sexta-feira, janeiro 29, 2010

Sem título

Já repararam?
Não há autorzeco nenhum, por mais de meia tijela que seja, que, nos seus momentos, não nos venha falar da ângústia do papel em branco, essa folha virgem que resiste, que esmaga, que rejeita.
Tudo bem: que fiquem com os seus papelinhos ansiogénicos.
Nós, aqui no Portugal, caramba! afirmamos de caras, veementemente, contra tudo e contra todos, que isso não se aproxima nem ao longe de uma outra, mais aflitiva, mais torturante: a angústia do blog em branco.
Acreditem: nós sabemos do que estamos a falar.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Dados empíricos



- Diz, Titi: tu não tens pipi.
- Disparate, João.
Toda a gente tem.
A Tia também.
- Não tens, não.
No outro dia,
na pia,
estavas a fazer xixi,
eu espreitei
e não vi.


João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Obediênciazinha, pois então! (II)






Todos os dias, logo pela manhã ou já a dobrar para a tarde, ou às horas que forem, repetimos os mesmos gestos, já viram?

Calçamos uma meia em cada pé, admitindo que ainda temos os dois da praxe; comemos umas tantas refeições, ouvimos as mensagens no telemóvel; compramos o jornal; ligamos a televisão, vemos os prós e os contras; amamos os prós quando são nossos, odiamos os contras quando são os outros. À socapa, fazemos zap e espreitamos um ou outro dos canais porno com que, gentilmente, a meo ou a zon mais próxima nos quiseram perverter.
Se nos perguntarmos, dizemos que é assim mesmo. Mas já fizemos as perguntas todas há tanto tempo e as respostas sempre imitaram as respostas, de que vale estar sempre a perguntar?
Lemos os mails, alguém nos mandou uma anedota sobre a ministra da educação; navegamos na net ao acaso.
Dormimos. Ao lado da esposa que já foi exaltante.
Sonhamos, mas não nos lembramos com quê.
Acordamos.
Repetimos.
Tomamos o café, tomamos o duche.
Calçamos meias lavadas. Convém.
Talvez outros sapatos.
Guiamos o carro. Não estamos sós, toda a gente vem connosco pela mesma estrada.
Trabalhamos.
Vamos beber um copo com o que chamarmos amigos. Falamos do mesmo que eles.
Esquecemo-nos de ler o jornal que trazia notícias do Haiti. Espreitamos outra vez o canal porno.
A boa esposa já dorme.
Se lermos umas páginas para adormecer também, há quem tenha hábitos desses, e se o livro que nos veio à mão tiver sido um qualquer Deleuse, poderemos tropeçar em conceitos como modulação, ou como ritornelo. E podemos começar a compreender que chegámos enfim, à sociedade de controlo. Os numerosos microchips dizem por que portagens passámos, que contas pagámos, a ADSE ou a Medis sabem que remédios tomamos os bancos sabem o que querem saber.
Mas depressa largamos esse livro: não haverá por aí algum Dan Brown, alguma Margarida Rebelo Pinto, algum imitador da receita de Flemming e do seu 007?
Sim, porque ai de nós se não formos bons imitadores: a receita para fazer um herói ou um bom cidadão existe, está sempre em actualização.
Lembram-se do Reinaldo Ferreira?
Agite-se um pendão.
Segue o teu chefe. O secretário-geral do teu partido. O teu colega com mais sucesso. Aqueles para quem as meninas mais bonitas sorriem.
Já nem são precisas as certezas irracionais. O senso comum basta.
Servem-nos mortos, claro.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Havai 2010, digo, Haiti 2010

- Se querem saber, parecia Deus a bater-nos com a porta na cara...
-
A primeira versão deste post está nos Urban Sketchers:
gosto mais dela, mas pronto, hoje calhou assim.

domingo, janeiro 10, 2010

Diários Gráficos, desenhos vários e por aí fora

A inauguração foi ontem, na galeria dos Paços do Concelho, em Torres Vedras, e foi bem simpática.
Seguiu-se o jantar, toda a gente desenhou, o polvo à lagareira foi muito elogiado, o vinho tinto deixou-se beber com galhardia e falou-se pelos cotovelos.
Quem quiser saber do que se irá seguir clique ali à direita, no blogue dos Urban Sketchers ou no Desenhador do Quotidiano.
Ficará a saber, em calhando, que no próximo sábado, aí pelas 15.00 horas, há-de haver um debate. Nós aqui no Portugal, caramba! estamos em crer que não vai haver debate nenhum porque estamos todos mais do que de acordo sobre as questões que mais importam. Mas há-de haver perguntas e respostas, muita conversa bem-humorada, troca de experiências e por aí fora.
E pronto. Vão até lá que logo vêem.

sábado, janeiro 09, 2010

Vida de Urso

Eu sei que há quem não acredite na metempsicose que é aquela coisa da transmigração das almas: morre-se e acabou-se. Nada de voltar a este ou outro mundo qualquer.
Tivemos a sorte de apanhar uma vida que andava por aí, vivêmo-la como podemos e pronto. Quando se tiver gasto, não há mais.
Mas isto são só os simplórios dos ateus.
Há quem acredite que a vida é um capital infinito, não se gasta nunca.
Passamos daqui para o Céu, se o tivermos merecido; direitinhos para o Inferno se tivermos sido como alguns que a gente vê na televisão, por exemplo. É a Vida Eterna.
Dantes, quando eu andei na catequese, havia mais alternativas, o Limbo para os pobres pretinhos a quem os missionários não tiveram tempo de baptizar e o Purgatório.
Este sim, é que foi uma invenção de génio.
Rendeu missas, capelas, heranças; era como que um banco, como que uma companhia de seguros: o defunto fazia umas doações, protegia uns pobrezinhos, amealhava para a eternidade. Quando morria tinha sempre, pelo menos, uns pecados veniais a pagar, quanto mais depressa os parentes amortizassem, mais depressa a alma, purgada das suas máculas, ia ver, finalmente, a face do Senhor.
Parece que já não é assim.
Não estou muito actualizado, mas creio que estes destinos foram eliminados do catecismo, como o apeadeiro aqui da minha terra: deitado ao desprezo pelos combóios que já deixaram há muito de por cá parar.
Nós no Portugal, caramba!, porém, acreditamos na reencarnação.
Morremos, passam-se uns tempos, achamos nós, dão-nos outro corpo novinho em folha - se for em segunda mão, olha, que se há-de fazer? - e mandam-nos de volta; para aqui ou para o outro lado da galáxia, onde houver vaga.
Mas quem sabe? Pode ser que nos perguntem o que queremos ser, como na história de Er que Platão narra na República. E então, se nos for dado escolher um destino, não queremos ser nem um Durão Barroso, nem um Belmiro de Azevedo, nem nada disso.
Queremos ser ursos.
Ursos! Nem mais.
Primeiro porque têm um casaco de peles, quentinho, de fazer inveja às senhoras mais Donas - e não tiveram de o ir arrancar a raposa nenhuma, pobres delas.
Depois, porque hibernam. Já viram, está a chover se Deus a dá, não precisam de sair de casa para ir ao emprego. Está um frio de congelar o bafo, não precisam de ir a compras: dormem mais um bocadinho.
Se os incomodam, grunhem. E ninguém acha que sejam malcriados só por isso.
Por fim, quando vem a Primavera, o senhor Sol aquece-lhes os humores, espreguiçam-se e saem para o ar livre à procura de uma comidinha, de uma namorada. Não precisam de ir ao ginásio nem de encolher a barriga quando avistam a prometida: durante o Inverno, sem esforços nem heroísmos, ficaram elegantíssimos.
Podem voltar a comer à fartazana, do melhor que encontrarem.
A rapariga, aliás, estará a fazer o mesmo e confessemos: redondinhas também têm o seu encanto, não é?
Por isso ficaram sabendo: o que nós queremos mesmo é ser ursos.
Já andamos a treinar há muito tempo. Só aquela história do emagrecer, isso é que ainda não conseguimos.
Mas pronto.
Não se pode ter tudo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Obediênciazinha, pois então! (I)


Do que vos quero falar, ou, dado que o Portugal, caramba! se tem vindo a transformar em mais um blogue do eu, o que eu quereria perceber, é:

Porque havemos de obedecer a uma ordem?

Mas, claro, tenho de começar por algum sítio e, portanto, aquele estranho acontecimento passado lá para os lados de St. Margarida, ou de Tancos, serve perfeitamente.
Lembram-se?
Eram umas sete da manhã, vem um condutor na sua carrinha, tinha andado a distribuir jornais e, a meio da estrada, a ocupar-lhe a faixa, ia um pelotão de futuros paraquedistas vestidos daquela cor chamada verde-tropa, escolhida justamente para não dar nas vistas. Cumpriu a sua função. O condutor não os viu realmente - ou só demasiado tarde.
Acidente, dezasseis atropelados, três muito graves.
Não interessa se houve ou não culpados, se foram castigados, se alguém indemnizou as vítimas ou se está tudo perdido na burocracia de um ex-tribunal militar.
Claro, as notícias falaram de um carro desgovernado, um motorista adormecido ao volante ou cansado ou qualquer outra coisa que justificasse o desastre. Tudo menos o óbvio: a tropa está-se nas tintas para as leis quando não lhe apetece cumpri-las. No caso eram as do trânsito, poderiam ser outras.
Não que a tropa não cultive a obediência.
Tem Nepes, tem Erredêémes, tem as suas bíblias e faz gala em que tudo seja by the book.
Excepto se aos sargentos e oficiais outra coisa não ocorrer, mas isso é outra conversa. Relevante é que não tenha havido muito mais informações sobre as necessárias sequelas do acidente. A obediência e o silêncio andam frequentemente juntos. A cegueira segue-as de muito perto.

2.

A obediência na tropa é engraçada: parece ter sido feita de propósito para nos mostrar a que ponto pode chegar a alienação ou, para ser claro, até que ponto alguém pode prescindir da sua própria vontade, dos seus instintos até, se a palavra tiver algum conteúdo.
A que outro conceito poderíamos recorrer para explicar, por exemplo, as cargas de baioneta nos assaltos às trincheiras inimigas, quando um general francês ou alemão, que importa, sacrificava três mil homens para recuperar cem ou duzentos metros da terra de ninguém, uma aldeia arrasada e deserta, um pedaço de bosque onde, de novo seria preciso cavar trincheiras, instalar metralhadoras?
Lembram-se do Hans Castorp, o jovem doente (mas de quê?) que desceu do sanatório, na encosta da Montanha Mágica, a cinco mil pés de altitude? Vista de lá de cima, a pátria «assemelhava-se a um formigueiro em pânico». E o Hans mergulhou no vale e depois num batalhão académico:
"Eis o nosso amigo, eis Hans Castrop! Já de longe o reconhecemos (...) Arde, ensopado pela chuva como os outros. Corre, os pés trôpegos, agarrando a espingarda. Vejam, pisou a mão de um camarada caído, a sua bota ferrada afundou essa mão no solo lamacento, crivado de estilhaços. E todavia é ele!"
(Thomas Mann, A montanha mágica)

O que levará alguém a seguir o seu oficial, o seu pendão, o seu clarim até à morte? Ou, se preferirmos, o que terá levado os carcereiros de Auschwitz, os Eichmann deste mundo a obedecer às ordens que alegam terem-lhes sido dadas?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Jingle bels, jingle bels, ta-ta-ri-tatá,,,


Um Auto de Natal
-
A cena passa-se na estrada para Belém.
Três camelos carregados com os Reis Magos vão conversando.
-
Zé Camelo (cansado) - Ainda temos de os carregar por muito tempo?
Camelo mais velho (pacientemente:) - Ná! Dizem que é só até ao dia seis ...
Zé Camelo (duvidoso) - Ah! ... E tu acreditas?
Camelo mais velho (pacientemente) - Claro! Todos os anos há um dia seis em Janeiro, não há?
Zé Camelo (com uma vaga esperança) - Mas é só no Natal, não é?
Camelo mais velho (pacientemente) - Bom, é também no Dia das bruxas, por exemplo. E no São Valentim, no Dia da Mãe, na Páscoa... Mas é sempre Natal. Nunca ouviste dizer que o Natal é sempre que os homens quiserem?
Zé Camelo (admirado)- E os homens são esses que vão lá em cima?
Camelo mais velho (pacientemente) - Conheces outros?
Zé Camelo (cabisbaixo) - Então e nós?
Camelo mais velho (pacientemente) - Nós? Nós somos os camelos.
Zé Camelo (meditativo) - Hum...
Terceiro Camelo - Oxalá nos dêem azevias. Das de grão. O Bolo Rei já não se aguenta...
(Cai o pano)
-
O Portugal, Caramba!
deseja a todos os seus amigos
um Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.

sábado, dezembro 05, 2009

Se um avaliador incomoda muita gente...


Prof: Pá, havia de se fazer um congresso p'ra fazer um mais parvo do qu'a tu e n'haviam de conseguir!
Aluno: Ho-ho-ho! Pois não, professor!

-
Declaração
-
Pronto!
Declaro que gosto de pensar que fui um bom professor.
Não sei a quem hei-de pedir desculpas pela imodéstia. Aos alunos, claro, pareceria da mais elementar justiça, mas aos pais, nunca!
Mas não.
Aos alunos dei sempre o que tinha, o que roubava, o que inventava.
O que lia e o que escrevia, o que improvisava no meio da aula, com bonequinhos desenhados a giz no quadro preto.
(A propósito: sabem a história de Quonsumor, o Gordo? Estou a ver que não. Um dia hei-de procurá-la e mando-vos.)
Dei-lhes a oportunidade de pensar, de discordar, de discutir, de ser do contra ou do a favor, de me aceitarem ou me odiarem.
Pertencer, nas minhas turmas, passou pelo participar ou amuar num canto: a escolha era de cada um, em cada dia.
Muitos não aprenderam nada do que eu ensinei e atingiram o nível de excelência, como agora se diz, porque souberam pensar pela sua cabeça.
Mais do que aulas, quis que fossem foruns de liberdade.
Só houve sempre uma exigência absoluta: assumirem-se como gente, tratarem-se como gente uns aos outros.
Não sou romântico e sei que nem sempre consegui o que conseguia muitas vezes, que houve aulas preparadas ao milímetro que falharam completamente, estratégias mal pensadas que deram para o torto, turmas que não soube agarrar, que perdi alguns alunos e que, imagino, terei feito mal a outros.
Assumo que não sou modelo para ninguém.
E, para que conste, esclareço desde já:
Do que senti sempre mais a falta, foi da cooperação entre nós, professores das mesmas turmas e que rarissimamente conseguimos formar equipe.
O que mais odiei foram os exames, pré-formatados, cada vez mais preconceituosos, como se alguém soubesse de antemão como cada aluno vai responder, quais os seus erros, quais as interpretações que fazem sentido.
E percebo que nunca atingiria o nível de suficiente numa avaliação de desempenho como deve ser.
E gosto de pensar que me estaria nas tintas.
Mas atenção, não quero fingir que sou um herói: não garanto que a ameaça de os meus poderem vir a passar fome não tivesse o seu peso; talvez não conseguisse ser professor, talvez tivesse de me contentar em ser funcionário do Ministério da Educação.
Incomoda-me pensar nisso.
-
Bento Sequeira
(transcrito e adaptado por Tacci)

sexta-feira, dezembro 04, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Ó freguês, vai um sapatinho?

Quem não tem cão, caça com gato, não é o que se diz?
Eu, ainda bem que tenho cão, que essa história de andar aos tiros aos coelhos que andam lá na vida deles, nunca fez o meu género.
E não sendo eu um equilibrista, como o Dr. Barroso, essa coisa da Comissão Europeia também não me entusiasma muito.
O que me atrai, palavra, é o mundo dos negócios.
Já tenho meia dúzia cá na forja, vão ver se um dia destes não fico ainda mais milionário do que o Tio Belmiro.
Senão, veja-se: arranja-se uma tenda e vai-se de feira em feira com um monte de sapatos velhos (sugestão, para que conste, da autoria do Marreta e que podem encontrar nas caixas dos comentários algures lá para trás), fisgas e pedras, elásticos e bilhetinhos.
Por um euro, por exemplo, o cliente tinha direito a um sapato ou três pedradas num retrato à escolha.
Vinha um e dizia:
- Olhe, dê-me aí a Manelinha...
A gente, como qualquer bom negociante, acudia:
- Com certeza, tem V. Exª. muito bom gosto. E prefere a fisga, o sapato ou quer mandar bilhetinhos com recados?
- Bof... hoje vou pelo sapato. Já lhe mandei recados por causa do estatuto da carreira docente e viu-se!
E zás! Sapatada em cheio.
Vinha outro e pedia o Sócrates, o engenheiro.
- Ah! mas esse temos pena, só logo à tarde. É que sabe, tem tido muita procura, coitado ficou cheio de buracos. Estamos a pôr-lhe uns remendos, a ver se ainda se aguenta. É que é mau para o negócio, sabe? Se ele se vai abaixo, perdemos mais de 65% da clientela...
- Olhe, então dê-me aí uns bilhetinhos de amor.
- Muito boa escolha. Temos aqui a Penélope Cruz, a Maribel Verdú...
- Não, não. Eu quero é aquela, a Roseira...
- V. Exª. é que sabe... Mas olhe que bilhetinhos de amor a políticos, primeiro é muito mais caro. E depois, é que nunca se acerta.
E pronto. O negócio é este.
Aceitam-se sócios, de preferência com as duas coisas que a mim sempre me faltaram: o capital, que nunca houve. E a vontade de trabalhar, vamos lá que também nunca por cá abundou.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Post Scriptum



O Graza do "Arroios" (ligação ali ao lado) enviou-nos esta versão um pouco diferente da fisga digital, pelo que muito lhe agradecemos.
Aqui fica, para instrução e gáudio das gerações vindouras.

domingo, novembro 22, 2009

A Propósito de fisgas

Primeiro há que escrever uma mensagem num quadradinho de papel bem rijo.
Depois, começando num dos ângulos do quadrado, enrola-se apertando bem na direcção do canto oposto, e, quando tivermos um rolinho fino e comprido, dobra-se ao meio. A seguir, toma-se um elástico novinho em folha, prende-se a dois dedos bem afastados e colocando o rolo do papel de modo a que cada uma das pontas fique de seu lado do elástico, prende-se entre o indicador e o polegar da mão sobrante.
Depois é só esticar, apontar e zás! Larga-se.
Lá vai o papelinho direito ao alvo.
Têm alguma ideia do que querem escrever nos papelinhos?
Pois. Bem me parecia.
-
Este post foi-nos sugerido pelo comentário, algures aí para trás, de uma gentil Anónima a quem ficaremos eternamente gratos.

Sem título








quarta-feira, novembro 18, 2009

A Grande Guerra

Não há, quem sabe, parvoíce maior do que querer imaginar o que dirão os hitoriadores daqui a uas décadas.
Mas, se lhes podemos deixar um recadito ou outro, que tal encararem todo o século XX como uma interminável guerra entre a Educação e a Babárie? (1)
-
(1) Pinta-me que temos perdido as últimas batalhas e que estamos a perder armamento.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Ceci non plus

Claro que não é um cachimbo!
Já estão fartos de saber: não passa de uns quantos píxeis miseráveis, encarcerados algures nos nossos computedores.
E algures, lá fora, um corruptozinho, igual aos outros todos, está a ganhar o milhão seu de cada dia. E o irmão dele, o primo, o amigo e aquele conhecido também, todos a fazer o mesmo, já viram?
Nós aqui, blogamos. Que mais?
Talvez devessemos estar acampados, ali em frente ao parlamento, com um cartaz enorme a dizer "volta Cravinho, estás perdoado!"
E, por via de dúvidas, levávamos as algibeiras cheias de pedras para atirar, sei lá, como diz a Ma'ga'ida. Nem que fosse aos céus.
Podia ser que acertássemos num desses anjinhos aldrabões que nos prometeram o paraíso na terra e, depois de o terem feito, o cercaram de arame farpado e puseram na porta: reservado o direito de admissão.
Alguém quer treinar a fisga?

segunda-feira, novembro 09, 2009

Incongruências

Faz vinte anos já que o muro de Berlim caiu por terra.
A bola, essa, continua impávida e serena nas vitrines das pastelarias.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Desgraças que acontecem nos blogues

- Pinta-me que se, no meu tempo, estas coisas já fossem assim, eu nem a quarta classe tinha conseguido fazer...

segunda-feira, novembro 02, 2009

Democracia... ou isso.

Acto único
Cena única
-
-
(Em cena estão Tacci e o Político avisado)
Tacci - Já estou um bocado farto de ouvir dizer que a democracia é o pior dos sistemas políticos excluíndo os outros todos.
O que eu quero saber é: como é que os outros todos são excluídos.
Político avisado - Pois é fácil. À medida que vão aparecendo, a gente enterra-os aí debaixo.
(Cai o pano)