quarta-feira, julho 02, 2008

Filinto Elísio, da velha França...

O Portugal, Caramba! decidiu criar o «Super-Tinto Blog Award» e, como a Caridade bem ordenada, por si próprio é começada, atribuiu-se logo a distinção a si mesmo.
Nada de egoísmos porém. Se alguém desejar a mesma distinção, faça o favor. É só copiá-la e pôr junto das que já lá tiver.
A iniciativa nem sequer é original, mas era cativante. Não que, como o Salgador da Pátria, donde picámos a ideia, não gostemos de uma cerveja bem fresca em dias de calor.
Mas, enfim, um vinhinho branco, muito seco e levemente refrescado, não é somente muito melhor: é infinitamente preferível.
E quando se chega aos tintos, que dizer?
Nada se não a música pode dar conta desse doce enebriamento.
Conhecem a velha canção de bêbados, o Filinto Elísio?
É assim:
Filinto Elísio/ da velha França/ enche-me a pança/ deste sabor!
Malditas tripas/ que não comportam/ trinta mil pipas/ deste licor!
Depois, os bebedores, à vez, emborcam o copo cheio e despejam-no goela abaixo. Todos os outros cantam:
Primeiro atirador, atira atira/ primeiro atirador, atira atira..., até que o copo seja completamente esvaziado.
O bebedor deve, então, virar o copo para baixo e mostrar que não sobrou nem uma gota. A malta entusiasmada canta:
Mas que belo compinchão/ que bem comporta o seu quinhão!
Claro, se cair uma só gota que seja, canta-se:
Mas que mau compinchão/ que não comporta o seu quinhão!
E o mal-jeitoso deve abandonar de imediato o círculo dos bebedores.
Segue-se o bebedor seguinte e o outro, e o outro:
Segundo atirador, atira atira... Terceiro atirador... Quarto atirador...
A ideia é que, a pouco e pouco, os bons bebedores comecem a ficar um tanto entornados e comecem a não ser capazes de beber o seu copo até ao fim sem entornar uma gota sequer.
O último a cair para o lado é o glorioso vencedor e a boa moral que se lixe. A gente atura-o enquanto ele vomita, ouve-lhe os despautérios e as dores da alma, acarta com ele para casa... e pronto. Amanhã o melhor será outro. E depois de amanhã, se calhar, ainda outro.
«Super-Tinto blog award»

quarta-feira, junho 25, 2008

Nim





Fui eu - ou pelo menos gosto de pensar que fui - quem começou a chamar-lhe Nim. Tinha os seus quatro anos quando a Mãe a trouxe de um país qualquer lá do Leste e vieram as duas aqui parar: os nossos partem para Lisboa, o imigrantes vêm substituí-los.
É claro que a Nim tem um nome, Marieke, ou qualquer coisa que soa parecido, é como a Mãe a chama: vem à beira do passeio e grita por ela, espaçadamente. A Marieke tanto pode vir a correr, com a t-shirt da feira a bambolear, demasiado grande, como pode demorar uma hora.
Bem mandada, não atravessa as ruas, não põe o pé pequenino fora do passeio. Mas o passeio corre à volta de um enorme quarteirão. A Mãe trabalha na padaria-pastelaria-café, do lado do jardim. Tem um banco à esquerda de quem sai, à direita, já a fazer a esquina, é a cervejaria-snack com a esplanada, a farmácia já do outro lado, e a papelaria, livros escolares, revistas e jornais, totoloto e o mais que se quiser. A minúscula imigrante habituou-se a entrar, sem uma palavra - ela não fala - a sentar-se no chão a folhear um livro, a Holla, uma banda desenhada. Fica horas esquecida, esquecida das três irmãs que se revezam, sempre duas, atrás do balcão. Com os dedinhos mínimos, passa as páginas, não sabemos o que vê naquelas fotos, naqueles desenhos, naquelas letras. Depois, arrumado o livro preciosamente, nem sempre no sítio exacto, mas sempre suficientemente próximo, sai sem uma palavra, sem um gesto que faça pensar que sabe que entrou em casa alheia.
Também pode ser encontrada na casa de mobílias, muito lá mais adiante, depois do stand de automóveis fechado e da oficina de tractores e máquinas agrícolas, sentada com muito juízo, muito quieta, a cabeça encostada ao estofo de um dos braços da poltrona, profundamente adormecida às vezes.
Se continuar a dar a volta ao quarteirão, tem as análises clínicas: entra quando apanha a porta aberta. Está lá sempre um poder de gente, alguém para conversar com ela um minuto ou dois: fazem-lhe perguntas, dizem-lhe gracinhas e fazem-lhe festas - o que não lhe agrada nada. Sem uma palavra, sempre a olhar muito séria, recua três ou quatro passos, pára fitando o inimigo nos olhos e só depois lhe volta as costas.
Em frente, do outro lado da rua são as veterinárias. Têm muitas vezes gente com cães à porta, bem seguros, para que não briguem. A Nim detém-se a olhar, mas ainda não ousou atravessar a rua para explorar mais um local de fascínio. No resto do quarteirão não há muito que ver: a loja dos chineses - mas não a querem lá, com o narizito no ar, a bisbilhotar cada prateleira, cada vitrine - uns electrodoméstidos sem mistério e o Mini-Preço - este sim, a merecer pelo menos uma volta contemplativa. As empregadas são jovens e gostam dela:
- Queres um rebuçado? - perguntam-lhe por vezes.
Abana veemente a cabeça, recua um passo, mas, volta a avançar o mesmo passo e estende a mãozinha minúscula enquanto continua a negar com energia.
A nós, quando passa pela esplanada, faz-nos o mesmo.
- Queres um bolo?
A cabecita nega e a mão estende-se.
- Tens de responder nim, ouviste? Vá, desanda! Vai lá dentro dizer ao Chico que te dê o bolo.
E lá vai ela, a abanar a cabeça, a estender a mão para o Francisco.

A Nim está a crescer.
A Mãe já esteve sem trabalhar na pastelaria, parece que se juntou com um rapaz ali dos Milagres e depois separaram-se e ela voltou.
A Nim está a fazer-se uma bonita cachopinha. Passou para a Escola lá de cima para o quinto ano, parece que é boa aluna a matemática, mas, diz a Clara Centeno, que é professora de inglês, não se lhe arranca uma palavra. Já não pára na papelaria: as irmãs não a querem por lá.
Agora está muitas vezes sentada aqui ao pé de nós, na esplanada. Continua a fazer que não com a cabeça e a estender a mão para aceitar o bolo que lhe oferecem.
Veste as mesmas t-shirts da feira que já lhe estão acanhadas, calções mal-amanhados, ténis gastos, mas os olhinhos continuam muito, muito azuis.
Já há malta a investir nela para daqui a cinco ou seis anos, que é que vocês pensavam? Com as imigrantes, dizem eles, tem de ser assim.

terça-feira, junho 24, 2008

Aleivosia

O Portugal, Caramba! tem estado um tanto parado devido a uns pequenos problemas com um certo animalejo... A gente não alumia o nome ao bicho porque a nossa mãezinha ensinou que essas coisas não se dizem (sobretudo à mesa, mas vá lá) porque é feio. E pronto.
A gente agora vai ver é se o animalejo se despacha: à uma, já estamos com saudades de dizer mal do governo; e depois, até tínhamos um um bom motivo para fazer feliz o Vasco Pulido Valente a dizermos que nos estamos nas tintas para o futebol e que achamos que é uma alienação sim senhor. Por isso a gente quer lá saber que a selecção tenha perdido com Suíça e ainda menos com a Alemanha.
Mai-nada!

quarta-feira, junho 18, 2008

Declaração

O Portugal, Caramba! apoia o NÃO da Irlanda, pois apoia! E depois? Têm alguma coisa a dizer? E não apoia o Cavaco Silva, pronto!

segunda-feira, junho 09, 2008

Un sou dans ma poche, e um caderno debaixo do braço.




Manter um Diário Gráfico, como o Eduardo Salavisa recomenda aos seus alunos, é complicado para quem, como eu, andou sempre com um canhenho (e pelo menos um livro) debaixo do braço. Durante anos arrastei comigo blocos A-4, pastas com folhas de papel de máquina, cadernos geralmente lisos onde se confrontavam apontamentos das aulas que eu ia dar com os das aulas que recebia em acções de formação ou no mestrado. E riscos, muitos riscos, porque a maior parte do que nos dizem nas aulas, nas conferências, no lançamento de livros, cabe num cantinho da primeira folha.
Tudo é gráfico, evidentemente, nesses cadernos, mas nem sempre os grafismos incluem o desenho.
Nas páginas que mostro, há de tudo: apontamentos de leituras, citações, esquemas com que, por vezes, tento forçar-me a entender o que outros pensam, e por aí fora. Os desenhos surgiram, muitas vezes, por uma necessidade de me explicar a mim próprio os conceitos que ia descobrindo.
O pião a girar na palma de uma mão na página da esquerda, por exemplo, deveria ilustrar o conceito de «atractor estranho» - Ou talvez lhe esteja a servir de esquema empírico, quem sabe?Sempre tive uma enorme dificuldade em entender coisas para as quais não é possível desenhar um boneco que as representassem.


Nesta página, aqui em cima, porém, o desenho do que estava na mesa do pequeno-almoço, não tinha nada a ver com coisa nenhuma. Serviu só para desenjoar. Ou, talvez, já não recordo, para interromper a leitura e conversar com os outros convivas. É meritório, não é?

sexta-feira, junho 06, 2008

Tricot

Jacques Prévert, Le temps haletant

Moi qui tutoyais le soleil
je n'ose plus le regarder en face.
-

sexta-feira, maio 30, 2008

Questões de constitucionalidade

A Congregação para a Doutrina da Fé, que Sua Santidade o Papa Bento XVI superiormente dirigiu até à sua eleição, parece ter publicado um decreto, daqueles da Santa Sé, com efeitos imediatos, a proibir terminantemente, e sob pena de excomunhão, a ordenação das mulheres.
Isto dizer que o femeaço, essa metade da humanidade que faz o favor de dar á luz todo o resto, está excluído de um dos Sacramentos divinos: a ordem. E não o podendo receber, o gajame não pode ser padre - o que, etimologicamente, até estaria certo - e, portanto, não pode aceder ao sacerdócio. Tau! Mordam-se.
Pois!
O Portugal, Caramba! não teria nada a objectar se a Igreja Católica metesse o nariz só lá nas coisas dela, paredes a dentro do Vaticano, por exemplo. Pronto! Não havia mulheres. Que se amanhassem. Bom proveito lhes fizesse.
O problema é que a Igreja Católica é uma organização internacional com um peso considerável, por exemplo, no nosso país.
E bom, nada a dizer se ainda estivéssemos sob a constituição de 1933. A mulher era um ser inferior. Não podia ter passaporte se o marido não deixasse e só votava se fosse viúva e, portanto, cabeça de casal.
Mas já não estamos. Houve um tal de 25 de Abril, elegeram-se deputados a uma Assembleia Constituinte, votou-se uma constituição em tudo diferente. E a discriminação em função do sexo, religião ou raça foi radicalmente banida.
Portanto, Sr. Dr. Gomes Canotilho, Sr. Dr. Jorge Miranda, Sr. Dr. Vital Moreira, Excelências que sois famosos constitucionalistas, dizei-nos:
Podem as nossa autoridades permitir a existência de uma organização que claramente contraria a nossa constituição? Que estabelece uma diferença objectiva de carreiras em função do sexo?
E reparem, a diferença não é sequer de género: a Santa Sé não se propõe excomungar os Bispos que ordenem homossexuais masculinos cuja identidade de género não coincide com o seu sexo. Nem autoriza a ordenação de mulheres que se identifiquem com o género masculino. Não. São as «mulheres» que são discriminadas.
Mas pronto, a vida custa a toda a gente, admito que não queiram meter-se numa destas. Mas, ao menos digam-me: como é que se faz para declarar inconstitucional uma coisa destas?

quinta-feira, maio 29, 2008

terça-feira, maio 27, 2008

O Caso Esmeralda

Não sei de nada dos meandros deste processo. Nem me interessa.
Limito-me a ter pena da Ana Filipa que não sabe se o seu nome é ou não Esmeralda.
Mas uma fotografia assinada "Leonardo Negrão-arquivo DN" publicada hoje, 27 de Maio, no dito DN, voltou a impressionar-me.
E digo que voltou porque já a tinha visto antes, não sei onde.
O que sei é que, sendo um amador do desenho, estou habituado a reparar mais nas expressões corporais do que no palavreado que as encobre.
E fiquei a ver: que exprimem os rostos?
Comecemos pelo do Sargento Luís Gomes.

Será erro meu, admito-o: ninguém mais falível do que eu a avaliar o seu semelhante.
Mas o que vejo na sua expressão é a pura teimosia.
Os militares insistem em esconder os olhos. Lembro-me do Ramalho Eanes, nos seus tempos da RTP, por exemplo. Talvez seja importante para eles evitar o contacto com o olhar do outro.
Mas o facto é que os óculos impedem que interpretemos as pequenas rugas em volta dos olhos, a posição dos sobrolhos.
Fica a boca.
A do Sargento Luís Gomes, a mim sugere o desafio e a teimosia.

E a vós?




Adelina Lagarto é, segundo a fórmula adoptada pelos meios de comunicação, a «Mãe afectiva».
É uma mulher grande, talvez dos seus cinquenta e tais; eu apostaria em que tem mais um bom par de anos do que o Sargento. Mas, enquanto ele, discretamente, veste a camisa da farda e a gravata preta da ordem, ela, mamã afectiva, usa umas calças justas, bem vermelhas, uma blusa ainda mais apertada que lhe revela o peito generoso e a cintura já com alguns refegos.
O cabelo basto, solto sobre os ombros, frizado e loiro escuro, provavelmente com madeixas.
Também dela, defendida pelos óculos escuros, só resta a boca e um sorriso triunfante.
Pergunto-me: de que triunfa esta senhora?
Será só o orgulho dos quinze minutos de fama?
Ou será mais alguma coisa?

E, finalmente, a Ana Filipa.

Vendo o sorriso de Adelina, estou aqui a rezar a todas as minhas divindades, a pedir aos Céus que esse sorriso seja de cumplicidade com a Esmeralda. Pode ser que tenham combinado as duas, a menina e a mulher que a reivindica, «se vires assim fotógrafos e isso, escondes os olhos, combinado?»
Porque, se não foi ensaiado para nos enganar, então, pobre Ana Filipa.


terça-feira, maio 20, 2008

domingo, maio 18, 2008

Alice do lado de cá do Espelho

Capturas


Não sei se conhecem esta técnica para apanhar um insecto, uma aranha, por exemplo.

Pegam num copo de boca mais larga do que a dimensão maior do dito insecto, está bem de ver. Depois, esperam que a criaturinha de Deus chegue a uma superfície lisinha, uma parede, a tijoleira da sala ou qualquer outro lado.

Quando a apanharem a jeito, vão devagarinho e zaca! Emborcam o copo em cima do cujo. A aranha não vai ficar muito satisfeita, claro, e é natural que ande um bocado à roda sem perceber como é que aquilo lhe aconteceu.

- Mas, perguntais. Então a gente ficamos com um copo no chão da sala?

Resposta:

- Não. Em primeiro lugar porque não é a «gente ficamos», é «nós ficamos». Ou «a gente fica», prontos, vá lá. E em segundo, é a altura de usar uma folha de papel, branquinha de preferência, e rija. Cento e vinte gramas é o ideal. Faz-se deslizar a folha por baixo do copo, devagarinho, empurrando-o entre a bordas do vidro e a tijoleira.

O animalejo, se for um abelhão voa logo por ali a cima e farta-se de bater com a cabeça nas paredes do copo. Mas a aranha terá de ser convencida a trepar para a folha e a ir-se deslocando à medida que a ela for tapando o fundo. Verão que não é nada do outro mundo.

- Bom, perguntais-me impacientes. - Mas para que queremos nós uma aranha ou um abelhão dentro de um copo com um papel de cento e vinte gramas por baixo?

Confesso que não sei. Eu pus a minha no rebordo da lareira e fica lá muito bem.

Mas não é essa a questão fundamental.

É claro que não sou eu a única pessoa a utilizar esta elaborada técnica.

A Cristina Ataíde montou, a partir dela, uma interessante exposição na Galeria Carlos Carvalho, Arte Contemporânea-Zoom, ali às Laranjeiras, na rua Joly Braga Santos.

Claro que não expõe insectos. E os copos não são tão grosseiros como os que eu uso. Os dela são assim, tipo umas redomas e são muito maiores. Também, tinham de ser. É que, se eu capturo umas aranhas, quatro centímetros o máximo, a Cristina captura montanhas. Esta que está aqui na imagem ao fundo pode ser o Jungfrau, por exemplo.

E tenho de vos confessar que ficaria bastante melhor em cima da lareira do que a minha pobre aranha dentro de um copo. Tanto mais que, a vê-la ali feita estúpida, nem um fiozinho de teia nem nada, olha, faz-me pena e vou ter de a mandar à vida dela.
Mas que é uma técnica interessante, isso garanto-vos eu.


quarta-feira, maio 14, 2008

Os Diamantes são para sempre (continuação)

Junto com o «Blog Diamante», tivemos direito ainda a esta recompensa, a que podíamos chamar o prémio Bonsai:
É um prémio feliz. Não tem nada a ver com o resto deste post onde tenho de indicar seis coisas detestáveis.
Mas, o que tem de ser, tem muita força. O Kundera, n'A Insustentável leveza do Ser, dizia isto em alemão, tipo it must be, mas com a força de um Beethoven versão Wagner, o peso de um Goethe e o desespero de Kleist. Se encontrar o livro por aí, prometo copiar para ficarmos a saber como se exprime o destino na língua que Nietzshe e a Chanceler alemã partilham.
Em vésperas de acordo ortográfico e sem saber muito bem como é que o Senhor Dr. Vasco Graça Moura (o mais caramba dos Portuguêses, Caramba!) quer que eu eu escreva, eu, pobre de mim, limito-me a dizer, em tom humilde:

- Então, se os Senhores dão licença, cá vai!
A primeira coisa detestável é o Sr. Presidente da República mai-la Primeira Dama.
A segunda é o Governo todo, Ministros, Secretários e Subsecretários de Estado e tudo. Ah! E os chefes de gabinete e um ou outro dos Directores-Gerais.
A terceira é mesmo a oposição. Do Fernando Rosas ao Paulo Portas.
A quarta é a Polícia, os Carcereiros, os Juízes, a Emel e toda essa gente.
A quinta é o Ministério das Finanças com a sua Direcção-Geral dos Impostos e Extorsões.
A sexta, e infelizmente a última, das coisas detestáveis são as gloriosas Forças Armadas. Bem sei que fizeram o 25 de Abril. Mas pronto, a seguir iam-se embora satisfeitinhos, boa, boa, fizemos uma coisa bem feita, mãezinha, já podemos comer a sobremesa?
Mas não! Em vez de irem... insistem.
E pronto: seis coisas detestáveis ou, como mais delicadamente dizia o blog da Gi, seis coisas de que eu não gosto.
Mas...
- Então e o bancos, os banqueiros, o spread e o euribor, hem? - grita-me um.
- E a televisão, a dona Teresa Guilherme, os apanhados, o um contra todos e a Dona Fátima Campos Ferreira? - grita outro.
- Olhem lá! - respondo eu. - Eram só seis coisas de que eu não gosto, ouviram? Seis. Não queiram transformar estas seis coitadinhas em seiscentas e sessenta e seis, que é o número da besta.
- Beh! Queres apostar que a pobre da besta 666, se visse este país, até fugia assustada?
Mas eu, aí, já não me pronuncio.
Sou um patriota, Caramba!

terça-feira, maio 13, 2008

O Diamantes são para sempre (é o que diz a De Beer e o Portugal, Caramba também)

A Gi, autora do Pequenos Nadas (o 1 e o 2) - que constam aqui à direita com esse nome e também com o nome de Enormes tudos - o meu espírito de contradição, pronto - atribuiu ao Portugal, Caramba! a distinção Blog Diamante.
Não me atrevo a discordar do critério da Gi, dado que todos os outros blogues que ela nomeou e eu fui espreitar merecem.
Mas este... Hélas!
Como não quero nem devo, porém, recusar uma tão gentil distinção, resta-me cumprir as regras deste jogo e que são, por ordem, as seguintes:

1) Colocar aqui o link de quem me elegeu. (Já está, por tudo quanto é lado!)

2) Colocar aqui as regras desta atribuição. (É o que estou fazendo.)

3) Eleger seis outras pessoas, autoras de blogues. (Ui! É o mais difícil e perdoar-me-hão se demorar mais um tempinho.)

4) Avisar essas pessoas e deixar um comentário no blog de cada uma delas. (Será feito, à medida em que o ponto anterior for sendo cumprido.)

5) Partilhar seis coisas que consideramos importantes e outras seis de que não gostemos.

E pronto, para começar já: seis coisas importantes? Devem estar, algures por aqui, dentro deste desenho.
Ou por aqui.
O mais difícil vão ser as seis coisas detestáveis. Ficam para um próximo post, de acordo?

segunda-feira, maio 12, 2008

Irena

O rosto de Irena velhaO rosto de Irena nova
Eram duas mil e quinhentas crianças.

Podiam ser índias, sudanesas, kurdas, iraquianas.

Eram judías.

Viveram.

A luz no seu rosto,

é causa ou é consequência?


Não sei de nada mais que se possa dizer. O Manuel Bandeira disse tudo, há já muitos anos, e eu só torci um bocadinho as palavras que ele usou:


Irena polaca, Irena boa,

Irena sempre de bom humor.

Imagino Irena entrando no céu:

- Licença meu branco!

E São Pedro bonachão:

- Entra, Irena. Você não precisa pedir licença.

sexta-feira, maio 09, 2008

Homenagem do Sérgio de Sousa ao Maio de 68

Maio é o mês de Maria.
Em Maio os peregrinos vão a pé para a Cova da Iria.
E em Maio comemora-se o 28 de Maio.
Felizmente, também o 1º de Maio,
o Dia da Espiga,
as Maias
e o José Afonso que cantava
"Maio, maduro Maio, quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto nunca te amou.
Raiava o sol já no Sul.
E uma falua vinha lá de Istambul."
E também os moços e as mocinhas que lá longe, em Maio, puseram de pantanas as mais sólidas das crenças dos seus pais amantíssimos.

Chama Olímpica


Gente, só gente


quarta-feira, abril 30, 2008

Quem sai aos seus, voa baixinho.


Há já muitos anos, aí por 75, talvez, lembro-me de um jovem a quem se não chamava então «gestor», a berrar indignado! Chamava-se Pedro Costa, ou Sousa ou Alves, uma coisa assim.

Era licenciado numas Letras quaisquer, argumentava sempre com um esquema diante dos olhos e achava que, acima de tudo, tinha de se ser coerente.

Nós nem por isso: verdade era dialética, as contradições faziam parte do processo revolucionário e a vanguarda da classe operária é que era, nós, mais ou menos intelectuais só podíamos estar a seu lado. E passávamos horas à roda da mesa, como dantes soía, reuniões atrás de reuniões, a decidir da linha justa. Estávamos, como se dizia então, «a serrar presunto». O Pedro Alves, porém, que era maçarico naquelas coisas, achava que estávamos era a perder tempo. A bem dizer, a gente suspeitava de que ele se tinha apaixonado por uma senhora casada - as paixões revolucionárias foram mato, naquelas eras, quem não se separou nem participou em dúbios encontros que atire a primeira pedra - e queria aproveitar aquele bocadinho antes de ela ir ter com o marido.
Apesar disso, muitas vezes fomos dar com ele a trabalhar até altas horas no gabinete, com planos e reestuturações que eram chumbados liminarmente porque os sectores implicados tinham sempre coisas muito mais importantes em que pensar.
- Mas o quê, caramba, mas o quê? - indignava-se.
Não obtinha resposta... ou sim: relambórios revolucionários, cheios de palavreado redondo, parágrafos tirados do Lenine ou do Enghels.
- Tás a ver? - acalmava-o eu. - É um período revolucionário, pá, só acontece uma vez na vida.
- Mas qual revolução, pá? - gritava ele. - Se não há trabalho revolucionário, como é que há revolução?
Nós encolhíamos os ombros. Algum mais exaltado respondia que tudo isso eram conceitos burgueses, contra-revolucionários. Tarefismo. E por aí fora. O jovem gestor não tardou a ser suspenso, transferido, reduzido á sua insignificância; um dia, o Pedro chateou-se e declarou-nos que se ia embora.
- A gota de água, pá. - explicou-nos ele. - Atingi o meu limite. Não aturo mais aquele gajo. Ou sai o Director ou saio eu.
Tinhamos ido almoçar em grupo, ali adiante da Escola Politécnica que ainda não tinha ardido, e estávamos já nas bagaceiras. Eu tinha acendido o cachimbo com um tabaco pestilencial - era para o que dava o vencimento - e enchia a atafulhada sala com as largas baforadas de espesso nevoeiro, mas nessa altura ainda não era pecado.
- Qual Director? Ele há quatro! - perguntei eu
- Três. O outro é o presidente. - precisou o Leonel.
E o nosso camarada alumiou o nome ao santo.
A empresa em que trabalhávamos tinha sido considerada estratégica, tanto antes como depois de Abril, e estava cheia de «fascistas». Por isso achou-se bem que fosse intervencionada: os militares sucediam-se nos diferente pelouros e o Director em causa qualificara-se para o cargo pelo facto de ser Capitão, piloto aviador da Força Aérea, provável ex-bombardeador de tabancas indefesas.

A proposta que o Pedro Lemos, gestor gestor recém-eleito e, já agora, o engenheiro Lousa, responsável por um importante sector técnico da empresa, tentavam que fosse discutida dizia respeito à concentração dos múltiplos edifícios pelos quais se espalhava a actividade da empresa. O produto principal dividia-se por três edifícios, tão distantes uns dos outros que exigiam um corropio de viaturas para se manterem em contacto. A manutenção dos equipamentos, essa podia requerer, no mínimo, umas cinco oficinas, cada uma instalada num inferninho à parte. A empresa fôra, ao longo das décadas, adquirindo edifício atrás de edifício, aluga daqui, compra dali, para instalar tão importantes necessidades.

O património imobiliário era impressionante. Das complexidades correlativas nem se fala: diga-se apenas que um carrossel de carrinhas 4L girava incessante, por vezes com um só papel, mas acompanhado do respectivo protocolo - um caderno de capa preta que tinha de ser preenchido à mão - que devia ser assinado pelo contínuo do serviço destinatário antes de a carrinha, vazia agora, percorrer de volta o caminho para mais um molho de folhas.

Fazer um grande edifício que concentrasse tudo isto parecia ao jovem camarada, bem como ao camarada engenheiro responsável pelo produto, uma medida razoável. O financiamento estava á vista: bastava alienar dois ou três dos edifícios para garantir a viabilidade da nova sede.

- Vamos lá a voar baixinho, disse peremptório, o Sr. Capitão piloto aviador, pondo ordem na reunião de planeamento.

- A voar baixinho, estão a ver? Como é que os gajos querem que se faça alguma coisa? - e repetiu: - Se ninguém faz trabalho nenhum, como é que querem fazer a revolução?

- Tens a certeza de que alguém quer? - provoquei eu a escarafunchar no cachimbo que se tinha entupido. - Olha que eu não sei se acredite...

- E então, vais-te embora só por isso? - perguntou o Leonel.

- Só por isso? Achas que não chega? Um parvalhão que não sabe ler nem escrever, um analfabeto de pai e mãe, a mandar a malta voar baixinho? Se não tem envergadura para dirigir uma empresa deste tamanho, andor. Não vai ele, vou eu. Tenho mais que fazer, pá. Vou trabalhar para a Nanterre, que há lá muitos livros.

- Pá - intervim eu a pôr água na fervura. - Que é que tu queres? O gajo o que aprendeu lá na tropa foi a voar assim. E sabes porquê? Com aquelas latas velhas dos Fiates e dos T-3 e os helicópteros da Grande Guerra, eles têm é medo de ir mais alto. O programa revolucionário dos gajos tem de ser a mesma coisa, pá, é rasteirinho, pronto.

A resposta do Pedro Costa não foi lá muito bem educada e questão ficou por ali, que remédio. Ele partiu, escreveu uma meia dúzia de cartas aos amigos, publicou um par de livros, ainda me mandou um e o outro encontrei-o, por acaso, numa livraria em Montmartre, quando por lá andava com uma amiga, em turismo romântico.

- Olha, olha! - exclamei eu deliciado.

A Voilá veio espreitar, leu o título que falava da enteléquia e quis saber a razão dos meus entusiasmos.

Contei-lhe, por alto, com o fim da história, de que entretanto me inteirara.

Vinte e cinco anos depois da partida do Pedro (Lemos Costa, como estava na capa do livro), mais mês, menos mês, mais ano, menos ano, com alguns (bastantes, para não dizer muitíssimos) milhões de contos de prejuízos acumulados, a empresa contratou finalmente um gestor a sério: não importa a sua filiação partidária. Não parece que tenha saneado as contas, mas o que fez logo, além de despedir meia dúzia de pessoas mais ou menos incómodas, claro, e contratar meio cento de outras, foi vender os imóveis inúteis e concentrar os serviços.

Não soube dizer à Voilá, nem provavelmente o saberão, quer o Engenheiro responsável, quer o outrora jovem Pedro Costa, que luvas terá havido nessas transacções ou até, quem sabe, se não terá havido nenhumas. O que é certo é que, durante vinte e tal anos, a contar por baixo, se andou a voar muito baixinho.

Éramos assim antes do célebre dia 25. Mas como do nada, nada sai, assim continuámos a ser.
Quem quis ser diferente, emigrou. Nós, em matéria de voos, queremos e havemos de continuar a ser assim rasteirinhos, rasteirinhos...

quinta-feira, abril 24, 2008

Violenta repressão em Cuba

- Então! Nem um cassetete, ao menos, porra?

Glória ao Vencedor


O Grande concurso dos Blocos Castelo tem um vencedor, o Graza, do Arroios, que, após uma aturada pesquisa na Net, identificou a jovem Rita Redshoes. Aqui fica, com as felicitações do Portugal, Caramba!, a taça que, muito justamente ganhou.

sexta-feira, abril 18, 2008

Adivinha:


O Portugal, Caramba! não tem quaisquer dúvidas sobre a enorme influência da Igreja Católica Apostólica Romana na cultura portuguesa. Ela faz-se sentir desde as grandes questões fracturantes da nossa sociedade, como se viu durante a discussão sobre o aborto e, mais recentemente, no problema da culpa no divórcio litigioso, até aos mais ínfimos detalhes.
Assim, o Portugal, Caramba! propõe aos seus leitores a seguinte adivinha:
Como se chama a jovem cantora portuguesa que declarou:
- Sim, claro, admito que o Santo Padre tem sido uma influência constante na minha carreira.

quarta-feira, abril 16, 2008

Carta Aberta ao/à Senhor/a Gerente


Meu caro/a Sr./a Álvaro/a Silva (1):

Recebi da filial da instituição bancária que V. Exª/º dirige, um questionário impresso.
No seu (dele) antecipadamente grato preâmbulo, explica o dito impresso que a minha colaboração é pedida para dar cumprimento ao Aviso nº 11/2005 do Banco de Portugal.
Não querendo duvidar da vossa competência profissional, estranho que tenham decorrido três anos desde a emissão do Aviso e este vosso pedido de colaboração.
Demorou assim tanto tempo a elaborar o questionário? Acredito que sim, porque acredito também nas virtudes da ponderação.
E, de facto, reparo que ponderaram atentamente as eventuais susceptibilidades dos vossos clientes. A abrir a carta deparei logo com a expressão «Caro/a Cliente». Dado que o meu nome no envelope é claramente masculino, e não podendo supor que V. Exª/º não se tenha dado ao trabalho de o ler, interpreto essa fórmula de tratamento como propositada para respeitar uma possível identidade de género alternativa. Agradeço a atenção e, desconhecendo por meu lado a orientação sexual de V. Exª/º retribuí da melhor forma possível como constatou supra.

Perdoe-me V. Exª/º este longo intróito, que eu vou já à substância desta carta.

Sou cliente da vossa instituição há tantos e tantos anos que muito me espanta que venha agora perguntar-me coisas do tipo como me chamo e onde moro - bastava terem guardado fotocópia do envelope que me enviaram, não? - data do nascimento e profissão, se estou activo ou reformado, rendimentos e habilitações literárias... - tudo coisas que constam nos inúmeros papéis que V. Exªs me enviam regularmente ou dos contratos que convosco firmei; e não creio que alguma das coisas que me perguntam seja omissa da minha ficha de cliente. Que alguns dos vossos Administradores não necessitem de saber ler, não me parece grave. Não acredito, porém, que os jovens futuros executivos que mourejam atrás das vossas secretárias (honnit soit...), não possuam pelo menos um par de pós-graduações. Porque não recolhem eles os dados do vosso próprio ficheiro?

Espero, evidentemente, que nessas fichas não constem coisas como Automóvel, sim, não, ou ocupação dos tempos livres (Hobbies). Já viu V. Exª/º quanto me envergonharia o meu pobre Fiat Uno de 1987 se constasse lá em vez de um BMW? E já imaginou V. Exª/º como eu coro só de pensar que, acidentalmente, uma das vossas Secretárias, Doutoras ou Empregadas da Limpeza leria na minha ficha, que passo os meus tempos livres na internet a ver filmes pornográficos?

Perdoe-me, portanto, esta recusa envergonhada às curiosidades indiscretas do vosso inquérito.

Deixei para o fim uma dolorosa questão.
Desculpe, mas ainda não tinha sido insultado tão gravemente desde que o segurança de uma loja me proibiu de entrar sem selar o saco onde eu trazia um pobre par de botas acabadinho de comprar noutro lado.
- Ah, é porque há muitos roubos..., explicou ele embaraçado porque eu lhe disse claramente que não o autorizava a mexer nas minhas compras.
- E está a chamar-me ladrão?, perguntei eu com cara de poucos amigos.
- Ah, são ordens...
- Então diga ao seu patrão que acaba de perder um cliente.
E saí pela porta fora. Até hoje.
Do mesmo modo, Exmº/ª Senhor/a, tenho de lhe fazer esta pergunta: para que é que no seu questionário me pedem documentos comprovativos da minha morada e do meu número de contribuinte, da profissão, etc.?
Documentos comprovativos de quê? De que as minhas eventuais respostas são verdadeiras? Mas não é suposto que eu, cliente, seja uma pessoa honesta e verdadeira e não tenho o direito de ser assim tratado?
Em resumo, a minha pergunta é simples: é mentiroso o que me está a chamar?


Com os melhores votos de sucesso profissional para si e todos os seus colaboradores e aguardando uma resposta a estas dúvidas, sou, de V. Exª/º atentamente

a) Tacci (2)



1) Nome fictício, claro. Não sou nenhum denunciante.
2) Heterónimo, como já sabem.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Insecto Imperfeito, de Beatriz Lamas de Oliveira

Quem tem farelos?






um



Julguei durante longo tempo ter sido a única pessoa neste mundo a dar-se conta d'O insecto imperfeito.
Não era um livro particularmente chamativo. Tinha uma capa alaranjada, um desenho a negro, tipo um grilo dentro de uma gaiola nem por isso muito bem desenhados. A Gradiva não tinha feito um esforço muito notório.

O nome da autora, Beatriz, provavelmente a Bia como a tratariam os amigos, e os apelidos Lamas de Oliveira pelo lado familiar, não diziam nada. Porque é que se compra um livro destes, é um mistério. Haverá um Anjo da Guarda dos leitores empedrenidos? Sabem? Aquele que nos puxa pela manga e, sem contemplações, nos grita ao ouvido:

- Leva esse, ó estúpido!
O desatento comprador agarra-o, um pouco ao calhas, entala-o entre outros mais sonantes: um policial que nunca mais recordará, um importante autor norte-americano com direito a página e meia nos suplementos literários e os poemas do Nuno Júdice.


dois




E a leitura, quando chega, é surpreendente. Uma história de sedução, quase os anos de aprendizagem de um velho abusador.

Lembrou-me uma amiga que, num daqueles dias desesperados, perguntava: «Mas porque é que os homens são tão aproveitadinhos? Não nos querem, mas aproveitam sempre uma queca de borla...»

Foi gentil e poupou o meu amor-próprio: não disse «vocês os homens». Eu era muito jovem, muito apaixonado, casado há pouco tempo, e ter-me-ia magoado. Mas fiquei a pensar. E voltei a pensar. E penso de cada vez que a barca da paixão cruza a linha do horizonte e o gajeiro grita de lá de cima: «cachopa à vista!». É uma das minhas dúvidas mais recorrentes. Porque é que nós, os homens, tínhamos de ir a todas?

Emprestei o livro à esquerda e à direita (honnit soit...).

Procurei outros exemplares pelas livrarias para o oferecer. Fiz a sua apresentação numa escola secundária.

E, tirando a minha modesta pessoa, só encontro outras duas que parecem ter reparado n'O insecto imperfeito.


três





Uma delas acabo de a encontrar através de um motor de pesquisa: a Fernanda Botelho, que em 99 fez para a Gulbenkien a recensão do livro. Trancrevo como encontrei, se bem que, apostaria uma garrafa de bom tinto Duas Quintas contra uma de reles cola: a Fernanda Botelho, se tivesse sido ela, escrevia muito melhor do que isto:

"A obra está cuidadosamente escrita, com boa clarividência psicológica, mas o leitor? eu pelo menos, não entende lá muito bem a finalidade, o objectivo, a mensagem a recolher da leitura?..."

A Fernanda Botelho era uma mulher muito inteligente. Como tenho lido muito poucas, e muito poucos. Acredito que deixou estas perguntas para si própria, sem nenhuma intenção de fazer delas uma nota crítica. Mas é o que se encontra na net.



quatro



A outra pessoa que reparou no livro de Beatriz Lamas de Oliveira foi o Sérgio de Sousa que tem honrado este blog com a sua atenção (não muita) e sobre ele escreveu na revista «Leiamos» de Maio de 2000 (Edição de Editorial Escritor, Lda).

Com a devida vénia, transcrevo o que a este livro diz respeito:


"... Embirrei com o livro antes de o ter lido," escreve Sérgio de Sousa, "quando o vi numa livraria. Seria algum contraponto à novela de Júlio Moreira, O Insecto Perfeito? Folheei-o e não me pareceu. Romance, dizia-se. Com 98 páginas, apenas duas personagens principais? Resmunguei, apegado a antigos critérios de classificar as prosas.

Depois, de uma amiga, circunstancialmente colega de liceu da autora, ouvi o comentário: «É giro, achei-lhe alguma piada.» E assim se dá cabo, autenticamente esfrangalha um livro.

Por aspectos marginais, sem minimamente ter tomado conhecimento do seu texto, eu já embirrava com o livro.

Li-o e fiquei a gostar dele.

A primeira impressão foi: Que impacto teve uma relação amorosa na autora, que ela teve de vir dissecá-la na pele de extraterrestre.»



cinco



«O livro é mais profundo do que um ajuste de contas, é imaginativo e rigoroso.

Também existem mulheres que acalentam sonhos grandiosos e vagos, que levam a vida a imaginar êxitos, que jamais pensaram no que precisavam de fazer para os alcançar, que entretanto vão seduzindo homens que se deixam encantar pelos seus cantos de sereias e outros encantos mais palpáveis, e as vão sustentando, e depois essas mulheres acabam muitas vezes sós, sem amparo. Também há mulheres «pentacoladoras», e Beatriz Lamas de Oliveira não o ignora.

Mas não é delas que trata este seu livro, em que a protagonista desperta, com uma serenidade científica, da envolvência numa relação que nos relata com palavras precisas.»



seis



«A protagonista é uma extraterrestre colocada em Braga, num corpo de mulher, que ali se envolve sentimentalmente com um estrangeiro. Termo de duplo sentido, estrangeiro porque catalão, e porque, pelo menos para a protagonista, à partida estranho, o que comporta também múltiplos significados, desconhecido, esquisito.

Incarnada mulher, a extraterrestre representa o papel respectivo. A duplicidade da personagem vai servir a análise do envolvimento a que como mulher se presta, e a do distanciamento a que, como extraterrestre, dilucida a evolução do relacionamento.

E o jogo entre os comportamentos da extraterrestre e da mulher resolve-se numa síntese que é a missão.

Missão para cujo cumprimento a extraterrestre foi enviada à Terra, missão que é afinal o sentido «extraterrestre» da atitude feminina, de se deixar envolver e persistir numa relação com premissas para si erradas, empenhando-se numa transformação.»



sete


«Enquanto mulher, a protagonista inscreve-se na classe média superior, presta auditoria a empresas que preferem pagar caro a ela, para se verem livres de uma caterva de empregados a quem pagam pouco.

O estrangeiro é filho de uma prostituta, criado um pouco ao deus-dará, que foi passando pelo insucesso escolar, pelo «desenrascar-se» na tropa, e aprendendo expedientes de sobrevivência, «o valor dos favores como um capital de troca acumulável», «a usar o sexo, por um lado como afirmação das suas capacidades masculinas, por outro, como uma cenoura, que se vai acenando ao burro para o manter no bom caminho», confiando na sua experiência junto de mulheres carentes, a arranjar desculpas «para matar o tempo que era incapaz de utilizar», «em vez de envidar esforços para concretizar algum projecto de vida... a espraiar-se... em projectos de fantasia desinibida...» não se dispondo a desenvolver competências próprias, mas a aproveitar-se das dos outros, reclamando «direitos de proprietário em descanso merecido», desprezando todo o trabalho tido como feminino, revelando-se na realidade inábil, mas muito treinado a inventar desculpas para as suas incapacidades, nunca reconhecidas, antes sobrestimadas as capacidades, confundindo compartilhar com acomodar-se, aproveitar-se, julgando-se, ou agindo como se fosse, isento das obrigações comuns, insensível ao gostar e a compreender o desgosto, e por fim a repulsa, que isso provoca nos outros, o estrangeiro acabara vivendo sempre, afinal, à custa de sucessivas, temporárias, esperançadas amantes.»


oito




«A esta conclusão acabou por chegar a protagonista que, também ela, em espírito de missão, atinge contudo um momento em que quer apenas voltar a sentir que é responsável tão-só pela sua vida, que verbaliza que «duas pessoas não podem viver juntas só porque uma delas acha muito triste viver sozinha...»

O momento em que recusa um homem de quem tenha de tomar conta como um filho, em que quer ter uma relação «de igual para igual», com um homem responsável, com projectos e meios próprios, um homem cuja vida se não resuma à actividade de «pentacolar».



nove




«Beatriz Lamas de Oliveira, que ao longo da sua narrativa vai inserindo várias palavras com uma precisão cirúrgica, de que são exemplo as «tuas estupidezes», pag. 18, referindo-se aos trabalhos domésticos, «que quase nunca se atrapalhava» (o estrangeiro), referindo-se aos seus subterfúgios, e muitas outras, com especial destaque para os termos castelhanos, inventou ainda essa palavra conceptual, «pentacolar».

A «pentacolada» é um desporto radical imaginário, cuja prática requer um equipamento com cordas e ganchos, mas nada mais é precisado. O leitor, que já assistiu, pelo menos pela televisão, a largadas de pára-pentes, a escaladas alpinas, a gincanas de motocross, facilmente se identifica com esta actividade, que requer «audácia, esperteza, força, atributos masculinos», daí que surja como «a actividade masculina iniciática predominante». Em que, atrevo-me, permanentemente se oscila colado, dependente.»


dez




«A novela, prefiro chamar-lhe assim, de Beatriz Lamas de Oliveira, narra um caso extremo de vida de um homem que, na verdade, sempre se colou, e dependeu, pelo sexo, de mulheres que o foram temporariamente sustentando, oscilando entre umas e outras. Mas este caso extremo tem ressonâncias apenas ligeiramente atenuadas no machismo generalizado, e no comportamento típico masculino.

A relação homem-mulher, em que aquele que se pretende depositário da responsabilidade familiar, mas que se revela inábil na resolução de assuntos práticos e rotineiros da vida, imaturo, e a mulher acaba por arcar com o assegurar do dia-a-dia, o prevenir, o proteger, com paciência missionária, é um padrão ainda dominante.
(...)»

onze


«Pentacolada». Pois.
Tout communique, diria o Jacques Tatti.
Porque é que vocês os homens são tão aproveitadinhos, perguntava a minha amiga, há já muitos anos. Não creio que ela se lembre. Ainda bem, porque ela é uma Senhora.
Mas eu lembro-me, porque a dúvida foi ela quem a lançou. Receio não ter sido sempre um cavalheiro. Mas quem nunca praticou essa tal «pentacolada» que me atire a primeira pedra.

sexta-feira, abril 11, 2008

quarta-feira, abril 09, 2008

A Batalha de Não-sei-onde e os anos da Gi


Carlinhos - Heu... a gente vinha... quer dizer, a gente queria era vir e ser assim os primeiros, tá a ver, S'Dona Gi? Mas ela, ali, a Magrizela, ficou a experimentar saias e a dizer que as flores eram chungosas e isso. Só o Trabuco, que é aquela ratazana a fingir de cão que o Zé Nesgas arranjou, tá ver, S'Dona Gi, ele ficou a roer-se de inveja de eu ter a Magrizela...
Zé Nesgas - Tu? Tens o quê, man? Tu tens é pregos...
Carlinhos - Da-hã... Tu não estás flipado, assim do neurónio, nem nada? Deixaste ou não deixaste que o teu Trabuco trouxesse o osso para dar à Dona Gi?
Zé Nesgas - Oh pra ele! Man, pá, tou admirado! O génio chegou aí e faltou-lhe o gasóleo. (pausa) Charlie, man, tu não tás é a ver: o Trabuco trazia o que lá tinha de melhor, o mais saboroso, man, o mais suculento.
Carlinhos - Pois, e o mais aromático... Era cá um aroma que até apagava a chama olímpica, nem era preciso ser solidário com o Tibete.
Zé Nesgas - Tibete. Ah... pois, não me tinha lembrado... Mas sabes? Havia de se fazer um congresso pra arranjar um mais burro qu'a tu e n'haviam de conseguir.
Carlinhos (agarrando o Zé Nesgas pelas bandas do casaco) - Ah é?
(Envolvem-se numa bela escaramuça, qual de baixo qual de cima.)
Magrizela (suspirando ruidosamente:) - Desculpe, Gi. Nós vínhamos só para lhe dar os parabéns e trazer-lhe estas florinhas... Mas, desde que eu deixei de ser cadela, aqueles dois são piores que o gato e o rato. Fiz quinze anos, se continuasse cão estava à beira de morrer, tinha acabado o que quer que por cá andasse a fazer... Não me queixo de me ter tornado mulher, claro. Viverei mais quatro ou cinco vidas de cão, ainda não sei a que preço. Poderei ter filhos outra vez, e outra, e outra, daquele tonto do Carlinhos, em calhando...
Mas tive de aprender a negociar o tempo. E eu... eu tenho aprendido umas coisas, sabe? Uso o sutiã número trinta e quatro B, os sapatos trinta e seis, e tenho de tomar a pílula para que não nasçam cachorrinhos antes de termos tudo o que é preciso para os amarmos. Sei estas coisas, mas não sei porquê. Cada dia tem de se aprender uma nova regra, um canon novo, um novo preceito. É como, tá a ver, é como se a vida fosse uma coisa assim miudinha. Mas o porquê, o porquê último, isso que era evidente quando eu era só uma cadela... a Gi sabe? A Gi sabe se os homenzinhos amarelentos que nos cobrem fazem alguma ideia sobre isso?
E pronto, aqueles patetas já acabaram de brigar... São tão queridos e tão tolinhos, não são?
Olha, enquanto eles não chegam: muitas felicidades para ti, para os teus cachorrinhos e para os cachorrinhos dos teus cachorrinhos...
Carlinhos - Desculpe, S'Dona Gi.
Zé Nesgas - Tem de dar o desconto, ele é parvo.
Carlinhos - Outra vez?
Zé Nesgas - Outra vez o quê? Não percebes que tu és como aqueles cartões do supermercado? Tem cartão interpingo-modelo? Ao fim de cinquenta pontos, zás, temos direito a dar-te uma no focinho?
Carlinhos - E tu, não sabes que tu és do género férias em Punta Cana? Esmurra-se já e paga-se em vinte anos?
Magrizela - Nossa Senhora! (Canta:) Parabéns para a Gi, nesta data querida...
Zé Nesgas (emendando:) - Parabéns a você! Parabéns a você é que é!
Carlinhos - ~Você? Você é estrebaria, ó mongas...
Cai o pano. Em fundo ouve-se discutir enquanto a Magrizela canta o «Parabéns para si».

sexta-feira, abril 04, 2008

Joseph Ratzinger V

Francamente! Não me lembro de os Bispos de ali ao lado, nas Espanhas, terem sido chamados ao Vaticano e, em calhando, nem era preciso.
Mas os nossos foram. Não sei porquê: pinta-me que se andavam a portar mal. Tolerantes? Acomodados?
Não que se tivessem tornado verdadeiros pais, sofredores com o rebanho dos seus filhos, padres de espírito conciliar chamando à Igreja os mais humildes.
Não. Não era bem isso.
Mas, num povo de costumes tão brandos, irritável e agressor, sim, por vezes, mas logo manso e arrependido?
Melhor era que se deixasse estar, não era nenhuma fera, mas porquê acordá-lo? Talvez não mostrasse ameaçadoras presas, mas disparate era o mais provável.
O Senhor Papa, porém, é teutónico! Duvido que entenda estas nossas subtilezas. Para ele o pão é pão e o queijo é queijo.
A religião, sendo uma velhíssima hitória, é um património com dois mil anos. A Hierarquia é a sua única proprietária, a sua única intérprete com patente registada, a única dispensadora da Graça e do Perdão. Perdoarás a quem te ofendeu? Não. O Perdão é um dom divino que só a Hierarquia pode dispensar.
Amarás o próximo como a ti mesmo? Sim, desde que perguntes ao teu «legítimo Superior» quem, e o que fez para ser o teu próximo.
Pôr termo ao laxismo, como se vê, era imperioso.
E, se os Bispos nuestros hermanos endureceram as suas atitudes, ao ponto, por exemplo, de apelarem ao voto contra os partidos que aprovaram o casamento de homossexuais - os da esquerda, óbvio, se estes pobres socialistas como se chamam, ainda o são... - a Conferência Episcopal Portuguesa reelegeu o Senhor D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga.
Nada contra.
Os Senhores Bispos que elejam quem muito bem puderem.
Mas que o eleito corra logo a gritar «ah! sacrilégio! laicismo! ateus! expulsaram-nos da praça pública!», isso já não parece tão curial.
Tanto mais que, já antes tinha saído a terreiro a clamar que iam proibir a assistência religiosa nos hospitais e por aí fora. Não era bem verdade, mas que importa?
Se, de facto, ainda não vimos ninguém do governo, ou mesmo fora dele, sair para a rua a gritar horrorosos insultos como «católicos!» ou «papa-missas!», também não deixa de ser facto que, cada vez mais, as pessoas se divorciam sem pedir conselho espiritual, que se juntam em pecado em vez de casar como deve ser. E agora as mulheres até já podem abortar legalmente em vez de se submeterem à penitência do opróbrio e do vão de escada, ao medo e à dor.
É o escândalo, percebem?
Quase tão mau como rezar a Santa Missa de frente para os fiéis, numa língua que eles entendem.
Ah, caramba!
Que o Papa seja infalível... pois. Tem de ser.
Mas o João XXIII, Senhor... ?
Porque nos dais tanta dor? Porque padecemos assim?

sexta-feira, março 28, 2008

É a saúde, estúpido!


Malpecado
Acto único, cena única

A cena passa-se no consultório. O Médico está sozinho. Ouve-se a voz da recepcionista:)
Recepcionista (de fora) - Faz favor de entrar.

Paciente (entrando) - Obrigado. Como está, Soutor? Eu vinha cá para mostrar assim aquelas radigrafias que me mandou fazer, e as análises...

Médico - Sente-se, homem! (o paciente executa) Análises? Pra quê?

Paciente - Para quê?

Médico - Sim, análises, radiografias, toda essa treta para quê? (pausa) Basta olhar para si. (apontando um dedo:) Clinicamente morto.

Paciente - Desculpe, Soutor, mas...

Médico - Deixe ver as unhas (o doente mostra). Unhas raiadas, vê estes riscos? E arroxeadas. Não sente uma dor aí, por de baixo do mamilo esquerdo?

Paciente (com alívio) - Não, isso não...

Médico - Pode ser um bocado mais abaixo. Está cheio de gordura no fígado.

Paciente - Mas não sinto, não.

Médico - Vai sentir. É um sintoma que nunca falha. Pode ser da próstata. Quantas vezes é que se levanta durante a noite para ir mijar?

Paciente - Não. Pronto, quer dizeer, é muito raro, Soutor. Claro, às vezes, assim com os rapazes, um petisco, bebe-se um pouco mais de cerveja...

Médico - Cerveja? O meu amigo bebe cerveja? Nesse estado e bebe cerveja?

Paciente - Não, é só umas canecas de vez em quando. Mas, ó Soutor, qual estado? O Soutor não...

Médico (interrompe) - Pá! O amigo é que sabe, pá. Apanhe as bebedeiras que lhe apetecer. Mas não me venha para cá dizer que lhe dói o fígado. (abre o envelope e tira uma folha de papel) Olha-me só para esta ósteo: zero, setecentos e setenta e cinco gramas por centímetro quadrado.

Paciente - Gramas por centímetro quadrado?

Médico - Sim. Quadrado. Queria que fosse redondo, ia à Caixa. Isto é um consultório a sério.

Paciente - Não. É só porque gramas por centímetro quadrado não faz sentido. Um centímetro quadrado tem espessura zero, como é que pode ter peso?

Médico (enche-se de paciência) - Pá! Olhe, meu amigo! Os gajos andaram mais de vinte anos a calibrar esta merda e o meu amigo vem-me para aqui com gaitas? E eu a aturá-lo? Ou quer ou não quer, porra! Eu digo as coisas: olhe-me esse fígado, essa dor vai-se agravar, pá, não toma cuidado, e depois, bumba! Missa de sétimo dia e tal... começam à conversa, pois, o médico é que não viu nada. E vêm os seus cunhados, os seus primos, essa gente, ai coitadinho, era tão bom chefe de família, e bumba: processa-se o médico, que, por acaso até sou eu. Acha bem?

Paciente - Não, oiça Doutor...

Médico - Não faz mal. Não diga nada! Eu já estou habituado, quero lá saber! Até já sei porque é que o meu amigo cá veio! Quer viagra! Todos querem!

Paciente - Ó Soutor, desculpe! Aguente aí os cavalos!

Médico - Mas não quer viagra? Olha, é estranho.

Paciente - Não. Sim, quero, mas não é bem isso.

Médico - É o quê, então?

Paciente - Pronto, Doutor, é assim: eu ando a deixar de beber e de fumar, essas coisas que fazem mal, é o que se diz...

Médico - Meu filho! Meu irmão! Tu fumas?

Paciente - Pois, Senhor Doutor, infelizmente...

Médico - Pá! Tu fumas e não dizias nada? (abre a gaveta e extrai um tabuleiro com tabacos vários:) Fumas o quê? Eu vou tirar um destes. Recomendo-tos: puros!

Paciente - Ena pai! Tem aí Stagonov, um dos melhores tabacos do mundo. Dá-me licença de que encha um cachimbo? (executa) E podemos fumar aqui no consultório?

Médico (acendendo o charuto) - Se prometes que não dizes nada à Asae... Ah...

Paciente (acende o cachimbo) - Hum...

Médico - É... também estava a precisar... hum... Afinal, veio cá porquê?

Paciente - É que não consigo deixar de fumar, está a ver? E sabe, com um copo ou outro...

Médico - Sei, ó se sei! (tira de baixo da secretária dois cálices e uma garrafa e começa a servir) Vai uma gota? É uma aguardentezinha bagaceira, destilada à saída do lagar. É tão boa, pá, que já deve ser proíbida.

Paciente - Agradeço... (prova e estala a língua ) Preciosa! Tintos da Estremadura, talvez ali mais perto do Ribatejo... Alenquer! Não, Carregado ou Azambuja! Acertei?

Médico - Quase! Vila Nova da Raínha. Uma quinta de uns amigos meus. Lá é que ainda se vive bem. Cavalos, dinheiros da Cê-é-é... Ainda bem, que lhes preste! Ao menos sempre sobra alguma coisa.

Paciente - Pois. Ele há coisas... Esta bagaceira, os enchidos... Às vezes sinto-me assim esquisito. Não é que eu seja religioso, mas penso que Deus nos está a castigar, só assim, por sermos felizes e estarmos bem. E pronto, tenho medo. Tenho medo das cirroses, tenho medo dum a-vê-cê, tenho medo do cancro... é mesmo verdade que o tabaco é cancerígeno?

Médico (mirando o charuto) - É. Receio bem que seja mesmo. Mas sabes uma coisa? Há uma vacina porreirinha contra tudo isso. Amandas-te do nono andar, com a cabeça para baixo de preferência. 100% de eficácia. É um bocado radical, mas garanto-te que não apanhas mais doença nenhuma!

Paciente - Porra! Prefiro este cachimbo.

Médico - Viver é cancerígeno, pá. Não sabias? Mas olha, podes fazer como o palerma do chinês: sentas-te à beira do rio e esperas o tempo suficiente. Verás o cadáver dos teus cancros passar na corrente. Olha, e se não vires, também não perdeste nada. Ganhaste o teu cachimbo, não foi? E, meu caro amigo, vou-lhe passar a receita do viagra enquanto acaba o seu copo. Trate-me, mas é desse seu dente: com o bagaço e o tabaco de cachimbo, vai ficar com um mau hálito do caraças.

(cai o pano)

terça-feira, março 25, 2008

Numming Up

- A 5 de Outubro, man? É já ali.
Não acreditam?

Estou a rir-me devagarinho, para mim mesmo porque o meu cão dorme e não há mais ninguém nas redondezas. Não que, reconheço, o motivo desta minha íntima risota tenha piada. Aqui para nós, o acontecimento careceu mesmo em absoluto de um grama que fosse de sentido de humor.

Uma Professora (1), algures lá para o Norte, passou-se dos carretos, apreendeu um telemóvel. A proprietária do dito, em histeria completa, tentou arrancar-lho. Gestos largos, gritos agudos, empurrões.

Se fossem homens, teria havido um grito viril: «agarrem-me, senão eu mato-o!» Como eram mulheres, faltou o arrancar de cabelos para que se cumprisse a tradição.


Sobre esta caricata cena que nos chegou através, aí sim, do sentido de humor dum outro pssuidor de telemóvel com câmara de video, não vou perder o meu tempo e menos ainda o meu parco latim.

Já se condenou toda a gente, desde a aluna agressiva, ao ministério, ao ensino público, à degradação da Autoridade (com maiúscula, está bem de ver) quer da Escola, quer dos Educadores.

Não faltou sequer o parecer jurídico (é inconstitucional a aprensão do objecto, mesmo que esteja no regulamento da Escola), nem a Psicologia.

Não era o Dr. Eduardo Sá aquele Senhor que no You Tube tecia suaves (mas contundentes) críticas à actuação da Professora, a qual devia ter feito e acontecido em vez de taratátá & companhia?


Renitente embora, vou-vos confessar uma coisa: comecei a trabalhar há bué da anos. Não sei, talvez em 1964. E fui professor, pela primeira vez a sério, no ano lectivo de 1972/73. E houve coisas que fui aprendendo, daqui e dali, frases feitas, por vezes.

Uma delas, particularmente acutilante, foi-me ensinada pelo Leonel Pires Lourenço, que Deus lhe fale na alma.

Trabalhávamos ambos na rádio e era ainda o tempo em que os circuitos integrados, último grito da técnica, faziam a sua entrada nos hábitos dos nossos engenheiros. As válvulas, as lâmpadas e os bicórdios eram a mais prudente aposta da tecnologia nacional e predominavam por todo o lado.

Ninguém já faz ideia do que era a nossa central técnica numa tarde de Domingo, quando os relatos de futebol eram escutados religiosamente por tudo o que era lado. Os clubes, da primeira divisão à terceira distrital, jogavam todos ao mesmo tempo. Havia dezenas de bicórdios a sair dos bastidores, a ligar os relatores dos futebóis aos amplificadores, tudo simultaneamente no ar.

Necessariamente, na coordenação de centenas de ligações, alguma coisa havia de falhar. Porém, se nos criticavam os erros de operação indistinguíveis, aliás, das falhas do material, o Leonel ria-se pelo canto da boca e atirava:

- Ai é? Então venham cá vocês fazer c'a tromba!

A tromba em questão não era, como poderia ocorrer a um menos precavido, o lisonjeiro apêndice nasal do elefante. Era mesmo a tromba do porco.

Uma sala de aula é, com as devidas distâncias, uma complicação ainda maior do que a da nossa Central Técnica.

Lembram-se dos Telebes, ou lá o que era? Lembram-se da discussão sobre o regime de faltas dos alunos?

Às trapalhadas do Ministério que quer controlar tudo, junta-se a trapalhada das educações improvisadas por pais incompetentes, a luta pela conquista do mercado pelas editoras escolares. À banalização dos divertimentos nocturnos, com as variadas intoxicações, veio juntar-se a evolução tecnológica, que dotou cada criança, cada adolescente de acrescidos meios de estarem «noutra».

As probibilidades de uma aula falhar tornaram-se demasiado altas. A pobre Professora lá do Norte que se passou dos carretos, tem o meu inteiro apoio se gritar de lá a sua indignação:
- Venham cá vocês refocilar nesta estrumeira, a ver se fazem melhor!


Mas o que é que está errado então, perguntais?

Era uma tentação esticar agora o dedo acusador e disparar em todas as direções. Este mundo da educação está de tal modo coberto de alvos que nem precisava de apontar: acertava sempre, quase como os soldados americanos no Iraque. Disparem para onde dispararem, acertam sempre num inimigo.

Mas não. Recuso-me a tentar responder, e isto por duas ordens de razões bem distintas entre si.

A primeira é esta: não quero acrescentar ao fungagá que já se gerou, a mão cheia dos meus próprios palpites. Já estou muito cansado, quer das soluções milagreiras, como, para dar um exemplo, o cheque ensino dos Blasfemos, quer dos pequeninos remendos paliativos que cosem de um lado para esgarçar do outro.

É que uma discussão a sério teria de começar por questões tão vastas como:
- Queremos ensinar, queremos formar, queremos formatar? Queremos educar? Para quê? Quem? E devemos obrigar a aprender? E podemos fazê-lo? Quanto queremos gastar?
- Ah, bom! Queremos tudo, mas não há verba, é isso? Então, vão-se lixar e não chateiem.

A segunda das razões é muito mais simples: falar do Ensino era, para mim, falar da minha vida quase toda. E ainda não me apetece fazer balanços finais (ou os Summing up, para fingir que também sei falar estrangeiro). É só isso. Sorry.

Deixem-me só acrescentar mais uma coisa: quando ainda andava pela rádio, no meio da insurreição de Abril e nas confusões que se lhe seguiram, uma muito querida amiga ensinou-me mais uma das máximas que passaram a acompanhar-me desde então e que seria digna de Lao-Tzé:
Quanto maior era a asneira dos nossos Directores, quanto mais flagrante a falta de senso - e de decência, por vezes - maior era o seu sorriso.
- Pagam-nos mal, - dizia. - Mas divertem-nos muito.
Compreendem porque é que eu disse, lá em cima, no início do post, que me estava a rir baixinho?

(1) Os senhores professores universitários gostariam que reservássemos «Professor», por extenso e com maiúscula, a um dos graus da sua hierarquia. Como não são eles quem nos paga e, confessemos, nos divertem pouco, o melhor é não ligar.

sexta-feira, março 21, 2008

terça-feira, março 11, 2008

A Sala Magenta


O José Rodrigues Miguéis tinha pouca sorte com os barbeiros.
Eu, salvas as devidas distâncias, é com os escritores portugueses que tenho azar. Aos maiores, não os leio. Confesso o meu mau gosto: nem a Agostina, nem o Mário Cláudio, nem o Lobo Antunes. O José Saramago vou lendo, mas nem sempre com o mesmo gosto.
Saudei, como toda a gente o Memorial do Convento, mas não o reli. Da Jangada de Pedra, sim. Gostei e releio-o uma vez por outra. Detestei aquele do Cerco de Lisboa, voltei a gostar do Todos os nomes e nem por isso do Evangelho. E por aí fora.
Depois, começa o meu azar.
A Fernanda Botelho faleceu. Ponto final.
A Ana Teresa Pereira, com uma escrita linda, para minha perplexidade, parece-me andar a reescrever sempre o mesmo livro. O defeito, certamente, é meu. Mas que fazer?
A Beatriz Lamas de Oliveira, essa, que eu saiba, escreveu um só livro. Se alguém souber de outros, por favor, avise-me. Correrei Seca e Meca para os achar, mesmo correndo o risco, como a Raínha Victória quando mandou comprar a obra completa de Lewis Carroll, de me achar com um tratado de topologia nas mãos. Até lá, passo melancólico pela estante, pego n'O Insecto Imperfeito que já conheço quase de cor e penso que há desperdícios imperdoáveis. O desta escritora, por exemplo.

O Paulo Castilho foi também, durante alguns anos, aquele autor cujo aparecimento nos escaparates eu vigiava ansioso. Não que tivesse gostado particularmente de Fora de Horas. Mas, se me permitem o pretenciosismo, percebia-se que estava ali um escritor. E Sinais exteriores, depois Parte incerta, confirmaram-me no meu interesse. Finalmente veio o Por outras palavras. Já lá vão vários anos. Desde então para cá, continuo a procurar em vão a letra «C» nas prateleiras das livrarias e a reler, de vez em quando as ...Outras palavras, os Sinais. Algum amigo (certamente mais do alheio do que meu) ficou-me com a Parte incerta. Procuro-a, até hoje, pelos alfarrabistas porque não há reedições.
É a isto que eu chamo pouca sorte.

Há também o João Aguiar.
Explêndido o Navegador Solitário.
Divertido e imaginativo com O Homem sem nome e com a Encomendação das almas. E com o juvenil O Sétimo Herói.
Que importam os dois primeiros livros da sua trilogia inspirada em Macau se o último, A Catedral verde, se lê de penalti, como fazem os miúdos com os shots nas discotecas e os pedreiros nas tabernas com copos de três?
No meu pouco modesto critério, a marca de um bom livro (ou como dizia o Professor Manuel Antunes, de um óptimo livro) é que vale a pena relê-lo. E o Diálogo das Compensadas, a par com Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Gabriela Cravo e Canela, A cidade e as serras e poucos mais, lê-se sempre com o mesmo prazer, como se fosse um livro novo. Se só pudesse levar dez livros para uma ilha deserta, as Flores ou o Corvo, vá lá, eu recusava-me a ir, claro.
Mas, se fossem cem ou cento e cinquenta... levava as Compensadas e ia. Tinham era de me jurar que nem o Cavaco nem o Sócrates passavam por lá em visita de Estado. (Aqui para nós que ninguém nos ouve, que história é essa das presidências abertas? Porque é que não as fecham e não as enterram bem fundo? Não há já poluição que chegue? Desculpem. Onde é que íamos? Ah, sim:)
No entanto, será impressão minha ou o João Aguiar está em crise? Se ele me perdoa, O jardim das delícias é repetitivo. Como nos livros da Ana Teresa Pereira, eu tive a impressão de que já o tinha lido e relido não há muito tempo. Dos livros infantis, prefiro não dizer nada. E o Neandertalzinho do Lapedo parece-me bom jornalismo, muito interessante, primorosamente escrito, mas só isso. Bem sei, já são qualidades que cheguem. Mas eu continuo à espera de outro Navegador solitário que não há meio de vir.
Pouca sorte? Espero bem que não. Já estou a bater com os nós dos dedos na madeira e a dizer «lagarto, lagarto, lagarto!»
Mas não o tenho procurado pelas livrarias da Baixa com o empenho que dantes soía.

O terceiro dos autores portugueses cuja escrita tento acompanhar é o Mário de Carvalho. O primeiro livro que dele li, há já vários e tormentosos anos, foi A paixão do Conde de Fróis. Mesmo sendo radicalmente desconfiado de narrativas illo temporais, gostei da novela. O Mário de Carvalho conseguia não lhe dar um tom bafiento, erudito-gradioso. E havia, lá por trás, sempre presente, um sólido cepticismo, uma concepção sarcástica do heroísmo pátrio, do nacional politiquismo. Mas devo dizer que só prestei realmente atenção ao escritor a partir do Era bom que trocássemos ums ideias sobre o assunto. Erro meu. Em vez de ter lido logo Os Alferes, ainda ando à procura deles. Encontrei o Fabulário, os Casos do Beco das Sardinheiras, mas não os Quatrocentos mil sestércios.

Foi, no entanto, a Fantasia para dois coronéis e uma piscina, talvez o menos «sério» de todos os seus livros, a lembrar a magia de Casos, o que eu mais gostei. Nos Casos havia quem engolisse a Lua, uma torneira que se abria no Céu, confundia-se "o Manel Germano com o género humano".

Na Fantasia aparecem deuses pendurados nas árvores, seguimos atentamente as impressões trocadas entre um melro e um mocho, assistimos à destruição dos vestígios de uma vila romana e à odisseia marítima de uma Renault 4.

Tudo podia acontecer e acontece mesmo. Uma claque de desportivos quadrúpedes destrói uma estação de serviço na auto-estrada e o «mocinho» desta fantasiosa cavalgada, heróico escaquista (onde raio foi o Mário de Carvalho desencantar este sinónimo de jogador de xadrêz?) aproveita para se deixar seduzir pela bar-tender da cafetaria. O realismo fantástico, que não raro apanha o escritor numa núvem espessa de misticismo (como aconteceu com a Isabel Allende, com o Didier van Couwelaert e o próprio João Aguiar), é no Mário de Carvalho assumido como paródia e como paródia deve ser lido. Tudo é fogo de artifício: da política ao heróico patriotismo, das velhas gerações inúteis dos anos sessenta aos jovens Cláudios a cumprir pena por delitos vários, drogas diversas, orfandades múltiplas.

E, de súbito, um'A sala magenta.

«Magenta» é uma cor. Entre o vermelho e o azul, uma cor quente e uma fria, aí está o «fúcsia», a cor feminina por excelência. As deusas já não precisam de se pendurar nas árvores, na torre das igrejas: estão por todo o lado nas paredes magenta.

"Não sei se é uma história de amor, se é uma história de paixão", diz o autor a Rodrigues da Silva numa entrevista. "E de raiva e de ressentimento, também."

O romance também não nos esclarece. Pode ser que tenha uma continuação, como Os três mosqueteiros em Vinte anos depois.

Pouca sorte. Vamos ter de aguardar.

segunda-feira, março 10, 2008

Aviso:

O Portugal, Caramba
anda em reparações
e não tem podido manter a sua actividade normal
(se é que a «sua actividade» alguma vez foi normal,
mas enfim!)
Confiemos no Sapo.