sábado, agosto 01, 2009

Eleições a vir



Este é um dos inúmeros cidadãos atropelados pelas questões fracturantes que dividem a nossa sociedade e, sobretudo, os programas dos líderes partidários.
O Portugal, Caramba! deseja-lhe um pronto restabelecimento, a tempo de ir votar, pelo menos.

quarta-feira, julho 29, 2009

Sem título

- Man, pá! Essa porcaria desse blog anda ou não anda?

quarta-feira, julho 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XX)


O pássaro chamou-a de entre os ramos:
- Tu, ó miúda!
Aka parou.
- Quem te ensinou a arte da camuflagem não era lá grande espingarda, pois não?
- Não, creio que não.
Posso sentar-me aí ao pé?
O pássaro afastou-se para lhe arranjar lugar.
Aka trepou pelo ramo principal.
- Nós, as mulheres - disse ela depois - se calhar, temos de aprender tudo sozinhas.
Porquê?
- Com essas roupas, ainda chamas mais a atenção.
Para te esconderes, tens de fazer como eu.
Atrás de um jornal, pensam que és lixo.
Ninguém quer saber do lixo.
- Mas eu não me queria esconder, sabes?
Queria ser livre, queria ser bonita. Queria correr o mundo.
- Eras logo caçada.
- São eles quem me esconde nestas roupas.
- Pobre miúda!
Pertences a uma reserva para caçadores ricos.
São as piores: engodam-nos, engordam-nos e depois, pás, pás, pás!
Caímos que nem os tordos.
- Tu não és um tordo?
- É um modo de falar. Não faço a mínima ideia.
- A mim disseram-me que nunca devia esquecer que sou.
- E tu não te esquceste. És tu.
- Sou. Eu sei que sou. Mas às vezes, não me lembro a tempo.
- Olha, fica com este jornal.
Precisas mais dele do que eu.

domingo, julho 19, 2009

Alô experiência, 1, 2, 3, Edith Piaf

Sem título



Se os pintas deviam ser obrigados a estar quietinhos para a gente os desenhar, o que dizer de uma cadelinha, Fidji de seu nome, que não pára um segundo?

quarta-feira, julho 15, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Mudar de ideias e atirar com a porta


Há dias, quando li que a Maria João Pires, talvez num dia em que acordou com os pés de fora, queria abdicar da nacionalidade portuguesa e tornar-se brasileira - ou checalòturca, pouco importa - comentei cá para comigo:
- Bom, é o mais sagrado dos seus direitos.
Arranjei um papelinho e, à mesa do café, desatei a escrever os nomes das pessoas que eu admiro.
A lista - digo-o com um orgulho a roçar a arrogância - coube nas costas de um talão do multibanco e sobrou espaço. E tinha muito, muito poucos portugueses.
-
Eu sei que o defeito é meu.
Sobretudo quando penso que a melhor parte do escasso rol já nos bateu com a porta na cara.
O Jacques Brel, por exemplo.
Ou a Piaff.
Ou o Bertrand Russel.
Ou o Albert Camus.
Ou o Zé Afonso.
Ou o Prévert.
Mas ninguém me mereceu a mais pequena ponta de consideração por ser português, por ser espanhol, por ser turco ou grego.
Não me interessam essas imaginárias linhas postas ali, onde «alguém», a golpes de espada ou a tiros de metralhadora, determinou que uma criança passava a ser chamada judia ou palestiniana.
-
Sempre achei de uma inaudita crueldade que esses «alguéns» tivessem dito à Maria Helena Vieira da Silva que passava a ser apátrida.
E que ainda hoje o possam dizer a um guineense que trabalha, que paga contribuições ou que, simplesmente, vive.
Quantas vezes me apeteceu gritar bem alto: «Se é isto o Portugal que vocês querem, fiquem com ele. Eu vou-me embora.»?
-
Mas vou ficando.
"Talvez porque não dou a ninguém o direito de me expulsar da minha terra", escrevo. "Talvez por simples cobardia que encontra nas ideias grandiloquentes as melhores desculpas", continuo, já com o recurso a um segundo talão do multibanco e uma pontinha de vaidade no estilo.
E escrevo ainda:
- «Matai-vos uns aos outros», recomendou o Jorge Reis ao partir para Paris. E, quem sabe, talvez não seja por acaso que a "mulher-cão" da britânica Paula Rêgo tenha o feitio de corpo e a cara de uma portuguesa.
-
Se a Maria João Pires quiser ir-se embora como tantos outros se foram, que dizer se não que é o mais sagrado dos seus direitos?
E se for mudando de ideias e for ficando, que dizer também, se não que é outro dos seus direitos não menos sagrados?

terça-feira, julho 07, 2009

Crime no Polo Sul

- Acredite, Inspector: vejo em si o mais perfeito exemplar de funcionário que jamais me foi dado conhecer em vinte anos de auditorias. Os meus parabéns.
- Obrigado, Senhor Professor. Nós lá no Serviço Central acreditamos na perfeição.
- Pode continuar as escavações, se tem ordens para isso. Afinal, o Pólo Sul pode ser muito grande, se considerarmos que um pólo não é necessariamente um simples ponto.
- Pois não, Senhor Professor.
- A questão é só o raio.
- O raio? - rindo: - Não, não, aqui não há trovoadas.
- Se considerar um raio de aproximadamente vinte mil quilómetros em torno deste ponto, então, tecnicamente, os seus superiores têm razão.
- Sim, Senhor Professor. Os Superiores têm sempre razão. E para nós até dá jeito.
- Todos os crimes, por definição, ocorrem no Polo Sul.
- Vê, Senhor Professor? É o que nós lhe dissemos. Estamos no centro de toda a criminalidade e ainda ganhamos subsídio de deslocação.
- Portanto, se ocorrer um crime em Lisboa...
- É um mero fenómeno periférico, Senhor Professor. Como realça o Senhor Ministro, são coisas de marginais.
- Perfeito. Mas prefiria procurar o Yeti mais para cima, Inspector.
- À vontade, Senhor Professor. Mas olhe que lá tem-se muita luz. Aqui investiga-se melhor durante os seis meses de noite. Depois troca-se a polaridade e vamos investigar para o Pólo Norte. Está a ver, seis meses aqui, seis meses lá, subsídio para cima, subsídio para baixo... É a alternância democrática, ou coisa assim. E quando estamos lá, o Governo pode dizer que não há crimes por resolver. Tecnicamente falando, claro, como o Senhor Professor disse e muito bem.

sexta-feira, julho 03, 2009

Jeux interdits

- Sei lá... a brincar aos governos, se calhar...

terça-feira, junho 30, 2009

Que fizemos do luar de estio?


Que fizemos do luar de estio em que os corpos se atormentavam em desejos e tabus?
Que resta das noites claras em que a palavra afagava o silêncio
das bocas suspensas no amor?
Que sobra de nós nos gestos invocados no tempo incerto
dos dias vazios de sol e de mar?
Tanto tempo demorado na memória
dos sonhos por fazer!
Agora lavro o tempo onde receio que rosa alguma florirá
(e contudo, insisto teimo e semeio)
José Alberto Damas

Degraus de Silêncio


E avança uma Velha sem Restelo:
- Qual é o Mar Português?

(o das lágrimas de sal...)
Esse mar nunca existiu
Ignora a cor das nações
Tratados que nunca viu
O mapa das intenções
Do homem que as coloriu

O mar não é português
Quando quer afunda os sonhos
Quebra a vaga de ilusões
Derruba barcos tristonhos
Sem olhar a distinções
No homem que as perseguiu...

Existe no mar um azul sem alma
E na mudança das suas feições
Nem páginas de resgatar a calma
Nem vogais de atestar circunscrições...

E fundo - no seu mistério
Sempre calando assistiu
À rota das ambições
Sem as lágrimas de sal
Nascendo das convicções
Do Homem só que Partiu...


Ana Maria Puga

degraus de silêncio

Papiro Editora, 2009

segunda-feira, junho 22, 2009

sexta-feira, junho 19, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIX)



- Aka, há destinos como o teu.
Estão muito para lá do bem e do mal.
Passam por sítios proibidos onde um passaporte é só um pedaço de papel, sítios onde nem todo o oiro do mundo te resgatava a alma, quanto mais esse corpo que nem para a cama serve.
Sítos onde só contam as minas, as balas, os arames farpados.
Mesmo com catorze anos, Aka, já devias ter percebido porquê.
- Não tenho de perceber, Aia, e não quero perceber.
Para lá do bem e do mal, como tu dizes, o meu Deus ensinou-me que não há nada.
Continuas a não ter direito nenhum de me bater.
- Não te faças mais parva do que és, Aka.
Tenho todos os direitos, estou aqui em nome da violência.
Julguei que já tinhas entendido: eu não sou a tua mãe, Aka.
Sou a tua carcereira.

sábado, junho 13, 2009

Sem título

Havia de haver uma lei que obrigasse os pintas a ficar quietinhos ao menos um par de minutos quando a gente os quer desenhar.
Aqui fica a sugestão.

quarta-feira, junho 10, 2009

Wiseguying

José Gil, Em busca da identidade - o desnorte, Relógio d'Água, 2009
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João Miguel Tavares, "Cuidado com os nomes que chamam aos vossos filhos", Notícias Magazine de 7 de Junho, pag. 82
-
Não quero que ninguém venha ao engano: este post é acima de tudo sobre um senhor, João Miguel Tavares de seu nome, jornalista freelancer dizem, que assina a página "Vida familiar" no Notícias Magazine de 7 de Junho último.
-
É uma página curiosa.
Ao que me pareceu - e li-a atentamente mais de uma vez - o João Miguel Tavares vem a público mostrar a sua profunda indignação por não dever chamar, ternurento como é, «meu querido crapulazinho, meu g'anda sacaninha» ao seu filho Gui.
Pois quê?
Um pai já não pode dar um beijinho a um filho quando ele rasga os jornais do papá?
Já não se pode babar de puro gozo com as pequeninas malandrices do rebento?
João Miguel Tavares não diz e, provavelmente, não o pensará. Mas ficou-me a impressão de que, para ele, cuspir na Tia Ermelinda que, coitadinha, tem bigode, ou bater na Mãe que lhe recusou o equivalente a uma bola de Berlim antes do almoço, são pecadilhos que terão de ser reprimidos com um simples «anda lá, meu malandreco». E pimba! Um beijinho na bochecha.
Mas isso, como ele próprio reconhece, é porque não percebe nada de Filosofia.
Parece-me um facto: o João Miguel Tavares terá alguns defeitos, quem sabe, mas não o tenho na conta de mentiroso. E todo o texto da "Vida Familiar" o confirma.
Do opúsculo de José Gil - e ninguém é obrigado a escrever sempre em quantidade, só, por respeito a si próprio, em qualidade - João Miguel Tavares apenas nos dá conta de uma coisa que qualquer professor, qualquer psicólogo ou educador minimamente atento sabe de ginjeira: que, para a criança, a atitude dos pais é muito mais significativa do que as palavras proferidas. Bem podemos ralhar com a criança, dizer-lhe «isso não se faz» se o tom em que o fizermos for o primeiro e claríssimo desmentido das nossas palavras.
Para Gil, esta tolerância excessiva, mais não faz do que mostrar à criança que a malandrice, a pequenina trafulhice a meio caminho da desonestidade, é mais do que permitida; de facto, é desejável, o único meio para vir a ser um «chico-esperto» de sucesso numa sociedade de «chicos-espertos», governados pelo «chico-espertismo».
E, por curioso que pareça, não sendo, como ele próprio diz, um Filósofo, João Miguel Tavares mostra claramente que o percebe. Percebe que o chico-espertismo é um conceito central no modo como vivemos a cidadania em Portugal. Central, mesmo que não se apresente com a dignidade de uma expressão latina ou, o que seria ideal, americana (wiseguying, por exemplo, não sei se daria, mas que era mais cool, era).
Percebe. Mas o tom de simulação per contrarium (uma das formas mais fáceis da ironia) esse, diz-nos que não aceita.
Diga-se: não acredito que ele, Pai extremoso, deixe o Gui andar a correr aos uivos no restaurante incomodando toda a gente ou que lhe ralhe chamando-lhe «meu malandreco». Portanto, quando escreve que "o chico-espertismo abala a pátria e eu estou a ser cúmplice. A bem do futuro da nação, vou começar por trocar os livros da Disney pela obra completa de José Gil" e por aí fora, o que está a dizer o João Miguel Tavares, ele que não é Filósofo?
Eu diria, se ousasse interpretar, que, tal como muitos outros cronistas da nossa praça, está só a mostrar o seu wiseguyism.
Um dia, quem sabe se não será útil?
E já agora, trocar os livros da Disney pelos de José Gil talvez não fosse assim tão má ideia.
Primeiro porque evitava que os mocinhos lá de casa lessem porcarias. E depois porque ficavam com qualquer coisa realmente valiosa nas estantes para lerem mais tarde. E o Pai João Miguel também podia ir aproveitando.

segunda-feira, junho 08, 2009

Sem título


- Afinal, Tio La Fontaine, como é que era essa fábula?

quinta-feira, junho 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVIII)



Não era anormal dirigirem-se a ela;
o guarda-costas limitava-se a vigiar, lá de longe.
- Não olhes as pessoas nos olhos. - ralhava a Aia.
Mas Aka nascera assim, perguntadora.
Os olhos, castanhos ou verdes, conforme a luz, inquisidores, captavam tudo e todos.
Deixavam-se captar por todos e por tudo.
O mágico tirou do turbante uma rolinha branca, depois olhou em volta, fê-la desaparecer nas mãos de um jovem de cabelos para a testa, em seguida pegou nas de Aka, colocou-lhe a direita em concha sobre a esquerda:
- Ah-ah! Voilá notre petitte voleuse! Quer mostrar-nos o que tem aí escondido?
Aka sentiu cócegas na palmas das mãos, como se um animalzinho crescesse e lutasse para sair.
Quando as abriu, a aranha sentiu-se livre, saltou para o chão.
Houve gritos, gente em fuga, uma rola branca voou.
O skin da grande barriga tentou com a bota, uma vez e outra, esmagar a aranha assustada.
Com as suas grandes patas, correu por entre pés de gente e de cadeiras.
Num instante surgiu um grupo para dar caça à "tarântula" e outro para defender os direitos da pobre «bestiole assustada».
Não viram o mágico curvar-se profundamente, mãos postas diante do rosto.
- Posso saber o nome daquela a quem devo ter visto um milagre? - perguntou ele.

segunda-feira, junho 01, 2009

Quando os Vascos eram Gonçalves


A Beatriz Costa já cá não está para me perdoar o abuso. Para ela, jovem nos anos quarenta, os Vascos, obviamente, eram Santanas.
Os tempos mudaram, como sempre fizeram e hão-de fazer, pelo menos, enquanto o Pai Cronos que é o dono das ampulhetas os deixar brincar com a Criação.
E quando esses mudados tempos vieram, as Beatriz Costa e as Amália Rodrigues deram-se conta de que também os Vascos não eram os mesmos.
Agora era o Vasco Lourenço, claro, capitão em Abril.
E o Vasco Gonçalves que depois foi primeiro ministro.
Diga-se o que se disser: quando por um qualquer erro da Mãe-natureza, certamente congénito, também eu ligo a televisão e me ponho a olhar, a primeira coisa que me assalta é a saudade dos discursos do Vasco Gonçalves.
Eu sei que ele era comunista, o que, hoje em dia, corresponde mais ou menos a ser um melquetrefe desclassificado.
Mas quem não foi, ao menos, compagnon de route, colaborador ou cúmplice numa qualquer fase da sua vida, das duas uma: ou era ferozmente salazarista como a Senhora minha Avó que Deus guarde, ou era tontinho da cabeça. E a alternativa não é exclusiva: muitas vezes, acumulavam.
-
Percebam que não estou a falar de quem, felizmente, é demasiado novo para compreender o sufoco em que se vivia nos tempos de O Pai Tirano ou de O Pátio das cantigas.
Do que estou a falar é do Senhor Cardeal Patriarca a abençoar as tropas que iam para as colónias enquanto as polícias, a política e as outras, perseguiam os desertores, os emigrantes que tinham de ir a salto para França. Do que estou a falar é do número ridículo de estudantes que chegavam à faculdade e depois conseguiam acabar um curso. Do que estou a falar é dos bairros de lata que foram crescendo à volta de Lisboa e do Porto. Do Delfim, que tocava clarinete na filarmónica e vivia numa casa de terra batido, telhado de telha vã, sem água nem esgotos.
Do que estou, enfim, a falar é dos movimentos de libertação das ex-colónias que, ao ganharem a guerra, não libertaram só os pretos de lá. Libertaram-nos também a nós, os pretos de cá.
E, nos discursos do Vasco Gonçalves, ao fim de anos e anos santimoniosos, de untuosas palestras, surgia uma espontaneidade, uma tão grande fé nos humanos que, concordasse-se ou não, cativavam.
Mas, claro, ele era um major do nosso pouco glorioso exército.
Para os militares como ele, as coisas são simples, as pessoas são honestas ou não, trabalham ou não, são exploradoras ou são exploradas, é tudo sim ou tudo não. As meias tintas, a conversa para empatar, não lhe cabiam no discurso: meio jantar pode ser melhor que nada, mas não é jantar nenhum, ponto.
Foi fácil chamar-lhe Vasco, o Louco, como ao Francisco Costa Gomes chamaram o Chico Rolha. A louca sinceridade sempre assustou os bem pensantes que têm estômago para engolir tudo menos uma verdade crua.
-
Cronos, entretanto, abanou as ampulhetas outra vez.
E a pouco e pouco fomos assistindo ao regresso do discurso da Senhora minha Avó.
Ela não era monárquica: era talassa. Com muita honra!
E repetia: Muita honra!
Contava com orgulho as pequenas patifarias da Tia Margarida pelos idos de 1910, de loja em loja a perguntar:
- Tem bolo-Rei?
E quando o orgulhoso empregado lhe dizia que agora, com a República, se chamava bolo-Nacional, respondia:
- Então, muito obrigada, mas não quero!
Também a minha Avó se recusava a aceitar que, quase sempre, se tem de mudar o nome às coisas para que elas fiquem na mesma. Ou, quando não se quer uma coisa, deixa-se-lhe o nome e sapam-se-lhe os alicerces. Escuso de dar exemplos, não escuso?
Para ela, o Salazar era tudo. O salvador da paz e da tranquilidade, a dela própria para começar.
O guardião da decência.
O seu único defeito? Não era bonito, não dava explendorosos bailes em Queluz.
Quanto ao resto... o resto não havia! Nós não nos metíamos em coisa nenhuma! Que ficasse bem claro!
-
Claro que nos metemos.
Timidamente embora, fomos às manifestações. Distribuímos comunicados das Associações de Estudantes, o Avante, o Recuante e o Laterante, todos com montes de foices e martelos, todos dos verdadeiros partidos da classe operária. Muitas vezes recebíamo-los em embrulhinhos e distribuíamo-los antes mesmo de os ler. E houve outras pequeninas coisas que agora já não interessam, que não fizemos para que nos agradecessem.
Mas os tempos passaram e um outro Vasco escreve, com a maior das naturalidades: "parece que, no fim de contas, Salazar não se enganava [1]: Portugal prefere um único partido (se não exactamente um partido único). Um partido 'neutro', sem cor e sem princípios, com a autoridade necessária para salvar a pátria de si própria. Pela força, como é óbvio." E conclui, linhas mais abaixo que "a solução lógica seria assim eleger em Outubro uma força parlamentar irresistível, limitar a liberdade de imprensa (em sentido lato [2]) e submeter a justiça às conveniências do executivo." (Público de 30 de Maio)
Neutra, essa força irresistível?
Talvez. Mas a Europa, nos idos de 1933, não teve uma boa experiência com a eleição de "uma força parlamentar irresistível" na Alemanha. E ver o Vasco Pulido Valente a escrever as coisas que e Senhora minha Avó dizia aos oitenta anos, confesso, não me deixa nada tranquilo.
-
1] E, decerto, raramente tinha dúvidas. O VPV não se pronunciou.
2] Lato?

quinta-feira, maio 28, 2009

Ironia


"A forma natural da ironia é a litote - quer dizer que a ironia, como todo o pensamento senhor de si próprio, opera a fortiori. O que pode o mais, «por maioria de razão» pode o menos. A litote deflaccionista é o oposto diametral da ênfase, que é inflação e grandiloquência vã, e que não produz senão vento. Aristóteles considera a eironeia como a «carência» de uma virtude cujo «excesso» se chamasse alazoneia ou fanfarronice ..."

Vladimir Jankélévitch, L'ironie, Flammarion, 1964


Às vezes penso.
Vivemos num mundo de sabichões, de preferência televisivos.
Vocês conhecem-nos: têm o ar de «a-gente-é-que-sabe e vocês são umas bestas»; escondem-se por trás das suas organizações - económicas ou religiosas umas, politicas outras, financeiras todas - como as lesmas e os insectos se escondem da luz debaixo das pedras.
Que verdade nos resta senão a pergunta mais homeless, mais ignorante, mais mortiferamente filha-da-mãe?
Que Deus, na Sua Infinita Misericórdia, como se costuma dizer, nos ajude sempre a encontrá-la, porque fazer dela um míssil a seguir, isso já é connosco.
Com a nossa moral.
Com a nossa humanidade.
Se as tivermos, claro.

Adivinha

Alguém conhece este sinal gráfico?
Imagine que ia por uma estradinha de montanha e o encontrava.
O que dizia à sua companheira e o que responderia ela (ou os vice-versas todos, escusado será de acrescentar)?
Hipótese um:
Ele: Tudo bem, já chegámos à Turquia.
Ela: Turquia, querido? Afinal já não vamos a Condeixa-a-Nova ao baptizado do teu sobrinho?
Hipótese dois:
Ela: Se calhar não devíamos ter bebido aquela segunda garrafa de Labrujeira reserva de 82.
Ele: Eh-eh! Candeia que vai adiante alumia duas vezes!
Hipótese três:
Ele: Deve ser um novo sinal, tipo curva e contra curva mais perigos vários...
Ela: Ou um aterro sanitário para os resíduos perigosos...
Hipótese quatro:
Ambos: Só neste país!
Hipótese cinco:
Ela: ... ... ...
Ele: ... ... ...
(Outra qualquer, a cargo da sua imaginação.)

terça-feira, maio 26, 2009

Vêm em bando com pés de veludo...

Sempre andaram por aí, desde o Senhor D. João III, creio, ou mesmo antes. Tiveram muitos nomes: sob o principado de El-Rei Junot, por exemplo, chamaram-se «moscas». Mas foram sempre iguais a si mesmos: invejosos, mesquinhos, de vistas curtas.
Cobardes na maior parte das vezes, mas valentíssimos quando apoiados uns nos outros.
Pareciam extintos como o Dódó ou o Lince da Malcata ou mais ainda, porque o Lince e o Dódó deixaram saudades e deles ninguém se queria lembrar.
Mas não. São como a Phenix que renasce das próprias cinzas, como a Hidra que tem sempre mais e mais cabeças.
Não adivinham de quem é que estou a falar?
Eu dou uma pista: a direcção regional de educação do norte. Ainda não?
Vá lá, pronto, eu dou outra: uma escola em Espinho.
Sabem de certeza: está aí mesmo ao vosso lado.
Mais pistas?
Para quê?
Se ainda não perceberam, não se ralem.
Quando vos cair em cima, logo guincham.

domingo, maio 24, 2009

Rèves de um João Bénard solitaire


Aviso desde já: o que vou dizer, em calhando, é um monte de disparates.
Mas tenho de os dizer à mesma porque sou um leitor do João Bénard da Costa e ele parou de escrever.
-
Sabem daquelas pessoas com quem nós embirramos sem motivo? Não as conhecemos de lado algum, devemos ter-nos cruzado inúmeras vezes pelos lugares comuns da nossa cidade, mas nós não demos por isso e elas, certamente e com muito mais motivos, também não.
Quero crer que se trata apenas do meu mau feitio: detesto, mesmo sem as conhecer, as eminências pardas.
Eu explico: uma eminência parda é uma figura florentina: esgrime com a palavra - que domina bem melhor do que o comum dos mortais - leu mais do que aquilo que compreende, mas usa as citações como o polvo usa a tinta.
À falta do poder, mas suspirando por ele, tem uma paixão.
É poeta.
Ou historiador; sabe tudo sobre o século XIX.
Ou literato: Dante não tem segredos para ele.
E é perito em antiguidades: em casa da Avó Matilde havia sempre «uma consola muito parecida, mas tinha o brazão dos Albuquerques aqui...»
O seu modo de vestir oscila entre a gravata de seda natural e o colarinho aberto. «Vejam como eu estou à vontade em todo o lado», parece dizer.
Mas nunca veste uma camisa de menos de cem e tantos euros.
-
O João Bénard da Costa tinha quase tudo para entrar nesta categoria.
E, ainda por cima, tinha dois defeitos:
um: era católico e eu não sou.
dois: era um apaixonado por cinema e eu, nos últimos dez anos, devo ter ido ao cinema umas cinco vezes, mas, por mais que me esforce, só me lembro de dois dos filmes: um era do João César Monteiro, Vai e vem, e outro era Le fabuleux destin d'Amélie Poulain de Jean Pierre Jeunet.
O João Bénard da Costa, esse lembrava-se de tudo. Filme visto aos onze anos, aí estava ele com os detalhes mais íntimos de um verdadeiro voyeur: o tornozelo de Cid Charrisse, a golinha de renda sobre o vestido de luto de Gene Tierney no papel de Mrs. Muir.
Mas, por estranho que seja, pelo menos para mim mesmo, nunca o incluí na categoria dos pedantes, bêtes noires da cultura, fiscais de bem-pensanço.
-
O que, para lá das muitas reservas, me fazia ler-lhe os textos - ultimamente no Público - sempre que me vinham parar à mão, não o sei precisar.
Mas há coisas que se tornam evidentes, mesmo a uma primeira leitura.
Uma era o claro bom gosto da sua escrita.
A Cid Charrisse era linda. Não do mesmo modo que a Gene Tierney, mas mesmo assim. E os filmes, no seus tempos de ecrã, eram púdicos. Mostrar, por exemplo, a Esther Williams em fato de banho era já uma ousadia, só permitida a pretexto das cenas de natação. Mas, fiel ao bom gosto, Bénard da Costa evitava falar de coisas como as generosas coxas a ver-se: em todo o caso, o tornozelo da Cid Charisse era igualmente bonito e muito menos banal.
O que lhe importava era aquele pormenor em que só ele reparara, que parecia estar ali unicamente para lhe procurasse um sentido: os seus textos eram os rèves de um promeneur solitaire. Dessa réverie nos ia dando conta semanalmente partindo de um filme, de uma memória, de um acaso.
Os filmes, quando lia as suas crónicas, pouco me interessavam: não os tinha visto, não tencionava vê-los. Para mim, só o passeio do sonhador era importante.
-
João Bénard da Costa, julgo eu, pertencia àquela rara minoria dos sonhadores práticos - que não perdem de vista os objectivos mesmo quando deixam à solta a imaginação e a memória - mas não são a mesma coisa? Ver filmes, recordá-los, restaurá-los, preservá-los para voltar a vê-los, era, ao mesmo tempo, o seu sonho e a sua tarefa.
As imagens que desse sonho lhe iam ficando eram-lhe pretextos no sentido mais elementar e etimológico do termo: eram pontos de partida, prévios ao texto, desencadeadores de uma escrita em que tudo comunicava com tudo, à semelhança do próprio mundo em que ele vivia. Uma cinematéca não é o ponto onde as culturas, as mundividências, as utopias se cruzam, se interpenetram, se recombinam?
Estou em crer que a sua religiosidade tinha essa componente, sincrética talvez, e profundamente mágica em que o alto e o baixo, sagrado e profano, simples e complexo, se comunicam e se fundem no mundo das palavras: nos seus textos a Universidade de Oxford podia ser (e foi) o ponto de contacto entre Fritz Lang com o seu monóculo e um pintor como Ingres. E muitos e muitos outros exemplos podiam surgir-nos: ando a reler as suas crónicas aqui e não me lembrava de ter falhado tantas.
A minha memória não é como a dele.
-
Comecei por avisar de que ia dizer disparates e, se calhar disse.
Mas eu, que querem? Estou de luto e não quero saber disso para nada. E o João Bénard da Costa era bem capaz de soltar uma das suas gargalhadas graves e um tanto roucas: para ele, o direito ao disparate era inalienável.
Pelo menos, até se lhe esgotar a paciência, o que, para ele, como direito seu, não era menos inalienável do que qualquer outro.
E agora vou deitar umas pedras de gelo no meu whisky e bebê-lo à memória dele.
-

sexta-feira, maio 22, 2009

quinta-feira, maio 21, 2009

Lusopitecus Quèobrensis Astutus

Com a devida vénia à Hainnish que colaborou activamente na descoberta destas e de muitas outras espécies de quèobrensis.

domingo, maio 17, 2009

Nós Górdios



As mulheres, quando não são simplesmente a metade fêmea do lusopitecus quèobrensis graniticus ou de qualquer outro piteco afim, são um espanto.
Primeiro, pura e simplesmente por existirem.
Depois por serem bonitas.
Enquanto nós, homens, somos uns estafermos peludos e mal-encarados, elas têm encanto e, por vezes, até conseguem ter classe.
Nós bem podemos vestir casacos de tweed com cotoveleiras, fumar ostensivamente os nossos cachimbos: ao pé de uma Carla Bruni, por exemplo, qualquer um faz figura de Sarkozi senão de Cavaco Silva ou Berlusconi.
Têm elas, além disso, uma característica perturbadora.
Mesmo quando se divertem e riem, a vida é, para elas, uma coisa extremamente séria.
Só para dar um exemplo:
Há um senhor(1) que se dedica a fazer jogos e quebra-cabeças que, depois leva às feiras de artesanato.
Alguns são tão clássicos como o peg solitaire que, reza a lenda, foi inventado por um prisioneiro na Bastilha e terá levado ele próprio muitos anos a resolvê-lo.
Outros são versões simples ou elaboradas do jogo do galo ou do Mariembaad. Mas o referido senhor não se limita a construí-los: também os inventa.
É da sua autoria o quebra-cabeças que a senhora do desenho ali em cima estava a tentar resolver.
Claro que eu não assisti à cena. Foi-me relatada já em segunda ou mesmo terceira mão, portanto a senhora que eu desenhei não tem nada a ver com a protagonista da história.
Mas vamos aos factos.
Como muitas e desvairadas gentes quando passam pelo stand, a senhora pegou num e noutro dos jogos, pediu explicações, agarrou num quebra-cabeças (Pythagoras de seu nome) e foi desafiada pelo artesão a resolvê-lo.
Tratava-se de soltar um anel enfiado num cordão e que, de um lado está preso por uma complicada estrutura de madeira; do outro, o cordão passa pelo interior de uma bola de madeira também, cujo diâmetro maior impede a passagem do anel. Um nó simples prende a bola.
Trata-se, portanto, de retirar o anel sem, condição absoluta, o desatar.
Quando o Alexandre Magno se deparou com o célebre nó Górdio, a sua atitude não deve ter sido muito diferente do daquela cliente. Deve ter mirado e remirado de todos os lados, coçado a cabeça e tomado a sua decisão. Alçou a espada e, zás.
A cliente não foi tão expedita, ou porque lhe tivesse faltado a tesoura ou porque não quis estragar o jogo. Mas aferrou-se a ele com uma decisão firme, dedos fortes a empurrar a argola contra a esfera, «não hás-de ser mais teimosa do que eu», e crac: a argola cedeu na soldadura, e, um tanto amolgada, soltou-se do cordão.
A senhora abriu um largo sorriso e apresentou ao feirante o enigma resolvido.
Não há nada a dizer, pois não?
Quando um jogo, como o futebol, por exemplo, é encarado a sério e é assumido como de vida ou de morte, fazer faltas, mesmo as mais violentas, considera-se, enfim... aceitável.
Como censurar, então a senhora, pela dedicação ao prob O nome lema e pela solução encontrada?
E ficamos com um problema:
Se aceitamos, com Gregory Bateson, nos Metadiálogos, que, quando não nos sentimos tentados a fazer batota, a contornar as regras, então é porque não estamos a encarar o jogo a sério, a conclusão é a de que a democracia nunca pode passar de uma brincadeira, um jogo que se joga quando as coisas não são importantes.
Claro que as mulheres, desde sempre nos deram exemplos de que nem tudo pode ser submetido a consensos e, muito menos, a votações. A vida dos filhos, por exemplo.
Mas, para que isto não seja um simples argumento a favor da força, onde está a falácia?
-
1) O seu nome e a profissão, bem como outras referências pessoais, foram retiradas deste texto a pedido do interessado.

sexta-feira, maio 15, 2009

Sem título

Mais saudades

quinta-feira, maio 14, 2009

Sem título

Hoje, excepcionalmente, decidi ter saudades de mim mesmo.

domingo, maio 10, 2009

Guarda isso para Agosto!

Praia de Santa Cruz
1935
1.
Lá em casa, quando eu era miúdo, usava-se imensas vezes uma frase enigmática que quase sempre fazia rir os graúdos.
A frase em si não tinha graça nenhuma:
- Olha, deixa isso para Agosto! - dizia-se.
2.
Advirto desde já: este post, mesmo se não parece, é sobre uma jovem Senhora, de seu nome Joana Alegria (e que nome bonito o seu!), que teve a péssima ideia de ter o seu bebé fora da época.
Repito: fora da época.
Com isso perdeu o concurso em que era candidata, não a deixaram frequentar um curso de formação e, pronto, está desempregada.
- Mas quem, Deus do Céu? - perguntais. - Não há responsáveis por uma coisa dessas?
Responsáveis? Não, claro. Foi o Ministério da Justiça...!
Lá em casa, a minha Mãe teria perguntado com aquela ironia que serve sempre de disfarce às tristezas, às frustrações:
- Olha, Filha, porque é que não guardaste isso para Agosto? - e, claro, ninguém teria rido.
3.
Não é caso inédito: sei lá quantas carreiras promissoras foram já destruídas porque as jovens, hélas!, se me permitem o eufemismo, seguiram a natureza. É que, como ela não é de muita confiança, os bebés acontecem. E como o aborto nem sempre é solução - e nunca é para certos sectores ou para certas sensibilidades - os homens (e as outras mulheres, ora pois) vingam-se:
- Andaste a divertir-te, não foi? Agora amolas-te.
E pronto, a aluna perde o mestrado, a professora não muda de escalão, uma outra jovem não consegue passar na entrevista para o emprego por causa de um certo epessamento na cintura...
Um dia alguém terá de pensar a sério esta recusa perante a sexualidade alheia, sobretudo se são jovens.
Direito a uma sexualidade sã? Educação sexual nas escolas? Nem pensar!
Proteger a maternidade? Bom, dá-se aí mais uns dias para amamentar...
Aborto? Pá, teve de ser, à segunda, já não conserguimos... mas só até às dez semanas, hem? E pílula do dia seguinte, só com receita médica... ah, não?
4.
Mas, pronto. Se me permitem, deixemos a Joana Alegria por uns intantes e vamos à história do «guardar para Agosto».
Aí pelos anos vinte e tal, trinta, do século passado, a praia que a minha família frequentava tinha sido muito melhorada e embelezada.
Como noutras praias da nossa costa, a areia ficava lá muito em baixo, ao fundo de arribas quase a a pique. Os melhoramentos consistiram, então, em escadarias de cimento, umas mais larguinhas, outras estreitas e compridas com degraus altos a causar vertigens, interrompidas, de tantos em tantos degraus, por acanhados patamares.
Ali, pensara decerto um arquitecto, podiam as pessoas mais idosas descansar da subida sentadas em bancos, de cimento também. Os mais novos, esses aproveitavam para tirar a areia dos dedos dos pés e calçar os sapatos.
Toda a subida era ainda acautelada por uma espécie de corrimão feito de retorcidas pedras soldadas umas às outras com o inevitável cimento, reforçado interiormente com ferro. Aqui e ali, um pedaço de azulejo ou um caquinho de barro davam a nota alegre do descuido dos pedreiros: era o embelezamento.
5.
Não sei se há memórias descritivas dessas obras.
Suponho que tentavam imitar um qualquer «natural» imaginário melhorando consideravelmente a própria natureza: encontramos tentativas dessas um pouco por todo o lado, por exemplo, em «grutas» onde cresciam avencas e uma bica deixava escorrer um fio de água.
As câmaras municipais odeiam-nas. Substituem as bicas por torneiras pinguentas, a escorrer uma baba verde na ponta de um cano. Aquando das requalificações urbanas, destroiem-nas sem dó nem piedade.
O lago do Jardim da Parada, em Lisboa (coração do bairro de Campo de Ourique, com abundantes cafés e a Livraria Ler, se não sabiam) foi vítima de igual sanha destruidora.
Já não está na moda imitar seja o que for: os arquitectos descobriram a palavra «pastiche», lançaram sobre ela o mais absoluto dos anátemas e zás! Sentiram-se desobrigados de ter um gosto qualquer, nem que fosse mau e desataram todos a desenhar as mesmas coisas.
Não sei se imitar nem que fosse o Raul Lino não seria bastante melhor, mas os pato-bravos, claro, agradeceram.
Tenho a ideia de que restam ainda uns quantos desses românticos arranjos, por exemplo, no Jardim da Estrela, mas já não acredito muito.
Mas, adiante, não façamos esperar demasiado a Joana Alegria (que, repita-se, tem um nome bem bonito).
6.
Uma das escadarias da nossa praia, então, terminava cá em baixo, já quase na areia, alargando-se, dividindo-se em dois lances mais espaçosos, um para o lado norte, outro para sul. No vão desses lances ficava o «estaminé» que vendia baldes e pás de folha, forminhas para fazer bolos de areia, bolas coloridas, ringues para jogar ao «mata», pregos de vidro translúcido para jogar ao prego.
E, supremo melhoramento: passou a haver casas de banho, uma para as senhoras e, do outro lado, a dos homens.
7.
E estamos a chegar ao que importa:
Passados anos, já estas melhorias tinham perdido a novidade, o inevitável aconteceu: prováveis cortes de verba, alguma indiferença, sabe-se lá, o «estaminé» e as casas de banho só abriam a partir de Agosto e até meados de Setembro, o que, imagina-se, causava a indignação dos veraneantes que tinham casas à época e começavam a fazer praia logo a seguir aos Santos.
Ora acontece que, um dia, estando nós (ou os nossos irmãos mais velhos, não faço ideia) já brincar na areia, as nossas mães, naturalmente queixavam-se, «pois, só os veraneantes que vinham de Lisboa, os que tinham férias em Agosto é que eram importantes. Os outros, minhas amigas, não eram ninguém...» e por aí fora.
Estavam nesta amena cavaqueira, quando um dos miúdos, numa urgência anunciada pelo ar aflitamente encolhido, veio reclamar:
- Mãe. Quero cócó.
A Mãe, de imediato, retorquiu-lhe:
- Ó rapaz, deixa isso para Agosto.
8.
A frase ficou.
Dizem que já não há amanhãs que cantam, mas, disso, não sei nada. O que sei é que, pelo menos, a esperança de Agostos com os «estaminés» abertos, de um arzinho de férias, ao menos uma vez por ano, isso ninguém me consegue tirar.
A Joana Alegria, que, creio já ter dito, tem um nome lindo, só restava ter esperado pelo mês certo.
É que, como diz o Mário de Carvalho, este povo não tem emenda.

sexta-feira, maio 08, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVII)

-
- Um problema sanitário é um problema sanitário, disse a Aia.
- Temos de sair do hotel.
Aka achou engraçado estarem a ser expulsas por uma tautologia:
- Problemas sanitários duas vezes?
- A desratização, Aka. Já te expliquei, não foram duas vezes.
Foram mais de cem.
Aka não retorquiu.
A graça da coisa era que uma desratização num hotel fosse sempre precedida por uma desumanização.
- Se eu fosse rato, quando visse os humanos a abandonar o navio, deitava-me logo à água.
- Deixa de ser ridícula, Aka. Tu não és um rato.
- Graças a Deus.
Mas não tinha muito a certeza.
Talvez devesse ter-se feito pequenina e seguido o primeiro coelho branco que passasse.
Ainda estaria a tempo?
-

quinta-feira, maio 07, 2009

Sem título

- Pinho, pá! Já comi a Maizena e já lhe cheguei aos calcanhares.
E agora, que é queres que eu faça mais?

quinta-feira, abril 30, 2009

O Mundo Perfeito

Faleceu o único mundo perfeito que eu algum dia conheci.

Gripe Suína

- Francamente, francamente, não creio que haja grandes motivos para estarmos preocupados...

quinta-feira, abril 23, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XVI)


"The Virgin started from her seat, & with a shriek"

-

- Como te chamas, jóia?, perguntou a Cartomante.

- Não sei, respondeu Aka. Tenho mais de mil nomes.

- Como Nosso Senhor, hem? Não és modesta. E como te chamava a tua mãe, além de minha bonequinha fofa?

- A Mãe foi morta quando eu tinha cinco meses, dizem. Mas a minha primeira ama, a que me deu de mamar, chamava-me Diniza.

- A tua Mãe foi morta? E por quem, minha preciosa?

Aka abanou a cabeça.

- Não lhe posso dizer.

- A mim podes dizer tudo, pequena. Mas não queres, não é assim? Bom! Diniza? Diniza, num dialecto muito antigo que aprendi num sonho, queria dizer «filho de Deus".

- No meu também. Mas «din» ou «djin» junto com «iza», que quer dizer pequenino, é o que se usa para os enjeitados, sabes? Cria de Deus, filhote. Alguém que foi deixado à porta do Pai mais velho.

- Hum-hum? E depois?

- Depois o Pai mais velho decide se a criança merece viver e dá-a a criar a uma ama, a uma mulher que esteja a amamentar. Ou decide que não... A mim podem ter decidido que eu vivesse.

- Que história triste, pequena. Tens a certeza do que contas?

- Não, sabe, «dinisa» também se usa para uma rapariguinha endiabrada, um diabinho em forma de gente. A diferença é que os letrados ocidentais escrevem com «s». Nós usamos a escrita antiga, que não é só fonética.

- E tu, eras um desses diabinhos?

- Ainda sou.

- Seja Diniza, então! Com «z» ou com «s», tanto faz.

Soletrou e foi espalhando cartas em polígono à medida que recitava as letras.

- Ui! Que violência, minha querida. Vês? Esta carta é o teu pai.

Colocou em rápida sucessão mais seis cartas ao lado das anteriores.

- Sim, vejo-te com uma coroa de rainha, diamantes, safiras... e uma espada sobre a tua cabeça. Pés descalços, sobre as silvas. Quem és tu, Diniza? Com esse rosto tapado deves ser muçulmana... Não, espera... és de uma seita que te condenou... que interessante, Deniza: estás condenada à morte! Não acredito que tenhas poderes suficientes para fazer mentir as cartas. Só o Demónio o consegue.

- Eu sou um diabinho, lembra-se?

- Mostra-me as tuas mãos! Consegue-se fazer mentir todo o corpo. Hás-de aprender isso um dia, talvez quando casares, se viveres até lá. Mas, não te esqueças! As linhas das mãos, nunca mentem porque a mentira fica gravada para sempre.

Aka estendeu ambas as mãos, com as palmas viradas para cima e fechou os olhos:

- Why cannot the Ear be closed to its own destruction? - perguntou ela. - Não se preocupe: foi qualquer coisa que aprendi nas aulas de Inglês. Um preto qualquer, como eu.

- Modesta, como sempre, hem? Eu também estudei inglês, rapariga. O William Black só era preto de nome. E tu nem issso. E agora cala-te. Quero ver o que dizem estas linhas.

terça-feira, abril 21, 2009

Obamocepticismo 3


- Mas é claro, rapazes!
Como é que alguém pensou em levar-vos a tribunal?

domingo, abril 19, 2009

sexta-feira, abril 17, 2009

quarta-feira, abril 15, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XV)


A Aia baixara o khimar, sorria,
o velho marchand dizia coisas redondas,
era excelente o gosto da «sua jovem amiga»,
dava palmadinhas na caixa poisada na mesa de apoio a seu lado,
a mão fina, manicurada,
os olhos a mostrarem Aka,
«a quem pedia que lhe perdoasse a insignificancia»,
«só justificada pelo o seu juvenil entusiasmo».
«Não, eu nunca perdoo», pensou Aka, «às vezes esqueço, é só isso»,
mas baixou os olhos como fora ensinada a fazer.
O velho, vagaroso, desembrulhou a figurinha da petitte danseuse reduzida a dois palmos.
- Vraiment superbe! - murmurou contemplativo
e a Aia repetiu:
- Oui. Superbe.
Aka levantou-se, fez uma vénia,
«vous m'excuserez», e saiu da sala.
- Não repare - pediu a Aia. - É a idade. É para esconder a comoção...
- Oh! É muito mais grave do que isso, minha querida amiga. Está na idade em que ainda é possivel recusar a banalidade. - acariciou o tule da estatueta com o dedo mindinho estendido e pareceu triste por momentos: - Receio que a vida a venha a desiludir muito.
Mas mesmo muito, mesmo muito...
-

sábado, abril 11, 2009

sexta-feira, abril 10, 2009

Ai futebol, futebol... [2]




Se alguma coisa democratiza o futebol - e aqui o verbo leva toda a carga possível de vulgaridade - é o facto de a gente poder falar dela sem qualquer preparação.
Todos nós, os que somos já suficientemente antepassados, jogámos à bola na rua, à revelia das leis de então: ia-se comprar a «chincha», havia sempre uma vizinha ajudante de costura que as vendia por cinco tostões - o preço aproximado de um papo-seco na padaria. Era uma bolinha feita de restos de pano compactados no interior de uma meia velha e cosido à volta, uns oito centímetros de diâmetro irregular. Frequentemente não rolava muito bem, sobretudo quando começava a romper -se.
Ao grito «olhó'chuidesalvorávamos todos a correr. No liceu era a mesma coisa. Vinha o contínuo - «olhó Guerra!» e lá saltávamos o muro, fingíamos estar a jogar ao bilas, fazíamos o ar de «quem, eu? eu estava só a ver...»
Às vezes lá ia um pela orelha, a chincha apreendida; eram os azares da vida, a miudagem da rua aprendia depressa a viver com isso.
Quem não sabe identificar o inimigo, morre depressa. Ou então, torna-se inimigo por sua vez, quando crescer, o que é mil vezes pior.

Com o andar dos tempos, as coisas mudaram um tanto.
As ruas foram definitivamente ocupadas pelos automóveis, os putos já lá não cabem. As pessoas, como se fossem macacos em perigo de extinção, são remetidas para zonas protecção especial: um ou outro parque, umas coisas chamadas circuitos pedonais.
A miudagem já não dá cabo das botas a chutar na chincha. Usam ténis e têm belas bolas de plásticos vários que noutros tempos nos teriam feito arregalar os olhos de admiração.
E, pasme-se!
Até lhes arranjam campos de jogos lá na escola - embora, regra geral, os cubram de betão, que é para as quedas doerem à séria.
E é assim que todo o machinho, por esse mundo afora, tem pelo menos um mínimo de experiência do que é correr atrás da bola.
Acrescente-se a isso umas gordas de jornais ditos desportivos, um par de debates na televisão e aí está um entendido: treinador de bancada, árbitro competentíssimo, dirigente de café. Pode botar faladura, a sua opinião vale tanto como qualquer outra e o que disser, não importa realmente.

É uma banalidade quase escusável lembrar que, se ele fosse banqueiro ou grande industrial, ou advogado topo de gama, falaria de investimentos com gente da sua igualha, igualmente aptos a usar o código em que se exprime o mundo dos grandes negócios.
Se fosse físico, astrónomo ou médico, a conversar com outros físicos, astrónomos e médicos, usaria igualmente, é evidente, uma linguagem apropriada que supõe o conhecimento prévio dos conceitos. São linguagens prestigiantes, muitas vezes, guardadas ciosamente das intrusões dos leigos. Mas claro, se não querem ficar isolados toda a vida do resto do mundo, também eles terão de ter como que um jargão comunicacional.

O tempo que faz, a meteorologia, é um tema óptimo. Serve o tempo de um elevador.
Do quarto andar para o terceiro alguém comenta o calor que faz ("está de ananases!"), do terceiro para o segundo tossem ambos um momento de embaraço.
O pobre pé rapado, que só pode falar de juntas nas canalizações ou da diferença entre uma goiva e um formão, depois de concordar amavelmente ("sim, sim! de derreter os untos...") teria de remeter-se ao silêncio, admitir que faz parte do coro mudo, da claque enlevada de todos os que sabem falar.
A solução milagre é o futebol:
- Então, doutor, viu o Porto ontem?
- Uma vergonha, Lopes! Uma vergonha! Aquele Fonseca...
- Mas a arbitragem...
É quanto basta.
As mais escandalosas diferenças podem crescer, engordar, exibir-se. A democracia está salva.

quinta-feira, abril 09, 2009

Umas florinhas

Hoje, 9 de Abril, faz anos uma Senhora muito da estima do Portugal, Caramba!
Não se diz quantos porque não é bonito apregoar aos quatro ventos a idade de uma senhora, mesmo quando ainda é uma jovem.
E não se diz o nome porque ela prefere manter-se discretamente fora destes convívios.
Mesmo assim, se por aqui passar, talvez aceite umas florinhas...

terça-feira, abril 07, 2009

Ai futebol, futebol... [1]



Pronto: confesso.

O futebol é um dos meus ódios de estimação.

E quando digo «de estimação», não pensem que esta expressão contém alguma cordialidade para o dito futebol. No fundo é só uma auto-estima: como eu gosto de mim mesmo por odiar aquela coisa.
Pelo futebol em si mesmo, creiam, nutro e acalento um profundíssimo desprezo.
Para terem uma ideia: As carraças e as pulgas dos cães combatem-se com umas coleiras próprias. Palavra: se houvesse uma coleira anti-futebol, eu usava-a com o mesmo orgulho belicoso com que os adeptos do futebol clube do Porto ou do sporting clube de Portugal enrolam ao pescoço um cachecol azul ou verde, conforme, e vão em grande grita para os estádios.

Não é que eu próprio não tenha jogado à bola quando era miúdo, apanhado caneladas, esfolado joelhos. E até, para que vejam, ousei uma vez meter o peito à bola, mas como era nabo, foi a boca do estômago quem levou com ela.
Dá para ver: respiração cortada, o lesionado arrasta-se até ao muro e encosta-se, os companheiros olham, «isso não é nada» e o jogo continua com um inútil a menos, mais novo e magrinho, só estorvava. Mas, pronto. Aguentei-me à bronca, nunca se dá parte de fraco. Passado um par de minutos, lá regressei, o mais galhardamente possível, a atrapalhar toda a gente.
O facto de ser um provinciano assumido, de preferir as botas caneleiras e os coletes com muitos bolsos, de nunca ter vestido um fato de treino, provavelmente ajudou.
Nasci numa vila, nesse tempo ainda relativamente pequena.
Tínhamos a impressão tola, é óbvio, de conhecer toda a gente: não era verdade. Conhecíamos apenas gentes do nosso grupo, umas poucas dezenas e sabíamos, por vezes muito vagamente, quem eram umas centenas.

Estudos de sociologia mostraram já que o círculo onde nos movemos oscila bastante, mas, em média consta de uma trinta pessoas. As mais sociáveis têm grupos um pouco maiores, os tímidos e os conflituosos grupos menores, mas não é por acaso que uma turma que ultrapasse este número de alunos funciona mal. E uma escola com mais de novecentas pessoas entre alunos, funcionários e professores será um quartel, um campo de concentração, o que quiserem, mas uma escola não.

O povoamento guiava-se por normas não escritas, mas da mesma obediência.
As aldeias, por norma, não chegavam ao milhar de habitantes. Se chegavam, dividiam-se sem dar por isso. Havia os Freixões de Cima e os Freixões de Baixo e desenvolviam rivalidades porque os rapazes de um lado vinham namorar as raparigas do outro, exogamia manda e a erva é sempre muito mais verde do lado de lá das fronteiras. E claro, não faltavam as duas tabernas, duas sociedades, dum lado a Recreativa, do outro a musical, dois grupos fosse do que fosse.

A nossa vila não era diferente, era só maior.
Tinha bairros, famílias e tinha castas.
Havia Grémios, Assembleias, Tunas e Clubes variados, os de uns, normalmente, claro, não frequentavam os outros.
Quando havia cinema, lá se misturavam todos, no mesmo edifício, mas em zonas distintas. Uns iam para o primeiro balcão, ou, se iam em família, para um camarote ou, vá lá, para uma frisa. Havia ainda, como alternativa, o segundo balcão.
A plateia era a zona da plebe.

Nem a Igreja escapava a estas distinções: ao domingo havia uma missa que era a da gente fina. Os senhores tinham cadeira e genuflexório próprios numa nave lateral e à saída dominavam o adro com os seus grupos, a beleza das senhoras, a riqueza dos trajares. Os outros formavam grupinhos mais pequenos, mais encostados às paredes, circulavam pela periferia.

O fuebol, aparentemente, era a excepção não porque não houvesse também separações. Havia. No nosso campo da bola, chão de saibro vermelho e riscas brancas, só havia uma bancada que corria todo o lado poente do campo. Nela tinham direito a sentar-se, em cadeiras, os sócios com lugar reservado. No cimento sentavam-se os outros. E claro, nas cabeceiras ou no lado oriental, de caras para o sol e a mão direita em pala para não perder pitada, era o peão.
Alternando com o vendedor de «bolachámaricana, idicanela!», o cauteleiro percorria as nossas ruas, a gritar «é prá'mañhã!, olhó cinquenta e oito!» ou «anda hoje, anda hoje!». Semana sim, semana não, quando chegava o sábado mudava de estribilho:
«Peão prá bola, peão prá bola. Olh'é o peão prá bola!» O clube da nossa terra, nessa semana, jogava em casa.

No domingo, pois, com o comércio fechado, era o ritual do levantar mais tarde, do banho semanal, depois a missa e, a seguir, era o cozido à portuguesa ou o bacalhau com todos. Regaladamente repletos, os senhores levantavam-se da mesa um tanto pesadotes e abalavam para o café a juntar-se em pequenos grupos, a dar palpites sobre o jogo. E em grupo lá se iam encaminhando para o campo. Parar em cada esquina para mais uma sentença, mais um argumento, era parte do prazer.Parecia a mais pacífica das gentes.
Uma hora depois era vê-los.
Perdida a compostura, os casacos caídos algures, a camisa desprendia-se dos cintos e as gravatas pendiam amaxucadas. O honesto e generoso pai de família, de rosto púrpura atirava perdigotos para todo o lado enquanto berrava a sua exaltação:
- Partam-me um braço a esse filho da puta, cabrão!
No outro lado, no peão, empoleirado sabe Deus onde, um homem de fato de macaco puído e manchas de óleo que as lavagens não conseguiam apagar, berrava exactamente o mesmo.
Era desta massa que se faziam depois os patriotas e nela as uniões nacionais recrutaram desde sempre os seus apoiantes mais fiéis.

Não acreditam?
Mal o vosso.

domingo, abril 05, 2009

O Portugal, Caramba! também gostava de ter um emprego e de acumular umas reformazinhas...

Claro que o Engenheiro Sócrates é engenheiro.
Civil. E civilizado.
E Mestre.
E que não fosse?
-
Claro que é impoluto.
Claro que é transparente.
Se dizem mal dele, é só invejas.
E que não fossem?
-
É só porque ele é bom.
E ele é bonito.
E é inteligente.
E é honesto.
E que não fosse?
-
E não é Pinóquio nenhum.
E se se lembrarem de mais alguma coisa boa e interessante, ele também é.
E se não fosse, não era. Ponto.

segunda-feira, março 30, 2009

E que temos nós com isso?

O facto em si, tal como o relatava o El País de ontem, não tem grande interesse: Estefania, que nasceu rapariga, transformou o seu corpo de acordo com o género a que desejava pertencer e tornou-se no Rubén.
Até aqui, nada de novo.
Como é próprio dos jovens, o Rubén, apaixonou-se por Esperanza, uma senhora um pouco mais velha e, de casa e pucarinho, decidiram ter um filho, tal e qual como qualquer outro casal que por aí ande.
O invulgar da história é que Esperanza, que é já mãe de dois filhos, não pode ter mais. E bom, como em qualquer casal, quem engravida, é aquele cujos órgãos femininos se encontram funcionais - num casal tradicional é a mulher e pronto, não se fala mais nisso.
No caso vertente, porém, quem tem um útero funcional é o Rubén que, por via da mudança de género, desempenha um papel masculino, ou seja, é um homem.
Não sendo muito usual, no fundo, se pensarmos bem, é lógico.
O que levanta algum problema, são as declarações de um tal Dr. Ballescà, ginecologista e responsável, diz-se, por uma unidade de Andrologia reprodutiva em Barcelona.
"Pelo facto de que esta gravidez seja tecnicamente realizável" diz o médico, "não se segue que seja eticamente aceitável."
E nós concordamos. De "A" ser possível, não se pode concluir o seu valor ético. A bomba atómica é um bom exemplo. E uma menina de doze anos ou mesmo de onze pode «tecnicamente», se a palavra aqui tiver cabimento, engravidar. O que segue é que essa gravidez possível é altamente indesejável e eticamente inaceitável.
Porém, continua o ginecologista: "A intervenção de mudança de sexo deve ser total, o que acarreta a extirpação dos ovários!" E acrescenta: "És una contradiction".
De facto: um homem é um homem e um gato é um bicho. Mãe há só uma e, por definição, um pai não tem ovários.
Ora, neste caso insólito, a figura paternal vai ser a mãe. E o cônjuge da mãe (que costuma ser o pai, mas não sempre) vai ser a figura maternal. É confuso, não é?
Imaginem o pobre conservador do registo civil lá do sítio:
- Mas, então...? E eu escrevo o quê? ... E escrevo aonde?
Se for um daqueles que também por aí andam, há-de deitar as mãos à cabeça e sair pela porta fora aos gritos:
- Contradição! Contradição!
Já não havia estações, chove e faz frio em Agosto; nas estâncias de Inverno, em vez de esqui, tomam-se banhos de sol. Os bancos que costumavam emprestar dinheiro às pessoas e viviam disso, agora pedem dinheiro ao Estado e não se percebe de que é que tencionam viver quando a economia for para as urtigas.
E, para cúmulo, os pais armam-se em mães e decidem ser eles a ter os filhos.
Eu, por mim acho que é um escândalo! O Dr. Ballescà, se calhar também. E o Sr. Papa, mesmo se ainda não se pronunciou, vai uma apostinha em como também vai gritar «contradição, contradição?»
E porquê? Alguém nos deu o direito de nos metermos onde não somos chamados?

domingo, março 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIV)

- O essencial, sabes, continua a ser invisível para os olhos - disse a raposa. - O problema é saber como podemos torná-lo visível.
Aka fez que sim com a cabeça.
- Os cientistas, por vezes, usam os microscópios.
- Pois. Mas encontram essências muito, muito pequeninas.

O Nó cego, o Nó górdio e as cortinas piedosas

Carlos Vale Ferraz,
Nó Cego, 1982
4ª. Ed., Casa das Letras, 2008

-


1.
Nó cego é um romance perturbador.
Desde logo, porque se lê de um fôlego. E depois, porque, caso raro na literatura portuguesa que eu conhço, se trata de uma epopeia a que não falta sequer o episódio da ilha dos amores (Cap. 6, Na ilha do sonho).
N'Os Lusíadas, ensinavam-nos os mestres, o herói, ao contrário da Eneida, é colectivo. (Com as maiúsculas obrigatórias:) é o Povo Português. Em Nó cego, mais discretamente, é apenas uma companhia de Comandos.
Numa linguagem de cuidadosa simplicidade, o que se narra são as aventuras e desventuras daquilo a que se chamará, creio, o seu «espírito de corpo».
Um Capitão, uns quantos Alferes, cento e poucos homens que a uní-los tinham apenas frases: o comando não tem fome nem sede, o comando não deixa os seus para trás, o comando mata em silêncio...
Nem todos eram anjos, decerto, e Carlos Vale Ferraz não o tenta disfarçar. As referências ao passado de jovens milicianos, de soldados provenientes de meios muito diversos, dão-nos o retrato dessa diversidade bastante menos do que inocente.
Uma «puta de companhia!», como a define o próprio Capitão, a consciência do colectivo. «Paneleiros, chulos, ladrões, seminaristas, filhos-de-família, vadios e ando eu a bater-me para manter esta merda junta!» (pag. 311)
Gente normalíssima, no fundo, num país que se pretende de brandos costumes, mas que, deixada à solta, mata velhos e crianças, viola mulheres e tortura prisioneiros antes de os matar também.
Vale Ferraz narra como se foram tornando num bando de criminosos de guerra para quem, a começar pelos oficiais superiores, e a acabar nos soldados, «a Convenção [de Genebra] não passa de uma hitória de fadas», como explica o Capitão a um guerrilheiro capturado: «Para o meu Governo vocês são terroristas, e eu sou o senhor absoluto da tua vida.» (pag. 323)
2.
As epopeias guerreiras costumam ser trágicas: o guerreiro que enfrentou com bravura a morte em combate parte para o Valholl de Odin onde o espera o combate final e o fim do mundo.
Também Nó cego acaba com a morte do herói.
A companhia de comandos é desfeita no fim do romance, os soldados, após o combate pela tomada da Base Gungunhana da Frelimo, estavam «de rastos», já não era possível levá-los «a lado nenhum».
"- Não são peças velhas de um motor que gripou", argumentava o Capitão. "- Ao menos, deixem-nos juntos a jogar às cartas ou à pesca, não nos espalhem cada um por seu lado..." (pag. 345)
Mas eram.
A Companhia foi desmantelada como se não passasse de uma Berliet avariada, reduzida a um esqueleto à beira do aquartelamento. Canibalizaram-se as peças que ainda podiam servir, uma condecoração aqui, uma promoção acolá.
Significativamente, a sua consciência, espírito de corpo ou alma, como se queira, representada pelo seu Capitão, termina num apartamento no Algarve, o paraíso possível para os guerreiros dos nossos tempos. Lá esperarão pelos novos combates porque não há outro destino para eles.
3.
Nó cego é uma parábola incómoda.
Primeiro porque como que nos culpa da morte daquele corpo.
Não importa se o «General K», «comandante-chefe de Moçambique» tinha sido ou não um responsável daquelas guerras. Assumindo que se tratava de Kaulza, um dos homens que denunciou a tentativa de golpe de estado ou de pronunciamento militar, como se queira, de Botelho Moniz, então ele foi um dos grandes responsáveis pelo desencadear de todos aqueles massacres que ficaram por julgar e que Vale Ferraz, discretamente embora, não oculta. «K», no romance representa a sinuosidade do político que usa os seus homens exclusivamente para os seus próprios objectivos extra-militares e que os trai logo que, como um velho motor, deixam de ser manejáveis. Não representará «K», para o autor, a própria Pátria?
E a parábola incomoda ainda, em segundo lugar, pelos valores que apresenta. Nós sabemos que a traição não é bonita; mas a Companhia que foi traída, também não o era.
Para recordar um só exemplo, a pags. 211 e 212, Vale Ferraz narra um episódio provavelmente verdadeiro, porque, com variações ainda menos dignificantes, à altura foi contado por todo o lado, pelos soldados que iam voltando. Trata-se da emboscada do soldado Lopes:
"Atirou-se de faca de mato na mão, «o comando mata silenciosamente», sobre um novelo de gente caída no chão. Exibiu diante dos olhos o punhal com a lâmina vermelha de sangue, «um punhal de comando», voltou a enfiá-lo no corpo de uma negra, depois no «manacho» de quatro ou cinco meses que chorava agarrado à mãe morta.
- Que estás a fazer?
O Lopes fitou, espantado, o capitão. Baixou os olhos para o cabo da faca, ainda espetado nas costas da criança, e respondeu:
- Estou à procura do coração, a mãe está morta e ele berra muito alto, meu capitão."
4.
Aqui, no Portugal, Caramba! somos pacifistas quêbê, anti-militaristas tanto e tão militantemente quanto podemos.
Sabemos que, como diziam as canções de antigamente,
tant qu'il y aura des militaires, soit ton fils, soit le mien,
il y aura jamais sur terre pas grand chose de bien,
pas grand chose de bien ... (1).
Infelizmente, poucos anos depois de composta esta canção, a II Guerra mundial, como ficou a ser conhecida, havia de provar à saciedade que os pacifistas sabiam do que falavam. A Guerra de Espanha, ali mesmo ao lado, com os seus viva la muerte, era um bem triste exemplo.
Infelizmente, ter razão não serve para nada.
A maioria dos anti-militaristas, dos opositores aos planos bélicos quer de um lado, quer do outro, acabou mal. Fuzilados uns, em Belsen ou Dachau outros, podemos supor que bastantes, atirados para a Sibéria e muitos, muitos fugidos, exilados, perseguidos nos empregos, nas suas vidas.
A guerra é o mal absoluto.
Mas há sempre alguém, um militar armado em político, um político que se julga militar, pessoalmente muito boa pessoa até, que finge ignorá-lo. Chorará a necessidade imperiosa, o dever de consciência de a desencadear. E os demónios da guerra serão soltos. Seguir-se-á o habitual cortejo das destruições, da violência gratuita, dos danos colaterais.
Se for o chefe de um país vencido, ou pequeno, ou pobre, poderá ser acusado perante um tribunal qualquer, politicamente correcto que perseguirá Sérvios e esquecerá Bósnios. Se for de um país grande e rico, concederá a imunidade às empresas de segurança que lhe fornecem mercenários, ignorará massacres e desmandos dos seus próprios soldados.
Portugal, que não era grande nem rico, apenas como um capataz defendia riquezas de que não beneficiava, envolveu-se em várias guerras simultâneas, contra os povos de quatro das suas colónias: Angola, Moçambique e, embora com uma frente única na Guiné, os Caboverdeanos também ali lutaram pela sua independência.
Mas ninguém foi julgado.
É ao Capitão da companhia que cabe, uma vez mais, em conversa com o médico, tirar a moral da parábola:
"- O mal é esta ser a guerra do vocês. Ninguém a considera sua. É filha de pai incógnito.
O médico riu-se.
- É uma guerra filha da puta." (pag. 138)
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(1) Não foi exactamente assim que Rosa Holt, poetiza alemã anti-nazi, a escreveu em 1935. Mas foi assim que eu a aprendi trinta anos mais tarde. Como há quem considere uma perda de tempo saber francês, aqui fica uma tradução mais ou menos aproximada:
Enquanto houver militares, seja o teu filho, seja o meu,
Nunca há-de haver na terra coisa alguma de jeito.
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