quinta-feira, abril 23, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVI)


"The Virgin started from her seat, & with a shriek"

-

- Como te chamas, jóia?, perguntou a Cartomante.

- Não sei, respondeu Aka. Tenho mais de mil nomes.

- Como Nosso Senhor, hem? Não és modesta. E como te chamava a tua mãe, além de minha bonequinha fofa?

- A Mãe foi morta quando eu tinha cinco meses, dizem. Mas a minha primeira ama, a que me deu de mamar, chamava-me Diniza.

- A tua Mãe foi morta? E por quem, minha preciosa?

Aka abanou a cabeça.

- Não lhe posso dizer.

- A mim podes dizer tudo, pequena. Mas não queres, não é assim? Bom! Diniza? Diniza, num dialecto muito antigo que aprendi num sonho, queria dizer «filho de Deus".

- No meu também. Mas «din» ou «djin» junto com «iza», que quer dizer pequenino, é o que se usa para os enjeitados, sabes? Cria de Deus, filhote. Alguém que foi deixado à porta do Pai mais velho.

- Hum-hum? E depois?

- Depois o Pai mais velho decide se a criança merece viver e dá-a a criar a uma ama, a uma mulher que esteja a amamentar. Ou decide que não... A mim podem ter decidido que eu vivesse.

- Que história triste, pequena. Tens a certeza do que contas?

- Não, sabe, «dinisa» também se usa para uma rapariguinha endiabrada, um diabinho em forma de gente. A diferença é que os letrados ocidentais escrevem com «s». Nós usamos a escrita antiga, que não é só fonética.

- E tu, eras um desses diabinhos?

- Ainda sou.

- Seja Diniza, então! Com «z» ou com «s», tanto faz.

Soletrou e foi espalhando cartas em polígono à medida que recitava as letras.

- Ui! Que violência, minha querida. Vês? Esta carta é o teu pai.

Colocou em rápida sucessão mais seis cartas ao lado das anteriores.

- Sim, vejo-te com uma coroa de rainha, diamantes, safiras... e uma espada sobre a tua cabeça. Pés descalços, sobre as silvas. Quem és tu, Diniza? Com esse rosto tapado deves ser muçulmana... Não, espera... és de uma seita que te condenou... que interessante, Deniza: estás condenada à morte! Não acredito que tenhas poderes suficientes para fazer mentir as cartas. Só o Demónio o consegue.

- Eu sou um diabinho, lembra-se?

- Mostra-me as tuas mãos! Consegue-se fazer mentir todo o corpo. Hás-de aprender isso um dia, talvez quando casares, se viveres até lá. Mas, não te esqueças! As linhas das mãos, nunca mentem porque a mentira fica gravada para sempre.

Aka estendeu ambas as mãos, com as palmas viradas para cima e fechou os olhos:

- Why cannot the Ear be closed to its own destruction? - perguntou ela. - Não se preocupe: foi qualquer coisa que aprendi nas aulas de Inglês. Um preto qualquer, como eu.

- Modesta, como sempre, hem? Eu também estudei inglês, rapariga. O William Black só era preto de nome. E tu nem issso. E agora cala-te. Quero ver o que dizem estas linhas.

terça-feira, abril 21, 2009

Obamocepticismo 3


- Mas é claro, rapazes!
Como é que alguém pensou em levar-vos a tribunal?

domingo, abril 19, 2009

sexta-feira, abril 17, 2009

quarta-feira, abril 15, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XV)


A Aia baixara o khimar, sorria,
o velho marchand dizia coisas redondas,
era excelente o gosto da «sua jovem amiga»,
dava palmadinhas na caixa poisada na mesa de apoio a seu lado,
a mão fina, manicurada,
os olhos a mostrarem Aka,
«a quem pedia que lhe perdoasse a insignificancia»,
«só justificada pelo o seu juvenil entusiasmo».
«Não, eu nunca perdoo», pensou Aka, «às vezes esqueço, é só isso»,
mas baixou os olhos como fora ensinada a fazer.
O velho, vagaroso, desembrulhou a figurinha da petitte danseuse reduzida a dois palmos.
- Vraiment superbe! - murmurou contemplativo
e a Aia repetiu:
- Oui. Superbe.
Aka levantou-se, fez uma vénia,
«vous m'excuserez», e saiu da sala.
- Não repare - pediu a Aia. - É a idade. É para esconder a comoção...
- Oh! É muito mais grave do que isso, minha querida amiga. Está na idade em que ainda é possivel recusar a banalidade. - acariciou o tule da estatueta com o dedo mindinho estendido e pareceu triste por momentos: - Receio que a vida a venha a desiludir muito.
Mas mesmo muito, mesmo muito...
-

sábado, abril 11, 2009

sexta-feira, abril 10, 2009

Ai futebol, futebol... [2]




Se alguma coisa democratiza o futebol - e aqui o verbo leva toda a carga possível de vulgaridade - é o facto de a gente poder falar dela sem qualquer preparação.
Todos nós, os que somos já suficientemente antepassados, jogámos à bola na rua, à revelia das leis de então: ia-se comprar a «chincha», havia sempre uma vizinha ajudante de costura que as vendia por cinco tostões - o preço aproximado de um papo-seco na padaria. Era uma bolinha feita de restos de pano compactados no interior de uma meia velha e cosido à volta, uns oito centímetros de diâmetro irregular. Frequentemente não rolava muito bem, sobretudo quando começava a romper -se.
Ao grito «olhó'chuidesalvorávamos todos a correr. No liceu era a mesma coisa. Vinha o contínuo - «olhó Guerra!» e lá saltávamos o muro, fingíamos estar a jogar ao bilas, fazíamos o ar de «quem, eu? eu estava só a ver...»
Às vezes lá ia um pela orelha, a chincha apreendida; eram os azares da vida, a miudagem da rua aprendia depressa a viver com isso.
Quem não sabe identificar o inimigo, morre depressa. Ou então, torna-se inimigo por sua vez, quando crescer, o que é mil vezes pior.

Com o andar dos tempos, as coisas mudaram um tanto.
As ruas foram definitivamente ocupadas pelos automóveis, os putos já lá não cabem. As pessoas, como se fossem macacos em perigo de extinção, são remetidas para zonas protecção especial: um ou outro parque, umas coisas chamadas circuitos pedonais.
A miudagem já não dá cabo das botas a chutar na chincha. Usam ténis e têm belas bolas de plásticos vários que noutros tempos nos teriam feito arregalar os olhos de admiração.
E, pasme-se!
Até lhes arranjam campos de jogos lá na escola - embora, regra geral, os cubram de betão, que é para as quedas doerem à séria.
E é assim que todo o machinho, por esse mundo afora, tem pelo menos um mínimo de experiência do que é correr atrás da bola.
Acrescente-se a isso umas gordas de jornais ditos desportivos, um par de debates na televisão e aí está um entendido: treinador de bancada, árbitro competentíssimo, dirigente de café. Pode botar faladura, a sua opinião vale tanto como qualquer outra e o que disser, não importa realmente.

É uma banalidade quase escusável lembrar que, se ele fosse banqueiro ou grande industrial, ou advogado topo de gama, falaria de investimentos com gente da sua igualha, igualmente aptos a usar o código em que se exprime o mundo dos grandes negócios.
Se fosse físico, astrónomo ou médico, a conversar com outros físicos, astrónomos e médicos, usaria igualmente, é evidente, uma linguagem apropriada que supõe o conhecimento prévio dos conceitos. São linguagens prestigiantes, muitas vezes, guardadas ciosamente das intrusões dos leigos. Mas claro, se não querem ficar isolados toda a vida do resto do mundo, também eles terão de ter como que um jargão comunicacional.

O tempo que faz, a meteorologia, é um tema óptimo. Serve o tempo de um elevador.
Do quarto andar para o terceiro alguém comenta o calor que faz ("está de ananases!"), do terceiro para o segundo tossem ambos um momento de embaraço.
O pobre pé rapado, que só pode falar de juntas nas canalizações ou da diferença entre uma goiva e um formão, depois de concordar amavelmente ("sim, sim! de derreter os untos...") teria de remeter-se ao silêncio, admitir que faz parte do coro mudo, da claque enlevada de todos os que sabem falar.
A solução milagre é o futebol:
- Então, doutor, viu o Porto ontem?
- Uma vergonha, Lopes! Uma vergonha! Aquele Fonseca...
- Mas a arbitragem...
É quanto basta.
As mais escandalosas diferenças podem crescer, engordar, exibir-se. A democracia está salva.

quinta-feira, abril 09, 2009

Umas florinhas

Hoje, 9 de Abril, faz anos uma Senhora muito da estima do Portugal, Caramba!
Não se diz quantos porque não é bonito apregoar aos quatro ventos a idade de uma senhora, mesmo quando ainda é uma jovem.
E não se diz o nome porque ela prefere manter-se discretamente fora destes convívios.
Mesmo assim, se por aqui passar, talvez aceite umas florinhas...

terça-feira, abril 07, 2009

Ai futebol, futebol... [1]



Pronto: confesso.

O futebol é um dos meus ódios de estimação.

E quando digo «de estimação», não pensem que esta expressão contém alguma cordialidade para o dito futebol. No fundo é só uma auto-estima: como eu gosto de mim mesmo por odiar aquela coisa.
Pelo futebol em si mesmo, creiam, nutro e acalento um profundíssimo desprezo.
Para terem uma ideia: As carraças e as pulgas dos cães combatem-se com umas coleiras próprias. Palavra: se houvesse uma coleira anti-futebol, eu usava-a com o mesmo orgulho belicoso com que os adeptos do futebol clube do Porto ou do sporting clube de Portugal enrolam ao pescoço um cachecol azul ou verde, conforme, e vão em grande grita para os estádios.

Não é que eu próprio não tenha jogado à bola quando era miúdo, apanhado caneladas, esfolado joelhos. E até, para que vejam, ousei uma vez meter o peito à bola, mas como era nabo, foi a boca do estômago quem levou com ela.
Dá para ver: respiração cortada, o lesionado arrasta-se até ao muro e encosta-se, os companheiros olham, «isso não é nada» e o jogo continua com um inútil a menos, mais novo e magrinho, só estorvava. Mas, pronto. Aguentei-me à bronca, nunca se dá parte de fraco. Passado um par de minutos, lá regressei, o mais galhardamente possível, a atrapalhar toda a gente.
O facto de ser um provinciano assumido, de preferir as botas caneleiras e os coletes com muitos bolsos, de nunca ter vestido um fato de treino, provavelmente ajudou.
Nasci numa vila, nesse tempo ainda relativamente pequena.
Tínhamos a impressão tola, é óbvio, de conhecer toda a gente: não era verdade. Conhecíamos apenas gentes do nosso grupo, umas poucas dezenas e sabíamos, por vezes muito vagamente, quem eram umas centenas.

Estudos de sociologia mostraram já que o círculo onde nos movemos oscila bastante, mas, em média consta de uma trinta pessoas. As mais sociáveis têm grupos um pouco maiores, os tímidos e os conflituosos grupos menores, mas não é por acaso que uma turma que ultrapasse este número de alunos funciona mal. E uma escola com mais de novecentas pessoas entre alunos, funcionários e professores será um quartel, um campo de concentração, o que quiserem, mas uma escola não.

O povoamento guiava-se por normas não escritas, mas da mesma obediência.
As aldeias, por norma, não chegavam ao milhar de habitantes. Se chegavam, dividiam-se sem dar por isso. Havia os Freixões de Cima e os Freixões de Baixo e desenvolviam rivalidades porque os rapazes de um lado vinham namorar as raparigas do outro, exogamia manda e a erva é sempre muito mais verde do lado de lá das fronteiras. E claro, não faltavam as duas tabernas, duas sociedades, dum lado a Recreativa, do outro a musical, dois grupos fosse do que fosse.

A nossa vila não era diferente, era só maior.
Tinha bairros, famílias e tinha castas.
Havia Grémios, Assembleias, Tunas e Clubes variados, os de uns, normalmente, claro, não frequentavam os outros.
Quando havia cinema, lá se misturavam todos, no mesmo edifício, mas em zonas distintas. Uns iam para o primeiro balcão, ou, se iam em família, para um camarote ou, vá lá, para uma frisa. Havia ainda, como alternativa, o segundo balcão.
A plateia era a zona da plebe.

Nem a Igreja escapava a estas distinções: ao domingo havia uma missa que era a da gente fina. Os senhores tinham cadeira e genuflexório próprios numa nave lateral e à saída dominavam o adro com os seus grupos, a beleza das senhoras, a riqueza dos trajares. Os outros formavam grupinhos mais pequenos, mais encostados às paredes, circulavam pela periferia.

O fuebol, aparentemente, era a excepção não porque não houvesse também separações. Havia. No nosso campo da bola, chão de saibro vermelho e riscas brancas, só havia uma bancada que corria todo o lado poente do campo. Nela tinham direito a sentar-se, em cadeiras, os sócios com lugar reservado. No cimento sentavam-se os outros. E claro, nas cabeceiras ou no lado oriental, de caras para o sol e a mão direita em pala para não perder pitada, era o peão.
Alternando com o vendedor de «bolachámaricana, idicanela!», o cauteleiro percorria as nossas ruas, a gritar «é prá'mañhã!, olhó cinquenta e oito!» ou «anda hoje, anda hoje!». Semana sim, semana não, quando chegava o sábado mudava de estribilho:
«Peão prá bola, peão prá bola. Olh'é o peão prá bola!» O clube da nossa terra, nessa semana, jogava em casa.

No domingo, pois, com o comércio fechado, era o ritual do levantar mais tarde, do banho semanal, depois a missa e, a seguir, era o cozido à portuguesa ou o bacalhau com todos. Regaladamente repletos, os senhores levantavam-se da mesa um tanto pesadotes e abalavam para o café a juntar-se em pequenos grupos, a dar palpites sobre o jogo. E em grupo lá se iam encaminhando para o campo. Parar em cada esquina para mais uma sentença, mais um argumento, era parte do prazer.Parecia a mais pacífica das gentes.
Uma hora depois era vê-los.
Perdida a compostura, os casacos caídos algures, a camisa desprendia-se dos cintos e as gravatas pendiam amaxucadas. O honesto e generoso pai de família, de rosto púrpura atirava perdigotos para todo o lado enquanto berrava a sua exaltação:
- Partam-me um braço a esse filho da puta, cabrão!
No outro lado, no peão, empoleirado sabe Deus onde, um homem de fato de macaco puído e manchas de óleo que as lavagens não conseguiam apagar, berrava exactamente o mesmo.
Era desta massa que se faziam depois os patriotas e nela as uniões nacionais recrutaram desde sempre os seus apoiantes mais fiéis.

Não acreditam?
Mal o vosso.

domingo, abril 05, 2009

O Portugal, Caramba! também gostava de ter um emprego e de acumular umas reformazinhas...

Claro que o Engenheiro Sócrates é engenheiro.
Civil. E civilizado.
E Mestre.
E que não fosse?
-
Claro que é impoluto.
Claro que é transparente.
Se dizem mal dele, é só invejas.
E que não fossem?
-
É só porque ele é bom.
E ele é bonito.
E é inteligente.
E é honesto.
E que não fosse?
-
E não é Pinóquio nenhum.
E se se lembrarem de mais alguma coisa boa e interessante, ele também é.
E se não fosse, não era. Ponto.

segunda-feira, março 30, 2009

E que temos nós com isso?

O facto em si, tal como o relatava o El País de ontem, não tem grande interesse: Estefania, que nasceu rapariga, transformou o seu corpo de acordo com o género a que desejava pertencer e tornou-se no Rubén.
Até aqui, nada de novo.
Como é próprio dos jovens, o Rubén, apaixonou-se por Esperanza, uma senhora um pouco mais velha e, de casa e pucarinho, decidiram ter um filho, tal e qual como qualquer outro casal que por aí ande.
O invulgar da história é que Esperanza, que é já mãe de dois filhos, não pode ter mais. E bom, como em qualquer casal, quem engravida, é aquele cujos órgãos femininos se encontram funcionais - num casal tradicional é a mulher e pronto, não se fala mais nisso.
No caso vertente, porém, quem tem um útero funcional é o Rubén que, por via da mudança de género, desempenha um papel masculino, ou seja, é um homem.
Não sendo muito usual, no fundo, se pensarmos bem, é lógico.
O que levanta algum problema, são as declarações de um tal Dr. Ballescà, ginecologista e responsável, diz-se, por uma unidade de Andrologia reprodutiva em Barcelona.
"Pelo facto de que esta gravidez seja tecnicamente realizável" diz o médico, "não se segue que seja eticamente aceitável."
E nós concordamos. De "A" ser possível, não se pode concluir o seu valor ético. A bomba atómica é um bom exemplo. E uma menina de doze anos ou mesmo de onze pode «tecnicamente», se a palavra aqui tiver cabimento, engravidar. O que segue é que essa gravidez possível é altamente indesejável e eticamente inaceitável.
Porém, continua o ginecologista: "A intervenção de mudança de sexo deve ser total, o que acarreta a extirpação dos ovários!" E acrescenta: "És una contradiction".
De facto: um homem é um homem e um gato é um bicho. Mãe há só uma e, por definição, um pai não tem ovários.
Ora, neste caso insólito, a figura paternal vai ser a mãe. E o cônjuge da mãe (que costuma ser o pai, mas não sempre) vai ser a figura maternal. É confuso, não é?
Imaginem o pobre conservador do registo civil lá do sítio:
- Mas, então...? E eu escrevo o quê? ... E escrevo aonde?
Se for um daqueles que também por aí andam, há-de deitar as mãos à cabeça e sair pela porta fora aos gritos:
- Contradição! Contradição!
Já não havia estações, chove e faz frio em Agosto; nas estâncias de Inverno, em vez de esqui, tomam-se banhos de sol. Os bancos que costumavam emprestar dinheiro às pessoas e viviam disso, agora pedem dinheiro ao Estado e não se percebe de que é que tencionam viver quando a economia for para as urtigas.
E, para cúmulo, os pais armam-se em mães e decidem ser eles a ter os filhos.
Eu, por mim acho que é um escândalo! O Dr. Ballescà, se calhar também. E o Sr. Papa, mesmo se ainda não se pronunciou, vai uma apostinha em como também vai gritar «contradição, contradição?»
E porquê? Alguém nos deu o direito de nos metermos onde não somos chamados?

domingo, março 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIV)

- O essencial, sabes, continua a ser invisível para os olhos - disse a raposa. - O problema é saber como podemos torná-lo visível.
Aka fez que sim com a cabeça.
- Os cientistas, por vezes, usam os microscópios.
- Pois. Mas encontram essências muito, muito pequeninas.

O Nó cego, o Nó górdio e as cortinas piedosas

Carlos Vale Ferraz,
Nó Cego, 1982
4ª. Ed., Casa das Letras, 2008

-


1.
Nó cego é um romance perturbador.
Desde logo, porque se lê de um fôlego. E depois, porque, caso raro na literatura portuguesa que eu conhço, se trata de uma epopeia a que não falta sequer o episódio da ilha dos amores (Cap. 6, Na ilha do sonho).
N'Os Lusíadas, ensinavam-nos os mestres, o herói, ao contrário da Eneida, é colectivo. (Com as maiúsculas obrigatórias:) é o Povo Português. Em Nó cego, mais discretamente, é apenas uma companhia de Comandos.
Numa linguagem de cuidadosa simplicidade, o que se narra são as aventuras e desventuras daquilo a que se chamará, creio, o seu «espírito de corpo».
Um Capitão, uns quantos Alferes, cento e poucos homens que a uní-los tinham apenas frases: o comando não tem fome nem sede, o comando não deixa os seus para trás, o comando mata em silêncio...
Nem todos eram anjos, decerto, e Carlos Vale Ferraz não o tenta disfarçar. As referências ao passado de jovens milicianos, de soldados provenientes de meios muito diversos, dão-nos o retrato dessa diversidade bastante menos do que inocente.
Uma «puta de companhia!», como a define o próprio Capitão, a consciência do colectivo. «Paneleiros, chulos, ladrões, seminaristas, filhos-de-família, vadios e ando eu a bater-me para manter esta merda junta!» (pag. 311)
Gente normalíssima, no fundo, num país que se pretende de brandos costumes, mas que, deixada à solta, mata velhos e crianças, viola mulheres e tortura prisioneiros antes de os matar também.
Vale Ferraz narra como se foram tornando num bando de criminosos de guerra para quem, a começar pelos oficiais superiores, e a acabar nos soldados, «a Convenção [de Genebra] não passa de uma hitória de fadas», como explica o Capitão a um guerrilheiro capturado: «Para o meu Governo vocês são terroristas, e eu sou o senhor absoluto da tua vida.» (pag. 323)
2.
As epopeias guerreiras costumam ser trágicas: o guerreiro que enfrentou com bravura a morte em combate parte para o Valholl de Odin onde o espera o combate final e o fim do mundo.
Também Nó cego acaba com a morte do herói.
A companhia de comandos é desfeita no fim do romance, os soldados, após o combate pela tomada da Base Gungunhana da Frelimo, estavam «de rastos», já não era possível levá-los «a lado nenhum».
"- Não são peças velhas de um motor que gripou", argumentava o Capitão. "- Ao menos, deixem-nos juntos a jogar às cartas ou à pesca, não nos espalhem cada um por seu lado..." (pag. 345)
Mas eram.
A Companhia foi desmantelada como se não passasse de uma Berliet avariada, reduzida a um esqueleto à beira do aquartelamento. Canibalizaram-se as peças que ainda podiam servir, uma condecoração aqui, uma promoção acolá.
Significativamente, a sua consciência, espírito de corpo ou alma, como se queira, representada pelo seu Capitão, termina num apartamento no Algarve, o paraíso possível para os guerreiros dos nossos tempos. Lá esperarão pelos novos combates porque não há outro destino para eles.
3.
Nó cego é uma parábola incómoda.
Primeiro porque como que nos culpa da morte daquele corpo.
Não importa se o «General K», «comandante-chefe de Moçambique» tinha sido ou não um responsável daquelas guerras. Assumindo que se tratava de Kaulza, um dos homens que denunciou a tentativa de golpe de estado ou de pronunciamento militar, como se queira, de Botelho Moniz, então ele foi um dos grandes responsáveis pelo desencadear de todos aqueles massacres que ficaram por julgar e que Vale Ferraz, discretamente embora, não oculta. «K», no romance representa a sinuosidade do político que usa os seus homens exclusivamente para os seus próprios objectivos extra-militares e que os trai logo que, como um velho motor, deixam de ser manejáveis. Não representará «K», para o autor, a própria Pátria?
E a parábola incomoda ainda, em segundo lugar, pelos valores que apresenta. Nós sabemos que a traição não é bonita; mas a Companhia que foi traída, também não o era.
Para recordar um só exemplo, a pags. 211 e 212, Vale Ferraz narra um episódio provavelmente verdadeiro, porque, com variações ainda menos dignificantes, à altura foi contado por todo o lado, pelos soldados que iam voltando. Trata-se da emboscada do soldado Lopes:
"Atirou-se de faca de mato na mão, «o comando mata silenciosamente», sobre um novelo de gente caída no chão. Exibiu diante dos olhos o punhal com a lâmina vermelha de sangue, «um punhal de comando», voltou a enfiá-lo no corpo de uma negra, depois no «manacho» de quatro ou cinco meses que chorava agarrado à mãe morta.
- Que estás a fazer?
O Lopes fitou, espantado, o capitão. Baixou os olhos para o cabo da faca, ainda espetado nas costas da criança, e respondeu:
- Estou à procura do coração, a mãe está morta e ele berra muito alto, meu capitão."
4.
Aqui, no Portugal, Caramba! somos pacifistas quêbê, anti-militaristas tanto e tão militantemente quanto podemos.
Sabemos que, como diziam as canções de antigamente,
tant qu'il y aura des militaires, soit ton fils, soit le mien,
il y aura jamais sur terre pas grand chose de bien,
pas grand chose de bien ... (1).
Infelizmente, poucos anos depois de composta esta canção, a II Guerra mundial, como ficou a ser conhecida, havia de provar à saciedade que os pacifistas sabiam do que falavam. A Guerra de Espanha, ali mesmo ao lado, com os seus viva la muerte, era um bem triste exemplo.
Infelizmente, ter razão não serve para nada.
A maioria dos anti-militaristas, dos opositores aos planos bélicos quer de um lado, quer do outro, acabou mal. Fuzilados uns, em Belsen ou Dachau outros, podemos supor que bastantes, atirados para a Sibéria e muitos, muitos fugidos, exilados, perseguidos nos empregos, nas suas vidas.
A guerra é o mal absoluto.
Mas há sempre alguém, um militar armado em político, um político que se julga militar, pessoalmente muito boa pessoa até, que finge ignorá-lo. Chorará a necessidade imperiosa, o dever de consciência de a desencadear. E os demónios da guerra serão soltos. Seguir-se-á o habitual cortejo das destruições, da violência gratuita, dos danos colaterais.
Se for o chefe de um país vencido, ou pequeno, ou pobre, poderá ser acusado perante um tribunal qualquer, politicamente correcto que perseguirá Sérvios e esquecerá Bósnios. Se for de um país grande e rico, concederá a imunidade às empresas de segurança que lhe fornecem mercenários, ignorará massacres e desmandos dos seus próprios soldados.
Portugal, que não era grande nem rico, apenas como um capataz defendia riquezas de que não beneficiava, envolveu-se em várias guerras simultâneas, contra os povos de quatro das suas colónias: Angola, Moçambique e, embora com uma frente única na Guiné, os Caboverdeanos também ali lutaram pela sua independência.
Mas ninguém foi julgado.
É ao Capitão da companhia que cabe, uma vez mais, em conversa com o médico, tirar a moral da parábola:
"- O mal é esta ser a guerra do vocês. Ninguém a considera sua. É filha de pai incógnito.
O médico riu-se.
- É uma guerra filha da puta." (pag. 138)
-
(1) Não foi exactamente assim que Rosa Holt, poetiza alemã anti-nazi, a escreveu em 1935. Mas foi assim que eu a aprendi trinta anos mais tarde. Como há quem considere uma perda de tempo saber francês, aqui fica uma tradução mais ou menos aproximada:
Enquanto houver militares, seja o teu filho, seja o meu,
Nunca há-de haver na terra coisa alguma de jeito.
-

sexta-feira, março 20, 2009

Nuno Bragança, Obra Incompleta

"Ah, tio Nietzsche: a duplicidade profunda e desprezível do «cristianismo» histórico - que tentou, tenta e tentará, meter o Rossio do Sagrado na Betesga do Poder mundano: Canossa abriu caminho aos católicos deicidas. Tio Nietzsche: tu só passaste a certidão de óbito."
(Nuno Bragança, Directa, Obra Completa,
Dom Quixote, 2009, pag. 379)


"O homem experimentou o funcionar do V0lkswagen encarnado fazendo slaloms por entre os outros veículos. Ele sente a cidade a apertá-lo como um polvo. [...] Pensa: «Nasceste sozinho como todo o puto, vais morrer sozinho como todo o homem. Qual é a novidade?»

Ib, p. 354

Não é, visivelmente, a obra completa, mesmo considerando que se restringe aos anos que vão de 69, ano da publicação de A noite e o riso até à morte do Nuno Bragança.

Estou firmemente convencido de que estará para sair um segundo volume, talvez com o restante da obra literária se, por exemplo, no Jornal Encontro, da então Juventude Católica, houver outros textos a pedirem urgentemente para serem recolhidos.

Mas, o Nuno Bragança foi ainda colaborador de jornais, escreveu crónicas, por exemplo, para o Jornal do Fundão. E os textos com que colaborou na revista O Tempo e o Modo, de que foi um dos fundadores? Certamente que merecem publicação aos olhos da renovada Dom Quixote. Não posso crer que a Editora, que pertence agora a um mega-grupo editorial (daqueles de que fala o João Aguiar em O priorado do cifrão?) se limite a aproveitar o que está mais acessível para fazer um lucrozinho fácil.

Se está encommendado estudo sério sobre todas essas escritas e se a Dom Quixote tenciona publicar esse livro - pelo qual nós lhe ficaríamos eternamente gratos - então porque não decidiu a editora escrever honestamente que neste primeiro volume se coligia apenas a obra literária? E porque não se anuncia desde já o adiantamento que leva já esse estudo e, vá lá, uma estimativa do tempo que demorará?

Posto isto: já foi bom que alguém se tenha lembrado de reeditar aquilo que já não era fácil encontrar pelas livrarias e alfarrabistas. O resto, paciência, irmãos: um dia há-de chegar.

quinta-feira, março 19, 2009

sexta-feira, março 06, 2009

Still looking for Aka II

Aka achou engraçada a instalação feita de pequenas peças de mármore, vidro e metais e deu um piparote numa bolinha que partiu pelo tabuleiro fora fazendo vários plins.
- Desculpa ter-te estragado a teia - disse ela à aranha pequenina que fugia espavorida das peças em movimento.

terça-feira, março 03, 2009

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIII)


- Aia - chamou Aka, em voz baixa, meditativa. - Podemos ir Nova Iorque?
- Não. Porquê?
Aka não respondeu.
Em vez disso, argumentou:
- Podíamos ficar em casa da Tia Louella. Mesmo que fosse só por dois ou três dias. O Tio Abraham ainda é representante no FMI, acho eu. Era quase só o dinheiro para o avião e para os taxis.E podíamos ir naquela classe, tu sabes, a menos cara.
- Seríamos um embaraço para o pobre Abraham, Aka.
- Mesmo que fosse só ir e voltar no voo seguinte? Cinco ou seis horas bastavam, Aia.
- Aka! Bastavam para quê?
- Para irmos ao Metropolitan Museum.
- Não me parece mal. Mas em cinco horas é um disparate, Aka. Se queres, para o ano que vem podemos passar um par de semanas a visitá-lo.
- Mas Aia, depois podemos pensar em ver tudo o que tu quiseres. Agora era só ver uma coisa e voltar.
- O que é que tu queres ir ver?
- A Petite danseuse de quatorze ans.
Este livro idiota conta a história de um jovem poeta que vai passear ao Jeu de Paume e apaixona-se pela Danseuse.
Fui ao Jeu de Paume e os Degas já lá não estavam.
Fui ao Orsai e a escultura não está lá, não sei porquê.
De qualquer maneira é só a porcaria de uma cópia.
Em Nova Iorque há outra um bocadinho diferente.
O original, foi um asiático qualquer que o comprou há pouco tempo .
Achas que foi aqule amigo do Pai, o Georges Eduard Fu?
Há dois anos comprou um Rembrant e já tinha outros quase tão caros.
- Aka, não faço ideia nenhuma.
De qualquer maneira, se não temos dinheiro para ir a Nova Iorque, a Hong Kong ainda menos. Vamos lá para o ano, se daqui até lá não te esqueceres.
- Para o ano já não quero ir.
Já não tenho catorze anos.
O tempo não pára, Aia.
Não é estúpido?
-
- Sabes, Aia? Afinal já não é preciso ir a Nova Iorque.
Podiamos ir só a Londres, à Tate.
- Talvez. Não vejo porque não.
De qualquer modo, telefonei ao marchand do teu pai que é um homem amável.
A escultura que tu queres ver está de volta ao Orsai no fim do mês que vem.
Esteve emprestada no Brasil, acho eu.
Não sei bem onde é São Paulo.
Mas são tudo cópias, Aka.
Podes ter uma se quiseres, disse ele.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Quem pensa não casa (I)

Se me perguntassem - mas neste país ninguém pergunta nada; já toda a gente sabe tudo - eu diria que não tenho nada com isso. E acrescentaria que, apesar de tudo, não desgosto, uma vez por outra, de meter a foice na seara alheia.
Honestamente, tenho de declarar desde já: acho um disparate as pessoas quererem casar-se. Apaixonar-se, amar, estar de casa e pucarinho com as pessoas de quem se gosta, tudo bem. Cuidar dos filhos quando os haja, claro. Eu diria que é assim mesmo, se a expressão «assim mesmo» significasse alguma coisa. Aqui na minha terra diz-se que «é o que pertence».
Mas casar?
Francamente, eu acho que é como as mulheres poderem ir à tropa. Têm todo o direito.
Mas, como eu sou um anti-militarista convicto, custa-me a perceber porque diabo hão-de as raparigas desejar exercê-lo.
Com os homossexuais é o mesmo. Concordo que têm direito a casar. Se o devem exercer, é outra conversa, mas cada um é que sabe de si.
E pronto: vamos até que sejam todos heterossexuais.
Porque não hão-de casar com uma pessoa do mesmo sexo? Não terão relações sexuais, não lhes apetecerá, talvez. Mas cozinharão belas refeições juntos, discutirão livros que leram, os filmes que viram e podem ir para os copos, adoptar um puto, educá-lo, responsabilizar-se por ele. Afinal, não é a própria Igreja que afirma destinarem-se as relações sexuais apenas à procriação? Ora se eles não tencionam procriar...
E nada obsta, também, a que cada um por seu lado tenha uma amiguinha... ou tenham todos a mesma. E até podem convidá-la para casar com eles. Porque não? Era só criar uma figura nova nessa coisa de fazer leis: partilhar um casamento já existente, como se admite um sócio novo numa empresa já constituída.
Salta aos olhos, claro, que essas pessoas, heterossexuais ou não, dispõem já de instrumentos jurídicos para se juntarem e para resolverem as questões que sobrevenham. Para quê, então, produzir legislação especial?
Não sabendo nada de direito, julgo que, reguladas as relações mais banais, os legisladores tenham de acautelar as situações em que um ou mesmo ambos os contratantes se encontram numa situação, digamos, perturbada.
O casamento moderno assenta numa forte emocionalidade que vai, frequentemente até à paixão.
Do mesmo modo - ou semelhante - as pessoas com perturbações mentais ou de alguma forma diminuidas na capacidade de se determinarem mereceram a protecção da lei.
Os casamentos, portanto, de há anos para cá, foram alvo da atenção dos legisladores que consideraram insuficiente a tradição religiosa e a autoridade dos pais.
Por isso, por muito que me custe admiti-lo, acho que as uniões homossexuais e todas as outras formas de, por razões emocionais, viver de casa e pucarinho, têm de ser consideradas casamentos e defendidas pela lei.
Disse.

sábado, fevereiro 21, 2009

O Carnaval do Magalhães

- Isto agora dói um bocadinho.
Mas vocemecês nem queiram saber o carro alegórico que vai dar para o ano.