domingo, julho 19, 2009

Alô experiência, 1, 2, 3, Edith Piaf

Sem título



Se os pintas deviam ser obrigados a estar quietinhos para a gente os desenhar, o que dizer de uma cadelinha, Fidji de seu nome, que não pára um segundo?

quarta-feira, julho 15, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Mudar de ideias e atirar com a porta


Há dias, quando li que a Maria João Pires, talvez num dia em que acordou com os pés de fora, queria abdicar da nacionalidade portuguesa e tornar-se brasileira - ou checalòturca, pouco importa - comentei cá para comigo:
- Bom, é o mais sagrado dos seus direitos.
Arranjei um papelinho e, à mesa do café, desatei a escrever os nomes das pessoas que eu admiro.
A lista - digo-o com um orgulho a roçar a arrogância - coube nas costas de um talão do multibanco e sobrou espaço. E tinha muito, muito poucos portugueses.
-
Eu sei que o defeito é meu.
Sobretudo quando penso que a melhor parte do escasso rol já nos bateu com a porta na cara.
O Jacques Brel, por exemplo.
Ou a Piaff.
Ou o Bertrand Russel.
Ou o Albert Camus.
Ou o Zé Afonso.
Ou o Prévert.
Mas ninguém me mereceu a mais pequena ponta de consideração por ser português, por ser espanhol, por ser turco ou grego.
Não me interessam essas imaginárias linhas postas ali, onde «alguém», a golpes de espada ou a tiros de metralhadora, determinou que uma criança passava a ser chamada judia ou palestiniana.
-
Sempre achei de uma inaudita crueldade que esses «alguéns» tivessem dito à Maria Helena Vieira da Silva que passava a ser apátrida.
E que ainda hoje o possam dizer a um guineense que trabalha, que paga contribuições ou que, simplesmente, vive.
Quantas vezes me apeteceu gritar bem alto: «Se é isto o Portugal que vocês querem, fiquem com ele. Eu vou-me embora.»?
-
Mas vou ficando.
"Talvez porque não dou a ninguém o direito de me expulsar da minha terra", escrevo. "Talvez por simples cobardia que encontra nas ideias grandiloquentes as melhores desculpas", continuo, já com o recurso a um segundo talão do multibanco e uma pontinha de vaidade no estilo.
E escrevo ainda:
- «Matai-vos uns aos outros», recomendou o Jorge Reis ao partir para Paris. E, quem sabe, talvez não seja por acaso que a "mulher-cão" da britânica Paula Rêgo tenha o feitio de corpo e a cara de uma portuguesa.
-
Se a Maria João Pires quiser ir-se embora como tantos outros se foram, que dizer se não que é o mais sagrado dos seus direitos?
E se for mudando de ideias e for ficando, que dizer também, se não que é outro dos seus direitos não menos sagrados?

terça-feira, julho 07, 2009

Crime no Polo Sul

- Acredite, Inspector: vejo em si o mais perfeito exemplar de funcionário que jamais me foi dado conhecer em vinte anos de auditorias. Os meus parabéns.
- Obrigado, Senhor Professor. Nós lá no Serviço Central acreditamos na perfeição.
- Pode continuar as escavações, se tem ordens para isso. Afinal, o Pólo Sul pode ser muito grande, se considerarmos que um pólo não é necessariamente um simples ponto.
- Pois não, Senhor Professor.
- A questão é só o raio.
- O raio? - rindo: - Não, não, aqui não há trovoadas.
- Se considerar um raio de aproximadamente vinte mil quilómetros em torno deste ponto, então, tecnicamente, os seus superiores têm razão.
- Sim, Senhor Professor. Os Superiores têm sempre razão. E para nós até dá jeito.
- Todos os crimes, por definição, ocorrem no Polo Sul.
- Vê, Senhor Professor? É o que nós lhe dissemos. Estamos no centro de toda a criminalidade e ainda ganhamos subsídio de deslocação.
- Portanto, se ocorrer um crime em Lisboa...
- É um mero fenómeno periférico, Senhor Professor. Como realça o Senhor Ministro, são coisas de marginais.
- Perfeito. Mas prefiria procurar o Yeti mais para cima, Inspector.
- À vontade, Senhor Professor. Mas olhe que lá tem-se muita luz. Aqui investiga-se melhor durante os seis meses de noite. Depois troca-se a polaridade e vamos investigar para o Pólo Norte. Está a ver, seis meses aqui, seis meses lá, subsídio para cima, subsídio para baixo... É a alternância democrática, ou coisa assim. E quando estamos lá, o Governo pode dizer que não há crimes por resolver. Tecnicamente falando, claro, como o Senhor Professor disse e muito bem.

sexta-feira, julho 03, 2009

Jeux interdits

- Sei lá... a brincar aos governos, se calhar...

terça-feira, junho 30, 2009

Que fizemos do luar de estio?


Que fizemos do luar de estio em que os corpos se atormentavam em desejos e tabus?
Que resta das noites claras em que a palavra afagava o silêncio
das bocas suspensas no amor?
Que sobra de nós nos gestos invocados no tempo incerto
dos dias vazios de sol e de mar?
Tanto tempo demorado na memória
dos sonhos por fazer!
Agora lavro o tempo onde receio que rosa alguma florirá
(e contudo, insisto teimo e semeio)
José Alberto Damas

Degraus de Silêncio


E avança uma Velha sem Restelo:
- Qual é o Mar Português?

(o das lágrimas de sal...)
Esse mar nunca existiu
Ignora a cor das nações
Tratados que nunca viu
O mapa das intenções
Do homem que as coloriu

O mar não é português
Quando quer afunda os sonhos
Quebra a vaga de ilusões
Derruba barcos tristonhos
Sem olhar a distinções
No homem que as perseguiu...

Existe no mar um azul sem alma
E na mudança das suas feições
Nem páginas de resgatar a calma
Nem vogais de atestar circunscrições...

E fundo - no seu mistério
Sempre calando assistiu
À rota das ambições
Sem as lágrimas de sal
Nascendo das convicções
Do Homem só que Partiu...


Ana Maria Puga

degraus de silêncio

Papiro Editora, 2009

segunda-feira, junho 22, 2009

sexta-feira, junho 19, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIX)



- Aka, há destinos como o teu.
Estão muito para lá do bem e do mal.
Passam por sítios proibidos onde um passaporte é só um pedaço de papel, sítios onde nem todo o oiro do mundo te resgatava a alma, quanto mais esse corpo que nem para a cama serve.
Sítos onde só contam as minas, as balas, os arames farpados.
Mesmo com catorze anos, Aka, já devias ter percebido porquê.
- Não tenho de perceber, Aia, e não quero perceber.
Para lá do bem e do mal, como tu dizes, o meu Deus ensinou-me que não há nada.
Continuas a não ter direito nenhum de me bater.
- Não te faças mais parva do que és, Aka.
Tenho todos os direitos, estou aqui em nome da violência.
Julguei que já tinhas entendido: eu não sou a tua mãe, Aka.
Sou a tua carcereira.

sábado, junho 13, 2009

Sem título

Havia de haver uma lei que obrigasse os pintas a ficar quietinhos ao menos um par de minutos quando a gente os quer desenhar.
Aqui fica a sugestão.

quarta-feira, junho 10, 2009

Wiseguying

José Gil, Em busca da identidade - o desnorte, Relógio d'Água, 2009
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João Miguel Tavares, "Cuidado com os nomes que chamam aos vossos filhos", Notícias Magazine de 7 de Junho, pag. 82
-
Não quero que ninguém venha ao engano: este post é acima de tudo sobre um senhor, João Miguel Tavares de seu nome, jornalista freelancer dizem, que assina a página "Vida familiar" no Notícias Magazine de 7 de Junho último.
-
É uma página curiosa.
Ao que me pareceu - e li-a atentamente mais de uma vez - o João Miguel Tavares vem a público mostrar a sua profunda indignação por não dever chamar, ternurento como é, «meu querido crapulazinho, meu g'anda sacaninha» ao seu filho Gui.
Pois quê?
Um pai já não pode dar um beijinho a um filho quando ele rasga os jornais do papá?
Já não se pode babar de puro gozo com as pequeninas malandrices do rebento?
João Miguel Tavares não diz e, provavelmente, não o pensará. Mas ficou-me a impressão de que, para ele, cuspir na Tia Ermelinda que, coitadinha, tem bigode, ou bater na Mãe que lhe recusou o equivalente a uma bola de Berlim antes do almoço, são pecadilhos que terão de ser reprimidos com um simples «anda lá, meu malandreco». E pimba! Um beijinho na bochecha.
Mas isso, como ele próprio reconhece, é porque não percebe nada de Filosofia.
Parece-me um facto: o João Miguel Tavares terá alguns defeitos, quem sabe, mas não o tenho na conta de mentiroso. E todo o texto da "Vida Familiar" o confirma.
Do opúsculo de José Gil - e ninguém é obrigado a escrever sempre em quantidade, só, por respeito a si próprio, em qualidade - João Miguel Tavares apenas nos dá conta de uma coisa que qualquer professor, qualquer psicólogo ou educador minimamente atento sabe de ginjeira: que, para a criança, a atitude dos pais é muito mais significativa do que as palavras proferidas. Bem podemos ralhar com a criança, dizer-lhe «isso não se faz» se o tom em que o fizermos for o primeiro e claríssimo desmentido das nossas palavras.
Para Gil, esta tolerância excessiva, mais não faz do que mostrar à criança que a malandrice, a pequenina trafulhice a meio caminho da desonestidade, é mais do que permitida; de facto, é desejável, o único meio para vir a ser um «chico-esperto» de sucesso numa sociedade de «chicos-espertos», governados pelo «chico-espertismo».
E, por curioso que pareça, não sendo, como ele próprio diz, um Filósofo, João Miguel Tavares mostra claramente que o percebe. Percebe que o chico-espertismo é um conceito central no modo como vivemos a cidadania em Portugal. Central, mesmo que não se apresente com a dignidade de uma expressão latina ou, o que seria ideal, americana (wiseguying, por exemplo, não sei se daria, mas que era mais cool, era).
Percebe. Mas o tom de simulação per contrarium (uma das formas mais fáceis da ironia) esse, diz-nos que não aceita.
Diga-se: não acredito que ele, Pai extremoso, deixe o Gui andar a correr aos uivos no restaurante incomodando toda a gente ou que lhe ralhe chamando-lhe «meu malandreco». Portanto, quando escreve que "o chico-espertismo abala a pátria e eu estou a ser cúmplice. A bem do futuro da nação, vou começar por trocar os livros da Disney pela obra completa de José Gil" e por aí fora, o que está a dizer o João Miguel Tavares, ele que não é Filósofo?
Eu diria, se ousasse interpretar, que, tal como muitos outros cronistas da nossa praça, está só a mostrar o seu wiseguyism.
Um dia, quem sabe se não será útil?
E já agora, trocar os livros da Disney pelos de José Gil talvez não fosse assim tão má ideia.
Primeiro porque evitava que os mocinhos lá de casa lessem porcarias. E depois porque ficavam com qualquer coisa realmente valiosa nas estantes para lerem mais tarde. E o Pai João Miguel também podia ir aproveitando.

segunda-feira, junho 08, 2009

Sem título


- Afinal, Tio La Fontaine, como é que era essa fábula?

quinta-feira, junho 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVIII)



Não era anormal dirigirem-se a ela;
o guarda-costas limitava-se a vigiar, lá de longe.
- Não olhes as pessoas nos olhos. - ralhava a Aia.
Mas Aka nascera assim, perguntadora.
Os olhos, castanhos ou verdes, conforme a luz, inquisidores, captavam tudo e todos.
Deixavam-se captar por todos e por tudo.
O mágico tirou do turbante uma rolinha branca, depois olhou em volta, fê-la desaparecer nas mãos de um jovem de cabelos para a testa, em seguida pegou nas de Aka, colocou-lhe a direita em concha sobre a esquerda:
- Ah-ah! Voilá notre petitte voleuse! Quer mostrar-nos o que tem aí escondido?
Aka sentiu cócegas na palmas das mãos, como se um animalzinho crescesse e lutasse para sair.
Quando as abriu, a aranha sentiu-se livre, saltou para o chão.
Houve gritos, gente em fuga, uma rola branca voou.
O skin da grande barriga tentou com a bota, uma vez e outra, esmagar a aranha assustada.
Com as suas grandes patas, correu por entre pés de gente e de cadeiras.
Num instante surgiu um grupo para dar caça à "tarântula" e outro para defender os direitos da pobre «bestiole assustada».
Não viram o mágico curvar-se profundamente, mãos postas diante do rosto.
- Posso saber o nome daquela a quem devo ter visto um milagre? - perguntou ele.

segunda-feira, junho 01, 2009

Quando os Vascos eram Gonçalves


A Beatriz Costa já cá não está para me perdoar o abuso. Para ela, jovem nos anos quarenta, os Vascos, obviamente, eram Santanas.
Os tempos mudaram, como sempre fizeram e hão-de fazer, pelo menos, enquanto o Pai Cronos que é o dono das ampulhetas os deixar brincar com a Criação.
E quando esses mudados tempos vieram, as Beatriz Costa e as Amália Rodrigues deram-se conta de que também os Vascos não eram os mesmos.
Agora era o Vasco Lourenço, claro, capitão em Abril.
E o Vasco Gonçalves que depois foi primeiro ministro.
Diga-se o que se disser: quando por um qualquer erro da Mãe-natureza, certamente congénito, também eu ligo a televisão e me ponho a olhar, a primeira coisa que me assalta é a saudade dos discursos do Vasco Gonçalves.
Eu sei que ele era comunista, o que, hoje em dia, corresponde mais ou menos a ser um melquetrefe desclassificado.
Mas quem não foi, ao menos, compagnon de route, colaborador ou cúmplice numa qualquer fase da sua vida, das duas uma: ou era ferozmente salazarista como a Senhora minha Avó que Deus guarde, ou era tontinho da cabeça. E a alternativa não é exclusiva: muitas vezes, acumulavam.
-
Percebam que não estou a falar de quem, felizmente, é demasiado novo para compreender o sufoco em que se vivia nos tempos de O Pai Tirano ou de O Pátio das cantigas.
Do que estou a falar é do Senhor Cardeal Patriarca a abençoar as tropas que iam para as colónias enquanto as polícias, a política e as outras, perseguiam os desertores, os emigrantes que tinham de ir a salto para França. Do que estou a falar é do número ridículo de estudantes que chegavam à faculdade e depois conseguiam acabar um curso. Do que estou a falar é dos bairros de lata que foram crescendo à volta de Lisboa e do Porto. Do Delfim, que tocava clarinete na filarmónica e vivia numa casa de terra batido, telhado de telha vã, sem água nem esgotos.
Do que estou, enfim, a falar é dos movimentos de libertação das ex-colónias que, ao ganharem a guerra, não libertaram só os pretos de lá. Libertaram-nos também a nós, os pretos de cá.
E, nos discursos do Vasco Gonçalves, ao fim de anos e anos santimoniosos, de untuosas palestras, surgia uma espontaneidade, uma tão grande fé nos humanos que, concordasse-se ou não, cativavam.
Mas, claro, ele era um major do nosso pouco glorioso exército.
Para os militares como ele, as coisas são simples, as pessoas são honestas ou não, trabalham ou não, são exploradoras ou são exploradas, é tudo sim ou tudo não. As meias tintas, a conversa para empatar, não lhe cabiam no discurso: meio jantar pode ser melhor que nada, mas não é jantar nenhum, ponto.
Foi fácil chamar-lhe Vasco, o Louco, como ao Francisco Costa Gomes chamaram o Chico Rolha. A louca sinceridade sempre assustou os bem pensantes que têm estômago para engolir tudo menos uma verdade crua.
-
Cronos, entretanto, abanou as ampulhetas outra vez.
E a pouco e pouco fomos assistindo ao regresso do discurso da Senhora minha Avó.
Ela não era monárquica: era talassa. Com muita honra!
E repetia: Muita honra!
Contava com orgulho as pequenas patifarias da Tia Margarida pelos idos de 1910, de loja em loja a perguntar:
- Tem bolo-Rei?
E quando o orgulhoso empregado lhe dizia que agora, com a República, se chamava bolo-Nacional, respondia:
- Então, muito obrigada, mas não quero!
Também a minha Avó se recusava a aceitar que, quase sempre, se tem de mudar o nome às coisas para que elas fiquem na mesma. Ou, quando não se quer uma coisa, deixa-se-lhe o nome e sapam-se-lhe os alicerces. Escuso de dar exemplos, não escuso?
Para ela, o Salazar era tudo. O salvador da paz e da tranquilidade, a dela própria para começar.
O guardião da decência.
O seu único defeito? Não era bonito, não dava explendorosos bailes em Queluz.
Quanto ao resto... o resto não havia! Nós não nos metíamos em coisa nenhuma! Que ficasse bem claro!
-
Claro que nos metemos.
Timidamente embora, fomos às manifestações. Distribuímos comunicados das Associações de Estudantes, o Avante, o Recuante e o Laterante, todos com montes de foices e martelos, todos dos verdadeiros partidos da classe operária. Muitas vezes recebíamo-los em embrulhinhos e distribuíamo-los antes mesmo de os ler. E houve outras pequeninas coisas que agora já não interessam, que não fizemos para que nos agradecessem.
Mas os tempos passaram e um outro Vasco escreve, com a maior das naturalidades: "parece que, no fim de contas, Salazar não se enganava [1]: Portugal prefere um único partido (se não exactamente um partido único). Um partido 'neutro', sem cor e sem princípios, com a autoridade necessária para salvar a pátria de si própria. Pela força, como é óbvio." E conclui, linhas mais abaixo que "a solução lógica seria assim eleger em Outubro uma força parlamentar irresistível, limitar a liberdade de imprensa (em sentido lato [2]) e submeter a justiça às conveniências do executivo." (Público de 30 de Maio)
Neutra, essa força irresistível?
Talvez. Mas a Europa, nos idos de 1933, não teve uma boa experiência com a eleição de "uma força parlamentar irresistível" na Alemanha. E ver o Vasco Pulido Valente a escrever as coisas que e Senhora minha Avó dizia aos oitenta anos, confesso, não me deixa nada tranquilo.
-
1] E, decerto, raramente tinha dúvidas. O VPV não se pronunciou.
2] Lato?

quinta-feira, maio 28, 2009

Ironia


"A forma natural da ironia é a litote - quer dizer que a ironia, como todo o pensamento senhor de si próprio, opera a fortiori. O que pode o mais, «por maioria de razão» pode o menos. A litote deflaccionista é o oposto diametral da ênfase, que é inflação e grandiloquência vã, e que não produz senão vento. Aristóteles considera a eironeia como a «carência» de uma virtude cujo «excesso» se chamasse alazoneia ou fanfarronice ..."

Vladimir Jankélévitch, L'ironie, Flammarion, 1964


Às vezes penso.
Vivemos num mundo de sabichões, de preferência televisivos.
Vocês conhecem-nos: têm o ar de «a-gente-é-que-sabe e vocês são umas bestas»; escondem-se por trás das suas organizações - económicas ou religiosas umas, politicas outras, financeiras todas - como as lesmas e os insectos se escondem da luz debaixo das pedras.
Que verdade nos resta senão a pergunta mais homeless, mais ignorante, mais mortiferamente filha-da-mãe?
Que Deus, na Sua Infinita Misericórdia, como se costuma dizer, nos ajude sempre a encontrá-la, porque fazer dela um míssil a seguir, isso já é connosco.
Com a nossa moral.
Com a nossa humanidade.
Se as tivermos, claro.

Adivinha

Alguém conhece este sinal gráfico?
Imagine que ia por uma estradinha de montanha e o encontrava.
O que dizia à sua companheira e o que responderia ela (ou os vice-versas todos, escusado será de acrescentar)?
Hipótese um:
Ele: Tudo bem, já chegámos à Turquia.
Ela: Turquia, querido? Afinal já não vamos a Condeixa-a-Nova ao baptizado do teu sobrinho?
Hipótese dois:
Ela: Se calhar não devíamos ter bebido aquela segunda garrafa de Labrujeira reserva de 82.
Ele: Eh-eh! Candeia que vai adiante alumia duas vezes!
Hipótese três:
Ele: Deve ser um novo sinal, tipo curva e contra curva mais perigos vários...
Ela: Ou um aterro sanitário para os resíduos perigosos...
Hipótese quatro:
Ambos: Só neste país!
Hipótese cinco:
Ela: ... ... ...
Ele: ... ... ...
(Outra qualquer, a cargo da sua imaginação.)

terça-feira, maio 26, 2009

Vêm em bando com pés de veludo...

Sempre andaram por aí, desde o Senhor D. João III, creio, ou mesmo antes. Tiveram muitos nomes: sob o principado de El-Rei Junot, por exemplo, chamaram-se «moscas». Mas foram sempre iguais a si mesmos: invejosos, mesquinhos, de vistas curtas.
Cobardes na maior parte das vezes, mas valentíssimos quando apoiados uns nos outros.
Pareciam extintos como o Dódó ou o Lince da Malcata ou mais ainda, porque o Lince e o Dódó deixaram saudades e deles ninguém se queria lembrar.
Mas não. São como a Phenix que renasce das próprias cinzas, como a Hidra que tem sempre mais e mais cabeças.
Não adivinham de quem é que estou a falar?
Eu dou uma pista: a direcção regional de educação do norte. Ainda não?
Vá lá, pronto, eu dou outra: uma escola em Espinho.
Sabem de certeza: está aí mesmo ao vosso lado.
Mais pistas?
Para quê?
Se ainda não perceberam, não se ralem.
Quando vos cair em cima, logo guincham.

domingo, maio 24, 2009

Rèves de um João Bénard solitaire


Aviso desde já: o que vou dizer, em calhando, é um monte de disparates.
Mas tenho de os dizer à mesma porque sou um leitor do João Bénard da Costa e ele parou de escrever.
-
Sabem daquelas pessoas com quem nós embirramos sem motivo? Não as conhecemos de lado algum, devemos ter-nos cruzado inúmeras vezes pelos lugares comuns da nossa cidade, mas nós não demos por isso e elas, certamente e com muito mais motivos, também não.
Quero crer que se trata apenas do meu mau feitio: detesto, mesmo sem as conhecer, as eminências pardas.
Eu explico: uma eminência parda é uma figura florentina: esgrime com a palavra - que domina bem melhor do que o comum dos mortais - leu mais do que aquilo que compreende, mas usa as citações como o polvo usa a tinta.
À falta do poder, mas suspirando por ele, tem uma paixão.
É poeta.
Ou historiador; sabe tudo sobre o século XIX.
Ou literato: Dante não tem segredos para ele.
E é perito em antiguidades: em casa da Avó Matilde havia sempre «uma consola muito parecida, mas tinha o brazão dos Albuquerques aqui...»
O seu modo de vestir oscila entre a gravata de seda natural e o colarinho aberto. «Vejam como eu estou à vontade em todo o lado», parece dizer.
Mas nunca veste uma camisa de menos de cem e tantos euros.
-
O João Bénard da Costa tinha quase tudo para entrar nesta categoria.
E, ainda por cima, tinha dois defeitos:
um: era católico e eu não sou.
dois: era um apaixonado por cinema e eu, nos últimos dez anos, devo ter ido ao cinema umas cinco vezes, mas, por mais que me esforce, só me lembro de dois dos filmes: um era do João César Monteiro, Vai e vem, e outro era Le fabuleux destin d'Amélie Poulain de Jean Pierre Jeunet.
O João Bénard da Costa, esse lembrava-se de tudo. Filme visto aos onze anos, aí estava ele com os detalhes mais íntimos de um verdadeiro voyeur: o tornozelo de Cid Charrisse, a golinha de renda sobre o vestido de luto de Gene Tierney no papel de Mrs. Muir.
Mas, por estranho que seja, pelo menos para mim mesmo, nunca o incluí na categoria dos pedantes, bêtes noires da cultura, fiscais de bem-pensanço.
-
O que, para lá das muitas reservas, me fazia ler-lhe os textos - ultimamente no Público - sempre que me vinham parar à mão, não o sei precisar.
Mas há coisas que se tornam evidentes, mesmo a uma primeira leitura.
Uma era o claro bom gosto da sua escrita.
A Cid Charrisse era linda. Não do mesmo modo que a Gene Tierney, mas mesmo assim. E os filmes, no seus tempos de ecrã, eram púdicos. Mostrar, por exemplo, a Esther Williams em fato de banho era já uma ousadia, só permitida a pretexto das cenas de natação. Mas, fiel ao bom gosto, Bénard da Costa evitava falar de coisas como as generosas coxas a ver-se: em todo o caso, o tornozelo da Cid Charisse era igualmente bonito e muito menos banal.
O que lhe importava era aquele pormenor em que só ele reparara, que parecia estar ali unicamente para lhe procurasse um sentido: os seus textos eram os rèves de um promeneur solitaire. Dessa réverie nos ia dando conta semanalmente partindo de um filme, de uma memória, de um acaso.
Os filmes, quando lia as suas crónicas, pouco me interessavam: não os tinha visto, não tencionava vê-los. Para mim, só o passeio do sonhador era importante.
-
João Bénard da Costa, julgo eu, pertencia àquela rara minoria dos sonhadores práticos - que não perdem de vista os objectivos mesmo quando deixam à solta a imaginação e a memória - mas não são a mesma coisa? Ver filmes, recordá-los, restaurá-los, preservá-los para voltar a vê-los, era, ao mesmo tempo, o seu sonho e a sua tarefa.
As imagens que desse sonho lhe iam ficando eram-lhe pretextos no sentido mais elementar e etimológico do termo: eram pontos de partida, prévios ao texto, desencadeadores de uma escrita em que tudo comunicava com tudo, à semelhança do próprio mundo em que ele vivia. Uma cinematéca não é o ponto onde as culturas, as mundividências, as utopias se cruzam, se interpenetram, se recombinam?
Estou em crer que a sua religiosidade tinha essa componente, sincrética talvez, e profundamente mágica em que o alto e o baixo, sagrado e profano, simples e complexo, se comunicam e se fundem no mundo das palavras: nos seus textos a Universidade de Oxford podia ser (e foi) o ponto de contacto entre Fritz Lang com o seu monóculo e um pintor como Ingres. E muitos e muitos outros exemplos podiam surgir-nos: ando a reler as suas crónicas aqui e não me lembrava de ter falhado tantas.
A minha memória não é como a dele.
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Comecei por avisar de que ia dizer disparates e, se calhar disse.
Mas eu, que querem? Estou de luto e não quero saber disso para nada. E o João Bénard da Costa era bem capaz de soltar uma das suas gargalhadas graves e um tanto roucas: para ele, o direito ao disparate era inalienável.
Pelo menos, até se lhe esgotar a paciência, o que, para ele, como direito seu, não era menos inalienável do que qualquer outro.
E agora vou deitar umas pedras de gelo no meu whisky e bebê-lo à memória dele.
-

sexta-feira, maio 22, 2009