sábado, fevereiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XII)

- Psst! Miúda! Avia aí os trocos.
Aka olhou para ele, sem amenidade.
Era branco e não tinha o ar muito limpo.
Mas ali, sentado numa caixa, com um copo e um livro, não parecia ameaçador.
- Estás a ler o quê? - perguntou ela, sentando-se nos calcanhares em frente dele.
- Tens alguma coisa a ver com isso?
Aka mostrou-lhe uma nota de dez euros.
- Os trocos, lembras-te? O pedinte és tu, não sou eu.
- Só tens isso?
- Se o livro valer a pena pode ser que eu volte... E pode ser que tu me mostres outros livros e pode ser que vá havendo mais uns trocos...
- Ah bom. Queres fazer de mim um investidor, é?
- Não. Um mestre? O meu preceptor dizia que temos de escolher os nossos mestres. Mas não és obrigado...
- E em em que é que eu me pareço com um mestre?
Aka pensou.
- Em nada, acho eu. Achas que é por isso?
Ficou a olhar para ela, muito tempo até que mostrou a capa do livro.
- Ouve. É um gajo muito antigo, chamado Gide, André Gide, que já ninguém lê. Chama-se La porte étroite. Começa assim:
Outros poderiam fazer um romance; mas, eu consumi todas as minhas forças e virtudes a viver a história que vou contar...
Passou uma série de páginas e voltou a ler:
- A minha alma está hoje ligeira e alegre como um passarinho que tivesse feito o seu ninho no céu. É hoje que ele deve vir; sinto-o, sei-o; quisera gritá-lo a todos ... Não posso esconder por mais tempo a minha alegria... Interessa-te?
Aka fez que sim com a cabeça.
- Quem é ela? E quem é que vai chegar?
- Ela? Como é que sabes que é uma ela? Pode ser um ele. Ou um maricas. Ou um marciano. Os marcianos não têm sexo, sabias?
- Não. E tu, já viste muitos?
- Espertinha! Vendo-te o livro por esses dez euros. Mas com uma condição. Aceitas?
- Qual?
Ele percorreu as folhas do livro e rasgou as últimas duas ou três.
- Juras sobre o Corão que nunca tentarás saber o fim da história que ele vai contar?
- Não sou muçulmana. Mas tenho muito respeito pelo Corão. Juro.
- Toma. Deves-me dez euros.
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa em caracteres latinos.
Acompanhada pela Aia e seguida à distância pelo Mahamoud, Aka voltou à ilha de Saint Louis.
O pórtico em obras lá estava.
Mas o ocupante era outro: gordo, a barba por fazer, a garrafa do vinho tinto.
- Le pettit con? Vieram buscá-lo, les flics ou les bleus, des comme ça.
Falou para a Aia que se mantinha distante:
- Vou-z-auriez-pa-z-une piéce, vous, la grand-dame? J'ai jamais toué personne, hê?
Mais não sabia.
O «pettite tête» não «pertencia», era um passante, não entrava na festa la fête com toda a gente.
- Ele era toc-toc. -concluiu e estendeu o boné para encerrar a conversa.
- Porque não compras outro exemplar desse livro e não o lês até ao fim? - sugeriu a Aia.- Esse, de qualquer modo, tens de o deitar fora, está sebento.
- Fiz um juramento - respondeu Aka.
E não explicou mais.
-
Ou:
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa da esquerda para a direita.
O pórtico em obras lá estava, com o sem abrigo encolhido no seu anoraque enxovalhado.
Mas sem livro.
Parecia ter-se ido embora e esquecido ali o corpo.
Da boca aberta escorria um pequeno fio de baba.
Aka, ajoelhada ao seu lado, ficou uns minutos quieta.
- Talvez tenha de ser assim com os meus mestres - murmurou.
Não sabia como chamar uma ambulância, mas, do outro lado do telemóvel alguém havia de saber.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XI)

Aka andava pela Ilha de São Louis quando encontrou o Senhor.
Vinha a rir-se porque, depois da seriedade de uma Ecole de garçons a ter feito pensar pela milésima vez «mas porque é que eu fui nascer rapariga?», os olhos depararam-se com um restaurante com o nome L'Ilot Vache.
Aka não sabia francês suficiente para conhecer os múltiplos sentidos que a palavra «vache» pode ter, para além dos mais evidentes. Mas já tinha aprendido que dizer de qualquer coisa que «c'est vache» ou «c'est vachement con», não é propriamente um elogio.
Foi então que tropeçou n'Ele.
Vinha absorto, a ler um livrinho.
Quase chocaram. E sorriram-se.
Diga-se:
Os fiéis das grandes religiões, os cristãos, os islamitas ou os judeus, já não sabem sorrir a Deus. Os sacerdotes proclamam que é um Pai bondoso e justo; porém, só eles têm a chave dos tabernáculos onde O encerraram.
Talvez haja mais do que um Deus único, pensa Aka, porque o seu é ao contrário dos outros:
vive com o seu povo.
Como toda a gente.
É por isso que os antropólogos acham que a religião dela é um animismo.
Por isso, e por não precisar de sacerdotes.
O Tio Mais Velho orienta a oração da noite quando estão todos juntos.
De resto, Aka reza quando a alma lhe pede.
- Com que então a rir do restaurante onde eu almocei. -disse Ele interrompendo a leitura.
Aka fez um sorrisinho mais largo a que juntou um pequenino encolher dos ombros.
- E o que fazes aqui sozinha? Não é costume, pois não?
Aka, com os olhos, indicou o guarda-costas que se aproximara, a mão dentro do anoraque, no bolso do peito.
- É um chato, nem sequer Te reconheceu. - riu-se ela. - Não podemos pregar-lhe uma partida?
- Não. Não seria justo. Está a fazer pela vida, da única maneira que sabe.
- Pois. É o que me diz a Aia.
- Então deve ser verdade, não é?
Riram-se de novo.
E depois, não havia muito a dizer, foi a despedida.
O Senhor seguiu os Seus caminhos mergulhado no livrinho e Aka, pela rua de Saint Louis afora, de alma cheia, com o andar saltitante e uma canção desafinada nos lábios.
- Não era simpático perguntar-lhe porque existe, pois não? - interrogou-se ela.
E concluiu que não.
Há coisas que não se deve perguntar, mesmo que se saiba já a resposta.

sábado, fevereiro 07, 2009

No bird has the heart of singing but in absolute silence

"I gladly consent to be silent. But then, alas, I'm unlikely to know anything. To renouce literature, I would have to be really sure that I could know. A certainty that crassly prove my ignorance."
Susan Sontag, I, etcetera,
«Project for a trip to China» (1972), 1978

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (X)

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Aka estava encantada com o livrinho pequeno e gorducho,
meias páginas, meios poemas,
meio outra coisa que Aka não soube definir.
O que primeiro a tinha atraído, no tabuleiro do bouquiniste, fora a encadernação vistosa,
bastante oiro, grandes letras gravadas em cabedal.
E logo depois, a dedicatória:
«À mon ami, mon amor, source de mes envoûtements...»
numa letrinha muito parecida com a da própria Aka.
- Foi decerto muito infeliz - pensou.
- Senão este livro nunca estaria aqui à venda.
-

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

domingo, janeiro 25, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (IX)


Aka, com os lábios apertados, sem prestar atenção ao que estava a fazer, deixava os dedos correr pelas teclas do clavicórdio, suavemente por vezes, brusca, quase violenta noutras.
- Aia?
Os dedos insistiram no mesmo acorde, repetido uma vez e outra e outra.
A Aia cortou a linha com os dentes e examinou o bordado:
- Hum? - fez ela.
- A igreja é uma associação de pedófilos homossexuais?
- Igreja? Qual igreja?
- Esta. - com um gesto do queixo indicou as revistas abertas, espalhadas pelo tapete.
- Claro que não, Aka. Como podes dizer uma coisa dessas?
- Não sei. - os dedos interromperam o acorde e ficaram como que a tocar o ar e as suas teclas invisíveis. - Não sei nada, Aia. O que é um homossexual? Aqui diz que os surdos mudos foram sodomizados num colégio de padres. Eu tenho um irmão que é surdo mudo, sabes? Não sei como se chama, é o filho mais velho da segunda concubina do meu Pai, lembras-te, aquela que é mahori e tem o rosto tatuado? Quando nós vivíamos em Florença e ele vinha brincar connosco para o terraço grande, do lado do Arno, nós dizíamos «sschiu.... agora ninguém fala: quem ele entender primeiro, ganha!» Chamávamos-lhe o Shiu-biu e ele nunca nos disse se tinha outro nome.
Os dedos voltaram às teclas para as primeiras frases de Limelight.
- E o que é sodomizar?
- Aka, nada disso é da tua conta. Esquece essas revistas, por favor. Se o teu Pai soubesse das porcarias que tu lês, não te tinha mandado aprender. A culpa é minha que te deixo trazer isso tudo para casa.
- Estou a pensar...
- Aka! Chega! Proíbo-te de pensares mais seja o que for.
- Achas que o Papa desta vez lhe vai enviar um pedido de desculpas?
- Desculpas? A quem?
Só os acordes do clavicórdio lhe responderam.
A Aia atirou a caixa de costura para o chão.
- Estás a ficar insuportável, Aka.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Letra e Música

Paulo Castilho,
Letra e Música,
Oceanos, 2008


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Se calhar já o disse algures: os meus escritores favoritos (entre os portugueses nossos comtemporâneos, acrescente-se, dado que o Nuno Bragança e o Cootzee não preenchem um destes requisitos pelo menos) são o Mário de Carvalho, o João Aguiar e o Paulo Castilho. E, durante o passado 2008, todos eles me deram a alegria de publicar um livro.
Não é uma figura de retórica: foi mesmo com alegria que me precipitei para as livrarias à procura de qualquer coisa que fosse legível e que nos dissese respeito, a nós que, até ver e na falta de alternativa, vamos fazendo parte da lusa gente.
O Lobo Antunes será um autor muito estimável. Voto sinceramente a favor de que lhe dêem o Nobel, mas, ele que me perdoe: não me obriguem a lê-lo.
A Agostina, idem.
Dos Miguéis Sousa Tavares e das Margaridas Rebelo Pinto, nem falar: assumo que o defeito seja meu. Mas, por isso mesmo: é uma das manchas no meu carácter que mais prezo, que, como o Huck Finn, posso apertar ao peito e chamar irmã.
A Maria Velho da Costa, essa desarma-me. Lembro-me particularmente de Lucialima, um romance tão irregular que dei comigo a adorar a história da Lucinha, a menina ceguinha, e a detestar quase tudo o resto, sobretudo a cena erótica entre o Lima-Limão e a menina-patroa com quem ele ia brincar fardado da Mocidade Portuguesa. Não tenho instintos pedófilos, mas oh!, se os tivesse...
Myra (Outubro, de 2008 também, da Assírio e Alvim) está aqui ao lado, há meses num pego-lhe, não pego, leio, não leio que me irrita e me incomoda. Não me perguntem ainda porquê. É uma questão que tenho comigo mesmo e que, provavelmente, acaberei por resolver.
E, entrementes que é uma palavra interessantíssima, outros livros que me caíram no prato, e esses devorei-os.
Do Mário de Carvalho e da Sala Magenta, do João Aguiar e do Priorado do Cifrão, já falei, estamos conversados.
E quanto ao Letra e Música, do Paulo Castilho, tenho andado a adiá-lo.
Não porque não se leia de jacto. Não porque não seja um romance bem construido. Não porque a sua trama não seja interessante: uma jovem nascida em Sintra, numa casa com nome próprio, emigra nos idos de sessenta e seis, primeiro para a pérfida Albion e depois para os States, em busca de um som, uma forma de fazer música, de a tocar e a cantar, impossível ou, pelo menos, improvável em Portugal.
Creio ter sido Dinis Machado (ó Glória da nossa Terra, que tens salvado mil vezes...) o primeiro escritor a usar de um método narrativo de segundo, terceiro e, por vezes, quarto grau. É um conta-se que Fulano disse que Sicrano viu Beltrano fazer...
«Contam-se hitórias do Ângelo», disse Austin, acendendo um cigarro, «que ele era, segundo a expressão que Molero diz ter recolhido em fonte idónea, danado para a porrada. Que uma vez, isto contava o Zeferino Torrão de Alicante, e o Chinês que vendia gravatas confirmava com a cabeça...»
(O que diz Molero, 1977. 21ª ed., Bertrand, 2007, pag. 48)
Só me lembro de ter voltado a ver alguma coisa parecida numa obra que teve algum êxito: Austerlitz, de Sebald, creio que 2001: «Austerlitz conta que...» (não tenho o livro que me foi emprestado por um amigo e não encontro o caderno onde anotei a citação completa, sorry).
É provavelmente falta de atenção da minha parte.
O próprio Paulo Castilho usara já este artifício literário em Por outras palavras (2000) onde a narrativa mais ou menos autobiográfica de um escritor em mal de inspiração é, por sua vez, narrada pelo Filipe, um jovem escritor também, que o secretaria, enquanto nos vai narrando as peripécias da sua relação com a Rita, a outra secretária.
O mesmo recurso é retomado em Letra e Música.
Mónica Mendes, a jovem cantora emigrante, deixa os diários da sua aventura anglo-americana. Cabe ao Filipe, agora um pouco mais velho, a sentir por sua vez dificuldades criativas como o seu antigo patrão, fazer o apanhado desses testemunhos, reconstituindo a vida da cantora. Infelizmente, já se separou da Rita que, como o autor explica em nota de rodapé, «pertence a outra história» (e isto podia, talvez, explicar a sua crise criativa).
Em Por outras palavras, era da relação entre a Rita e o Filipe que surgia a tonalidade céptica, sarcástica por vezes, que dava espessura às personagens e vida às diferenças geracionais. Em Letra e Música, se calhar é essa tonalidade o que falta. Será defeito meu, mas não consegui ler na Mónica Mendes uma personagem credível - ou terá sido o Filipe vagamente deprimido que não a soube transmitir?
A Isabel e a Cláudia, as duas irmãs sobrinhas da cantora, pelo contrário, seguem a tradição de Paulo Castilho: como a Rita que é de outra história, são personagens muito vivas e, como dizer? Simpáticas, é pouco. Amáveis? Gostáveis? Talvez.
E ainda bem.
Estou farto de autores que detestam as personagens femininas dos seus próprios romances.
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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Obamocepticismo 2

- E agora? Metemo-los onde?
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O nosso Obamocepticismo está um bom bocado menos céptico: Guantanamo vai fechar.
Praise the Lord!

domingo, janeiro 18, 2009

I don't believe in angels...

Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Já que a Ti me confiou
A Piedade Divina:
Hoje e sempre, governa-me,
Reje, guarda e ilumina.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII) - cont.

- Aka! - gritou a Aia, já exasperada: - Já chega. Se não sais daí, rebento a porta.
«Aí» era um closet, meio armário, meio quarto de vestir.
Mas não foi preciso: a maçaneta de porcelana girou tranquila, com se nunca tivesse estado trancada.
As roupas lá estavam, levemente agitadas por uma brisa que vinha da parede de fundo, de uma porta antes encoberta por paineis de madeira.
Num hotel antigo, tantas vezes adaptado, com tantas crescenças, nada daquilo era para admirar.
Aka era um diabinho esperto, uma verdadeira Peri quando crescesse, sabia-se lá por onde andava agora.
A Aia não era timorata e ainda recordava os livros da Enid Blyton, cheios de passagens secretas. Um pouco embaraçada pela longa capa, desceu a escadinha íngreme. Acordes metálicos de guitarra enchiam o ar quando chegou a um corredor largo e atapetado, uma longa curva para a direita, lado onde estavam as portas numeradas.
- Parecem camarotes de um teatro - pensou a Aia. E entrou.
Vultos indecisos na penumbra voltaram-se para lhe dar as boas-vindas.
- Também foste abusada, irmã? - perguntou alguém num murmúrio. - Podes tirar o niqab. Sabes, aqui ninguém precisa de ter vergonha e muito menos sentimentos de culpa.
A Aia inclinou-se para espreitar o palco.
Por um instante pareceu-lhe reconhecer Aka na cantora magra e de cabelos rapados, mas, claro, não podia ser ela.
- É a Sinhead O'Connor - explicou a mesma voz murmurada. - Veio cantar o War, sabes, aquele cântico em que ela grita: «child abuse, yeah!»
- Nós estamos aqui para a proteger se for preciso - disse outra voz.
- Who'll dig his grave? - perguntou a Aia, com um sorriso melancólico.
- I, with my pick and shovel, I'll dig her grave.
Voltaram-se para ver quem tinha falado, mas era apenas mais um vulto na sombra.
-

terça-feira, janeiro 13, 2009

... e outros lugares muitos ...

- Aquilo, Senhor Deus, é a aldeia.
E aqui era a nossa casa.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Sem título

Rui Azul
(sax tenor)
-

Wolfram Mineman
(piano)

sábado, janeiro 03, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII)


O homem não soube como começar. Olhou o gerente que, com um sorriso desdenhoso, o mirava uma vez por outra.
A Aia não se dignava olhá-lo.
- Porque trouxe aqui esse indivíduo? - perguntou ela.
O gerente pensou que os olhos, do fundo do niqab, se riam deles.
- Quem me dera poder resistir a uma ordem da administração. - respondeu.
Era um filósofo.
A Aia, numa voz suave como uma lixa muito fina, ordenou:
- Diga tudo o que tem a dizer. Poupe-me os detalhes.
O homem, atabalhoadamente, falou em assinaturas, compras exorbitantes, dezenas de milhar de euros, falta de garantias.
- A menina em questão - explicou ele - ultrapassou os limites todos do crédito. Vossa Excelência compreenderá que tenhamos de tomar algumas precauções, ter a certeza de que não se trata de um abuso... ou mesmo uma fraude! Até para protecção dos próprios clientes...
- Que nome?
- Repare, não digo que haja...
- Que nome?
- Petra von Goethe ibn Sadar ibn Sadham, é o nome que a menina assinou. Mas não sabemos, verdadeiramente não sabemos, pode tratar-se de uma falsificação, compreende, ou assim...
- Se é o nome da princesa Petra que aí está, todas as facturas serão pagas. Falsas ou não falsas, não interessa. Pode retirar-se.
Abalado, mas com visível alívio, o homem deixou-se empurrar.
Quando a porta se cerrou nas costas dos intrusos, a Aia dirigiu-se à sala onde Aka, de djilahba negra e o rosto coberto, a olhava inquieta.
- Compreendes o que fizeste, minha pequenina?
- Ó Aia! Os meus irmãos podem partir bordéis inteiros, gastar reinos em Monte Carlo e o meu pai não diz nada. Não podes fingir que nada disto aconteceu?
- Sabes que não, Aka. Se não mostrarmos que sou capaz de te disciplinar, não podemos ficar
em Paris. Queres voltar para casa?
- Não, Aia, voltar não.
- Sabes que vintes chicotadas é o mínimo que os teus tutores aceitarão?
- Ó Aia, com muita força não...
- Não, com muita força não. Mas quanto mais depressa, melhor. Levanta o vestido.
O segurança de serviço ao circuito video, rebobinou vezes sem conto as imagens do chicote e do rabito de Aka enquanto se masturbava.
-
Ou, por exemplo:
- O meu nome hoje é Liddell, Aia, - disse Aka assim que os intrusos saíram.
- Alice Liddell.
Bebeu um gole de um licor doirado e voltou a poisar o frasquinho de cristal em cima da consola, antes de começar a diminuir de tamanho.
- Acreditaste verdadeiramente que aceitaríamos seguranças do sexo masculino a vigiar os nossos quartos, minha tolinha?
Mas Aka, com poucos centímetros, já se tinha sumido no interir da gaveta aberta e não respondeu.
-
Ou ainda:
- Aka! - chamou a Aia - Já chega! Sai desse armário imediatamente!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VII)

As horas correram num ápice: Aka saltitou de boutique em boutique.
Ignorou as joalharias.
Quando sentiu fome sentou-se num banco alto do bar e comeu um gelado enjoativo, mas com umas óptimas bolachinhas espetadas.
Saiu sem pensar na conta.
Antiquários e porcelanas interessaram-na.
Parou a ver um relógio de mesa, com uma pastorinha em esmalte, de longo vestido e um pequenino fauno com uns pequeninos chifres e minúsculos pés de cabra e que giravam vagarosos num bailado solene, de mãos dadas, dentro de uma redoma.
Depois, demorou-se a contemplar as T-shirts Monica Hikikomori.
A assistente aproximou-se cautelosa, para tocar muito ao de leve o tecido do niqab, observar as escravas que Aka se esquecera de tirar dos braços: na profissão aprende-se muito cedo a não confundir os guardanapos com os esfregões.
- São modelos únicos, pintados à mão e assinados - esclareceu ela.
- Talvez me deixem usá-las - murmurou Aka. E em voz alta, porque lhe tinham dito que não devia ser açambarcadora: - Há problema se eu levar estas todas?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Handle gently

Cuidado!
Bebé Ano Novo Armadilhado!

2009

Cuidado!
O Ano Novo vem aí!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

- Grande arrelia, caramba!

O «Portugal, Caramba!» tem estado ligeiramente empanado. Talvez seja de uns vapores festivos que lhe saem do motor, quem sabe?

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Pantaleão em rima livre


José Manuel Pedroso,
Pantaleão é nome de Capitão,
Chiado Editora, 2008
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É claro que os livros não se medem aos palmos e que não seria por ser magrinho que este deixaria de ser interessante.
Mas, setenta e e duas páginas para falar do exército português em tempos de guerra colonial, da província de Moçambique com os seus colonos, o seus estilos de vida, setenta e duas páginas para falar de um aristocrático militar de carreira que recebe os camaradas de armas com "pratas, cristais e Mozart", que cita Os Maias ou O Estrangeiro do Camus, setenta e duas páginas, enfim, não são nenhum exagero de prolixidade.
E mesmo assim, algumas dessas páginas ainda se perdem em coisas inúteis, como a história do corvo, picada de O despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e que serve de prelúdio aos amores «até à náusea» entre o Alferes Soares e uma liberada Pitinha.
Diga-se desde já: este Pantaleão não é grande literatura, não inova na escrita, os recursos narrativos são pobrezinhos: circunstâncias merecedoras de algum fôlego são abreviadas com o recurso a relatórios, directivas, papeladas militares que só a concisão recomendaria. Os antecedentes do Capitão Pantaleão, natural de Loulé, a sua Mãe esquizofrénica e o seu Pai que bebe «copázios de aguardente de medronho ao pequeno-almoço e anda nu pelas ruas da aldeia a aterrorizar as poucas crincinhas», são despachados em menos de vinte linhas (pag. 16). E, no entanto, este Pantaleão está no cerne da intriga: serve-se do seu posto de oficial do exército para traficar diamantes e promove um massacre no interior do seu próprio aquartelamento para proteger o seu pequeno comércio.
De importante, o que este livro tem é a memória.
Primeiro, a memória de um clima, o de uma tropa colonial sem grande garbo, mais desenrascada do que patriótica, o de uma sociedade a viver a queda do império sem querer realmente saber do que se passa nas suas fronteiras.
E logo, o clima de todos os aproveitamentos em que, só dificilmente alguém escapava às mescambilhas: como se conta no livro, «um camião carregado de fardos para o Natal, tombou na estrada e o bacalhau desapareceu. "Acção terrorista da Frelimo (...), segundo o relatório." - Mas eis que todos os supermercados de Lourenço Marques a Nampula, viram as prateleiras vazias encherem-se de toneladas de bacalhau. Milagre? Nem por isso. As investigações conduziram ao saldo da conta pessoal do Major da Intendência, substancialmente aumentado."
E as investigações do Alferes Soares, dos serviços de Justiça Militar, irão conduzir-nos à rede de tráfico de diamantes sul-africanos, aos crimes do capitão Pantaleão.
Na contracapa, entre outras apreciações, encontra-se o testemunho do Alferes Miliciano de Cavalaria Carlos Vieira: "... eu estava lá, assisti e confirmo." Também ele esteve no Tete, em Moçambique, por alturas dos acontecimentos que dão corpo à narrativa. E confirma.
Que fique para memória futura.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (VI)

As oportunidades e as enxaquecas, às vezes, aparecem a quem delas precisa.
Aka não precisava da enxaqueca propriamente dita, mas achou oportuno que a Aia tivesse uma e preparou-se para o momento em que ela, completamente desesperada e cega de dor, tomasse o blister inteiro dos comprimidos e adormecesse no quarto completamente às escuras.
Então, pé ante pé, Aka ousou:
Tirou rápida o kain panjang com que disfarçava as calças compridas roubadas do vestiário do hotel, atirou-o para debaixo da própria cama e conseguiu sair sem bater a porta.
No corredor enrolou ao pescoço o lenço que lhe servia de niqab e procurou impaciente o elevador onde havia um espelho numa grande moldura doirada e onde poude ver uma rapariguita modestamente vestida, o cabelo depenteado, o rosto sem sombra de pintura.
- Mademoiselle deseja... - perguntou o ascensorista com uma pequenina vénia.
- Nunca. - respondeu Aka, sem desfitar o espelho. - Por razões religiosas, entre outras, percebe?
- Pardon? - disse o ascensorista, já sem vénia.
Aka reparou no tom da voz e corou. Corava com muita facilidade, nos últimos tempos.
- Descemos ao lobby - disse no tom áspero que aprendera com o Pai.
- Bien, Mademoiselle.
- É verdade que não devo desejar, - explicou Aka, já num tom mais gentil, enquanto desciam. - Mas nada me proíbe de ser voluntariosa. A vontade e o desejo são coisas diferentes, como sabe.
- Curioso. - comentou o ascensorista com o boné na mão direita, enquanto lhe abria a porta com a esquerda. - Nunca teria pensado nisso.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Mal amar


60º. aniversário da
Declaração universal dos direitos do Homem



Por iniciativa do Fenix ad eternum, neste dia em que se comemora a declaração pela ONU dos direitos do Homem, formou-se uma cadeia de solidariedade entre blogues de todo o mundo. Esta é a nossa minúscula contribuição; mas, como disse o ratinho, qualquer pequena gota conta... O nosso obrigado também ao Arroios pela dica.


...


O Homem é um animal estranho.
Soube dizer que Direitos tem e proclamou-os há já sessenta anos numa Declaração Universal. Soube, desde os seus primeiros filósofos, desde os primeiros guias espirituais, que deve amar o seu próximo como a si mesmo. Ou, na formulação de Kant, que deve agir de tal modo que a máxima da sua acção possa ser erigida em lei universal.

Sabe-o.

Mas não sabe quem é o seu próximo, não sabe que vai desde a formiga e o pardal até ao rio de terras distantes e à floresta tropical onde habitam gorilas.

Não sabe que o seu próximo é a Terra, com tudo e todos os que podem, mas não devem sofrer.

Nem sabe como amar esse próximo, mesmo que soubesse quem é, onde encontrá-lo.

Não sabe e tem medo de ter de saber: receia o dia em que já não lhe seja possível esconder-se atrás da retórica, que as palavras já não sirvam de balas, os microfones de cassetêtes. a surdez de escudo. Tem medo do dia em que alguém lhe peça contas dos bebés-foca assassinados à paulada, das raposas esfoladas vivas para fazer casacos de peles, das populações vítimas de danos colaterais em guerras absurdas.

Que fazer, hélas, quando o homem não quer a si mesmo, quando secretamente se odeia? Declarar o que queremos que venha a ser pode não passar de um começo. Mas então, comecemos, caramba!