segunda-feira, agosto 10, 2009

Sem título

Meninos de oiro, o caraças!

quarta-feira, agosto 05, 2009

Alegria perfeita

"Irmão Leão, mesmo que os Frades Menores dessem por todo o lado um grande exemplo de santidade e boa edificação, mesmo assim escreve e anota com cuidado que que não é aí que está a alegria perfeita."
S. Francisco de Assis

Não me lembro de o João Bénard da Costa ter alguma vez escrito sobre o filme do Louis Malle Zazie dans le metro. Provavelmente -lo, mas eu, hélas! não o consigo encontrar por mais que procure.
É pena: o filme é sobre a alegria e este post também.
O João Bénard teria, quem sabe, aproximado o sentimento da alegria à experiência de qualquer coisa que nos transcende, ao momento de uma revelação, uma pequenina epifania ao alcance de qualquer mortal não particularmente dotado para a santidade.
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Não é nada fácil dizer o que é a alegria.
Os dicionários são mais lestos a definir outras coisas, o estado eufórico, por exemplo: uma excitação plena, um bem-estar físico e moral, um contentamento consigo próprio, dizem eles. E acrescentam logo que esse excessivo auto-contentamento é, muitas vezes, irrealista e degenera em delírio.
A alegria, essa é menos óbvia.
Por vezes é indiscreta, ruidosa, como a dos bebedores do Rabelais. Porém, quando lhe falta ao menos uns gramas de felicidade, a alegria amarga na alma e nunca está longe das lágrimas. O choro do bêbado não é bonito de se ver; a sua ira oscila entre o perigoso e o caricato.
Há também uma alegria que é exultação, como, por exemplo, quando se fala na «exaltação da Santa Cruz» ou quando os soldados partiam para a guerra entoando hinos guerreiros. Mas também essa não é a alegria perfeita: ali mesmo ao pé, disfarçada de honra ou de qualquer outra coisa, espreita o fanatismo.
Uma outra é vigor físico, é pujança: a corrida do potro de crinas soltas, o voo das gaivotas nos dias de vento, o canto dos pardais ao fim da tarde. Ou, como diz Gomes Leal, "cantando, rouxinóis louvam os céus".
Talvez seja esta a verdadeira alegria.
Infelizmente, não sabemos o que cantam os pássaros, nem o que dançam os golfinhos, o que sentem as sardinhas quando evoluem como uma só nos seus enormes cardumes.
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Algumas expressões podiam ajudar-nos a cercar o conceito que foge: satisfação, divertimento, contentamento, prazer moral...
Os sinónimos, no entanto, são extremamente ciumentos das suas diferenças.
O «gáudio», por exemplo, oscila entre o contentamento, a satisfação, o prazer, a alegria propriamente dita, o prazer dos sentidos, voluptosidade, e algo de recuadamente derrotista.
O gaudeamus igitur, uma canção ligada aos meios académicos, é um bom exemplo da melancolia que tinge o próprio «gáudio» mesmo quando grita carpe diem, ou seja, curte enquanto podes, man:
"post jocundam juventutem, post molestam senectutem, nos habebit humus"...
(depois da jocosa juventude, da molesta velhice, a terra há-de ter)
A «alacridade» que partilha com a alegria o étimo, parece aproximar-se mais da agitação física, do entusiasmo, e, nesse sentido, é o potro a galopar na planície, os cachorrinhos a fingir que lutam.
A «jocosidade», essa anda perto do riso, do «jogo», da representação, da comédia, do jogral.
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Quando as definições nos derrotam, regra geral, é porque não sabemos demasiadamente bem do que estamos a falar.
E assim, só resta uma solução, esticar o dedo e dizer:
- Pá, um salpicão é isto aqui, olha. É disto que eu estou a falar.
E a alegria, a alegria perfeita de que eu estou a falar é a da Zazie escrita pelo Raymond Quenau e filmada pelo Louis Malle, com a Catherine Demongeot aos pulinhos em Paris.
Cliquem aqui. Se não concordarem, problema vosso.

sábado, agosto 01, 2009

Eleições a vir



Este é um dos inúmeros cidadãos atropelados pelas questões fracturantes que dividem a nossa sociedade e, sobretudo, os programas dos líderes partidários.
O Portugal, Caramba! deseja-lhe um pronto restabelecimento, a tempo de ir votar, pelo menos.

quarta-feira, julho 29, 2009

Sem título

- Man, pá! Essa porcaria desse blog anda ou não anda?

quarta-feira, julho 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XX)


O pássaro chamou-a de entre os ramos:
- Tu, ó miúda!
Aka parou.
- Quem te ensinou a arte da camuflagem não era lá grande espingarda, pois não?
- Não, creio que não.
Posso sentar-me aí ao pé?
O pássaro afastou-se para lhe arranjar lugar.
Aka trepou pelo ramo principal.
- Nós, as mulheres - disse ela depois - se calhar, temos de aprender tudo sozinhas.
Porquê?
- Com essas roupas, ainda chamas mais a atenção.
Para te esconderes, tens de fazer como eu.
Atrás de um jornal, pensam que és lixo.
Ninguém quer saber do lixo.
- Mas eu não me queria esconder, sabes?
Queria ser livre, queria ser bonita. Queria correr o mundo.
- Eras logo caçada.
- São eles quem me esconde nestas roupas.
- Pobre miúda!
Pertences a uma reserva para caçadores ricos.
São as piores: engodam-nos, engordam-nos e depois, pás, pás, pás!
Caímos que nem os tordos.
- Tu não és um tordo?
- É um modo de falar. Não faço a mínima ideia.
- A mim disseram-me que nunca devia esquecer que sou.
- E tu não te esquceste. És tu.
- Sou. Eu sei que sou. Mas às vezes, não me lembro a tempo.
- Olha, fica com este jornal.
Precisas mais dele do que eu.

domingo, julho 19, 2009

Alô experiência, 1, 2, 3, Edith Piaf

Sem título



Se os pintas deviam ser obrigados a estar quietinhos para a gente os desenhar, o que dizer de uma cadelinha, Fidji de seu nome, que não pára um segundo?

quarta-feira, julho 15, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Mudar de ideias e atirar com a porta


Há dias, quando li que a Maria João Pires, talvez num dia em que acordou com os pés de fora, queria abdicar da nacionalidade portuguesa e tornar-se brasileira - ou checalòturca, pouco importa - comentei cá para comigo:
- Bom, é o mais sagrado dos seus direitos.
Arranjei um papelinho e, à mesa do café, desatei a escrever os nomes das pessoas que eu admiro.
A lista - digo-o com um orgulho a roçar a arrogância - coube nas costas de um talão do multibanco e sobrou espaço. E tinha muito, muito poucos portugueses.
-
Eu sei que o defeito é meu.
Sobretudo quando penso que a melhor parte do escasso rol já nos bateu com a porta na cara.
O Jacques Brel, por exemplo.
Ou a Piaff.
Ou o Bertrand Russel.
Ou o Albert Camus.
Ou o Zé Afonso.
Ou o Prévert.
Mas ninguém me mereceu a mais pequena ponta de consideração por ser português, por ser espanhol, por ser turco ou grego.
Não me interessam essas imaginárias linhas postas ali, onde «alguém», a golpes de espada ou a tiros de metralhadora, determinou que uma criança passava a ser chamada judia ou palestiniana.
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Sempre achei de uma inaudita crueldade que esses «alguéns» tivessem dito à Maria Helena Vieira da Silva que passava a ser apátrida.
E que ainda hoje o possam dizer a um guineense que trabalha, que paga contribuições ou que, simplesmente, vive.
Quantas vezes me apeteceu gritar bem alto: «Se é isto o Portugal que vocês querem, fiquem com ele. Eu vou-me embora.»?
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Mas vou ficando.
"Talvez porque não dou a ninguém o direito de me expulsar da minha terra", escrevo. "Talvez por simples cobardia que encontra nas ideias grandiloquentes as melhores desculpas", continuo, já com o recurso a um segundo talão do multibanco e uma pontinha de vaidade no estilo.
E escrevo ainda:
- «Matai-vos uns aos outros», recomendou o Jorge Reis ao partir para Paris. E, quem sabe, talvez não seja por acaso que a "mulher-cão" da britânica Paula Rêgo tenha o feitio de corpo e a cara de uma portuguesa.
-
Se a Maria João Pires quiser ir-se embora como tantos outros se foram, que dizer se não que é o mais sagrado dos seus direitos?
E se for mudando de ideias e for ficando, que dizer também, se não que é outro dos seus direitos não menos sagrados?

terça-feira, julho 07, 2009

Crime no Polo Sul

- Acredite, Inspector: vejo em si o mais perfeito exemplar de funcionário que jamais me foi dado conhecer em vinte anos de auditorias. Os meus parabéns.
- Obrigado, Senhor Professor. Nós lá no Serviço Central acreditamos na perfeição.
- Pode continuar as escavações, se tem ordens para isso. Afinal, o Pólo Sul pode ser muito grande, se considerarmos que um pólo não é necessariamente um simples ponto.
- Pois não, Senhor Professor.
- A questão é só o raio.
- O raio? - rindo: - Não, não, aqui não há trovoadas.
- Se considerar um raio de aproximadamente vinte mil quilómetros em torno deste ponto, então, tecnicamente, os seus superiores têm razão.
- Sim, Senhor Professor. Os Superiores têm sempre razão. E para nós até dá jeito.
- Todos os crimes, por definição, ocorrem no Polo Sul.
- Vê, Senhor Professor? É o que nós lhe dissemos. Estamos no centro de toda a criminalidade e ainda ganhamos subsídio de deslocação.
- Portanto, se ocorrer um crime em Lisboa...
- É um mero fenómeno periférico, Senhor Professor. Como realça o Senhor Ministro, são coisas de marginais.
- Perfeito. Mas prefiria procurar o Yeti mais para cima, Inspector.
- À vontade, Senhor Professor. Mas olhe que lá tem-se muita luz. Aqui investiga-se melhor durante os seis meses de noite. Depois troca-se a polaridade e vamos investigar para o Pólo Norte. Está a ver, seis meses aqui, seis meses lá, subsídio para cima, subsídio para baixo... É a alternância democrática, ou coisa assim. E quando estamos lá, o Governo pode dizer que não há crimes por resolver. Tecnicamente falando, claro, como o Senhor Professor disse e muito bem.

sexta-feira, julho 03, 2009

Jeux interdits

- Sei lá... a brincar aos governos, se calhar...

terça-feira, junho 30, 2009

Que fizemos do luar de estio?


Que fizemos do luar de estio em que os corpos se atormentavam em desejos e tabus?
Que resta das noites claras em que a palavra afagava o silêncio
das bocas suspensas no amor?
Que sobra de nós nos gestos invocados no tempo incerto
dos dias vazios de sol e de mar?
Tanto tempo demorado na memória
dos sonhos por fazer!
Agora lavro o tempo onde receio que rosa alguma florirá
(e contudo, insisto teimo e semeio)
José Alberto Damas

Degraus de Silêncio


E avança uma Velha sem Restelo:
- Qual é o Mar Português?

(o das lágrimas de sal...)
Esse mar nunca existiu
Ignora a cor das nações
Tratados que nunca viu
O mapa das intenções
Do homem que as coloriu

O mar não é português
Quando quer afunda os sonhos
Quebra a vaga de ilusões
Derruba barcos tristonhos
Sem olhar a distinções
No homem que as perseguiu...

Existe no mar um azul sem alma
E na mudança das suas feições
Nem páginas de resgatar a calma
Nem vogais de atestar circunscrições...

E fundo - no seu mistério
Sempre calando assistiu
À rota das ambições
Sem as lágrimas de sal
Nascendo das convicções
Do Homem só que Partiu...


Ana Maria Puga

degraus de silêncio

Papiro Editora, 2009

segunda-feira, junho 22, 2009

sexta-feira, junho 19, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIX)



- Aka, há destinos como o teu.
Estão muito para lá do bem e do mal.
Passam por sítios proibidos onde um passaporte é só um pedaço de papel, sítios onde nem todo o oiro do mundo te resgatava a alma, quanto mais esse corpo que nem para a cama serve.
Sítos onde só contam as minas, as balas, os arames farpados.
Mesmo com catorze anos, Aka, já devias ter percebido porquê.
- Não tenho de perceber, Aia, e não quero perceber.
Para lá do bem e do mal, como tu dizes, o meu Deus ensinou-me que não há nada.
Continuas a não ter direito nenhum de me bater.
- Não te faças mais parva do que és, Aka.
Tenho todos os direitos, estou aqui em nome da violência.
Julguei que já tinhas entendido: eu não sou a tua mãe, Aka.
Sou a tua carcereira.

sábado, junho 13, 2009

Sem título

Havia de haver uma lei que obrigasse os pintas a ficar quietinhos ao menos um par de minutos quando a gente os quer desenhar.
Aqui fica a sugestão.

quarta-feira, junho 10, 2009

Wiseguying

José Gil, Em busca da identidade - o desnorte, Relógio d'Água, 2009
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João Miguel Tavares, "Cuidado com os nomes que chamam aos vossos filhos", Notícias Magazine de 7 de Junho, pag. 82
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Não quero que ninguém venha ao engano: este post é acima de tudo sobre um senhor, João Miguel Tavares de seu nome, jornalista freelancer dizem, que assina a página "Vida familiar" no Notícias Magazine de 7 de Junho último.
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É uma página curiosa.
Ao que me pareceu - e li-a atentamente mais de uma vez - o João Miguel Tavares vem a público mostrar a sua profunda indignação por não dever chamar, ternurento como é, «meu querido crapulazinho, meu g'anda sacaninha» ao seu filho Gui.
Pois quê?
Um pai já não pode dar um beijinho a um filho quando ele rasga os jornais do papá?
Já não se pode babar de puro gozo com as pequeninas malandrices do rebento?
João Miguel Tavares não diz e, provavelmente, não o pensará. Mas ficou-me a impressão de que, para ele, cuspir na Tia Ermelinda que, coitadinha, tem bigode, ou bater na Mãe que lhe recusou o equivalente a uma bola de Berlim antes do almoço, são pecadilhos que terão de ser reprimidos com um simples «anda lá, meu malandreco». E pimba! Um beijinho na bochecha.
Mas isso, como ele próprio reconhece, é porque não percebe nada de Filosofia.
Parece-me um facto: o João Miguel Tavares terá alguns defeitos, quem sabe, mas não o tenho na conta de mentiroso. E todo o texto da "Vida Familiar" o confirma.
Do opúsculo de José Gil - e ninguém é obrigado a escrever sempre em quantidade, só, por respeito a si próprio, em qualidade - João Miguel Tavares apenas nos dá conta de uma coisa que qualquer professor, qualquer psicólogo ou educador minimamente atento sabe de ginjeira: que, para a criança, a atitude dos pais é muito mais significativa do que as palavras proferidas. Bem podemos ralhar com a criança, dizer-lhe «isso não se faz» se o tom em que o fizermos for o primeiro e claríssimo desmentido das nossas palavras.
Para Gil, esta tolerância excessiva, mais não faz do que mostrar à criança que a malandrice, a pequenina trafulhice a meio caminho da desonestidade, é mais do que permitida; de facto, é desejável, o único meio para vir a ser um «chico-esperto» de sucesso numa sociedade de «chicos-espertos», governados pelo «chico-espertismo».
E, por curioso que pareça, não sendo, como ele próprio diz, um Filósofo, João Miguel Tavares mostra claramente que o percebe. Percebe que o chico-espertismo é um conceito central no modo como vivemos a cidadania em Portugal. Central, mesmo que não se apresente com a dignidade de uma expressão latina ou, o que seria ideal, americana (wiseguying, por exemplo, não sei se daria, mas que era mais cool, era).
Percebe. Mas o tom de simulação per contrarium (uma das formas mais fáceis da ironia) esse, diz-nos que não aceita.
Diga-se: não acredito que ele, Pai extremoso, deixe o Gui andar a correr aos uivos no restaurante incomodando toda a gente ou que lhe ralhe chamando-lhe «meu malandreco». Portanto, quando escreve que "o chico-espertismo abala a pátria e eu estou a ser cúmplice. A bem do futuro da nação, vou começar por trocar os livros da Disney pela obra completa de José Gil" e por aí fora, o que está a dizer o João Miguel Tavares, ele que não é Filósofo?
Eu diria, se ousasse interpretar, que, tal como muitos outros cronistas da nossa praça, está só a mostrar o seu wiseguyism.
Um dia, quem sabe se não será útil?
E já agora, trocar os livros da Disney pelos de José Gil talvez não fosse assim tão má ideia.
Primeiro porque evitava que os mocinhos lá de casa lessem porcarias. E depois porque ficavam com qualquer coisa realmente valiosa nas estantes para lerem mais tarde. E o Pai João Miguel também podia ir aproveitando.

segunda-feira, junho 08, 2009

Sem título


- Afinal, Tio La Fontaine, como é que era essa fábula?

quinta-feira, junho 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVIII)



Não era anormal dirigirem-se a ela;
o guarda-costas limitava-se a vigiar, lá de longe.
- Não olhes as pessoas nos olhos. - ralhava a Aia.
Mas Aka nascera assim, perguntadora.
Os olhos, castanhos ou verdes, conforme a luz, inquisidores, captavam tudo e todos.
Deixavam-se captar por todos e por tudo.
O mágico tirou do turbante uma rolinha branca, depois olhou em volta, fê-la desaparecer nas mãos de um jovem de cabelos para a testa, em seguida pegou nas de Aka, colocou-lhe a direita em concha sobre a esquerda:
- Ah-ah! Voilá notre petitte voleuse! Quer mostrar-nos o que tem aí escondido?
Aka sentiu cócegas na palmas das mãos, como se um animalzinho crescesse e lutasse para sair.
Quando as abriu, a aranha sentiu-se livre, saltou para o chão.
Houve gritos, gente em fuga, uma rola branca voou.
O skin da grande barriga tentou com a bota, uma vez e outra, esmagar a aranha assustada.
Com as suas grandes patas, correu por entre pés de gente e de cadeiras.
Num instante surgiu um grupo para dar caça à "tarântula" e outro para defender os direitos da pobre «bestiole assustada».
Não viram o mágico curvar-se profundamente, mãos postas diante do rosto.
- Posso saber o nome daquela a quem devo ter visto um milagre? - perguntou ele.