terça-feira, dezembro 02, 2008

Subsídios para o livro de Aka (III)

Havia gravuras ao longo das paredes dos longos corredores.
Algumas eram de Goya, Aka nunca descobriu se eram originais ou cópias de cópias.
Quando o Núncio fazia os seus discursos, copiados, esses sim, de cópias já antigas,
e todos concordavam que sim,
que cada vida humana era única, preciosa e irrepetível,
Aka lembrava-se dos mortos e das violações encaixilhadas,
dos pássaros de pesadelo,
dos fuzilamentos, dos canhões, dos corpos estilhaçados
em molduras doiradas e vidros anti-reflexo.
Pensava:
- Ninguém devia poder dizer que a vida é um dom precioso
antes de ter tentado vender preservativos furados em Covent Garden.
E recitava, de si para si:
- A pound dear father is the sum that clears the wicket.
Mas, claro, não dizia nada.
Não era suposto que uma virgem,
real ou suposta também,
soubesse das coisas que ela tinha para dizer.
O mundo, achava Aka, abusava dos supostos.

sábado, novembro 29, 2008

A Itália também não...

" Italy is not a democracy. It’s a telecracy, an oligarchy, a mafiocracy. All of these together, but not a democracy. The citizens cannot elect their representatives. So it is not an elected democracy. The citizens cannot participate in public decision making. So it is not a participatory democracy. The citizens have no right to be informed. So they cannot make decisions. But if citizens cannot elect or participate or be informed, what is left? "
23 de Novembro,
Democracy or not

quinta-feira, novembro 27, 2008

- Grande arrelia, caramba!

"O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!"
Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras

terça-feira, novembro 25, 2008

Nada na manga


- Nada numa manga!...
Nada na outra!...
Nada no BCP!
Nada no BPN!

segunda-feira, novembro 24, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (II)


No Louvre, em frente da Vénus de Milo.
- Sou mais bonita. - pensou Aka.
E acrescentou com melancolia:
- Mas nela vê-se muito mais.

Subsídios para o Livro de Aka (I)


Aka, aliás, Aliás.
Ou outro nome, talvez.
Aka, como Deus, tem mais de mil nomes.
Aka viaja.
- O mundo é como que um espelho partido em muitos bocadinhos. - disse ela para a sua Aia. - Em cada um deles é a nós mesmas que vemos. Achas que eu podia dar a cada fragmento um dos meus nomes? Era como se fosse outra em cada lugar que visito.
A Aia não despegou os olhos do catálogo.
- A este sítio, que nome darias?
-Não sei. Paris, por exemplo. Que achas?
- Só se fosses ainda mais vaidosa do que és. - retorquiu a Aia secamente.
- Para que serve então ter tantos nomes?

quinta-feira, novembro 20, 2008

segunda-feira, novembro 17, 2008

domingo, novembro 16, 2008

O Priorado do cifrão

... incongruentemente,
a imagem de um carvalho vetusto,
de largo tronco nodoso,
a despedir-se da folhagem, no Outono.

pags. 154, 155


O priorado do cifrão, da Porto Editora, é o mais recente livro de João Aguiar.
Tem por tema a escrita e a autoria, mas na sua vertente editorial. Por tese, a morte anunciada do autor, figura dispensável e perturbadora das conspirações editoriais.
A intriga não é muito complexa.
Miguel Souto Campos, a personagem principal do livro, é um não muito credível jovem editor da Codex 3, uma casa editora pertencente a um enorme grupo multinacional. Aos vinte e cinco anos sabe latim, ouviu falar de Gibbon e tem um sono desassossegado depois de ter feito amor com a menina mais cobiçada lá da empresa. E bebe chá! Sem querer e sem grande vocação, torna-se o herói de uma paródia ao Código de Da Vinci, de Dan Brown.
Diga-se num parêntesis: já estamos habituados aos livros que, volta e meia, inundam o mercado, colonizam o gosto e, quando os editores têm sorte, inauguram um género.
Tolkien é um dos melhores exemplos, tal como J. K. Rowling ou, para mal do nossos pecados, o próprio Dan Brown, caricaturado por João Aguiar.
Por vezes, como aconteceu com O Senhor dos anéis ou com a saga em sete volumes de Harry Potter, os livros são bem escritos e, embora discutíveis como tudo na vida, engendrados com imaginação e gosto.
Mas outros e talvez melhores exemplos podiam ocorrer-nos.
Deve haver quem ainda recorde o êxito espantoso de O despertar dos mágicos, de Louis Pauwels e Jaques Bergier e da quantidade de sequelas que suscitou. Choveram nos escaparates mistérios da Ilha de Páscoa, segredos dos Templários, enigmas das pirâmides, discos voadores, terceiras visões e poderes da mente... Tudo coisas que, no geral, não resistiriam à mais elementar crítica, mas que se apresentam como ensaios bem documentados, citações de supostos cientistas, imaginárias testemunhas, textos sagrados - de que ninguém viu os originais, claro.
São, regra geral, livros de ficção e de entretenimento que, para mal dos nossos pecados, não se apresentam como tal. Como João Aguiar chama a atenção, não são livros, na antiga acepção da palavra; nem são obra de alguém: são meros produtos para o mercado; o autor, por muito sucesso que tenha, é, também ele, um consumível; pode facilmente ser substituido por outro que aplique a mesma receita para o sucesso.
Bom mesmo será o desaparecimento dessa incómoda figura que é um escritor, regra geral orgulhoso, ciumento da sua independência e com direitos de propriedade sobre a obra.
O ghost-writer, ou melhor, uma equipe deles, virá, mais cedo ou mais tarde, escrever o texto da obra de um escritor fictício, produzido por uma multinacional da edição. Actores profissionais representá-lo-ão em entrevistas filmadas sempre que fôr preciso - e em pessoa na cerimónia do Nobel.
É nestes ambientes um pouco tenebrosos que decorre a aventura do jovem editor Miguel Souto Campos, um ingénuo incompreensivelmente promovido no seio da organização inimiga, um inocente perseguido a tiros felizmente falhados pelas ruas, o desajeitado favorito das secretárias simpáticas e o protegido de misteriosas potências que se não desvendarão até ao fim do livro.
Como o próprio João Aguiar resume, pela voz de uma personagem:
«... Se não soubéssemos o que sabemos, dir-se-ia que há um assassino, um único e sinistro assassino, decidido a matá-lo. Só que... falha sempre! Quer por azar dele, quer por falhas de execução, falha sempre. E você vai andando, mais ou menos impassível, enquanto o assassino pragueja e protesta: merda! Falhou mais uma vez! Palavra, é de comédia negra. Ou melhor ainda: desenhos animados...» (pag. 334)
Nós, aqui no Portugal, Caramba!, estamos em concordar com o resumo. E até acrescentávamos que é no que dá parodiar um mau romance, como o de Dan Brown. Mas foi a opção do João Aguiar. Permitiu-lhe revisitar o Adriano Carreira, a Sara e o Frederico, personagens de A catedral verde e satisfazer um gosto antigo pela novela policial.
Nada a dizer, se não que continuamos a preferir os Diálogos das Compensadas, ou o Navegador solitário.

quinta-feira, novembro 13, 2008

quarta-feira, novembro 12, 2008

Sempre é melhor do que nada...

George W. Bush mostra-se, finalmente, preocupado com o que os historiadores vão escrever a seu respeito e declara-se arrependido de algumas das coisas que disse ao longo dos seus dois mandatos.
Nós achamos bem. Mas há um pormenor que nos escapa: ele só se arrepende de «algumas coisas» que disse? De «algumas»?
E das que fez?
Nem uma?
Não será pouco?

sexta-feira, novembro 07, 2008

Obamocepticismo

Não sei bem a quem devemos pedir que nos perdoem por, aqui no «Portugal, caramba!», sermos Obamocépticos.
E não é por causa do próprio Barack Obama, que, por tudo o que de si mostrou, nos mereceria o benefício, mais do que da dúvida, da confiança.
Mas a crença, o optimismo, fazem-se caros.
Não vêm quando os chamamos.
Também gostaríamos de acreditar em Deus e sabemos que, provavelmente, não existe. No entanto, por vezes, como qualquer desesperado em desesperadas situações, também rezamos.
E gostaríamos de acreditar que sim, que a partir de agora, tudo vai mudar, que nunca mais haverá bombardeamentos cirúrgicos, nem guerras preventivas, nem danos colaterais. E também que vão acabar de vez as «guerras das estrelas» e os «escudos anti-míssil» (e já não ousamos rezar sequer para que acabem os próprios mísseis...)
Gostaríamos de acreditar que uma nova convenção de Genebra vai ser assinada também pelos EEUU e que os exércitos de mercenários disfarçados de empresas de segurança vão ser proibidos; que os criminosos de guerra, pertençam ao lado a que pertencerem, seja qual for o Departamento de Estado que os recrutou, irão ser julgados em tribunais suficientemente independentes. E não pedimos já, nem a Deus nem a Obama que os responsáveis pela morte de Allende, pelo esmagamento do Chile, os Henry Kissinger e os outros todos, sejam julgados pelos seus crimes. Nem pedimos que George W. Bush, Rice, Rumsfeld ou Cheney compareçam diante de um qualquer Grande Júri para dar conta dos seus actos.
Mas talvez um pequeno milagre nos fizesse acreditar, ao menos, um pouco: se o ainda Senador Obama, mas já Presidente para a maioria dos americanos, exigisse, de imediato, sem hesitações nem argumentos, o encerramento de Guantanamo e a entrega de todos os prisioneiros, reintegrados nos seus direitos de seres humanos, aos tribunais civis. Já!
Talvez então, a fé acontecesse.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Sem título

- Meu Deus! E agora?

Insultos

Bem sabemos que ter inveja é muito feio. Mas, haverá alguém, neste mundo pequeno e mesquinho, que não inveje a veemência do Capitão Haddock?
Alguém tem sugestões? Aqui ficam umas quantas. Espero que vos sejam úteis no caso de o vosso favorito nas eleições americanas não chegar à Casa Branca.
- Pé rapado, badameco, sarnoso...! Policarpo, carmelita, capa-grilos, borbulhento! ...Trampolineiro, caramelo, beldroega. Sicofante, aventino, insecticida... caçador, bardagoso, sapa-gato, filomeno! Mal-cheiroso, infeliz, patarata, pendureza, tricotim!

sexta-feira, outubro 31, 2008

quarta-feira, outubro 29, 2008

domingo, outubro 26, 2008

Um cadáver requintado

***
Mário-Henrique Leiria, Pas pour les parents, 1951, Inédito, Colecção Cruzeiro Seixas


Ver mais aqui.

sábado, outubro 25, 2008

Depoimentos escritos

Depoimentos Escritos, contos, poemas e cartas de amor,
Editorial Estampa, 1997
Sem data (provavelmente Out.-Nov. de 1961, de S. Domingos de Rana):
«Maruska bonita
Toma lá mais três "apontamentos". Creio que esta solidão me trouxe um apuramento de memória. As recordações começam a estar todas exactas e presentes. Vivo com fantasmas, não há dúvidas.
Tudo o que aí tens existiu.
Uma despedida amarga... Verão de 1960.
Dois momentos em Espanha... 1939. Dezasseis anos heróicos e estúpidos. O Henri do bigodão ainda deve existir e chama-se mesmo Henri. Estive com ele em Paris, em 1957 (que saudades do que eu, nessa altura, acreditava!). (...)
Querida menina do rostozinho eslavo, guarda isto contigo e um dia diz-me qualquer coisa. Espanha, três da tarde, cinco da tarde, de dias bem diferentes... Depois, Santa Apolónia... É para rir...
Vénia fantasmagórica do solene e irónico
...e sempre teu, claro
Mário-Henrique»
pag. 119
S. Paulo, 12/1/1963:
... «Tive aqui uma proposta divertida para resolver a minha situação de fora-da-lei. Um camarada uruguaio propôs-me o seguinte, depois de ter consultado gentes da terra dele: eu iria ao Uruguai e lá, em 15 dias, camaradas fixes arranjavam-me documentos de cidadão uruguaio. Ri-me francamente com a história. Achas-me com cara de "......... del Uruguay"? Se eu tivesse querido, já tinha tido duas oportunidades de mudar de nacionalidade: ou cidadão francês, ou soviético, que qualquer das duas seriam muito mais interessantes para mim do que ser um idiota uruguaio. Não, Isabelinha, nós nascemos naquela saudosa merda e a ela temos que pertencer até ao fim. Lá vivem os nossos operários, os nossos camponeses, por esses temos que lutar até que eles possam sorrir e ser homens livres e autênticos.»...
pag. 244
Carcavelos, 25/11/1973:
... «Quanto ao meu livro (*), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»
pag. 303
(*) Trata-se dos Novos contos do gin

segunda-feira, outubro 20, 2008

O Mundo inquietante de um anarco-surrealista



1
Escrevia-se em transe, quase como que para lá da vontade, do dilema de Hamlet, das imposições de Lulio. Tudo e o seu contrário, a lógica do sonho, do inconsciente libertado pela fantasia que nada amarrava: o real é um "cadáver" requintado, "esquisito", ressuscitado em noites gloriosas, ali ao Rossio, no Café Gelo.

2
De largo iam os bem pensantes: havia um regime autoritário, é certo, uma polícia política, tinha de ser, uma Guarda que escoronhava a torto e a direito.
Aqui ao lado, porém, já tinha passado uma guerra civil e, por essa Europa, uma guerra mundial. Por cá, Graças a Deus, não se passava nada: a Pátria estava salva. Podia tolerar uns desmandos de meninos da boa sociedade, como o Cesariny. Vindo de Paris, tinha inventado grupos surrealistas - a que pertencem, por exemplo, o O'Neil, o Cruzeiro Seixas, o António Pedro e, claro, também o Mário-Henrique Leiria. Um pouco mais longe moravam os neo-realistas. Toleravam-se, nem sempre amigavelmente, mas concordando todos facilmente em que era preciso derrubar o Estado Novo. Só se discutiam os caminhos para lá chegar.
A luta pela consciência começa onde? E qual é o papel do Artista?
A subversão pela liberdade da imaginação, pela destruição dos sentidos aparentes, pela ironia - é o caminho que escolhem O'Neil, por exemplo, e também Mário-Henrique.

3

No ano exacto em que as colónias, perturbando gravemente a pátria beatitude, se insurgiam, o Mário-Henrique foi preso. Já tinha sido expulso, em tempos, da Faculdade de Belas Artes. Abandonou o Gêlo e foi por esse mundo fora: encontrou no Piauí, "seis mil quilómetros mais longe e vários anos distante, quando bebia uma cachaça", aquele isqueiro que lhe tinha dado a mulher. Concluiu que "realmente os mistérios não são uma coisa assim tão complicada".
Seguiram-se as Lutas Académicas, as manifestações do 1º de Maio, greves, emigração a salto, deserções.
Os répteis de serviço do salazarismo inventavam sonoridades: os surrealistas não tinham o exclusivo da escrita delirante. As nossas caravelas não se deixavam «arrastar pelos ventos da história» e, «orgulhosamente sós», «Portugal uno e indivisível» «só chorava os mortos», porque os «vivos, a soldo de Moscovo, os não mereciam ».
Alguns Casos de direito Galático foram sendo publicados no jornal República. Mário-Henrique Leiria estava de volta. E em Março de 1973 sai o volume dos Contos do gin-tonic. Meses depois, em Dezembro, os Novos contos do gin rematavam com uma "Contabilidade final":
"Parece mentira, mas ainda não recebi os rublos moscovitas. E esta, ein! Só tenho coisas que me ralem".
4
Os amigos que ainda têm os livros do Mário-Henrique Leiria têm outros amigos que vão e vêm, que levam livros emprestados, às vezes não os devolvem. Os editores não querem saber e não os reeditam.
A Imprensa Nacional tem mais que fazer.
Não há ninguém que faça a edição crítica das obras completas deste singularíssimo anarco-surrealista?
***
PS.
Talvez porque o surrealismo do Mário-Henrique Leiria tivesse bastante menos a ver com o Breton do que com o Robert Desnos, aqui fica
Le Pélican

Le Capitaine Jonathan,
Étant âgé de dix-huit ans
Capture un jour un pélican
Dans une île d'Extrême-orient.

Le pélican de Jonathan
Au matin, pond un œuf tout blanc
Et il en sort un pélican
Lui ressemblant étonnamment.

Et ce deuxième pélican
Pond, à son tour, un œuf tout blanc
D'où sort, inévitablement
Un autre, qui en fait autant.

Cela peut durer pendant très longtemps
Si l'on ne fait pas d'omelette avant.

terça-feira, outubro 14, 2008

Um raio de luz na cornija da lareira

Pois!
Há dias em que é melhor nem falar.
Corre tudo mal.
A bem dizer, correr, o que se chama correr, nem corre. Empastela-se. Espalha-se ao comprido e, depois, arrasta-se cheia de mazelas, a coxear.
E há outros em que só as visitas nos salvam.
Como esta que sabe Deus onde mora, mas veio até cá, passou a tarde na cornija da lareira e depois foi-se embora.
Pode ser que um dia volte.


[Tenho uma secreta esperança de que tenha achado o ambiente sossegado e acolhedor e que já esteja instalada no armário da cozinha - ali junto aos pacotes de açúcar e ao óleo de fritar batatas, que é onde ninguém a vai incomodar.]

quarta-feira, outubro 08, 2008

Coisas que é melhor não dizer

A Voilá acha que eu sou ciumento e eu não a contradigo. Como diz a Avó, nunca se deve desiludir mulheres bonitas.
Mas não foi só por isso, claro, nem por causa dos ténis que não combinavam com a cor do smoking.
E até, quando ele classificou não sei-o-quê como um filme «de culto», eu deixei passar.
Mas, quando disse, pela segunda vez, que fulano era «um ícone da nossa cultura», eu, pura e simplesmente, não aguentei: liguei o sinal de alerta disfarçado no braço da cadeira D. José.
O Tião Medonho surdiu de trás do reposteiro com a Remington 24E long e pás!
Três tão exactas como de costume: a primeira, uma mão travessa abaixo da clavícula direita; outra centrada, a perfurar o esterno. E a última, à esquerda do umbigo, numa tripa qualquer.
A Voilá zangou-se por causa do copo de vinho entornado na toalha de renda.
Mas há coisas, realmente, que já não se podem ouvir.
Telefonei ao Mário-Henrique a agradecer.
Os amigos são uma coisa preciosa, é o que diz sempre a Avó.

terça-feira, outubro 07, 2008

A Metafísica é uma arma ...


Manipansicas 1

Penso panso, manipanso,
manipanso Malpertuis.

Panso penso, manipanso,
Moi je pense, donc je suis.
João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

segunda-feira, outubro 06, 2008

sexta-feira, outubro 03, 2008

Lido por aí

Com a devida vénia:

«Outra curiosidade é que o valor mais importante transmitido ao longo dos episódios é o da honra. Hoje em dia seria impensável fazer uma série em que o aspecto mais relevante fosse a honra, poderia ser a lealdade, a coragem, mas a honra está a cair em desuso e tanta gente já nem sabe o que isso é.»


Em http://holehorror.blogspot.com/2008/10/lixo-televisivo-e-honra.html, a propósito de antigas séries televisivas.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Marketing agressivo ou falta de chá?

.
- Oi, ganda maluco! Tá-se bem?
.

Acreditam?
O meu novo computador passou-se e desatou a tratar-me por "você"!
Não sei quem foi a gentil empresa que achou que era fixe tratar-me assim, como se estivesse em casa do seu sogro. E logo a mim, que, de pequenino, ouvi dizer que «Você é estrebaria...»
Mas deve ser uma nova técnica de marqueting agressivo.
Ou então, pronto: é o Português do Brasil, mesmo se, acredito, por lá também sabem dizer Senhora e Senhor.
Mas há pior.
A TMN, por exemplo, também acha bué da cool rematar as mensagens que me manda com um descontraído «até já».
Até já? São parvos? Acham que eu sou da idade deles?
Eu sei que já não se usa o tradicional «de V. Exª. atentos, veneradores e obrigados», mas daí ao à vontade de um «até já» parecia-me ir alguma distância.
«Os nossos cumprimentos», por exemplo, talvez exigisse mais uns caracteres, mas era educado.
Até mesmo não pôr nada seria preferível. E que tal apenas «obrigado»?
A mensagem que me mandaram hoje ficaria assim: «com este carregamento acumulou X pontos. Para consultar saldo ponto t (actualizdo cada 24h) envie SMS gratis c/'pontos' para 12096 ou va http://www.tmn.pt/. Obrigado.»
Enfim, não seria o cúmulo da educação. Mas já era aceitável, sobretudo se se lembrassem de que, no português, de Portugal como do Brasil ou de Cabo Verde e Timor, há acentos que se podiam pôr em «grátis» e «vá». E também há virgulas, sabiam?
Mas não. Em vez do simples obrigado, a empresa permite-se acrescentar: Ate ja. Também sem acentos, claro.
São analfabetos, dir-me-eis.
Não, não creio. São malcriados, pronto.
Mas, há mais.
Não é que a mesma TMN se autoriza o envio de mensagens como esta: «Habilita-te ao CD do filme Mamma Mia! Personaliza o sinal de chamada com musicas do filme....»
Acentos, claro, também não há.
Mas, sobretudo, não me lembro de ter autorizado quem quer que fosse a enviar-me esta publicidade obviamente não solicitada.
E muito menos a que um bando de nem-sei-que-lhes-chame analfabetos me trate por tu.
Sabem que mais?
Acho que os mentores desta agressiva campanha de marketing se inspiraram naquelas senhoras que dantes nos convidavam a telefonar para as linhas eróticas e diziam com voz doce: «Mi liga, vá... »
Acreditam?

sexta-feira, setembro 26, 2008

Projectos para o futuro

- Temos de nos lembrar de mandar arrancar esta alcatifa.

quarta-feira, setembro 24, 2008

«Injecções extraordinárias de liquidez»


Se ainda não perceberam o que aconteceu àquele pastel todo que eles, segundo fontes bem informadas, andaram a ganhar nas bolsas, o Portugal, Caramba! pode adiantar que a culpa se afigura como sendo do colisionador de hadrões que recentemente foi inaugurado na Suiça.

Estamos recordados de que, de acordo com os cientistas do CERN, o destapar de um buraco negro era uma possibilidade negligenciável. Não terá sido assim.

Segundo alguns financeiros, a entrada em funcionamento do gigantesco acelerador abriu uma singularidade no mercado de capitais, a qual se terá alegadamente constituido num autêntico sorvedouro de liquidez.

Tanto a Reserva Federal como o Banco Central Europeu estariam a estudar a constituição de uma comissão conjunta de inquérito para determinar o fundamento destas alegações e levar diante da justiça os eventuais culpados.

«Os cientistas que paguem a crise», declarou uma fonte próxima da do Colégio de Reguladores da Euronext que pediu o anonimato.

Fontes contactadas pelo Portugal, Caramba!, no entanto, consideraram que estas acusações podem ter resultado apenas da confusão entre o "acelerador de hadrões" que pertence, de facto, ao CERN, e os vários "aceleradores de ladrões" que se têm vindo a constituir à sombra dos grandes bancos de investimento.

sábado, setembro 20, 2008

terça-feira, setembro 16, 2008

quinta-feira, setembro 11, 2008

Francisco Moita Flores


O Portugal, Caramba! confessa: o Dr. Flores tem razão.
Pelo menos este blog incita mesmo à desobediência civil; não respeita as grandes figuras do Estado.
Em calhando, até já serviu para o contrabando de explosivos sabe Deus para onde; para a venda de criancinhas e jovens brasileiras para as noites de Elvas e Bragança; para o tráfico de influências inconfessáveis e o corte de sobreiros.
E até, cúmulo da nossa vergonha, para a reciclagem de pitbulls esfacelados em lutas de cães. Para os restaurantes chineses, talvez.

terça-feira, setembro 09, 2008

Nova ética


Responda à seguinte questão atribuindo a cada item um valor de ordem nas suas prioridades.
«Em caso de ocorrer um tsunami, quem ou o quê salvava primeiro, sabendo que pode só ter tempo para um salvamento:
1 - o seu Pai
2 - o seu animal de estimação
3 - a sua Professora de Educação Física
4 - a sua Avó que está numa cadeira de rodas
5 - o seu ipod
6 - o seu irmãozinho pequenino
7 - o kit com a seringa
8 - a miúda do lado
9 - a Crítica da Razão Pura
10 - a sua Mãe.»
Se desejar, pode justificar a sua resposta.

terça-feira, setembro 02, 2008

This is a job for...

- Esta, sem dúvida Sancho, deve ser grandíssima e perigosíssima aventura, onde será necessário eu mostrar toda a minha coragem e brio.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Porque é que não aprendes?

- Pá! Já estragaste essa gaita, pá!
- Eu? Então porquê?
- Olha para isso. Tudo empastado, cheio de verniz...
- Bom, foi para ver se cobria o desenho, sabes...
- Cobrir o desenho? Para quê? Quando a gente não quer uma coisa, não a faz. Depois de feita, é para a frente.
- Pois, mas a tinta do desenho esborratou. Não sabia que os acrílicos dissolviam a tinta.
- Pois. É água. Se não querias que a tinta viesse assim ao de cima usavas lápis. Ou outra tinta, pá. O que falta para aí é tintas. Não fazias essa borrada toda.
- Olha, antes é que tu me havias de ter dito, tá bem?
- Digo-te agora. Raspas essa porcaria e começas outra vez.
- Pois, que remédio. Tipo palimpsesto.
- Hã? Tipo o quê?
- Pa-lim-pses-to! Eram os pergaminhos antigamente. Raspava-se a tinta e escrevia-se outra vez.
- Pois! É assim como a gente faz no Photoshop.
- É. Mais coisa menos coisa.

quinta-feira, agosto 28, 2008

terça-feira, agosto 26, 2008

Mails de férias

(Resposta a um convite para ir almoçar a Lisboa e percorrer depois, em passo descansado e facunda conversa, a Feira das Velharias de Belém)

Não, meu caro Sérgio, mesmo que hoje fosse a mais interessante das feiras do Relógio ou de Carcavelos, melhor ainda do que a da Ladra, hoje não me apanhavas em Lisboa nem por um decreto.
Amanhã é que a minha ida (com o perdão pela palavra má:) é bué da provável. Eu explico. Hoje de manhã apanhei um susto terrível.
O caso não foi para menos.
Os meus cães que dormem nos tapetes do meu quarto, um de cada lado da cama, devem ter ouvido ruídos de automóveis, vozes, gente a passar. Como sabes, moro num sítio isolado e esses gentis animais nossos amigos consideram que que se passa a menos de um quilómetro do portão é uma clara invasão do seu território. E vá de fazer um escândalo tal que me acordou espavorido.
Na altura, nem me lembrei do poema:
«Aos domingos é uma chiça/ só se fazem coisas tôlas:/ as putas vão para a missa/ os maridos, à caça às rôlas.» (1)
Mas, enfim, tudo isto para dizer que, completamente estremunhado, talvez mesmo em estado agudo de sonambulismo, lá fui tropeçando abrir a porta do quintal. Os cães saíram em grande grita e atropelo, espero que tenham dado alarme às três rolas que sobraram do ano passado e que elas tenham dito umas para as outras:
«Fosga-se! Porque é que estes gajos não se agarram uns aos outros em vez de nos virem fornicar a nós?»
E foi quando, sem querer, encarei com a minha própria imagem, a olhar-me do lado de lá do espelho, olhar vítreo, as pálpebras a meia haste como se estivessem a cumprir um luto nacional qualquer.
Em alturas destas não admira que nos ocorram as mais pitecantrópicas reflexões.
Para além das metafísicas, do tipo «então isto é que é a imagem e semelhança de Nosso Senhor?» e «é pá, além de velho, estás ficar feio como o caraças», surgiram outros pensamentos mais comezinhos (mas igualmente vãos) do tipo «amanhã vais a Lisboa e cortas essa trunfa toda a ver se ficas com melhor cara, òvistes
E pronto: as mais graves e solenes decisões da história da humanidade – por exemplo, quando o Hitler disse a si mesmo, «pá, bora invadir a Polónia!» – são tomadas com a mesma ponderação com que eu declarei: «Amanhã vais a Lisboa, cortas o cabelo e almoças com o Sérgio! Tá decidido!»
E pronto.
Receio que, ao receberes este mail, estranhes a linguagem em que vai escrito, desbragada e tão contra os meus cavalheirescos costumes. Mas tem uma explicação que talvez ajude a desculpá-la. É que todos estes graves acontecimentos ocorreram às seis da manhã. Imaginas? Quase de véspera!
Um abraço.
Tacci
(1) Linda quadra do João Bessa, se ainda te lembras.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Férias mais que tontas

Quando não se tem tempo para mais, abre-se a arca... e encontra-se esta singela homenagem à hoje tão esquecida Drª. Celeste Cardona.

sábado, agosto 16, 2008

Alô, experiência, 1, 2, 3: Rita Braga

Talvez não seja a maior cantora portuguesa.
Nós, aqui no Portugal, Caramba! até diríamos que não, embora, claro, admitamos que possa vir a ser.
O que nos interessa, francamente, é a personalidade: tem um percurso que vale a pena espreitar e tem um sorriso bonito. Não nos parece que seja sócia do vastíssimo clube dos Luso-depressivos. Diverte-se enquanto canta. E sorri.
Aleluia.

quarta-feira, agosto 13, 2008

segunda-feira, agosto 11, 2008

sexta-feira, agosto 08, 2008

segunda-feira, agosto 04, 2008

Alô, alô, experiência, 1, 2, 3, JP Simões!

I

Creio que vale a pena ouvir o JP SIMÔES.

sábado, agosto 02, 2008

Million dollar baby

Mata-a, mata-a! Pisa-lhe a cabeça!
De Espanha continuam a não vir bons ventos. No Verão são aqueles sopros quentes, ateadores de incêndios. No Inverno os frios secos, cortantes. Dos bons casamentos, isso cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor de todos.
Mas vêm outras coisas.
Algum dinheiro - é para lá que vai o melhor das nossas exportações - trabalho para os pedreiros desempregados, a Zara e o El Corte Inglês.
Mas também vêm desilusões.
Segundo o que o El País anteontem e ontem relatou, há dias, em Colmenarejo, uma cidadezinha de quase dez mil habitantes cerca de Madrid, uma rapariga deu uma tareia a outra.
Eram ambas adolescentes e, não fora a violência da agressão, com murros e pontapés na cabeça da adversária já caída, não fossem as companheiras da agressora aos gritos "mata-a, mata-a!" ou "pisa-lhe a cabeça" nada disto mereceria reparo. Era caso para os pais as pôrem de castigo e pronto. Assisti a muitas cenas destas quando era miúdo e andava no liceu.
A diferença está apenas em que éramos rapazes e elas são meninas.
Eu explico:
Durante anos seguidos, décadas até, fui um feminista.
Não sei se é muito frequente nos homens, mas o marialvismo da direita portuguesa, senhora do poder durante demasiado tempo, ajudou. Era arrogante na sua afirmação masculina, exibicionista na sua suposta superioridade testicular.
Talvez por reacção e, também, por falta de espaço para nos afirmarmos, muitos de nós aderiram outros grupos, a outros modos de pensar.
Saudámos a coragem da Fernanda Botelho, da Fiama e das «três Marias»; recomendávamos a Simone de Beauvoir às nossas namoradinhas e encorajávamos as suas pequeninas lutas pela emancipação da autoridade fálica dos papás.

O 25 de Abril mudou algumas coisas: trouxe o fim da segregação dos sexos nas escolas, por exemplo, trouxe a queima dos sutiãs e trouxe alguma liberdade sexual: as meninas com quem casávamos já não acreditavam tanto nas nossas juras de amor para toda a vida e, obviamente, seguiram-se muitas lágrimas, algumas dores profundas, muitas separações.
Mas os valores femininos pareciam ir-se afirmando pouco a pouco, apesar de algumas perplexidades.
É certo que houve o governo de Maria de Lurdes Pintasilgo, talvez o melhor de todos os governos desde que em Portugal se promulgou uma Carta Constitucional. E, talvez por isso mesmo, um dos mais curtos.
Mas as mulheres reclamavam, por exemplo, o direito de irem à tropa, seguirem uma carreira militar.
Pessoalmente nunca concordei. Julgava, na minha ingenuidade de anti-militarista, que a luta das mulheres devia ser a de acabar com a violência, a guerra, todas essas tretas que servem para subjugar, antes de mais, os próprios recrutados, os seus pais e irmãos, as aldeias onde nasceram e por aí fora. Nunca para serem elas próprias parte dessa máquina.
Claro, tínhamos herdado da cultura do pós-guerra o conceito de alienação e isso ia explicando as contradições quase todas.
Continuávamos a apreciar a peças de teatro onde se diziam coisas como estas:
(...)
Gaia - Não é uma questão de estado, Alboazar. Aquele que tem presa a víbora e a deixa à solta na escola, é responsável pela morte de uma criança. E não há razão de estado que leve alguém a deixar morrer uma criança.
Ramiro - Nesse sentimento se reconhece a mulher que é talhada para mãe e não para se ocupar com a sorte de um povo. Bem te conheço por essas palavras, Gaia.
Gaia - Estas são as palavras de uma mulher que não quer ocupar-se com a sorte de um povo porque sabe que a sorte de um povo é que ninguém se ocupe dele e o deixem ocupar-se de si mesmo. São as palavras de uma mulher que, se fosse obrigada a governar um povo, só governava para fazer como se faz a uma criança. Protegê-la de longe das víboras e dos lobos selvagens para que ela cresça livre e forte e se saiba defender sozinha quando eu estiver exausta de amor e quiser descansar. Mas é por isso que ninguém deixa as mulheres governar. A não ser quando elas são tão imbecis como os homens.
(...)
Era bonito.
Não sei como dizer de outra maneira: para um céptico como eu, era bom haver referências éticas independentes das opções políticas e filosóficas.
Havia um terreno sólido que a sociologia não refutava e que, aparentemente, pelo menos, era coerente com dados da antropologia e da primatologia.
Mas seria verdade?
Ou era apenas, ainda, escassamente adaptada, a imagem da mulher-mãe, doce conciliadora, que nos impingia a lenda da Rainha Santa? Que nos inculcaram com culto Mariano?
A pancadaria de Colmenarejo mostra que há uma agressividade feminina tão violenta e cruel como a masculina?

sábado, julho 19, 2008

Guerrilheiro Sentimental


Digamos desde já: este post vem a propósito da publicação de um livro, Guerrilheiro Sentimental, de Eurico Figueiredo.
Mas tornou-se mais complicado do que pretendíamos, quando, uma coisa leva a outra, começámos a pensar nas pessoas que admirávamos e, de um modo ou de outro, nos serviram de modelo. A geração da Crise Académica de 62, a que o Eurico Figueiredo pertence, por exemplo.
Quantas sobraram?
Quer dizer:
Roger Vailland, para quem não sabe ou já não se lembra, foi para a nossa geração, essa mesma que aprendeu a andar nesses anos, um autor de culto.
A expressão, hoje em dia, está tão desvalorizada que até às séries mais repugnantes da televisão ou aos filmes do Clint Eastwood se aplica.
Mas nós que frequentávamos as sessões dos cine-clubes, líamos Camus e Sartre e ouvíamos jazz com uma veneração talvez excessiva, tínhamos, de facto, um culto pelo autor de Drôle de Jeu e de Um homem do povo na Revolução. Vivíamos no regime sombrio de Salazar e os romances de Vailland ofereciam-nos um modelo de combatente clandestino menos miserabilista do que o proposto pelos funcionários do partido comunista.
Não foi sem alguma surpresa que soubemos ter Vailland decidido, já desde os finais dos anos cinquenta, apear das paredes o retrato de Estaline, abandonar o partido a que aderira durante a Resistência.
Não me lembro já da justificações para essas tomadas de posição. Fixei, no entanto, a jura que ele fez: nunca mais poria nas suas paredes o retrato de uma pessoa viva. Era uma coisa que fazia muito sentido para quem tinha de conviver com os retratos do Salazar e do Américo Tomás pendurados nas salas de aula, um de cada lado do Crucifixo(1).
E também nós jurámos a mesma coisa. Alguns tinham a Guernica, outros um poster do Che, mas só depois de o Che ter morrido. E o critério ficou. Quem poderíamos nós ter ter nas nossas paredes? E quem, se lá o tivéssemos posto, teríamos de apear?
Vi o Eurico Figueiredo, que me lembre, um par de vezes na vida. Empoleirado naqueles faraónicos calhaus com que o Estado Novo achava que se dava dignidade ao imenso portal da Faculdade de Letras de Lisboa, falava aos estudantes. Já tinha falado o Jorge Sampaio, não sei se o Medeiros Ferreira, nem me lembro já do que disseram. Não era muito importante: ousar falar em público, quando tínhamos todas as razões para acreditar que, no meio da nossa pequena multidão, havia pelo menos uma meia dúzia de de informadores da Pide, era já um acto heróico.
Devo tê-lo visto, depois disto, mais um par de vezes naquela a que depois se chamou a Cantina Velha e onde os estudantes iniciaram uma greve da fome.
Os anos foram passando, muitos, como ele, escolheram o exílio, outros foram à guerra ao "Ultramar" como o Abílio Teixeira Mendes.
Depois, o 25 de Abril aconteceu. E foi curioso ir observando as carreiras.
O Eurico Figueiredo escolheu ser médico, foi até à Assembleia da República duas vezes, creio, defendeu as suas posições com a mesma convicção com que falara das escadas da Faculdade de Letras, tantos anos atrás, foi contra a lei do aborto (o estafermo!) e não foi ministro de coisa alguma, nem da Educação, nem da Saúde. E agora dedica-se a produzir um vinho, o Solar do Prado.
O retrato dele, se o tivéssemos pendurado na parede junto com os da sua Geração, estaria a ficar muito sozinho. Mas teria resistido. Honra lhe seja.
E era o que queríamos dizer a propósito do Guerrilheiro sentimental, Estórias de Exílio, Campo das Letras, 2008. Leiam-no.
Vale bem a pena.


(1) Não resisto a citar a velhíssima piada do Cristo crucificado entre dois ladrões. Desculpem.

quinta-feira, julho 17, 2008

Nunca o invejoso medrou

Pablo Picasso, Jaqueline em trajo de turca, 1955 A inveja é a coisa mais inútil do mundo.
Às vezes é pena.

Faz-se noite de aquecer


4 Janeiro 2008

Fez-se noite de aquecer
No frio do Inverno imposto
E nas águas ansiadas
Caindo mal ajeitadas
Na ironia do sol posto
Sem palavras por dizer
Dormitando apaziguadas
Renasce o canto na utopia de crer...
-
Ana Maria Puga, Reticências

segunda-feira, julho 14, 2008

... do que cabeça de Sardina pilchardus Clupeidae.

2. Já não há exploradores e explorados?
a) O "capital", lembram-se? O que lhe terá acontecido?
Claro, capitalistas é capaz de já não os haver. O que há é "empresários", gente empreendedora que aposta na inovação (pelo menos uma vez por outra) e que procura financiamento nos bancos. Não está, regra geral, interessado em investir com capitais próprios que rendem juros confortáveis noutras aplicações.
Estes empréstimos, julga a gente, terão de ser aplicados de modo a remunerar os investimentos, remunerar o banco que financiou e, está bem de ver, o accionista desse mesmo banco. A acreditar nos jornais pelo menos, a maior parte das vezes é o próprio tomador do empréstimo (é assim que se diz?). E este, por sua vez, pode perfeitamente ser outro banco que também tem os seus accionistas. Ou os mesmos, quem sabe? Os jornais mentem tanto...
Nós, aqui no Portugal, Caramba!, não percebemos nada de economia; de finanças então, menos que nada. Mas parece-nos óbvio que, a ser assim, esta tão grande cadeia de "remunerações" a pagar pela transformação do ferro em lata, da lata em conserva de sardinha e de conserva de sardinha em almoço, só é possível se o custo desta transformação não tiver nada a ver com o preço a que a sardinha no prato vai ser paga.
Haverá alguém que nos explique como é que tudo isto é possível sem uma constante procura de «bolhas» especulativas como a do «betão» e, se calhar, como já foi a das «novas tecnologias»? E como vai ser, se Deus Nosso Senhor permitir, a da «energia»?
b) E o "proletariado"?
Se bem me lembro, dantes dizíamos que proletário era o trabalhador por conta de outrém, aquele que não pode escapar ao IRS, a menos que seja tão mísero e o seu contrato tão precário que nem sequer lhe exigem os recibos verdes.
Claro que isto não excluía, para os mais conhecedores de senhas e contra-senhas das nossas tertúlias, a existência de muitos trabalhadores assalariados (haverá diferença entre o salário e o ordenado?) que, não tendo consciência disso, julgavam pertencer à burguesia. Chamava-se-lhes um nome altamente insultuoso: pequeno-burgueses. E, mesmo não sendo beneficiários do "capital" e dos lucros chorudos que, supostamente, pelo menos, ia gerando, eram ferozes opositores de toda a mudança - excepto a que o "capital" ia apresentando como necessária, urgente e patriótica.
Tenho uma vaga noção de que «trabalho» era toda a acção humana através da qual algo apenas potencial se tornava actual. A ideia de uma casa, existente apenas no mundo ideal, passava a existir em acto pelo trabalho do arquitecto, do pedreiro, do electricista e do canalizador, do carpinteiro e do vidraceiro. Pelo trabalho, então, o que era ideal (os conceitos como o de vigas de ferro, tijolos e tudo o mais) juntava-se ao que era matéria bruta (hematites e pirites, argilas, etc.).
c) Ou seja: pelo trabalho, a Natureza humanizava-se. Ou, para estarmos mais próximos de Hegel, a verdadeira bête noire dos últimos dois séculos, divinizava-se.
Que "humano" é esse que o trabalho anda a realizar?
E que "divindade" é essa que, cada vez mais, se actualiza? É Deus? É Demónio? Ou já não há diferença entre eles?

sexta-feira, julho 11, 2008

Mais vale cauda de merluccius...

1. Como é que chegámos aqui?

a) Lá em casa, quando éramos catrainhos, brincavam connosco porque não se devia dizer "pescadinha de rabo na boca", mas sim "de cauda nos lábios". Nós, claro, não ligávamos muito porque os exemplos que vinham de cima não eram sempre do mais edificante.
Mas íamos ouvindo a história do senhor que tratava a empregada por "serva", o pequeno almoço era o "repasto matinal", a barriga era "os interiores" e por aí fora. Porém, uns amigos levaram-no a ver uma Revista (à portuguesa, claro) e, quando voltou, imagine-se: as pernas passaram a ser "gambias", o apetite passou ser "larica", tudo coisas ordinaríssimas para a altura.
E a moral da fábula não podia faltar:
- Já vêem: quando nos esquecemos de ser bem educados...
Não percebemos demasiado bem o que acontecia, mas ficámos com a ideia de que, no mínimo, Deus, Pátria, Salazar e Família, não haviam de gostar. A educação é uma coisa terrívelmente relativa, pelos vistos.
b) Vem isto a propósito do recente debate sobre o Estado da Nação.
O Portugal, Caramba! avisa desde já: não tem qualquer competência para decidir se este Governo está no bom caminho ou no mau, se a Maddie foi morta ou raptada, se a Drª Manuela Ferreira Leite é bonita ou nem por isso, quantos corruptos se sentam nos lugares do poder.
É claro que não deixa de ter as opiniões que tem, umas melhor fundamentadas do que outras. Talvez não fosse descabido, até, declarar desde já os seus ódios de estimação - por exemplo, ao pobre do Cavaco Silva - e uma ou outra preferência, não venham depois dizer que.
Por tanto, para que conste, por aqui somos contra o TGV Lisboa-Porto, mas a favor de uma ligação de alta velocidade a Madrid e ao resto da Europa.
Somos contra o novo aeroporto seja onde fôr e preferíamos que não cortassem mais o que resta deste pobre país com auto-estradas, sobretudo quando o seu destino, adivinha-se, será a sucata dentro de uns vinte, trinta anos.
Somos contra as privatizações e a alienação do património, embora nos repugne que os Monumentos Nacionais - ou a treta que o substituiu - deixe cair a Igreja do Colégio dos Jesuítas a Campolide, por exemplo.
Não é, porém, destas coisas que queremos falar.

c) Do que queremos falar, verdadeiramente, é daquilo que muita gente se pergunta neste momento: dantes tínhamos um país reprimido, atrasado e em guerra. Agora somos, supostamente ao menos, uma democracia. E, olhando em redor, perguntamo-nos: como é que chegámos aqui?É claro que este "aqui", se desdobra: há um «aqui» mero estado de espírito, feito de descrença e desilusão. Acreditávamos, estávamos, como dizem os nossos irmãos, "muy ilusionados". Ou seja: tínhamos espectativas e julgávamos que eram realizáveis. Falamos por nós, e damos como testemunhas os programas dos partidos políticos de então, a constituição que deles resultou.

Queríamos superar o nosso analfabetismo, a nossa incultura. Queríamos acabar com a miséria. Queríamos que nenhum português mais se visse forçado a procurar "lá fora" as coisas que "cá dentro" não alcançava e a que queria ter direito. Coisas tão simples como uma casa que não fosse só um telheiro, de chão em terra batida; que tivesse tecto e uma casa de banho, electricidade, água canalizada, esgotos... Coisas tão simples como dinheiro para chamar o médico e aviar a receita na farmácia... Escolas para onde mandar os putos, a ver se tinham uma vida melhor do que a nossa.

Queríamos aquelas coisas que começávamos a ver na televisão: um carro e um fato, sofás para ver o futebol com os amigos enquanto bebíamos umas cervejas.

Queríamos desodorizantes, sabonetes e champôs. Queríamos que os nossos filhos bebessem leite e não só sopas de café.
Invejávamos os americanos - ou o que supunhamos que eles eram. Raros de nós queríam ser como os russos: não sabíamos nada do seu sistema educativo, mas víamos que os seus automóveis eram francamente maus.
E achávamos que também precisávamos de liberdade.
Éramos pequeninas rãs, mas queríamos ser maiores do que o boi.
d) Mas também há um «aqui» que é geográfico, por assim dizer. Estamos neste canto da península e nem sequer temos a sorte da Turquia que se espalha por dois continentes e, por isso, pode escolher entre a Europa e a Ásia. Escolheu, pelo menos até ver, a Europa. A seguir talvez venha o Líbano que se pode gabar de ter vários milhões de cristãos. E depois, quem sabe, Israel, que não me parece que tenha muitos.
Nós, ibéricos, temos um pézinho em África. Os nossos irmãos aqui ao lado têm Ceuta e cercanias; nós temos a (alegada) língua de Camões. Teríamos tido, como os turcos, a possibilidade de escolher.
Podíamos ter embarcado na Jangada de Pedra do Saramago e atracado em África. Já viram como era bom para a nossa auto-estima? Em vez de estarmos na cauda da Europa, podíamos estar vanguarda da África.
Em vez de rabo de pescada, éramos cabeça de sardinha.
Mas, vendo bem, se a cabeça fosse a do António Sardinha, também não era grande coisa.
Mas rabo? Ainda que de pescada? Francamente!