sábado, maio 29, 2010

Mentiram-nos este tempo todo?


Quando chegou o 25 de Abril, nós sabíamos que éramos um povo atrasado.

Devíamos à Providência a Graça de sermos pobres, lembram-se? Morávamos ainda em casas de telha vã, chão de terra batida, andávamos quilómetros a pé, no Inverno, com as solas rotas, para chegar à escola: fazíamos a terceira classe e íamos trabalhar.
Desde tempos remotos, os ratinhos e os malteses tinham vindo em ranchos fazer as colheitas e as vindimas, varejar a azeitona ou pescar noutras águas muito para longe das suas terras. Não ganhavam muito, o que amealhavam mal dava para um vestido para a cachopa, um lenço para a velhota, para a onça do tabaco, para o copo de três a festejar o regresso. Outros conseguiam vender uma fazenda ou tinham um parente que os chamava, iam para o Brasil, para a Venezuela.


Tínhamos escapado da II Guerra Mundial, não escapámos aos movimentos de libertação das colónias. Vimos partir o simbólico forte de São João Baptista, depois o Estado da Índia.


A guerra rebentou em três frentes.


Disseram-nos que a Pátria não se discute e que choraríamos os nossos mortos se os vivos não os soubessem merecer.

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Foi quando descobrimos a Europa, a Europa nos descobriu a nós.

Fomos a salto, os que queriamos fugir da Guerra, os que não aguentávamos esperar por um papel da Emigração.

Trabalhámos duramente, muitas horas por dia, para ganhar aquele pouquinho que, para nós era a fortuna. À noite dormíamos no bidonville.

Os Europeus, por seu lado, descobriram a Civilização do Lazer, descobriram o nosso sol, as nossas praias, a nossa comida de farta-brutos e a nossa ingenuidade meio canhestra, meio interesseira.

Vendemos-lhes cervejas e vinho tinto, trabalhámos no batiment e a servir à mesa, as nossas mulheres fizeram limpezas às Frau-qualquercoisa.

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Juntámos um dinheirito debaixo dos nossos colchões e logo nos vieram dizer que não era assim: os bancos abriram filiais para captar os nossos pés-de-meia.

Disseram-nos que abríssemos contas, que comprássemos acções, fizéssemos a casa, que comprássemos um carrito a prestações.

A auto-estrada de Lisboa-Porto ia até Vila Franca, sumia-se, depois reaparecia às portas da Invicta.

Tínhamos o Eusébio, mas também tínhamos a maior taxa de analfabetismo da Europa, a menor de estudantes universitários, tínhamos uma censura prévia, a visita de Paulo VI e o Dia da raça.

O que os emigrantes ganhavam, o que os visitantes por cá gastavam, sumia-se nos orçamentos suplementares que reforçavam os gastos do exército. O Algarve ia-se transformando, a pouco e pouco num caos urbanístico.

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Lisboa já o era.

Bairros inteiros viram demolidas as suas moradias, os prédios mais baixinhos. Em seu lugar surgiam caixotes de linhas mais ou menos direitas, grandes varandas que logo eram fechadas em marquises. As aldeias periféricas, a Amadora, Queluz, o Cacém, Loures, Sacavém e por aí fora, sucumbiram ao cimento armado, ao betão.


A 25 de Novembro de 1967 abateu-se sobre Lisboa uma tempestade. Choveu nessas obras recentes e umas quinhentas pessoas - estimativas oficiais - morreram afogadas, desmoronadas, soterradas.


A polícia modernizou-se para conter as manifestações dos estudantes, dos operários.


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A 25 de Abril, na sequência de um pronunciamento militar, a população de Lisboa insurgiu-se e, de todos os lados, surgiram as adesões.


Julgava-se, talvez com razão, que a propriedade estava mal distribuída, mal utilizada. Que os monopólios concedidos pelo Estado Novo entravavam o desenvolvimento. Que a especulação imobiliária privava de casa milhares de jovens casais.


Em suma, acreditámos que "o pão que sobrava à riqueza, distribuído pela razão, mataria a fome à pobreza e ainda havia de sobrar pão". Era simples, o programa que quisemos ver realizado e era fácil de o gritar em coro: "a paz, o pão, saúde, educação."


E pintámos essas coisas simples em grandes murais que encheram as paredes nuas.

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Disseram-nos depois que estávamos errados.

Que das herdades colectivas, das fabriquetas em auto-gestão porque os donos estavam fugidos no Brasil, nada viria senão mais miséria, novas escravaturas.

Falaram-nos nos Gulagues e disseram-nos que o que importava era a liberdade, o direito de escolher e por aí fora.

Que a liberdade de ensino era fundamental e que eram necessárias as universidades privadas.

Que os bancos privados também eram necessários, que a iniciativa privada traria o progresso, que algumas privatizações eram razoáveis.

Em nome da liberdade criaram-se rádios privadas, televisões privadas, permitiu-se a formação de grandes grupos na comunicação.

Trouxeram-nos, do Brazil, de onde regressavam os donos, as telenovelas.

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A publicidade tornou-se agressiva.

Alguém andou a promover a ideia dos JEEP, quer dizer: jovens empresários de elevado potencial.
Não éramos jeepes?

Não, nós trabalhávamos.

Então não éramos nada. Nada.

Não passávamos férias no clube mediterranée.

Não tínhamos um iate na marina de Belém nem de Vila Moura. As nossas mulheres não vinham na Caras.

Então deixássemos trabalhar quem sabia, quem fazia dinheiro, quem viajava em classe executiva.

Abríssemos caminho porque os gestores, os administradores, os administradores executivos e os administradores delegados tinham mais que fazer.

E que a Europa estava connosco.

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Aderimos à CEE.

Não à CDE, a comissão democrática eleitoral de antes do 25 de Abril. À CEE, ao mercado comum, à Europa.

Nós que fizéssemos os cursos de actualização, que eles pagavam. Que modernizássemos a nossa frota, que eles pagavam. Que reconvertessemos as nossas metalo-mecânicas e as nossas fiações que eles pagavam.

Pagaram.

Mas disseram-nos que tínhamos de liberalizar a nossa economia que era muito fechada.

Que tínhamos de acabar com os monopólios.

Que tínhamos de emagrecer o estado.

Que tínhamos de deixar morrer a Lisnave e a Sorefame.

Disseram-nos que o crédito era fácil.

Disseram-nos que, finalmente, estávamos a apanhar a Europa.

Disseram-nos que precisávamos de mais auto-estradas e mais uma travessia do Tejo.

Acreditámos e tudo isso foi feito.

E disseram-nos mais: precisávamos de um novo aeroporto, outra travessia do Tejo, de combóios de alta velocidade, de submarinos.

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Explicaram-nos a seguir que a economia mundial estava em crise e que já não tínhamos crédito.

De nada valeu dizermos que trabalhávamos, que sempre tínhamos pago as nossas contas.

Disseram-nos que não éramos competitivos.

Que a nossa produtividade era fraca.

Que continuávamos analfabetos, sofríamos de iliteracia profunda, que éramos os piores a matemática.

Disseram-nos que o dinheiro que tínhamos descontado toda a vida não chegava e que tínhamos de fazer cortes nas despesas de saúde, subscrever seguros de saúde pagando um pouco mais.

Disseram-nos que tínhamos demasiados velhos, que a população estava envelhecida.

Disseram-nos que éramos dispensáveis e começaram a despedir-nos.

E já nem sequer nos dão explicações.

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Mentiram-nos este tempo todo?

Estão a mentir-nos agora?

terça-feira, maio 25, 2010

Sem Título

- Qu'é da página das boas notícias?
- Atão, vê a necrologia.

segunda-feira, maio 17, 2010

Choque petrolífero, 6ª fase

- Mãe-iii! Achas que os homens já aprenderam a fazer núvens de tinta como nós?
-

domingo, maio 16, 2010

Tema para a meditação de hoje


"Salários record em plena crise
Os 584 conselheiros executivos e altos directores das empresas do Ibex 35 cobraram, em média, um milhão de euros no peor ano da recessão..."
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(El País, 16 de Maio)
-
Ai sim? E já viram os do PSI 20?
E os do ano que vem?

quinta-feira, maio 13, 2010

Subsídios para o Livro de Aka XXIII

O puto aproximava-se num enviezado deslizar,
mansinho como se não fosse dali,
os ténis gastos, num repente pontapearam o pombo
que rolou e logo foi agarrado, pescoço partido num gesto seco.
Aka agarrou-o pela roupa.
- Larga, gritou o puto.
Rolou para fora da t-shirt, mostrando o corpo sujo, de ossinhos miudos, nódoas negras de andar à pancada, correadas de pai, apertos de chui, esfoladelas de tombos.
Aka apanhou o pombo caído, quente, magro também ele, julgou sentir um último estremecimento.
- É meu, gritou ainda o puto, a encurtar o metro de distância, uma pedra bem cerrada na mão esquerda.
- Que mal te fez ele, perguntou Aka ainda zangada, olhos nos olhos corruscantes.
- Que mal te fez a lagosta que tu comeste ontem, ó parvalhona?
- Mas tu não vais comer isto.
- Eu? Não. Eu deito-o fora e tu vais apanhá-lo.
Aka abrandou, estendeu-lhe a t-shirt e o pequeno cadáver.
- Não devias comer pombos das cidades. Estão cheios de doenças. E sabem a esgoto.
- É bom saber, disse o puto com um riso súbito nos olhos.
- O quê?
- Que os esgotos sabem a pombo frito.
- Raspa-te antes que eu me arrependa!
- Heu, que medo!
Dá-me um euro e digo-te uma coisa que tu não sabias.
Aka estendeu-lhe a moeda.
- O quê?
- A tua lagosta. Eu vi uma vez.
Deitaram a gaja para a água a ferver.
Parou um instante como quem recorda alguma coisa preciosa:
- Havias de ouvir os ruídos que ela fez a morrer.
- Puto estafermo! - murmurou Aka.
Mas ele já ia longe, saltitante,
com o seu pombo e o seu euro.
-

sexta-feira, maio 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Quatro mil trabalhadores dizem que há um Granadeiro a mais na PT
-
Recortes do jornal Público, com a devida vénia.

quarta-feira, maio 05, 2010

Tema para a meditação de hoje

Será verdade que "quando a esmola é grande, o pobre desconfia"?
É que, juro-vos, nunca, por nunca ser, eu vi esse tal pobrezinho deitá-la fora. E muito menos em tempos de crise, claro.

terça-feira, maio 04, 2010

quarta-feira, abril 28, 2010

Uma história (sem pés nem cabeça) em que se fala de cabaias e mandarins e do Prémio Pessoa.

-
-Estou aqui numa de digo, não digo... e afinal, olha, já está.
O meu problema é que não gosto de banqueiros, nem muito, nem pouco. E também não nutro qualquer simpatia por gente demasiado rica, ainda menos pelos os grandes gestores, aqueles que ganham para cima de um milhão por ano.
Feita esta declaração para salvar a moral, já posso acreescentar que são pessoas engraçadas e, às vezes, até é instrutivo vê-los.
Deles, dir-se-ia que são gente fina.
Vestem bem, boas roupas, muito clássicas, geralmente, de bom gosto, gravatas dignas de um Beau Brummell.
Frequentam, ia jurar, ginásios com personal trainers e tudo, massagistas privadas de vez em quando. Costumam ser pessoas amáveis, sobretudo nos contactos sociais, porque dos outros, que sei eu?
Para meu gosto, no entanto, têm um defeito: são demasiado direitos.
Eu explico:
Quando os vemos ali parados, em evidência, no meio das salas, com copo na mão, não podemos deixar de reparar nos ombros recuados, nas costas esticadas, a cabeça levantada.
Obviamente, ou não são assim tão velhos, ou envelheceram francamente bem.
-
Mas pronto: a que propósito vem isto tudo?
É que ontem ou talvez já anteontem, pronto, na terça-feira, dia 27, o Doutor (e Dom) Manuel Clemente, Bispo do Porto, esteve na Culturgest a receber o Prémio Pessoa.
Talvez não fosse único dos presentes a não fazer gala num porte desportivo, a não trazer as unhas manicuradas, a vestir o que veste todos os dias.
Mas era o que estava mais em evidência.
Subiu ao palco para receber o que lhe queriam dar e depois para nos dizer que o Padre António Vieira "é o caso acabado de como em Portugal [...] sempre nos desperdiçámos quando não consideramos o que cada um é e pode oferecer aos outros, do presente para o futuro."
E nós, eu pelo menos, ficámos a pensar: mas o que é que esta gente toda, eu incluído, tem para dar? E a que futuro?
Olhando em volta, não se via muito bem; estava ali a nata das natas, o futuro, nem por isso.
-
Lembrei-me daquela antiquíssima história passada algures lá para os confins do Celeste Império.
Conta-se que, há muito tempo, num cantão longínquo chamado Ba-pei ou coisa assim, o velho e sábio mandarim morreu.
E aconteceu o que acontece sempre: foi preciso nomear outro.
De recomendação em recomendação - porque essa coisa das cunhas e dos empenhos não foi inventada só para nós - lá foi proposto a exame um letrado dos seus quarenta e tais, cinquenta anos, o que, numa gerontocracia, já se vê, é a extrema juventude.
Falta dizer que, nesses tempos, como provavelmente ainda hoje por todo o lado, havia no Celeste Império um alto funcionário que tinha a seu cargo a balança de pesar as cunhas: punham-se as moedas de oiro ou os pergaminhos no prato e quem pesava mais passava nos exames e ficava com o cargo.
Ora, lá no distante e pobre Ba-pei as influências não pesavam muito, no fundo que importava? Era só um mandarinato de nono grau, uma borlazinha de prata no chapéu.
O funcionário da balança encolheu os ombros, o Imperador, no palácio da Cidade Proibida por onde bocejava de tédio, não viu razões para objectar e o decreto foi assinado.
Se nada disto chegou para perturbar a rota do Sol, o mesmo não aconteceu com o juízo do jovem letrado que, guindado ao mais alto posto da pequena província, resolveu logo mandar fazer a cabaia do cargo, com uma resplandescente ave do paraíso bordada no peito.
O alfaiate, porém, como acontece em muitas histórias, era sagaz. Não ousamos afirmá-lo, mas, em calhando, era ele o representante da própria esperteza sarcástica do Zé Povinho que não perdoa nem uma.
E lá da sua fingida humildade perguntou ao nóvel mandarim - como se o ignorasse - há quanto tempo ocupava ele o cargo.
- E que tens tu com isso? - perguntou enxofrado o cliente.
E o alfaiate, curvando-se ainda mais humilde, disse:
- Senhor, é só por causa da seda.
Mandarim de fresca data, explicou ele, anda impante pelas ruas, peito para fora, muito teso, muito esticado, quase se diria que andava sempre nos bicos dos pés para se fazer maior. Por isso, a cabaia levava muito mais pano à frente e menos nas costas.
Pelo contrário, mandarim de antiga nomeação, por jovem que seja, curva-se ao peso da responsabilidade, arqueiam-se-lhe as costas como que numa reverência às complexidades do mundo. O tecido que dantes lhe cobria o peito, sobrava, arrastava no chão. E o que tapava as costas ia faltando cada vez mais.
- Bem vês, Senhor, uma obra bem feita, precisa de conhecer aquele a quem se destina. Ganhaste esses ainda poucos cabelos brancos a cuidar do bem comum ou pertences a esta nova geração de gente elegante que cuida da aparência antes de mais?
-
A resposta que o mandarim deu ao alfaiate já não faz parte da história, claro.
Mas eu, cá para mim, iria jurar que foi mandado chicotear e despedido a seguir, porque é o que fazem os grandes.
Entretanto, o Manuel Clemente desceu vagarosamente as escadinhas do palco, um pouco curvado, como é seu hábito.
O alfaiate chinês, com a sua sagacidade, havia de lhe fazer uma cabaia com mais pano nas costas. Fazia sentido, não fazia?

terça-feira, abril 27, 2010

Tema para a meditação de hoje: Ricardo Sá Fernandes

Sabem?
Estamos em crer que ele não precisa do nosso apoio para nada.
Mas, para nós, aqui no Portugal, Caramba!, é muito importante dizer que ele o tem.
Nem que mais não seja,
para que um dia possamos olhar-nos no espelho e dizer,
com uma pontinha de vaidade:
nós estivemos lá.

segunda-feira, abril 26, 2010

Anjo papudo, com asas e tudo

Claro, por uma intenção particular, uma vez mais.

domingo, abril 18, 2010

Por falar em fumo...

- E pensar que não me deixam fumar o meu cachimbo em parte nenhuma...

quarta-feira, abril 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Não perguntes o que a iniciativa privada pode fazer por ti.
Pergunta antes o que podes tu fazer pela iniciativa privada!
-
Ouviste, ó palerma?

sábado, abril 03, 2010

Sem título

- Meu Deus, vai recomeçar...

sexta-feira, abril 02, 2010

Tema para a meditação de hoje





Os jornais estão cheios com a foto de uma jovem de dezassete anos que já era viúva quando faleceu, juntamente com as suas vítimas, no metro de Moscovo.
Tinham-lhe morto o marido, provavelmente com todas as razões do mundo, carimbo e benção oficial e não serei eu, ignorante como sou, quem atirará pedras ao executor.
Mas não posso deixar de pensar em Romeu e Julieta, no desesperado e violento amor dos treze anos, dos catorze, quinze, dos teenagers. Quem transformou Dzhennet Abdurakhamanova numa viúva negra, estava, receio eu, como sempre, a criar alguém capaz de quase tudo. Por amor, por ódio, por desespero.
Provavelmente ninguém o confessará:
Fosse Dzhennet feia, velha e com bigode, bah! Mais um terrorista, daqueles que se abatem sem dó nem piedade quando está na mira de uma pistola, de um helicanhão.
Mas ela era apenas uma menina, das que, no nosso país andam ainda no secundário; e era bonita. Faz-nos pensar na inocência, não faz?
Faz-nos pensar que Julieta, ao contrário do que é costume pensar-se, é uma ideia feita, não morreu de amor: morreu vítima de uma forma de bulliyng que aos jovens de Verona era permitida. Quem se não lembra, releia a cena do duelo entre Marcutio e Tybald e preste a atenção à insolência deste, à fanfarronice de todos, ao clima de violência instalado.
Mas a violência não se ficou pelas peças de Shakespere, não era só a de Verona.
Houve um brasileiro em Londres, lembram-se?
Foi abatido, assim, pás!
Azar! Era engano.
Houve protestos, claro, indemnizações e por aí fora. O atirador foi admoestado, certamente, são sempre.
Nós, neste cantinho da Europa, não podíamos ficar atrás. Também somos gente, não somos?
Há dias, um rapper que, se calhar, ia distraído a falar ao telemóvel, que talvez tivesse bebido um copo a mais, ou que, pura e simplesmente ia noutra, foi abatido pelas forças de segurança. Não ia, tanto quanto se soube, a fazer mal nenhum. Acontece que não parou quando lhe mandaram.
A autoridade perdoa tudo - sobretudo se houver uma pequena lembrança - menos a desobediência. É o que enfurece mais o bully: é que alguém lhe resista, que se esteja nas tintas para ele, que não lhe obedeça instantânea e submissamente. Multa. Bate. Dispara. O guarda, o que disparou - vai uma apostinha? - vai ser admoestado também.
É como as crianças que torturaram e afogaram uma pobre mulher doente, lá para as bandas do Porto. Foram admoestadas pelo sr. Dr. Juíz, se calhou, pelo sr. Padre Maia também, ia jurar, por toda a gente responsável.
E é como aquelas crianças que mandaram o Leandro Filipe para o hospital. E as que agora o empurraram para o Tua, mesmo se não foram elas, não, não! Ou prontos, foram, mas foi sem maldade, era só de brincadeira. Vão ser admoestados, podem ter a certeza!
E vão todos ter apoio psicológico porque estão muitíssimo transtornados.
As vítimas, essas morreram, como o jovem rapper, como o brasileiro de Londres, como a Gisberta.
Uma por outra recebeu, muitos anos depois, uma indemnizaçãozeca regateada que nem a símbolo chega. Foi o caso de uma rapariguita que só queria frequentar a universidade e se declarou anti-praxe, mas, hélas, foi torturada, violentada, humilhada.
Outros ainda, suicidaram-se.
É tão simples quanto isto: não quero este mundo, não quero esta gente, não quero! Vou-me embora!
A forma que escolhem para se despedirem é que faz a sua diferença.
Já aqui o disse: o Leandro Filipe era bom menino. Terá voltado a violência contra si próprio.
Dzhennet, de cultura muçulmana, escolheu ser bombista suicida.
Se fosse norte-americana, cristã de cultura, democrata e ocidental, teria escolhido entrincheirar-se numa torre da sua faculdade e disparar a esmo.
É uma vingança cega, injusta, mas é o único heroísmo julgado possível num mundo em que o poder se serve, ele próprio, dos bully, quer se chamem Bush, Blair, Aznar ou Barroso, para enforcar outros bully que se tornaram incómodos.
Um poder que precisa de guardas republicanos, de seguranças, de carcereiros para as abu garibes e as guantanamos que são a sua forma de domínio e, claro, não pode deixar de lhes tolerar os desmandos, os excessos, os erros.
O poder é assim mesmo: as forças armadas americanas, inglesas, russas, que sei eu, julgaram-se no direito de atacar, brutalizar, gritar, impôr.
As vítimas, às vezes, escolhem vingar-se.
Uma delas, por exemplo, chamava-se Dzhennet.
Tinha dezassete anos e fez mais vítimas que talvez tenham dezassete anos e que um dia farão - quem sabe? - mais vítimas...
Ninguém foi muito feliz e tiveram muitos filhos que foram devorados pela aviação inimiga.


segunda-feira, março 29, 2010

«Basta-me viver»?


Carlos Vale Ferraz,
Basta-me viver,
Edição da Casa das Letras,
Março de 2010, Alfragide







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É aborrecido, mas estou a ficar sem autores favoritos.
Sabem como é: aqueles que, descoberto um livro, nós partimos imediatamente em duas opostas direcções: uma para o passado, é espantoso, ela (ou ele, claro) já tinha publicado tudo isto e eu nem o vi?
Ou vi, mas não liguei nenhuma?
Momento óptimo para uma fúria consumista e zás!
De repente ficamos com leitura para umas semanas.
Aconteceu-me com o Mário de Carvalho, por exemplo, creio já ter falado nisso algures. E com o Paulo Castilho e com o João Aguiar.
E claro, depois de lido o passado, ficamos à espera do futuro - que, diga-se, ao contrário dos actos dos ministros e das más notícias em geral, leva muito tempo a chegar.
Os autores, por motivos lá deles, parecem ter arrumado a caneta, e só pegam no computador para jogar free cell.
Eu, cansado de esperar, no meio da livraria, grito indignado:
- Mas o que é eles andam a fazer, caramba?
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Carlos Vale Ferraz não pertencia a este grupo. Lido o Nó Cego, não me precipitei à procura de outras obras. Erro meu, quem sabe?
Há uns dias, porém, enquanto esperava por uma amiga e a fazer horas numa livraria, dei com Basta-me viver. A contra-capa parecia feita de propósito para pôr a milhas o mais pintado: "Uma história de amor absoluto de duas mães pelos seus filhos, dos sacrifícios em nome do amor e das contradições do dever."
Não conhecesse eu o nome do autor e julgaria que estávamos perante uma reedição de Corín Tellado.
Seria publicidade negativa? Se era, funcionou, porque eu trouxe o livro.
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Afinal, era dos que se lêem de um fôlego quase até ao fim. E sublinho o «quase» dado que, infelizmente, o interesse foi morrendo à medida que José Maria Gonzaga Torres, narrador e personagem fulcral vai assumindo maior protagonismo.
A técnica narrativa não é inédita, mas é extremamente eficiente e isso é o mínimo que se pode dizer da escrita de Vale Ferraz que é límpida, sem rodriguinhos.
Como num inquérito policial, ou como numa investigação jornalística, o jovem José Maria, filho de um oficial miliciano, piloto de helicópteros do exército colonial e de Ana Paula, uma jovem pertencente ao clã dos Gonzaga, uma poderosa família crioula de Luanda, vai recolhendo os pedaços da sua própria história em conversas com os seus perdidos familiares, através do depoimento de próximos: a madrinha, uma freira que deu abrigo à sua mãe, o tio guerreiro das muitas guerras angolanas, a Avó paterna, um General Gaeiras comandante do Avô Torres na Legião Portuguesa, etc.
Lemos assim, com grande interesse, muita coisa sobre os últimos anos da ocupação portuguesa, sobre o papel da Pide nas colónias e sobre a vida numa base de guerrilheiros, sobre o próprio 25 de Abril, sobre o período da independência de Angola e a guerra pela sobrevivência do MPLA.
Nada de melhor para nós, portugueses que temos teimado em ignorar as derrotas militar e económica, o fracasso do colonialismo, a mais absoluta ausência de projecto nacional.
Vale Ferraz é um escritor informado e transmite-nos os factos com mestria e a leveza própria de um romance que nunca se assume como histórico, mas que, de facto, o é.
Infelizmente, à medida que José Maria, "o neto que", parafraseando o autor, "nenhuma das pátrias quis ter" começa a narrar a sua própria história, a partir do momento em que deixa Angola, percebemos que ele pertence a outra metáfora e que não se encaixa nas outras todas.
Macau, as tríades, o jogo, os últimos anos da administração portuguesa, serão temas fascinantes, mas, a nosso ver, como simples leitores, estão a mais neste romance.
Acreditamos que fosse essa a intenção do autor: esse filho de culturas tão diversas, gerado e parido na guerra, só pode tornar-se num exilado, batoteiro profissional - com um toque de realismo mágico aqui e alí, a nosso ver perfeitamente dispensável - ao serviço de uma tríade. Ponto. Assim termina a saga colonial dos portugueses.
É. Mas José Maria também tem sangue angolano. Não era esse o futuro que eu lhe auguraria.
No mais, e Vale Ferraz que me perdoe, o romance perde-se.
Deveria ser uma narrativa do amor cego de duas mães aos seus dois filhos e é uma narrativa da traição das mães:
Fernanda Torres, a avó paterna do jovem José Maria, trai o marido, o salazarista Augusto Torres, com o melhor amigo do filho falecido, ainda por cima.
A avó Gertrudes, do lado materno, essa trai a filha e trai o neto.
A própria Ana Paula, a mãe, trai o seu clã, trai os seus pais ao deitar-se com o inimigo e trai-os de novo quando se nega a assumir o seu lugar na complexa organização dos Gonzaga.
E o grande fio condutor do romance, no nosso demasiado ousado entender, é a traição da Pátria, de todas as pátrias, como já era em Nó Cego.
Ou talvez melhor, neste caso: de todas as mátrias.
-
Li o Nó cego na 4ª. edição, profundamente revista. Tenho pena de não ter conseguido arranjar um exemplar da primeira versão do romance. Por isso, limito-me a citar o que escreve Rui Azevedo Teixeira no prefácio:
"... As mudanças efectuadas tornam visíveis aspectos pertinentes da matéria negra do universo do romance. Assim, o reforço informativo, que nunca chega à cansativa minúcia que mata tantos romances históricos, ou os cortes, acrescentos, trocas e ajustes diversos ou, ainda, por exemplo, a demão dada ao episódio da Ilha de Moçambique, em nada retiram o vigor de Nó Cego. Pelo contrário, com as alterações introduzidas pelo autor, o livro ganhou ainda mais consistência sem ter perdido a frescura, o tom ou uma qualquer fatia essencial da história."
Como O crime do Padre Amaro, nas suas sucessivas edições.
Por isso, muito embora Basta-me Viver não tenha sido, de modo algum, uma desilusão, confesso que vou esperar por uma quarta edição e voltar a comprá-lo.

sexta-feira, março 26, 2010

sexta-feira, março 19, 2010

Qual Celecanto?

Se um ecozine acorda muita gente,
dois ecozines acordam muito mais!
Se dois ecozines...
-Foi ontem e havia mesmo uma baleia no Museu de História Natural, suspensa no ar, como quem nada displicentemente, a olhar por nós.
Estava lá muita gente.
O Celacanto, com os seus oitenta e tal colaboradores, já não é só um ecozine.
Começa a ser também um movimento.
Podem saber mais coisas no site da Qual Albatroz; porque é que não dão uma espreitadinha?

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Celacanto nº. 2

Se nunca esteve debaixo da barriga de uma baleia, aqui tem a sua oportunidade.
No dia 18 de Março, uma quinta feira, a Qual albatroz lança o nº. 2 do ecozine Celacanto.
O primeiro número foi sobre o albatrós - o patrono da editora.
Este agora vai ser sobre o lobo.

Vale bem a pena dar um saltinho à rua da Escola Politécnica 58, em Lisboa (1), passear uns minutos pelo Jardim Botânico e, às 18 horas dirigir-se ao Museu de História Natural. Só falta encontrar a dita baleia. Não nos parece que seja muito difícil.
Encontramo-nos lá.
-
(1) O Rui Rio tem razão: Lisboa açambarca tudo o que é importante.