terça-feira, janeiro 13, 2009

... e outros lugares muitos ...

- Aquilo, Senhor Deus, é a aldeia.
E aqui era a nossa casa.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Sem título

Rui Azul
(sax tenor)
-

Wolfram Mineman
(piano)

sábado, janeiro 03, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII)


O homem não soube como começar. Olhou o gerente que, com um sorriso desdenhoso, o mirava uma vez por outra.
A Aia não se dignava olhá-lo.
- Porque trouxe aqui esse indivíduo? - perguntou ela.
O gerente pensou que os olhos, do fundo do niqab, se riam deles.
- Quem me dera poder resistir a uma ordem da administração. - respondeu.
Era um filósofo.
A Aia, numa voz suave como uma lixa muito fina, ordenou:
- Diga tudo o que tem a dizer. Poupe-me os detalhes.
O homem, atabalhoadamente, falou em assinaturas, compras exorbitantes, dezenas de milhar de euros, falta de garantias.
- A menina em questão - explicou ele - ultrapassou os limites todos do crédito. Vossa Excelência compreenderá que tenhamos de tomar algumas precauções, ter a certeza de que não se trata de um abuso... ou mesmo uma fraude! Até para protecção dos próprios clientes...
- Que nome?
- Repare, não digo que haja...
- Que nome?
- Petra von Goethe ibn Sadar ibn Sadham, é o nome que a menina assinou. Mas não sabemos, verdadeiramente não sabemos, pode tratar-se de uma falsificação, compreende, ou assim...
- Se é o nome da princesa Petra que aí está, todas as facturas serão pagas. Falsas ou não falsas, não interessa. Pode retirar-se.
Abalado, mas com visível alívio, o homem deixou-se empurrar.
Quando a porta se cerrou nas costas dos intrusos, a Aia dirigiu-se à sala onde Aka, de djilahba negra e o rosto coberto, a olhava inquieta.
- Compreendes o que fizeste, minha pequenina?
- Ó Aia! Os meus irmãos podem partir bordéis inteiros, gastar reinos em Monte Carlo e o meu pai não diz nada. Não podes fingir que nada disto aconteceu?
- Sabes que não, Aka. Se não mostrarmos que sou capaz de te disciplinar, não podemos ficar
em Paris. Queres voltar para casa?
- Não, Aia, voltar não.
- Sabes que vintes chicotadas é o mínimo que os teus tutores aceitarão?
- Ó Aia, com muita força não...
- Não, com muita força não. Mas quanto mais depressa, melhor. Levanta o vestido.
O segurança de serviço ao circuito video, rebobinou vezes sem conto as imagens do chicote e do rabito de Aka enquanto se masturbava.
-
Ou, por exemplo:
- O meu nome hoje é Liddell, Aia, - disse Aka assim que os intrusos saíram.
- Alice Liddell.
Bebeu um gole de um licor doirado e voltou a poisar o frasquinho de cristal em cima da consola, antes de começar a diminuir de tamanho.
- Acreditaste verdadeiramente que aceitaríamos seguranças do sexo masculino a vigiar os nossos quartos, minha tolinha?
Mas Aka, com poucos centímetros, já se tinha sumido no interir da gaveta aberta e não respondeu.
-
Ou ainda:
- Aka! - chamou a Aia - Já chega! Sai desse armário imediatamente!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VII)

As horas correram num ápice: Aka saltitou de boutique em boutique.
Ignorou as joalharias.
Quando sentiu fome sentou-se num banco alto do bar e comeu um gelado enjoativo, mas com umas óptimas bolachinhas espetadas.
Saiu sem pensar na conta.
Antiquários e porcelanas interessaram-na.
Parou a ver um relógio de mesa, com uma pastorinha em esmalte, de longo vestido e um pequenino fauno com uns pequeninos chifres e minúsculos pés de cabra e que giravam vagarosos num bailado solene, de mãos dadas, dentro de uma redoma.
Depois, demorou-se a contemplar as T-shirts Monica Hikikomori.
A assistente aproximou-se cautelosa, para tocar muito ao de leve o tecido do niqab, observar as escravas que Aka se esquecera de tirar dos braços: na profissão aprende-se muito cedo a não confundir os guardanapos com os esfregões.
- São modelos únicos, pintados à mão e assinados - esclareceu ela.
- Talvez me deixem usá-las - murmurou Aka. E em voz alta, porque lhe tinham dito que não devia ser açambarcadora: - Há problema se eu levar estas todas?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Handle gently

Cuidado!
Bebé Ano Novo Armadilhado!

2009

Cuidado!
O Ano Novo vem aí!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

- Grande arrelia, caramba!

O «Portugal, Caramba!» tem estado ligeiramente empanado. Talvez seja de uns vapores festivos que lhe saem do motor, quem sabe?

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Pantaleão em rima livre


José Manuel Pedroso,
Pantaleão é nome de Capitão,
Chiado Editora, 2008
-
É claro que os livros não se medem aos palmos e que não seria por ser magrinho que este deixaria de ser interessante.
Mas, setenta e e duas páginas para falar do exército português em tempos de guerra colonial, da província de Moçambique com os seus colonos, o seus estilos de vida, setenta e duas páginas para falar de um aristocrático militar de carreira que recebe os camaradas de armas com "pratas, cristais e Mozart", que cita Os Maias ou O Estrangeiro do Camus, setenta e duas páginas, enfim, não são nenhum exagero de prolixidade.
E mesmo assim, algumas dessas páginas ainda se perdem em coisas inúteis, como a história do corvo, picada de O despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e que serve de prelúdio aos amores «até à náusea» entre o Alferes Soares e uma liberada Pitinha.
Diga-se desde já: este Pantaleão não é grande literatura, não inova na escrita, os recursos narrativos são pobrezinhos: circunstâncias merecedoras de algum fôlego são abreviadas com o recurso a relatórios, directivas, papeladas militares que só a concisão recomendaria. Os antecedentes do Capitão Pantaleão, natural de Loulé, a sua Mãe esquizofrénica e o seu Pai que bebe «copázios de aguardente de medronho ao pequeno-almoço e anda nu pelas ruas da aldeia a aterrorizar as poucas crincinhas», são despachados em menos de vinte linhas (pag. 16). E, no entanto, este Pantaleão está no cerne da intriga: serve-se do seu posto de oficial do exército para traficar diamantes e promove um massacre no interior do seu próprio aquartelamento para proteger o seu pequeno comércio.
De importante, o que este livro tem é a memória.
Primeiro, a memória de um clima, o de uma tropa colonial sem grande garbo, mais desenrascada do que patriótica, o de uma sociedade a viver a queda do império sem querer realmente saber do que se passa nas suas fronteiras.
E logo, o clima de todos os aproveitamentos em que, só dificilmente alguém escapava às mescambilhas: como se conta no livro, «um camião carregado de fardos para o Natal, tombou na estrada e o bacalhau desapareceu. "Acção terrorista da Frelimo (...), segundo o relatório." - Mas eis que todos os supermercados de Lourenço Marques a Nampula, viram as prateleiras vazias encherem-se de toneladas de bacalhau. Milagre? Nem por isso. As investigações conduziram ao saldo da conta pessoal do Major da Intendência, substancialmente aumentado."
E as investigações do Alferes Soares, dos serviços de Justiça Militar, irão conduzir-nos à rede de tráfico de diamantes sul-africanos, aos crimes do capitão Pantaleão.
Na contracapa, entre outras apreciações, encontra-se o testemunho do Alferes Miliciano de Cavalaria Carlos Vieira: "... eu estava lá, assisti e confirmo." Também ele esteve no Tete, em Moçambique, por alturas dos acontecimentos que dão corpo à narrativa. E confirma.
Que fique para memória futura.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (VI)

As oportunidades e as enxaquecas, às vezes, aparecem a quem delas precisa.
Aka não precisava da enxaqueca propriamente dita, mas achou oportuno que a Aia tivesse uma e preparou-se para o momento em que ela, completamente desesperada e cega de dor, tomasse o blister inteiro dos comprimidos e adormecesse no quarto completamente às escuras.
Então, pé ante pé, Aka ousou:
Tirou rápida o kain panjang com que disfarçava as calças compridas roubadas do vestiário do hotel, atirou-o para debaixo da própria cama e conseguiu sair sem bater a porta.
No corredor enrolou ao pescoço o lenço que lhe servia de niqab e procurou impaciente o elevador onde havia um espelho numa grande moldura doirada e onde poude ver uma rapariguita modestamente vestida, o cabelo depenteado, o rosto sem sombra de pintura.
- Mademoiselle deseja... - perguntou o ascensorista com uma pequenina vénia.
- Nunca. - respondeu Aka, sem desfitar o espelho. - Por razões religiosas, entre outras, percebe?
- Pardon? - disse o ascensorista, já sem vénia.
Aka reparou no tom da voz e corou. Corava com muita facilidade, nos últimos tempos.
- Descemos ao lobby - disse no tom áspero que aprendera com o Pai.
- Bien, Mademoiselle.
- É verdade que não devo desejar, - explicou Aka, já num tom mais gentil, enquanto desciam. - Mas nada me proíbe de ser voluntariosa. A vontade e o desejo são coisas diferentes, como sabe.
- Curioso. - comentou o ascensorista com o boné na mão direita, enquanto lhe abria a porta com a esquerda. - Nunca teria pensado nisso.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Mal amar


60º. aniversário da
Declaração universal dos direitos do Homem



Por iniciativa do Fenix ad eternum, neste dia em que se comemora a declaração pela ONU dos direitos do Homem, formou-se uma cadeia de solidariedade entre blogues de todo o mundo. Esta é a nossa minúscula contribuição; mas, como disse o ratinho, qualquer pequena gota conta... O nosso obrigado também ao Arroios pela dica.


...


O Homem é um animal estranho.
Soube dizer que Direitos tem e proclamou-os há já sessenta anos numa Declaração Universal. Soube, desde os seus primeiros filósofos, desde os primeiros guias espirituais, que deve amar o seu próximo como a si mesmo. Ou, na formulação de Kant, que deve agir de tal modo que a máxima da sua acção possa ser erigida em lei universal.

Sabe-o.

Mas não sabe quem é o seu próximo, não sabe que vai desde a formiga e o pardal até ao rio de terras distantes e à floresta tropical onde habitam gorilas.

Não sabe que o seu próximo é a Terra, com tudo e todos os que podem, mas não devem sofrer.

Nem sabe como amar esse próximo, mesmo que soubesse quem é, onde encontrá-lo.

Não sabe e tem medo de ter de saber: receia o dia em que já não lhe seja possível esconder-se atrás da retórica, que as palavras já não sirvam de balas, os microfones de cassetêtes. a surdez de escudo. Tem medo do dia em que alguém lhe peça contas dos bebés-foca assassinados à paulada, das raposas esfoladas vivas para fazer casacos de peles, das populações vítimas de danos colaterais em guerras absurdas.

Que fazer, hélas, quando o homem não quer a si mesmo, quando secretamente se odeia? Declarar o que queremos que venha a ser pode não passar de um começo. Mas então, comecemos, caramba!

terça-feira, dezembro 09, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (V)

- Odeio o nicab. - protestou Aka.
- Porque é que não me deixam tirá-lo, ao menos no quarto?
- Porque o teu pai exigiu câmaras de vigilância em todo o hotel
- repondeu a aia cheia de paciência.
- E nunca se sabe quem te está a ver.
Aka mordiscou o lábio inferior.
- Espero que quem quer que lá esteja aprecie o striptease.
Vou tomar um duche.
Felizmente que ainda não é interdito.
- Não - concordou a Aia.
- Só fazes quinze anos no ano que vem.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

sábado, dezembro 06, 2008

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (IV)

- As pregas do seu trajo
têm um cair muito sensual
- disse o cortejador.
Aka baixou os olhos e fez um meio sorriso, o que nela signifacava:
"Nem mereces que te mande abater pelo meu guarda-costas."
O cortejador achou que ela estava no papo.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Subsídios para o livro de Aka (III)

Havia gravuras ao longo das paredes dos longos corredores.
Algumas eram de Goya, Aka nunca descobriu se eram originais ou cópias de cópias.
Quando o Núncio fazia os seus discursos, copiados, esses sim, de cópias já antigas,
e todos concordavam que sim,
que cada vida humana era única, preciosa e irrepetível,
Aka lembrava-se dos mortos e das violações encaixilhadas,
dos pássaros de pesadelo,
dos fuzilamentos, dos canhões, dos corpos estilhaçados
em molduras doiradas e vidros anti-reflexo.
Pensava:
- Ninguém devia poder dizer que a vida é um dom precioso
antes de ter tentado vender preservativos furados em Covent Garden.
E recitava, de si para si:
- A pound dear father is the sum that clears the wicket.
Mas, claro, não dizia nada.
Não era suposto que uma virgem,
real ou suposta também,
soubesse das coisas que ela tinha para dizer.
O mundo, achava Aka, abusava dos supostos.

sábado, novembro 29, 2008

A Itália também não...

" Italy is not a democracy. It’s a telecracy, an oligarchy, a mafiocracy. All of these together, but not a democracy. The citizens cannot elect their representatives. So it is not an elected democracy. The citizens cannot participate in public decision making. So it is not a participatory democracy. The citizens have no right to be informed. So they cannot make decisions. But if citizens cannot elect or participate or be informed, what is left? "
23 de Novembro,
Democracy or not

quinta-feira, novembro 27, 2008

- Grande arrelia, caramba!

"O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!"
Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras

terça-feira, novembro 25, 2008

Nada na manga


- Nada numa manga!...
Nada na outra!...
Nada no BCP!
Nada no BPN!

segunda-feira, novembro 24, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (II)


No Louvre, em frente da Vénus de Milo.
- Sou mais bonita. - pensou Aka.
E acrescentou com melancolia:
- Mas nela vê-se muito mais.

Subsídios para o Livro de Aka (I)


Aka, aliás, Aliás.
Ou outro nome, talvez.
Aka, como Deus, tem mais de mil nomes.
Aka viaja.
- O mundo é como que um espelho partido em muitos bocadinhos. - disse ela para a sua Aia. - Em cada um deles é a nós mesmas que vemos. Achas que eu podia dar a cada fragmento um dos meus nomes? Era como se fosse outra em cada lugar que visito.
A Aia não despegou os olhos do catálogo.
- A este sítio, que nome darias?
-Não sei. Paris, por exemplo. Que achas?
- Só se fosses ainda mais vaidosa do que és. - retorquiu a Aia secamente.
- Para que serve então ter tantos nomes?

quinta-feira, novembro 20, 2008

segunda-feira, novembro 17, 2008

domingo, novembro 16, 2008

O Priorado do cifrão

... incongruentemente,
a imagem de um carvalho vetusto,
de largo tronco nodoso,
a despedir-se da folhagem, no Outono.

pags. 154, 155


O priorado do cifrão, da Porto Editora, é o mais recente livro de João Aguiar.
Tem por tema a escrita e a autoria, mas na sua vertente editorial. Por tese, a morte anunciada do autor, figura dispensável e perturbadora das conspirações editoriais.
A intriga não é muito complexa.
Miguel Souto Campos, a personagem principal do livro, é um não muito credível jovem editor da Codex 3, uma casa editora pertencente a um enorme grupo multinacional. Aos vinte e cinco anos sabe latim, ouviu falar de Gibbon e tem um sono desassossegado depois de ter feito amor com a menina mais cobiçada lá da empresa. E bebe chá! Sem querer e sem grande vocação, torna-se o herói de uma paródia ao Código de Da Vinci, de Dan Brown.
Diga-se num parêntesis: já estamos habituados aos livros que, volta e meia, inundam o mercado, colonizam o gosto e, quando os editores têm sorte, inauguram um género.
Tolkien é um dos melhores exemplos, tal como J. K. Rowling ou, para mal do nossos pecados, o próprio Dan Brown, caricaturado por João Aguiar.
Por vezes, como aconteceu com O Senhor dos anéis ou com a saga em sete volumes de Harry Potter, os livros são bem escritos e, embora discutíveis como tudo na vida, engendrados com imaginação e gosto.
Mas outros e talvez melhores exemplos podiam ocorrer-nos.
Deve haver quem ainda recorde o êxito espantoso de O despertar dos mágicos, de Louis Pauwels e Jaques Bergier e da quantidade de sequelas que suscitou. Choveram nos escaparates mistérios da Ilha de Páscoa, segredos dos Templários, enigmas das pirâmides, discos voadores, terceiras visões e poderes da mente... Tudo coisas que, no geral, não resistiriam à mais elementar crítica, mas que se apresentam como ensaios bem documentados, citações de supostos cientistas, imaginárias testemunhas, textos sagrados - de que ninguém viu os originais, claro.
São, regra geral, livros de ficção e de entretenimento que, para mal dos nossos pecados, não se apresentam como tal. Como João Aguiar chama a atenção, não são livros, na antiga acepção da palavra; nem são obra de alguém: são meros produtos para o mercado; o autor, por muito sucesso que tenha, é, também ele, um consumível; pode facilmente ser substituido por outro que aplique a mesma receita para o sucesso.
Bom mesmo será o desaparecimento dessa incómoda figura que é um escritor, regra geral orgulhoso, ciumento da sua independência e com direitos de propriedade sobre a obra.
O ghost-writer, ou melhor, uma equipe deles, virá, mais cedo ou mais tarde, escrever o texto da obra de um escritor fictício, produzido por uma multinacional da edição. Actores profissionais representá-lo-ão em entrevistas filmadas sempre que fôr preciso - e em pessoa na cerimónia do Nobel.
É nestes ambientes um pouco tenebrosos que decorre a aventura do jovem editor Miguel Souto Campos, um ingénuo incompreensivelmente promovido no seio da organização inimiga, um inocente perseguido a tiros felizmente falhados pelas ruas, o desajeitado favorito das secretárias simpáticas e o protegido de misteriosas potências que se não desvendarão até ao fim do livro.
Como o próprio João Aguiar resume, pela voz de uma personagem:
«... Se não soubéssemos o que sabemos, dir-se-ia que há um assassino, um único e sinistro assassino, decidido a matá-lo. Só que... falha sempre! Quer por azar dele, quer por falhas de execução, falha sempre. E você vai andando, mais ou menos impassível, enquanto o assassino pragueja e protesta: merda! Falhou mais uma vez! Palavra, é de comédia negra. Ou melhor ainda: desenhos animados...» (pag. 334)
Nós, aqui no Portugal, Caramba!, estamos em concordar com o resumo. E até acrescentávamos que é no que dá parodiar um mau romance, como o de Dan Brown. Mas foi a opção do João Aguiar. Permitiu-lhe revisitar o Adriano Carreira, a Sara e o Frederico, personagens de A catedral verde e satisfazer um gosto antigo pela novela policial.
Nada a dizer, se não que continuamos a preferir os Diálogos das Compensadas, ou o Navegador solitário.

quinta-feira, novembro 13, 2008

quarta-feira, novembro 12, 2008

Sempre é melhor do que nada...

George W. Bush mostra-se, finalmente, preocupado com o que os historiadores vão escrever a seu respeito e declara-se arrependido de algumas das coisas que disse ao longo dos seus dois mandatos.
Nós achamos bem. Mas há um pormenor que nos escapa: ele só se arrepende de «algumas coisas» que disse? De «algumas»?
E das que fez?
Nem uma?
Não será pouco?

sexta-feira, novembro 07, 2008

Obamocepticismo

Não sei bem a quem devemos pedir que nos perdoem por, aqui no «Portugal, caramba!», sermos Obamocépticos.
E não é por causa do próprio Barack Obama, que, por tudo o que de si mostrou, nos mereceria o benefício, mais do que da dúvida, da confiança.
Mas a crença, o optimismo, fazem-se caros.
Não vêm quando os chamamos.
Também gostaríamos de acreditar em Deus e sabemos que, provavelmente, não existe. No entanto, por vezes, como qualquer desesperado em desesperadas situações, também rezamos.
E gostaríamos de acreditar que sim, que a partir de agora, tudo vai mudar, que nunca mais haverá bombardeamentos cirúrgicos, nem guerras preventivas, nem danos colaterais. E também que vão acabar de vez as «guerras das estrelas» e os «escudos anti-míssil» (e já não ousamos rezar sequer para que acabem os próprios mísseis...)
Gostaríamos de acreditar que uma nova convenção de Genebra vai ser assinada também pelos EEUU e que os exércitos de mercenários disfarçados de empresas de segurança vão ser proibidos; que os criminosos de guerra, pertençam ao lado a que pertencerem, seja qual for o Departamento de Estado que os recrutou, irão ser julgados em tribunais suficientemente independentes. E não pedimos já, nem a Deus nem a Obama que os responsáveis pela morte de Allende, pelo esmagamento do Chile, os Henry Kissinger e os outros todos, sejam julgados pelos seus crimes. Nem pedimos que George W. Bush, Rice, Rumsfeld ou Cheney compareçam diante de um qualquer Grande Júri para dar conta dos seus actos.
Mas talvez um pequeno milagre nos fizesse acreditar, ao menos, um pouco: se o ainda Senador Obama, mas já Presidente para a maioria dos americanos, exigisse, de imediato, sem hesitações nem argumentos, o encerramento de Guantanamo e a entrega de todos os prisioneiros, reintegrados nos seus direitos de seres humanos, aos tribunais civis. Já!
Talvez então, a fé acontecesse.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Sem título

- Meu Deus! E agora?

Insultos

Bem sabemos que ter inveja é muito feio. Mas, haverá alguém, neste mundo pequeno e mesquinho, que não inveje a veemência do Capitão Haddock?
Alguém tem sugestões? Aqui ficam umas quantas. Espero que vos sejam úteis no caso de o vosso favorito nas eleições americanas não chegar à Casa Branca.
- Pé rapado, badameco, sarnoso...! Policarpo, carmelita, capa-grilos, borbulhento! ...Trampolineiro, caramelo, beldroega. Sicofante, aventino, insecticida... caçador, bardagoso, sapa-gato, filomeno! Mal-cheiroso, infeliz, patarata, pendureza, tricotim!

sexta-feira, outubro 31, 2008

quarta-feira, outubro 29, 2008

domingo, outubro 26, 2008

Um cadáver requintado

***
Mário-Henrique Leiria, Pas pour les parents, 1951, Inédito, Colecção Cruzeiro Seixas


Ver mais aqui.

sábado, outubro 25, 2008

Depoimentos escritos

Depoimentos Escritos, contos, poemas e cartas de amor,
Editorial Estampa, 1997
Sem data (provavelmente Out.-Nov. de 1961, de S. Domingos de Rana):
«Maruska bonita
Toma lá mais três "apontamentos". Creio que esta solidão me trouxe um apuramento de memória. As recordações começam a estar todas exactas e presentes. Vivo com fantasmas, não há dúvidas.
Tudo o que aí tens existiu.
Uma despedida amarga... Verão de 1960.
Dois momentos em Espanha... 1939. Dezasseis anos heróicos e estúpidos. O Henri do bigodão ainda deve existir e chama-se mesmo Henri. Estive com ele em Paris, em 1957 (que saudades do que eu, nessa altura, acreditava!). (...)
Querida menina do rostozinho eslavo, guarda isto contigo e um dia diz-me qualquer coisa. Espanha, três da tarde, cinco da tarde, de dias bem diferentes... Depois, Santa Apolónia... É para rir...
Vénia fantasmagórica do solene e irónico
...e sempre teu, claro
Mário-Henrique»
pag. 119
S. Paulo, 12/1/1963:
... «Tive aqui uma proposta divertida para resolver a minha situação de fora-da-lei. Um camarada uruguaio propôs-me o seguinte, depois de ter consultado gentes da terra dele: eu iria ao Uruguai e lá, em 15 dias, camaradas fixes arranjavam-me documentos de cidadão uruguaio. Ri-me francamente com a história. Achas-me com cara de "......... del Uruguay"? Se eu tivesse querido, já tinha tido duas oportunidades de mudar de nacionalidade: ou cidadão francês, ou soviético, que qualquer das duas seriam muito mais interessantes para mim do que ser um idiota uruguaio. Não, Isabelinha, nós nascemos naquela saudosa merda e a ela temos que pertencer até ao fim. Lá vivem os nossos operários, os nossos camponeses, por esses temos que lutar até que eles possam sorrir e ser homens livres e autênticos.»...
pag. 244
Carcavelos, 25/11/1973:
... «Quanto ao meu livro (*), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»
pag. 303
(*) Trata-se dos Novos contos do gin

segunda-feira, outubro 20, 2008

O Mundo inquietante de um anarco-surrealista



1
Escrevia-se em transe, quase como que para lá da vontade, do dilema de Hamlet, das imposições de Lulio. Tudo e o seu contrário, a lógica do sonho, do inconsciente libertado pela fantasia que nada amarrava: o real é um "cadáver" requintado, "esquisito", ressuscitado em noites gloriosas, ali ao Rossio, no Café Gelo.

2
De largo iam os bem pensantes: havia um regime autoritário, é certo, uma polícia política, tinha de ser, uma Guarda que escoronhava a torto e a direito.
Aqui ao lado, porém, já tinha passado uma guerra civil e, por essa Europa, uma guerra mundial. Por cá, Graças a Deus, não se passava nada: a Pátria estava salva. Podia tolerar uns desmandos de meninos da boa sociedade, como o Cesariny. Vindo de Paris, tinha inventado grupos surrealistas - a que pertencem, por exemplo, o O'Neil, o Cruzeiro Seixas, o António Pedro e, claro, também o Mário-Henrique Leiria. Um pouco mais longe moravam os neo-realistas. Toleravam-se, nem sempre amigavelmente, mas concordando todos facilmente em que era preciso derrubar o Estado Novo. Só se discutiam os caminhos para lá chegar.
A luta pela consciência começa onde? E qual é o papel do Artista?
A subversão pela liberdade da imaginação, pela destruição dos sentidos aparentes, pela ironia - é o caminho que escolhem O'Neil, por exemplo, e também Mário-Henrique.

3

No ano exacto em que as colónias, perturbando gravemente a pátria beatitude, se insurgiam, o Mário-Henrique foi preso. Já tinha sido expulso, em tempos, da Faculdade de Belas Artes. Abandonou o Gêlo e foi por esse mundo fora: encontrou no Piauí, "seis mil quilómetros mais longe e vários anos distante, quando bebia uma cachaça", aquele isqueiro que lhe tinha dado a mulher. Concluiu que "realmente os mistérios não são uma coisa assim tão complicada".
Seguiram-se as Lutas Académicas, as manifestações do 1º de Maio, greves, emigração a salto, deserções.
Os répteis de serviço do salazarismo inventavam sonoridades: os surrealistas não tinham o exclusivo da escrita delirante. As nossas caravelas não se deixavam «arrastar pelos ventos da história» e, «orgulhosamente sós», «Portugal uno e indivisível» «só chorava os mortos», porque os «vivos, a soldo de Moscovo, os não mereciam ».
Alguns Casos de direito Galático foram sendo publicados no jornal República. Mário-Henrique Leiria estava de volta. E em Março de 1973 sai o volume dos Contos do gin-tonic. Meses depois, em Dezembro, os Novos contos do gin rematavam com uma "Contabilidade final":
"Parece mentira, mas ainda não recebi os rublos moscovitas. E esta, ein! Só tenho coisas que me ralem".
4
Os amigos que ainda têm os livros do Mário-Henrique Leiria têm outros amigos que vão e vêm, que levam livros emprestados, às vezes não os devolvem. Os editores não querem saber e não os reeditam.
A Imprensa Nacional tem mais que fazer.
Não há ninguém que faça a edição crítica das obras completas deste singularíssimo anarco-surrealista?
***
PS.
Talvez porque o surrealismo do Mário-Henrique Leiria tivesse bastante menos a ver com o Breton do que com o Robert Desnos, aqui fica
Le Pélican

Le Capitaine Jonathan,
Étant âgé de dix-huit ans
Capture un jour un pélican
Dans une île d'Extrême-orient.

Le pélican de Jonathan
Au matin, pond un œuf tout blanc
Et il en sort un pélican
Lui ressemblant étonnamment.

Et ce deuxième pélican
Pond, à son tour, un œuf tout blanc
D'où sort, inévitablement
Un autre, qui en fait autant.

Cela peut durer pendant très longtemps
Si l'on ne fait pas d'omelette avant.

terça-feira, outubro 14, 2008

Um raio de luz na cornija da lareira

Pois!
Há dias em que é melhor nem falar.
Corre tudo mal.
A bem dizer, correr, o que se chama correr, nem corre. Empastela-se. Espalha-se ao comprido e, depois, arrasta-se cheia de mazelas, a coxear.
E há outros em que só as visitas nos salvam.
Como esta que sabe Deus onde mora, mas veio até cá, passou a tarde na cornija da lareira e depois foi-se embora.
Pode ser que um dia volte.


[Tenho uma secreta esperança de que tenha achado o ambiente sossegado e acolhedor e que já esteja instalada no armário da cozinha - ali junto aos pacotes de açúcar e ao óleo de fritar batatas, que é onde ninguém a vai incomodar.]

quarta-feira, outubro 08, 2008

Coisas que é melhor não dizer

A Voilá acha que eu sou ciumento e eu não a contradigo. Como diz a Avó, nunca se deve desiludir mulheres bonitas.
Mas não foi só por isso, claro, nem por causa dos ténis que não combinavam com a cor do smoking.
E até, quando ele classificou não sei-o-quê como um filme «de culto», eu deixei passar.
Mas, quando disse, pela segunda vez, que fulano era «um ícone da nossa cultura», eu, pura e simplesmente, não aguentei: liguei o sinal de alerta disfarçado no braço da cadeira D. José.
O Tião Medonho surdiu de trás do reposteiro com a Remington 24E long e pás!
Três tão exactas como de costume: a primeira, uma mão travessa abaixo da clavícula direita; outra centrada, a perfurar o esterno. E a última, à esquerda do umbigo, numa tripa qualquer.
A Voilá zangou-se por causa do copo de vinho entornado na toalha de renda.
Mas há coisas, realmente, que já não se podem ouvir.
Telefonei ao Mário-Henrique a agradecer.
Os amigos são uma coisa preciosa, é o que diz sempre a Avó.

terça-feira, outubro 07, 2008

A Metafísica é uma arma ...


Manipansicas 1

Penso panso, manipanso,
manipanso Malpertuis.

Panso penso, manipanso,
Moi je pense, donc je suis.
João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

segunda-feira, outubro 06, 2008

sexta-feira, outubro 03, 2008

Lido por aí

Com a devida vénia:

«Outra curiosidade é que o valor mais importante transmitido ao longo dos episódios é o da honra. Hoje em dia seria impensável fazer uma série em que o aspecto mais relevante fosse a honra, poderia ser a lealdade, a coragem, mas a honra está a cair em desuso e tanta gente já nem sabe o que isso é.»


Em http://holehorror.blogspot.com/2008/10/lixo-televisivo-e-honra.html, a propósito de antigas séries televisivas.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Marketing agressivo ou falta de chá?

.
- Oi, ganda maluco! Tá-se bem?
.

Acreditam?
O meu novo computador passou-se e desatou a tratar-me por "você"!
Não sei quem foi a gentil empresa que achou que era fixe tratar-me assim, como se estivesse em casa do seu sogro. E logo a mim, que, de pequenino, ouvi dizer que «Você é estrebaria...»
Mas deve ser uma nova técnica de marqueting agressivo.
Ou então, pronto: é o Português do Brasil, mesmo se, acredito, por lá também sabem dizer Senhora e Senhor.
Mas há pior.
A TMN, por exemplo, também acha bué da cool rematar as mensagens que me manda com um descontraído «até já».
Até já? São parvos? Acham que eu sou da idade deles?
Eu sei que já não se usa o tradicional «de V. Exª. atentos, veneradores e obrigados», mas daí ao à vontade de um «até já» parecia-me ir alguma distância.
«Os nossos cumprimentos», por exemplo, talvez exigisse mais uns caracteres, mas era educado.
Até mesmo não pôr nada seria preferível. E que tal apenas «obrigado»?
A mensagem que me mandaram hoje ficaria assim: «com este carregamento acumulou X pontos. Para consultar saldo ponto t (actualizdo cada 24h) envie SMS gratis c/'pontos' para 12096 ou va http://www.tmn.pt/. Obrigado.»
Enfim, não seria o cúmulo da educação. Mas já era aceitável, sobretudo se se lembrassem de que, no português, de Portugal como do Brasil ou de Cabo Verde e Timor, há acentos que se podiam pôr em «grátis» e «vá». E também há virgulas, sabiam?
Mas não. Em vez do simples obrigado, a empresa permite-se acrescentar: Ate ja. Também sem acentos, claro.
São analfabetos, dir-me-eis.
Não, não creio. São malcriados, pronto.
Mas, há mais.
Não é que a mesma TMN se autoriza o envio de mensagens como esta: «Habilita-te ao CD do filme Mamma Mia! Personaliza o sinal de chamada com musicas do filme....»
Acentos, claro, também não há.
Mas, sobretudo, não me lembro de ter autorizado quem quer que fosse a enviar-me esta publicidade obviamente não solicitada.
E muito menos a que um bando de nem-sei-que-lhes-chame analfabetos me trate por tu.
Sabem que mais?
Acho que os mentores desta agressiva campanha de marketing se inspiraram naquelas senhoras que dantes nos convidavam a telefonar para as linhas eróticas e diziam com voz doce: «Mi liga, vá... »
Acreditam?

sexta-feira, setembro 26, 2008

Projectos para o futuro

- Temos de nos lembrar de mandar arrancar esta alcatifa.

quarta-feira, setembro 24, 2008

«Injecções extraordinárias de liquidez»


Se ainda não perceberam o que aconteceu àquele pastel todo que eles, segundo fontes bem informadas, andaram a ganhar nas bolsas, o Portugal, Caramba! pode adiantar que a culpa se afigura como sendo do colisionador de hadrões que recentemente foi inaugurado na Suiça.

Estamos recordados de que, de acordo com os cientistas do CERN, o destapar de um buraco negro era uma possibilidade negligenciável. Não terá sido assim.

Segundo alguns financeiros, a entrada em funcionamento do gigantesco acelerador abriu uma singularidade no mercado de capitais, a qual se terá alegadamente constituido num autêntico sorvedouro de liquidez.

Tanto a Reserva Federal como o Banco Central Europeu estariam a estudar a constituição de uma comissão conjunta de inquérito para determinar o fundamento destas alegações e levar diante da justiça os eventuais culpados.

«Os cientistas que paguem a crise», declarou uma fonte próxima da do Colégio de Reguladores da Euronext que pediu o anonimato.

Fontes contactadas pelo Portugal, Caramba!, no entanto, consideraram que estas acusações podem ter resultado apenas da confusão entre o "acelerador de hadrões" que pertence, de facto, ao CERN, e os vários "aceleradores de ladrões" que se têm vindo a constituir à sombra dos grandes bancos de investimento.

sábado, setembro 20, 2008

terça-feira, setembro 16, 2008