terça-feira, abril 27, 2010

Tema para a meditação de hoje: Ricardo Sá Fernandes

Sabem?
Estamos em crer que ele não precisa do nosso apoio para nada.
Mas, para nós, aqui no Portugal, Caramba!, é muito importante dizer que ele o tem.
Nem que mais não seja,
para que um dia possamos olhar-nos no espelho e dizer,
com uma pontinha de vaidade:
nós estivemos lá.

segunda-feira, abril 26, 2010

Anjo papudo, com asas e tudo

Claro, por uma intenção particular, uma vez mais.

domingo, abril 18, 2010

Por falar em fumo...

- E pensar que não me deixam fumar o meu cachimbo em parte nenhuma...

quarta-feira, abril 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Não perguntes o que a iniciativa privada pode fazer por ti.
Pergunta antes o que podes tu fazer pela iniciativa privada!
-
Ouviste, ó palerma?

sábado, abril 03, 2010

Sem título

- Meu Deus, vai recomeçar...

sexta-feira, abril 02, 2010

Tema para a meditação de hoje





Os jornais estão cheios com a foto de uma jovem de dezassete anos que já era viúva quando faleceu, juntamente com as suas vítimas, no metro de Moscovo.
Tinham-lhe morto o marido, provavelmente com todas as razões do mundo, carimbo e benção oficial e não serei eu, ignorante como sou, quem atirará pedras ao executor.
Mas não posso deixar de pensar em Romeu e Julieta, no desesperado e violento amor dos treze anos, dos catorze, quinze, dos teenagers. Quem transformou Dzhennet Abdurakhamanova numa viúva negra, estava, receio eu, como sempre, a criar alguém capaz de quase tudo. Por amor, por ódio, por desespero.
Provavelmente ninguém o confessará:
Fosse Dzhennet feia, velha e com bigode, bah! Mais um terrorista, daqueles que se abatem sem dó nem piedade quando está na mira de uma pistola, de um helicanhão.
Mas ela era apenas uma menina, das que, no nosso país andam ainda no secundário; e era bonita. Faz-nos pensar na inocência, não faz?
Faz-nos pensar que Julieta, ao contrário do que é costume pensar-se, é uma ideia feita, não morreu de amor: morreu vítima de uma forma de bulliyng que aos jovens de Verona era permitida. Quem se não lembra, releia a cena do duelo entre Marcutio e Tybald e preste a atenção à insolência deste, à fanfarronice de todos, ao clima de violência instalado.
Mas a violência não se ficou pelas peças de Shakespere, não era só a de Verona.
Houve um brasileiro em Londres, lembram-se?
Foi abatido, assim, pás!
Azar! Era engano.
Houve protestos, claro, indemnizações e por aí fora. O atirador foi admoestado, certamente, são sempre.
Nós, neste cantinho da Europa, não podíamos ficar atrás. Também somos gente, não somos?
Há dias, um rapper que, se calhar, ia distraído a falar ao telemóvel, que talvez tivesse bebido um copo a mais, ou que, pura e simplesmente ia noutra, foi abatido pelas forças de segurança. Não ia, tanto quanto se soube, a fazer mal nenhum. Acontece que não parou quando lhe mandaram.
A autoridade perdoa tudo - sobretudo se houver uma pequena lembrança - menos a desobediência. É o que enfurece mais o bully: é que alguém lhe resista, que se esteja nas tintas para ele, que não lhe obedeça instantânea e submissamente. Multa. Bate. Dispara. O guarda, o que disparou - vai uma apostinha? - vai ser admoestado também.
É como as crianças que torturaram e afogaram uma pobre mulher doente, lá para as bandas do Porto. Foram admoestadas pelo sr. Dr. Juíz, se calhou, pelo sr. Padre Maia também, ia jurar, por toda a gente responsável.
E é como aquelas crianças que mandaram o Leandro Filipe para o hospital. E as que agora o empurraram para o Tua, mesmo se não foram elas, não, não! Ou prontos, foram, mas foi sem maldade, era só de brincadeira. Vão ser admoestados, podem ter a certeza!
E vão todos ter apoio psicológico porque estão muitíssimo transtornados.
As vítimas, essas morreram, como o jovem rapper, como o brasileiro de Londres, como a Gisberta.
Uma por outra recebeu, muitos anos depois, uma indemnizaçãozeca regateada que nem a símbolo chega. Foi o caso de uma rapariguita que só queria frequentar a universidade e se declarou anti-praxe, mas, hélas, foi torturada, violentada, humilhada.
Outros ainda, suicidaram-se.
É tão simples quanto isto: não quero este mundo, não quero esta gente, não quero! Vou-me embora!
A forma que escolhem para se despedirem é que faz a sua diferença.
Já aqui o disse: o Leandro Filipe era bom menino. Terá voltado a violência contra si próprio.
Dzhennet, de cultura muçulmana, escolheu ser bombista suicida.
Se fosse norte-americana, cristã de cultura, democrata e ocidental, teria escolhido entrincheirar-se numa torre da sua faculdade e disparar a esmo.
É uma vingança cega, injusta, mas é o único heroísmo julgado possível num mundo em que o poder se serve, ele próprio, dos bully, quer se chamem Bush, Blair, Aznar ou Barroso, para enforcar outros bully que se tornaram incómodos.
Um poder que precisa de guardas republicanos, de seguranças, de carcereiros para as abu garibes e as guantanamos que são a sua forma de domínio e, claro, não pode deixar de lhes tolerar os desmandos, os excessos, os erros.
O poder é assim mesmo: as forças armadas americanas, inglesas, russas, que sei eu, julgaram-se no direito de atacar, brutalizar, gritar, impôr.
As vítimas, às vezes, escolhem vingar-se.
Uma delas, por exemplo, chamava-se Dzhennet.
Tinha dezassete anos e fez mais vítimas que talvez tenham dezassete anos e que um dia farão - quem sabe? - mais vítimas...
Ninguém foi muito feliz e tiveram muitos filhos que foram devorados pela aviação inimiga.


segunda-feira, março 29, 2010

«Basta-me viver»?


Carlos Vale Ferraz,
Basta-me viver,
Edição da Casa das Letras,
Março de 2010, Alfragide







-
É aborrecido, mas estou a ficar sem autores favoritos.
Sabem como é: aqueles que, descoberto um livro, nós partimos imediatamente em duas opostas direcções: uma para o passado, é espantoso, ela (ou ele, claro) já tinha publicado tudo isto e eu nem o vi?
Ou vi, mas não liguei nenhuma?
Momento óptimo para uma fúria consumista e zás!
De repente ficamos com leitura para umas semanas.
Aconteceu-me com o Mário de Carvalho, por exemplo, creio já ter falado nisso algures. E com o Paulo Castilho e com o João Aguiar.
E claro, depois de lido o passado, ficamos à espera do futuro - que, diga-se, ao contrário dos actos dos ministros e das más notícias em geral, leva muito tempo a chegar.
Os autores, por motivos lá deles, parecem ter arrumado a caneta, e só pegam no computador para jogar free cell.
Eu, cansado de esperar, no meio da livraria, grito indignado:
- Mas o que é eles andam a fazer, caramba?
-
Carlos Vale Ferraz não pertencia a este grupo. Lido o Nó Cego, não me precipitei à procura de outras obras. Erro meu, quem sabe?
Há uns dias, porém, enquanto esperava por uma amiga e a fazer horas numa livraria, dei com Basta-me viver. A contra-capa parecia feita de propósito para pôr a milhas o mais pintado: "Uma história de amor absoluto de duas mães pelos seus filhos, dos sacrifícios em nome do amor e das contradições do dever."
Não conhecesse eu o nome do autor e julgaria que estávamos perante uma reedição de Corín Tellado.
Seria publicidade negativa? Se era, funcionou, porque eu trouxe o livro.
-
Afinal, era dos que se lêem de um fôlego quase até ao fim. E sublinho o «quase» dado que, infelizmente, o interesse foi morrendo à medida que José Maria Gonzaga Torres, narrador e personagem fulcral vai assumindo maior protagonismo.
A técnica narrativa não é inédita, mas é extremamente eficiente e isso é o mínimo que se pode dizer da escrita de Vale Ferraz que é límpida, sem rodriguinhos.
Como num inquérito policial, ou como numa investigação jornalística, o jovem José Maria, filho de um oficial miliciano, piloto de helicópteros do exército colonial e de Ana Paula, uma jovem pertencente ao clã dos Gonzaga, uma poderosa família crioula de Luanda, vai recolhendo os pedaços da sua própria história em conversas com os seus perdidos familiares, através do depoimento de próximos: a madrinha, uma freira que deu abrigo à sua mãe, o tio guerreiro das muitas guerras angolanas, a Avó paterna, um General Gaeiras comandante do Avô Torres na Legião Portuguesa, etc.
Lemos assim, com grande interesse, muita coisa sobre os últimos anos da ocupação portuguesa, sobre o papel da Pide nas colónias e sobre a vida numa base de guerrilheiros, sobre o próprio 25 de Abril, sobre o período da independência de Angola e a guerra pela sobrevivência do MPLA.
Nada de melhor para nós, portugueses que temos teimado em ignorar as derrotas militar e económica, o fracasso do colonialismo, a mais absoluta ausência de projecto nacional.
Vale Ferraz é um escritor informado e transmite-nos os factos com mestria e a leveza própria de um romance que nunca se assume como histórico, mas que, de facto, o é.
Infelizmente, à medida que José Maria, "o neto que", parafraseando o autor, "nenhuma das pátrias quis ter" começa a narrar a sua própria história, a partir do momento em que deixa Angola, percebemos que ele pertence a outra metáfora e que não se encaixa nas outras todas.
Macau, as tríades, o jogo, os últimos anos da administração portuguesa, serão temas fascinantes, mas, a nosso ver, como simples leitores, estão a mais neste romance.
Acreditamos que fosse essa a intenção do autor: esse filho de culturas tão diversas, gerado e parido na guerra, só pode tornar-se num exilado, batoteiro profissional - com um toque de realismo mágico aqui e alí, a nosso ver perfeitamente dispensável - ao serviço de uma tríade. Ponto. Assim termina a saga colonial dos portugueses.
É. Mas José Maria também tem sangue angolano. Não era esse o futuro que eu lhe auguraria.
No mais, e Vale Ferraz que me perdoe, o romance perde-se.
Deveria ser uma narrativa do amor cego de duas mães aos seus dois filhos e é uma narrativa da traição das mães:
Fernanda Torres, a avó paterna do jovem José Maria, trai o marido, o salazarista Augusto Torres, com o melhor amigo do filho falecido, ainda por cima.
A avó Gertrudes, do lado materno, essa trai a filha e trai o neto.
A própria Ana Paula, a mãe, trai o seu clã, trai os seus pais ao deitar-se com o inimigo e trai-os de novo quando se nega a assumir o seu lugar na complexa organização dos Gonzaga.
E o grande fio condutor do romance, no nosso demasiado ousado entender, é a traição da Pátria, de todas as pátrias, como já era em Nó Cego.
Ou talvez melhor, neste caso: de todas as mátrias.
-
Li o Nó cego na 4ª. edição, profundamente revista. Tenho pena de não ter conseguido arranjar um exemplar da primeira versão do romance. Por isso, limito-me a citar o que escreve Rui Azevedo Teixeira no prefácio:
"... As mudanças efectuadas tornam visíveis aspectos pertinentes da matéria negra do universo do romance. Assim, o reforço informativo, que nunca chega à cansativa minúcia que mata tantos romances históricos, ou os cortes, acrescentos, trocas e ajustes diversos ou, ainda, por exemplo, a demão dada ao episódio da Ilha de Moçambique, em nada retiram o vigor de Nó Cego. Pelo contrário, com as alterações introduzidas pelo autor, o livro ganhou ainda mais consistência sem ter perdido a frescura, o tom ou uma qualquer fatia essencial da história."
Como O crime do Padre Amaro, nas suas sucessivas edições.
Por isso, muito embora Basta-me Viver não tenha sido, de modo algum, uma desilusão, confesso que vou esperar por uma quarta edição e voltar a comprá-lo.

sexta-feira, março 26, 2010

sexta-feira, março 19, 2010

Qual Celecanto?

Se um ecozine acorda muita gente,
dois ecozines acordam muito mais!
Se dois ecozines...
-Foi ontem e havia mesmo uma baleia no Museu de História Natural, suspensa no ar, como quem nada displicentemente, a olhar por nós.
Estava lá muita gente.
O Celacanto, com os seus oitenta e tal colaboradores, já não é só um ecozine.
Começa a ser também um movimento.
Podem saber mais coisas no site da Qual Albatroz; porque é que não dão uma espreitadinha?

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Celacanto nº. 2

Se nunca esteve debaixo da barriga de uma baleia, aqui tem a sua oportunidade.
No dia 18 de Março, uma quinta feira, a Qual albatroz lança o nº. 2 do ecozine Celacanto.
O primeiro número foi sobre o albatrós - o patrono da editora.
Este agora vai ser sobre o lobo.

Vale bem a pena dar um saltinho à rua da Escola Politécnica 58, em Lisboa (1), passear uns minutos pelo Jardim Botânico e, às 18 horas dirigir-se ao Museu de História Natural. Só falta encontrar a dita baleia. Não nos parece que seja muito difícil.
Encontramo-nos lá.
-
(1) O Rui Rio tem razão: Lisboa açambarca tudo o que é importante.

segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
-
Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
-
A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
-
Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

quinta-feira, março 04, 2010

Ir à escola mata!

Tinha doze anos, mais mês menos mês e foi vítima de um fenómeno que agora se descobriu. Até já tem nome em inglês, é uma coisa séria, subiu à categoria dos maremotos que são tsunamis e tremores de terra. Chama-se bullying.
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O meu dicionário começa por explicar que o «bully» é o «hired ruffian, blusterer, browbeater», ou seja: o rufião encartado, o vociferador, o ameaçador.
Também se aplica, em Eton, ao que parece, àquelas molhadas que se formam no rugby a que se chama também a mêlée e em que o desgraçado que sai lá de baixo, ou tem o caparro de um lutador de wrestling ou sai feito num oito.
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O bully, portanto, é um atormentador. Mais: regra geral não age sozinho. Exibe-se para o seu grupo e, em caso de resistência do atormentado, não hesita em socorrer-se da ajuda dos outros todos. A mêlée, nem que mais não seja pelo número, raramente perde.
Se a memória me não falha, está aqui tudo o que falta para fazer delinquentes juvenis.
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Claro, se assaltarem uma loja, se roubarem carros, chama-se a polícia, exigem-se medidas: atentou contra o património. É grave.
O cidadão comum indigna-se, exclama que «só neste país!», pergunta o que faz a polícia.
Os ministros anunciarão reforços às forças da ordem, o policiamento de proximidade, o bacalhau a pataco e que a semana vai ter nove dias.
Um ou outro desses jovens delinquentes será detido com grande estardalhaço e confiado mais ou menos em segredo á guarda dos mesmos tutores que não souberam socializá-lo.
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Se o mesmo jovem se dedicar a tiranizar os mais novos, os mais pequenos, se lhes roubar o lanche, as canetas, os trocos, se com grande valentia distribuir porrada, se rasgar os livros de estudo, se insultar e bater, tudo bem, ninguém sabe, toda a gente estava a olhar para outro lado.
Os mais pequenos sofrem, mas não dizem nada, porque é o medo que guarda a vinha. Os pais não sabem porque os filhos não falam. Os professores não têm meios e os conselhos directivos garantem que na escola não foi.
-
Mas foi.
Não interessa se foi para lá do virar das esquinas, longe da vista e longe do coração, que a agressão se concretizou: foi na escola que se estabeleceram os domínios, se designaram as vítimas, se iniciaram as perseguições: primeiro com os risinhos, o desdém, logo o insulto, o empurrão, o pequeno roubo "a brincar", o estojo dos lápis atirado para longe, a mochila escondida.
Se as coisas forem mais longe, mais longe serão: fora da escola, longe das testemunhas.
-
Mas, como é um fenómeno, pronto, então está tudo bem. É como os ritos de iniciação, um homem não é homem se não partir sete vezes a cabeça, se não pegar um garraio de caras, se não for à tropa.
Os jornais escrevem em grandes títulos que um "estudo académico conclui que 13,5% dos estudantes do secundário são alvo de agressões sistemáticas". 13,5 é um número significativo: é como dizer-se que uma fatia importante dos adolescentes perdem a virgindade antes dos quinze anos, ou que a incidência das borbulhas faz parte do crescimento. O Dito bullying também.
Até há estudos académicos. A honra está salva.
Os reitores das universidades, quando recebem estes jovens delinquentes, já podem aceitar a existência de rituais de iniciação, de praxes violentas, do que for.
Se alguém faz perguntas, todos negam:
Que está garantido o direito a declarar-se contra a praxe, dizem.
Que sempre foi assim e que não tem havido queixas.
Não, não tem havido queixas.
-
Uma vez por outra morre um Leandro Filipe.
- Não pode ser! - gritam-nos logo. - As nossas instituições são perfeitas. Foi um azar! A culpa foi dele de certeza.
Talvez, talvez tenha sido. E minha, também.

domingo, fevereiro 28, 2010

Tema para a meditação de hoje

Lao-tsé disse que quem muito escolhe nunca acerta. Mas acrescentou que aquele a quem só é dado escolher o já escolhido, também não.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Tema para a meditação de hoje

Duas coisas, neste penoso momento, vos devem consolar, Irmãos, se meditardes nelas.
A Primeira é que é que já ninguém pensa em vender os bens da nossa Santa Igreja para pagar a crise, tão pequenos são uns e tão grande é a outra.
E a segunda é ainda mais importante, vede bem e pensai nisso quando fordes votar: é que desta vez, meus Irmãos, desta vez, Deus está inocente.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Maria de Lurdes Pintasilgo


















Chamava-se Maria de Lurdes e teria feito os oitenta anos no dia dezoito do passado mês de Janeiro.
Mas não resistiu tanto.
O Mundo, quando não os consegue quebrar, mata-os, escreveu Hemmingway, e Maria de Lurdes faleceu num dia de Camões, no dia 10 de Junho de 2004.
Tinha sido primeira ministra de Portugal durante uns cem dias. Depois correram com ela para o Parlamento Europeu, para a Unesco, para muito longe.
Não admiro muita gente, o defeito é meu, eu sei, e os políticos ainda menos. Mas esta Senhora fazia parte das excepções.
Não acreditávamos nas mesmas coisas, é claro, mas ambos tínhamos fé na Palavra. «A Palavra age», disse ela durante a campanha presidencial de 1986.
Nunca soube se esta «palavra» a que ela se referia era o Verbo bíblico, aquele de que fala S. João quando diz ao princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus... ou se era o logos dos gregos, razão do que existe, o princípio ordenador de Heraclito ou dos estóicos.
Nunca tive a oportunidade de lhe perguntar, nem sequer era importante. O que importava, isso sim, é que, quando ela falava, todos percebíamos que não era a palavra com que se escreve o Diário da República
Tenho saudades das pessoas como ela.
Ainda não sei, mas para o ano, em calhando, voto no Manuel João Vieira.

sábado, fevereiro 20, 2010

Desempanadora Ruço, Ldª.

Já toda a gente ouviu falar na depressão de Inverno: o frio, os dias cinzentos ou, pior, chuvosos, tudo isso contribui para uma quietude melancólica, para uma vaga tristeza que bloqueia criatividades e sentido crítico.
Depois, tudo se acumula, livros que demoram a ser lidos, cartas que têm de ser escritas, jornais intactos que vamos empilhando porque um dia havemos de ver aquele artigo muito importante, aquele peça de teatro que era imprescindível e que deixámos sair de cena...
Pois bem: connosco, aqui no Portugal, Caramba! não foi nada disso.
Uma pequena avaria, como pode acontecer mesmo aos melhores, quanto mais a nós; mas já chamámos o pronto-socorro.
Não sabemos quando chegará, mas que vem a caminho, isso vem.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Run rabbit, run!

Run rabbit - Run rabbit - Run! Run! Run!
Don't give the farmer his fun! Fun! Fun!

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Sem título

Já repararam?
Não há autorzeco nenhum, por mais de meia tijela que seja, que, nos seus momentos, não nos venha falar da ângústia do papel em branco, essa folha virgem que resiste, que esmaga, que rejeita.
Tudo bem: que fiquem com os seus papelinhos ansiogénicos.
Nós, aqui no Portugal, caramba! afirmamos de caras, veementemente, contra tudo e contra todos, que isso não se aproxima nem ao longe de uma outra, mais aflitiva, mais torturante: a angústia do blog em branco.
Acreditem: nós sabemos do que estamos a falar.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Dados empíricos



- Diz, Titi: tu não tens pipi.
- Disparate, João.
Toda a gente tem.
A Tia também.
- Não tens, não.
No outro dia,
na pia,
estavas a fazer xixi,
eu espreitei
e não vi.


João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Obediênciazinha, pois então! (II)






Todos os dias, logo pela manhã ou já a dobrar para a tarde, ou às horas que forem, repetimos os mesmos gestos, já viram?

Calçamos uma meia em cada pé, admitindo que ainda temos os dois da praxe; comemos umas tantas refeições, ouvimos as mensagens no telemóvel; compramos o jornal; ligamos a televisão, vemos os prós e os contras; amamos os prós quando são nossos, odiamos os contras quando são os outros. À socapa, fazemos zap e espreitamos um ou outro dos canais porno com que, gentilmente, a meo ou a zon mais próxima nos quiseram perverter.
Se nos perguntarmos, dizemos que é assim mesmo. Mas já fizemos as perguntas todas há tanto tempo e as respostas sempre imitaram as respostas, de que vale estar sempre a perguntar?
Lemos os mails, alguém nos mandou uma anedota sobre a ministra da educação; navegamos na net ao acaso.
Dormimos. Ao lado da esposa que já foi exaltante.
Sonhamos, mas não nos lembramos com quê.
Acordamos.
Repetimos.
Tomamos o café, tomamos o duche.
Calçamos meias lavadas. Convém.
Talvez outros sapatos.
Guiamos o carro. Não estamos sós, toda a gente vem connosco pela mesma estrada.
Trabalhamos.
Vamos beber um copo com o que chamarmos amigos. Falamos do mesmo que eles.
Esquecemo-nos de ler o jornal que trazia notícias do Haiti. Espreitamos outra vez o canal porno.
A boa esposa já dorme.
Se lermos umas páginas para adormecer também, há quem tenha hábitos desses, e se o livro que nos veio à mão tiver sido um qualquer Deleuse, poderemos tropeçar em conceitos como modulação, ou como ritornelo. E podemos começar a compreender que chegámos enfim, à sociedade de controlo. Os numerosos microchips dizem por que portagens passámos, que contas pagámos, a ADSE ou a Medis sabem que remédios tomamos os bancos sabem o que querem saber.
Mas depressa largamos esse livro: não haverá por aí algum Dan Brown, alguma Margarida Rebelo Pinto, algum imitador da receita de Flemming e do seu 007?
Sim, porque ai de nós se não formos bons imitadores: a receita para fazer um herói ou um bom cidadão existe, está sempre em actualização.
Lembram-se do Reinaldo Ferreira?
Agite-se um pendão.
Segue o teu chefe. O secretário-geral do teu partido. O teu colega com mais sucesso. Aqueles para quem as meninas mais bonitas sorriem.
Já nem são precisas as certezas irracionais. O senso comum basta.
Servem-nos mortos, claro.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Havai 2010, digo, Haiti 2010

- Se querem saber, parecia Deus a bater-nos com a porta na cara...
-
A primeira versão deste post está nos Urban Sketchers:
gosto mais dela, mas pronto, hoje calhou assim.

domingo, janeiro 10, 2010

Diários Gráficos, desenhos vários e por aí fora

A inauguração foi ontem, na galeria dos Paços do Concelho, em Torres Vedras, e foi bem simpática.
Seguiu-se o jantar, toda a gente desenhou, o polvo à lagareira foi muito elogiado, o vinho tinto deixou-se beber com galhardia e falou-se pelos cotovelos.
Quem quiser saber do que se irá seguir clique ali à direita, no blogue dos Urban Sketchers ou no Desenhador do Quotidiano.
Ficará a saber, em calhando, que no próximo sábado, aí pelas 15.00 horas, há-de haver um debate. Nós aqui no Portugal, caramba! estamos em crer que não vai haver debate nenhum porque estamos todos mais do que de acordo sobre as questões que mais importam. Mas há-de haver perguntas e respostas, muita conversa bem-humorada, troca de experiências e por aí fora.
E pronto. Vão até lá que logo vêem.

sábado, janeiro 09, 2010

Vida de Urso

Eu sei que há quem não acredite na metempsicose que é aquela coisa da transmigração das almas: morre-se e acabou-se. Nada de voltar a este ou outro mundo qualquer.
Tivemos a sorte de apanhar uma vida que andava por aí, vivêmo-la como podemos e pronto. Quando se tiver gasto, não há mais.
Mas isto são só os simplórios dos ateus.
Há quem acredite que a vida é um capital infinito, não se gasta nunca.
Passamos daqui para o Céu, se o tivermos merecido; direitinhos para o Inferno se tivermos sido como alguns que a gente vê na televisão, por exemplo. É a Vida Eterna.
Dantes, quando eu andei na catequese, havia mais alternativas, o Limbo para os pobres pretinhos a quem os missionários não tiveram tempo de baptizar e o Purgatório.
Este sim, é que foi uma invenção de génio.
Rendeu missas, capelas, heranças; era como que um banco, como que uma companhia de seguros: o defunto fazia umas doações, protegia uns pobrezinhos, amealhava para a eternidade. Quando morria tinha sempre, pelo menos, uns pecados veniais a pagar, quanto mais depressa os parentes amortizassem, mais depressa a alma, purgada das suas máculas, ia ver, finalmente, a face do Senhor.
Parece que já não é assim.
Não estou muito actualizado, mas creio que estes destinos foram eliminados do catecismo, como o apeadeiro aqui da minha terra: deitado ao desprezo pelos combóios que já deixaram há muito de por cá parar.
Nós no Portugal, caramba!, porém, acreditamos na reencarnação.
Morremos, passam-se uns tempos, achamos nós, dão-nos outro corpo novinho em folha - se for em segunda mão, olha, que se há-de fazer? - e mandam-nos de volta; para aqui ou para o outro lado da galáxia, onde houver vaga.
Mas quem sabe? Pode ser que nos perguntem o que queremos ser, como na história de Er que Platão narra na República. E então, se nos for dado escolher um destino, não queremos ser nem um Durão Barroso, nem um Belmiro de Azevedo, nem nada disso.
Queremos ser ursos.
Ursos! Nem mais.
Primeiro porque têm um casaco de peles, quentinho, de fazer inveja às senhoras mais Donas - e não tiveram de o ir arrancar a raposa nenhuma, pobres delas.
Depois, porque hibernam. Já viram, está a chover se Deus a dá, não precisam de sair de casa para ir ao emprego. Está um frio de congelar o bafo, não precisam de ir a compras: dormem mais um bocadinho.
Se os incomodam, grunhem. E ninguém acha que sejam malcriados só por isso.
Por fim, quando vem a Primavera, o senhor Sol aquece-lhes os humores, espreguiçam-se e saem para o ar livre à procura de uma comidinha, de uma namorada. Não precisam de ir ao ginásio nem de encolher a barriga quando avistam a prometida: durante o Inverno, sem esforços nem heroísmos, ficaram elegantíssimos.
Podem voltar a comer à fartazana, do melhor que encontrarem.
A rapariga, aliás, estará a fazer o mesmo e confessemos: redondinhas também têm o seu encanto, não é?
Por isso ficaram sabendo: o que nós queremos mesmo é ser ursos.
Já andamos a treinar há muito tempo. Só aquela história do emagrecer, isso é que ainda não conseguimos.
Mas pronto.
Não se pode ter tudo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Obediênciazinha, pois então! (I)


Do que vos quero falar, ou, dado que o Portugal, caramba! se tem vindo a transformar em mais um blogue do eu, o que eu quereria perceber, é:

Porque havemos de obedecer a uma ordem?

Mas, claro, tenho de começar por algum sítio e, portanto, aquele estranho acontecimento passado lá para os lados de St. Margarida, ou de Tancos, serve perfeitamente.
Lembram-se?
Eram umas sete da manhã, vem um condutor na sua carrinha, tinha andado a distribuir jornais e, a meio da estrada, a ocupar-lhe a faixa, ia um pelotão de futuros paraquedistas vestidos daquela cor chamada verde-tropa, escolhida justamente para não dar nas vistas. Cumpriu a sua função. O condutor não os viu realmente - ou só demasiado tarde.
Acidente, dezasseis atropelados, três muito graves.
Não interessa se houve ou não culpados, se foram castigados, se alguém indemnizou as vítimas ou se está tudo perdido na burocracia de um ex-tribunal militar.
Claro, as notícias falaram de um carro desgovernado, um motorista adormecido ao volante ou cansado ou qualquer outra coisa que justificasse o desastre. Tudo menos o óbvio: a tropa está-se nas tintas para as leis quando não lhe apetece cumpri-las. No caso eram as do trânsito, poderiam ser outras.
Não que a tropa não cultive a obediência.
Tem Nepes, tem Erredêémes, tem as suas bíblias e faz gala em que tudo seja by the book.
Excepto se aos sargentos e oficiais outra coisa não ocorrer, mas isso é outra conversa. Relevante é que não tenha havido muito mais informações sobre as necessárias sequelas do acidente. A obediência e o silêncio andam frequentemente juntos. A cegueira segue-as de muito perto.

2.

A obediência na tropa é engraçada: parece ter sido feita de propósito para nos mostrar a que ponto pode chegar a alienação ou, para ser claro, até que ponto alguém pode prescindir da sua própria vontade, dos seus instintos até, se a palavra tiver algum conteúdo.
A que outro conceito poderíamos recorrer para explicar, por exemplo, as cargas de baioneta nos assaltos às trincheiras inimigas, quando um general francês ou alemão, que importa, sacrificava três mil homens para recuperar cem ou duzentos metros da terra de ninguém, uma aldeia arrasada e deserta, um pedaço de bosque onde, de novo seria preciso cavar trincheiras, instalar metralhadoras?
Lembram-se do Hans Castorp, o jovem doente (mas de quê?) que desceu do sanatório, na encosta da Montanha Mágica, a cinco mil pés de altitude? Vista de lá de cima, a pátria «assemelhava-se a um formigueiro em pânico». E o Hans mergulhou no vale e depois num batalhão académico:
"Eis o nosso amigo, eis Hans Castrop! Já de longe o reconhecemos (...) Arde, ensopado pela chuva como os outros. Corre, os pés trôpegos, agarrando a espingarda. Vejam, pisou a mão de um camarada caído, a sua bota ferrada afundou essa mão no solo lamacento, crivado de estilhaços. E todavia é ele!"
(Thomas Mann, A montanha mágica)

O que levará alguém a seguir o seu oficial, o seu pendão, o seu clarim até à morte? Ou, se preferirmos, o que terá levado os carcereiros de Auschwitz, os Eichmann deste mundo a obedecer às ordens que alegam terem-lhes sido dadas?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Jingle bels, jingle bels, ta-ta-ri-tatá,,,


Um Auto de Natal
-
A cena passa-se na estrada para Belém.
Três camelos carregados com os Reis Magos vão conversando.
-
Zé Camelo (cansado) - Ainda temos de os carregar por muito tempo?
Camelo mais velho (pacientemente:) - Ná! Dizem que é só até ao dia seis ...
Zé Camelo (duvidoso) - Ah! ... E tu acreditas?
Camelo mais velho (pacientemente) - Claro! Todos os anos há um dia seis em Janeiro, não há?
Zé Camelo (com uma vaga esperança) - Mas é só no Natal, não é?
Camelo mais velho (pacientemente) - Bom, é também no Dia das bruxas, por exemplo. E no São Valentim, no Dia da Mãe, na Páscoa... Mas é sempre Natal. Nunca ouviste dizer que o Natal é sempre que os homens quiserem?
Zé Camelo (admirado)- E os homens são esses que vão lá em cima?
Camelo mais velho (pacientemente) - Conheces outros?
Zé Camelo (cabisbaixo) - Então e nós?
Camelo mais velho (pacientemente) - Nós? Nós somos os camelos.
Zé Camelo (meditativo) - Hum...
Terceiro Camelo - Oxalá nos dêem azevias. Das de grão. O Bolo Rei já não se aguenta...
(Cai o pano)
-
O Portugal, Caramba!
deseja a todos os seus amigos
um Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.

sábado, dezembro 05, 2009

Se um avaliador incomoda muita gente...


Prof: Pá, havia de se fazer um congresso p'ra fazer um mais parvo do qu'a tu e n'haviam de conseguir!
Aluno: Ho-ho-ho! Pois não, professor!

-
Declaração
-
Pronto!
Declaro que gosto de pensar que fui um bom professor.
Não sei a quem hei-de pedir desculpas pela imodéstia. Aos alunos, claro, pareceria da mais elementar justiça, mas aos pais, nunca!
Mas não.
Aos alunos dei sempre o que tinha, o que roubava, o que inventava.
O que lia e o que escrevia, o que improvisava no meio da aula, com bonequinhos desenhados a giz no quadro preto.
(A propósito: sabem a história de Quonsumor, o Gordo? Estou a ver que não. Um dia hei-de procurá-la e mando-vos.)
Dei-lhes a oportunidade de pensar, de discordar, de discutir, de ser do contra ou do a favor, de me aceitarem ou me odiarem.
Pertencer, nas minhas turmas, passou pelo participar ou amuar num canto: a escolha era de cada um, em cada dia.
Muitos não aprenderam nada do que eu ensinei e atingiram o nível de excelência, como agora se diz, porque souberam pensar pela sua cabeça.
Mais do que aulas, quis que fossem foruns de liberdade.
Só houve sempre uma exigência absoluta: assumirem-se como gente, tratarem-se como gente uns aos outros.
Não sou romântico e sei que nem sempre consegui o que conseguia muitas vezes, que houve aulas preparadas ao milímetro que falharam completamente, estratégias mal pensadas que deram para o torto, turmas que não soube agarrar, que perdi alguns alunos e que, imagino, terei feito mal a outros.
Assumo que não sou modelo para ninguém.
E, para que conste, esclareço desde já:
Do que senti sempre mais a falta, foi da cooperação entre nós, professores das mesmas turmas e que rarissimamente conseguimos formar equipe.
O que mais odiei foram os exames, pré-formatados, cada vez mais preconceituosos, como se alguém soubesse de antemão como cada aluno vai responder, quais os seus erros, quais as interpretações que fazem sentido.
E percebo que nunca atingiria o nível de suficiente numa avaliação de desempenho como deve ser.
E gosto de pensar que me estaria nas tintas.
Mas atenção, não quero fingir que sou um herói: não garanto que a ameaça de os meus poderem vir a passar fome não tivesse o seu peso; talvez não conseguisse ser professor, talvez tivesse de me contentar em ser funcionário do Ministério da Educação.
Incomoda-me pensar nisso.
-
Bento Sequeira
(transcrito e adaptado por Tacci)

sexta-feira, dezembro 04, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Ó freguês, vai um sapatinho?

Quem não tem cão, caça com gato, não é o que se diz?
Eu, ainda bem que tenho cão, que essa história de andar aos tiros aos coelhos que andam lá na vida deles, nunca fez o meu género.
E não sendo eu um equilibrista, como o Dr. Barroso, essa coisa da Comissão Europeia também não me entusiasma muito.
O que me atrai, palavra, é o mundo dos negócios.
Já tenho meia dúzia cá na forja, vão ver se um dia destes não fico ainda mais milionário do que o Tio Belmiro.
Senão, veja-se: arranja-se uma tenda e vai-se de feira em feira com um monte de sapatos velhos (sugestão, para que conste, da autoria do Marreta e que podem encontrar nas caixas dos comentários algures lá para trás), fisgas e pedras, elásticos e bilhetinhos.
Por um euro, por exemplo, o cliente tinha direito a um sapato ou três pedradas num retrato à escolha.
Vinha um e dizia:
- Olhe, dê-me aí a Manelinha...
A gente, como qualquer bom negociante, acudia:
- Com certeza, tem V. Exª. muito bom gosto. E prefere a fisga, o sapato ou quer mandar bilhetinhos com recados?
- Bof... hoje vou pelo sapato. Já lhe mandei recados por causa do estatuto da carreira docente e viu-se!
E zás! Sapatada em cheio.
Vinha outro e pedia o Sócrates, o engenheiro.
- Ah! mas esse temos pena, só logo à tarde. É que sabe, tem tido muita procura, coitado ficou cheio de buracos. Estamos a pôr-lhe uns remendos, a ver se ainda se aguenta. É que é mau para o negócio, sabe? Se ele se vai abaixo, perdemos mais de 65% da clientela...
- Olhe, então dê-me aí uns bilhetinhos de amor.
- Muito boa escolha. Temos aqui a Penélope Cruz, a Maribel Verdú...
- Não, não. Eu quero é aquela, a Roseira...
- V. Exª. é que sabe... Mas olhe que bilhetinhos de amor a políticos, primeiro é muito mais caro. E depois, é que nunca se acerta.
E pronto. O negócio é este.
Aceitam-se sócios, de preferência com as duas coisas que a mim sempre me faltaram: o capital, que nunca houve. E a vontade de trabalhar, vamos lá que também nunca por cá abundou.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Post Scriptum



O Graza do "Arroios" (ligação ali ao lado) enviou-nos esta versão um pouco diferente da fisga digital, pelo que muito lhe agradecemos.
Aqui fica, para instrução e gáudio das gerações vindouras.

domingo, novembro 22, 2009

A Propósito de fisgas

Primeiro há que escrever uma mensagem num quadradinho de papel bem rijo.
Depois, começando num dos ângulos do quadrado, enrola-se apertando bem na direcção do canto oposto, e, quando tivermos um rolinho fino e comprido, dobra-se ao meio. A seguir, toma-se um elástico novinho em folha, prende-se a dois dedos bem afastados e colocando o rolo do papel de modo a que cada uma das pontas fique de seu lado do elástico, prende-se entre o indicador e o polegar da mão sobrante.
Depois é só esticar, apontar e zás! Larga-se.
Lá vai o papelinho direito ao alvo.
Têm alguma ideia do que querem escrever nos papelinhos?
Pois. Bem me parecia.
-
Este post foi-nos sugerido pelo comentário, algures aí para trás, de uma gentil Anónima a quem ficaremos eternamente gratos.

Sem título








quarta-feira, novembro 18, 2009

A Grande Guerra

Não há, quem sabe, parvoíce maior do que querer imaginar o que dirão os hitoriadores daqui a uas décadas.
Mas, se lhes podemos deixar um recadito ou outro, que tal encararem todo o século XX como uma interminável guerra entre a Educação e a Babárie? (1)
-
(1) Pinta-me que temos perdido as últimas batalhas e que estamos a perder armamento.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Ceci non plus

Claro que não é um cachimbo!
Já estão fartos de saber: não passa de uns quantos píxeis miseráveis, encarcerados algures nos nossos computedores.
E algures, lá fora, um corruptozinho, igual aos outros todos, está a ganhar o milhão seu de cada dia. E o irmão dele, o primo, o amigo e aquele conhecido também, todos a fazer o mesmo, já viram?
Nós aqui, blogamos. Que mais?
Talvez devessemos estar acampados, ali em frente ao parlamento, com um cartaz enorme a dizer "volta Cravinho, estás perdoado!"
E, por via de dúvidas, levávamos as algibeiras cheias de pedras para atirar, sei lá, como diz a Ma'ga'ida. Nem que fosse aos céus.
Podia ser que acertássemos num desses anjinhos aldrabões que nos prometeram o paraíso na terra e, depois de o terem feito, o cercaram de arame farpado e puseram na porta: reservado o direito de admissão.
Alguém quer treinar a fisga?

segunda-feira, novembro 09, 2009

Incongruências

Faz vinte anos já que o muro de Berlim caiu por terra.
A bola, essa, continua impávida e serena nas vitrines das pastelarias.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Desgraças que acontecem nos blogues

- Pinta-me que se, no meu tempo, estas coisas já fossem assim, eu nem a quarta classe tinha conseguido fazer...

segunda-feira, novembro 02, 2009

Democracia... ou isso.

Acto único
Cena única
-
-
(Em cena estão Tacci e o Político avisado)
Tacci - Já estou um bocado farto de ouvir dizer que a democracia é o pior dos sistemas políticos excluíndo os outros todos.
O que eu quero saber é: como é que os outros todos são excluídos.
Político avisado - Pois é fácil. À medida que vão aparecendo, a gente enterra-os aí debaixo.
(Cai o pano)

sábado, outubro 31, 2009

Grande farra bloguística

Foi porreira a nossa festa, pá!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Adenda: Saramago e Richard Zimler, afinal estavam de acordo


Não sendo nós, aqui no Portugal, Caramba! nem católicos, nem judeus, nem particularmente fãs de Saramago, consideramos que esta procela nos passa de largo em enorme medida.
Mas registámos com muito interesse esta opinião expressa por Richard Zimler:
Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento.
Richard Zimler,
«Saramago e a insustentável leveza da ignorância»
in Público, de 27 de Outubro de 2009

Pronto, ficou registado: Zimler, mesmo considerando que "as criticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais" e que "revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais", concorda com ele no que de fundamental lhe ouvimos.
(Post alterado em 28/10/2009)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Uma citação, quiçá incómoda, mas atempada...














"... for his work is marked by both idealism and humanity..."
Prémio Nobel da Literatura (que recusou) de 1925
-

"Por outras palavras: como não nos podemos livrar da Bíblia, ela se livrará de nós, a não ser que aprendamos a lê-la dentro do «espírito adequado»; e este parece ser o espírito de integridade intelectual que obriga os pensadores honestos a ler com toda a força da sua inteligência todas e cada uma das linhas que se arrogam autoridade divina, julgando-as exactamente como julgamos o Alcorão, os Upanichades, as Mil e Uma Noites, o artigo de fundo do Times de hoje, ou a caricatura do Punch da semana passada; isto é, sabendo que todas as palavras escritas estão igualmente abertas à inspiração da fonte eterna e igualmente sujeitas a erro, graças à imperfeição dos seus autores, entes mortais."
"[...] É que a religião inculcada pelos livros antigos é um ritual cruel e atroz de sacrifícios humanos, para aplacar os furores de uma criminosa divindade da tribu que, por exemplo, foi induzida a poupar a raça humana ao aniquilamento num segundo dilúvio, apenas pelo prazer que lhe dava o cheiro da carne queimada, quando Noé, «tomando de todas as rezes e de todas as aves limpas, lhas ofereceu em holocausto, sobre o altar»."


Georges Bernard Shaw,
The Adventures of a Black Girl
in Her Search for God,
1932

terça-feira, outubro 20, 2009

sábado, outubro 17, 2009

Implosão

Dizem que o estádio Mário Duarte tem de ser implodido.
Concordo.
Não é, como alguns podiam aleivosamente pensar, pelo facto de eu não gostar de futebol, o que até nem é verdade, vejam lá.
Gosto sim, senhora! Gosto de ver os putos a correr, como eu corri, atrás duma chincha, aos gritos de «passa, c...!».
O que eu não suporto são os jornais da «bola», que se arrogam o direito a ser designados como «desportivos».
Desportivos? Aquilo? Imaginam?
Mas, pronto. Façamos de conta. Ainda há pior, dá para crer?
-
Há, garanto-vos. Há os pugramas da televisão, com as genialidades do costume, desde o Sr. Oliveira e Costa que é sondeiro, ao câmara-man Fernando Seara, ao animatografista António Pedro de Vasconcelos e ao físico Dr. Barroso, ao Sr. Medeiros Ferreira que já foi muita coisa e agora não sei o que é, para só falar destas, que são as eminências.
O que vale é o comando à distância: daqui onde vos estou a escrever, clic, e pof! Não sei para que freguesias irão pregar, da minha, desaparecem.
-
Compreendem que eu ache bem a implosão do estádio de Aveiro. Preferiria, claro, que ele fosse explodido.
Não é preciso ser Engenheiro Civil (nem primeiro ministro sequer) para perceber que os pedaços de betão, atirados pelos ares, dariam uma péssima imagem do nosso pobre país. Além de esburacarem consideravelmente os já de si precários lares dos aveirenses, de lhes partirem os vidros, quem sabe até se não entupiriam a ria de Aveiro, mais do que a poluição, claro, e até podia bombardear gravemente a base aérea de São Jacinto - onde, felizmente, ainda ninguém pensou em fazer o novo aeroporto de Lisboa.
Eu sei disto tudo!
Mas já viram?
O dito Estádio Mário Duarte, de Aveiro, custou uma beca. Tinham-se previsto uns trinta milhões, mas foi parar quase aos sessenta e cinco. Dinheiro que, em vez de gerar alguma riqueza, como seria de esperar, anda a gerar tais despesas que não há quem aguente, muito menos a câmara de Aveiro.
Não se podia fazer como o muro de Berlim?
Escaqueirava-se e vendiam-se os bocados a bom preço?
É claro, primeiro tinha de se encomendar uma pinturas, assim para dar ar de que também somos artistas. Reservava-se uns metros quadrados para o Pomar, por exemplo, mais um ou dois que não cito para não criar invejas, depois entregava-se o restante a umas crews de Lisboa e do Porto - uma havia de ser local com direito a entrevista pela Drª Moura Guedes, pelo menos - para grafitarem à vontade.
Quando fosse da explosão, já viram o que podia valer cada bocadinho?
Podiam vender-se bilhetes para assistir, abrilhantava-se com fogos de artifício para dar cor, ganhava-se um dinheirinho a alugar capacetes tipo das obras, vendiam-se umas bebidas...
Depois era a parte verdadeiramente comercial.
Uma boa carga de explosivos havia de fazer, pelo menos, vá lá, uns dez mil pedaços de bom tamanho. Vendidos a seis mil e quinhentos euros cada, mais depesas de recolha e de entrega, só isso já pagava o investimento.
E ficava toda uma indústria para os aveirenses: catar pedacinhos de betão, pôr dentro de uma caixa e vender aos turistas junto com as barriquinhas de ovos moles.
Estou a imaginar os comerciantes: «está a ver aqui este cantinho? Não é sujo, não senhor! É uma pincelada ocre da Paula Rêgo; vinte euros e não se fala mais nisso.»
Direis: e os vidros partidos? E os telhados arruinados?
Tudo tem solução. O Governo abria uma linha de crédito bonificado para os proprietários fazerem as necessárias reparações. É o que se costuma fazer com todas as catástrofes, chuva, incêndios, inundações, quedas de pontes, tudo. E não me venham dizer que o Euro-2004 não foi uma catástrofe para este pobre país, porque foi.
Façam as contas e digam-me: venderam-se muitos hectolitros de cerveja, pois venderam. E que mais?
-
Se o negócio pegar, temos a seguir o de Coimbra que, informam-nos(1), era para custar catorze milhões e custou cinquenta e seis, Leiria que subiu de trinta para setenta e quatro. E depois Faro-Loulé, também havia de ser jeitoso. E Guimarães; e o Beça, mesmo se desses não sei os preços.
Quando se acabassem - enfim, poupava-se o Dragão que parece ser rentável - até se podia construir mais para se ir explodindo. E já viram? Quanto maior fosse o delizar dos custos, melhor: mais caros se vendiam os pedacinhos.
Ou em alternativa, talvez o Alqueva. Já alguém nos disse quanto custou efectivamente e quanto está a render?
-
E enquanto andássemos entretidos a construir e a explodir, deixávamos em paz a pobre da Maïté Proença que, para além de ser muito bonita, tem o sorriso mais sedutor que eu me lembro de ter visto(2). Lembrem-se: uma mulher bonita teve, desde sempre, o direito a dizer o que lhe passasse pela cabecinha e nós, cavalheirescamente, só temos de sorrir e dizer que sim, pois claro, isso e o contrário se for preciso.
Nunca, por nunca ser, temos o direito às explosões de grosseria como a destes últimos dias. E manifestações de desagravo, já me chegaram as do tempo do Salazar.
Disse.
-
1) Nem sob tortura revelaremos que a nossa fonte foi o jornal Público de 16 de Outubro, p. 11.
2) Pensando melhor, estou a lembrar-me de alguns outros, bem sedutores também, e que eu conheci mais de perto.
-

segunda-feira, outubro 12, 2009

Distanciação erudita

1.
"... em que tipo de ensaio estava eu empenhado? Numa peça de análise linguística objectiva ou numa diatribe velada contra os padrões em declínio? Seria eu capaz de manter um tom de distanciação erudita, ou seria inelutavelmente dominado pelo estado de espírito em que Flaubert escreveu o seu Dicionário das Ideias Recebidas, um estado de espírito de impotente desdém?"
2.
"Devia rever completamente as minhas opiniões, era o que eu devia fazer. Devia apartar as mais antigas, as mais decrépitas, encontrar outras mais novas, mais actualizadas para as substituir.
Mas onde ir para encontrar opiniões actualizadas?
A Anya? Ao seu amante e guia moral, o corretor Alan? Pode-se comprar opiniões frescas no mercado? É permitida a entrada na bolsa a velhos de vista fraca a mãos artríticas, ou seremos unicamente um empecilho para os novos?"
J. M. Coetzee, Diário de um ano mau, 2007



domingo, outubro 11, 2009

Not enough cooks


O Carneiro guisado de hoje deve ser o único stew do mundo que, quantos mais cozinheiros lhe meterem a mão, melhor fica.
O nosso, estamos em crer, tem tido muita falta de gente ali à volta.

quinta-feira, outubro 08, 2009

... tipo, há três anos inteirinhos


Este post anda por aqui atravessado há já um bom par de dias.
Porquê, vejam se percebem.
Nós aqui, no Portugal, Caramba! estamos no ar - uma expressão vinda da rádio - tipo, há três anos inteirinhos.
Desde o dia 6 de Outubro de 2006.
Impunha-se uma comemoração, claro, com pastéis de bacalhau e uns decilitros, azeitonas, queijinhos de Évora e mais decilitros, bagaceira e charutos.
Mas não seria a altura de perguntar: «que diabo estamos nós aqui a fazer, caramba?
Tínhamos um propósito quando começámos. Como a natureza é vária, não publicámos nenhuma carta de intenções e ainda bem; mas queríamos compreender «como é que chegámos aqui».
Durante algum tempo foi a nossa preocupação: português, sim, mas o quê?
Onde e quando começámos a ser os pequenotes convencidos de que inventávamos alguma coisa quando dizíamos «cozido à portuguesa», ou mesmo «socialismo à portuguesa»? Quando nos extasiávamos perante a Torre de Belém e revirávamos os olhos exclamando «ah! como são lindas as margens do Mondego»?
Para amadores como nós, a melhor via, em calhando, seria a literatura.
Percorremos os alfarrabistas em busca de escritores portugueses (quanto mais «carambistas!», melhor).
Lemos e demos conta de autores que, na melhor das hipóteses já ninguém lê, na pior, de quem nem sequer se ouviu falar. Intervalámos com outros, mais conhecidos ou mais recentes, desde o Gomes Leal até ao Nuno Bragança.
E como somos apaixonadamente leitores de histórias, todas as histórias, mesmo em quadradinhos; e como somos obsessivos contadores de historinhas, todas as historinhas, mesmo as mais tolas, decidimos acompanhar cada post com um desenho.
E temos cumprido, caramba!
Ao fim de trezentos e quarenta e cinco entradas, fizemos duzentos e setenta (270) desenhos, recuperámos das gavetas e cadernos mais quarenta (40), copiámos daqui e dali (capas de livros, ou assim) uma dúzia e meia (18); fotografias com a devida vénia, isso é que foi pouco: vinte e duas (22). Tudo isto mais ou menos, está bem de ver. Quem quiser que conte melhor.
Mas deu trabalho, pois deu.
E ao fim e ao cabo, talvez a ambição fosse desmedida, mas continuamos a não perceber como foi possível «chegarmos aqui».
Aqui, irmãos! Aqui.
Não nos referimos, como seria de esperar, à pobreza, à insignificância deste rectângulozinho de que até o Alberto João faz troça: não é isso que importa.
O facto é que por cá andamos há oitocentos anos, sempre em crise, com fomes e pestes, sempre com leis salvadoras como a das Sesmarias, sempre com ideias miraculosas como a Índia ou os oiros do Brasil, as colónias e a CEE. E ainda estamos entre os trinta países mais ricos, mais livres, mais tudo o que nos apetecer, do mundo inteiro.
E, em vez de nos ajoelharmos e agradecermos ao Senhor, ao acaso, à geografia, à divindade mais do vosso agrado, arrepelamos os cabelos, choramos em grande grita.
Porquê?
Para quê?
É isto Portugal, caramba?
Pois. Estamos em crer que é.