quinta-feira, dezembro 31, 2009

Obediênciazinha, pois então! (I)


Do que vos quero falar, ou, dado que o Portugal, caramba! se tem vindo a transformar em mais um blogue do eu, o que eu quereria perceber, é:

Porque havemos de obedecer a uma ordem?

Mas, claro, tenho de começar por algum sítio e, portanto, aquele estranho acontecimento passado lá para os lados de St. Margarida, ou de Tancos, serve perfeitamente.
Lembram-se?
Eram umas sete da manhã, vem um condutor na sua carrinha, tinha andado a distribuir jornais e, a meio da estrada, a ocupar-lhe a faixa, ia um pelotão de futuros paraquedistas vestidos daquela cor chamada verde-tropa, escolhida justamente para não dar nas vistas. Cumpriu a sua função. O condutor não os viu realmente - ou só demasiado tarde.
Acidente, dezasseis atropelados, três muito graves.
Não interessa se houve ou não culpados, se foram castigados, se alguém indemnizou as vítimas ou se está tudo perdido na burocracia de um ex-tribunal militar.
Claro, as notícias falaram de um carro desgovernado, um motorista adormecido ao volante ou cansado ou qualquer outra coisa que justificasse o desastre. Tudo menos o óbvio: a tropa está-se nas tintas para as leis quando não lhe apetece cumpri-las. No caso eram as do trânsito, poderiam ser outras.
Não que a tropa não cultive a obediência.
Tem Nepes, tem Erredêémes, tem as suas bíblias e faz gala em que tudo seja by the book.
Excepto se aos sargentos e oficiais outra coisa não ocorrer, mas isso é outra conversa. Relevante é que não tenha havido muito mais informações sobre as necessárias sequelas do acidente. A obediência e o silêncio andam frequentemente juntos. A cegueira segue-as de muito perto.

2.

A obediência na tropa é engraçada: parece ter sido feita de propósito para nos mostrar a que ponto pode chegar a alienação ou, para ser claro, até que ponto alguém pode prescindir da sua própria vontade, dos seus instintos até, se a palavra tiver algum conteúdo.
A que outro conceito poderíamos recorrer para explicar, por exemplo, as cargas de baioneta nos assaltos às trincheiras inimigas, quando um general francês ou alemão, que importa, sacrificava três mil homens para recuperar cem ou duzentos metros da terra de ninguém, uma aldeia arrasada e deserta, um pedaço de bosque onde, de novo seria preciso cavar trincheiras, instalar metralhadoras?
Lembram-se do Hans Castorp, o jovem doente (mas de quê?) que desceu do sanatório, na encosta da Montanha Mágica, a cinco mil pés de altitude? Vista de lá de cima, a pátria «assemelhava-se a um formigueiro em pânico». E o Hans mergulhou no vale e depois num batalhão académico:
"Eis o nosso amigo, eis Hans Castrop! Já de longe o reconhecemos (...) Arde, ensopado pela chuva como os outros. Corre, os pés trôpegos, agarrando a espingarda. Vejam, pisou a mão de um camarada caído, a sua bota ferrada afundou essa mão no solo lamacento, crivado de estilhaços. E todavia é ele!"
(Thomas Mann, A montanha mágica)

O que levará alguém a seguir o seu oficial, o seu pendão, o seu clarim até à morte? Ou, se preferirmos, o que terá levado os carcereiros de Auschwitz, os Eichmann deste mundo a obedecer às ordens que alegam terem-lhes sido dadas?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Jingle bels, jingle bels, ta-ta-ri-tatá,,,


Um Auto de Natal
-
A cena passa-se na estrada para Belém.
Três camelos carregados com os Reis Magos vão conversando.
-
Zé Camelo (cansado) - Ainda temos de os carregar por muito tempo?
Camelo mais velho (pacientemente:) - Ná! Dizem que é só até ao dia seis ...
Zé Camelo (duvidoso) - Ah! ... E tu acreditas?
Camelo mais velho (pacientemente) - Claro! Todos os anos há um dia seis em Janeiro, não há?
Zé Camelo (com uma vaga esperança) - Mas é só no Natal, não é?
Camelo mais velho (pacientemente) - Bom, é também no Dia das bruxas, por exemplo. E no São Valentim, no Dia da Mãe, na Páscoa... Mas é sempre Natal. Nunca ouviste dizer que o Natal é sempre que os homens quiserem?
Zé Camelo (admirado)- E os homens são esses que vão lá em cima?
Camelo mais velho (pacientemente) - Conheces outros?
Zé Camelo (cabisbaixo) - Então e nós?
Camelo mais velho (pacientemente) - Nós? Nós somos os camelos.
Zé Camelo (meditativo) - Hum...
Terceiro Camelo - Oxalá nos dêem azevias. Das de grão. O Bolo Rei já não se aguenta...
(Cai o pano)
-
O Portugal, Caramba!
deseja a todos os seus amigos
um Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.

sábado, dezembro 05, 2009

Se um avaliador incomoda muita gente...


Prof: Pá, havia de se fazer um congresso p'ra fazer um mais parvo do qu'a tu e n'haviam de conseguir!
Aluno: Ho-ho-ho! Pois não, professor!

-
Declaração
-
Pronto!
Declaro que gosto de pensar que fui um bom professor.
Não sei a quem hei-de pedir desculpas pela imodéstia. Aos alunos, claro, pareceria da mais elementar justiça, mas aos pais, nunca!
Mas não.
Aos alunos dei sempre o que tinha, o que roubava, o que inventava.
O que lia e o que escrevia, o que improvisava no meio da aula, com bonequinhos desenhados a giz no quadro preto.
(A propósito: sabem a história de Quonsumor, o Gordo? Estou a ver que não. Um dia hei-de procurá-la e mando-vos.)
Dei-lhes a oportunidade de pensar, de discordar, de discutir, de ser do contra ou do a favor, de me aceitarem ou me odiarem.
Pertencer, nas minhas turmas, passou pelo participar ou amuar num canto: a escolha era de cada um, em cada dia.
Muitos não aprenderam nada do que eu ensinei e atingiram o nível de excelência, como agora se diz, porque souberam pensar pela sua cabeça.
Mais do que aulas, quis que fossem foruns de liberdade.
Só houve sempre uma exigência absoluta: assumirem-se como gente, tratarem-se como gente uns aos outros.
Não sou romântico e sei que nem sempre consegui o que conseguia muitas vezes, que houve aulas preparadas ao milímetro que falharam completamente, estratégias mal pensadas que deram para o torto, turmas que não soube agarrar, que perdi alguns alunos e que, imagino, terei feito mal a outros.
Assumo que não sou modelo para ninguém.
E, para que conste, esclareço desde já:
Do que senti sempre mais a falta, foi da cooperação entre nós, professores das mesmas turmas e que rarissimamente conseguimos formar equipe.
O que mais odiei foram os exames, pré-formatados, cada vez mais preconceituosos, como se alguém soubesse de antemão como cada aluno vai responder, quais os seus erros, quais as interpretações que fazem sentido.
E percebo que nunca atingiria o nível de suficiente numa avaliação de desempenho como deve ser.
E gosto de pensar que me estaria nas tintas.
Mas atenção, não quero fingir que sou um herói: não garanto que a ameaça de os meus poderem vir a passar fome não tivesse o seu peso; talvez não conseguisse ser professor, talvez tivesse de me contentar em ser funcionário do Ministério da Educação.
Incomoda-me pensar nisso.
-
Bento Sequeira
(transcrito e adaptado por Tacci)

sexta-feira, dezembro 04, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Ó freguês, vai um sapatinho?

Quem não tem cão, caça com gato, não é o que se diz?
Eu, ainda bem que tenho cão, que essa história de andar aos tiros aos coelhos que andam lá na vida deles, nunca fez o meu género.
E não sendo eu um equilibrista, como o Dr. Barroso, essa coisa da Comissão Europeia também não me entusiasma muito.
O que me atrai, palavra, é o mundo dos negócios.
Já tenho meia dúzia cá na forja, vão ver se um dia destes não fico ainda mais milionário do que o Tio Belmiro.
Senão, veja-se: arranja-se uma tenda e vai-se de feira em feira com um monte de sapatos velhos (sugestão, para que conste, da autoria do Marreta e que podem encontrar nas caixas dos comentários algures lá para trás), fisgas e pedras, elásticos e bilhetinhos.
Por um euro, por exemplo, o cliente tinha direito a um sapato ou três pedradas num retrato à escolha.
Vinha um e dizia:
- Olhe, dê-me aí a Manelinha...
A gente, como qualquer bom negociante, acudia:
- Com certeza, tem V. Exª. muito bom gosto. E prefere a fisga, o sapato ou quer mandar bilhetinhos com recados?
- Bof... hoje vou pelo sapato. Já lhe mandei recados por causa do estatuto da carreira docente e viu-se!
E zás! Sapatada em cheio.
Vinha outro e pedia o Sócrates, o engenheiro.
- Ah! mas esse temos pena, só logo à tarde. É que sabe, tem tido muita procura, coitado ficou cheio de buracos. Estamos a pôr-lhe uns remendos, a ver se ainda se aguenta. É que é mau para o negócio, sabe? Se ele se vai abaixo, perdemos mais de 65% da clientela...
- Olhe, então dê-me aí uns bilhetinhos de amor.
- Muito boa escolha. Temos aqui a Penélope Cruz, a Maribel Verdú...
- Não, não. Eu quero é aquela, a Roseira...
- V. Exª. é que sabe... Mas olhe que bilhetinhos de amor a políticos, primeiro é muito mais caro. E depois, é que nunca se acerta.
E pronto. O negócio é este.
Aceitam-se sócios, de preferência com as duas coisas que a mim sempre me faltaram: o capital, que nunca houve. E a vontade de trabalhar, vamos lá que também nunca por cá abundou.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Post Scriptum



O Graza do "Arroios" (ligação ali ao lado) enviou-nos esta versão um pouco diferente da fisga digital, pelo que muito lhe agradecemos.
Aqui fica, para instrução e gáudio das gerações vindouras.

domingo, novembro 22, 2009

A Propósito de fisgas

Primeiro há que escrever uma mensagem num quadradinho de papel bem rijo.
Depois, começando num dos ângulos do quadrado, enrola-se apertando bem na direcção do canto oposto, e, quando tivermos um rolinho fino e comprido, dobra-se ao meio. A seguir, toma-se um elástico novinho em folha, prende-se a dois dedos bem afastados e colocando o rolo do papel de modo a que cada uma das pontas fique de seu lado do elástico, prende-se entre o indicador e o polegar da mão sobrante.
Depois é só esticar, apontar e zás! Larga-se.
Lá vai o papelinho direito ao alvo.
Têm alguma ideia do que querem escrever nos papelinhos?
Pois. Bem me parecia.
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Este post foi-nos sugerido pelo comentário, algures aí para trás, de uma gentil Anónima a quem ficaremos eternamente gratos.

Sem título








quarta-feira, novembro 18, 2009

A Grande Guerra

Não há, quem sabe, parvoíce maior do que querer imaginar o que dirão os hitoriadores daqui a uas décadas.
Mas, se lhes podemos deixar um recadito ou outro, que tal encararem todo o século XX como uma interminável guerra entre a Educação e a Babárie? (1)
-
(1) Pinta-me que temos perdido as últimas batalhas e que estamos a perder armamento.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Ceci non plus

Claro que não é um cachimbo!
Já estão fartos de saber: não passa de uns quantos píxeis miseráveis, encarcerados algures nos nossos computedores.
E algures, lá fora, um corruptozinho, igual aos outros todos, está a ganhar o milhão seu de cada dia. E o irmão dele, o primo, o amigo e aquele conhecido também, todos a fazer o mesmo, já viram?
Nós aqui, blogamos. Que mais?
Talvez devessemos estar acampados, ali em frente ao parlamento, com um cartaz enorme a dizer "volta Cravinho, estás perdoado!"
E, por via de dúvidas, levávamos as algibeiras cheias de pedras para atirar, sei lá, como diz a Ma'ga'ida. Nem que fosse aos céus.
Podia ser que acertássemos num desses anjinhos aldrabões que nos prometeram o paraíso na terra e, depois de o terem feito, o cercaram de arame farpado e puseram na porta: reservado o direito de admissão.
Alguém quer treinar a fisga?

segunda-feira, novembro 09, 2009

Incongruências

Faz vinte anos já que o muro de Berlim caiu por terra.
A bola, essa, continua impávida e serena nas vitrines das pastelarias.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Desgraças que acontecem nos blogues

- Pinta-me que se, no meu tempo, estas coisas já fossem assim, eu nem a quarta classe tinha conseguido fazer...

segunda-feira, novembro 02, 2009

Democracia... ou isso.

Acto único
Cena única
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(Em cena estão Tacci e o Político avisado)
Tacci - Já estou um bocado farto de ouvir dizer que a democracia é o pior dos sistemas políticos excluíndo os outros todos.
O que eu quero saber é: como é que os outros todos são excluídos.
Político avisado - Pois é fácil. À medida que vão aparecendo, a gente enterra-os aí debaixo.
(Cai o pano)

sábado, outubro 31, 2009

Grande farra bloguística

Foi porreira a nossa festa, pá!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Adenda: Saramago e Richard Zimler, afinal estavam de acordo


Não sendo nós, aqui no Portugal, Caramba! nem católicos, nem judeus, nem particularmente fãs de Saramago, consideramos que esta procela nos passa de largo em enorme medida.
Mas registámos com muito interesse esta opinião expressa por Richard Zimler:
Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento.
Richard Zimler,
«Saramago e a insustentável leveza da ignorância»
in Público, de 27 de Outubro de 2009

Pronto, ficou registado: Zimler, mesmo considerando que "as criticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais" e que "revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais", concorda com ele no que de fundamental lhe ouvimos.
(Post alterado em 28/10/2009)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Uma citação, quiçá incómoda, mas atempada...














"... for his work is marked by both idealism and humanity..."
Prémio Nobel da Literatura (que recusou) de 1925
-

"Por outras palavras: como não nos podemos livrar da Bíblia, ela se livrará de nós, a não ser que aprendamos a lê-la dentro do «espírito adequado»; e este parece ser o espírito de integridade intelectual que obriga os pensadores honestos a ler com toda a força da sua inteligência todas e cada uma das linhas que se arrogam autoridade divina, julgando-as exactamente como julgamos o Alcorão, os Upanichades, as Mil e Uma Noites, o artigo de fundo do Times de hoje, ou a caricatura do Punch da semana passada; isto é, sabendo que todas as palavras escritas estão igualmente abertas à inspiração da fonte eterna e igualmente sujeitas a erro, graças à imperfeição dos seus autores, entes mortais."
"[...] É que a religião inculcada pelos livros antigos é um ritual cruel e atroz de sacrifícios humanos, para aplacar os furores de uma criminosa divindade da tribu que, por exemplo, foi induzida a poupar a raça humana ao aniquilamento num segundo dilúvio, apenas pelo prazer que lhe dava o cheiro da carne queimada, quando Noé, «tomando de todas as rezes e de todas as aves limpas, lhas ofereceu em holocausto, sobre o altar»."


Georges Bernard Shaw,
The Adventures of a Black Girl
in Her Search for God,
1932

terça-feira, outubro 20, 2009

sábado, outubro 17, 2009

Implosão

Dizem que o estádio Mário Duarte tem de ser implodido.
Concordo.
Não é, como alguns podiam aleivosamente pensar, pelo facto de eu não gostar de futebol, o que até nem é verdade, vejam lá.
Gosto sim, senhora! Gosto de ver os putos a correr, como eu corri, atrás duma chincha, aos gritos de «passa, c...!».
O que eu não suporto são os jornais da «bola», que se arrogam o direito a ser designados como «desportivos».
Desportivos? Aquilo? Imaginam?
Mas, pronto. Façamos de conta. Ainda há pior, dá para crer?
-
Há, garanto-vos. Há os pugramas da televisão, com as genialidades do costume, desde o Sr. Oliveira e Costa que é sondeiro, ao câmara-man Fernando Seara, ao animatografista António Pedro de Vasconcelos e ao físico Dr. Barroso, ao Sr. Medeiros Ferreira que já foi muita coisa e agora não sei o que é, para só falar destas, que são as eminências.
O que vale é o comando à distância: daqui onde vos estou a escrever, clic, e pof! Não sei para que freguesias irão pregar, da minha, desaparecem.
-
Compreendem que eu ache bem a implosão do estádio de Aveiro. Preferiria, claro, que ele fosse explodido.
Não é preciso ser Engenheiro Civil (nem primeiro ministro sequer) para perceber que os pedaços de betão, atirados pelos ares, dariam uma péssima imagem do nosso pobre país. Além de esburacarem consideravelmente os já de si precários lares dos aveirenses, de lhes partirem os vidros, quem sabe até se não entupiriam a ria de Aveiro, mais do que a poluição, claro, e até podia bombardear gravemente a base aérea de São Jacinto - onde, felizmente, ainda ninguém pensou em fazer o novo aeroporto de Lisboa.
Eu sei disto tudo!
Mas já viram?
O dito Estádio Mário Duarte, de Aveiro, custou uma beca. Tinham-se previsto uns trinta milhões, mas foi parar quase aos sessenta e cinco. Dinheiro que, em vez de gerar alguma riqueza, como seria de esperar, anda a gerar tais despesas que não há quem aguente, muito menos a câmara de Aveiro.
Não se podia fazer como o muro de Berlim?
Escaqueirava-se e vendiam-se os bocados a bom preço?
É claro, primeiro tinha de se encomendar uma pinturas, assim para dar ar de que também somos artistas. Reservava-se uns metros quadrados para o Pomar, por exemplo, mais um ou dois que não cito para não criar invejas, depois entregava-se o restante a umas crews de Lisboa e do Porto - uma havia de ser local com direito a entrevista pela Drª Moura Guedes, pelo menos - para grafitarem à vontade.
Quando fosse da explosão, já viram o que podia valer cada bocadinho?
Podiam vender-se bilhetes para assistir, abrilhantava-se com fogos de artifício para dar cor, ganhava-se um dinheirinho a alugar capacetes tipo das obras, vendiam-se umas bebidas...
Depois era a parte verdadeiramente comercial.
Uma boa carga de explosivos havia de fazer, pelo menos, vá lá, uns dez mil pedaços de bom tamanho. Vendidos a seis mil e quinhentos euros cada, mais depesas de recolha e de entrega, só isso já pagava o investimento.
E ficava toda uma indústria para os aveirenses: catar pedacinhos de betão, pôr dentro de uma caixa e vender aos turistas junto com as barriquinhas de ovos moles.
Estou a imaginar os comerciantes: «está a ver aqui este cantinho? Não é sujo, não senhor! É uma pincelada ocre da Paula Rêgo; vinte euros e não se fala mais nisso.»
Direis: e os vidros partidos? E os telhados arruinados?
Tudo tem solução. O Governo abria uma linha de crédito bonificado para os proprietários fazerem as necessárias reparações. É o que se costuma fazer com todas as catástrofes, chuva, incêndios, inundações, quedas de pontes, tudo. E não me venham dizer que o Euro-2004 não foi uma catástrofe para este pobre país, porque foi.
Façam as contas e digam-me: venderam-se muitos hectolitros de cerveja, pois venderam. E que mais?
-
Se o negócio pegar, temos a seguir o de Coimbra que, informam-nos(1), era para custar catorze milhões e custou cinquenta e seis, Leiria que subiu de trinta para setenta e quatro. E depois Faro-Loulé, também havia de ser jeitoso. E Guimarães; e o Beça, mesmo se desses não sei os preços.
Quando se acabassem - enfim, poupava-se o Dragão que parece ser rentável - até se podia construir mais para se ir explodindo. E já viram? Quanto maior fosse o delizar dos custos, melhor: mais caros se vendiam os pedacinhos.
Ou em alternativa, talvez o Alqueva. Já alguém nos disse quanto custou efectivamente e quanto está a render?
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E enquanto andássemos entretidos a construir e a explodir, deixávamos em paz a pobre da Maïté Proença que, para além de ser muito bonita, tem o sorriso mais sedutor que eu me lembro de ter visto(2). Lembrem-se: uma mulher bonita teve, desde sempre, o direito a dizer o que lhe passasse pela cabecinha e nós, cavalheirescamente, só temos de sorrir e dizer que sim, pois claro, isso e o contrário se for preciso.
Nunca, por nunca ser, temos o direito às explosões de grosseria como a destes últimos dias. E manifestações de desagravo, já me chegaram as do tempo do Salazar.
Disse.
-
1) Nem sob tortura revelaremos que a nossa fonte foi o jornal Público de 16 de Outubro, p. 11.
2) Pensando melhor, estou a lembrar-me de alguns outros, bem sedutores também, e que eu conheci mais de perto.
-

segunda-feira, outubro 12, 2009

Distanciação erudita

1.
"... em que tipo de ensaio estava eu empenhado? Numa peça de análise linguística objectiva ou numa diatribe velada contra os padrões em declínio? Seria eu capaz de manter um tom de distanciação erudita, ou seria inelutavelmente dominado pelo estado de espírito em que Flaubert escreveu o seu Dicionário das Ideias Recebidas, um estado de espírito de impotente desdém?"
2.
"Devia rever completamente as minhas opiniões, era o que eu devia fazer. Devia apartar as mais antigas, as mais decrépitas, encontrar outras mais novas, mais actualizadas para as substituir.
Mas onde ir para encontrar opiniões actualizadas?
A Anya? Ao seu amante e guia moral, o corretor Alan? Pode-se comprar opiniões frescas no mercado? É permitida a entrada na bolsa a velhos de vista fraca a mãos artríticas, ou seremos unicamente um empecilho para os novos?"
J. M. Coetzee, Diário de um ano mau, 2007