terça-feira, outubro 05, 2010

Viva a Bela Adormecida!


(A história desta bela adormecida, caso queiram, pode ser vista no Urban Sketchers, aqui ao lado. Oxalá gostem, que me deu bom trabalho e algum gozo.)
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Não sou o republicano mais convicto do mundo, é verdade.
A bem dizer, nem sei muito bem o que é isso, uma república.
Claro: já não há reis.
Os marquezes e os condes deixaram de merecer tratamento de favor expresso na lei. Alguns, mas não muitos, até empobreceram.
Mas e depois?
As grandes famílias, cruzamentos do poder económico e do poder simbólico como sempre, continuam por aí. Estou até em crer que olham com irónica indulgência os salazarecos que se agitam diante das televisivas câmaras a julgar que decidem alguma coisa.
E a Igreja Católica, com a Opus Dei, quem sabe, com as Misericórdias, com as suas escolas, foi separada do Estado, mas, se calhar, levou consigo muito do melhor que a gente tinha, e isto sem nunca abdicar inteiramente de de coisa alguma.
Não tenho a certeza, mas foi como se uma fada má tivesse condenado esta Bela a picar-se num fuso e dormir durante cem anos.
Quem quer ser o Alfaiatinho Valente que a vá despertar? (1)
Mas, perguntareis: então e a República não fez nada de jeito? Estes anos todos?
Sei lá. E que é que interessa?
O Eça de Queiroz não era um republicano. O Camões ainda menos e o Pessoa também não. Mas foram pontos altos na nossa cultura. E o que seria o Saramago numa monarquia? Republicano à mesma, não?
Olhem, uma república a sério, para mim, é isto e ponto:


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(1) Nste blog, sendo laico e republicano, os Príncipes encantados são convidados a absterem-se. Obrigado.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Como íamos dizendo

D. Augusta e o Sr. Marcolino na manifestação:
OBRIGADOS SÓCRATES
POR NÃO NOS TERES TIRADO
UM OLHO

sexta-feira, setembro 24, 2010

Tema para a meditação de hoje


Índice de civilidade per capita
(estimativa até 2030)
Pronto.
É melhor dizer já:
Eu não acredito que este país esteja perdido.
É certo que eu próprio fui dar comigo a resolver um daqueles enigmas que se chamam Sudoku.
Mas não pensem que era um daqueles a quem os encarregados das páginas de entretenimento chamam «fácil» só porque, se o paciente puxar pela cabeça, consegue resolvê-lo todo, de uma ponta à outra, dedutivamente e de uma assentada.
Não.
Era um daqueles que são ditos «difíceis», não porque tenham alguma complexidade intrínseca, mas porque são chatos. Chatérrimos.
Se não, vejam!
No jornal donde eu gasto, os oitenta e um quadradinhos medem 0,64 centímetros quadrados cada. Não é muito, mas cabe lá bem um algarismo, dois ainda à-vontade, três já se acotovelam com certo desconforto. Quando dei por mim, já estava a tentar enfiar quatro e cinco algarismos naqueles espacinhos minúsculos! Ia em mais de metade das casas a preencher e ainda só tinha descoberto meia dúzia de soluções seguras!
"Isto admite-se?", exclamei, porque, acreditem, eu farto-me de falar sózinho ou, quando tenho sorte, com o meu cão. "Por alma de quem estou eu aqui a fazer papel de parvo?"
Recordei os meus falacidos mais próximos e concluí que nenhum merecia tal penitência. Outras sim, decerto: ir a pé a Fátima, dar uma esmola mais vultuosa, participar nas despezas da capela de Nossa Senhora das Necessidades cá da terra, enfim, contribuir o melhor possível para a remissão dos seus pecados quando os tivessem, era uma coisa.
Mas um Sudoku?
"Queres ver que ando deprimido?"
Gostaria de poder dizer que arrojei de mim a folha vil, mas não.
Bocejei, por um instante pensei nas inúmeras tarefas que tinha para fazer, tirar a loiça da máquina, comer uma maçã, dar o almoço ao meu parceiro que estava deitado lá fora a apanhar sol, coisas destas, importantes e com sentido... e acreditem, voltei as páginas.
Esforcei-me por ler atentamente qualquer coisa em que se falava do Carlos Queiroz, mas, com franqueza, era mais deprimente ainda. Os bocadinhos do humor do Mec e do Luís Afonso, fizeram-me sorrir, relanceei um outro artigo que falava da justiça, mas não era da nossa porque não fazia menção nem da Casa Pia, nem dos sobreiros abatidos não sei onde e muito menos do Freeport.
Noutro lado era o estado da Economia, o orçamento, a dívida pública.
E aqui, olhem, senti-me como se estivesse outra vez a resolver o enigma do Sudoku: casinhas muito apertadas para tantos algarismos a enfiar lá dentro.
Digo-vos: sou um completo leigo na matéria. Sei que quem de dois tira três, entra em negativos e pronto. É como no bridge: quem não cumpre o contrato, são os cabides, vai para o buraco.
E é onde estamos, dizia anteontem o Dr. Medina Carreira, ali na televisão.
Confesso: eu gostava de o ouvir todas as semanas - não tanto o Nuno Crato, mas pronto.
Mas, na verdade, não acreditava muito no que ele nos dizia.
Vejam se me entendem:
Eu sei, toda gente sabe que, a partir do momento em que o Cavaco se apanhou com as massas da CEE, os seus governos acharam que era para gastar e ponto. Estou a lembrar-me, por exemplo, de três hospitais que se construiram ali ao pé uns dos outros: Tomar, creio, Abrantes e Torres Novas, não foi? E pontes e Lusopontes, autódromos e auto-estradas! E as metalo-mecânicas a fechar, os condomínios já fechados e as armações de pesca a serem desmanteladas. E o Sr. Russell, pois claro.
Foi um «cá-vai-disto»! E depois foi a Expo que mostrou à Europa que nós também sabíamos organizar eventos e foi a «paixão pela educação» e mais o Euro 2004 que, salvo alguma falha de memória, foi lançado com grandes parangonas e a ajuda de um tal Carlos Cruz, à altura cidadão exemplar.
Pronto, era o progresso.
Só que, a seguir, veio o déficit.
Como o deficit, perguntávamos nós, não temos um desenvolvimento do catrâmbias? Sim, mas eram precisas mais auto-estradas, mais submarinos, mais uma travessia da Lusoponte e mais um TGV. Era preciso vender património do estado, disse a Tia Manuela.
E eu perplexo.
Podia lá ser, dizia para comigo mesmo, ou com o meu cão, já não me recordo, podia lá ser que os governos que nós elegemos tão cuidadosamente que por vezes nem a maioria absoluta lhes demos, nos tivessem pregado a partida e tivessem desatado a gastar mais do que o que tínhamos nos bolsos!
Não, acredito que é só o pessimismo de velhote do Dr. Medina Carreira, ou, como vem no meu jornal, a rezinguice do Vasco: "O FMI" escreveu ele "... talvez convencesse o eleitorado da irremediável irresponsabilidade do regime e dos políticos que o exploram e conduzem."
Como se um ministro, que é pessoa que sabe e nos diz que está tudo controlado, pudesse ser um mentiroso!
Basta, afirma um deles, um novo aumento dos impostozinhos, umas portagens nas SCUT e está tudo sob contrôle.
E eu, eu acredito.
São estas fés - se a fé tem plural - o suporte do mundo: sem os crédulos, os que temem a Deus e à Polícia, os que acreditam no bem comum, o que seria dos impostos? E sem estes, que seria de governos, de banqueiros, de têgêvês, de aeroportos do Montijo?
Lembro-me de uma lenda antiga que dizia que eram quatro homens justos quem sustentava a abóbada do mundo: eu acho que não.
Serão quatro verdades, talvez. Quatro coisas inabaláveis: Deus, Pátria, Família e o Governo da Nação, mais coisa menos coisa.
Eu acredito nelas todas.
Porque se não, era a revolução, a anarquia e, quem sabe? o pleno emprego, a sociedade do lazer...
Tudo coisas terríveis, olhem lá Cuba e os Gulagues e o Cambodja e o regime do Pol Pot.
Devo ter suspirado, voltei mais umas páginas e regressei ao princípio, ao Sudoku com os seus númerozinhos impossíveis de enfiar onde já não cabem. Havia uma casa onde só podia ser ou um 2 ou um 6. Apressei-me a escrevê-los, talvez para fugir à sensação de que todo aquele passatempo mais não era do que uma metáfora.
Mas de quê, raios, de quê?

sexta-feira, setembro 17, 2010

Sala de espera (bis)

As conversas são como as cerejas, é sabido, mas os posts aqui nos blogues também. E, a propósito dos esboços rápidos que, disfarçada e envergonhadamente, fui fazendo nas salas de espera de Santa Maria, e do post a que deram origem, sem saber bem como, lá estava eu a folhear uma velha edição do Rilke, prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela.
E lá estava também o poema, Sobre o desenho que representa John Keats morto, e em extra texto, numa folhinha de papel lustroso, a reprodução do desenho a sépia de J. Severn.
Em nota, no fim do poema, lá se explica:
[O desenho a sépia de J. Severn, feito a 28 de Janeiro de 1821, representa J. Keats moribundo (+ 23. II. 1821). Rilke fez o poema sobre uma reprodução do desenho que viu em casa de André Gide. No dia seguinte escreveu numa carta a E. Verhaeren: «Conaissez-vous le dessin réprésentant Keats mort, dont Gide possède une réproduction? Je l'avais vu chez lui la veille et j'ai fait hier, en rentrant, une petite poésie sur ce dessin qui m'a fort impressioné.» ...]
Não sei se as universidades ainda continuam a fazer ou a patocinar este tipo de edições. Sei que, de súbito, me apeteceu ter, como o Gide, este desenho numa parede. Como não consigo decidir-me a arrancá-lo do meu exemplar, acho que vou procurar aí pelos alfarrabistas lisboetas. Talvez ache um outro, já desmantelado a quem uma pàginazinha a menos não faça já grande diferença.

terça-feira, setembro 14, 2010

Sala de Espera


Não são bonitas de se ver, as pessoas deitadas numa maca, quando o ideal de serenidade da escultura clássica cede passo ao seu contrário, o barroco, o excessivo, o verso e o anverso da mesma absurda caminhada.
E, talvez por isso, são fascinantes os seus rostos.
Não sei o que seria mais impúdico, se entrar pela sala de espera das urgências de Santa Maria um paparazzi, a máquina em punho o flash aos tiros a ofuscar toda a gente; ou se aperecer eu, vagarosamente, com um banquinho, o ar de quem pede desculpa e o bloco A3 mais o lápis B6 e sentar-me em frente de doente a desenhá-lo; ambos esteríamos a captar o sofrimento.
Um esquiço rápido, feito num caderninho, disfarçadamente e com um sentimento de vergonha é a nossa câmaro oculta. A aguarela virá depois, quando puder ser. Mais do que isso seria faltar ao decoro: seria violar as regras que presidem aos rituais da doença e da morte.
Note-se que «decoro» é uma palavra muito fora de uso - e que aprendi com a minha mãe - que a aprendeu de avós antigas. Somos um tanto conservadores nesta família.
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Por curioso que pareça, se o decoro está fora de moda, proliferam por aí as revistas de decoração.
Se calhar, não passa de um pequeno deslizar do conceito.
Talvez dantes importasse mais o sujeito e os seus actos, como no conto de Eça:
"Não se pôde nunca precisar nitidamente aquele embróglio doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador, Macário devia desembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:
-Liquido e pago!"
Agora contam principalmente os décors, os cenários deste palco em que somos actores e em que queremos ser aplaudidos e a diferença, se diferença houver, está em que o decoro tinha tudo a ver com o que se aparentava: honradez, a impassibilidade, o controlo das emoções, a razoabilidade; tinha a ver com a serenidade ideal do estóico, mesmo sendo apenas show off, exibição de si no showbiz da personalidade.
E foi decoro o que tiveram, pese aos realizadores de Hollyhood, os cavalheiros nas suas casacas enquanto o Titanic se afundava:
"Não, não! Por favor! As mulheres e as crianças primeiro!"
Debruçados das amuradas, viram afastar-se as baleeiras carregadas até à borda, acenderam um último charuto, a orquestra continuou a tocar.
Que mais se pode fazer ante a desgraça, a eminência da morte, do sofrimento? Torcer-se, gritar, arrancar os cabelos?
Não. Seria faltar ao decoro, ao bom gosto.
Quando muito, um pequeno esgar, as unhas por um momento cravadas na palma da mão, um pensamento fugidio: «Meu Deus! A água deve estar mesmo gelada...»
Não se tem coragem para esperar mais: salta-se para o negrume.
Como outros também saltaram quando o World Trade Center se incendiou.
Para não dar, quem sabe se a si mesmo, o espectáculo da dor incontrolável.
A urgência de um hospital tem sobre o Titanic uma superioridade clara: a esperança. Vai-se lá porque se quer um remédio, uma ajuda, uma palavra.
E tem uma inferioridade. Não há veludos, as luzes são cruas. As salas de espera são acanhadas, talvez porque ninguém pensou na música. A Maria João Pires que já deu um concerto empoleirada na caixa de uma camioneta, não teria onde instalar um piano, nem que fosse só de meia cauda. O espaço falta constantemente para mais uma maca, mais uma cadeira de rodas.
No Titanic havia medo.
Em Santa Maria, junta-se-lhe a dor. Mas há a preocupação com a compostura, com o decoro: há sempre alguém a compor a dobra do lençol de uma maca.
E são poucas as pessoas que se descontrolam. Nas oito horas seguidas que lá estive não dei fé senão de uma que gritava pelo nome da acompanhante. A portar-se mal, só os acompanhantes quando refilavam por causa dos tempos de espera:
- Parece que estão a gozar com a gente!
- Pois é, só neste país...
Quem estava verdadeiramente mal sofria com decoro. Em silêncio, quase.
Muitas vezes sòzinho.
Eu, o mais discretamente que conseguia, rabiscava no meu caderno.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tema para a meditação de hoje

- Desculpe, Chefe. Concorrência desleal a quem?

sexta-feira, setembro 03, 2010

O mesmo combate

Terroristas, mulheres, bebés foca, crianças, judeus, pretos, velhos, raposas, imigrantes, toiros de lide, inimigos do povo, palestinianos, e Sakineh Astiani, claro. Todos diferentes e todos vítimas.

A crueldade humana é só uma.



Parece que este anúncio não passou na televisão portuguesa. E quase que apostava que também não passou na iraniana.

Obrigado a quem o fez.

terça-feira, agosto 31, 2010

quarta-feira, agosto 18, 2010

Cheira a esturro...

- Foi Você quem pediu um Portugal bem passado?

terça-feira, agosto 10, 2010

segunda-feira, agosto 09, 2010

domingo, agosto 01, 2010

Festa Brava & Companhia

Homenagem à Catalunha
"Ai daquele por quem o escândalo vem!"
Lucas, XVII, 1
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A dor é um escândalo, o escândalo dos escândalos!
Lembram-se do que disse Cristo quando O crucificaram?
«Pai, Pai, porque me abandonaste», não foi?
Que terá Ele dito, horas depois, quando esteve cara a cara com o próprio Pai?
«Pai, perdoo-te»?
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Que dirá um toiro, à chegada ao céu?
«Meu Senhor e meu Deus, perdoo-te»?
Ou não perdoará nunca, num rancor eterno?
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Os apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João legaram-nos muitos dos episódios da vida de Cristo: a mulher adúltera a quem aquele que nunca tivesse pecado atiraria a primeira pedra... Sorte a dela, eram honestos os judeus que não se acharam assim tão impolutos. Se fossem os nossos governantes, pobre mulher!
Narraram também o milagre das bodas de Caná, a água transformada em vinho... não que os mixordeiros aqui da zona não fossem capazes do mesmo: tonéis e tonéis de água, palha, um pouco de açúcar, e pronto: chamava-se vinho a martelo. Vendia-se à tropa, claro, que os magalas bebiam tudo, e às tabernas, os bêbados do costume, preciso era que tivesse álcool.
Nós também o bebíamos, em casotas de fado, ao jarro, um líquido azurrapado, que o dinheiro não chegava para mais. Se desse ressaca, pronto, era como diria o António Variações, é p'rámanhã, deixa lá, não penses já!
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Mas nada de perdermos o fio à meada: há o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes - e já que estamos a falar de peixes - há também a pesca milagrosa e o caminhar sobre as águas do lago Tiberíades, e há o Lázaro ressuscitado...
Esqueceram-se os Evangelistas de mostrar o que Cristo pensava dos nossos irmãos mais simples. Claro que havia o jumentinho em que Cristo fez a entrada em Jerusalém, havia o burrinho e a vaca que assistiram ao seu nascimento, mas apenas como humildes figurantes. Foi preciso esperar por São Francisco de Assis, pelo hino ao irmão Sol, pelo irmão Lobo.
É claro que o Lobo também caça. E também mata.
É claro que o gato é cruel, brinca com o rato enquanto a fome não aperta. E a leoa, com as garras a rasgar os quartos traseiros do boi cavalo pode também parecer cruel. Mas, nem o gato, nem a leoa têm opção. O que tem de ser, tem muita força.
E não acarreta culpa.
Ou sim?
De quem?
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Culpa de um Criador que fez um Mundo para a dor?
Há muito quem não perdoe a Deus por a ter inventado.
É útil, sem dúvida, quando ensina que o fogo queima, que nos entrou uma pedra para o sapato, que cairmos de um ramo mais alto da árvore aleija.
Mas, para lá desta finalidade, digamos, pedagógica, também há a dor inútil: a dor de uma criança com uma doença terminal, por exemplo. Ou a dor que enlouquece, quando se nos parte um dente. Por isso inventámos os analgésicos. Por isso inventámos os cuidados paliativos. Por isso inventámos as anestesias.
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O século XIX foi crucial em muitos aspectos.
Foi quando se aboliu a escravatura, lembram-se?
Foi quando se aboliu a prisão por dívidas, lembram-se?
Foi quando as crianças foram olhadas como seres com identidade própria, com direito a crescer, a educar-se.
Foi quando nasceu Maria Montessori.
Foi quando Anna Sewell publicou Black Beauty, a autobiografia de um Cavalo, traduzida do original equino...
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Os toiros não.
Nenhum best seller se lhes refere senão do ponto de vista da festa brava. Hemmingway, The sun also rises e Death in the afternoon, claro, mas pior ainda: Bataille e Histoire de l'oeil. Se ao primeiro é a luta de morte, a guerra, enfim, o que o fascina, e sobre isso escreverá até ao fim dos seus dias, Bataille o que vê na morte do toiro é a identidade do prazer e da dor. Eros e thanatos, de braço dado no meio do redondel.
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Quando alguém fala dos toiros, daqueles animais pretos, de olhar calmo quando andam pelas lezírias, o palavreado que jorra imediatamente é do mais curioso: começa pela festa que é bravura, valentia, pundunor; é nobreza, é orgulho, é coragem; e é emoção, é arte...
E, quase sempre, é tradição, é patriotismo, os nossos reis também foram toureiros. E fadistas, quando calha.
E depois, as cores quentes: a festa brava é vermelha e amarela, cores do verão, do calor, os trajes são de luces, as mulheres são belas e vestem cores garridas. Os cavalos, que dantes eram esventrados na arena, oferecidos à fúria do toiro em pontas, sangravam, cobriam-se também do vermelho, como sangram às vezes os cavalos de lide, montados por cavaleiros com aguçadas esporas. E como sangram os forcados quando colhidos.
Mas o sangue sacrificial, aquele que é feito jorrar sob o ferro do picador, sob as bandarilhas, o estoque e a choupa, o sangue que faz subir ao rubro toda a praça, esse é o do toiro.
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Dizem-me que as vacas, quando as separam dos vitelos, quando as arrastam para o matadouro, choram.
Não sei se os toiros na arena o fazem. Não sabemos se, lá do fundo do seu cérebro de bovinos, não estarão a perguntar:
«Pai, pai, porque me abandonaste?»
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O Parlamento da Catalunha, na sequência de uma petição com muitos milhares de assinaturas, decidiu por maioria, como fazem todos os parlamentos, proibir as toiradas. Não os encierros, as largadas, ou pamplonas como por aqui lhes chamamos.
Apenas o costume de espetar ferros num animal sem outra defesa, com barbelas para não caírem e para continuarem a sangrá-lo. Apenas o costume de lhe espetar um estoque para que uma multidão entusiasta grite «olé!»
Honra seja ao Parlamento catalão.
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Fernando Savater, um indivíduo que é dito ser «filósofo e escritor», e que mereceu alguma notoriedade pelo seu livrinho Ética para Amador (1991; Amador era o nome do seu filho, jóvem na altura), publicou no El País uma crónica intitulada "Vuelve el Santo Ofício".
Entre outras coisas curiosas, escreve:
"Se deixarmos de lado essa sandice de que o aficionado desfruta com a crueldade e o sofrimento que vê na praça: se o que quisesse fosse ver sofrer, bastar-lhe-ia passear-se pelo matadouro municipal..."
Para ele, pois, o aficcionado não é um sádico, é um esteta; o matadouro é feio. O sofrimento dos animais que são abatidos não tem o charme de uma grande encenação, é inestético. E aqui se situa o cerne desta polémica: o animal de lide, é para ser lidado - o que é uma tautologia, ou melhor ainda: é definir pelo definido - as considerações éticas aqui não têm cabimento.
A ética trata das relações com os nossos semelhantes e não com a Natureza. São Francisco estava errado, os ecologistas estão errados.
Eu estou errado.
Que bom ter um Fernando Savater para me ensinar estas coisas.
Ainda bem que, finalmente, compreendemos que os matadouros - que não são visita aconselhável às crianças - e as praças de touros - que tabém não, supomos nós - têm igual estatuto ético.
Que mais dizer?


sexta-feira, julho 30, 2010

Adieu l'Antoine, je t'aimais bien, tu sais...

Não cheguei verdadeiramente a conhecê-lo. Trocámos um ou dois apertos de mão, meia dúzia de palavras, se tanto.
Ele era muito novinho, já de outra geração. Eu não dava por isso, mas estava a caminho de ser apenas mais um cota, como tantos outros.
Raymond Chandler escreveu num dos seus romances que partir é morrer um pouco, mas que ficar é morrer muito mais.
Agora que o António Feio partiu, por curioso que pareça, sinto como se tivesse perdido um irmão mais novo. Como se tivesse morrido, também eu, muito mais.
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domingo, julho 25, 2010

Subsídios para o livro de Aka XXIV

Quando ouviu gritar "Jaqui", Aka não se voltou logo, apesar da onda de frescura,
como alguém que, de noite, numa rua mal iluminada, sentisse de súbito o cheiro do pão quente.
Com mais de mil nomes,
ninguém se devia espantar se Aka não se reconhecesse em todos.
Mas espantavam-se.
Espantavam-se que detestasse os mais vulgares,
aqueles em que as pessoas vulgares na sua vida teimavam,
como se ela fosse pertença de meras palavras,
a private joke de cada vulgaridade.
Algumas vezes, Aka reconhecia-se imediatamente.
Jaqui era o nome que lhe dava a doutora Wali,
a mãe velha que montara o pequenino hospital de mulheres onde a Aia a levara muitas vezes em criança.
"Não, Jaqui", dissera a médica: "Não és tu quem tem as alergias.
O mundo é que é alérgico a ti e não quer deixar-se tratar.
Vem ver-me só quando te apetecer uma coca-cola, combinado?"
Jaqui foi muitas vezes beber uma coca-cola com a doutora Wali
até que ela desapareceu,
levada por um projecto mais urgente,
uma dor do mundo mais aguda,
uma fractura,
uma ferida mais infectada.
Aka ficou a olhar as duas mulheres que se abraçavam,
a Jaqui era uma mulher alta, de meia idade,
a amiga era preta e muito bonita,
muito diferentes de Aka ou da doutora Wali,
mas, por um momento, sem se darem conta disso, espalharam uma pequenina onda de bem-estar por toda a rua.
O mundo, que é alérgico à felicidade, trouxe logo uma ambulância,
apertou-a no trânsito, deixou-a muito tempo a gritar a sua urgência.
Aka entrou na loja dos animais para comprar um peixinho encarnado.

segunda-feira, julho 19, 2010

Cêpêéle... o quê?


- Não, não!
Tenho muito pena,
mas receio que a minha pátria não seja a língua portuguesa...

segunda-feira, julho 12, 2010

Pata de Coelho

Uma das tradições na minha família, daquelas de que só se fala com um sorriso, é a da pata de coelho: quem anda à procura de casa, quem quer fechar um negócio que tenha a ver com um futuro lar, vai à procura da patinha do coelho, mete-a no bolso, ou na pasta e só a arruma de novo quando o negócio estiver concluído.
Lá em casa havia uma.
Mumificada, sequinha, mas ainda com todo o pelo cinzento, costumava estar embrulhada num papel pardo, ao canto de uma caixa de madeira, no guarda-fato da Avó.
Essa caixa, para aí de uns cinquenta centímetros e uma mão travessa de fundo, era uma autêntica arca do tesouro: lá estava uma raspadeira de cabo de marfim e muita ferrugem, o lacre e o sinete do meu Avô falecido em 1913, várias latas e latinhas, umas com moedas do tempo da Monarquia, outras com santinhos, um molho de cartas atado com uma fita azul,um canivete oferta de um Vinho do Porto, uma mãozinha de cabo comprido para coçar as costas, os primeiros dentinhos de leite de cada um dos netos dentro de outra caixa, postais ilustrados, uns já escritos, com selos exóticos, outros com vistas do Canal de Suez - que, por serem de uma colecção, ninguém usava.
Não me lembro de quem herdou essa caixinha das surpresas. Na volta, fui eu, mas não sei onde pára. Nem a caixa, e pior, nem a dita patinha de coelho.
E se ela está a fazer falta!
Alguém da nossa família, não se alumia os nomes aos santos, anda metido em tranzes desses e, portanto, muito carecido de um amuleto apropriado.
Por esse motivo e não por outros, aqui lhe mando, desenhada a patinha, que em pessoa não ia pelos fios mesmo que conseguisse achá-la.
É claro, não pensem que eu ia fazer o mesmo pecado que fez o Frei Genebro. Lembram-se?
«E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor,» escreve o Eça, «agarrou o afiado podão que pousava sobre o muro da horta [...] E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um bacorinho desgarrado que foçava bolota, desabou sobre ele, e, enquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou com dois golpes certeiros do podão, a perna por onde o agarrara.»
(Eça de Queiroz, Contos, «Frei Genebro», Lello & Irmão, Vol. 1, p. 770)
Por isso, a dita pata aqui vai, junta com o coelhinho, inteiro e vivinho da Silva.
E quatro patinhas não valem mais do que uma só?

quarta-feira, julho 07, 2010

Vai-te a eles, pá!

Citroën ASK400, lembram-se?
(Desenho do Franquin, com a devida vénia)
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Não tenho o prazer de conhecer o fotógrafo Paulo Nazolino.
Mas sei que se recusou a apresentar documentos comprovativos de que era bom cidadão, pagador dos seus impostos e isso. E pronto: não recebeu o prémio.
«Comprovativos?» terá ele pensado.
«Bom cidadão?»
Até podia não ser.
Que é que isso tem a ver com o facto de ser um artista? O prémio não era para o cidadão, pois não?
Era como se, por exemplo, o Mickael Schumacher não pudesse subir ao pódio, no fim de uma corrida pelo simples facto de ter uma multa de trânsito por pagar em Tombuctu.
Portanto, olha, que se lixe o prémio da AICA e mais do Ministério da Cultura.
Eram para ser 10.000 euros, mas, sabem como é: não há excepções.
Toda a gente paga para receber.
E 10% de imposto sempre são mil euritos, fazem muito jeito aos cofres do Estado. O dinheiro dos pobrezinhos é pouco, mas quem o perde é louco, não é? Perguntem à banca, a ver se não é.
E é bem verdade que 9.000 euros, nos tempos que correm, são só 9.000 euros.
Dá para comprar o quê?
Uma boa máquina fotográfica?
Daquelas verdadeiramente boas?
Se calhar não chegava.
Talvez desse para comprar um 2CV.
Sem vidros eléctricos, nem abertura automática da capota, nem ar condicionado.
Queres vento na cara? Abre a janela. Se lá fora ainda estiver mais quente do que cá dentro, encosta ali a uma sombra e faz uma sesta.
A Citroën, que a alma lhes apodreça de vergonha, já não faz o 2CV, nem a ASK400.
Para quê, então, aceitar a humilhação que lhe queriam impor?
O Paulo Nozolino não se curvou, não foi obediente, não foi poupadinho.
Que se lixem todos, mais os prémios, mais os subsídios, mais as bolsas, terá ele dito. Dêem-nos aos vossos boys, está bem?
Grande Nosolino!
Força, man! Vai-te a eles, pá.
Assim é que é.

sexta-feira, julho 02, 2010

A volta do Concha Y Toro












"Sabe, no fundo
eu sou um sentimental .

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da síflis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar,

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora."


Fado Tropical, Chico Buarque, Rui Guerra

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Querem saber?
Ando por aí, de supermercado em supermercado, de prateleira em prateleira, à procura.
Eu juro que já a vi, num daqueles dias em que devíamos bater em nós mesmos, de tão burros que estamos. Porque é que não a trouxe logo?
Era fim de mês, se calhar, o dinheiro já se fazia escasso?
Mesmo assim. Foi imperdoável.
Chamava-se Concha y Toro, Casillero del Diablo, era uma garrafa igualzinha, excepto na data, claro, a uma outra, de saudosa memória, trazida do Chile e que guardávamos para celebrar o derrube do general Augusto Pinochet.
Não chegámos a bebê-la: morreram ambos, o vinho, inocente, na sua garrafa, cansado de esperar, o Pinochas na cama, os pecados perdoados, quem sabe, por algum desses padres anti-operários, anti-comunistas, por causa de quem, ao cheiro dessa canela, Cristo se despovoa.
Mas se o Pinochas era um reles ditador, era também o símbolo de todas as reles ditaduras sul-americanas.
Culpa de Neruda? De Isabel Allende? De Spúlveda?
A Argentina e o Brasil tiveram, certamente, os seus escritores. Não terão alcançado a notoriedade, as suas denúncias ficaram, talvez, abafadas por livros como o De amor e de sombra.
Ou fomos nós que nos deixámos ofuscar.
Quase nos esquecíamos dos Videla, dos Castello Branco.
E mais.
Não passavam, todos eles, na sua empáfia condecorada, de testas de ferro, marionettes nos palcos da sul-américa. Mas de tal modo concitavam o ódio, quase nos faziam esquecer o Henry Kissinger, as secretarias de estado, os Nixon e os Ford.
Não chegámos a beber a Concha y Toro primeira.
Mas agora que o Videla, já condenado a prisão perpétua, indultado e novamente preso em prisão domiciliária, agora que vai novamente a julgamento, meu Deus!
Desta vez, não escapa. Quero uma Concha y Toro segunda para celebrar, pronto!
E, talvez não devesse dizê-lo, mas sei aí de um Porto, quase com cem anos.
Adivinhem quando é que a gente o vai beber.

Sem legenda

sábado, junho 19, 2010

Non omnis moriar

- Bem-vindo, José!
Adenda:
(alguns dias depois)
Andando longe do Portugal, caramba!, noutros e muito urgentes trabalhos, deparei com uma observação de Wittgenstein que talvez não seja disparatado citar aqui:
"Hoje em dia, os homens acreditam que os sábios existem para os ensinar, os poetas, os músicos, etc., para os divertir. Que estes últimos tenham alguma coisa para lhes ensinar, isso não lhes acode ao espírito."
L Wittgenstein, Vermuchte Bemerkungen (Reparos Misturados, talvez) 1939-1940