precisos.
Nunca tínhamos falado nisto, bem sei, e nunca o faríamos se não soubesse eu perfeitamente que as enfermeiras, com o seu arzinho maternal, têm um prazer sádico em contar tudo o que é suposto humilhar os pacientes.
Mesmo assim, só menciono este facto porque, como sabe, a lanterna à luz da qual trabalho durante a noite na secretaria ficou sem pilhas.
E de que me havia eu de lembrar?
Há uma loja chinesa ao fundo da calçada, daquelas que é um mundo inteiro de roupinhas pindéricas, brinquedos monstruosos que dão pesadelos às crianças – e a mim – plásticos garridos, detergentes, vassouras e ferramentas de todos os tipos. Teriam pilhas também?
Portando-me bem no refeitório e fingindo que estou a ver atentamente a telenovela, lá acham que eu estou «compensado» e têm-me deixado sair às tardes.
Hoje, já com dez euros e tal, lá entrei na loja e dirigi-me à chinesinha velhinha que estava atrás do balcão, mostrei-lhe a lanterna e perguntei se tinha pilhas.
Pacientemente, a senhora abriu um grosso dicionário, folheou para trás e para diante e perguntou, com voz doce e um sorriso cortês:
- Pila ou pilia?
- Pilha. Pi-lha!- repeti eu.
- Ah! Sim, sim, pilia. - seguiu com o dedinho fino as linhas do dicionário, parou e voltou atrás: -Pilia de empiliar ou pilia de piliar?
Abanei a cabeça, perplexo.
- Desculpe… Não estou a perceber…
Mais dicionário para trás, mais para a frente:
- Hunos piliar Roma ou carregador empiliar pilia de caixote?
- Não, não, desculpe. Não é nada disso. – e já a falar como ela: - Pilia de electricidade. Aqui, oh! Luz? Entende?
- Ah? – procurou de novo e o rosto iluminou-se-lhe: - Lâmpada! Vem, sim?
E partiu à minha frente, passinhos curtos, ao longo dos corredores até à secção das electricidades, à estante onde as lâmpadas opalescentes e de baixo consumo se empilhavam (empiliavam, creio) à mistura com fichas triplas, extensões e muitas mais coisas que não menciono para não enfastiar mais a minha Gentil Senhorinha nem as Respeitáveis Damas e os Cavaleiros que me lêem.
Imagino que estão, neste momento, a ver a minha desilusão: dias e dias para cima e para baixo no passeio, os olhares desdenhosos dos outros pacientes e dos médicos que entram e saem da consulta externa, e tudo para nada.
A senhora Chinesa, com o seu ar doce, aguardava que eu me decidisse e eu não sabia como explicar-lhe que, não, não era nada disso, quando... só posso chamar-lhe assim: o milagre voltou a acontecer. A velhinha inclinou-se para arrumar umas caixinhas com parafusos que estavam fora do lugar e destapou acidentalmente – mas haverá acidentes neste estranho universo? – um estranho engenhoco, pesadote e com um pedal.
Tinha encontrado, se não pilhas novas, ao menos um carregador de baterias por, o preço estava lá bem marcado, nove euros e noventa.
- Carregador de bateria? – perguntou a senhora abismada quando eu, saltitando de felicidade, lhe mostrava a minha escolha: - Não, não, não vende carregador de bateria. Carregador de todas coisas é meu neto, não pode vender …
Mas eu mostrei-lhe o objecto pretendido com muitos «aqui, aqui, carregador isto!» e ela, com o sorriso de novo iluminado, condescendeu em aceitar a nota de dez euros:
- Desculpa. Eu não percebida. Português difícil. Língua muito polissémica, sabe?
E ficámos mais um bocado a trocar ideias: não achava ela o inglês ainda mais polissémico do que as línguas latinas? Não achava eu que o chinês resolvia acertadamente a polissemia recorrendo aos diferentes tons e semitons?
Separámo-nos cordialmente, como velhos confrades.
E, Gentil Senhorinha, como vê pelo facto de estar aqui a falar consigo através da Internet, o carregador, mesmo sem ser neto da velha Senhora, carrega as pilhas perfeitamente.
Só tenho um problema que ainda não consegui resolver: como é que o vou esconder debaixo do colchão durante dias e dias, sem que ninguém note os altos que há-de fazer.

Mas, sejamos optimistas, talvez um novo milagre aconteça e a tempo de a odisseia do Seu Primo Carlinhos e da Magrizela serem contadas. E, quem sabe, até, se um dia destes não aparecerá o Zé Nesgas a dar umas ajudas para que tudo termine em bem?

quarta-feira, maio 09, 2007

O Cão que jogava xadrez XI

Para que serve uma tábua, mesmo com pregos, pergunto eu, ainda por cima ferrugentos? Contra um Gigante, daqueles mesmo grandes, que podem com um Deus debaixo do braço?
Quão pouco, Gentil Senhorinha, tem este seu chevalier servant para tirar o Carlinhos da sua perigosa situação!
É certo que mesmo atrás do seu Primo ia aos gritos o Diabrete:
- Ó balofo! Toma lá isto, pá! Tázóvir, ó coiso?
Mas, como o Carlinhos não parava, o Diabrete continuou a correr, aos gritos, e estou em crer que a massa de que se fazem os heróis é mesmo assim, um galope perdido, ninguém a ouvir ninguém, e o que tiver de acontecer, olha, aconteceu!
E digo-lhe, Senhorinha, e às benévolas Leitoras também, aos nobres Cavaleiros se se dignarem a escutar-me estes instantes: quando o Calinhos desembocou lá ao fundo, já o Gigante apanhado a Magrizela pelo cachaço.
Não havia lugar a hesitações e não hesitou. Trás! Foi direito à perna mais próxima e descarregou a paulada como pôde, um pouco acima do joelho, que mais alto não chegava.
Talvez tivesse sido um prego da tábua que se lhe cravou em sítio crítico, ou tão só a surpresa, quem sabe?
O gigantesco Guarda-Mor soltou um uivo disforme e tentou fazer tudo ao mesmo tempo. Dar dois saltos, tentar tirar a tábua ao Carlinhos com a mão que segurava a Magrizela e sem largar, do outro lado, o Deus-dos-Cães, era obra!
Quis meter a cadelita no bolso mas, como ela esperneava e tinha os poucos dentes que lhe restavam ferrados na manga do seu captor, o bolso rasgou-se.
Tentou dar um pontapé no Carlinhos e acertou com toda a força numa pilha de jaulas que desabou fragorosa por entre ganidos de susto, de dor dos canitos que caíram mais de cima e se aleijaram.
Foi nessa altura que o Diabrete que, se a Minha Senhorinha se recorda ainda, vinha a correr atrás do seu Primo, se decidiu a lançar a sua arma terrífica: os Atakadores.
Os sapatos das Gentis leitoras, regra geral não têm necessidade desse artifício, mas não há nenhuma que não conheça os efeitos deletérios desses seres abomináveis, parecidos com finíssimas enguias e, como elas, difíceis de agarrar.

Os Atakadores, dizem os cientistas, vivem obcecados pelas ilhós. Uma só não lhes chega para perpetuarem os seu genes, no mínimo querem sempre um par, o ideal são quatro ou cinco pares. Satisfeita, porém, a sua concupiscência, logo desatam à procura de novas ilhós, desfazem os laços, rojam-se pelo chão a cheirar os rastos e, mal encontram um rival atacam-no ferozmente, emaranham-se nele e, não raro acabam os dois por morrer, cortados ao meio pelos puxões um do outro.
Era essa a arma secreta do Diabrete.
Aproveitando o momento em que o Guarda-Mor desferia um segundo pontapé na direcção do Carlinhos – que já ia longe, a gritar «nha-nha-nhããã» – o Diabrete abriu o saquinho: os Atakadores precipitaram-se serpenteantes, instantaneamente apaixonados, para os sapatos do inimigo.
A Gentil Senhorinha perdoará a minha falta de talento se eu não conseguir mostrar em toda a sua extensão o efeito catastrófico de um ataque de atakadores no meio de um Canil Municipal, SA, onde todos os cães ladram, gatos, mais ao longe, miam desesperados, até um papagaio egresso de um destino culinário e a viver escondido lá por cima no telhado, gritava «Valha-me Deus, valha-me Deus!» num entusiasmo incontido.

O que aconteceu foi que os Atakadores descobriram as ilhós já ocupadas e não acharam graça nenhuma: engalfinharam-se numa luta de vida e de morte, e quando quis dar o passo seguinte na corrida para apanhar o Carlinhos, o gigantesco Guarda estatelou-se, a Magrizela voou pelos ares com um pedaço de manga nos dentes e só parou em cima do pobre Diabrete que berrava por socorro.

E o Deus-dos-Cães, esse achou maneira de se torcer na queda e aterrar na barriga do Gigante onde ressaltou a pés juntos como se fosse uma bola de ténis ou um acrobata em saltos de mesa alemã. Voou graciosamente num passo artístico, falhou por mais de um metro o passadiço e as Gentis Leitoras e os respeitáveis Cavaleiros nem imaginam o estrondo quando bateu com a cabeça numa viga de ferro mais lá em cima.

Ficarieis admirados se vos dissesse, Gentis Meninas e Minhas Senhoras, que e viga oscilou, que alguns tijolos na parede abriram fendas e que o Deus-dos-Cães tombou como uma pedra no meio de um dos corredores, ressaltou no chão de cimento, alguma coisa fez crrrrac como se se tivesse partido e ficou completamente imóvel.

Quer dizer, imóvel até ao momento em que a Magrizela, ainda muito combalida do trambolhão, veio a coxear dar-lhe uma lambidela no nariz que é o que se faz aos cachorrinhos constipados. Só nessa altura, quando o Deus-dos-Cães espirrou e disse «tira-te daqui, ó parvalhona!» a Magrizela que era mais para o agnóstica, acreditou que ele era de facto um Deus: só podia ser, com uma cabeça dura daquelas!

E o que aconteceu depois também foi interessante, mas a lanterna está a ficar sem pilhas e só dá uma luzinha de nada, por isso terão de me perdoar se tiver de deixar a continuação para amanhã. Para amanhã, claro, se o chinês ao fundo da rua tiver pilhas e se eu conseguir uns eurozitos que dêem para as comprar e, já agora, para um macito de cigarros, que a vida não pode ser assim tão virtuosa sem se tornar numa chatice.



sexta-feira, maio 04, 2007

O Cão que jogava xadrez X


Dizer que aquele Guarda era só um Guarda, pode parecer desdenhoso, como se ele fosse um simples guarda-portão, ou um GNR, ou coisa assim.
Como vê, Senhorinha, hoje decidi não perder tempo, atravessei corredores silenciosos iluminados pela nova lanterna, e aqui estou a responder aos apelos do seu primo Carlinhos que estava farto de estar parado nesta história. Mais impaciente ainda, estava a Magrizela:
- Então, esta treta não anda nem desanda? – perguntava ela. – Julgam que eu ainda tenho idade para engonhices? Pede lá à tua prima, fonix, não tens uma prima?
De modo que, Senhorinha, tendo-a a si como advogada, como poderia eu deixar de atender o apelo do Carlinhos, mais do que justo ainda por cima?
Hesito, no entanto: como resolver com uma boa intriga a situação em que se meteram o seu Primo (o Carlinhos, como já toda a gente sabe e que andava na sua demanda de um cão que jogasse… ah, já disse? Bom: ) e a Magrizela, toda ossos já artríticos, pelo cor-de-burro-quando-foge já a embranquecer, e um focinho bem-humorado quando não rosnava de impaciência, como me deve estar a fazer a mim neste momento.
O caso, se a minha Senhorinha e as Gentis Leitoras, depois disto tudo, ainda recordam é que, na sua correria para salvar a Emplumada, a Magrizela, seguida pelo aflito Carlinhos, se foi precipitar, por assim dizer, nos braços do Gigante que era o Guarda (mas Guarda-Mor, ou talvez o Presidente Director Geral da Guarda ou assim) e que trazia o Deus-dos-Cães debaixo do braço.
A primeira reacção da Magrizela foi ladrar:
- Tu, ó obeso! Larga já aí o Nosso Deus, tázóvir?
Coragem ou loucura, quem não esperou para saber foi o Carlinhos que meteu travões às quatro rodas e inverteu a marcha enquanto uma gargalhada ribombava pelos corredores, pior e mais sonora do que quando o Zé Nesgas tinha um ataque de tosse na aula de Educação Cívica sem conseguir falar.
Era o Priscas, ao lado, quem dizia: «ó Stora, o Nesgas tá aflito, eu vou lá fora com ele».
E logo o Tavares, «perá-í, qu’eu é que sei aquela coisa da respiração artificial» e outro «é preciso é os zérossóiszes, é melhor eu ir também» e todos tinham uma coisa para ajudar e iam saindo e a professora ficava com ar de choro a ouvir a tosse do Zé Nesgas no corredor.
O Carlinhos, às vezes até tinha pena dela, mas como não era maricas nenhum, ia também «Stora, se calhar a gente vai é ao hospital, eu vou lá dizer…»
Mas a tosse do Zé Nesgas que era meio a sério, não metia nem a metade do medo que metia gargalhada do Gigante a ouvir a Magrizela que lhe rosnava cá de baixo, rentinha ao chão.
Mas não foi, Senhorinha, a valentia da Magrizela o que fez parar o Carlinhos: tinha chegado ao fim dum corredor e lá do lado esquerdo, onde uma pilha de caixotes escondiam a continuação, a voz sumida do Diabrete chamava por ele.
- Por aqui ó beldroegas! – o nariz preto e os olhos desmesuradamente abertos espreitavam por trás de umas tábuas. - Esconde-te, pá!
O Carlinhos parou para respirar fundo e a voz saiu-lhe rouca:
- Man, e a minha dona? Qu’é qu’eu faço?
- Pá, a gaja desengoma-se! E depois, já é velha, pá. Esconde-te.
O Carlinhos ainda hesitou, mas lembrou-se, isso é que foi, daquela vez em que o gajo da Secundária Alfredo Arroja o tinha agarrado pelo capuz do anoraque e «chavalo, manda aí os trocos»!
O Tó Pires tinha desatado logo a correr rua abaixo.
E o Zé Nesgas lá do palmo e a terça de altura pusera-se a crescer para o grande:
- Trocos o quê, ó mongas? Julgas qu’és o maior, julgas? Trocos é, mas é isto!
E, de lá de baixo, espetou bem em evidência um dedo malcriadíssimo de que, Senhorinha, nem ouso sequer insinuar o significado.
Claro, levaram os dois na tromba e ficaram sem os trocos à mesma. Mas foi baratinho para ficarem assim amigos e depois deu à vontade para mês e meio de gabarolice lá na Escola.
E agora era ele quem ia, por assim dizer, a fugir rua abaixo como o Tó Pires e a abandonar a Magrizela?
Não, poças!
À falta de outra coisa, deitou a mão a uma tábua ainda com pregos e correu rua acima:
- Dá-lhe com força! – gritavam os cães lá das jaulas. – Arreia-lhe…
Também o Diabrete aterrorizado vinha a correr atrás dele:
- Ele vai-te matar! Toma lá isto… Ó parvalhão, ao menos toma lá isto!
O que tinha o Diabrete para dar ao seu Primo Carlinhos e que serventia pode ter uma tábua contra um Gigante, a minha Gentil Senhorinha, só vai poder saber na próxima vez. A aurora, para mal dos meus pecados, já começou a tingir de púrpura os vidros foscos das janelas e não tarda nada é a hora da ronda e dos remédios.
E eu tenho de fingir que ainda estou mergulhado num sono profundo.
Não vai ser difícil. Já há dias que passo as noites em branco.