sábado, outubro 31, 2009

Grande farra bloguística

Foi porreira a nossa festa, pá!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Adenda: Saramago e Richard Zimler, afinal estavam de acordo


Não sendo nós, aqui no Portugal, Caramba! nem católicos, nem judeus, nem particularmente fãs de Saramago, consideramos que esta procela nos passa de largo em enorme medida.
Mas registámos com muito interesse esta opinião expressa por Richard Zimler:
Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento.
Richard Zimler,
«Saramago e a insustentável leveza da ignorância»
in Público, de 27 de Outubro de 2009

Pronto, ficou registado: Zimler, mesmo considerando que "as criticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais" e que "revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais", concorda com ele no que de fundamental lhe ouvimos.
(Post alterado em 28/10/2009)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Uma citação, quiçá incómoda, mas atempada...














"... for his work is marked by both idealism and humanity..."
Prémio Nobel da Literatura (que recusou) de 1925
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"Por outras palavras: como não nos podemos livrar da Bíblia, ela se livrará de nós, a não ser que aprendamos a lê-la dentro do «espírito adequado»; e este parece ser o espírito de integridade intelectual que obriga os pensadores honestos a ler com toda a força da sua inteligência todas e cada uma das linhas que se arrogam autoridade divina, julgando-as exactamente como julgamos o Alcorão, os Upanichades, as Mil e Uma Noites, o artigo de fundo do Times de hoje, ou a caricatura do Punch da semana passada; isto é, sabendo que todas as palavras escritas estão igualmente abertas à inspiração da fonte eterna e igualmente sujeitas a erro, graças à imperfeição dos seus autores, entes mortais."
"[...] É que a religião inculcada pelos livros antigos é um ritual cruel e atroz de sacrifícios humanos, para aplacar os furores de uma criminosa divindade da tribu que, por exemplo, foi induzida a poupar a raça humana ao aniquilamento num segundo dilúvio, apenas pelo prazer que lhe dava o cheiro da carne queimada, quando Noé, «tomando de todas as rezes e de todas as aves limpas, lhas ofereceu em holocausto, sobre o altar»."


Georges Bernard Shaw,
The Adventures of a Black Girl
in Her Search for God,
1932

terça-feira, outubro 20, 2009

sábado, outubro 17, 2009

Implosão

Dizem que o estádio Mário Duarte tem de ser implodido.
Concordo.
Não é, como alguns podiam aleivosamente pensar, pelo facto de eu não gostar de futebol, o que até nem é verdade, vejam lá.
Gosto sim, senhora! Gosto de ver os putos a correr, como eu corri, atrás duma chincha, aos gritos de «passa, c...!».
O que eu não suporto são os jornais da «bola», que se arrogam o direito a ser designados como «desportivos».
Desportivos? Aquilo? Imaginam?
Mas, pronto. Façamos de conta. Ainda há pior, dá para crer?
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Há, garanto-vos. Há os pugramas da televisão, com as genialidades do costume, desde o Sr. Oliveira e Costa que é sondeiro, ao câmara-man Fernando Seara, ao animatografista António Pedro de Vasconcelos e ao físico Dr. Barroso, ao Sr. Medeiros Ferreira que já foi muita coisa e agora não sei o que é, para só falar destas, que são as eminências.
O que vale é o comando à distância: daqui onde vos estou a escrever, clic, e pof! Não sei para que freguesias irão pregar, da minha, desaparecem.
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Compreendem que eu ache bem a implosão do estádio de Aveiro. Preferiria, claro, que ele fosse explodido.
Não é preciso ser Engenheiro Civil (nem primeiro ministro sequer) para perceber que os pedaços de betão, atirados pelos ares, dariam uma péssima imagem do nosso pobre país. Além de esburacarem consideravelmente os já de si precários lares dos aveirenses, de lhes partirem os vidros, quem sabe até se não entupiriam a ria de Aveiro, mais do que a poluição, claro, e até podia bombardear gravemente a base aérea de São Jacinto - onde, felizmente, ainda ninguém pensou em fazer o novo aeroporto de Lisboa.
Eu sei disto tudo!
Mas já viram?
O dito Estádio Mário Duarte, de Aveiro, custou uma beca. Tinham-se previsto uns trinta milhões, mas foi parar quase aos sessenta e cinco. Dinheiro que, em vez de gerar alguma riqueza, como seria de esperar, anda a gerar tais despesas que não há quem aguente, muito menos a câmara de Aveiro.
Não se podia fazer como o muro de Berlim?
Escaqueirava-se e vendiam-se os bocados a bom preço?
É claro, primeiro tinha de se encomendar uma pinturas, assim para dar ar de que também somos artistas. Reservava-se uns metros quadrados para o Pomar, por exemplo, mais um ou dois que não cito para não criar invejas, depois entregava-se o restante a umas crews de Lisboa e do Porto - uma havia de ser local com direito a entrevista pela Drª Moura Guedes, pelo menos - para grafitarem à vontade.
Quando fosse da explosão, já viram o que podia valer cada bocadinho?
Podiam vender-se bilhetes para assistir, abrilhantava-se com fogos de artifício para dar cor, ganhava-se um dinheirinho a alugar capacetes tipo das obras, vendiam-se umas bebidas...
Depois era a parte verdadeiramente comercial.
Uma boa carga de explosivos havia de fazer, pelo menos, vá lá, uns dez mil pedaços de bom tamanho. Vendidos a seis mil e quinhentos euros cada, mais depesas de recolha e de entrega, só isso já pagava o investimento.
E ficava toda uma indústria para os aveirenses: catar pedacinhos de betão, pôr dentro de uma caixa e vender aos turistas junto com as barriquinhas de ovos moles.
Estou a imaginar os comerciantes: «está a ver aqui este cantinho? Não é sujo, não senhor! É uma pincelada ocre da Paula Rêgo; vinte euros e não se fala mais nisso.»
Direis: e os vidros partidos? E os telhados arruinados?
Tudo tem solução. O Governo abria uma linha de crédito bonificado para os proprietários fazerem as necessárias reparações. É o que se costuma fazer com todas as catástrofes, chuva, incêndios, inundações, quedas de pontes, tudo. E não me venham dizer que o Euro-2004 não foi uma catástrofe para este pobre país, porque foi.
Façam as contas e digam-me: venderam-se muitos hectolitros de cerveja, pois venderam. E que mais?
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Se o negócio pegar, temos a seguir o de Coimbra que, informam-nos(1), era para custar catorze milhões e custou cinquenta e seis, Leiria que subiu de trinta para setenta e quatro. E depois Faro-Loulé, também havia de ser jeitoso. E Guimarães; e o Beça, mesmo se desses não sei os preços.
Quando se acabassem - enfim, poupava-se o Dragão que parece ser rentável - até se podia construir mais para se ir explodindo. E já viram? Quanto maior fosse o delizar dos custos, melhor: mais caros se vendiam os pedacinhos.
Ou em alternativa, talvez o Alqueva. Já alguém nos disse quanto custou efectivamente e quanto está a render?
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E enquanto andássemos entretidos a construir e a explodir, deixávamos em paz a pobre da Maïté Proença que, para além de ser muito bonita, tem o sorriso mais sedutor que eu me lembro de ter visto(2). Lembrem-se: uma mulher bonita teve, desde sempre, o direito a dizer o que lhe passasse pela cabecinha e nós, cavalheirescamente, só temos de sorrir e dizer que sim, pois claro, isso e o contrário se for preciso.
Nunca, por nunca ser, temos o direito às explosões de grosseria como a destes últimos dias. E manifestações de desagravo, já me chegaram as do tempo do Salazar.
Disse.
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1) Nem sob tortura revelaremos que a nossa fonte foi o jornal Público de 16 de Outubro, p. 11.
2) Pensando melhor, estou a lembrar-me de alguns outros, bem sedutores também, e que eu conheci mais de perto.
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segunda-feira, outubro 12, 2009

Distanciação erudita

1.
"... em que tipo de ensaio estava eu empenhado? Numa peça de análise linguística objectiva ou numa diatribe velada contra os padrões em declínio? Seria eu capaz de manter um tom de distanciação erudita, ou seria inelutavelmente dominado pelo estado de espírito em que Flaubert escreveu o seu Dicionário das Ideias Recebidas, um estado de espírito de impotente desdém?"
2.
"Devia rever completamente as minhas opiniões, era o que eu devia fazer. Devia apartar as mais antigas, as mais decrépitas, encontrar outras mais novas, mais actualizadas para as substituir.
Mas onde ir para encontrar opiniões actualizadas?
A Anya? Ao seu amante e guia moral, o corretor Alan? Pode-se comprar opiniões frescas no mercado? É permitida a entrada na bolsa a velhos de vista fraca a mãos artríticas, ou seremos unicamente um empecilho para os novos?"
J. M. Coetzee, Diário de um ano mau, 2007



domingo, outubro 11, 2009

Not enough cooks


O Carneiro guisado de hoje deve ser o único stew do mundo que, quantos mais cozinheiros lhe meterem a mão, melhor fica.
O nosso, estamos em crer, tem tido muita falta de gente ali à volta.

quinta-feira, outubro 08, 2009

... tipo, há três anos inteirinhos


Este post anda por aqui atravessado há já um bom par de dias.
Porquê, vejam se percebem.
Nós aqui, no Portugal, Caramba! estamos no ar - uma expressão vinda da rádio - tipo, há três anos inteirinhos.
Desde o dia 6 de Outubro de 2006.
Impunha-se uma comemoração, claro, com pastéis de bacalhau e uns decilitros, azeitonas, queijinhos de Évora e mais decilitros, bagaceira e charutos.
Mas não seria a altura de perguntar: «que diabo estamos nós aqui a fazer, caramba?
Tínhamos um propósito quando começámos. Como a natureza é vária, não publicámos nenhuma carta de intenções e ainda bem; mas queríamos compreender «como é que chegámos aqui».
Durante algum tempo foi a nossa preocupação: português, sim, mas o quê?
Onde e quando começámos a ser os pequenotes convencidos de que inventávamos alguma coisa quando dizíamos «cozido à portuguesa», ou mesmo «socialismo à portuguesa»? Quando nos extasiávamos perante a Torre de Belém e revirávamos os olhos exclamando «ah! como são lindas as margens do Mondego»?
Para amadores como nós, a melhor via, em calhando, seria a literatura.
Percorremos os alfarrabistas em busca de escritores portugueses (quanto mais «carambistas!», melhor).
Lemos e demos conta de autores que, na melhor das hipóteses já ninguém lê, na pior, de quem nem sequer se ouviu falar. Intervalámos com outros, mais conhecidos ou mais recentes, desde o Gomes Leal até ao Nuno Bragança.
E como somos apaixonadamente leitores de histórias, todas as histórias, mesmo em quadradinhos; e como somos obsessivos contadores de historinhas, todas as historinhas, mesmo as mais tolas, decidimos acompanhar cada post com um desenho.
E temos cumprido, caramba!
Ao fim de trezentos e quarenta e cinco entradas, fizemos duzentos e setenta (270) desenhos, recuperámos das gavetas e cadernos mais quarenta (40), copiámos daqui e dali (capas de livros, ou assim) uma dúzia e meia (18); fotografias com a devida vénia, isso é que foi pouco: vinte e duas (22). Tudo isto mais ou menos, está bem de ver. Quem quiser que conte melhor.
Mas deu trabalho, pois deu.
E ao fim e ao cabo, talvez a ambição fosse desmedida, mas continuamos a não perceber como foi possível «chegarmos aqui».
Aqui, irmãos! Aqui.
Não nos referimos, como seria de esperar, à pobreza, à insignificância deste rectângulozinho de que até o Alberto João faz troça: não é isso que importa.
O facto é que por cá andamos há oitocentos anos, sempre em crise, com fomes e pestes, sempre com leis salvadoras como a das Sesmarias, sempre com ideias miraculosas como a Índia ou os oiros do Brasil, as colónias e a CEE. E ainda estamos entre os trinta países mais ricos, mais livres, mais tudo o que nos apetecer, do mundo inteiro.
E, em vez de nos ajoelharmos e agradecermos ao Senhor, ao acaso, à geografia, à divindade mais do vosso agrado, arrepelamos os cabelos, choramos em grande grita.
Porquê?
Para quê?
É isto Portugal, caramba?
Pois. Estamos em crer que é.

domingo, outubro 04, 2009

Nada a declarar


- Esta vai ficar-lhe mesmo, mesmo a matar, vai ver!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Clareza e distinção

Regra primeira, dita da evidência:
" Le premier était de ne recevoir jamais aucune chose pour vraie, que je ne la connusse évidemment être telle..."
R. Descartes, Discours de la méthode, AT VI, pag. 18

domingo, setembro 27, 2009

Dia de Carneiro Guisado

Tacci em versão «esquerda caviar»
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Comentador político que detesta esses meninos bem da política displicente
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Nós aqui no Portugal, Caramba! confessamos: não somos militantes do caviar.
A militância exige uma dedicação constante.
O caviar, graças a Deus, não.
Claro que adorávamos poder pertencer uma direita «toucinho do céu e Lacrima Christi de 1906 no solar das Tias Xabregas».
Hélas! os pergaminhos não dão para isso.
E à direita «pastel de nata» pertençam vocemecês se quiserem.
Há também, é claro, uma esquerda «sardinha assada», tipo «feira popular».
Aí sim!
Bem nos regalamos com militâncias dessas, com pimentos!

quarta-feira, setembro 23, 2009

domingo, setembro 20, 2009

Como sempre, por uma intenção muito particular.
Mesmo que não sejamos crentes.

sábado, setembro 19, 2009

segunda-feira, setembro 14, 2009

Madrid que bién resistes


De las bombas se rien,
de las bombas se rien,
de las bombas se rien,
mamita mia,
los madrileños,
los madrileños.

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sexta-feira, setembro 04, 2009

Por exemplo, um escritor


O Portugal, Caramba! tem estado, digamos, um tanto parado e vai continuar assim por mais uns tempitos.
Mais preguiça do que férias, mas as coisas são como são: tempo morno, os dias ainda grandes, as primeiras chuvitas a anunciar o Outono...
Porque é que não aproveitam e não vão à festa do Avante?
Amanhã que, segundo tudo indica, será Sábado, há a «festa do livro» e vai lá estar o Sérgio de Sousa que uma vez por outra, quando o rei faz anos, colabora com este blog.
Quanto a nós, se alguém perguntar, fomos para Tombuctu.
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sábado, agosto 29, 2009

quarta-feira, agosto 26, 2009

Quem pensa não casa (II)

O que é um casamento?
Sabem?
Nós aqui no Portugal, Caramba!, tirando alguma prática (mas há quem tenha bem mais) não temos grandes certezas.
Nas relações mais ou menos íntimas entre as pessoas, há de tudo. Há as «de papel passado» e sem papéis - mas também há seres humanos que os não têm e não deixam de ser gente. Há a coabitação, breve, quantas vezes, e relações sem coabitação que duram décadas.
Tudo, mesmo tudo: desde a simples amizade colorida a «o homem dela», «a mulher dele», os «amigados» e os «juntos»...
Até o célebre, "ah, soutor juiz, era a mulher dele, atão não era, ele batia-lhe e tudo..."
Onde - e, mais importante ainda, para quê - traçar os riscos, as fronteiras?
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Mas, pronto, quem não sabe, vai ao dicionário.
Corre-se o risco de encontrar apenas as definições do senso comum, uma ou outra noção de pendor legal, mas é verdadeiramente instrutivo.
Vejamos:
A Infopédia, aqui à distância de dois cliques, considera-o, um tanto inocuamente, um "contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto".
Não é muito dogmático, não prescreve género nem sexo dos nubentes, mas lá vem, como quem não quer a coisa, a exclusão dos casamentos múltiplos, poliândricos, poligâmicos ou ambos ao mesmo tempo.
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Mas recuemos um pouco no tempo:
O meu Diccionário Prático Illustrado, de Jayme de Seguier (Lello & Irmão, 1944), por exemplo, não é tão permissivo.
Os tempos eram outros, por isso o que encontramos é:
"união legítima entre homem e mulher. Cerimónia nupcial."
E acrescenta:
"Fig. Reunião, associação".
Para evitar as confusões, distingue a seguir o casamento religioso daquele que é contraído perante a autoridade civíl, sem a intervenção da Igreja.
Anotemos: em meados do século passado, a união devia ser legítima, ou seja, ter "as qualidades requeridas pela lei" para poder ser considerado um casamento.
«Legítimo», dizia-se sobretudo "da união conjugal consagrada pela lei, e dos filhos que nascem dessa união..."
Por sua vez, «legítima», no feminino, podia ainda ter como primeiro significado "a porção dos bens, de que o testador não pode dispor por ser aplicada pela lei aos herdeiros em linha recta..."(1)
Reparem: "a lei aplica".
É um dicionário precioso que nos coloca desde logo no domínio das heranças, da legitimação dos filhos que herdarão a legítima e por aí fora. Mas não é o único que se deixa estar aqui pelas nossas estantes.
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Um outro, mais antigo, o Simões da Fonseca, (H. Garnier, Livreiro Editor, 6º. edição melhorada, Paris-Rio de Janeiro, sem data, mas certamente de meados do século XIX em diante), talvez por ser brasileiro, é muito mais simples: "contracto, e cerimónias religiosas e civis do matrimónio". Não deixa, no entanto, de acrescentar à noção de «contrato», a de «dote», os bens que se dão à pessoa que se casa ou entra para o convento.
O lado patrimonial, portanto, tal como a «legítima».
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Continuemos.
A etimologia também dá, por via de regra, indicações interessantes; as palavras costumam revelar acerca dos conceitos mais do que a militância conservadora gostaria. O «casamento» não podia fugir à regra.
Segundo José Pedro Machado, no Dicionário etimológico da língua portuguesa (Horizonte, 1987), «casamento» vem de «casar» e «casar» de «casa», "pois o acto do matrimónio traz o estabelecimento de nova casa".
«Casa», por sua vez, liga-se a «casal», "relativo, pertencente à casa; substantivamente, limites de uma propriedade; quinta, fazenda, herdade, granja; por ex.," acrescenta Machado, "os donos de qualquer dessas propriedades rurais; marido e mulher, par".
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O castelhano «casamiento» é muito próximo do português.
Mas, franceses e ingleses, com o «marriage» apontam-nos mais no sentido de «maridança» que Sguier, pudicamente, explica como "vida de casados".
Machado, porém, escudado pela boa antiguidade, avança citando do sec. XV: "...e que depois do dito recebimento a tevera sempre por sua molher ataa o tempo de sua morte, vivemdo ambos de consuum e fazendosse maridança qual deviam".
Quanto a «casamento», estamos conversados: casa, legítima, dote e maridança...
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Resta o Matrimónio.
Não sei quando instituiu a Igreja de Roma este sacramento. Mas a palavra escolhida para o designar é bem reveladora da cofusão que se tem gerado em volta destes conceitos. «Matrimónio» liga-se, diz ainda o precioso Machado, com «madriz», "adj. Do lat. matrice-, «reprodutora, fêmea; seio, matriz»". Receio que o matrimónio, civíl ou religioso, fosse, de origem, um contrato de procriação.
Não é engraçado? Diz-se que dois jovens desejam contrair matrimónio - o que tem a ver com a mãe - e não que desejam contrair património.
Supunha-se, no entanto, que essa era a parte do pai.
Um casamento, por seu lado, parece-me apenas um contrato de coabitação, complicado, é verdade, pela suposição dos legistas de que havia filhos e bens que seriam, mais tarde ou mais cedo, transmitidos.
Quero eu dizer:
Todo este imbróglio provem de se manter a confusão, inútil nos nossos dias, entre matrimónio e património, casa e pucarinho, juramentos de fidelidade até à morte, direitos de adopção...
E tudo isto acrescido ainda do estado que quer à força cobrar mais impostos aos casais, sejam eles o que forem: casamentos abertos ou fechados, múltiplos ou monogâmicos, hetero ou homo: seja o que for, o estado cobra e ponto final.
Não é tão querido?
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1) Segier não o acrescenta, mas, em "a minha legítima", p. ex., o nome designava sobretudo a "esposa", por oposição, claro, à amante, à amásia, à amiga, a "teúda e manteúda". Não era, na minha humilde opinião, uma expressão muito respeitosa.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Clever Boys & Nice Girls


- Chorai, ó pedras da calçada - soluça o poeta arrancando do peito vasto a T-shirt dos Clever Boys. - Nenhuma mulher, por mais honesta que seja, está livre de dar à luz um filho da puta.
- Um quê? - ruge Nosso Senhor.
- Paradoxos... - diz o Diabo, com um risinho murmurado.
O Alberto Pimenta encolhe os ombros:
- E só agora é que deste por isso?
Os Clever Boys não disseram nada, entretidos como estavam com as Nice Girls.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXI)

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- O que é que faz esta gente toda? - perguntou Aka.
- Gente? Que gente?
Aka designou com um gesto a pequena multidão que saía do Metropolitano.
- Não sei. Aquele, por exemplo, podia ser um ajudente de cozinha no nosso hotel. E a mulher que vem com ele, talvez trabalhe na lavandaria.
- Estão aqui só para cuidar de nós? Não fazem nada?
- Tens uma ideia muito estranha do que é fazer ou não fazer.
- Não, eu percebo que eles trabalham e ganham o seu dinheiro e metem-no nos bancos e os bancos têm gente que trabalha para o guardar e os hospitais quando adoecem e o Pére Lachaise quando morrem. Mas a cidade, assim toda junta, serve para quê?
- Olha, para podermos vir cá ver os quadros que vamos ver.
- Mas, é só isso?
- Aka, se queres fazer uma análise de funções, muito bem. Mas não fales alto: as pessoas vão pensar que tens o síndrome de Asperger.
- Mas não tenho. Sabes perfeitamente que as Aspergers nunca se riem. E eu rio-me.
- Sim. Quando calculas a raiz cúbica de 12. 290 mais depressa que o teu computador.
- Devias ter dito 12. 167. Era uma raiz perfeita. Mas isso é só quando eu me chamo Wolfgang, o que é muito raro quando se é só uma rapariga.
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