quarta-feira, abril 30, 2008

Quem sai aos seus, voa baixinho.


Há já muitos anos, aí por 75, talvez, lembro-me de um jovem a quem se não chamava então «gestor», a berrar indignado! Chamava-se Pedro Costa, ou Sousa ou Alves, uma coisa assim.

Era licenciado numas Letras quaisquer, argumentava sempre com um esquema diante dos olhos e achava que, acima de tudo, tinha de se ser coerente.

Nós nem por isso: verdade era dialética, as contradições faziam parte do processo revolucionário e a vanguarda da classe operária é que era, nós, mais ou menos intelectuais só podíamos estar a seu lado. E passávamos horas à roda da mesa, como dantes soía, reuniões atrás de reuniões, a decidir da linha justa. Estávamos, como se dizia então, «a serrar presunto». O Pedro Alves, porém, que era maçarico naquelas coisas, achava que estávamos era a perder tempo. A bem dizer, a gente suspeitava de que ele se tinha apaixonado por uma senhora casada - as paixões revolucionárias foram mato, naquelas eras, quem não se separou nem participou em dúbios encontros que atire a primeira pedra - e queria aproveitar aquele bocadinho antes de ela ir ter com o marido.
Apesar disso, muitas vezes fomos dar com ele a trabalhar até altas horas no gabinete, com planos e reestuturações que eram chumbados liminarmente porque os sectores implicados tinham sempre coisas muito mais importantes em que pensar.
- Mas o quê, caramba, mas o quê? - indignava-se.
Não obtinha resposta... ou sim: relambórios revolucionários, cheios de palavreado redondo, parágrafos tirados do Lenine ou do Enghels.
- Tás a ver? - acalmava-o eu. - É um período revolucionário, pá, só acontece uma vez na vida.
- Mas qual revolução, pá? - gritava ele. - Se não há trabalho revolucionário, como é que há revolução?
Nós encolhíamos os ombros. Algum mais exaltado respondia que tudo isso eram conceitos burgueses, contra-revolucionários. Tarefismo. E por aí fora. O jovem gestor não tardou a ser suspenso, transferido, reduzido á sua insignificância; um dia, o Pedro chateou-se e declarou-nos que se ia embora.
- A gota de água, pá. - explicou-nos ele. - Atingi o meu limite. Não aturo mais aquele gajo. Ou sai o Director ou saio eu.
Tinhamos ido almoçar em grupo, ali adiante da Escola Politécnica que ainda não tinha ardido, e estávamos já nas bagaceiras. Eu tinha acendido o cachimbo com um tabaco pestilencial - era para o que dava o vencimento - e enchia a atafulhada sala com as largas baforadas de espesso nevoeiro, mas nessa altura ainda não era pecado.
- Qual Director? Ele há quatro! - perguntei eu
- Três. O outro é o presidente. - precisou o Leonel.
E o nosso camarada alumiou o nome ao santo.
A empresa em que trabalhávamos tinha sido considerada estratégica, tanto antes como depois de Abril, e estava cheia de «fascistas». Por isso achou-se bem que fosse intervencionada: os militares sucediam-se nos diferente pelouros e o Director em causa qualificara-se para o cargo pelo facto de ser Capitão, piloto aviador da Força Aérea, provável ex-bombardeador de tabancas indefesas.

A proposta que o Pedro Lemos, gestor gestor recém-eleito e, já agora, o engenheiro Lousa, responsável por um importante sector técnico da empresa, tentavam que fosse discutida dizia respeito à concentração dos múltiplos edifícios pelos quais se espalhava a actividade da empresa. O produto principal dividia-se por três edifícios, tão distantes uns dos outros que exigiam um corropio de viaturas para se manterem em contacto. A manutenção dos equipamentos, essa podia requerer, no mínimo, umas cinco oficinas, cada uma instalada num inferninho à parte. A empresa fôra, ao longo das décadas, adquirindo edifício atrás de edifício, aluga daqui, compra dali, para instalar tão importantes necessidades.

O património imobiliário era impressionante. Das complexidades correlativas nem se fala: diga-se apenas que um carrossel de carrinhas 4L girava incessante, por vezes com um só papel, mas acompanhado do respectivo protocolo - um caderno de capa preta que tinha de ser preenchido à mão - que devia ser assinado pelo contínuo do serviço destinatário antes de a carrinha, vazia agora, percorrer de volta o caminho para mais um molho de folhas.

Fazer um grande edifício que concentrasse tudo isto parecia ao jovem camarada, bem como ao camarada engenheiro responsável pelo produto, uma medida razoável. O financiamento estava á vista: bastava alienar dois ou três dos edifícios para garantir a viabilidade da nova sede.

- Vamos lá a voar baixinho, disse peremptório, o Sr. Capitão piloto aviador, pondo ordem na reunião de planeamento.

- A voar baixinho, estão a ver? Como é que os gajos querem que se faça alguma coisa? - e repetiu: - Se ninguém faz trabalho nenhum, como é que querem fazer a revolução?

- Tens a certeza de que alguém quer? - provoquei eu a escarafunchar no cachimbo que se tinha entupido. - Olha que eu não sei se acredite...

- E então, vais-te embora só por isso? - perguntou o Leonel.

- Só por isso? Achas que não chega? Um parvalhão que não sabe ler nem escrever, um analfabeto de pai e mãe, a mandar a malta voar baixinho? Se não tem envergadura para dirigir uma empresa deste tamanho, andor. Não vai ele, vou eu. Tenho mais que fazer, pá. Vou trabalhar para a Nanterre, que há lá muitos livros.

- Pá - intervim eu a pôr água na fervura. - Que é que tu queres? O gajo o que aprendeu lá na tropa foi a voar assim. E sabes porquê? Com aquelas latas velhas dos Fiates e dos T-3 e os helicópteros da Grande Guerra, eles têm é medo de ir mais alto. O programa revolucionário dos gajos tem de ser a mesma coisa, pá, é rasteirinho, pronto.

A resposta do Pedro Costa não foi lá muito bem educada e questão ficou por ali, que remédio. Ele partiu, escreveu uma meia dúzia de cartas aos amigos, publicou um par de livros, ainda me mandou um e o outro encontrei-o, por acaso, numa livraria em Montmartre, quando por lá andava com uma amiga, em turismo romântico.

- Olha, olha! - exclamei eu deliciado.

A Voilá veio espreitar, leu o título que falava da enteléquia e quis saber a razão dos meus entusiasmos.

Contei-lhe, por alto, com o fim da história, de que entretanto me inteirara.

Vinte e cinco anos depois da partida do Pedro (Lemos Costa, como estava na capa do livro), mais mês, menos mês, mais ano, menos ano, com alguns (bastantes, para não dizer muitíssimos) milhões de contos de prejuízos acumulados, a empresa contratou finalmente um gestor a sério: não importa a sua filiação partidária. Não parece que tenha saneado as contas, mas o que fez logo, além de despedir meia dúzia de pessoas mais ou menos incómodas, claro, e contratar meio cento de outras, foi vender os imóveis inúteis e concentrar os serviços.

Não soube dizer à Voilá, nem provavelmente o saberão, quer o Engenheiro responsável, quer o outrora jovem Pedro Costa, que luvas terá havido nessas transacções ou até, quem sabe, se não terá havido nenhumas. O que é certo é que, durante vinte e tal anos, a contar por baixo, se andou a voar muito baixinho.

Éramos assim antes do célebre dia 25. Mas como do nada, nada sai, assim continuámos a ser.
Quem quis ser diferente, emigrou. Nós, em matéria de voos, queremos e havemos de continuar a ser assim rasteirinhos, rasteirinhos...

quinta-feira, abril 24, 2008

Violenta repressão em Cuba

- Então! Nem um cassetete, ao menos, porra?

Glória ao Vencedor


O Grande concurso dos Blocos Castelo tem um vencedor, o Graza, do Arroios, que, após uma aturada pesquisa na Net, identificou a jovem Rita Redshoes. Aqui fica, com as felicitações do Portugal, Caramba!, a taça que, muito justamente ganhou.

sexta-feira, abril 18, 2008

Adivinha:


O Portugal, Caramba! não tem quaisquer dúvidas sobre a enorme influência da Igreja Católica Apostólica Romana na cultura portuguesa. Ela faz-se sentir desde as grandes questões fracturantes da nossa sociedade, como se viu durante a discussão sobre o aborto e, mais recentemente, no problema da culpa no divórcio litigioso, até aos mais ínfimos detalhes.
Assim, o Portugal, Caramba! propõe aos seus leitores a seguinte adivinha:
Como se chama a jovem cantora portuguesa que declarou:
- Sim, claro, admito que o Santo Padre tem sido uma influência constante na minha carreira.

quarta-feira, abril 16, 2008

Carta Aberta ao/à Senhor/a Gerente


Meu caro/a Sr./a Álvaro/a Silva (1):

Recebi da filial da instituição bancária que V. Exª/º dirige, um questionário impresso.
No seu (dele) antecipadamente grato preâmbulo, explica o dito impresso que a minha colaboração é pedida para dar cumprimento ao Aviso nº 11/2005 do Banco de Portugal.
Não querendo duvidar da vossa competência profissional, estranho que tenham decorrido três anos desde a emissão do Aviso e este vosso pedido de colaboração.
Demorou assim tanto tempo a elaborar o questionário? Acredito que sim, porque acredito também nas virtudes da ponderação.
E, de facto, reparo que ponderaram atentamente as eventuais susceptibilidades dos vossos clientes. A abrir a carta deparei logo com a expressão «Caro/a Cliente». Dado que o meu nome no envelope é claramente masculino, e não podendo supor que V. Exª/º não se tenha dado ao trabalho de o ler, interpreto essa fórmula de tratamento como propositada para respeitar uma possível identidade de género alternativa. Agradeço a atenção e, desconhecendo por meu lado a orientação sexual de V. Exª/º retribuí da melhor forma possível como constatou supra.

Perdoe-me V. Exª/º este longo intróito, que eu vou já à substância desta carta.

Sou cliente da vossa instituição há tantos e tantos anos que muito me espanta que venha agora perguntar-me coisas do tipo como me chamo e onde moro - bastava terem guardado fotocópia do envelope que me enviaram, não? - data do nascimento e profissão, se estou activo ou reformado, rendimentos e habilitações literárias... - tudo coisas que constam nos inúmeros papéis que V. Exªs me enviam regularmente ou dos contratos que convosco firmei; e não creio que alguma das coisas que me perguntam seja omissa da minha ficha de cliente. Que alguns dos vossos Administradores não necessitem de saber ler, não me parece grave. Não acredito, porém, que os jovens futuros executivos que mourejam atrás das vossas secretárias (honnit soit...), não possuam pelo menos um par de pós-graduações. Porque não recolhem eles os dados do vosso próprio ficheiro?

Espero, evidentemente, que nessas fichas não constem coisas como Automóvel, sim, não, ou ocupação dos tempos livres (Hobbies). Já viu V. Exª/º quanto me envergonharia o meu pobre Fiat Uno de 1987 se constasse lá em vez de um BMW? E já imaginou V. Exª/º como eu coro só de pensar que, acidentalmente, uma das vossas Secretárias, Doutoras ou Empregadas da Limpeza leria na minha ficha, que passo os meus tempos livres na internet a ver filmes pornográficos?

Perdoe-me, portanto, esta recusa envergonhada às curiosidades indiscretas do vosso inquérito.

Deixei para o fim uma dolorosa questão.
Desculpe, mas ainda não tinha sido insultado tão gravemente desde que o segurança de uma loja me proibiu de entrar sem selar o saco onde eu trazia um pobre par de botas acabadinho de comprar noutro lado.
- Ah, é porque há muitos roubos..., explicou ele embaraçado porque eu lhe disse claramente que não o autorizava a mexer nas minhas compras.
- E está a chamar-me ladrão?, perguntei eu com cara de poucos amigos.
- Ah, são ordens...
- Então diga ao seu patrão que acaba de perder um cliente.
E saí pela porta fora. Até hoje.
Do mesmo modo, Exmº/ª Senhor/a, tenho de lhe fazer esta pergunta: para que é que no seu questionário me pedem documentos comprovativos da minha morada e do meu número de contribuinte, da profissão, etc.?
Documentos comprovativos de quê? De que as minhas eventuais respostas são verdadeiras? Mas não é suposto que eu, cliente, seja uma pessoa honesta e verdadeira e não tenho o direito de ser assim tratado?
Em resumo, a minha pergunta é simples: é mentiroso o que me está a chamar?


Com os melhores votos de sucesso profissional para si e todos os seus colaboradores e aguardando uma resposta a estas dúvidas, sou, de V. Exª/º atentamente

a) Tacci (2)



1) Nome fictício, claro. Não sou nenhum denunciante.
2) Heterónimo, como já sabem.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Insecto Imperfeito, de Beatriz Lamas de Oliveira

Quem tem farelos?






um



Julguei durante longo tempo ter sido a única pessoa neste mundo a dar-se conta d'O insecto imperfeito.
Não era um livro particularmente chamativo. Tinha uma capa alaranjada, um desenho a negro, tipo um grilo dentro de uma gaiola nem por isso muito bem desenhados. A Gradiva não tinha feito um esforço muito notório.

O nome da autora, Beatriz, provavelmente a Bia como a tratariam os amigos, e os apelidos Lamas de Oliveira pelo lado familiar, não diziam nada. Porque é que se compra um livro destes, é um mistério. Haverá um Anjo da Guarda dos leitores empedrenidos? Sabem? Aquele que nos puxa pela manga e, sem contemplações, nos grita ao ouvido:

- Leva esse, ó estúpido!
O desatento comprador agarra-o, um pouco ao calhas, entala-o entre outros mais sonantes: um policial que nunca mais recordará, um importante autor norte-americano com direito a página e meia nos suplementos literários e os poemas do Nuno Júdice.


dois




E a leitura, quando chega, é surpreendente. Uma história de sedução, quase os anos de aprendizagem de um velho abusador.

Lembrou-me uma amiga que, num daqueles dias desesperados, perguntava: «Mas porque é que os homens são tão aproveitadinhos? Não nos querem, mas aproveitam sempre uma queca de borla...»

Foi gentil e poupou o meu amor-próprio: não disse «vocês os homens». Eu era muito jovem, muito apaixonado, casado há pouco tempo, e ter-me-ia magoado. Mas fiquei a pensar. E voltei a pensar. E penso de cada vez que a barca da paixão cruza a linha do horizonte e o gajeiro grita de lá de cima: «cachopa à vista!». É uma das minhas dúvidas mais recorrentes. Porque é que nós, os homens, tínhamos de ir a todas?

Emprestei o livro à esquerda e à direita (honnit soit...).

Procurei outros exemplares pelas livrarias para o oferecer. Fiz a sua apresentação numa escola secundária.

E, tirando a minha modesta pessoa, só encontro outras duas que parecem ter reparado n'O insecto imperfeito.


três





Uma delas acabo de a encontrar através de um motor de pesquisa: a Fernanda Botelho, que em 99 fez para a Gulbenkien a recensão do livro. Trancrevo como encontrei, se bem que, apostaria uma garrafa de bom tinto Duas Quintas contra uma de reles cola: a Fernanda Botelho, se tivesse sido ela, escrevia muito melhor do que isto:

"A obra está cuidadosamente escrita, com boa clarividência psicológica, mas o leitor? eu pelo menos, não entende lá muito bem a finalidade, o objectivo, a mensagem a recolher da leitura?..."

A Fernanda Botelho era uma mulher muito inteligente. Como tenho lido muito poucas, e muito poucos. Acredito que deixou estas perguntas para si própria, sem nenhuma intenção de fazer delas uma nota crítica. Mas é o que se encontra na net.



quatro



A outra pessoa que reparou no livro de Beatriz Lamas de Oliveira foi o Sérgio de Sousa que tem honrado este blog com a sua atenção (não muita) e sobre ele escreveu na revista «Leiamos» de Maio de 2000 (Edição de Editorial Escritor, Lda).

Com a devida vénia, transcrevo o que a este livro diz respeito:


"... Embirrei com o livro antes de o ter lido," escreve Sérgio de Sousa, "quando o vi numa livraria. Seria algum contraponto à novela de Júlio Moreira, O Insecto Perfeito? Folheei-o e não me pareceu. Romance, dizia-se. Com 98 páginas, apenas duas personagens principais? Resmunguei, apegado a antigos critérios de classificar as prosas.

Depois, de uma amiga, circunstancialmente colega de liceu da autora, ouvi o comentário: «É giro, achei-lhe alguma piada.» E assim se dá cabo, autenticamente esfrangalha um livro.

Por aspectos marginais, sem minimamente ter tomado conhecimento do seu texto, eu já embirrava com o livro.

Li-o e fiquei a gostar dele.

A primeira impressão foi: Que impacto teve uma relação amorosa na autora, que ela teve de vir dissecá-la na pele de extraterrestre.»



cinco



«O livro é mais profundo do que um ajuste de contas, é imaginativo e rigoroso.

Também existem mulheres que acalentam sonhos grandiosos e vagos, que levam a vida a imaginar êxitos, que jamais pensaram no que precisavam de fazer para os alcançar, que entretanto vão seduzindo homens que se deixam encantar pelos seus cantos de sereias e outros encantos mais palpáveis, e as vão sustentando, e depois essas mulheres acabam muitas vezes sós, sem amparo. Também há mulheres «pentacoladoras», e Beatriz Lamas de Oliveira não o ignora.

Mas não é delas que trata este seu livro, em que a protagonista desperta, com uma serenidade científica, da envolvência numa relação que nos relata com palavras precisas.»



seis



«A protagonista é uma extraterrestre colocada em Braga, num corpo de mulher, que ali se envolve sentimentalmente com um estrangeiro. Termo de duplo sentido, estrangeiro porque catalão, e porque, pelo menos para a protagonista, à partida estranho, o que comporta também múltiplos significados, desconhecido, esquisito.

Incarnada mulher, a extraterrestre representa o papel respectivo. A duplicidade da personagem vai servir a análise do envolvimento a que como mulher se presta, e a do distanciamento a que, como extraterrestre, dilucida a evolução do relacionamento.

E o jogo entre os comportamentos da extraterrestre e da mulher resolve-se numa síntese que é a missão.

Missão para cujo cumprimento a extraterrestre foi enviada à Terra, missão que é afinal o sentido «extraterrestre» da atitude feminina, de se deixar envolver e persistir numa relação com premissas para si erradas, empenhando-se numa transformação.»



sete


«Enquanto mulher, a protagonista inscreve-se na classe média superior, presta auditoria a empresas que preferem pagar caro a ela, para se verem livres de uma caterva de empregados a quem pagam pouco.

O estrangeiro é filho de uma prostituta, criado um pouco ao deus-dará, que foi passando pelo insucesso escolar, pelo «desenrascar-se» na tropa, e aprendendo expedientes de sobrevivência, «o valor dos favores como um capital de troca acumulável», «a usar o sexo, por um lado como afirmação das suas capacidades masculinas, por outro, como uma cenoura, que se vai acenando ao burro para o manter no bom caminho», confiando na sua experiência junto de mulheres carentes, a arranjar desculpas «para matar o tempo que era incapaz de utilizar», «em vez de envidar esforços para concretizar algum projecto de vida... a espraiar-se... em projectos de fantasia desinibida...» não se dispondo a desenvolver competências próprias, mas a aproveitar-se das dos outros, reclamando «direitos de proprietário em descanso merecido», desprezando todo o trabalho tido como feminino, revelando-se na realidade inábil, mas muito treinado a inventar desculpas para as suas incapacidades, nunca reconhecidas, antes sobrestimadas as capacidades, confundindo compartilhar com acomodar-se, aproveitar-se, julgando-se, ou agindo como se fosse, isento das obrigações comuns, insensível ao gostar e a compreender o desgosto, e por fim a repulsa, que isso provoca nos outros, o estrangeiro acabara vivendo sempre, afinal, à custa de sucessivas, temporárias, esperançadas amantes.»


oito




«A esta conclusão acabou por chegar a protagonista que, também ela, em espírito de missão, atinge contudo um momento em que quer apenas voltar a sentir que é responsável tão-só pela sua vida, que verbaliza que «duas pessoas não podem viver juntas só porque uma delas acha muito triste viver sozinha...»

O momento em que recusa um homem de quem tenha de tomar conta como um filho, em que quer ter uma relação «de igual para igual», com um homem responsável, com projectos e meios próprios, um homem cuja vida se não resuma à actividade de «pentacolar».



nove




«Beatriz Lamas de Oliveira, que ao longo da sua narrativa vai inserindo várias palavras com uma precisão cirúrgica, de que são exemplo as «tuas estupidezes», pag. 18, referindo-se aos trabalhos domésticos, «que quase nunca se atrapalhava» (o estrangeiro), referindo-se aos seus subterfúgios, e muitas outras, com especial destaque para os termos castelhanos, inventou ainda essa palavra conceptual, «pentacolar».

A «pentacolada» é um desporto radical imaginário, cuja prática requer um equipamento com cordas e ganchos, mas nada mais é precisado. O leitor, que já assistiu, pelo menos pela televisão, a largadas de pára-pentes, a escaladas alpinas, a gincanas de motocross, facilmente se identifica com esta actividade, que requer «audácia, esperteza, força, atributos masculinos», daí que surja como «a actividade masculina iniciática predominante». Em que, atrevo-me, permanentemente se oscila colado, dependente.»


dez




«A novela, prefiro chamar-lhe assim, de Beatriz Lamas de Oliveira, narra um caso extremo de vida de um homem que, na verdade, sempre se colou, e dependeu, pelo sexo, de mulheres que o foram temporariamente sustentando, oscilando entre umas e outras. Mas este caso extremo tem ressonâncias apenas ligeiramente atenuadas no machismo generalizado, e no comportamento típico masculino.

A relação homem-mulher, em que aquele que se pretende depositário da responsabilidade familiar, mas que se revela inábil na resolução de assuntos práticos e rotineiros da vida, imaturo, e a mulher acaba por arcar com o assegurar do dia-a-dia, o prevenir, o proteger, com paciência missionária, é um padrão ainda dominante.
(...)»

onze


«Pentacolada». Pois.
Tout communique, diria o Jacques Tatti.
Porque é que vocês os homens são tão aproveitadinhos, perguntava a minha amiga, há já muitos anos. Não creio que ela se lembre. Ainda bem, porque ela é uma Senhora.
Mas eu lembro-me, porque a dúvida foi ela quem a lançou. Receio não ter sido sempre um cavalheiro. Mas quem nunca praticou essa tal «pentacolada» que me atire a primeira pedra.

sexta-feira, abril 11, 2008

quarta-feira, abril 09, 2008

A Batalha de Não-sei-onde e os anos da Gi


Carlinhos - Heu... a gente vinha... quer dizer, a gente queria era vir e ser assim os primeiros, tá a ver, S'Dona Gi? Mas ela, ali, a Magrizela, ficou a experimentar saias e a dizer que as flores eram chungosas e isso. Só o Trabuco, que é aquela ratazana a fingir de cão que o Zé Nesgas arranjou, tá ver, S'Dona Gi, ele ficou a roer-se de inveja de eu ter a Magrizela...
Zé Nesgas - Tu? Tens o quê, man? Tu tens é pregos...
Carlinhos - Da-hã... Tu não estás flipado, assim do neurónio, nem nada? Deixaste ou não deixaste que o teu Trabuco trouxesse o osso para dar à Dona Gi?
Zé Nesgas - Oh pra ele! Man, pá, tou admirado! O génio chegou aí e faltou-lhe o gasóleo. (pausa) Charlie, man, tu não tás é a ver: o Trabuco trazia o que lá tinha de melhor, o mais saboroso, man, o mais suculento.
Carlinhos - Pois, e o mais aromático... Era cá um aroma que até apagava a chama olímpica, nem era preciso ser solidário com o Tibete.
Zé Nesgas - Tibete. Ah... pois, não me tinha lembrado... Mas sabes? Havia de se fazer um congresso pra arranjar um mais burro qu'a tu e n'haviam de conseguir.
Carlinhos (agarrando o Zé Nesgas pelas bandas do casaco) - Ah é?
(Envolvem-se numa bela escaramuça, qual de baixo qual de cima.)
Magrizela (suspirando ruidosamente:) - Desculpe, Gi. Nós vínhamos só para lhe dar os parabéns e trazer-lhe estas florinhas... Mas, desde que eu deixei de ser cadela, aqueles dois são piores que o gato e o rato. Fiz quinze anos, se continuasse cão estava à beira de morrer, tinha acabado o que quer que por cá andasse a fazer... Não me queixo de me ter tornado mulher, claro. Viverei mais quatro ou cinco vidas de cão, ainda não sei a que preço. Poderei ter filhos outra vez, e outra, e outra, daquele tonto do Carlinhos, em calhando...
Mas tive de aprender a negociar o tempo. E eu... eu tenho aprendido umas coisas, sabe? Uso o sutiã número trinta e quatro B, os sapatos trinta e seis, e tenho de tomar a pílula para que não nasçam cachorrinhos antes de termos tudo o que é preciso para os amarmos. Sei estas coisas, mas não sei porquê. Cada dia tem de se aprender uma nova regra, um canon novo, um novo preceito. É como, tá a ver, é como se a vida fosse uma coisa assim miudinha. Mas o porquê, o porquê último, isso que era evidente quando eu era só uma cadela... a Gi sabe? A Gi sabe se os homenzinhos amarelentos que nos cobrem fazem alguma ideia sobre isso?
E pronto, aqueles patetas já acabaram de brigar... São tão queridos e tão tolinhos, não são?
Olha, enquanto eles não chegam: muitas felicidades para ti, para os teus cachorrinhos e para os cachorrinhos dos teus cachorrinhos...
Carlinhos - Desculpe, S'Dona Gi.
Zé Nesgas - Tem de dar o desconto, ele é parvo.
Carlinhos - Outra vez?
Zé Nesgas - Outra vez o quê? Não percebes que tu és como aqueles cartões do supermercado? Tem cartão interpingo-modelo? Ao fim de cinquenta pontos, zás, temos direito a dar-te uma no focinho?
Carlinhos - E tu, não sabes que tu és do género férias em Punta Cana? Esmurra-se já e paga-se em vinte anos?
Magrizela - Nossa Senhora! (Canta:) Parabéns para a Gi, nesta data querida...
Zé Nesgas (emendando:) - Parabéns a você! Parabéns a você é que é!
Carlinhos - ~Você? Você é estrebaria, ó mongas...
Cai o pano. Em fundo ouve-se discutir enquanto a Magrizela canta o «Parabéns para si».

sexta-feira, abril 04, 2008

Joseph Ratzinger V

Francamente! Não me lembro de os Bispos de ali ao lado, nas Espanhas, terem sido chamados ao Vaticano e, em calhando, nem era preciso.
Mas os nossos foram. Não sei porquê: pinta-me que se andavam a portar mal. Tolerantes? Acomodados?
Não que se tivessem tornado verdadeiros pais, sofredores com o rebanho dos seus filhos, padres de espírito conciliar chamando à Igreja os mais humildes.
Não. Não era bem isso.
Mas, num povo de costumes tão brandos, irritável e agressor, sim, por vezes, mas logo manso e arrependido?
Melhor era que se deixasse estar, não era nenhuma fera, mas porquê acordá-lo? Talvez não mostrasse ameaçadoras presas, mas disparate era o mais provável.
O Senhor Papa, porém, é teutónico! Duvido que entenda estas nossas subtilezas. Para ele o pão é pão e o queijo é queijo.
A religião, sendo uma velhíssima hitória, é um património com dois mil anos. A Hierarquia é a sua única proprietária, a sua única intérprete com patente registada, a única dispensadora da Graça e do Perdão. Perdoarás a quem te ofendeu? Não. O Perdão é um dom divino que só a Hierarquia pode dispensar.
Amarás o próximo como a ti mesmo? Sim, desde que perguntes ao teu «legítimo Superior» quem, e o que fez para ser o teu próximo.
Pôr termo ao laxismo, como se vê, era imperioso.
E, se os Bispos nuestros hermanos endureceram as suas atitudes, ao ponto, por exemplo, de apelarem ao voto contra os partidos que aprovaram o casamento de homossexuais - os da esquerda, óbvio, se estes pobres socialistas como se chamam, ainda o são... - a Conferência Episcopal Portuguesa reelegeu o Senhor D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga.
Nada contra.
Os Senhores Bispos que elejam quem muito bem puderem.
Mas que o eleito corra logo a gritar «ah! sacrilégio! laicismo! ateus! expulsaram-nos da praça pública!», isso já não parece tão curial.
Tanto mais que, já antes tinha saído a terreiro a clamar que iam proibir a assistência religiosa nos hospitais e por aí fora. Não era bem verdade, mas que importa?
Se, de facto, ainda não vimos ninguém do governo, ou mesmo fora dele, sair para a rua a gritar horrorosos insultos como «católicos!» ou «papa-missas!», também não deixa de ser facto que, cada vez mais, as pessoas se divorciam sem pedir conselho espiritual, que se juntam em pecado em vez de casar como deve ser. E agora as mulheres até já podem abortar legalmente em vez de se submeterem à penitência do opróbrio e do vão de escada, ao medo e à dor.
É o escândalo, percebem?
Quase tão mau como rezar a Santa Missa de frente para os fiéis, numa língua que eles entendem.
Ah, caramba!
Que o Papa seja infalível... pois. Tem de ser.
Mas o João XXIII, Senhor... ?
Porque nos dais tanta dor? Porque padecemos assim?

sexta-feira, março 28, 2008

É a saúde, estúpido!


Malpecado
Acto único, cena única

A cena passa-se no consultório. O Médico está sozinho. Ouve-se a voz da recepcionista:)
Recepcionista (de fora) - Faz favor de entrar.

Paciente (entrando) - Obrigado. Como está, Soutor? Eu vinha cá para mostrar assim aquelas radigrafias que me mandou fazer, e as análises...

Médico - Sente-se, homem! (o paciente executa) Análises? Pra quê?

Paciente - Para quê?

Médico - Sim, análises, radiografias, toda essa treta para quê? (pausa) Basta olhar para si. (apontando um dedo:) Clinicamente morto.

Paciente - Desculpe, Soutor, mas...

Médico - Deixe ver as unhas (o doente mostra). Unhas raiadas, vê estes riscos? E arroxeadas. Não sente uma dor aí, por de baixo do mamilo esquerdo?

Paciente (com alívio) - Não, isso não...

Médico - Pode ser um bocado mais abaixo. Está cheio de gordura no fígado.

Paciente - Mas não sinto, não.

Médico - Vai sentir. É um sintoma que nunca falha. Pode ser da próstata. Quantas vezes é que se levanta durante a noite para ir mijar?

Paciente - Não. Pronto, quer dizeer, é muito raro, Soutor. Claro, às vezes, assim com os rapazes, um petisco, bebe-se um pouco mais de cerveja...

Médico - Cerveja? O meu amigo bebe cerveja? Nesse estado e bebe cerveja?

Paciente - Não, é só umas canecas de vez em quando. Mas, ó Soutor, qual estado? O Soutor não...

Médico (interrompe) - Pá! O amigo é que sabe, pá. Apanhe as bebedeiras que lhe apetecer. Mas não me venha para cá dizer que lhe dói o fígado. (abre o envelope e tira uma folha de papel) Olha-me só para esta ósteo: zero, setecentos e setenta e cinco gramas por centímetro quadrado.

Paciente - Gramas por centímetro quadrado?

Médico - Sim. Quadrado. Queria que fosse redondo, ia à Caixa. Isto é um consultório a sério.

Paciente - Não. É só porque gramas por centímetro quadrado não faz sentido. Um centímetro quadrado tem espessura zero, como é que pode ter peso?

Médico (enche-se de paciência) - Pá! Olhe, meu amigo! Os gajos andaram mais de vinte anos a calibrar esta merda e o meu amigo vem-me para aqui com gaitas? E eu a aturá-lo? Ou quer ou não quer, porra! Eu digo as coisas: olhe-me esse fígado, essa dor vai-se agravar, pá, não toma cuidado, e depois, bumba! Missa de sétimo dia e tal... começam à conversa, pois, o médico é que não viu nada. E vêm os seus cunhados, os seus primos, essa gente, ai coitadinho, era tão bom chefe de família, e bumba: processa-se o médico, que, por acaso até sou eu. Acha bem?

Paciente - Não, oiça Doutor...

Médico - Não faz mal. Não diga nada! Eu já estou habituado, quero lá saber! Até já sei porque é que o meu amigo cá veio! Quer viagra! Todos querem!

Paciente - Ó Soutor, desculpe! Aguente aí os cavalos!

Médico - Mas não quer viagra? Olha, é estranho.

Paciente - Não. Sim, quero, mas não é bem isso.

Médico - É o quê, então?

Paciente - Pronto, Doutor, é assim: eu ando a deixar de beber e de fumar, essas coisas que fazem mal, é o que se diz...

Médico - Meu filho! Meu irmão! Tu fumas?

Paciente - Pois, Senhor Doutor, infelizmente...

Médico - Pá! Tu fumas e não dizias nada? (abre a gaveta e extrai um tabuleiro com tabacos vários:) Fumas o quê? Eu vou tirar um destes. Recomendo-tos: puros!

Paciente - Ena pai! Tem aí Stagonov, um dos melhores tabacos do mundo. Dá-me licença de que encha um cachimbo? (executa) E podemos fumar aqui no consultório?

Médico (acendendo o charuto) - Se prometes que não dizes nada à Asae... Ah...

Paciente (acende o cachimbo) - Hum...

Médico - É... também estava a precisar... hum... Afinal, veio cá porquê?

Paciente - É que não consigo deixar de fumar, está a ver? E sabe, com um copo ou outro...

Médico - Sei, ó se sei! (tira de baixo da secretária dois cálices e uma garrafa e começa a servir) Vai uma gota? É uma aguardentezinha bagaceira, destilada à saída do lagar. É tão boa, pá, que já deve ser proíbida.

Paciente - Agradeço... (prova e estala a língua ) Preciosa! Tintos da Estremadura, talvez ali mais perto do Ribatejo... Alenquer! Não, Carregado ou Azambuja! Acertei?

Médico - Quase! Vila Nova da Raínha. Uma quinta de uns amigos meus. Lá é que ainda se vive bem. Cavalos, dinheiros da Cê-é-é... Ainda bem, que lhes preste! Ao menos sempre sobra alguma coisa.

Paciente - Pois. Ele há coisas... Esta bagaceira, os enchidos... Às vezes sinto-me assim esquisito. Não é que eu seja religioso, mas penso que Deus nos está a castigar, só assim, por sermos felizes e estarmos bem. E pronto, tenho medo. Tenho medo das cirroses, tenho medo dum a-vê-cê, tenho medo do cancro... é mesmo verdade que o tabaco é cancerígeno?

Médico (mirando o charuto) - É. Receio bem que seja mesmo. Mas sabes uma coisa? Há uma vacina porreirinha contra tudo isso. Amandas-te do nono andar, com a cabeça para baixo de preferência. 100% de eficácia. É um bocado radical, mas garanto-te que não apanhas mais doença nenhuma!

Paciente - Porra! Prefiro este cachimbo.

Médico - Viver é cancerígeno, pá. Não sabias? Mas olha, podes fazer como o palerma do chinês: sentas-te à beira do rio e esperas o tempo suficiente. Verás o cadáver dos teus cancros passar na corrente. Olha, e se não vires, também não perdeste nada. Ganhaste o teu cachimbo, não foi? E, meu caro amigo, vou-lhe passar a receita do viagra enquanto acaba o seu copo. Trate-me, mas é desse seu dente: com o bagaço e o tabaco de cachimbo, vai ficar com um mau hálito do caraças.

(cai o pano)

terça-feira, março 25, 2008

Numming Up

- A 5 de Outubro, man? É já ali.
Não acreditam?

Estou a rir-me devagarinho, para mim mesmo porque o meu cão dorme e não há mais ninguém nas redondezas. Não que, reconheço, o motivo desta minha íntima risota tenha piada. Aqui para nós, o acontecimento careceu mesmo em absoluto de um grama que fosse de sentido de humor.

Uma Professora (1), algures lá para o Norte, passou-se dos carretos, apreendeu um telemóvel. A proprietária do dito, em histeria completa, tentou arrancar-lho. Gestos largos, gritos agudos, empurrões.

Se fossem homens, teria havido um grito viril: «agarrem-me, senão eu mato-o!» Como eram mulheres, faltou o arrancar de cabelos para que se cumprisse a tradição.


Sobre esta caricata cena que nos chegou através, aí sim, do sentido de humor dum outro pssuidor de telemóvel com câmara de video, não vou perder o meu tempo e menos ainda o meu parco latim.

Já se condenou toda a gente, desde a aluna agressiva, ao ministério, ao ensino público, à degradação da Autoridade (com maiúscula, está bem de ver) quer da Escola, quer dos Educadores.

Não faltou sequer o parecer jurídico (é inconstitucional a aprensão do objecto, mesmo que esteja no regulamento da Escola), nem a Psicologia.

Não era o Dr. Eduardo Sá aquele Senhor que no You Tube tecia suaves (mas contundentes) críticas à actuação da Professora, a qual devia ter feito e acontecido em vez de taratátá & companhia?


Renitente embora, vou-vos confessar uma coisa: comecei a trabalhar há bué da anos. Não sei, talvez em 1964. E fui professor, pela primeira vez a sério, no ano lectivo de 1972/73. E houve coisas que fui aprendendo, daqui e dali, frases feitas, por vezes.

Uma delas, particularmente acutilante, foi-me ensinada pelo Leonel Pires Lourenço, que Deus lhe fale na alma.

Trabalhávamos ambos na rádio e era ainda o tempo em que os circuitos integrados, último grito da técnica, faziam a sua entrada nos hábitos dos nossos engenheiros. As válvulas, as lâmpadas e os bicórdios eram a mais prudente aposta da tecnologia nacional e predominavam por todo o lado.

Ninguém já faz ideia do que era a nossa central técnica numa tarde de Domingo, quando os relatos de futebol eram escutados religiosamente por tudo o que era lado. Os clubes, da primeira divisão à terceira distrital, jogavam todos ao mesmo tempo. Havia dezenas de bicórdios a sair dos bastidores, a ligar os relatores dos futebóis aos amplificadores, tudo simultaneamente no ar.

Necessariamente, na coordenação de centenas de ligações, alguma coisa havia de falhar. Porém, se nos criticavam os erros de operação indistinguíveis, aliás, das falhas do material, o Leonel ria-se pelo canto da boca e atirava:

- Ai é? Então venham cá vocês fazer c'a tromba!

A tromba em questão não era, como poderia ocorrer a um menos precavido, o lisonjeiro apêndice nasal do elefante. Era mesmo a tromba do porco.

Uma sala de aula é, com as devidas distâncias, uma complicação ainda maior do que a da nossa Central Técnica.

Lembram-se dos Telebes, ou lá o que era? Lembram-se da discussão sobre o regime de faltas dos alunos?

Às trapalhadas do Ministério que quer controlar tudo, junta-se a trapalhada das educações improvisadas por pais incompetentes, a luta pela conquista do mercado pelas editoras escolares. À banalização dos divertimentos nocturnos, com as variadas intoxicações, veio juntar-se a evolução tecnológica, que dotou cada criança, cada adolescente de acrescidos meios de estarem «noutra».

As probibilidades de uma aula falhar tornaram-se demasiado altas. A pobre Professora lá do Norte que se passou dos carretos, tem o meu inteiro apoio se gritar de lá a sua indignação:
- Venham cá vocês refocilar nesta estrumeira, a ver se fazem melhor!


Mas o que é que está errado então, perguntais?

Era uma tentação esticar agora o dedo acusador e disparar em todas as direções. Este mundo da educação está de tal modo coberto de alvos que nem precisava de apontar: acertava sempre, quase como os soldados americanos no Iraque. Disparem para onde dispararem, acertam sempre num inimigo.

Mas não. Recuso-me a tentar responder, e isto por duas ordens de razões bem distintas entre si.

A primeira é esta: não quero acrescentar ao fungagá que já se gerou, a mão cheia dos meus próprios palpites. Já estou muito cansado, quer das soluções milagreiras, como, para dar um exemplo, o cheque ensino dos Blasfemos, quer dos pequeninos remendos paliativos que cosem de um lado para esgarçar do outro.

É que uma discussão a sério teria de começar por questões tão vastas como:
- Queremos ensinar, queremos formar, queremos formatar? Queremos educar? Para quê? Quem? E devemos obrigar a aprender? E podemos fazê-lo? Quanto queremos gastar?
- Ah, bom! Queremos tudo, mas não há verba, é isso? Então, vão-se lixar e não chateiem.

A segunda das razões é muito mais simples: falar do Ensino era, para mim, falar da minha vida quase toda. E ainda não me apetece fazer balanços finais (ou os Summing up, para fingir que também sei falar estrangeiro). É só isso. Sorry.

Deixem-me só acrescentar mais uma coisa: quando ainda andava pela rádio, no meio da insurreição de Abril e nas confusões que se lhe seguiram, uma muito querida amiga ensinou-me mais uma das máximas que passaram a acompanhar-me desde então e que seria digna de Lao-Tzé:
Quanto maior era a asneira dos nossos Directores, quanto mais flagrante a falta de senso - e de decência, por vezes - maior era o seu sorriso.
- Pagam-nos mal, - dizia. - Mas divertem-nos muito.
Compreendem porque é que eu disse, lá em cima, no início do post, que me estava a rir baixinho?

(1) Os senhores professores universitários gostariam que reservássemos «Professor», por extenso e com maiúscula, a um dos graus da sua hierarquia. Como não são eles quem nos paga e, confessemos, nos divertem pouco, o melhor é não ligar.

sexta-feira, março 21, 2008

terça-feira, março 11, 2008

A Sala Magenta


O José Rodrigues Miguéis tinha pouca sorte com os barbeiros.
Eu, salvas as devidas distâncias, é com os escritores portugueses que tenho azar. Aos maiores, não os leio. Confesso o meu mau gosto: nem a Agostina, nem o Mário Cláudio, nem o Lobo Antunes. O José Saramago vou lendo, mas nem sempre com o mesmo gosto.
Saudei, como toda a gente o Memorial do Convento, mas não o reli. Da Jangada de Pedra, sim. Gostei e releio-o uma vez por outra. Detestei aquele do Cerco de Lisboa, voltei a gostar do Todos os nomes e nem por isso do Evangelho. E por aí fora.
Depois, começa o meu azar.
A Fernanda Botelho faleceu. Ponto final.
A Ana Teresa Pereira, com uma escrita linda, para minha perplexidade, parece-me andar a reescrever sempre o mesmo livro. O defeito, certamente, é meu. Mas que fazer?
A Beatriz Lamas de Oliveira, essa, que eu saiba, escreveu um só livro. Se alguém souber de outros, por favor, avise-me. Correrei Seca e Meca para os achar, mesmo correndo o risco, como a Raínha Victória quando mandou comprar a obra completa de Lewis Carroll, de me achar com um tratado de topologia nas mãos. Até lá, passo melancólico pela estante, pego n'O Insecto Imperfeito que já conheço quase de cor e penso que há desperdícios imperdoáveis. O desta escritora, por exemplo.

O Paulo Castilho foi também, durante alguns anos, aquele autor cujo aparecimento nos escaparates eu vigiava ansioso. Não que tivesse gostado particularmente de Fora de Horas. Mas, se me permitem o pretenciosismo, percebia-se que estava ali um escritor. E Sinais exteriores, depois Parte incerta, confirmaram-me no meu interesse. Finalmente veio o Por outras palavras. Já lá vão vários anos. Desde então para cá, continuo a procurar em vão a letra «C» nas prateleiras das livrarias e a reler, de vez em quando as ...Outras palavras, os Sinais. Algum amigo (certamente mais do alheio do que meu) ficou-me com a Parte incerta. Procuro-a, até hoje, pelos alfarrabistas porque não há reedições.
É a isto que eu chamo pouca sorte.

Há também o João Aguiar.
Explêndido o Navegador Solitário.
Divertido e imaginativo com O Homem sem nome e com a Encomendação das almas. E com o juvenil O Sétimo Herói.
Que importam os dois primeiros livros da sua trilogia inspirada em Macau se o último, A Catedral verde, se lê de penalti, como fazem os miúdos com os shots nas discotecas e os pedreiros nas tabernas com copos de três?
No meu pouco modesto critério, a marca de um bom livro (ou como dizia o Professor Manuel Antunes, de um óptimo livro) é que vale a pena relê-lo. E o Diálogo das Compensadas, a par com Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Gabriela Cravo e Canela, A cidade e as serras e poucos mais, lê-se sempre com o mesmo prazer, como se fosse um livro novo. Se só pudesse levar dez livros para uma ilha deserta, as Flores ou o Corvo, vá lá, eu recusava-me a ir, claro.
Mas, se fossem cem ou cento e cinquenta... levava as Compensadas e ia. Tinham era de me jurar que nem o Cavaco nem o Sócrates passavam por lá em visita de Estado. (Aqui para nós que ninguém nos ouve, que história é essa das presidências abertas? Porque é que não as fecham e não as enterram bem fundo? Não há já poluição que chegue? Desculpem. Onde é que íamos? Ah, sim:)
No entanto, será impressão minha ou o João Aguiar está em crise? Se ele me perdoa, O jardim das delícias é repetitivo. Como nos livros da Ana Teresa Pereira, eu tive a impressão de que já o tinha lido e relido não há muito tempo. Dos livros infantis, prefiro não dizer nada. E o Neandertalzinho do Lapedo parece-me bom jornalismo, muito interessante, primorosamente escrito, mas só isso. Bem sei, já são qualidades que cheguem. Mas eu continuo à espera de outro Navegador solitário que não há meio de vir.
Pouca sorte? Espero bem que não. Já estou a bater com os nós dos dedos na madeira e a dizer «lagarto, lagarto, lagarto!»
Mas não o tenho procurado pelas livrarias da Baixa com o empenho que dantes soía.

O terceiro dos autores portugueses cuja escrita tento acompanhar é o Mário de Carvalho. O primeiro livro que dele li, há já vários e tormentosos anos, foi A paixão do Conde de Fróis. Mesmo sendo radicalmente desconfiado de narrativas illo temporais, gostei da novela. O Mário de Carvalho conseguia não lhe dar um tom bafiento, erudito-gradioso. E havia, lá por trás, sempre presente, um sólido cepticismo, uma concepção sarcástica do heroísmo pátrio, do nacional politiquismo. Mas devo dizer que só prestei realmente atenção ao escritor a partir do Era bom que trocássemos ums ideias sobre o assunto. Erro meu. Em vez de ter lido logo Os Alferes, ainda ando à procura deles. Encontrei o Fabulário, os Casos do Beco das Sardinheiras, mas não os Quatrocentos mil sestércios.

Foi, no entanto, a Fantasia para dois coronéis e uma piscina, talvez o menos «sério» de todos os seus livros, a lembrar a magia de Casos, o que eu mais gostei. Nos Casos havia quem engolisse a Lua, uma torneira que se abria no Céu, confundia-se "o Manel Germano com o género humano".

Na Fantasia aparecem deuses pendurados nas árvores, seguimos atentamente as impressões trocadas entre um melro e um mocho, assistimos à destruição dos vestígios de uma vila romana e à odisseia marítima de uma Renault 4.

Tudo podia acontecer e acontece mesmo. Uma claque de desportivos quadrúpedes destrói uma estação de serviço na auto-estrada e o «mocinho» desta fantasiosa cavalgada, heróico escaquista (onde raio foi o Mário de Carvalho desencantar este sinónimo de jogador de xadrêz?) aproveita para se deixar seduzir pela bar-tender da cafetaria. O realismo fantástico, que não raro apanha o escritor numa núvem espessa de misticismo (como aconteceu com a Isabel Allende, com o Didier van Couwelaert e o próprio João Aguiar), é no Mário de Carvalho assumido como paródia e como paródia deve ser lido. Tudo é fogo de artifício: da política ao heróico patriotismo, das velhas gerações inúteis dos anos sessenta aos jovens Cláudios a cumprir pena por delitos vários, drogas diversas, orfandades múltiplas.

E, de súbito, um'A sala magenta.

«Magenta» é uma cor. Entre o vermelho e o azul, uma cor quente e uma fria, aí está o «fúcsia», a cor feminina por excelência. As deusas já não precisam de se pendurar nas árvores, na torre das igrejas: estão por todo o lado nas paredes magenta.

"Não sei se é uma história de amor, se é uma história de paixão", diz o autor a Rodrigues da Silva numa entrevista. "E de raiva e de ressentimento, também."

O romance também não nos esclarece. Pode ser que tenha uma continuação, como Os três mosqueteiros em Vinte anos depois.

Pouca sorte. Vamos ter de aguardar.

segunda-feira, março 10, 2008

Aviso:

O Portugal, Caramba
anda em reparações
e não tem podido manter a sua actividade normal
(se é que a «sua actividade» alguma vez foi normal,
mas enfim!)
Confiemos no Sapo.

sábado, março 01, 2008

Doze palavras não ditas e retornadas...

A primeira foi a do Sinal;
a segunda a da Balança;
a terceira é a do Braço Dado.
Olha que são três.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Doze palavras ditas e não retornadas... 2

A segunda é a da balança.
Qual é?
Se já descobriu, pronto.
A caixinha dos comentários espera por si.

Xarope Peitoral de James, caramba!

Este blog chama-se Portugal, Caramba! por uma razão simples. Quem leu A ilustre casa de Ramires há-de lembrar-se da simpática figura do «Castanheiro Patriotinheiro» que, ainda estudante em Coímbra, "fundara um semanário, a Pátria - com o alevantado intento", diz Eça de Queiroz, "de despertar [...] em todo o País, do cabo Sileiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido das belezas, das grandezas e das glórias de Portugal!»
Três números depois, como acontece com as revistas dos estudantes, a Pátria suspendia a circulação. Mas a vocação do Castanheiro, o seu pequeno degrau para o sucesso, não ficava esquecido.

E é este mesmo Castanheiro quem, anos mais tarde, no Rossio, Gonçalo Mendes Ramires volta a encontrar, com um grosso in folio debaixo do braço, ocupado de novo com o ressurgimento da Pátria:
«Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam - ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de James, hem? E que todos o adoptem - ao menos como se adoptou o sabão do Congo, hem? [...] Como? Reatando a tradição, caramba!»

Um século mais tarde (mais coisa, menos coisa), onde está esse Portugal que deveria ser propagandeado, gritado aos quatro ventos, tão conhecido, digamos, não já como o sabão do Congo, mas, ao menos, como a Floribela?

A tal «tradição» do Castanheiro, a «tradição, caramba!», foi reatada.

É em seu nome que gloriosos estudantes universitários, dizem eles, fazem ressurgir a Pátria: à humilhação dos seus colegas recém chegados chamam praxe. Obriga-se o caloiro a tarefas impossíveis, castiga-se o caloiro, besunta-se com esterco, obrigam-no a embebedar-se, a simular o acto sexual sabe Deus com quem.

Os bons exemplos não faltam:

Uma aluna declara que "foi obrigada a colocar-se de joelhos e que foi barrada com escrementos de porco (cara, pescoço, peito, costas, barriga, cabelo) por um grupo de caloiros que agiram sob ordens (...) Diz ainda que chorou, sentiu náuseas, foi humilhada, que se declarou anti-praxe. Mas que, regressada à escola, outro aluno ordenou que a agarrassem pelas pernas e lhe mergulhassem a cabeça num bacio com excrementos." (Público, 15 de Fevereiro)

"Obrigaram-me a colocar na posição de 'Elefante Pensador' (de joelhos, cabeça no chão e as mãos debaixo dos joelhos com as palmas viradas para cima)", diz a mesma aluna.

É uma posição "bastante dolorosa", garante outra caloira. (Idem, 13 de Fevereiro)

Depois, foi esfregada com esterco: "camada sobre camada, esfregaram-me a cara, pescoço, peito, costas, barriga, cabelo."

E tudo, decerto, em nome da tradição. Dessa tradição tão portuguesa que dá novos mundos ao Mundo. Se os camonas de Abu-Garib julgavam que tinham inventado alguma coisa, bem se enganavam. Os jovens tradicionalistas portugueses dão lições seja a quem for, em qualquer dia da semana.

As autoridades Académicas, os antigos Alunos, a própria Polícia, toda a gente se mostra tolerante:

«Pá! Sempre foi assim», diz um mais velho que passou por Coimbra em tempos já muito idos.

«Também passámos por isso e não morremos», garante outro.

E, com um sorriso constrangido, o Senhor Director da Faculdade, quiçá mesmo o Magnífico Reitor, fala em «rapaziadas» e em «espírito Académico».

"É um cúmlice", juraria o Portugal, Caramba. "Não foi à vinha, mas ficou à espreita."

Em privado, descontraído no sofá de orelhas, com o whisky numa mão, o «havano» na outra, o Magnífico encolhe os ombros, "pá, que é que tu queres? se aperto as regras, os gajos piram-se! É a concorrência! E depois? Quem é que nos pagava os ordenados?"

Em público, com o prestígio da sua escola em jogo, às vezes perde a cabeça. Precipita-se. Convoca o mais depressa que pode a conferência de imprensa e denuncia ele-próprio as mazelas que, se pensasse bem, havia de esconder.

Um funcionário não discriminado - professor, contínuo, escriturário, sabe Deus! - terá saltado para as intimidades de uma aluna e, oh azar! Engravidou-a; melhor, a gravidez surgiu, porque ninguém engravida ninguém sozinho.

Nada de novo.

Já ouvi esta hitória mais de cem vezes. O velho profe, o burocrata-chefe, a meio caminho da caquexia, deixam-se tentar pelo corpinho ágil e vibrante de animalzinho jovem: a aluna. Ela, por sua vez, deslumbrada pelo saber, pela posição social de poder, abre-se! Alma, coração, corpo.

Depois, tudo falha. O funcionário não quer outro filho, não quer tomar conta de uma gajinha que só lhe interessava por causa da cueca - se nos perdoarem o plebeísmo.

Só, ao fim de cinco meses de gravidez, a rapariga toma dez comprimidos abortivos.

Que faz o Magnífico Reitor?

Protege-a, como aos torcionários da praxe Académica?

Nem pensar.

É a honra da sua Instituição que está em causa.

Convoca jornalistas. Desvenda em público, para os media, segredos que não lhe pertencem e declara: «esta água porca não é do meu capote!»

Sem cuidar de que está a invadir publicamente a privacidade de uma pessoa. De que está a usar o privilégio a que se dá o nome de locus parentis para se arvorar em denunciante. Para salvar a própria pele de educador conforme à lei e á moral.

Como disse Jorge revoltado n'O primo Basílio:

- ... Isto só em Portugal!...»

O conselheiro disse:

- A autoridade devia intervir decerto... - Acrecentou com bonomia: - São rapazes (...)"

Há cem anos. Cento e quarenta, mais coisa, menos coisa.

É Portugal, caramba!

Se me permitem um pequeno momento, vou ali adiante pôr uma bomba e venho já.

domingo, fevereiro 24, 2008

As doze palavras ditas e não retornadas do Portugal, caramba!

Pictcionário (1)

Doze palavras para adivinhar, só pelo tosco boneco aqui ao lado.
E a primeira é a do sinal de trânsito: já sabe qual é?
A caixa dos comentários, fachavor!
____________________
(1) Detesto desafios. Sobretudo porque não sou capaz de os ignorar. E é por isso que os adoro. Contraditório? Claro. É assim, mas a culpa foi da Gi a da Ana. Depois venham-me dizer que não há conspirações.

domingo, fevereiro 17, 2008

Mariazinha em Wiriyamu

Felícia Cabrita, Massacres em África, Lisboa, A esfera dos livros, 2008, pag. 257:
»«
"Ele estava a retirar-se da aldeia quando viu a cabeça do miúdo a sair de entre os corpos. Era inadmissível, no meio daquilo tudo, deixar alguém vivo, e os mortos não sofrem. Voltou atrás. O Alferes Abreu gritou: «Foge daí que isso está muito quente!»
Agora vem-lhe muitas vezes à memória aquela imagem. Não tinha mais de quatro anos. Levantou a cabeça, olhou-o, passou a mão pelo rosto cheio de sangue. Tinha a barriga desfeita. Talvez nem sobrevivesse. Talvez... Ergueu a arma e disparou.
Mas claro que houve cenas engraçadas: uns tipos que iam a fugir e são caçados pelo helicanhão, mãozinha da Força Aérea, e ficaram desfeitos. E mesmo anedóticas, como quando atiraram a dose habitual para dentro de uma palhota e um negro saltou com o tecto. Aterrou vivo e foi a caça ao pombo. Ele desata a correr e José Maria a disparar com os outros. «Aí vai disto. Devia ter vinte anos e demos cabo dele.»
Mas há quem não cante de galo nessa noite. entre os oficiais, Silvestre do Rosário chora: «Eu não sou um assassino, fizeram de mim um assassino.» Há assassinos acidentais e profissionais."

terça-feira, fevereiro 12, 2008

O Cão que jogava xadrês XXI


Quando hoje de manhã me avistou, sentado na borda do passeio, não esperava que a minha Senhorinha reparasse neste seu fiel chevalier servant, quanto mais que me reconhecesse e, despida de vaidades, se viesse sentar no chão, a meu lado.

A minha comoção foi tal que ainda gaguejo, aqui diante destas teclas.

Não foi culpa minha se deixámos de nos ver.

E menos ainda que a narrativa dos extrordinárias ocorrências do Canil Municipal, SA, tivesse de ser suspensa.

Eu sei que passaram dias e dias, semanas, meses sem dar notícias e que a minha Senhorinha me procurou em vão.

Mas, o inimaginável aconteceu: estou curado. Eu.

Deram-me um papel carimbado, uma mão cheia de receitas para aviar numa farmácia qualquer e pronto: apontaram-me o caminho da porta.

Não que eu, ao fim de quinze anos de internato, não o soubesse. Mas, que havia de fazer?

Fingi-me atarantado, deambulei pelo átrio, com o saco a arrastar atrás de mim e á hora do almoço aproveitei a distracção dos seguranças que estavam a preencher o euro-milhões e esgueirei-me para o refeitório.

A chefe é Dona Carolina, uma gorducha de rabo empinado que anda a atirar os pés para fora e por isso, a gente chama-lhe a Pinguína. Deixou-me comer a sopa, a ela, se calhar tanto fazia, mas a Segurança mais o Médico de turno e a Assistente Social, chegaram todos ainda antes da massa guisada.

Que eu tinha família, que tinham sido avisados, dizia um, que vinham aí buscar-me acrescentava outro. E perguntaram-me se eu tinha dinheiro e onde estavam os meus documentos.

Família? Dinheiro? Documentos?

E os doentes mentais somos nós?

A Assistente, a abanar a cabeça para o Médico, como se a culpa fosse minha, escreveu imensa coisa num impresso que eu tive de assinar. A título de «põe-t'àndar-e-não-arranjes-mais-chatices» deu-me dez euros emprestados que eu teria de devolver no prazo de oito dias úteis.

Os seguranças, irritados por terem sido fintados por mais um débil mental e por me verem a sacar uns trocos, ainda por cima, acartaram comigo para a rua e ficaram a ver se eu não dava a volta e entrava de novo. Eu, bem que tentei. Mas não há nada mais cruel do que uma instituição quando tem de apertar os cordões à bolsa.

Que havia eu de fazer?

Fui tomar um café com dois pacotes de açúcar porque ainda estava a sentir fome.

A partir de agora ia ser assim.

Mas, pronto, não quis apoquentar a minha Senhorinha com as misérias deste mundo, nem quero agora incomodar as Gentis Damas e os Cavaleiros que ainda se derem ao trabalho de me ler.

Claro que, uma vez a viver na rua, com o resto de dez euros no bolso, não foi pêra doce aceder à internet. Quando se dorme nas portadas, em vãos de escada, embrulhado em jornais, sujeito, manhã atrás de manhã, a ser expulso pelo primeiro condómino que deixa o quentinho do lar, a caridade bem ordenada começa com o pequeno almoço se a tanto a sorte ajudar. Remédios, meias lavadas e acesso aos bens culturais, tudo se vai paulatinamente tornando num secundaríssimo luxo.

Basta, porém, de desculpas.

Não vim incomodar a Minha Senhorinha para me queixar e muito menos para pedinchar fosse o que fosse.

Lembra-se de que o Deus-dos-Cães (aka, ou melhor, aliás, como dizemos nós, Anúbis, aliás, o Deus-Chacal) tinha abandonado a Magrizela, o Carlinhos e o Zé Nesgas no meio da rua. Um salto prodigioso dos que só ele sabia dar levou-o ao telhado da Junta de Freguesia, onde um ruído de telhas partidas anunciou uma aterragem acidentada.

-Fosga-se, man! - exclamou o Zé Nesgas de boca aberta. - Aquilo era o Wolverine, ou era o quê?

Ninguém lhe respondeu. A Magrizela, agarrara de novo no blusão do Carlinhos e saracoteava-se com ele sem conseguir enfiar as mãos pelas mangas. Tinha já tentado enfiar um pé no bolso, mas verificara que não estava a ser muito bem sucedida. E o proprietário do dito blusão, além de tactear devagarinho a cara num sítio que enegrecia rápidamente, apercebera-se, se calhar pela primeira vez, da camisa de onze varas em que estava metido.

Levar para casa uma cadela, mesmo velha e sarnenta, era uma coisa.

Outra bem diferente era aparecer com uma chavala desavergonhadamente nua, que se agachava para fazer os necessários na borda do passeio e que insistia em lamber o focinho... perdão: o nariz dos seus novos amigos.

«Mas bem», pensou ele, «o que tem de ser tem muita força!»

Pelo menos, era o que dizia o Pai quando não acontecia nada do que ele esperava.

E lá convenceu a Magrizela a seguí-lo - para o que, diga-se, teve de puxar a corda com alguma insistência. Houvesse uma alternativa, nem que fosse fugir para o Nepal, e o seu Primo nem hesitaria. Mas o Zé Nesgas, consultado, não apresentou sugestões: hipnotizado pelo corpinho da Magrizela, estava mesmo sem préstimo nenhum.

A nossa casa, quando não se consegue pensar em mais nada e por pequenina que seja, mero tugúrio no em prédio degradado ou barraca de zinco na encosta do monte, é o nosso castelo apalaçado, a fortaleza de cujas muralhas resistimos a castelhanos e americanos, governantes e banqueiros e aos grande da Alfredo Arroja.
«É», diria a Stoura Laura, se por acaso andasse por alí, «o próprio devir histórico», fosse o que fosse que isso quisesse dizer.

Mesmo não sendo longe, o acesso ao lar não se realizou sem algumas dificuldades. A Mãe do Carlinhos e distinta Tia da minha Senhorinha, só para dar um exemplo, começou logo a ralhar:

- De onde é que o menino vem a uma hora destas? E olhe-me para essas calças! Onde é que as estragou dessa maneira, diga lá! Andou à briga outra vez lá na escola, já estou a ver! Já tirar essa roupa e tomar um banho!

O ar feroz da sua Tia era o menos. O Carlinhos estava habituado e se a Mãe julgava que as palmadas lhe faziam mossa, ora bem, desde que o Zé Nesgas conseguisse fazer entrar a Magrizela pelas trazeiras até ao quarto! O Carlinhos achou por bem fazer uma gritaria à laia de manobra de diversão:

- Aiai, Mãezinha, não me bata, aiai! - e marchou para a casa de banho seguido da Senhora sua Tia.

O seu Tio, esse, regressado do bar onde a doce Svetlhana lhe ouvira as queixas e os projectos e lhe ia renovando as taças do suave «Guy Fawlkes blue» a doze euros cada uma, começava a sentir um par de dores fininhas, de cabeça uma, de remorso, a outra.

Não poude por isso impedir-se de berrar como um paquiderme em trabalho de parto: «Gaita que não há sossego nesta casa!»; «Deixa lá o rapaz, irra! Já tem idade para se desenrascar sozinho!»; «Se não tiver, não tem, canudo! E o jantar, onde é que está? Não se janta hoje, está-se a ver!»

A sua Tia, lá do fundo e ainda a empurrar o seu Primo Carlinhos, retorquiu que, «se queria intervir na educação do seu filho, tivesse vindo a horas. E que, quem tarde viesse, comesse do que trouxesse, nunca tinha ouvido?»

O Carlinhos, um pouco mais animado porque a trovoada lhe passava por cima da cabeça e ia chover noutras planícies, entrou rápido para o duche enquanto o tom da troca de ideias entre os progenitores subia vários decibéis. A Mãe, de um lado, clamava por respeito. O Pai, do outro, também. E o Carlinhos, embrulhado no toalhão, aproveitou para se esgueirar para o quarto.

A Magrizela, tapada com o edredon no meio do tapete enrodilhado, dormia com um ar pacifíco enquanto o Zé Nesgas, agarrado ao teclado do computador, dava tiros aos extra-terrestres azuis que surgiam aos cantos do monitor.

- Man - disse ele sem desviar os olhos de um monstro castanho que emergia de uma bilha. - Essa garina é esquisita com'á porra! Mal entrou, começou às voltas no tapete e ferrou-se a dormir.

Interrompeu-se para disparar uma saraivada de balas contra o inimigo que se desfez em geleia.

- Assim em pelota e tudo. - continuou ele depois de gritar «g'anda tiro, viste?» - Tive de a tapar, com o teu edredon. Ond'é que tu arranjaste este embrulho? A minha irmã também não é grande coisa, mas esta bate-a aos pontos todos os dias da semana!

O seu Primo ofendeu-se e agarrou-o por um braço:

- Como é que tu sabes? - contrpôs ele. - Só hoje é que a viste!

- Eu sou ceguinho, não?... - interrompeu-se com um sobressalto e um berro: - Porra, man! Perdi por tua culpa!
O Game Over aparecia de facto no monitor que piscava triunfante. Os uofâres enchiam o quarto de acordes fúnebres.
De cenho franzido, o Zé Nesgas libertou-se da mão do Carlinhos.
- E quando é que ela se veste? - perguntou ele; e acrescentou escusadamente: - Não pode andar assim.
- Julgas que eu não sei? Mas onde é que eu vou arranjar-lhe roupa? E quem é que lhe ensina... hum... haaa... man, a gente tem de ter cuecas, tás a ver! E tem de as baixar, tás a ver, quando for á casa de banho e isso.
E, perante o esgar céptico do Zé Nesgas, o seu Primo lançou as mãos à cabeça:
- Fosga-se! Não tinha pensado nisso! O papel higiénico! A gaja não sabe usar o papel higiénico!
- És tótó ou tás a disfarçar? Com aquela idade e não havia de saber tudo isso e mais que tu?
- Não, não sabe. Ou achas que os cães precisam de saber essas coisas?
- Cães? Quais cães, meu? Os gajos da Arroja amachucaram-te os miolos! De certeza.
O Carlinhos esbravejou:
- Cães, sim, cães. Não vês a coleira dela? E não viste o salto do Deus-dos-Cães que partiu o telhado todo?
Sabe Deus, Gentil Senhorinha, onde teria levado a discussão se a sua Tia não tivesse batido à porta e chamado:
- Carlinhos! Já se vestiu? Convide o seu amigo e venha comer que já passa da hora. E não demore. Já hoje me fez perder a paciência!
Refiro-me, claro, ao nosso Deus. O tal Anúbis, esse desaparecera como se a sua missão na vida estivesse cumprida.
Mas, a razão pela qual eu a vim procurar, Gentil Senhorinha, terá de ficar para outro dia.
São quase horas de chegar a casa, vinda do seu trabalho, e eu não quero que sinta outra vez essa piedade funda que leio nos seus olhos.
Levo-lhe aquele pão pequeno, se me perdoa mais este abuso. Às vezes, à noite, quando o frio aperta, é bom ter uma côdea para ir rilhando.
Bem haja.

Atenção: Obras

Este blog está em reparação.
Pedimos desculpa pelo incómodo.
Prometemos ser breves (1)

(1) Esta piada já foi usada demasiadas vezes, mas, de momento, não nos ocorreu mais nenhuma. As nossas desculpas.


sábado, fevereiro 09, 2008

Blogues que não nos saem da cabeça

A Gi, autora do Pequenos Nadas (que figura aqui à direita como Enormes Tudos) voltou a distinguir o Portugal, Caramba. Como agradecer-lhe? É uma questão a suscitar um estudo aprofundado. No entretanto, vamos ter de inventar também uma lista de

blogues que não nos saiam da cabeça:

O da própria Gi que seja o primeiro;

Seja o segundo o Blogue Sem Nome;




Também gosto muito de passar pel'O Mundo Perfeito e pelo Hole Horror;


O Arroios e o Ladrões de Bicicletas podem vir a seguir.


E, finalmente, porque não o Beppe Grillo?


Ainda faltam, não faltam? Pois faltam. Mas, a seu tempo nos lembraremos de outros. Pode ser?

domingo, fevereiro 03, 2008

Joseph Ratzinger IV

Imagens de Deus

Durante muitos anos não pensei em Deus.

Não era uma questão arrumada, por muito que tenha parecido.Os rituais do culto em que eu tinha sido educado, porém, tornavam-se vazios, como se fossem, tão-só, prolongamentos daquele autoritarismo que eu detectava nos alunos mais velhos, sempre prontos a usar a força condescendente para submeter o caloiro, o irmão mais novo, o aluno menos cordato. Se alguma vez senti o completo sigificado da palavra «absurdo», tão sublinhada pelos autores existencialistas que eu começava a ler, foi essa.

E anunciei à família a minha decisão de não voltar à Missa.
«Vais, sim senhor!», decretava a minha Avó.

Era uma mulher de convicções, salazarista até à medula, viúva desde muito nova, habituada a comandar e a ser obedecida, a manobrar a barca sem a deixar encalhar. Mal acomparada, reconheço-lhe traços em certas novelas da Agostina. Mas não foi ela quem venceu a minha decisão.
A minha Mãe, com a consternação e o desgosto estampados no rosto, foi muito mais eficaz:

«Vá! Anda lá...», pediu ela.
Fui. Mas, no caminho, comprava o Camarada, o jornalzinho da Mocidade Portuguesa que publicava, suponho que pela primeira vez em Portugal, as histórias de Spirou e Fantásio. Na Igreja, ficava o mais longe que podia, escondido por um pilar e deitando olhadelas disfarçadas às histórias em quadradinhos. O tempo custava a passar. Os padres desse tempo ainda liam a Missa em latim, a prédica alongava-se sobre as virtudes de Nossa Senhora, sobre o peixe que os Apóstolos tinham pescado no Lago Tiberíades, sobre Paulo de Tarso, derrubado do cavalo:
«Paulo, Paulo, porque me persegues?»
Não me lembro de alguma vez ter ouvido um Padre a falar do Sermão da Montanha, no púlpito ou fora dele. Nem me lembro de ter alguma vez ouvido um Padre falar do «Povorello» e menos ainda de Santa Clara.
Alguém se admira da perversidade adolescente?
No Liceu correu o boato de que eu ia para a Missa de propósito, para estar a ler «de costas para o altar-mor». Não era verdade, a minha intenção nada tinha de provocatório, antes pelo contrário.
Mas, claro, não fiz nada para desfazer o equívoco.
Também me vestia de campónio, com velhas camisas de quadrados da Nazaré e grandes botins. Também não era nem provocação, nem sequer uma atitude: era simplesmente porque era pobre e raramente tinha dinheiro para voos mais altos. Como o pintor de Somerseth Maugham, eu passava melhor sem comer do que sem cigarros e sem cigarros do que sem os meus cadernos lisos e uma esferográfica preta.
Os meus colegas acharam que eu tinha pinta de beatnick muito antes de essa moda cá chegar. E os camaradas, esses que eram tão convencionais no seu colarinho branco e gravata encarnada, achavam «pouco consciente» o meu pendor boémio, os meus amoricos adolescentes, o meu gosto pela literatura. Declaram-me um «outsider».
Também não desfiz o equívoco. Nunca nos devemos explicar seja a quem fôr. Perdi namoradas, perdi amigos por isso. O que fosse, teria de estar à vista de todos, dizia eu a mim próprio, esquecendo-me dos ensinamentos da Menina Lília: o Orgulho é um dos Sete Pecados Mortais.

Havia os não-religiosos, de um dos lados. Eram marxistas ateus com o culto do jazz, maoistas-albaneses para quem mais de três palavras seguidas era metafísica.
Do outro, havia os membros das Juventudes Católicas, em escasso número, aliás, e uma multidão de indiferentes, analfabetos da alma que se preocupavam apenas com os copos e as miúdas. Entre estes dois grupos, eu sentia-me sufocado.
Todo o companheirismo que então vim a encontrar, situou-se nessa terra de ninguém habitada pelos que decidiram cegamente escrever, pintar, compôr. Pelos que sentem que a centelha do génio, mesmo se mau, é uma maldição que se arrasta connosco até à demência senil.
O tempo passou, a Faculdade também, Abril chegou e também passou. Mudei de empregos, andei de terra em terra com livros às costas.
Se me perguntassem, diria que era agnóstico.
Mas, pouco a pouco, surpreendi em mim próprio, uma estranha compulsão que me levava a falar com os objectos, com as formigas, com as árvores, cães, gatos, aranhas...
E com o meu carro, uma Dyanne 6 que não passava de um estuporzinho temperamental. Ofendia-se com os meus maus humores, alegrava-se com os dias de sol, quando eu lhe abria a capota e tinha uma paciência infinita para crianças. A vinte à hora, chegou a levar nove miúdos a caminho da praia. Uns sentados, outros em pé agarrados ao varão central e todos a gritar muito «vrrrrrroooooaaaaaaahhh» porque «agora éramos um carro de corridas e íamos muita depressa!»
- Mais depressa! Mais depressa!
E o barulheira aumentava.
Mesmo quando estava sozinho, dava comigo a falar com um meu amigo imaginário: o São Pedro.
Se a chuva me apanhasse longe de casa, eu pedia-lhe que me mandasse um taxi. E refilava:
- Então? Não há taxis hoje?
Mais tarde ou mais cedo, o taxi aparecia. Eu entrava, dava os bons dias ou as boas tardes, dizia a morada. E passado um bocado, acontecia-me reparar que nem sequer tinha agradecido; «desculpa lá, São Pedro! esqueci-me de dizer obrigado...»
- Como? - perguntava o motorista.
- Não, não é nada.
Mas era.
É um dado da sociologia que muita gente joga este tipo de jogos. «Se passarem três carros encarnados antes de eu atravessar a rua, a Fernanda vai logo à noita ao bar! ... Bolas! Esta não valeu, o sinal abriu antes de tempo. Agora á que é: se passar um Renault antes de...»
Podemos chamar-lhe como quisermos, superstição, por exemplo. É a convicção de que tudo se relaciona com tudo, portanto, de um conjunto de sinais aparentemente neutros pode deduzir-se consequências desejáveis ou funestas. Certos outros, quando manipulados como deve ser, conjuram a sorte ou esconjuram o azar. Perguntem a damas e cavalheiros à volta da mesa num casino.
E onde passa a fronteira entre estas preces envergonhadas pela luz do dia e a autêntica oração? Em parte alguma. São territórios contíguos, sai-se de um, entra-se no outro, volta-se atrás... Muita da religião popular situa-se simultanemaente dos dois lados.
Sabiam que a Santíssima Trindade é Nossa Senhora, o Menino Jesús e Deus Pai?Só muito tarde assumi esta liberdade.
Uma religião, com os seus mitos e a sua teologia própria, não era terreno proibido. Em que valia a minha menos do que qualquer outra?
Portanto, decidi: Deus é um Cavalheiro muito bem educado, anfitrião cortez.
De idade, claro, que a eternidade já dura há muito tempo. Mas vigoroso, bom garfo, apreciador das melhores colheitas das vinhas celestes, estagiadas em talhas de bom barro.
Pelas manhãs frias, gosta de dar grandes passeios a pé, mãos nos bolsos, com o seu rafeirito e um corvo preto, esvoaçante e gralhento, que falaria pelos cotovelos se os tivesse. Pela tarde, rodeado pelos seus cães e pássaros favoritos, senta-se a fumar o cachimbo favorito e a conversar na sala Gaudi.
Deixem-me dizer-vos, aqui num parêntesis que não quero ir para um Céu onde não caibam os canitos maltratados, baleias e golfinhos assassinadas por pescadores. Nem, já agora, mea culpa, as vaquinhas e os porquinhos cujos bifes eu comi... E não me venham com argumentos, a dizer que os animais não podem ir para o Céu porque não têm alma. Têm, pois têm, mesmo que não saibam vendê-la ao Diabo como os humanos.

Parêntesis fechado, o Céu é onde Deus, a par com a bicharada, recebe as «personalidades que valem a pena», com quem é bom sentar-se a conversar. Lá estão o Einstein e a Maria Curie, o Conde Bertrand, a Audray Hepburn e o sapateiro Berenval. O Jaques Brel, o José Afonso e a Edith Piaff compõem uma música nova. O Albert Camus e as Simones, Signoret e de Beauvoir, conversam, o Chagall faz rabiscos num pedaço de papel. O Taï-Yo-Lunn e o João César discutem, o Tio Adriano tenta acalmá-los com boas palavras. A Maria Callas faz vocalizos e o João Sebastião acompanha-a ao piano. E tantas, tantos, tão diferentes, que só a eternidade chegaria para nomear a todos.
E sabem? Como Deus é bom - e se fôr mau, nada disto tem sentido - então o Inferno não pode existir. Como permitiria Ele que um qualquer antecessor do Pinochet mantivesse um lugar de tortura por toda a eternidade?
Mas, e o mal? Não tem castigo?
Não, para quê? O mau, o pérfido, o cruel, já morreram, não morreram?
O que imagino é que Deus, quando chegamos, mortinhos da Silva, olha para nós, encolhe os celestiais ombros e pensa lá para consigo:
- Bah! Este não saiu lá grande coisa... nem para aparar a relva serve.
E pode mandar-nos para reciclagem.
Lá viremos outra vez cá para baixo até fazer alguma coisa de jeito que mereça ser guardado.
Ou então, como o Hitler, o Nixon e o Béria, a Carlota Joaquina e o Salazar, tantos outros que eu não nomeio para não ser desagradável e mais aqueles todos de que nem ouvi falar, podemos ir
simplesmente para o lixo e acabou-se.
Não tínhamos nada que valesse a pena aproveitar.
A moral, digam os neo-liberais o que disserem, é simples e transparente: é fazer todos os
possíveis para que Deus nos ache «aproveitáveis».
E o bom Ratzinger nisto tudo?
Não sei.
Mas se for ele quem tem razão, então dá-me a ideia de que, Deus me perdoe, o seu Deus não é o meu Deus. É o Deus retratado pelo Mezieres no album Les foudres d'Hypsis (Dargaud, pag. 44). O Deus de George Bush.