quarta-feira, abril 09, 2008

A Batalha de Não-sei-onde e os anos da Gi


Carlinhos - Heu... a gente vinha... quer dizer, a gente queria era vir e ser assim os primeiros, tá a ver, S'Dona Gi? Mas ela, ali, a Magrizela, ficou a experimentar saias e a dizer que as flores eram chungosas e isso. Só o Trabuco, que é aquela ratazana a fingir de cão que o Zé Nesgas arranjou, tá ver, S'Dona Gi, ele ficou a roer-se de inveja de eu ter a Magrizela...
Zé Nesgas - Tu? Tens o quê, man? Tu tens é pregos...
Carlinhos - Da-hã... Tu não estás flipado, assim do neurónio, nem nada? Deixaste ou não deixaste que o teu Trabuco trouxesse o osso para dar à Dona Gi?
Zé Nesgas - Oh pra ele! Man, pá, tou admirado! O génio chegou aí e faltou-lhe o gasóleo. (pausa) Charlie, man, tu não tás é a ver: o Trabuco trazia o que lá tinha de melhor, o mais saboroso, man, o mais suculento.
Carlinhos - Pois, e o mais aromático... Era cá um aroma que até apagava a chama olímpica, nem era preciso ser solidário com o Tibete.
Zé Nesgas - Tibete. Ah... pois, não me tinha lembrado... Mas sabes? Havia de se fazer um congresso pra arranjar um mais burro qu'a tu e n'haviam de conseguir.
Carlinhos (agarrando o Zé Nesgas pelas bandas do casaco) - Ah é?
(Envolvem-se numa bela escaramuça, qual de baixo qual de cima.)
Magrizela (suspirando ruidosamente:) - Desculpe, Gi. Nós vínhamos só para lhe dar os parabéns e trazer-lhe estas florinhas... Mas, desde que eu deixei de ser cadela, aqueles dois são piores que o gato e o rato. Fiz quinze anos, se continuasse cão estava à beira de morrer, tinha acabado o que quer que por cá andasse a fazer... Não me queixo de me ter tornado mulher, claro. Viverei mais quatro ou cinco vidas de cão, ainda não sei a que preço. Poderei ter filhos outra vez, e outra, e outra, daquele tonto do Carlinhos, em calhando...
Mas tive de aprender a negociar o tempo. E eu... eu tenho aprendido umas coisas, sabe? Uso o sutiã número trinta e quatro B, os sapatos trinta e seis, e tenho de tomar a pílula para que não nasçam cachorrinhos antes de termos tudo o que é preciso para os amarmos. Sei estas coisas, mas não sei porquê. Cada dia tem de se aprender uma nova regra, um canon novo, um novo preceito. É como, tá a ver, é como se a vida fosse uma coisa assim miudinha. Mas o porquê, o porquê último, isso que era evidente quando eu era só uma cadela... a Gi sabe? A Gi sabe se os homenzinhos amarelentos que nos cobrem fazem alguma ideia sobre isso?
E pronto, aqueles patetas já acabaram de brigar... São tão queridos e tão tolinhos, não são?
Olha, enquanto eles não chegam: muitas felicidades para ti, para os teus cachorrinhos e para os cachorrinhos dos teus cachorrinhos...
Carlinhos - Desculpe, S'Dona Gi.
Zé Nesgas - Tem de dar o desconto, ele é parvo.
Carlinhos - Outra vez?
Zé Nesgas - Outra vez o quê? Não percebes que tu és como aqueles cartões do supermercado? Tem cartão interpingo-modelo? Ao fim de cinquenta pontos, zás, temos direito a dar-te uma no focinho?
Carlinhos - E tu, não sabes que tu és do género férias em Punta Cana? Esmurra-se já e paga-se em vinte anos?
Magrizela - Nossa Senhora! (Canta:) Parabéns para a Gi, nesta data querida...
Zé Nesgas (emendando:) - Parabéns a você! Parabéns a você é que é!
Carlinhos - ~Você? Você é estrebaria, ó mongas...
Cai o pano. Em fundo ouve-se discutir enquanto a Magrizela canta o «Parabéns para si».

sexta-feira, abril 04, 2008

Joseph Ratzinger V

Francamente! Não me lembro de os Bispos de ali ao lado, nas Espanhas, terem sido chamados ao Vaticano e, em calhando, nem era preciso.
Mas os nossos foram. Não sei porquê: pinta-me que se andavam a portar mal. Tolerantes? Acomodados?
Não que se tivessem tornado verdadeiros pais, sofredores com o rebanho dos seus filhos, padres de espírito conciliar chamando à Igreja os mais humildes.
Não. Não era bem isso.
Mas, num povo de costumes tão brandos, irritável e agressor, sim, por vezes, mas logo manso e arrependido?
Melhor era que se deixasse estar, não era nenhuma fera, mas porquê acordá-lo? Talvez não mostrasse ameaçadoras presas, mas disparate era o mais provável.
O Senhor Papa, porém, é teutónico! Duvido que entenda estas nossas subtilezas. Para ele o pão é pão e o queijo é queijo.
A religião, sendo uma velhíssima hitória, é um património com dois mil anos. A Hierarquia é a sua única proprietária, a sua única intérprete com patente registada, a única dispensadora da Graça e do Perdão. Perdoarás a quem te ofendeu? Não. O Perdão é um dom divino que só a Hierarquia pode dispensar.
Amarás o próximo como a ti mesmo? Sim, desde que perguntes ao teu «legítimo Superior» quem, e o que fez para ser o teu próximo.
Pôr termo ao laxismo, como se vê, era imperioso.
E, se os Bispos nuestros hermanos endureceram as suas atitudes, ao ponto, por exemplo, de apelarem ao voto contra os partidos que aprovaram o casamento de homossexuais - os da esquerda, óbvio, se estes pobres socialistas como se chamam, ainda o são... - a Conferência Episcopal Portuguesa reelegeu o Senhor D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga.
Nada contra.
Os Senhores Bispos que elejam quem muito bem puderem.
Mas que o eleito corra logo a gritar «ah! sacrilégio! laicismo! ateus! expulsaram-nos da praça pública!», isso já não parece tão curial.
Tanto mais que, já antes tinha saído a terreiro a clamar que iam proibir a assistência religiosa nos hospitais e por aí fora. Não era bem verdade, mas que importa?
Se, de facto, ainda não vimos ninguém do governo, ou mesmo fora dele, sair para a rua a gritar horrorosos insultos como «católicos!» ou «papa-missas!», também não deixa de ser facto que, cada vez mais, as pessoas se divorciam sem pedir conselho espiritual, que se juntam em pecado em vez de casar como deve ser. E agora as mulheres até já podem abortar legalmente em vez de se submeterem à penitência do opróbrio e do vão de escada, ao medo e à dor.
É o escândalo, percebem?
Quase tão mau como rezar a Santa Missa de frente para os fiéis, numa língua que eles entendem.
Ah, caramba!
Que o Papa seja infalível... pois. Tem de ser.
Mas o João XXIII, Senhor... ?
Porque nos dais tanta dor? Porque padecemos assim?

sexta-feira, março 28, 2008

É a saúde, estúpido!


Malpecado
Acto único, cena única

A cena passa-se no consultório. O Médico está sozinho. Ouve-se a voz da recepcionista:)
Recepcionista (de fora) - Faz favor de entrar.

Paciente (entrando) - Obrigado. Como está, Soutor? Eu vinha cá para mostrar assim aquelas radigrafias que me mandou fazer, e as análises...

Médico - Sente-se, homem! (o paciente executa) Análises? Pra quê?

Paciente - Para quê?

Médico - Sim, análises, radiografias, toda essa treta para quê? (pausa) Basta olhar para si. (apontando um dedo:) Clinicamente morto.

Paciente - Desculpe, Soutor, mas...

Médico - Deixe ver as unhas (o doente mostra). Unhas raiadas, vê estes riscos? E arroxeadas. Não sente uma dor aí, por de baixo do mamilo esquerdo?

Paciente (com alívio) - Não, isso não...

Médico - Pode ser um bocado mais abaixo. Está cheio de gordura no fígado.

Paciente - Mas não sinto, não.

Médico - Vai sentir. É um sintoma que nunca falha. Pode ser da próstata. Quantas vezes é que se levanta durante a noite para ir mijar?

Paciente - Não. Pronto, quer dizeer, é muito raro, Soutor. Claro, às vezes, assim com os rapazes, um petisco, bebe-se um pouco mais de cerveja...

Médico - Cerveja? O meu amigo bebe cerveja? Nesse estado e bebe cerveja?

Paciente - Não, é só umas canecas de vez em quando. Mas, ó Soutor, qual estado? O Soutor não...

Médico (interrompe) - Pá! O amigo é que sabe, pá. Apanhe as bebedeiras que lhe apetecer. Mas não me venha para cá dizer que lhe dói o fígado. (abre o envelope e tira uma folha de papel) Olha-me só para esta ósteo: zero, setecentos e setenta e cinco gramas por centímetro quadrado.

Paciente - Gramas por centímetro quadrado?

Médico - Sim. Quadrado. Queria que fosse redondo, ia à Caixa. Isto é um consultório a sério.

Paciente - Não. É só porque gramas por centímetro quadrado não faz sentido. Um centímetro quadrado tem espessura zero, como é que pode ter peso?

Médico (enche-se de paciência) - Pá! Olhe, meu amigo! Os gajos andaram mais de vinte anos a calibrar esta merda e o meu amigo vem-me para aqui com gaitas? E eu a aturá-lo? Ou quer ou não quer, porra! Eu digo as coisas: olhe-me esse fígado, essa dor vai-se agravar, pá, não toma cuidado, e depois, bumba! Missa de sétimo dia e tal... começam à conversa, pois, o médico é que não viu nada. E vêm os seus cunhados, os seus primos, essa gente, ai coitadinho, era tão bom chefe de família, e bumba: processa-se o médico, que, por acaso até sou eu. Acha bem?

Paciente - Não, oiça Doutor...

Médico - Não faz mal. Não diga nada! Eu já estou habituado, quero lá saber! Até já sei porque é que o meu amigo cá veio! Quer viagra! Todos querem!

Paciente - Ó Soutor, desculpe! Aguente aí os cavalos!

Médico - Mas não quer viagra? Olha, é estranho.

Paciente - Não. Sim, quero, mas não é bem isso.

Médico - É o quê, então?

Paciente - Pronto, Doutor, é assim: eu ando a deixar de beber e de fumar, essas coisas que fazem mal, é o que se diz...

Médico - Meu filho! Meu irmão! Tu fumas?

Paciente - Pois, Senhor Doutor, infelizmente...

Médico - Pá! Tu fumas e não dizias nada? (abre a gaveta e extrai um tabuleiro com tabacos vários:) Fumas o quê? Eu vou tirar um destes. Recomendo-tos: puros!

Paciente - Ena pai! Tem aí Stagonov, um dos melhores tabacos do mundo. Dá-me licença de que encha um cachimbo? (executa) E podemos fumar aqui no consultório?

Médico (acendendo o charuto) - Se prometes que não dizes nada à Asae... Ah...

Paciente (acende o cachimbo) - Hum...

Médico - É... também estava a precisar... hum... Afinal, veio cá porquê?

Paciente - É que não consigo deixar de fumar, está a ver? E sabe, com um copo ou outro...

Médico - Sei, ó se sei! (tira de baixo da secretária dois cálices e uma garrafa e começa a servir) Vai uma gota? É uma aguardentezinha bagaceira, destilada à saída do lagar. É tão boa, pá, que já deve ser proíbida.

Paciente - Agradeço... (prova e estala a língua ) Preciosa! Tintos da Estremadura, talvez ali mais perto do Ribatejo... Alenquer! Não, Carregado ou Azambuja! Acertei?

Médico - Quase! Vila Nova da Raínha. Uma quinta de uns amigos meus. Lá é que ainda se vive bem. Cavalos, dinheiros da Cê-é-é... Ainda bem, que lhes preste! Ao menos sempre sobra alguma coisa.

Paciente - Pois. Ele há coisas... Esta bagaceira, os enchidos... Às vezes sinto-me assim esquisito. Não é que eu seja religioso, mas penso que Deus nos está a castigar, só assim, por sermos felizes e estarmos bem. E pronto, tenho medo. Tenho medo das cirroses, tenho medo dum a-vê-cê, tenho medo do cancro... é mesmo verdade que o tabaco é cancerígeno?

Médico (mirando o charuto) - É. Receio bem que seja mesmo. Mas sabes uma coisa? Há uma vacina porreirinha contra tudo isso. Amandas-te do nono andar, com a cabeça para baixo de preferência. 100% de eficácia. É um bocado radical, mas garanto-te que não apanhas mais doença nenhuma!

Paciente - Porra! Prefiro este cachimbo.

Médico - Viver é cancerígeno, pá. Não sabias? Mas olha, podes fazer como o palerma do chinês: sentas-te à beira do rio e esperas o tempo suficiente. Verás o cadáver dos teus cancros passar na corrente. Olha, e se não vires, também não perdeste nada. Ganhaste o teu cachimbo, não foi? E, meu caro amigo, vou-lhe passar a receita do viagra enquanto acaba o seu copo. Trate-me, mas é desse seu dente: com o bagaço e o tabaco de cachimbo, vai ficar com um mau hálito do caraças.

(cai o pano)

terça-feira, março 25, 2008

Numming Up

- A 5 de Outubro, man? É já ali.
Não acreditam?

Estou a rir-me devagarinho, para mim mesmo porque o meu cão dorme e não há mais ninguém nas redondezas. Não que, reconheço, o motivo desta minha íntima risota tenha piada. Aqui para nós, o acontecimento careceu mesmo em absoluto de um grama que fosse de sentido de humor.

Uma Professora (1), algures lá para o Norte, passou-se dos carretos, apreendeu um telemóvel. A proprietária do dito, em histeria completa, tentou arrancar-lho. Gestos largos, gritos agudos, empurrões.

Se fossem homens, teria havido um grito viril: «agarrem-me, senão eu mato-o!» Como eram mulheres, faltou o arrancar de cabelos para que se cumprisse a tradição.


Sobre esta caricata cena que nos chegou através, aí sim, do sentido de humor dum outro pssuidor de telemóvel com câmara de video, não vou perder o meu tempo e menos ainda o meu parco latim.

Já se condenou toda a gente, desde a aluna agressiva, ao ministério, ao ensino público, à degradação da Autoridade (com maiúscula, está bem de ver) quer da Escola, quer dos Educadores.

Não faltou sequer o parecer jurídico (é inconstitucional a aprensão do objecto, mesmo que esteja no regulamento da Escola), nem a Psicologia.

Não era o Dr. Eduardo Sá aquele Senhor que no You Tube tecia suaves (mas contundentes) críticas à actuação da Professora, a qual devia ter feito e acontecido em vez de taratátá & companhia?


Renitente embora, vou-vos confessar uma coisa: comecei a trabalhar há bué da anos. Não sei, talvez em 1964. E fui professor, pela primeira vez a sério, no ano lectivo de 1972/73. E houve coisas que fui aprendendo, daqui e dali, frases feitas, por vezes.

Uma delas, particularmente acutilante, foi-me ensinada pelo Leonel Pires Lourenço, que Deus lhe fale na alma.

Trabalhávamos ambos na rádio e era ainda o tempo em que os circuitos integrados, último grito da técnica, faziam a sua entrada nos hábitos dos nossos engenheiros. As válvulas, as lâmpadas e os bicórdios eram a mais prudente aposta da tecnologia nacional e predominavam por todo o lado.

Ninguém já faz ideia do que era a nossa central técnica numa tarde de Domingo, quando os relatos de futebol eram escutados religiosamente por tudo o que era lado. Os clubes, da primeira divisão à terceira distrital, jogavam todos ao mesmo tempo. Havia dezenas de bicórdios a sair dos bastidores, a ligar os relatores dos futebóis aos amplificadores, tudo simultaneamente no ar.

Necessariamente, na coordenação de centenas de ligações, alguma coisa havia de falhar. Porém, se nos criticavam os erros de operação indistinguíveis, aliás, das falhas do material, o Leonel ria-se pelo canto da boca e atirava:

- Ai é? Então venham cá vocês fazer c'a tromba!

A tromba em questão não era, como poderia ocorrer a um menos precavido, o lisonjeiro apêndice nasal do elefante. Era mesmo a tromba do porco.

Uma sala de aula é, com as devidas distâncias, uma complicação ainda maior do que a da nossa Central Técnica.

Lembram-se dos Telebes, ou lá o que era? Lembram-se da discussão sobre o regime de faltas dos alunos?

Às trapalhadas do Ministério que quer controlar tudo, junta-se a trapalhada das educações improvisadas por pais incompetentes, a luta pela conquista do mercado pelas editoras escolares. À banalização dos divertimentos nocturnos, com as variadas intoxicações, veio juntar-se a evolução tecnológica, que dotou cada criança, cada adolescente de acrescidos meios de estarem «noutra».

As probibilidades de uma aula falhar tornaram-se demasiado altas. A pobre Professora lá do Norte que se passou dos carretos, tem o meu inteiro apoio se gritar de lá a sua indignação:
- Venham cá vocês refocilar nesta estrumeira, a ver se fazem melhor!


Mas o que é que está errado então, perguntais?

Era uma tentação esticar agora o dedo acusador e disparar em todas as direções. Este mundo da educação está de tal modo coberto de alvos que nem precisava de apontar: acertava sempre, quase como os soldados americanos no Iraque. Disparem para onde dispararem, acertam sempre num inimigo.

Mas não. Recuso-me a tentar responder, e isto por duas ordens de razões bem distintas entre si.

A primeira é esta: não quero acrescentar ao fungagá que já se gerou, a mão cheia dos meus próprios palpites. Já estou muito cansado, quer das soluções milagreiras, como, para dar um exemplo, o cheque ensino dos Blasfemos, quer dos pequeninos remendos paliativos que cosem de um lado para esgarçar do outro.

É que uma discussão a sério teria de começar por questões tão vastas como:
- Queremos ensinar, queremos formar, queremos formatar? Queremos educar? Para quê? Quem? E devemos obrigar a aprender? E podemos fazê-lo? Quanto queremos gastar?
- Ah, bom! Queremos tudo, mas não há verba, é isso? Então, vão-se lixar e não chateiem.

A segunda das razões é muito mais simples: falar do Ensino era, para mim, falar da minha vida quase toda. E ainda não me apetece fazer balanços finais (ou os Summing up, para fingir que também sei falar estrangeiro). É só isso. Sorry.

Deixem-me só acrescentar mais uma coisa: quando ainda andava pela rádio, no meio da insurreição de Abril e nas confusões que se lhe seguiram, uma muito querida amiga ensinou-me mais uma das máximas que passaram a acompanhar-me desde então e que seria digna de Lao-Tzé:
Quanto maior era a asneira dos nossos Directores, quanto mais flagrante a falta de senso - e de decência, por vezes - maior era o seu sorriso.
- Pagam-nos mal, - dizia. - Mas divertem-nos muito.
Compreendem porque é que eu disse, lá em cima, no início do post, que me estava a rir baixinho?

(1) Os senhores professores universitários gostariam que reservássemos «Professor», por extenso e com maiúscula, a um dos graus da sua hierarquia. Como não são eles quem nos paga e, confessemos, nos divertem pouco, o melhor é não ligar.

sexta-feira, março 21, 2008

terça-feira, março 11, 2008

A Sala Magenta


O José Rodrigues Miguéis tinha pouca sorte com os barbeiros.
Eu, salvas as devidas distâncias, é com os escritores portugueses que tenho azar. Aos maiores, não os leio. Confesso o meu mau gosto: nem a Agostina, nem o Mário Cláudio, nem o Lobo Antunes. O José Saramago vou lendo, mas nem sempre com o mesmo gosto.
Saudei, como toda a gente o Memorial do Convento, mas não o reli. Da Jangada de Pedra, sim. Gostei e releio-o uma vez por outra. Detestei aquele do Cerco de Lisboa, voltei a gostar do Todos os nomes e nem por isso do Evangelho. E por aí fora.
Depois, começa o meu azar.
A Fernanda Botelho faleceu. Ponto final.
A Ana Teresa Pereira, com uma escrita linda, para minha perplexidade, parece-me andar a reescrever sempre o mesmo livro. O defeito, certamente, é meu. Mas que fazer?
A Beatriz Lamas de Oliveira, essa, que eu saiba, escreveu um só livro. Se alguém souber de outros, por favor, avise-me. Correrei Seca e Meca para os achar, mesmo correndo o risco, como a Raínha Victória quando mandou comprar a obra completa de Lewis Carroll, de me achar com um tratado de topologia nas mãos. Até lá, passo melancólico pela estante, pego n'O Insecto Imperfeito que já conheço quase de cor e penso que há desperdícios imperdoáveis. O desta escritora, por exemplo.

O Paulo Castilho foi também, durante alguns anos, aquele autor cujo aparecimento nos escaparates eu vigiava ansioso. Não que tivesse gostado particularmente de Fora de Horas. Mas, se me permitem o pretenciosismo, percebia-se que estava ali um escritor. E Sinais exteriores, depois Parte incerta, confirmaram-me no meu interesse. Finalmente veio o Por outras palavras. Já lá vão vários anos. Desde então para cá, continuo a procurar em vão a letra «C» nas prateleiras das livrarias e a reler, de vez em quando as ...Outras palavras, os Sinais. Algum amigo (certamente mais do alheio do que meu) ficou-me com a Parte incerta. Procuro-a, até hoje, pelos alfarrabistas porque não há reedições.
É a isto que eu chamo pouca sorte.

Há também o João Aguiar.
Explêndido o Navegador Solitário.
Divertido e imaginativo com O Homem sem nome e com a Encomendação das almas. E com o juvenil O Sétimo Herói.
Que importam os dois primeiros livros da sua trilogia inspirada em Macau se o último, A Catedral verde, se lê de penalti, como fazem os miúdos com os shots nas discotecas e os pedreiros nas tabernas com copos de três?
No meu pouco modesto critério, a marca de um bom livro (ou como dizia o Professor Manuel Antunes, de um óptimo livro) é que vale a pena relê-lo. E o Diálogo das Compensadas, a par com Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Gabriela Cravo e Canela, A cidade e as serras e poucos mais, lê-se sempre com o mesmo prazer, como se fosse um livro novo. Se só pudesse levar dez livros para uma ilha deserta, as Flores ou o Corvo, vá lá, eu recusava-me a ir, claro.
Mas, se fossem cem ou cento e cinquenta... levava as Compensadas e ia. Tinham era de me jurar que nem o Cavaco nem o Sócrates passavam por lá em visita de Estado. (Aqui para nós que ninguém nos ouve, que história é essa das presidências abertas? Porque é que não as fecham e não as enterram bem fundo? Não há já poluição que chegue? Desculpem. Onde é que íamos? Ah, sim:)
No entanto, será impressão minha ou o João Aguiar está em crise? Se ele me perdoa, O jardim das delícias é repetitivo. Como nos livros da Ana Teresa Pereira, eu tive a impressão de que já o tinha lido e relido não há muito tempo. Dos livros infantis, prefiro não dizer nada. E o Neandertalzinho do Lapedo parece-me bom jornalismo, muito interessante, primorosamente escrito, mas só isso. Bem sei, já são qualidades que cheguem. Mas eu continuo à espera de outro Navegador solitário que não há meio de vir.
Pouca sorte? Espero bem que não. Já estou a bater com os nós dos dedos na madeira e a dizer «lagarto, lagarto, lagarto!»
Mas não o tenho procurado pelas livrarias da Baixa com o empenho que dantes soía.

O terceiro dos autores portugueses cuja escrita tento acompanhar é o Mário de Carvalho. O primeiro livro que dele li, há já vários e tormentosos anos, foi A paixão do Conde de Fróis. Mesmo sendo radicalmente desconfiado de narrativas illo temporais, gostei da novela. O Mário de Carvalho conseguia não lhe dar um tom bafiento, erudito-gradioso. E havia, lá por trás, sempre presente, um sólido cepticismo, uma concepção sarcástica do heroísmo pátrio, do nacional politiquismo. Mas devo dizer que só prestei realmente atenção ao escritor a partir do Era bom que trocássemos ums ideias sobre o assunto. Erro meu. Em vez de ter lido logo Os Alferes, ainda ando à procura deles. Encontrei o Fabulário, os Casos do Beco das Sardinheiras, mas não os Quatrocentos mil sestércios.

Foi, no entanto, a Fantasia para dois coronéis e uma piscina, talvez o menos «sério» de todos os seus livros, a lembrar a magia de Casos, o que eu mais gostei. Nos Casos havia quem engolisse a Lua, uma torneira que se abria no Céu, confundia-se "o Manel Germano com o género humano".

Na Fantasia aparecem deuses pendurados nas árvores, seguimos atentamente as impressões trocadas entre um melro e um mocho, assistimos à destruição dos vestígios de uma vila romana e à odisseia marítima de uma Renault 4.

Tudo podia acontecer e acontece mesmo. Uma claque de desportivos quadrúpedes destrói uma estação de serviço na auto-estrada e o «mocinho» desta fantasiosa cavalgada, heróico escaquista (onde raio foi o Mário de Carvalho desencantar este sinónimo de jogador de xadrêz?) aproveita para se deixar seduzir pela bar-tender da cafetaria. O realismo fantástico, que não raro apanha o escritor numa núvem espessa de misticismo (como aconteceu com a Isabel Allende, com o Didier van Couwelaert e o próprio João Aguiar), é no Mário de Carvalho assumido como paródia e como paródia deve ser lido. Tudo é fogo de artifício: da política ao heróico patriotismo, das velhas gerações inúteis dos anos sessenta aos jovens Cláudios a cumprir pena por delitos vários, drogas diversas, orfandades múltiplas.

E, de súbito, um'A sala magenta.

«Magenta» é uma cor. Entre o vermelho e o azul, uma cor quente e uma fria, aí está o «fúcsia», a cor feminina por excelência. As deusas já não precisam de se pendurar nas árvores, na torre das igrejas: estão por todo o lado nas paredes magenta.

"Não sei se é uma história de amor, se é uma história de paixão", diz o autor a Rodrigues da Silva numa entrevista. "E de raiva e de ressentimento, também."

O romance também não nos esclarece. Pode ser que tenha uma continuação, como Os três mosqueteiros em Vinte anos depois.

Pouca sorte. Vamos ter de aguardar.

segunda-feira, março 10, 2008

Aviso:

O Portugal, Caramba
anda em reparações
e não tem podido manter a sua actividade normal
(se é que a «sua actividade» alguma vez foi normal,
mas enfim!)
Confiemos no Sapo.

sábado, março 01, 2008

Doze palavras não ditas e retornadas...

A primeira foi a do Sinal;
a segunda a da Balança;
a terceira é a do Braço Dado.
Olha que são três.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Doze palavras ditas e não retornadas... 2

A segunda é a da balança.
Qual é?
Se já descobriu, pronto.
A caixinha dos comentários espera por si.

Xarope Peitoral de James, caramba!

Este blog chama-se Portugal, Caramba! por uma razão simples. Quem leu A ilustre casa de Ramires há-de lembrar-se da simpática figura do «Castanheiro Patriotinheiro» que, ainda estudante em Coímbra, "fundara um semanário, a Pátria - com o alevantado intento", diz Eça de Queiroz, "de despertar [...] em todo o País, do cabo Sileiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido das belezas, das grandezas e das glórias de Portugal!»
Três números depois, como acontece com as revistas dos estudantes, a Pátria suspendia a circulação. Mas a vocação do Castanheiro, o seu pequeno degrau para o sucesso, não ficava esquecido.

E é este mesmo Castanheiro quem, anos mais tarde, no Rossio, Gonçalo Mendes Ramires volta a encontrar, com um grosso in folio debaixo do braço, ocupado de novo com o ressurgimento da Pátria:
«Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam - ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de James, hem? E que todos o adoptem - ao menos como se adoptou o sabão do Congo, hem? [...] Como? Reatando a tradição, caramba!»

Um século mais tarde (mais coisa, menos coisa), onde está esse Portugal que deveria ser propagandeado, gritado aos quatro ventos, tão conhecido, digamos, não já como o sabão do Congo, mas, ao menos, como a Floribela?

A tal «tradição» do Castanheiro, a «tradição, caramba!», foi reatada.

É em seu nome que gloriosos estudantes universitários, dizem eles, fazem ressurgir a Pátria: à humilhação dos seus colegas recém chegados chamam praxe. Obriga-se o caloiro a tarefas impossíveis, castiga-se o caloiro, besunta-se com esterco, obrigam-no a embebedar-se, a simular o acto sexual sabe Deus com quem.

Os bons exemplos não faltam:

Uma aluna declara que "foi obrigada a colocar-se de joelhos e que foi barrada com escrementos de porco (cara, pescoço, peito, costas, barriga, cabelo) por um grupo de caloiros que agiram sob ordens (...) Diz ainda que chorou, sentiu náuseas, foi humilhada, que se declarou anti-praxe. Mas que, regressada à escola, outro aluno ordenou que a agarrassem pelas pernas e lhe mergulhassem a cabeça num bacio com excrementos." (Público, 15 de Fevereiro)

"Obrigaram-me a colocar na posição de 'Elefante Pensador' (de joelhos, cabeça no chão e as mãos debaixo dos joelhos com as palmas viradas para cima)", diz a mesma aluna.

É uma posição "bastante dolorosa", garante outra caloira. (Idem, 13 de Fevereiro)

Depois, foi esfregada com esterco: "camada sobre camada, esfregaram-me a cara, pescoço, peito, costas, barriga, cabelo."

E tudo, decerto, em nome da tradição. Dessa tradição tão portuguesa que dá novos mundos ao Mundo. Se os camonas de Abu-Garib julgavam que tinham inventado alguma coisa, bem se enganavam. Os jovens tradicionalistas portugueses dão lições seja a quem for, em qualquer dia da semana.

As autoridades Académicas, os antigos Alunos, a própria Polícia, toda a gente se mostra tolerante:

«Pá! Sempre foi assim», diz um mais velho que passou por Coimbra em tempos já muito idos.

«Também passámos por isso e não morremos», garante outro.

E, com um sorriso constrangido, o Senhor Director da Faculdade, quiçá mesmo o Magnífico Reitor, fala em «rapaziadas» e em «espírito Académico».

"É um cúmlice", juraria o Portugal, Caramba. "Não foi à vinha, mas ficou à espreita."

Em privado, descontraído no sofá de orelhas, com o whisky numa mão, o «havano» na outra, o Magnífico encolhe os ombros, "pá, que é que tu queres? se aperto as regras, os gajos piram-se! É a concorrência! E depois? Quem é que nos pagava os ordenados?"

Em público, com o prestígio da sua escola em jogo, às vezes perde a cabeça. Precipita-se. Convoca o mais depressa que pode a conferência de imprensa e denuncia ele-próprio as mazelas que, se pensasse bem, havia de esconder.

Um funcionário não discriminado - professor, contínuo, escriturário, sabe Deus! - terá saltado para as intimidades de uma aluna e, oh azar! Engravidou-a; melhor, a gravidez surgiu, porque ninguém engravida ninguém sozinho.

Nada de novo.

Já ouvi esta hitória mais de cem vezes. O velho profe, o burocrata-chefe, a meio caminho da caquexia, deixam-se tentar pelo corpinho ágil e vibrante de animalzinho jovem: a aluna. Ela, por sua vez, deslumbrada pelo saber, pela posição social de poder, abre-se! Alma, coração, corpo.

Depois, tudo falha. O funcionário não quer outro filho, não quer tomar conta de uma gajinha que só lhe interessava por causa da cueca - se nos perdoarem o plebeísmo.

Só, ao fim de cinco meses de gravidez, a rapariga toma dez comprimidos abortivos.

Que faz o Magnífico Reitor?

Protege-a, como aos torcionários da praxe Académica?

Nem pensar.

É a honra da sua Instituição que está em causa.

Convoca jornalistas. Desvenda em público, para os media, segredos que não lhe pertencem e declara: «esta água porca não é do meu capote!»

Sem cuidar de que está a invadir publicamente a privacidade de uma pessoa. De que está a usar o privilégio a que se dá o nome de locus parentis para se arvorar em denunciante. Para salvar a própria pele de educador conforme à lei e á moral.

Como disse Jorge revoltado n'O primo Basílio:

- ... Isto só em Portugal!...»

O conselheiro disse:

- A autoridade devia intervir decerto... - Acrecentou com bonomia: - São rapazes (...)"

Há cem anos. Cento e quarenta, mais coisa, menos coisa.

É Portugal, caramba!

Se me permitem um pequeno momento, vou ali adiante pôr uma bomba e venho já.

domingo, fevereiro 24, 2008

As doze palavras ditas e não retornadas do Portugal, caramba!

Pictcionário (1)

Doze palavras para adivinhar, só pelo tosco boneco aqui ao lado.
E a primeira é a do sinal de trânsito: já sabe qual é?
A caixa dos comentários, fachavor!
____________________
(1) Detesto desafios. Sobretudo porque não sou capaz de os ignorar. E é por isso que os adoro. Contraditório? Claro. É assim, mas a culpa foi da Gi a da Ana. Depois venham-me dizer que não há conspirações.

domingo, fevereiro 17, 2008

Mariazinha em Wiriyamu

Felícia Cabrita, Massacres em África, Lisboa, A esfera dos livros, 2008, pag. 257:
»«
"Ele estava a retirar-se da aldeia quando viu a cabeça do miúdo a sair de entre os corpos. Era inadmissível, no meio daquilo tudo, deixar alguém vivo, e os mortos não sofrem. Voltou atrás. O Alferes Abreu gritou: «Foge daí que isso está muito quente!»
Agora vem-lhe muitas vezes à memória aquela imagem. Não tinha mais de quatro anos. Levantou a cabeça, olhou-o, passou a mão pelo rosto cheio de sangue. Tinha a barriga desfeita. Talvez nem sobrevivesse. Talvez... Ergueu a arma e disparou.
Mas claro que houve cenas engraçadas: uns tipos que iam a fugir e são caçados pelo helicanhão, mãozinha da Força Aérea, e ficaram desfeitos. E mesmo anedóticas, como quando atiraram a dose habitual para dentro de uma palhota e um negro saltou com o tecto. Aterrou vivo e foi a caça ao pombo. Ele desata a correr e José Maria a disparar com os outros. «Aí vai disto. Devia ter vinte anos e demos cabo dele.»
Mas há quem não cante de galo nessa noite. entre os oficiais, Silvestre do Rosário chora: «Eu não sou um assassino, fizeram de mim um assassino.» Há assassinos acidentais e profissionais."

terça-feira, fevereiro 12, 2008

O Cão que jogava xadrês XXI


Quando hoje de manhã me avistou, sentado na borda do passeio, não esperava que a minha Senhorinha reparasse neste seu fiel chevalier servant, quanto mais que me reconhecesse e, despida de vaidades, se viesse sentar no chão, a meu lado.

A minha comoção foi tal que ainda gaguejo, aqui diante destas teclas.

Não foi culpa minha se deixámos de nos ver.

E menos ainda que a narrativa dos extrordinárias ocorrências do Canil Municipal, SA, tivesse de ser suspensa.

Eu sei que passaram dias e dias, semanas, meses sem dar notícias e que a minha Senhorinha me procurou em vão.

Mas, o inimaginável aconteceu: estou curado. Eu.

Deram-me um papel carimbado, uma mão cheia de receitas para aviar numa farmácia qualquer e pronto: apontaram-me o caminho da porta.

Não que eu, ao fim de quinze anos de internato, não o soubesse. Mas, que havia de fazer?

Fingi-me atarantado, deambulei pelo átrio, com o saco a arrastar atrás de mim e á hora do almoço aproveitei a distracção dos seguranças que estavam a preencher o euro-milhões e esgueirei-me para o refeitório.

A chefe é Dona Carolina, uma gorducha de rabo empinado que anda a atirar os pés para fora e por isso, a gente chama-lhe a Pinguína. Deixou-me comer a sopa, a ela, se calhar tanto fazia, mas a Segurança mais o Médico de turno e a Assistente Social, chegaram todos ainda antes da massa guisada.

Que eu tinha família, que tinham sido avisados, dizia um, que vinham aí buscar-me acrescentava outro. E perguntaram-me se eu tinha dinheiro e onde estavam os meus documentos.

Família? Dinheiro? Documentos?

E os doentes mentais somos nós?

A Assistente, a abanar a cabeça para o Médico, como se a culpa fosse minha, escreveu imensa coisa num impresso que eu tive de assinar. A título de «põe-t'àndar-e-não-arranjes-mais-chatices» deu-me dez euros emprestados que eu teria de devolver no prazo de oito dias úteis.

Os seguranças, irritados por terem sido fintados por mais um débil mental e por me verem a sacar uns trocos, ainda por cima, acartaram comigo para a rua e ficaram a ver se eu não dava a volta e entrava de novo. Eu, bem que tentei. Mas não há nada mais cruel do que uma instituição quando tem de apertar os cordões à bolsa.

Que havia eu de fazer?

Fui tomar um café com dois pacotes de açúcar porque ainda estava a sentir fome.

A partir de agora ia ser assim.

Mas, pronto, não quis apoquentar a minha Senhorinha com as misérias deste mundo, nem quero agora incomodar as Gentis Damas e os Cavaleiros que ainda se derem ao trabalho de me ler.

Claro que, uma vez a viver na rua, com o resto de dez euros no bolso, não foi pêra doce aceder à internet. Quando se dorme nas portadas, em vãos de escada, embrulhado em jornais, sujeito, manhã atrás de manhã, a ser expulso pelo primeiro condómino que deixa o quentinho do lar, a caridade bem ordenada começa com o pequeno almoço se a tanto a sorte ajudar. Remédios, meias lavadas e acesso aos bens culturais, tudo se vai paulatinamente tornando num secundaríssimo luxo.

Basta, porém, de desculpas.

Não vim incomodar a Minha Senhorinha para me queixar e muito menos para pedinchar fosse o que fosse.

Lembra-se de que o Deus-dos-Cães (aka, ou melhor, aliás, como dizemos nós, Anúbis, aliás, o Deus-Chacal) tinha abandonado a Magrizela, o Carlinhos e o Zé Nesgas no meio da rua. Um salto prodigioso dos que só ele sabia dar levou-o ao telhado da Junta de Freguesia, onde um ruído de telhas partidas anunciou uma aterragem acidentada.

-Fosga-se, man! - exclamou o Zé Nesgas de boca aberta. - Aquilo era o Wolverine, ou era o quê?

Ninguém lhe respondeu. A Magrizela, agarrara de novo no blusão do Carlinhos e saracoteava-se com ele sem conseguir enfiar as mãos pelas mangas. Tinha já tentado enfiar um pé no bolso, mas verificara que não estava a ser muito bem sucedida. E o proprietário do dito blusão, além de tactear devagarinho a cara num sítio que enegrecia rápidamente, apercebera-se, se calhar pela primeira vez, da camisa de onze varas em que estava metido.

Levar para casa uma cadela, mesmo velha e sarnenta, era uma coisa.

Outra bem diferente era aparecer com uma chavala desavergonhadamente nua, que se agachava para fazer os necessários na borda do passeio e que insistia em lamber o focinho... perdão: o nariz dos seus novos amigos.

«Mas bem», pensou ele, «o que tem de ser tem muita força!»

Pelo menos, era o que dizia o Pai quando não acontecia nada do que ele esperava.

E lá convenceu a Magrizela a seguí-lo - para o que, diga-se, teve de puxar a corda com alguma insistência. Houvesse uma alternativa, nem que fosse fugir para o Nepal, e o seu Primo nem hesitaria. Mas o Zé Nesgas, consultado, não apresentou sugestões: hipnotizado pelo corpinho da Magrizela, estava mesmo sem préstimo nenhum.

A nossa casa, quando não se consegue pensar em mais nada e por pequenina que seja, mero tugúrio no em prédio degradado ou barraca de zinco na encosta do monte, é o nosso castelo apalaçado, a fortaleza de cujas muralhas resistimos a castelhanos e americanos, governantes e banqueiros e aos grande da Alfredo Arroja.
«É», diria a Stoura Laura, se por acaso andasse por alí, «o próprio devir histórico», fosse o que fosse que isso quisesse dizer.

Mesmo não sendo longe, o acesso ao lar não se realizou sem algumas dificuldades. A Mãe do Carlinhos e distinta Tia da minha Senhorinha, só para dar um exemplo, começou logo a ralhar:

- De onde é que o menino vem a uma hora destas? E olhe-me para essas calças! Onde é que as estragou dessa maneira, diga lá! Andou à briga outra vez lá na escola, já estou a ver! Já tirar essa roupa e tomar um banho!

O ar feroz da sua Tia era o menos. O Carlinhos estava habituado e se a Mãe julgava que as palmadas lhe faziam mossa, ora bem, desde que o Zé Nesgas conseguisse fazer entrar a Magrizela pelas trazeiras até ao quarto! O Carlinhos achou por bem fazer uma gritaria à laia de manobra de diversão:

- Aiai, Mãezinha, não me bata, aiai! - e marchou para a casa de banho seguido da Senhora sua Tia.

O seu Tio, esse, regressado do bar onde a doce Svetlhana lhe ouvira as queixas e os projectos e lhe ia renovando as taças do suave «Guy Fawlkes blue» a doze euros cada uma, começava a sentir um par de dores fininhas, de cabeça uma, de remorso, a outra.

Não poude por isso impedir-se de berrar como um paquiderme em trabalho de parto: «Gaita que não há sossego nesta casa!»; «Deixa lá o rapaz, irra! Já tem idade para se desenrascar sozinho!»; «Se não tiver, não tem, canudo! E o jantar, onde é que está? Não se janta hoje, está-se a ver!»

A sua Tia, lá do fundo e ainda a empurrar o seu Primo Carlinhos, retorquiu que, «se queria intervir na educação do seu filho, tivesse vindo a horas. E que, quem tarde viesse, comesse do que trouxesse, nunca tinha ouvido?»

O Carlinhos, um pouco mais animado porque a trovoada lhe passava por cima da cabeça e ia chover noutras planícies, entrou rápido para o duche enquanto o tom da troca de ideias entre os progenitores subia vários decibéis. A Mãe, de um lado, clamava por respeito. O Pai, do outro, também. E o Carlinhos, embrulhado no toalhão, aproveitou para se esgueirar para o quarto.

A Magrizela, tapada com o edredon no meio do tapete enrodilhado, dormia com um ar pacifíco enquanto o Zé Nesgas, agarrado ao teclado do computador, dava tiros aos extra-terrestres azuis que surgiam aos cantos do monitor.

- Man - disse ele sem desviar os olhos de um monstro castanho que emergia de uma bilha. - Essa garina é esquisita com'á porra! Mal entrou, começou às voltas no tapete e ferrou-se a dormir.

Interrompeu-se para disparar uma saraivada de balas contra o inimigo que se desfez em geleia.

- Assim em pelota e tudo. - continuou ele depois de gritar «g'anda tiro, viste?» - Tive de a tapar, com o teu edredon. Ond'é que tu arranjaste este embrulho? A minha irmã também não é grande coisa, mas esta bate-a aos pontos todos os dias da semana!

O seu Primo ofendeu-se e agarrou-o por um braço:

- Como é que tu sabes? - contrpôs ele. - Só hoje é que a viste!

- Eu sou ceguinho, não?... - interrompeu-se com um sobressalto e um berro: - Porra, man! Perdi por tua culpa!
O Game Over aparecia de facto no monitor que piscava triunfante. Os uofâres enchiam o quarto de acordes fúnebres.
De cenho franzido, o Zé Nesgas libertou-se da mão do Carlinhos.
- E quando é que ela se veste? - perguntou ele; e acrescentou escusadamente: - Não pode andar assim.
- Julgas que eu não sei? Mas onde é que eu vou arranjar-lhe roupa? E quem é que lhe ensina... hum... haaa... man, a gente tem de ter cuecas, tás a ver! E tem de as baixar, tás a ver, quando for á casa de banho e isso.
E, perante o esgar céptico do Zé Nesgas, o seu Primo lançou as mãos à cabeça:
- Fosga-se! Não tinha pensado nisso! O papel higiénico! A gaja não sabe usar o papel higiénico!
- És tótó ou tás a disfarçar? Com aquela idade e não havia de saber tudo isso e mais que tu?
- Não, não sabe. Ou achas que os cães precisam de saber essas coisas?
- Cães? Quais cães, meu? Os gajos da Arroja amachucaram-te os miolos! De certeza.
O Carlinhos esbravejou:
- Cães, sim, cães. Não vês a coleira dela? E não viste o salto do Deus-dos-Cães que partiu o telhado todo?
Sabe Deus, Gentil Senhorinha, onde teria levado a discussão se a sua Tia não tivesse batido à porta e chamado:
- Carlinhos! Já se vestiu? Convide o seu amigo e venha comer que já passa da hora. E não demore. Já hoje me fez perder a paciência!
Refiro-me, claro, ao nosso Deus. O tal Anúbis, esse desaparecera como se a sua missão na vida estivesse cumprida.
Mas, a razão pela qual eu a vim procurar, Gentil Senhorinha, terá de ficar para outro dia.
São quase horas de chegar a casa, vinda do seu trabalho, e eu não quero que sinta outra vez essa piedade funda que leio nos seus olhos.
Levo-lhe aquele pão pequeno, se me perdoa mais este abuso. Às vezes, à noite, quando o frio aperta, é bom ter uma côdea para ir rilhando.
Bem haja.

Atenção: Obras

Este blog está em reparação.
Pedimos desculpa pelo incómodo.
Prometemos ser breves (1)

(1) Esta piada já foi usada demasiadas vezes, mas, de momento, não nos ocorreu mais nenhuma. As nossas desculpas.


sábado, fevereiro 09, 2008

Blogues que não nos saem da cabeça

A Gi, autora do Pequenos Nadas (que figura aqui à direita como Enormes Tudos) voltou a distinguir o Portugal, Caramba. Como agradecer-lhe? É uma questão a suscitar um estudo aprofundado. No entretanto, vamos ter de inventar também uma lista de

blogues que não nos saiam da cabeça:

O da própria Gi que seja o primeiro;

Seja o segundo o Blogue Sem Nome;




Também gosto muito de passar pel'O Mundo Perfeito e pelo Hole Horror;


O Arroios e o Ladrões de Bicicletas podem vir a seguir.


E, finalmente, porque não o Beppe Grillo?


Ainda faltam, não faltam? Pois faltam. Mas, a seu tempo nos lembraremos de outros. Pode ser?

domingo, fevereiro 03, 2008

Joseph Ratzinger IV

Imagens de Deus

Durante muitos anos não pensei em Deus.

Não era uma questão arrumada, por muito que tenha parecido.Os rituais do culto em que eu tinha sido educado, porém, tornavam-se vazios, como se fossem, tão-só, prolongamentos daquele autoritarismo que eu detectava nos alunos mais velhos, sempre prontos a usar a força condescendente para submeter o caloiro, o irmão mais novo, o aluno menos cordato. Se alguma vez senti o completo sigificado da palavra «absurdo», tão sublinhada pelos autores existencialistas que eu começava a ler, foi essa.

E anunciei à família a minha decisão de não voltar à Missa.
«Vais, sim senhor!», decretava a minha Avó.

Era uma mulher de convicções, salazarista até à medula, viúva desde muito nova, habituada a comandar e a ser obedecida, a manobrar a barca sem a deixar encalhar. Mal acomparada, reconheço-lhe traços em certas novelas da Agostina. Mas não foi ela quem venceu a minha decisão.
A minha Mãe, com a consternação e o desgosto estampados no rosto, foi muito mais eficaz:

«Vá! Anda lá...», pediu ela.
Fui. Mas, no caminho, comprava o Camarada, o jornalzinho da Mocidade Portuguesa que publicava, suponho que pela primeira vez em Portugal, as histórias de Spirou e Fantásio. Na Igreja, ficava o mais longe que podia, escondido por um pilar e deitando olhadelas disfarçadas às histórias em quadradinhos. O tempo custava a passar. Os padres desse tempo ainda liam a Missa em latim, a prédica alongava-se sobre as virtudes de Nossa Senhora, sobre o peixe que os Apóstolos tinham pescado no Lago Tiberíades, sobre Paulo de Tarso, derrubado do cavalo:
«Paulo, Paulo, porque me persegues?»
Não me lembro de alguma vez ter ouvido um Padre a falar do Sermão da Montanha, no púlpito ou fora dele. Nem me lembro de ter alguma vez ouvido um Padre falar do «Povorello» e menos ainda de Santa Clara.
Alguém se admira da perversidade adolescente?
No Liceu correu o boato de que eu ia para a Missa de propósito, para estar a ler «de costas para o altar-mor». Não era verdade, a minha intenção nada tinha de provocatório, antes pelo contrário.
Mas, claro, não fiz nada para desfazer o equívoco.
Também me vestia de campónio, com velhas camisas de quadrados da Nazaré e grandes botins. Também não era nem provocação, nem sequer uma atitude: era simplesmente porque era pobre e raramente tinha dinheiro para voos mais altos. Como o pintor de Somerseth Maugham, eu passava melhor sem comer do que sem cigarros e sem cigarros do que sem os meus cadernos lisos e uma esferográfica preta.
Os meus colegas acharam que eu tinha pinta de beatnick muito antes de essa moda cá chegar. E os camaradas, esses que eram tão convencionais no seu colarinho branco e gravata encarnada, achavam «pouco consciente» o meu pendor boémio, os meus amoricos adolescentes, o meu gosto pela literatura. Declaram-me um «outsider».
Também não desfiz o equívoco. Nunca nos devemos explicar seja a quem fôr. Perdi namoradas, perdi amigos por isso. O que fosse, teria de estar à vista de todos, dizia eu a mim próprio, esquecendo-me dos ensinamentos da Menina Lília: o Orgulho é um dos Sete Pecados Mortais.

Havia os não-religiosos, de um dos lados. Eram marxistas ateus com o culto do jazz, maoistas-albaneses para quem mais de três palavras seguidas era metafísica.
Do outro, havia os membros das Juventudes Católicas, em escasso número, aliás, e uma multidão de indiferentes, analfabetos da alma que se preocupavam apenas com os copos e as miúdas. Entre estes dois grupos, eu sentia-me sufocado.
Todo o companheirismo que então vim a encontrar, situou-se nessa terra de ninguém habitada pelos que decidiram cegamente escrever, pintar, compôr. Pelos que sentem que a centelha do génio, mesmo se mau, é uma maldição que se arrasta connosco até à demência senil.
O tempo passou, a Faculdade também, Abril chegou e também passou. Mudei de empregos, andei de terra em terra com livros às costas.
Se me perguntassem, diria que era agnóstico.
Mas, pouco a pouco, surpreendi em mim próprio, uma estranha compulsão que me levava a falar com os objectos, com as formigas, com as árvores, cães, gatos, aranhas...
E com o meu carro, uma Dyanne 6 que não passava de um estuporzinho temperamental. Ofendia-se com os meus maus humores, alegrava-se com os dias de sol, quando eu lhe abria a capota e tinha uma paciência infinita para crianças. A vinte à hora, chegou a levar nove miúdos a caminho da praia. Uns sentados, outros em pé agarrados ao varão central e todos a gritar muito «vrrrrrroooooaaaaaaahhh» porque «agora éramos um carro de corridas e íamos muita depressa!»
- Mais depressa! Mais depressa!
E o barulheira aumentava.
Mesmo quando estava sozinho, dava comigo a falar com um meu amigo imaginário: o São Pedro.
Se a chuva me apanhasse longe de casa, eu pedia-lhe que me mandasse um taxi. E refilava:
- Então? Não há taxis hoje?
Mais tarde ou mais cedo, o taxi aparecia. Eu entrava, dava os bons dias ou as boas tardes, dizia a morada. E passado um bocado, acontecia-me reparar que nem sequer tinha agradecido; «desculpa lá, São Pedro! esqueci-me de dizer obrigado...»
- Como? - perguntava o motorista.
- Não, não é nada.
Mas era.
É um dado da sociologia que muita gente joga este tipo de jogos. «Se passarem três carros encarnados antes de eu atravessar a rua, a Fernanda vai logo à noita ao bar! ... Bolas! Esta não valeu, o sinal abriu antes de tempo. Agora á que é: se passar um Renault antes de...»
Podemos chamar-lhe como quisermos, superstição, por exemplo. É a convicção de que tudo se relaciona com tudo, portanto, de um conjunto de sinais aparentemente neutros pode deduzir-se consequências desejáveis ou funestas. Certos outros, quando manipulados como deve ser, conjuram a sorte ou esconjuram o azar. Perguntem a damas e cavalheiros à volta da mesa num casino.
E onde passa a fronteira entre estas preces envergonhadas pela luz do dia e a autêntica oração? Em parte alguma. São territórios contíguos, sai-se de um, entra-se no outro, volta-se atrás... Muita da religião popular situa-se simultanemaente dos dois lados.
Sabiam que a Santíssima Trindade é Nossa Senhora, o Menino Jesús e Deus Pai?Só muito tarde assumi esta liberdade.
Uma religião, com os seus mitos e a sua teologia própria, não era terreno proibido. Em que valia a minha menos do que qualquer outra?
Portanto, decidi: Deus é um Cavalheiro muito bem educado, anfitrião cortez.
De idade, claro, que a eternidade já dura há muito tempo. Mas vigoroso, bom garfo, apreciador das melhores colheitas das vinhas celestes, estagiadas em talhas de bom barro.
Pelas manhãs frias, gosta de dar grandes passeios a pé, mãos nos bolsos, com o seu rafeirito e um corvo preto, esvoaçante e gralhento, que falaria pelos cotovelos se os tivesse. Pela tarde, rodeado pelos seus cães e pássaros favoritos, senta-se a fumar o cachimbo favorito e a conversar na sala Gaudi.
Deixem-me dizer-vos, aqui num parêntesis que não quero ir para um Céu onde não caibam os canitos maltratados, baleias e golfinhos assassinadas por pescadores. Nem, já agora, mea culpa, as vaquinhas e os porquinhos cujos bifes eu comi... E não me venham com argumentos, a dizer que os animais não podem ir para o Céu porque não têm alma. Têm, pois têm, mesmo que não saibam vendê-la ao Diabo como os humanos.

Parêntesis fechado, o Céu é onde Deus, a par com a bicharada, recebe as «personalidades que valem a pena», com quem é bom sentar-se a conversar. Lá estão o Einstein e a Maria Curie, o Conde Bertrand, a Audray Hepburn e o sapateiro Berenval. O Jaques Brel, o José Afonso e a Edith Piaff compõem uma música nova. O Albert Camus e as Simones, Signoret e de Beauvoir, conversam, o Chagall faz rabiscos num pedaço de papel. O Taï-Yo-Lunn e o João César discutem, o Tio Adriano tenta acalmá-los com boas palavras. A Maria Callas faz vocalizos e o João Sebastião acompanha-a ao piano. E tantas, tantos, tão diferentes, que só a eternidade chegaria para nomear a todos.
E sabem? Como Deus é bom - e se fôr mau, nada disto tem sentido - então o Inferno não pode existir. Como permitiria Ele que um qualquer antecessor do Pinochet mantivesse um lugar de tortura por toda a eternidade?
Mas, e o mal? Não tem castigo?
Não, para quê? O mau, o pérfido, o cruel, já morreram, não morreram?
O que imagino é que Deus, quando chegamos, mortinhos da Silva, olha para nós, encolhe os celestiais ombros e pensa lá para consigo:
- Bah! Este não saiu lá grande coisa... nem para aparar a relva serve.
E pode mandar-nos para reciclagem.
Lá viremos outra vez cá para baixo até fazer alguma coisa de jeito que mereça ser guardado.
Ou então, como o Hitler, o Nixon e o Béria, a Carlota Joaquina e o Salazar, tantos outros que eu não nomeio para não ser desagradável e mais aqueles todos de que nem ouvi falar, podemos ir
simplesmente para o lixo e acabou-se.
Não tínhamos nada que valesse a pena aproveitar.
A moral, digam os neo-liberais o que disserem, é simples e transparente: é fazer todos os
possíveis para que Deus nos ache «aproveitáveis».
E o bom Ratzinger nisto tudo?
Não sei.
Mas se for ele quem tem razão, então dá-me a ideia de que, Deus me perdoe, o seu Deus não é o meu Deus. É o Deus retratado pelo Mezieres no album Les foudres d'Hypsis (Dargaud, pag. 44). O Deus de George Bush.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Joseph Ratzinger III



As incómodas
analogias


Há coisas de que só demasiado tarde nos apercebemos e que, provavelmente, teriam feito a sua diferença.
Por exemplo, numa das suas conferências, pouco antes do Maio de 68 em França e da nossa crise académica em Coimbra, Joseph Ratzinger contou uma história, muito ao seu jeito de argumentar a partir de analogias.
Podíamos chamar-lhe a «Parábola do bom Palhaço» e começa num circo que irrompe em chamas. Podemos imaginar: as trapezistas semi-nuas, os cavalos enlouquecidos, o velho tigre às voltas na jaula e rugindo de inquietude, os cães amestrados a ganir de rabo entre as pernas...
O Palhaço é o único que já está vestido e é encarregado de chamar os bombeiros e lá vai ele, a correr, a face pintada, o chapéu às três pancadas... É claro que, naquele tempo, ainda não havia telemóveis e que o campo da Feira onde acampavam os circos todos não tinha nem uma cabine telefónica: reinava o mais absoluto dos primitivismos.
Como se adivinha, porém, para os pacatos campónios que o viram chegar, o desespero do palhaço é como se fosse apenas mais uma palhaçada. Quer dizer: como uma divertida manobra para levar mais espectadores ao Circo. E quanto mais ele desespera, mais os bondosos aldeãos riem e o aplaudem.
É natural: o hábito não faz o monge, mas como disse Milôr Fernandes, "fá-lo parecer de longe". E que há-de fazer alguém vestido de palhaço, senão palhaçadas? Não é?
Para o padre Ratzinger, futuro Papa, "esta imagem capta sem dúvida um aspecto da realidade apreensiva em que se encontram a teologia e o discurso teológico nos dias de hoje, pois revela o peso que tem a impossibilidade de desfazer os estereótipos do pensamento e da fala habituais, para mostrar que a teologia trata de um assunto da maior importância para a vida humana." (Introdução ao cristianismo, p. 28)
Ou seja: não liguem à vestimenta do teólogo. Por mais antiquados que sejam os seus paramentos, por mais obsoletos os seus rituais, o seu latim, o seu cânone, não se riam! Ele está a falar da vossa própria humanidade.
Desmaquilhasse-se o palhaço, despissem-se-lhe os adereços da função e do estéreótipo: o seu apelo ganharia de imediato o que lhe faltava: a credibilidade, o dramatismo, a urgência.
É sedutora a analogia. Estamos fartos de alarmes, de gritos de "aí vem lobo!"
Houve a gripe das aves, coitadas, imagino-as a assoarem-se a lenços de papel.
Houve o bug do ano 2000 que havia de paralizar os computadores de todo o mundo.
Há a Sida e o Ébola.
Há o aquecimento global com os ursinhos brancos em equilíbrio precário numa minúscula placa de gêlo fundente, em risco de se afogarem.
E a doença das vacas loucas, lembram-se? Ameaçou sériamente transformar em esponjas informes os miolos de quem comesse bifes do lombo na Trindade ou no Nicola - e na volta, foi isso o que aconteceu ao nossos governantes, muito coisa ficava explicada. Entre isso e a pura ganância, confesso preferir um quadro clínico gravoso à descarada desonestidade. São idosincrasias, como agora se diz.
Mas voltemos à vaca fria.
Bem podem os teólogos vir gritar os seus avisos mais pungentes, «salva a tua alma enquanto é tempo, meu palerma!» Ao vê-los vestidos de palhaços, quem evitará um riso entre o céptico e o tolerante?
Esta analogia, no entanto, para ser devidamente compreendida, necessita de algumas pequenas precisões. A mim, ocorre-me perguntar se são só os paramentos o que maquilha a Igreja Católica e, especialmente, os seus teólogos. E de que estão eles maquilhados?
Sim, de palhaços, segundo Ratzinger.
Mas há mais do que um papel no que se convencionou chamar palhaço, não há? É por isso que as analogias são sempre tão traiçoeiras e, não raro, uma forma desonesta de argumentar.
Quando eu era menino e ia ao circo, era ainda o tempo do Palhaço Rico, vestido de lantejoulas e com um barretinho cónico, e do Palhaço Pobre. O Palhaço Pobre era o que levava os enormes bofetões: vestia-se de trapalhão, calças demasiado largas com vistosos remendos, suspensórios por cima de uma camisola de riscas berrantes e uns enormes sapatorros em que tropeçava frenquentemente. Hospedava-se num hotel tão chique, tão chique que era conhecido pelo Hotel do Chiqueiro. E às refeições, para além das «azeitonas recheadas» - «com o caroço», entenda-se - comiam-se também «batatas salteadas»: era «batata sim, batata não. Batata sim, batata não.»
Tinha graça? Não sei. Sei que era do Palhaço Pobre que nós mais gostávamos.
Receio que, pelos anos 60 do século passado, pelas alturas em que Ratzinger fazia estas conferências, alguns Palhaços Pobres tenham feito a sua irrupção na Teologia.
Havia, para começar, os Padres Operários. E as Comunidades de Base. E havia essas estranhas personagens lá de longe, como Frei Gustavo Gutérrez, que, na América Latina, reflectiam sobre o papel da Igreja, Mãe e Mestra, face ao Mundo. Outros se lhe seguiram.
Leonard Boff, claro, mas também D. Hélder da Câmara, que durante o Concílio Vaticano II, se aliara àqueles que reclamavam uma Igreja como a de outro Palhaço Pobre, S. Francisco de Assis, o Jogral de Deus. Todos eles tiveram problemas com a Curia Romana. E Leonardo Boff, é sabido, foi condenado ao silêncio pelo futuro Papa, o Cardeal Ratzinger à frente da Sagrada Congregação para a Doutrina e a Fé.
E D. Óscar Romero. Esse foi assassinado, está tudo dito.
Ninguém quer uma Igreja dos Pobres, muito menos a Santa Sé.
O Palhaço Pobre só serve para levar os bofetões e para comer no Hotel do Chiqueiro. A Mãe e Mestra (a Mater et Magistra, segundo a Encíclica de João XXIII) recusava esse Mundo dos Pobres que viveu, durante os anos sessenta e setenta do século passado, a Esperança a par com a Fé.
A Caridade, em breve lhe seria retirada.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Joseph Ratzinger II

E outros legítimos Superiores

A Primira Comunhão era por volta dos sete, oito anos. Aprendiam-se uns rudimentos, as orações: Pai Nosso e Avé Maria já todos a trazíamos sabida de casa. Mas aprendíamos o Salvé Raínha, o Credo e o Acto de Contrição, os Dez Mandamentos e as três Virtudes Teologais. A Fé, a Esperança - que ninguém nos explicou o que era - e a Caridade. Esta sim: era dar esmola aos pobres, mas cuidado, não fossem gastar mal o dinheiro, em vinho, por exemplo. E ajudar o ceguinho a atravessar a rua, claro. Sim, e ajudar a velhinha a levar a alcofa das compras. Pois, e salvar o Quim de morrer afogado no pêgo do rio...
- Pronto, meninos! Já chega! - gritava a catequista.
A Fé também não ficou muito claro o que fosse. São Tomé duvidou, ora o palerma, toda a gente sabe que Nosso Senhor ressuscitou. E o que toda a gente sabe não precisa da Fé para nada, pois não? Mas nós, alí sentados em bancos de antigo vinhático, encostados à parede de azulejos do claustro, não nos preocupávamos muito com isso. Havia uma coisa a que chamávamos Espremer Azeite e que podia ser jogada subrepticiamente enquanto a Menina Lília nos ia explicando a diferença entre pecados veniais e pecados mortais.
O banco era corrido e os que se sentavam nas pontas começavam a empurrar para o meio. Claro, todos nós colaborávamos - salvo um ou outro menino bonito - e os dois ou três do centro, mais vigiados pelo olhar do catequista, tentavam resistir sem dar parte de fraco. Chegava o momento em que um mais magrinho ou menos paciente cedia.
- Onde está Deus? - perguntava a Menina Lília.
- No Céu, na Terra e em toda a parte! - respondíamos em côro.
E zás! Um de nós, mais esborrachado, levantava-se de repente fazendo vacilar o banco todo.
- Meninos... - dizia a catequista corada e com olhos desolados.
- Foi ele!
- Ele é que começou...
- Foste tu!
No dia da Comunhão, domingo, mais cedo do que o habitual, lá íamos, um nadinha esmagados pela solenidade, compenetrados da nossa importância: íamos receber Nosso Senhor. Estávamos em jejum natural, desde a meia-noite até à hora de comungar, mas por nada deste mundo confessaríamos que estávamos cheios de fome. Espremer azeite, nesse dia, estava fora de tudo o que era concebível. O que significava exactamente "receber Nosso Senhor" não nos preocupava.
O problema do significado só se viria a tornar agudo muito mais tarde. Por esses tempos, os significados eram um caderninho de linhas, pequenino, dividido ao meio por uma outra linha, vermelha esta.
Do lado esquerdo escrevíamos "prisma". E do lado direito punha-se o que isso queria dizer: "poliedro que tem por base dois polígonos iguais e paralelos." Do lado esquerdo anotávamos "diletante". E lá vinha, na direita: "o que se ocupa de qualquer assunto por gosto e não por obrigação ou ofício". Os Cadernos de Significados, rudimentares e desordenados, foram a nossa primeira abordagem à Semântica.
Já no Liceu, porém, nada era tão garantido. As palavras tornavam-se confusas.
Deus ter sido o Criador ex nihilo do Universo, pouca diferença me fazia. A sério, não é heresia. É que, no Mundo, estamos todos. É óbvio para qualquer infante de onze, doze anos, que, de um modo ou de outro, a Criação existe.
O que me confundia e me fez levantar na aula de Religião & Moral para pôr a questão, era a criação artística. Picasso, de quem eu tinha ouvido falar ao mesmo tempo que via um par de reproduções, era indiscutivelmente um criador, mesmo se eu não o percebesse nada bem.
Ainda hoje vejo nitidamente a expressão do Choninhas a quem tinham cometido o encargo de nos ensinar Moral e de nos abrir os caminhos da Fé.
Com os dois dedinhos da mão direita a desenhar um círculo e os outros abertos em leque, o rosto menineiro apesar da calvície, os olhinhos furiosos por trás das lentes, declarou peremptório que «essas porcarias indecentes não lhe interessavam».
Reduzido à sua insignificância, o aluno sentou-se.
Aprendera que um dos mandamentos que o Senhor dera a Moisés se enunciava assim:
"Honrar Pai e Mãe (abrir parentesis: e outros legítimos Superiores, fecha parentesis)".
Viria, pouco a pouco, a entender que algo ou alguém tinha achado incompletas as ordens do próprio Deus e acrescentara esses "Superiores" ao Pai e à Mãe. E aprenderia que Superiores legítimos eram todos os que tivessem a mais pequenina oportunidade de usar bastões e cassetêtes: Chefes, Directores, Presidentes, Generais e Tios mais velhos.
Mas conhecê-los a todos levaria ainda a vida inteira.




quarta-feira, janeiro 16, 2008

Tribunal de Família


Pão compota,
Pão com palha,
Pão com pulha.
Etc.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Joseph Ratzinger

O Papa nunca foi, para mim, uma realidade presente.
Não faço ideia nenhuma de quando me apercebi, pela primeira vez de que a religião na qual me estavam educando, tinha um chefe. Quem mandava nessas coisas era, em primeiro lugar a Menina Lília, a catequista chefe das catequistas e, em segundo lugar, o Padre Paixão que coadjuvava na imensa paróquia onde fui medrando. Havia também o Senhor Prior, mas esse era apenas uma figura simpática que dizia a missa lá à frente e que não ralhava connosco.
A religião Católica, Apostólica, Romana e todas essas coisas era para mim, puto contemplativo que lia os Sandokans e os Júlio Vernes, uma coisa porreira, que dava uns convívios e uns passeios no fim do ano, uns filmes ao sábado à tarde que custavam cinco tostões e onde nos encontrávamos todos.
No domingo, depois do almoço, de quinze em quinze dias, íamos ver jogar o clube da nossa terra: éramos "sócios auxiliares infantis", entrávamos de graça. Encontrávamo-nos com outros sócios como nós, brincávamos bancadas acima, bancadas abaixo, e nem sempre nos interessávamos pelo que acontecia dentro das quatro linhas traçadas no saibro.
Juro não saber ainda hoje porque terei perdido, não digo a minha fé, mas esta capacidade de aceitar tranquilamente os dictames da tradição, a naturalidade do convívio, o gosto por ser um entre os participantes na procissão, com a opa roxa da Irmandade do Senhor dos Passos.
Julgo que o principal factor terá sido o ter deixado de "pertencer".
Aos dez anos mudaram-me para Lisboa e entrei no Liceu. Não conhecia praticamente ninguém, o estatuto de origem não me acompanhou. O pária em Lisboa luta ou morre.
Lutei, muito à minha maneira, claro.
Tive por alcunha o "Filósofo". escrevia histórinhas, fazia bonecos. Chumbava ou passava os anos com uma indiferença sonhadora.
Onde se desvaneceu a religiosidade não sei.
Já muito anteriormente, mesmo antes da mudança para Lisboa, duas coisas me preocupavam. Ou três, mas uma é tão tola que quase me faz rir: quando recebia a hóstia consagrada, o corpo de Deus sabia a farinha. Não sei se me percebem. O Corpo do Senhor «devia» saber a qualquer coisa de Celestial. Ou não?
As outras duas eram mais graves. Antes de ir comungar, coisa que se fazia uma vez por mês, era necessário confessar os nossos pecados. E, antes desse Sacramento, devíamos fazer o exame de consciência. Pois, mas isso é que não era fácil. A consciência dizia-me que tinha bulhado umas vezes, mas que era eu quem tinha tido razão, que tinha disfarçado a verdade um bocadinho, mas era porque não queriam que eu fosse brincar depois da escola... O que é que eu ia dizer ao Senhor Padre? Sem Confissão não havia Absolvição. Sem a Absolvição, não havia Comunhão e sem Comunhão eu não estava «lá». E pronto: não havendo pecados, mas sendo absolutamente necessários à Absolvição, só havia um remédio: inventá-los. Mas mentir na Confissão não era um pecado mortal?
A outra coisa que me perturbava era não ser capaz de prestar atenção na Missa.
Quer dizer: eu estava quietinho e bem comportado, salvo algumas excepções que, de certeza, houve. Mas surpreendia-me a mim mesmo numa completa ausência. Já a Missa ia no Ofertório e eu não dera por nada. Muito mais tarde, quando ia de carro para a faculdade às oito da manhã, acontecia-me perguntar a mim próprio já a meio do trajecto, «mas como é que eu chaguei aqui?»
E esta insegurança que ninguém tranquilizou, deve ter proporcionado a curiosidade insatisfeita e perguntadora com que assediei o Professor de Religião & Moral dos primeiros anos do Liceu. Não seria ali o lugar das perguntas?
Todos os outros Professores respondiam - excepto a filha de uma vaca... pronto, esqueçam (a gaja provocou-me um trauma com a Matemática que só visto: e eu que era excelente em Geometria e que adorava tudo o que fosse Lógico e Abstracto, penei durante anos porque não era suficientemente rápido no cálculo. Oh Deuses, se no meu tempo já se pudesse utilizar máquinas de calcular!) Onde é que eu ia?
Ah! na resposta às dúvidas.
Porque é que ninguém liga às angústias metafísicas da miudagem?
" Ah, isso passa-lhes", é o que nos respondem.
Pode ser que tenham razão, não sei. O que vos garanto é que há pelo menos um a quem nunca passou.
Mas o resto terá de ficar para um próximo post.
Se Deus quiser.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Trolling

Não sei a que mitologia pertencem os Trolhos. Nos livros do Tolkien, trolls são umas criaturas muito grandes, muito pouco inteligentes, que adoram andar à trolha. Assim uma espécie de forcados, como os do grupo saudoso de Salvação Barreto, que, reza a fama, andavam por cabarés e casas de fado a provocar os indígenas. Sempre de noite. O Cais do Sodré talvez ainda recorde as suas façanhas de copo e estaladão, acompanhados à viola e à guitarra como convém. As calçadas recordam-lhes os passos arrastados no fim da noite, a caminho dos últimos sopapos no Cacau da Ribeira. Recolhem aos primeiros alvores, dormem enquanto a noite não volta.
Também os trolhos, os do Tolkien pelo menos, só vivem na obscuridade e, triste maldição, se forem apanhados pela luz solar, transformam-se em calhaus para todo o sempre.
Os nossos, pelo menos os da minha mitologia privada - e, adiante-se, muito pouco caridosa - já são calhaus, por isso nenhuma luz, e muito menos a da Razão, lhes faz mossa.
Que fazer quando os vemos, com um riso gravado nos seus basálticos rostos, a perorar sobre a sua própria magnificência?
Não muito. Desligar-lhes a televisão na cara, ao menos, já é um começo. Aceitam-se propostas para a continuação.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Mais Avó Lígia

Vi a Avó Lígia ontem, quando estava a fazer horas para a minha camioneta. Era uma senhora muito, muito baixinha, muito redondinha, com uma feições muito bonitas que eu não fui capaz de reproduzir. As netas, duas, adoravam-na, era uma coisa que se via ao longe. Foi pelos seus gritinhos de júbilo que me pareceu perceber o nome da senhora. Pareceu-me, claro, o mais provável é que alguma coisa no crioulo me tenha induzido em erro. Não tem importância. O nome de Lígia assenta-lhe que nem uma luva; não me perguntem porquê. Tinha um sorriso de Avó Lígia para as netas e isso bastou-me.
Eu sei que é feio ter inveja.
Mas invejei às meninas a avozinha que elas tinham e eu não.

José Pacheco Pereira

Num antiquíssimo bloco Castelo (talvez de 1990) achei este desenho com um a piada já bastante desactualizada. Não me lembrava sequer de a ter feito, mas tenho de pedir desculpa ao Pacheco Pereira. Resistiu. Votou contra o seu próprio partido pelo menos uma vez, por causa de despenalização do aborto.
Mesmo tendo alguma simpatia pelo Pedro Santana Lopes - talvez por ser um tanto bardino, sei lá - pergunto-me: porque raio o PSD nunca elegeu este tipo para seu lider?
Mistério. Segredos das camarilhas?
Para mim, que sou de esquerda, quero que se lixe.
Mas é intrigante, não é?

Encontros ocasionais

A Avó Lígia