quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Celacanto nº. 2

Se nunca esteve debaixo da barriga de uma baleia, aqui tem a sua oportunidade.
No dia 18 de Março, uma quinta feira, a Qual albatroz lança o nº. 2 do ecozine Celacanto.
O primeiro número foi sobre o albatrós - o patrono da editora.
Este agora vai ser sobre o lobo.

Vale bem a pena dar um saltinho à rua da Escola Politécnica 58, em Lisboa (1), passear uns minutos pelo Jardim Botânico e, às 18 horas dirigir-se ao Museu de História Natural. Só falta encontrar a dita baleia. Não nos parece que seja muito difícil.
Encontramo-nos lá.
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(1) O Rui Rio tem razão: Lisboa açambarca tudo o que é importante.

segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
-
Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
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A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
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Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

quinta-feira, março 04, 2010

Ir à escola mata!

Tinha doze anos, mais mês menos mês e foi vítima de um fenómeno que agora se descobriu. Até já tem nome em inglês, é uma coisa séria, subiu à categoria dos maremotos que são tsunamis e tremores de terra. Chama-se bullying.
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O meu dicionário começa por explicar que o «bully» é o «hired ruffian, blusterer, browbeater», ou seja: o rufião encartado, o vociferador, o ameaçador.
Também se aplica, em Eton, ao que parece, àquelas molhadas que se formam no rugby a que se chama também a mêlée e em que o desgraçado que sai lá de baixo, ou tem o caparro de um lutador de wrestling ou sai feito num oito.
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O bully, portanto, é um atormentador. Mais: regra geral não age sozinho. Exibe-se para o seu grupo e, em caso de resistência do atormentado, não hesita em socorrer-se da ajuda dos outros todos. A mêlée, nem que mais não seja pelo número, raramente perde.
Se a memória me não falha, está aqui tudo o que falta para fazer delinquentes juvenis.
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Claro, se assaltarem uma loja, se roubarem carros, chama-se a polícia, exigem-se medidas: atentou contra o património. É grave.
O cidadão comum indigna-se, exclama que «só neste país!», pergunta o que faz a polícia.
Os ministros anunciarão reforços às forças da ordem, o policiamento de proximidade, o bacalhau a pataco e que a semana vai ter nove dias.
Um ou outro desses jovens delinquentes será detido com grande estardalhaço e confiado mais ou menos em segredo á guarda dos mesmos tutores que não souberam socializá-lo.
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Se o mesmo jovem se dedicar a tiranizar os mais novos, os mais pequenos, se lhes roubar o lanche, as canetas, os trocos, se com grande valentia distribuir porrada, se rasgar os livros de estudo, se insultar e bater, tudo bem, ninguém sabe, toda a gente estava a olhar para outro lado.
Os mais pequenos sofrem, mas não dizem nada, porque é o medo que guarda a vinha. Os pais não sabem porque os filhos não falam. Os professores não têm meios e os conselhos directivos garantem que na escola não foi.
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Mas foi.
Não interessa se foi para lá do virar das esquinas, longe da vista e longe do coração, que a agressão se concretizou: foi na escola que se estabeleceram os domínios, se designaram as vítimas, se iniciaram as perseguições: primeiro com os risinhos, o desdém, logo o insulto, o empurrão, o pequeno roubo "a brincar", o estojo dos lápis atirado para longe, a mochila escondida.
Se as coisas forem mais longe, mais longe serão: fora da escola, longe das testemunhas.
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Mas, como é um fenómeno, pronto, então está tudo bem. É como os ritos de iniciação, um homem não é homem se não partir sete vezes a cabeça, se não pegar um garraio de caras, se não for à tropa.
Os jornais escrevem em grandes títulos que um "estudo académico conclui que 13,5% dos estudantes do secundário são alvo de agressões sistemáticas". 13,5 é um número significativo: é como dizer-se que uma fatia importante dos adolescentes perdem a virgindade antes dos quinze anos, ou que a incidência das borbulhas faz parte do crescimento. O Dito bullying também.
Até há estudos académicos. A honra está salva.
Os reitores das universidades, quando recebem estes jovens delinquentes, já podem aceitar a existência de rituais de iniciação, de praxes violentas, do que for.
Se alguém faz perguntas, todos negam:
Que está garantido o direito a declarar-se contra a praxe, dizem.
Que sempre foi assim e que não tem havido queixas.
Não, não tem havido queixas.
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Uma vez por outra morre um Leandro Filipe.
- Não pode ser! - gritam-nos logo. - As nossas instituições são perfeitas. Foi um azar! A culpa foi dele de certeza.
Talvez, talvez tenha sido. E minha, também.

domingo, fevereiro 28, 2010

Tema para a meditação de hoje

Lao-tsé disse que quem muito escolhe nunca acerta. Mas acrescentou que aquele a quem só é dado escolher o já escolhido, também não.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Tema para a meditação de hoje

Duas coisas, neste penoso momento, vos devem consolar, Irmãos, se meditardes nelas.
A Primeira é que é que já ninguém pensa em vender os bens da nossa Santa Igreja para pagar a crise, tão pequenos são uns e tão grande é a outra.
E a segunda é ainda mais importante, vede bem e pensai nisso quando fordes votar: é que desta vez, meus Irmãos, desta vez, Deus está inocente.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Maria de Lurdes Pintasilgo


















Chamava-se Maria de Lurdes e teria feito os oitenta anos no dia dezoito do passado mês de Janeiro.
Mas não resistiu tanto.
O Mundo, quando não os consegue quebrar, mata-os, escreveu Hemmingway, e Maria de Lurdes faleceu num dia de Camões, no dia 10 de Junho de 2004.
Tinha sido primeira ministra de Portugal durante uns cem dias. Depois correram com ela para o Parlamento Europeu, para a Unesco, para muito longe.
Não admiro muita gente, o defeito é meu, eu sei, e os políticos ainda menos. Mas esta Senhora fazia parte das excepções.
Não acreditávamos nas mesmas coisas, é claro, mas ambos tínhamos fé na Palavra. «A Palavra age», disse ela durante a campanha presidencial de 1986.
Nunca soube se esta «palavra» a que ela se referia era o Verbo bíblico, aquele de que fala S. João quando diz ao princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus... ou se era o logos dos gregos, razão do que existe, o princípio ordenador de Heraclito ou dos estóicos.
Nunca tive a oportunidade de lhe perguntar, nem sequer era importante. O que importava, isso sim, é que, quando ela falava, todos percebíamos que não era a palavra com que se escreve o Diário da República
Tenho saudades das pessoas como ela.
Ainda não sei, mas para o ano, em calhando, voto no Manuel João Vieira.

sábado, fevereiro 20, 2010

Desempanadora Ruço, Ldª.

Já toda a gente ouviu falar na depressão de Inverno: o frio, os dias cinzentos ou, pior, chuvosos, tudo isso contribui para uma quietude melancólica, para uma vaga tristeza que bloqueia criatividades e sentido crítico.
Depois, tudo se acumula, livros que demoram a ser lidos, cartas que têm de ser escritas, jornais intactos que vamos empilhando porque um dia havemos de ver aquele artigo muito importante, aquele peça de teatro que era imprescindível e que deixámos sair de cena...
Pois bem: connosco, aqui no Portugal, Caramba! não foi nada disso.
Uma pequena avaria, como pode acontecer mesmo aos melhores, quanto mais a nós; mas já chamámos o pronto-socorro.
Não sabemos quando chegará, mas que vem a caminho, isso vem.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Run rabbit, run!

Run rabbit - Run rabbit - Run! Run! Run!
Don't give the farmer his fun! Fun! Fun!

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Sem título

Já repararam?
Não há autorzeco nenhum, por mais de meia tijela que seja, que, nos seus momentos, não nos venha falar da ângústia do papel em branco, essa folha virgem que resiste, que esmaga, que rejeita.
Tudo bem: que fiquem com os seus papelinhos ansiogénicos.
Nós, aqui no Portugal, caramba! afirmamos de caras, veementemente, contra tudo e contra todos, que isso não se aproxima nem ao longe de uma outra, mais aflitiva, mais torturante: a angústia do blog em branco.
Acreditem: nós sabemos do que estamos a falar.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Dados empíricos



- Diz, Titi: tu não tens pipi.
- Disparate, João.
Toda a gente tem.
A Tia também.
- Não tens, não.
No outro dia,
na pia,
estavas a fazer xixi,
eu espreitei
e não vi.


João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Obediênciazinha, pois então! (II)






Todos os dias, logo pela manhã ou já a dobrar para a tarde, ou às horas que forem, repetimos os mesmos gestos, já viram?

Calçamos uma meia em cada pé, admitindo que ainda temos os dois da praxe; comemos umas tantas refeições, ouvimos as mensagens no telemóvel; compramos o jornal; ligamos a televisão, vemos os prós e os contras; amamos os prós quando são nossos, odiamos os contras quando são os outros. À socapa, fazemos zap e espreitamos um ou outro dos canais porno com que, gentilmente, a meo ou a zon mais próxima nos quiseram perverter.
Se nos perguntarmos, dizemos que é assim mesmo. Mas já fizemos as perguntas todas há tanto tempo e as respostas sempre imitaram as respostas, de que vale estar sempre a perguntar?
Lemos os mails, alguém nos mandou uma anedota sobre a ministra da educação; navegamos na net ao acaso.
Dormimos. Ao lado da esposa que já foi exaltante.
Sonhamos, mas não nos lembramos com quê.
Acordamos.
Repetimos.
Tomamos o café, tomamos o duche.
Calçamos meias lavadas. Convém.
Talvez outros sapatos.
Guiamos o carro. Não estamos sós, toda a gente vem connosco pela mesma estrada.
Trabalhamos.
Vamos beber um copo com o que chamarmos amigos. Falamos do mesmo que eles.
Esquecemo-nos de ler o jornal que trazia notícias do Haiti. Espreitamos outra vez o canal porno.
A boa esposa já dorme.
Se lermos umas páginas para adormecer também, há quem tenha hábitos desses, e se o livro que nos veio à mão tiver sido um qualquer Deleuse, poderemos tropeçar em conceitos como modulação, ou como ritornelo. E podemos começar a compreender que chegámos enfim, à sociedade de controlo. Os numerosos microchips dizem por que portagens passámos, que contas pagámos, a ADSE ou a Medis sabem que remédios tomamos os bancos sabem o que querem saber.
Mas depressa largamos esse livro: não haverá por aí algum Dan Brown, alguma Margarida Rebelo Pinto, algum imitador da receita de Flemming e do seu 007?
Sim, porque ai de nós se não formos bons imitadores: a receita para fazer um herói ou um bom cidadão existe, está sempre em actualização.
Lembram-se do Reinaldo Ferreira?
Agite-se um pendão.
Segue o teu chefe. O secretário-geral do teu partido. O teu colega com mais sucesso. Aqueles para quem as meninas mais bonitas sorriem.
Já nem são precisas as certezas irracionais. O senso comum basta.
Servem-nos mortos, claro.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Havai 2010, digo, Haiti 2010

- Se querem saber, parecia Deus a bater-nos com a porta na cara...
-
A primeira versão deste post está nos Urban Sketchers:
gosto mais dela, mas pronto, hoje calhou assim.

domingo, janeiro 10, 2010

Diários Gráficos, desenhos vários e por aí fora

A inauguração foi ontem, na galeria dos Paços do Concelho, em Torres Vedras, e foi bem simpática.
Seguiu-se o jantar, toda a gente desenhou, o polvo à lagareira foi muito elogiado, o vinho tinto deixou-se beber com galhardia e falou-se pelos cotovelos.
Quem quiser saber do que se irá seguir clique ali à direita, no blogue dos Urban Sketchers ou no Desenhador do Quotidiano.
Ficará a saber, em calhando, que no próximo sábado, aí pelas 15.00 horas, há-de haver um debate. Nós aqui no Portugal, caramba! estamos em crer que não vai haver debate nenhum porque estamos todos mais do que de acordo sobre as questões que mais importam. Mas há-de haver perguntas e respostas, muita conversa bem-humorada, troca de experiências e por aí fora.
E pronto. Vão até lá que logo vêem.

sábado, janeiro 09, 2010

Vida de Urso

Eu sei que há quem não acredite na metempsicose que é aquela coisa da transmigração das almas: morre-se e acabou-se. Nada de voltar a este ou outro mundo qualquer.
Tivemos a sorte de apanhar uma vida que andava por aí, vivêmo-la como podemos e pronto. Quando se tiver gasto, não há mais.
Mas isto são só os simplórios dos ateus.
Há quem acredite que a vida é um capital infinito, não se gasta nunca.
Passamos daqui para o Céu, se o tivermos merecido; direitinhos para o Inferno se tivermos sido como alguns que a gente vê na televisão, por exemplo. É a Vida Eterna.
Dantes, quando eu andei na catequese, havia mais alternativas, o Limbo para os pobres pretinhos a quem os missionários não tiveram tempo de baptizar e o Purgatório.
Este sim, é que foi uma invenção de génio.
Rendeu missas, capelas, heranças; era como que um banco, como que uma companhia de seguros: o defunto fazia umas doações, protegia uns pobrezinhos, amealhava para a eternidade. Quando morria tinha sempre, pelo menos, uns pecados veniais a pagar, quanto mais depressa os parentes amortizassem, mais depressa a alma, purgada das suas máculas, ia ver, finalmente, a face do Senhor.
Parece que já não é assim.
Não estou muito actualizado, mas creio que estes destinos foram eliminados do catecismo, como o apeadeiro aqui da minha terra: deitado ao desprezo pelos combóios que já deixaram há muito de por cá parar.
Nós no Portugal, caramba!, porém, acreditamos na reencarnação.
Morremos, passam-se uns tempos, achamos nós, dão-nos outro corpo novinho em folha - se for em segunda mão, olha, que se há-de fazer? - e mandam-nos de volta; para aqui ou para o outro lado da galáxia, onde houver vaga.
Mas quem sabe? Pode ser que nos perguntem o que queremos ser, como na história de Er que Platão narra na República. E então, se nos for dado escolher um destino, não queremos ser nem um Durão Barroso, nem um Belmiro de Azevedo, nem nada disso.
Queremos ser ursos.
Ursos! Nem mais.
Primeiro porque têm um casaco de peles, quentinho, de fazer inveja às senhoras mais Donas - e não tiveram de o ir arrancar a raposa nenhuma, pobres delas.
Depois, porque hibernam. Já viram, está a chover se Deus a dá, não precisam de sair de casa para ir ao emprego. Está um frio de congelar o bafo, não precisam de ir a compras: dormem mais um bocadinho.
Se os incomodam, grunhem. E ninguém acha que sejam malcriados só por isso.
Por fim, quando vem a Primavera, o senhor Sol aquece-lhes os humores, espreguiçam-se e saem para o ar livre à procura de uma comidinha, de uma namorada. Não precisam de ir ao ginásio nem de encolher a barriga quando avistam a prometida: durante o Inverno, sem esforços nem heroísmos, ficaram elegantíssimos.
Podem voltar a comer à fartazana, do melhor que encontrarem.
A rapariga, aliás, estará a fazer o mesmo e confessemos: redondinhas também têm o seu encanto, não é?
Por isso ficaram sabendo: o que nós queremos mesmo é ser ursos.
Já andamos a treinar há muito tempo. Só aquela história do emagrecer, isso é que ainda não conseguimos.
Mas pronto.
Não se pode ter tudo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Obediênciazinha, pois então! (I)


Do que vos quero falar, ou, dado que o Portugal, caramba! se tem vindo a transformar em mais um blogue do eu, o que eu quereria perceber, é:

Porque havemos de obedecer a uma ordem?

Mas, claro, tenho de começar por algum sítio e, portanto, aquele estranho acontecimento passado lá para os lados de St. Margarida, ou de Tancos, serve perfeitamente.
Lembram-se?
Eram umas sete da manhã, vem um condutor na sua carrinha, tinha andado a distribuir jornais e, a meio da estrada, a ocupar-lhe a faixa, ia um pelotão de futuros paraquedistas vestidos daquela cor chamada verde-tropa, escolhida justamente para não dar nas vistas. Cumpriu a sua função. O condutor não os viu realmente - ou só demasiado tarde.
Acidente, dezasseis atropelados, três muito graves.
Não interessa se houve ou não culpados, se foram castigados, se alguém indemnizou as vítimas ou se está tudo perdido na burocracia de um ex-tribunal militar.
Claro, as notícias falaram de um carro desgovernado, um motorista adormecido ao volante ou cansado ou qualquer outra coisa que justificasse o desastre. Tudo menos o óbvio: a tropa está-se nas tintas para as leis quando não lhe apetece cumpri-las. No caso eram as do trânsito, poderiam ser outras.
Não que a tropa não cultive a obediência.
Tem Nepes, tem Erredêémes, tem as suas bíblias e faz gala em que tudo seja by the book.
Excepto se aos sargentos e oficiais outra coisa não ocorrer, mas isso é outra conversa. Relevante é que não tenha havido muito mais informações sobre as necessárias sequelas do acidente. A obediência e o silêncio andam frequentemente juntos. A cegueira segue-as de muito perto.

2.

A obediência na tropa é engraçada: parece ter sido feita de propósito para nos mostrar a que ponto pode chegar a alienação ou, para ser claro, até que ponto alguém pode prescindir da sua própria vontade, dos seus instintos até, se a palavra tiver algum conteúdo.
A que outro conceito poderíamos recorrer para explicar, por exemplo, as cargas de baioneta nos assaltos às trincheiras inimigas, quando um general francês ou alemão, que importa, sacrificava três mil homens para recuperar cem ou duzentos metros da terra de ninguém, uma aldeia arrasada e deserta, um pedaço de bosque onde, de novo seria preciso cavar trincheiras, instalar metralhadoras?
Lembram-se do Hans Castorp, o jovem doente (mas de quê?) que desceu do sanatório, na encosta da Montanha Mágica, a cinco mil pés de altitude? Vista de lá de cima, a pátria «assemelhava-se a um formigueiro em pânico». E o Hans mergulhou no vale e depois num batalhão académico:
"Eis o nosso amigo, eis Hans Castrop! Já de longe o reconhecemos (...) Arde, ensopado pela chuva como os outros. Corre, os pés trôpegos, agarrando a espingarda. Vejam, pisou a mão de um camarada caído, a sua bota ferrada afundou essa mão no solo lamacento, crivado de estilhaços. E todavia é ele!"
(Thomas Mann, A montanha mágica)

O que levará alguém a seguir o seu oficial, o seu pendão, o seu clarim até à morte? Ou, se preferirmos, o que terá levado os carcereiros de Auschwitz, os Eichmann deste mundo a obedecer às ordens que alegam terem-lhes sido dadas?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Jingle bels, jingle bels, ta-ta-ri-tatá,,,


Um Auto de Natal
-
A cena passa-se na estrada para Belém.
Três camelos carregados com os Reis Magos vão conversando.
-
Zé Camelo (cansado) - Ainda temos de os carregar por muito tempo?
Camelo mais velho (pacientemente:) - Ná! Dizem que é só até ao dia seis ...
Zé Camelo (duvidoso) - Ah! ... E tu acreditas?
Camelo mais velho (pacientemente) - Claro! Todos os anos há um dia seis em Janeiro, não há?
Zé Camelo (com uma vaga esperança) - Mas é só no Natal, não é?
Camelo mais velho (pacientemente) - Bom, é também no Dia das bruxas, por exemplo. E no São Valentim, no Dia da Mãe, na Páscoa... Mas é sempre Natal. Nunca ouviste dizer que o Natal é sempre que os homens quiserem?
Zé Camelo (admirado)- E os homens são esses que vão lá em cima?
Camelo mais velho (pacientemente) - Conheces outros?
Zé Camelo (cabisbaixo) - Então e nós?
Camelo mais velho (pacientemente) - Nós? Nós somos os camelos.
Zé Camelo (meditativo) - Hum...
Terceiro Camelo - Oxalá nos dêem azevias. Das de grão. O Bolo Rei já não se aguenta...
(Cai o pano)
-
O Portugal, Caramba!
deseja a todos os seus amigos
um Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.