quarta-feira, abril 28, 2010

Uma história (sem pés nem cabeça) em que se fala de cabaias e mandarins e do Prémio Pessoa.

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-Estou aqui numa de digo, não digo... e afinal, olha, já está.
O meu problema é que não gosto de banqueiros, nem muito, nem pouco. E também não nutro qualquer simpatia por gente demasiado rica, ainda menos pelos os grandes gestores, aqueles que ganham para cima de um milhão por ano.
Feita esta declaração para salvar a moral, já posso acreescentar que são pessoas engraçadas e, às vezes, até é instrutivo vê-los.
Deles, dir-se-ia que são gente fina.
Vestem bem, boas roupas, muito clássicas, geralmente, de bom gosto, gravatas dignas de um Beau Brummell.
Frequentam, ia jurar, ginásios com personal trainers e tudo, massagistas privadas de vez em quando. Costumam ser pessoas amáveis, sobretudo nos contactos sociais, porque dos outros, que sei eu?
Para meu gosto, no entanto, têm um defeito: são demasiado direitos.
Eu explico:
Quando os vemos ali parados, em evidência, no meio das salas, com copo na mão, não podemos deixar de reparar nos ombros recuados, nas costas esticadas, a cabeça levantada.
Obviamente, ou não são assim tão velhos, ou envelheceram francamente bem.
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Mas pronto: a que propósito vem isto tudo?
É que ontem ou talvez já anteontem, pronto, na terça-feira, dia 27, o Doutor (e Dom) Manuel Clemente, Bispo do Porto, esteve na Culturgest a receber o Prémio Pessoa.
Talvez não fosse único dos presentes a não fazer gala num porte desportivo, a não trazer as unhas manicuradas, a vestir o que veste todos os dias.
Mas era o que estava mais em evidência.
Subiu ao palco para receber o que lhe queriam dar e depois para nos dizer que o Padre António Vieira "é o caso acabado de como em Portugal [...] sempre nos desperdiçámos quando não consideramos o que cada um é e pode oferecer aos outros, do presente para o futuro."
E nós, eu pelo menos, ficámos a pensar: mas o que é que esta gente toda, eu incluído, tem para dar? E a que futuro?
Olhando em volta, não se via muito bem; estava ali a nata das natas, o futuro, nem por isso.
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Lembrei-me daquela antiquíssima história passada algures lá para os confins do Celeste Império.
Conta-se que, há muito tempo, num cantão longínquo chamado Ba-pei ou coisa assim, o velho e sábio mandarim morreu.
E aconteceu o que acontece sempre: foi preciso nomear outro.
De recomendação em recomendação - porque essa coisa das cunhas e dos empenhos não foi inventada só para nós - lá foi proposto a exame um letrado dos seus quarenta e tais, cinquenta anos, o que, numa gerontocracia, já se vê, é a extrema juventude.
Falta dizer que, nesses tempos, como provavelmente ainda hoje por todo o lado, havia no Celeste Império um alto funcionário que tinha a seu cargo a balança de pesar as cunhas: punham-se as moedas de oiro ou os pergaminhos no prato e quem pesava mais passava nos exames e ficava com o cargo.
Ora, lá no distante e pobre Ba-pei as influências não pesavam muito, no fundo que importava? Era só um mandarinato de nono grau, uma borlazinha de prata no chapéu.
O funcionário da balança encolheu os ombros, o Imperador, no palácio da Cidade Proibida por onde bocejava de tédio, não viu razões para objectar e o decreto foi assinado.
Se nada disto chegou para perturbar a rota do Sol, o mesmo não aconteceu com o juízo do jovem letrado que, guindado ao mais alto posto da pequena província, resolveu logo mandar fazer a cabaia do cargo, com uma resplandescente ave do paraíso bordada no peito.
O alfaiate, porém, como acontece em muitas histórias, era sagaz. Não ousamos afirmá-lo, mas, em calhando, era ele o representante da própria esperteza sarcástica do Zé Povinho que não perdoa nem uma.
E lá da sua fingida humildade perguntou ao nóvel mandarim - como se o ignorasse - há quanto tempo ocupava ele o cargo.
- E que tens tu com isso? - perguntou enxofrado o cliente.
E o alfaiate, curvando-se ainda mais humilde, disse:
- Senhor, é só por causa da seda.
Mandarim de fresca data, explicou ele, anda impante pelas ruas, peito para fora, muito teso, muito esticado, quase se diria que andava sempre nos bicos dos pés para se fazer maior. Por isso, a cabaia levava muito mais pano à frente e menos nas costas.
Pelo contrário, mandarim de antiga nomeação, por jovem que seja, curva-se ao peso da responsabilidade, arqueiam-se-lhe as costas como que numa reverência às complexidades do mundo. O tecido que dantes lhe cobria o peito, sobrava, arrastava no chão. E o que tapava as costas ia faltando cada vez mais.
- Bem vês, Senhor, uma obra bem feita, precisa de conhecer aquele a quem se destina. Ganhaste esses ainda poucos cabelos brancos a cuidar do bem comum ou pertences a esta nova geração de gente elegante que cuida da aparência antes de mais?
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A resposta que o mandarim deu ao alfaiate já não faz parte da história, claro.
Mas eu, cá para mim, iria jurar que foi mandado chicotear e despedido a seguir, porque é o que fazem os grandes.
Entretanto, o Manuel Clemente desceu vagarosamente as escadinhas do palco, um pouco curvado, como é seu hábito.
O alfaiate chinês, com a sua sagacidade, havia de lhe fazer uma cabaia com mais pano nas costas. Fazia sentido, não fazia?

terça-feira, abril 27, 2010

Tema para a meditação de hoje: Ricardo Sá Fernandes

Sabem?
Estamos em crer que ele não precisa do nosso apoio para nada.
Mas, para nós, aqui no Portugal, Caramba!, é muito importante dizer que ele o tem.
Nem que mais não seja,
para que um dia possamos olhar-nos no espelho e dizer,
com uma pontinha de vaidade:
nós estivemos lá.

segunda-feira, abril 26, 2010

Anjo papudo, com asas e tudo

Claro, por uma intenção particular, uma vez mais.

domingo, abril 18, 2010

Por falar em fumo...

- E pensar que não me deixam fumar o meu cachimbo em parte nenhuma...

quarta-feira, abril 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Não perguntes o que a iniciativa privada pode fazer por ti.
Pergunta antes o que podes tu fazer pela iniciativa privada!
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Ouviste, ó palerma?

sábado, abril 03, 2010

Sem título

- Meu Deus, vai recomeçar...

sexta-feira, abril 02, 2010

Tema para a meditação de hoje





Os jornais estão cheios com a foto de uma jovem de dezassete anos que já era viúva quando faleceu, juntamente com as suas vítimas, no metro de Moscovo.
Tinham-lhe morto o marido, provavelmente com todas as razões do mundo, carimbo e benção oficial e não serei eu, ignorante como sou, quem atirará pedras ao executor.
Mas não posso deixar de pensar em Romeu e Julieta, no desesperado e violento amor dos treze anos, dos catorze, quinze, dos teenagers. Quem transformou Dzhennet Abdurakhamanova numa viúva negra, estava, receio eu, como sempre, a criar alguém capaz de quase tudo. Por amor, por ódio, por desespero.
Provavelmente ninguém o confessará:
Fosse Dzhennet feia, velha e com bigode, bah! Mais um terrorista, daqueles que se abatem sem dó nem piedade quando está na mira de uma pistola, de um helicanhão.
Mas ela era apenas uma menina, das que, no nosso país andam ainda no secundário; e era bonita. Faz-nos pensar na inocência, não faz?
Faz-nos pensar que Julieta, ao contrário do que é costume pensar-se, é uma ideia feita, não morreu de amor: morreu vítima de uma forma de bulliyng que aos jovens de Verona era permitida. Quem se não lembra, releia a cena do duelo entre Marcutio e Tybald e preste a atenção à insolência deste, à fanfarronice de todos, ao clima de violência instalado.
Mas a violência não se ficou pelas peças de Shakespere, não era só a de Verona.
Houve um brasileiro em Londres, lembram-se?
Foi abatido, assim, pás!
Azar! Era engano.
Houve protestos, claro, indemnizações e por aí fora. O atirador foi admoestado, certamente, são sempre.
Nós, neste cantinho da Europa, não podíamos ficar atrás. Também somos gente, não somos?
Há dias, um rapper que, se calhar, ia distraído a falar ao telemóvel, que talvez tivesse bebido um copo a mais, ou que, pura e simplesmente ia noutra, foi abatido pelas forças de segurança. Não ia, tanto quanto se soube, a fazer mal nenhum. Acontece que não parou quando lhe mandaram.
A autoridade perdoa tudo - sobretudo se houver uma pequena lembrança - menos a desobediência. É o que enfurece mais o bully: é que alguém lhe resista, que se esteja nas tintas para ele, que não lhe obedeça instantânea e submissamente. Multa. Bate. Dispara. O guarda, o que disparou - vai uma apostinha? - vai ser admoestado também.
É como as crianças que torturaram e afogaram uma pobre mulher doente, lá para as bandas do Porto. Foram admoestadas pelo sr. Dr. Juíz, se calhou, pelo sr. Padre Maia também, ia jurar, por toda a gente responsável.
E é como aquelas crianças que mandaram o Leandro Filipe para o hospital. E as que agora o empurraram para o Tua, mesmo se não foram elas, não, não! Ou prontos, foram, mas foi sem maldade, era só de brincadeira. Vão ser admoestados, podem ter a certeza!
E vão todos ter apoio psicológico porque estão muitíssimo transtornados.
As vítimas, essas morreram, como o jovem rapper, como o brasileiro de Londres, como a Gisberta.
Uma por outra recebeu, muitos anos depois, uma indemnizaçãozeca regateada que nem a símbolo chega. Foi o caso de uma rapariguita que só queria frequentar a universidade e se declarou anti-praxe, mas, hélas, foi torturada, violentada, humilhada.
Outros ainda, suicidaram-se.
É tão simples quanto isto: não quero este mundo, não quero esta gente, não quero! Vou-me embora!
A forma que escolhem para se despedirem é que faz a sua diferença.
Já aqui o disse: o Leandro Filipe era bom menino. Terá voltado a violência contra si próprio.
Dzhennet, de cultura muçulmana, escolheu ser bombista suicida.
Se fosse norte-americana, cristã de cultura, democrata e ocidental, teria escolhido entrincheirar-se numa torre da sua faculdade e disparar a esmo.
É uma vingança cega, injusta, mas é o único heroísmo julgado possível num mundo em que o poder se serve, ele próprio, dos bully, quer se chamem Bush, Blair, Aznar ou Barroso, para enforcar outros bully que se tornaram incómodos.
Um poder que precisa de guardas republicanos, de seguranças, de carcereiros para as abu garibes e as guantanamos que são a sua forma de domínio e, claro, não pode deixar de lhes tolerar os desmandos, os excessos, os erros.
O poder é assim mesmo: as forças armadas americanas, inglesas, russas, que sei eu, julgaram-se no direito de atacar, brutalizar, gritar, impôr.
As vítimas, às vezes, escolhem vingar-se.
Uma delas, por exemplo, chamava-se Dzhennet.
Tinha dezassete anos e fez mais vítimas que talvez tenham dezassete anos e que um dia farão - quem sabe? - mais vítimas...
Ninguém foi muito feliz e tiveram muitos filhos que foram devorados pela aviação inimiga.


segunda-feira, março 29, 2010

«Basta-me viver»?


Carlos Vale Ferraz,
Basta-me viver,
Edição da Casa das Letras,
Março de 2010, Alfragide







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É aborrecido, mas estou a ficar sem autores favoritos.
Sabem como é: aqueles que, descoberto um livro, nós partimos imediatamente em duas opostas direcções: uma para o passado, é espantoso, ela (ou ele, claro) já tinha publicado tudo isto e eu nem o vi?
Ou vi, mas não liguei nenhuma?
Momento óptimo para uma fúria consumista e zás!
De repente ficamos com leitura para umas semanas.
Aconteceu-me com o Mário de Carvalho, por exemplo, creio já ter falado nisso algures. E com o Paulo Castilho e com o João Aguiar.
E claro, depois de lido o passado, ficamos à espera do futuro - que, diga-se, ao contrário dos actos dos ministros e das más notícias em geral, leva muito tempo a chegar.
Os autores, por motivos lá deles, parecem ter arrumado a caneta, e só pegam no computador para jogar free cell.
Eu, cansado de esperar, no meio da livraria, grito indignado:
- Mas o que é eles andam a fazer, caramba?
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Carlos Vale Ferraz não pertencia a este grupo. Lido o Nó Cego, não me precipitei à procura de outras obras. Erro meu, quem sabe?
Há uns dias, porém, enquanto esperava por uma amiga e a fazer horas numa livraria, dei com Basta-me viver. A contra-capa parecia feita de propósito para pôr a milhas o mais pintado: "Uma história de amor absoluto de duas mães pelos seus filhos, dos sacrifícios em nome do amor e das contradições do dever."
Não conhecesse eu o nome do autor e julgaria que estávamos perante uma reedição de Corín Tellado.
Seria publicidade negativa? Se era, funcionou, porque eu trouxe o livro.
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Afinal, era dos que se lêem de um fôlego quase até ao fim. E sublinho o «quase» dado que, infelizmente, o interesse foi morrendo à medida que José Maria Gonzaga Torres, narrador e personagem fulcral vai assumindo maior protagonismo.
A técnica narrativa não é inédita, mas é extremamente eficiente e isso é o mínimo que se pode dizer da escrita de Vale Ferraz que é límpida, sem rodriguinhos.
Como num inquérito policial, ou como numa investigação jornalística, o jovem José Maria, filho de um oficial miliciano, piloto de helicópteros do exército colonial e de Ana Paula, uma jovem pertencente ao clã dos Gonzaga, uma poderosa família crioula de Luanda, vai recolhendo os pedaços da sua própria história em conversas com os seus perdidos familiares, através do depoimento de próximos: a madrinha, uma freira que deu abrigo à sua mãe, o tio guerreiro das muitas guerras angolanas, a Avó paterna, um General Gaeiras comandante do Avô Torres na Legião Portuguesa, etc.
Lemos assim, com grande interesse, muita coisa sobre os últimos anos da ocupação portuguesa, sobre o papel da Pide nas colónias e sobre a vida numa base de guerrilheiros, sobre o próprio 25 de Abril, sobre o período da independência de Angola e a guerra pela sobrevivência do MPLA.
Nada de melhor para nós, portugueses que temos teimado em ignorar as derrotas militar e económica, o fracasso do colonialismo, a mais absoluta ausência de projecto nacional.
Vale Ferraz é um escritor informado e transmite-nos os factos com mestria e a leveza própria de um romance que nunca se assume como histórico, mas que, de facto, o é.
Infelizmente, à medida que José Maria, "o neto que", parafraseando o autor, "nenhuma das pátrias quis ter" começa a narrar a sua própria história, a partir do momento em que deixa Angola, percebemos que ele pertence a outra metáfora e que não se encaixa nas outras todas.
Macau, as tríades, o jogo, os últimos anos da administração portuguesa, serão temas fascinantes, mas, a nosso ver, como simples leitores, estão a mais neste romance.
Acreditamos que fosse essa a intenção do autor: esse filho de culturas tão diversas, gerado e parido na guerra, só pode tornar-se num exilado, batoteiro profissional - com um toque de realismo mágico aqui e alí, a nosso ver perfeitamente dispensável - ao serviço de uma tríade. Ponto. Assim termina a saga colonial dos portugueses.
É. Mas José Maria também tem sangue angolano. Não era esse o futuro que eu lhe auguraria.
No mais, e Vale Ferraz que me perdoe, o romance perde-se.
Deveria ser uma narrativa do amor cego de duas mães aos seus dois filhos e é uma narrativa da traição das mães:
Fernanda Torres, a avó paterna do jovem José Maria, trai o marido, o salazarista Augusto Torres, com o melhor amigo do filho falecido, ainda por cima.
A avó Gertrudes, do lado materno, essa trai a filha e trai o neto.
A própria Ana Paula, a mãe, trai o seu clã, trai os seus pais ao deitar-se com o inimigo e trai-os de novo quando se nega a assumir o seu lugar na complexa organização dos Gonzaga.
E o grande fio condutor do romance, no nosso demasiado ousado entender, é a traição da Pátria, de todas as pátrias, como já era em Nó Cego.
Ou talvez melhor, neste caso: de todas as mátrias.
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Li o Nó cego na 4ª. edição, profundamente revista. Tenho pena de não ter conseguido arranjar um exemplar da primeira versão do romance. Por isso, limito-me a citar o que escreve Rui Azevedo Teixeira no prefácio:
"... As mudanças efectuadas tornam visíveis aspectos pertinentes da matéria negra do universo do romance. Assim, o reforço informativo, que nunca chega à cansativa minúcia que mata tantos romances históricos, ou os cortes, acrescentos, trocas e ajustes diversos ou, ainda, por exemplo, a demão dada ao episódio da Ilha de Moçambique, em nada retiram o vigor de Nó Cego. Pelo contrário, com as alterações introduzidas pelo autor, o livro ganhou ainda mais consistência sem ter perdido a frescura, o tom ou uma qualquer fatia essencial da história."
Como O crime do Padre Amaro, nas suas sucessivas edições.
Por isso, muito embora Basta-me Viver não tenha sido, de modo algum, uma desilusão, confesso que vou esperar por uma quarta edição e voltar a comprá-lo.

sexta-feira, março 26, 2010

sexta-feira, março 19, 2010

Qual Celecanto?

Se um ecozine acorda muita gente,
dois ecozines acordam muito mais!
Se dois ecozines...
-Foi ontem e havia mesmo uma baleia no Museu de História Natural, suspensa no ar, como quem nada displicentemente, a olhar por nós.
Estava lá muita gente.
O Celacanto, com os seus oitenta e tal colaboradores, já não é só um ecozine.
Começa a ser também um movimento.
Podem saber mais coisas no site da Qual Albatroz; porque é que não dão uma espreitadinha?

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Celacanto nº. 2

Se nunca esteve debaixo da barriga de uma baleia, aqui tem a sua oportunidade.
No dia 18 de Março, uma quinta feira, a Qual albatroz lança o nº. 2 do ecozine Celacanto.
O primeiro número foi sobre o albatrós - o patrono da editora.
Este agora vai ser sobre o lobo.

Vale bem a pena dar um saltinho à rua da Escola Politécnica 58, em Lisboa (1), passear uns minutos pelo Jardim Botânico e, às 18 horas dirigir-se ao Museu de História Natural. Só falta encontrar a dita baleia. Não nos parece que seja muito difícil.
Encontramo-nos lá.
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(1) O Rui Rio tem razão: Lisboa açambarca tudo o que é importante.

segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
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Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
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A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
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Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

quinta-feira, março 04, 2010

Ir à escola mata!

Tinha doze anos, mais mês menos mês e foi vítima de um fenómeno que agora se descobriu. Até já tem nome em inglês, é uma coisa séria, subiu à categoria dos maremotos que são tsunamis e tremores de terra. Chama-se bullying.
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O meu dicionário começa por explicar que o «bully» é o «hired ruffian, blusterer, browbeater», ou seja: o rufião encartado, o vociferador, o ameaçador.
Também se aplica, em Eton, ao que parece, àquelas molhadas que se formam no rugby a que se chama também a mêlée e em que o desgraçado que sai lá de baixo, ou tem o caparro de um lutador de wrestling ou sai feito num oito.
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O bully, portanto, é um atormentador. Mais: regra geral não age sozinho. Exibe-se para o seu grupo e, em caso de resistência do atormentado, não hesita em socorrer-se da ajuda dos outros todos. A mêlée, nem que mais não seja pelo número, raramente perde.
Se a memória me não falha, está aqui tudo o que falta para fazer delinquentes juvenis.
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Claro, se assaltarem uma loja, se roubarem carros, chama-se a polícia, exigem-se medidas: atentou contra o património. É grave.
O cidadão comum indigna-se, exclama que «só neste país!», pergunta o que faz a polícia.
Os ministros anunciarão reforços às forças da ordem, o policiamento de proximidade, o bacalhau a pataco e que a semana vai ter nove dias.
Um ou outro desses jovens delinquentes será detido com grande estardalhaço e confiado mais ou menos em segredo á guarda dos mesmos tutores que não souberam socializá-lo.
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Se o mesmo jovem se dedicar a tiranizar os mais novos, os mais pequenos, se lhes roubar o lanche, as canetas, os trocos, se com grande valentia distribuir porrada, se rasgar os livros de estudo, se insultar e bater, tudo bem, ninguém sabe, toda a gente estava a olhar para outro lado.
Os mais pequenos sofrem, mas não dizem nada, porque é o medo que guarda a vinha. Os pais não sabem porque os filhos não falam. Os professores não têm meios e os conselhos directivos garantem que na escola não foi.
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Mas foi.
Não interessa se foi para lá do virar das esquinas, longe da vista e longe do coração, que a agressão se concretizou: foi na escola que se estabeleceram os domínios, se designaram as vítimas, se iniciaram as perseguições: primeiro com os risinhos, o desdém, logo o insulto, o empurrão, o pequeno roubo "a brincar", o estojo dos lápis atirado para longe, a mochila escondida.
Se as coisas forem mais longe, mais longe serão: fora da escola, longe das testemunhas.
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Mas, como é um fenómeno, pronto, então está tudo bem. É como os ritos de iniciação, um homem não é homem se não partir sete vezes a cabeça, se não pegar um garraio de caras, se não for à tropa.
Os jornais escrevem em grandes títulos que um "estudo académico conclui que 13,5% dos estudantes do secundário são alvo de agressões sistemáticas". 13,5 é um número significativo: é como dizer-se que uma fatia importante dos adolescentes perdem a virgindade antes dos quinze anos, ou que a incidência das borbulhas faz parte do crescimento. O Dito bullying também.
Até há estudos académicos. A honra está salva.
Os reitores das universidades, quando recebem estes jovens delinquentes, já podem aceitar a existência de rituais de iniciação, de praxes violentas, do que for.
Se alguém faz perguntas, todos negam:
Que está garantido o direito a declarar-se contra a praxe, dizem.
Que sempre foi assim e que não tem havido queixas.
Não, não tem havido queixas.
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Uma vez por outra morre um Leandro Filipe.
- Não pode ser! - gritam-nos logo. - As nossas instituições são perfeitas. Foi um azar! A culpa foi dele de certeza.
Talvez, talvez tenha sido. E minha, também.

domingo, fevereiro 28, 2010

Tema para a meditação de hoje

Lao-tsé disse que quem muito escolhe nunca acerta. Mas acrescentou que aquele a quem só é dado escolher o já escolhido, também não.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Tema para a meditação de hoje

Duas coisas, neste penoso momento, vos devem consolar, Irmãos, se meditardes nelas.
A Primeira é que é que já ninguém pensa em vender os bens da nossa Santa Igreja para pagar a crise, tão pequenos são uns e tão grande é a outra.
E a segunda é ainda mais importante, vede bem e pensai nisso quando fordes votar: é que desta vez, meus Irmãos, desta vez, Deus está inocente.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Maria de Lurdes Pintasilgo


















Chamava-se Maria de Lurdes e teria feito os oitenta anos no dia dezoito do passado mês de Janeiro.
Mas não resistiu tanto.
O Mundo, quando não os consegue quebrar, mata-os, escreveu Hemmingway, e Maria de Lurdes faleceu num dia de Camões, no dia 10 de Junho de 2004.
Tinha sido primeira ministra de Portugal durante uns cem dias. Depois correram com ela para o Parlamento Europeu, para a Unesco, para muito longe.
Não admiro muita gente, o defeito é meu, eu sei, e os políticos ainda menos. Mas esta Senhora fazia parte das excepções.
Não acreditávamos nas mesmas coisas, é claro, mas ambos tínhamos fé na Palavra. «A Palavra age», disse ela durante a campanha presidencial de 1986.
Nunca soube se esta «palavra» a que ela se referia era o Verbo bíblico, aquele de que fala S. João quando diz ao princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus... ou se era o logos dos gregos, razão do que existe, o princípio ordenador de Heraclito ou dos estóicos.
Nunca tive a oportunidade de lhe perguntar, nem sequer era importante. O que importava, isso sim, é que, quando ela falava, todos percebíamos que não era a palavra com que se escreve o Diário da República
Tenho saudades das pessoas como ela.
Ainda não sei, mas para o ano, em calhando, voto no Manuel João Vieira.

sábado, fevereiro 20, 2010

Desempanadora Ruço, Ldª.

Já toda a gente ouviu falar na depressão de Inverno: o frio, os dias cinzentos ou, pior, chuvosos, tudo isso contribui para uma quietude melancólica, para uma vaga tristeza que bloqueia criatividades e sentido crítico.
Depois, tudo se acumula, livros que demoram a ser lidos, cartas que têm de ser escritas, jornais intactos que vamos empilhando porque um dia havemos de ver aquele artigo muito importante, aquele peça de teatro que era imprescindível e que deixámos sair de cena...
Pois bem: connosco, aqui no Portugal, Caramba! não foi nada disso.
Uma pequena avaria, como pode acontecer mesmo aos melhores, quanto mais a nós; mas já chamámos o pronto-socorro.
Não sabemos quando chegará, mas que vem a caminho, isso vem.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Run rabbit, run!

Run rabbit - Run rabbit - Run! Run! Run!
Don't give the farmer his fun! Fun! Fun!