segunda-feira, janeiro 10, 2011

Blog parado


Um blog é como uma barcaça.
Também ele mete água, o calafate por mais que se esforce.
Quando os ventos são do contra, barca e blog andam para trás.
Encalham na vasa quando as águas andam turvas.
Parados, não fazem viagem: descaídos sobre o bordo, ficam a olhar os outros que passam.
É assim.
Às vezes, até vir a mulher da fava rica.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Feliz Ano Novo, Caramba!

- Então? Ninguém o quer?

domingo, dezembro 26, 2010



Festas Felizes,
Festas Felizes!

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Subsídios para o Livro de Aka (final)

Aka abrira o tampo do clavicórdio,
brincara com as teclas num arremedo da Dansa Russa e,
com um alicate, entreteve-se por momentos a cortar-lhe as cordas.
Depois tinha-se ajoelhado no tapete,
junto à mesa que fazia de palco à Petite danseuse de catorze ans.
O olhar,
como se fosse ainda menina,
razava a nogueira polida do tampo,
e o dedo estendido contra a base da estatueta
empurrava devagarinho,
como se a pudesse fazer dançar.
A Petite danseuse erguia os olhos para lá,
para onde havia um lustre.
«Não estás num verdadeiro palco com uma ribalta», disse Aka.
«Nem aquilo ali em cima é a verdadeira luz.
É só um vidro, cristal de Veneza dizem,
pingentes que cintilam, falsos brilhantes, cintilações...
Banalidades. Palavras. Deus, se tivesse bom gosto nunca as usaria.
Mas Ele só fala a linguagem dos dins cantores, a linguagem da glória.»
Uma volta mais leve deixou a Petite Danseuse à beira do seu tablado.
«Antes de cairmos, dei-te um dos meus nomes,
o que eu mais gosto por me lembrar o Petruska do bailado.
Perdoa-me, Petra, amanhã faço quinze anos.
Leva o meu nome e a minha alma contigo para que ninguém mais nos use.»
Do tapete, deitada de lado, com as pernas partidas,
a Petite Danseuse olhava-a enfim, de olhos nos olhos.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Million dollar baby

Million dollar baby

Depois de se dar a vida a provar,
nada a fazer.

O inesperado caminho da morte de que todos falam,
esse descampado percurso ao geográfico sol
que nos impede de ver os felizes contornos da vida,
chega sempre cedo demais.

Obstinados sem-abrigo,
treinamos a sobrevivência, agarrando com os violentos punhos do amor,
o vago fio que nos atrasa o fim.
Protegemo-nos da prolongada e da diurna luz
no aconchego clandestino do ginásio, que nos prepara o corpo da solidão.

Não há morte feliz ao ponto de como só a vida o poderia ser.

Depois de provado o amor,
nada a fazer.

Manuel Sanches

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Insurreição

Ou, por outras palavras:
-
Que viva la Venezuela,
Ai!
Que vivan los militares!
Que vivan los estudiantes - iô-hô
y las massas populares!
-
Ou por outras ainda:
-

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Mais um Anjo da Guarda, pois então!

E, como sempre, por uma intenção particular, claro.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

segunda-feira, novembro 29, 2010

Sem título

Terá, talvez, os seus quinze anos. Talvez menos. E, mesmo se no meu desenho não parece, é muito bonita.

sábado, novembro 27, 2010

Um dois três, macaquinhos do chinês...

Novos tempos, novos preceitos!
-

Vê, ouve e grita bem alto.

-

quinta-feira, novembro 25, 2010

Greve geral

´


Só há uma coisa verdadeiramente irritante nesta coisa da aposentação: já viram, toda a malta a fazer greve e a gente aqui, a não poder fazer também?

quinta-feira, novembro 18, 2010

Indecisão

... Nem por aqui,
nem por ali,
o caminho me convém.



Estavam cães
esfomeados
os próprios ossos
roendo.



E por aqui,
e por ali,
nem me evado,
nem me prendo.
...

Armindo Rodrigues, Romanceiro e canções de um menino perdido,
in Obra Poética II, Lisboa, Sociedade de Expansão Cultural, 1970


segunda-feira, novembro 15, 2010

Sem legenda

Cidadão anónimo surpreendido no acto de denunciar um caso grave de corrupção.
-
Nós aqui no Portugal, caramba! sendo uns mentirosos natos, garantimos o nosso profundo respeito e adoração pelo Estado.
Às vezes, porém, há coisas verdadeiramente intrigantes.
É claro que um portal aberto pelos poderes instituídos (o DCIAP, caramba!) para combater a corrupção pode parecer assim, a modos que, uma contradição nos termos e até, se fosse nos Estados Unidos, era capaz de ser proibido por uma emenda qualquer.
Mas admite-se, metade por masoquismo, quem sabe, metade por uma inofensiva manobrinha de propaganda. Por outro lado, fazer-se apelo à denúncia dos cidadãos uns pelos outros não é propriamente uma novidade aqui no burgo: par'aí desde a Contra-reforma, julgamos nós, já houve familiares do Santo Ofício, moscas, informadores da Pide, sabe-se lá mais quem. Sirva de exemplo o caso de um professor que contou uma anedota lá pela delegação do Norte do Ministério da educação que temos.
O que espanta, o que verdadeiramente espanta, é que se garanta o anonimato aos ditos denunciantes.
Anonimato? Num país onde um processo em segredo de justiça pode aparecer pespegado na primeira página de um jornal, onde escutas secretas são transcritas e dadas a público?
Ná!
Nós aqui no Portugal, caramba! queríamos ser tudo (ou quase, pronto!): anónimos é que nunca! Safa!
-
PS: o nosso pseudónimo àparte, claro.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Tema para a meditação de hoje

Monarquia Absoluta
- S. M. F. D. Ricardo I
Rei de Portugal e dos Algarves


quarta-feira, novembro 03, 2010

Sem (outro) título


Como sempre, por uma intenção particular.
Desta vez, um Anjo da Guarda combativo e refilão.
Como, às vezes, também é preciso.

sábado, outubro 30, 2010

11 razões para não votar Cavaco

O «Delito de Opinião» publicou, no dia 26 de Outubro, uma bela lista de dez razões para não votar no Cavaco.
Nós aqui, no Portugal, caramba!, só temos uma a acrescentar:

11. Já viram bem a cara dele?

segunda-feira, outubro 25, 2010

Tema para a meditação de hoje


Se tu ainda acreditas que se pode "enganar toda a gente durante algum tempo, que se pode enganar algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar toda a gente durante o tempo todo", então o mais provável é que não tenhas televisão em casa.

domingo, outubro 24, 2010

quarta-feira, outubro 20, 2010

As leis da hospitalidade

A minha Osguinha Moura (tarentola mauritanica)
-
Quando aqui neste post se fala nas leis da hospitalidade, acreditem, não estamos a falar do Pierre Klossowski nem da sua estranha interpretação dos deveres do hospedeiro.
Não, do que estamos a falar é mesmo daquelas visitas inesperadas e, confessemos, nem sempre oportunas.

(O meu mais recente visitante: um Mus Spratus?)
-
Reparem:
Já toda a gente, sobretudo se mora no campo, teve visitas assim, do tipo «catrapimba!»
Sabem como é: estávamos nós ali sentados, a apanhar um solinho e a ler o Danilo no teatro da vida, por exemplo, ou o Caderno de memórias coloniais, e vem parar ali ao portão, um todo-o-terreno, brilhante de novo, como só têm os lisboetas.
Quem será, quem não será?
Levantamo-nos, o dedo entalado a marcar a página e reconhecemos vagamente os acenos de uns primos, daqueles que não víamos desde o funeral da Tia Ermelinda e que, francamente, não estávamos à espera de voltar a ver até ao funeral do Tio Zé Damião daqui a muitos anos - que vaso ruim não quebra nem à mão de Deus Padre.
- É pá! Vocês por aqui? - precipitamo-nos.
- Olha lá! Íamos a passar aqui ao pé - explica o exuberante Primo Artur logo ao apear-se, - e a vai Isaltina e disse: «olha, não é para além que mora aquele teu parente meio maluco...?» E vou eu e digo: «olha lá! é mesmo; bem lembrado!»
E zás! Uma palmada de lenhador nas nossas decadentes costas de intelectual, de esquerda ainda por cima.
Pronto, deita-se mais um pucarinho de água na sopa, tira-se do congelador os bifes que eram para domingo que vem e, quando há sorte, alguém faz à pressa um espera-maridos.
Cá em casa as coisas, às vezes, são menos complicadas: os bifinhos ainda vá, mas do resto, pode ser que alguém trate enquanto eu arranjo o queijo, umas tostinhas, e abro a garrafa do tinto aqui da região.
- Olha lá! - diz o Primo, a mastigar o primeiro gole. - Boa pomada! Também lá tenho em casa umas caixas, mas é dali de Palmela, ou o que é! O Duas Quintas, dois mil e qualquer coisa, um ano muita bom. Ha-des provar, pá. Também é cá uma pomada! Eu trago-te quando cá viermos. Mas duas ou três, que a gente não somos de nos ficar só por uma, olha lá!
E a gente, olha lá que não olhássemos.
Também há outro género de visitas, mas são francamente mais discretas.
Por exemplo, há dias andava aí por casa, poisada lá no alto das paredes, uma osgazita. Elas são assim mesmo, parece que estão coladas lá no sítio com um prego, como as lagartixas de loiça do Bordallo Pinheiro, sabem? E, de repente, olhamos e já está no outro canto, e depois, como diria o Primo Artur, «olha lá! A gaja desapareceu.»
- Pois, elas são mesmo assim, respondo eu. - Chegam discretamente, discretamente se vão embora...
A esta última só a voltei a ver dias depois, do lado de fora da janela, numa das primeiras chuvas deste Outono. Lá ficou tempos infindos, deliciada com o banho, como nós, às vezes, debaixo do chuveiro.
Perguntarão: «mas, olha lá, como é que sabes que é sempre a mesma osga?»
Não era a mesma? Bom, seria uma irmã gémea, talvez, é um problema à Bertrand Russel: se um gato passa por baixo da mesa e a gente deixa de o ver, como é que sabemos que é o mesmo quando reaparece do outro lado?
Mas, pronto, esqueçam.
Que, pelo menos, é uma vizinha isso é, porque vem cá muitas vezes e dantes morava uma família delas atrás da caixa do correio.
E também há uns ratitos por outros.
Daqueles muito pequeninos, não são como o Primo Artur que não cabe numa carripana qualquer: tem de ser um V-12, no mínimo. E onde os ratitos roem uma pontinha de toucinho, o Primo Artur engole um paio inteiro, decilitro e meio, além de quatro azeitonas e um queijinho de Niza, está bem de ver. No pão não toca: está de dieta, pelo menos até à hora do almoço.
Foi, aliás, uma pontinha de toucinho o que perdeu este meu ratito.
Lembram-se do João Ratão, cozido e assado no caldeirão?
O que eu tinha não era assim tão mortífero como uma panela de caldo a ferver.
Nem era sequer uma daquelas ratoeiras que apanham o desgraçado pelo pescoço e lho partem, ou como aqueles iscos envenenados que, só de olhar para eles a gente pensa logo na Assembleia da República, sabe-se lá porquê.
Quando nos apercebemos do novo conviva que tínhamos a morar connosco, deu para perceber que era ao contrário do Primo Artur.
Em vez de comer e beber, dormir uma sesta e ir-se embora com a Prima Isaltina «para não atrasar o jantar, olha lá», este montava o acampamento como que para ficar, roeu a tampa da caixa do arroz, abriu um buraquinho muito redondinho numa caixa de tostas, acartou tiras de uma esfregona para fazer um ninho.
Não, tinha de se tomar medidas, foi o que pensámos. Ainda se fosse só ele! Mas atrás de um ratinho vem sempre uma ratinha e depois mais uma dúzia a fazerem os seu ninhos nas mangas das camisolas...
Fui lá acima, à casa de ferragens, a ver se havia assim alguma coisa que não matasse os ratos...
«Como? Que não matasse os ratos?» Via-se pelos sorrisos que achavam que eu era mesmo parvo. Ou lisboeta, pronto!
Pareciam o Tio Zé Damião, grande caçador dos tempos em que «aquilo é que era!»
Para ele, se nós não estivermos ainda, pelo menos, na casa dos oitenta, não passamos de aprendizes ranhosos do ofício de viver.
- Os ratos? Isso são coisas daninhas, jovem! Quantos mais a gente matar, menos crescem para o ano. É como os peneireiros e as cobras que nos andam a comer os coelhos! Ah que estão em vias de extinção! Pois que se extingam, fazem cá alguma falta?
Não valeu de nada falar do equilíbrio das espécies. Os argumentos do Tio são irrespondíveis:
- Pois. Havias de ter um ninho de vespas dentro da retrete e eu queria ver como é que lá te sentavas!
Mas pronto. Estava eu na Casa de ferragens não era?
- São criaturinhas de Deus, argumentei eu na loja, assim timidamente, como que a pedir desculpa. - Se calhar também têm direito à vida...
- Ehhh... lá isso... - concedeu o encarregado com um discreto encolher de ombros para o ajudante.
Como o argumento místico, às vezes, causa menos má impressão do que o ecológico, lá me arranjaram uma gaiolinha muito bonita, cromada, parecida com um passador, daqueles de rede. Punha-se ali o isco, explicaram-me, e «vai ver; entra e nunca mais sai.»
Demorou ainda um par de dias. Mas, suponho eu, lá chegou o momento em que a tentação foi mais forte: o meu visitante foi à procura de uma refeição mais pertinho, se calhar estava cansado das correrias pela casa toda...
Quando demos por ele, mal se via, estava muito quieto, ao fundo da gaiola. Quando o trouxemos para a luz, «ah ratinho d'um catano!», aquilo é que foi pulos e correrias à volta... de fazer dó. A solução foi tapar a gaiola com uma toalha, fazer escuro lá dentro e espreitar só por uma nesga.
E pronto: gostaria de vos dizer que estou aqui a construir um palacete para este ratinho, tipo gaiola para hamsters siberianos, mas não. Não suportaria vê-lo ali confinado, a correr em volta, a tentar esconder-se num buraquinho de cada vez que eu quisesse dar-lhe um pedacinho de bolacha.
Fui soltá-lo lá a cima, ao pé do poço, o mais longe possível dos gatos da aldeia e, de vez em quando, passo por lá a deixar umas migalhinhas.
- E olha lá! - perguntaria o Primo Artur se eu lhe contasse esta história. - Como é que sabes que é ele quem vem comer essas merdas? Podem ser os pardais, sabes lá!
- Pá, não interessa - tinha eu de responder. - São as leis da hospitalidade, é assim e acabou-se.
E se ele refilasse, eu abria-lhe outra garrafa de tinto:
- Psst! Cala-te e bebe!
Mas sei que, depois, já a caminho de Lisboa, naquela espécie de viatura anti-tumulto a que ele chama carro, há-de dizer para a Prima Isaltina:
- É pá, olha lá! Aquele gajo está mesmo, pá...! Vai-se a ver, ele nunca foi muito bom, mas agora, porra, pirou de todo!
E eu ralado, hem?

quinta-feira, outubro 14, 2010

Danilo


Nasceu com a República, fez cem anos na segunda-feira, dia onze de Outubro.
Chamou-se Leopoldo Danilo Barreiros e foi um desses portugueses das sete partidas, dos sete ofícios, das setenta vezes sete mil aventuras.
Era uma pessoa curiosa, de inteligência viva, que se recusava a estar parado. Nasceu em Lisboa, em Alfama, foi criado em Alcântara, partiu para o Brasil onde vivia a sua Mãe; voltou, foi estudar para a Bélgica com passagem por Paris; partiu para o extremo Oriente, viveu em Macau onde, enfim, se casou, de onde voltou à Metrópole no fim da Segunda Guerra Mundial.
Já com filhos a crescerem, tirou o curso de Direito e fez-se advogado, partiu numa última viagem para S. Tomé; só voltou passados alguns anos.
Entre a sua colecção de recortes - de «coisas chinesas», dizia ele - uma ou outra cartada de bridge para ensinar os filhos, muitos livros (alguns escritos por ele próprio), e a profissão de advogado veio terminar os seus dias em Lisboa, em Campo de Ourique, em 1994.

Se perguntarem a quem o foi conhecendo, aqui ou ali, por tudo quanto é lado, qual a sua mais interessante característica, a que nele mais cativava, provavelmente obterão a mesma resposta:
- O Danilo?
- O Dr. Barreiros? Isso é que era um conversador!
Conversador brilhante e mutíssimas coisas mais.
No dia 11, quando faria cem anos, o seu filho Pedro publicou-lhe a biografia com título Danilo, No Teatro da Vida.
A sessão solene do lançamento do livro e a celebração do primeiro centenário do Danilo foram no Instituto Camões, numa sala que se mostrou exígua para tanta gente.