sexta-feira, julho 02, 2010

A volta do Concha Y Toro












"Sabe, no fundo
eu sou um sentimental .

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da síflis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar,

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora."


Fado Tropical, Chico Buarque, Rui Guerra

-
Querem saber?
Ando por aí, de supermercado em supermercado, de prateleira em prateleira, à procura.
Eu juro que já a vi, num daqueles dias em que devíamos bater em nós mesmos, de tão burros que estamos. Porque é que não a trouxe logo?
Era fim de mês, se calhar, o dinheiro já se fazia escasso?
Mesmo assim. Foi imperdoável.
Chamava-se Concha y Toro, Casillero del Diablo, era uma garrafa igualzinha, excepto na data, claro, a uma outra, de saudosa memória, trazida do Chile e que guardávamos para celebrar o derrube do general Augusto Pinochet.
Não chegámos a bebê-la: morreram ambos, o vinho, inocente, na sua garrafa, cansado de esperar, o Pinochas na cama, os pecados perdoados, quem sabe, por algum desses padres anti-operários, anti-comunistas, por causa de quem, ao cheiro dessa canela, Cristo se despovoa.
Mas se o Pinochas era um reles ditador, era também o símbolo de todas as reles ditaduras sul-americanas.
Culpa de Neruda? De Isabel Allende? De Spúlveda?
A Argentina e o Brasil tiveram, certamente, os seus escritores. Não terão alcançado a notoriedade, as suas denúncias ficaram, talvez, abafadas por livros como o De amor e de sombra.
Ou fomos nós que nos deixámos ofuscar.
Quase nos esquecíamos dos Videla, dos Castello Branco.
E mais.
Não passavam, todos eles, na sua empáfia condecorada, de testas de ferro, marionettes nos palcos da sul-américa. Mas de tal modo concitavam o ódio, quase nos faziam esquecer o Henry Kissinger, as secretarias de estado, os Nixon e os Ford.
Não chegámos a beber a Concha y Toro primeira.
Mas agora que o Videla, já condenado a prisão perpétua, indultado e novamente preso em prisão domiciliária, agora que vai novamente a julgamento, meu Deus!
Desta vez, não escapa. Quero uma Concha y Toro segunda para celebrar, pronto!
E, talvez não devesse dizê-lo, mas sei aí de um Porto, quase com cem anos.
Adivinhem quando é que a gente o vai beber.

Sem legenda

sábado, junho 19, 2010

Non omnis moriar

- Bem-vindo, José!
Adenda:
(alguns dias depois)
Andando longe do Portugal, caramba!, noutros e muito urgentes trabalhos, deparei com uma observação de Wittgenstein que talvez não seja disparatado citar aqui:
"Hoje em dia, os homens acreditam que os sábios existem para os ensinar, os poetas, os músicos, etc., para os divertir. Que estes últimos tenham alguma coisa para lhes ensinar, isso não lhes acode ao espírito."
L Wittgenstein, Vermuchte Bemerkungen (Reparos Misturados, talvez) 1939-1940

quinta-feira, junho 17, 2010

Sugestões úteis

Coisas que convém ter à mão para dizer ao seu terapeuta:
--
- É melhor dizer-lhe já, doutora: só cá vim para ganhar uma aposta com a minha mulher.
- Sou cem por cento normal, o que não sei é se isso é muito bom.
- Sonho muitas vezes que estou a estrangular o Carlos Queirós.
Acha mal, doutora?
- Estou a ver que a doutora tirou o curso em horário pós laboral!
Esse diploma é autêntico?
- Às vezes quando o estou a estrangular, transforma-se no Cavaco Silva.
- A coisa que mais me custa, sabe, é equilibrar-me de pé.
- Também faz perguntas dessas ao seu marido?
- Aquele quadro que tem ali é horroroso.
- Uma vez sonhei que estava a estrangular o Soares, mas acordei e fui tomar um duche.
- Sofro de Alzheimer desde perquenino, sabe?
- O desejável seria que nulla naturae phaenomena in hac confessione fuisse praetermissa...
mas, posso responder por escrito?
- A doutora joga bridge?
- Sonho muitas vezes que estou a estrangular o Cristiano Ronaldo.
Acha grave, doutora?
- Quando já não sei onde tenho a cabeça, vou lá às apalpadelas até achar a dor...
- Dessas coisas, não falo nem na presença do meu advogado!
- Sabe? Nunca me lembro daquela estrofe da Balada da Neve, cai neve não sei onde e cai neve noutro sítio qualquer.
- Ah! Ia-me esquecendo de dizer que sonho muitas vezes que estou a estragular a Amália Rodrigues, mas depois paro porque é a Nossa Senhora de Fátima.
Deve ser aquela coisa dos efes, sabe?
- Por vezes, o som das vuvuzelas é muito repousante.
- Já lhe disse que sofro de Alzheimer desde que fui à tropa?
- Acho que essa ampulheta está entupida.
- Sonho muitas vezes que estou a estrangular o José Sócrates. Será grave, doutora?
- Conhece aquele poema do Rilke:
... les amants,
comme le mensonge les surprend
à l'heure des confessions?
- Não haverá por aí um livro de reclamações?

domingo, junho 13, 2010

Trabalho de Casa

Sei um ninho
-
Miguel Torga,
Bichos,
«Sei um ninho»

quarta-feira, junho 09, 2010

Tema para a meditação de hoje

- Tenho a impressão de me ter esquecido de um pormenor...
Mas o que seria?

terça-feira, junho 08, 2010

Tarefas

- Despacha-te! Ainda temos de ir à segurança social e ao serviço nacional de saúde...

sexta-feira, junho 04, 2010

João Aguiar


Não sei se me vão entender, mas não importa.
Eu digo-vos na mesma, em letras bem grandes:
a esta hora,
pouco mais, pouco menos,
está nascer o novo Secular das Núvens
Não entenderam? Não faz mal.
Comprem a novela
A encomendação das almas
e percebrão o que há a entender sobre a vida, sobre a morte, sobre a vida para lá da vida.
Provavelmente, sobre a escrita do João Aguiar.

sábado, maio 29, 2010

Mentiram-nos este tempo todo?


Quando chegou o 25 de Abril, nós sabíamos que éramos um povo atrasado.

Devíamos à Providência a Graça de sermos pobres, lembram-se? Morávamos ainda em casas de telha vã, chão de terra batida, andávamos quilómetros a pé, no Inverno, com as solas rotas, para chegar à escola: fazíamos a terceira classe e íamos trabalhar.
Desde tempos remotos, os ratinhos e os malteses tinham vindo em ranchos fazer as colheitas e as vindimas, varejar a azeitona ou pescar noutras águas muito para longe das suas terras. Não ganhavam muito, o que amealhavam mal dava para um vestido para a cachopa, um lenço para a velhota, para a onça do tabaco, para o copo de três a festejar o regresso. Outros conseguiam vender uma fazenda ou tinham um parente que os chamava, iam para o Brasil, para a Venezuela.


Tínhamos escapado da II Guerra Mundial, não escapámos aos movimentos de libertação das colónias. Vimos partir o simbólico forte de São João Baptista, depois o Estado da Índia.


A guerra rebentou em três frentes.


Disseram-nos que a Pátria não se discute e que choraríamos os nossos mortos se os vivos não os soubessem merecer.

-

Foi quando descobrimos a Europa, a Europa nos descobriu a nós.

Fomos a salto, os que queriamos fugir da Guerra, os que não aguentávamos esperar por um papel da Emigração.

Trabalhámos duramente, muitas horas por dia, para ganhar aquele pouquinho que, para nós era a fortuna. À noite dormíamos no bidonville.

Os Europeus, por seu lado, descobriram a Civilização do Lazer, descobriram o nosso sol, as nossas praias, a nossa comida de farta-brutos e a nossa ingenuidade meio canhestra, meio interesseira.

Vendemos-lhes cervejas e vinho tinto, trabalhámos no batiment e a servir à mesa, as nossas mulheres fizeram limpezas às Frau-qualquercoisa.

-

Juntámos um dinheirito debaixo dos nossos colchões e logo nos vieram dizer que não era assim: os bancos abriram filiais para captar os nossos pés-de-meia.

Disseram-nos que abríssemos contas, que comprássemos acções, fizéssemos a casa, que comprássemos um carrito a prestações.

A auto-estrada de Lisboa-Porto ia até Vila Franca, sumia-se, depois reaparecia às portas da Invicta.

Tínhamos o Eusébio, mas também tínhamos a maior taxa de analfabetismo da Europa, a menor de estudantes universitários, tínhamos uma censura prévia, a visita de Paulo VI e o Dia da raça.

O que os emigrantes ganhavam, o que os visitantes por cá gastavam, sumia-se nos orçamentos suplementares que reforçavam os gastos do exército. O Algarve ia-se transformando, a pouco e pouco num caos urbanístico.

-
Lisboa já o era.

Bairros inteiros viram demolidas as suas moradias, os prédios mais baixinhos. Em seu lugar surgiam caixotes de linhas mais ou menos direitas, grandes varandas que logo eram fechadas em marquises. As aldeias periféricas, a Amadora, Queluz, o Cacém, Loures, Sacavém e por aí fora, sucumbiram ao cimento armado, ao betão.


A 25 de Novembro de 1967 abateu-se sobre Lisboa uma tempestade. Choveu nessas obras recentes e umas quinhentas pessoas - estimativas oficiais - morreram afogadas, desmoronadas, soterradas.


A polícia modernizou-se para conter as manifestações dos estudantes, dos operários.


-
A 25 de Abril, na sequência de um pronunciamento militar, a população de Lisboa insurgiu-se e, de todos os lados, surgiram as adesões.


Julgava-se, talvez com razão, que a propriedade estava mal distribuída, mal utilizada. Que os monopólios concedidos pelo Estado Novo entravavam o desenvolvimento. Que a especulação imobiliária privava de casa milhares de jovens casais.


Em suma, acreditámos que "o pão que sobrava à riqueza, distribuído pela razão, mataria a fome à pobreza e ainda havia de sobrar pão". Era simples, o programa que quisemos ver realizado e era fácil de o gritar em coro: "a paz, o pão, saúde, educação."


E pintámos essas coisas simples em grandes murais que encheram as paredes nuas.

-

Disseram-nos depois que estávamos errados.

Que das herdades colectivas, das fabriquetas em auto-gestão porque os donos estavam fugidos no Brasil, nada viria senão mais miséria, novas escravaturas.

Falaram-nos nos Gulagues e disseram-nos que o que importava era a liberdade, o direito de escolher e por aí fora.

Que a liberdade de ensino era fundamental e que eram necessárias as universidades privadas.

Que os bancos privados também eram necessários, que a iniciativa privada traria o progresso, que algumas privatizações eram razoáveis.

Em nome da liberdade criaram-se rádios privadas, televisões privadas, permitiu-se a formação de grandes grupos na comunicação.

Trouxeram-nos, do Brazil, de onde regressavam os donos, as telenovelas.

-

A publicidade tornou-se agressiva.

Alguém andou a promover a ideia dos JEEP, quer dizer: jovens empresários de elevado potencial.
Não éramos jeepes?

Não, nós trabalhávamos.

Então não éramos nada. Nada.

Não passávamos férias no clube mediterranée.

Não tínhamos um iate na marina de Belém nem de Vila Moura. As nossas mulheres não vinham na Caras.

Então deixássemos trabalhar quem sabia, quem fazia dinheiro, quem viajava em classe executiva.

Abríssemos caminho porque os gestores, os administradores, os administradores executivos e os administradores delegados tinham mais que fazer.

E que a Europa estava connosco.

-

Aderimos à CEE.

Não à CDE, a comissão democrática eleitoral de antes do 25 de Abril. À CEE, ao mercado comum, à Europa.

Nós que fizéssemos os cursos de actualização, que eles pagavam. Que modernizássemos a nossa frota, que eles pagavam. Que reconvertessemos as nossas metalo-mecânicas e as nossas fiações que eles pagavam.

Pagaram.

Mas disseram-nos que tínhamos de liberalizar a nossa economia que era muito fechada.

Que tínhamos de acabar com os monopólios.

Que tínhamos de emagrecer o estado.

Que tínhamos de deixar morrer a Lisnave e a Sorefame.

Disseram-nos que o crédito era fácil.

Disseram-nos que, finalmente, estávamos a apanhar a Europa.

Disseram-nos que precisávamos de mais auto-estradas e mais uma travessia do Tejo.

Acreditámos e tudo isso foi feito.

E disseram-nos mais: precisávamos de um novo aeroporto, outra travessia do Tejo, de combóios de alta velocidade, de submarinos.

-

Explicaram-nos a seguir que a economia mundial estava em crise e que já não tínhamos crédito.

De nada valeu dizermos que trabalhávamos, que sempre tínhamos pago as nossas contas.

Disseram-nos que não éramos competitivos.

Que a nossa produtividade era fraca.

Que continuávamos analfabetos, sofríamos de iliteracia profunda, que éramos os piores a matemática.

Disseram-nos que o dinheiro que tínhamos descontado toda a vida não chegava e que tínhamos de fazer cortes nas despesas de saúde, subscrever seguros de saúde pagando um pouco mais.

Disseram-nos que tínhamos demasiados velhos, que a população estava envelhecida.

Disseram-nos que éramos dispensáveis e começaram a despedir-nos.

E já nem sequer nos dão explicações.

-

Mentiram-nos este tempo todo?

Estão a mentir-nos agora?

terça-feira, maio 25, 2010

Sem Título

- Qu'é da página das boas notícias?
- Atão, vê a necrologia.

segunda-feira, maio 17, 2010

Choque petrolífero, 6ª fase

- Mãe-iii! Achas que os homens já aprenderam a fazer núvens de tinta como nós?
-

domingo, maio 16, 2010

Tema para a meditação de hoje


"Salários record em plena crise
Os 584 conselheiros executivos e altos directores das empresas do Ibex 35 cobraram, em média, um milhão de euros no peor ano da recessão..."
-
(El País, 16 de Maio)
-
Ai sim? E já viram os do PSI 20?
E os do ano que vem?

quinta-feira, maio 13, 2010

Subsídios para o Livro de Aka XXIII

O puto aproximava-se num enviezado deslizar,
mansinho como se não fosse dali,
os ténis gastos, num repente pontapearam o pombo
que rolou e logo foi agarrado, pescoço partido num gesto seco.
Aka agarrou-o pela roupa.
- Larga, gritou o puto.
Rolou para fora da t-shirt, mostrando o corpo sujo, de ossinhos miudos, nódoas negras de andar à pancada, correadas de pai, apertos de chui, esfoladelas de tombos.
Aka apanhou o pombo caído, quente, magro também ele, julgou sentir um último estremecimento.
- É meu, gritou ainda o puto, a encurtar o metro de distância, uma pedra bem cerrada na mão esquerda.
- Que mal te fez ele, perguntou Aka ainda zangada, olhos nos olhos corruscantes.
- Que mal te fez a lagosta que tu comeste ontem, ó parvalhona?
- Mas tu não vais comer isto.
- Eu? Não. Eu deito-o fora e tu vais apanhá-lo.
Aka abrandou, estendeu-lhe a t-shirt e o pequeno cadáver.
- Não devias comer pombos das cidades. Estão cheios de doenças. E sabem a esgoto.
- É bom saber, disse o puto com um riso súbito nos olhos.
- O quê?
- Que os esgotos sabem a pombo frito.
- Raspa-te antes que eu me arrependa!
- Heu, que medo!
Dá-me um euro e digo-te uma coisa que tu não sabias.
Aka estendeu-lhe a moeda.
- O quê?
- A tua lagosta. Eu vi uma vez.
Deitaram a gaja para a água a ferver.
Parou um instante como quem recorda alguma coisa preciosa:
- Havias de ouvir os ruídos que ela fez a morrer.
- Puto estafermo! - murmurou Aka.
Mas ele já ia longe, saltitante,
com o seu pombo e o seu euro.
-

sexta-feira, maio 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Quatro mil trabalhadores dizem que há um Granadeiro a mais na PT
-
Recortes do jornal Público, com a devida vénia.

quarta-feira, maio 05, 2010

Tema para a meditação de hoje

Será verdade que "quando a esmola é grande, o pobre desconfia"?
É que, juro-vos, nunca, por nunca ser, eu vi esse tal pobrezinho deitá-la fora. E muito menos em tempos de crise, claro.

terça-feira, maio 04, 2010

quarta-feira, abril 28, 2010

Uma história (sem pés nem cabeça) em que se fala de cabaias e mandarins e do Prémio Pessoa.

-
-Estou aqui numa de digo, não digo... e afinal, olha, já está.
O meu problema é que não gosto de banqueiros, nem muito, nem pouco. E também não nutro qualquer simpatia por gente demasiado rica, ainda menos pelos os grandes gestores, aqueles que ganham para cima de um milhão por ano.
Feita esta declaração para salvar a moral, já posso acreescentar que são pessoas engraçadas e, às vezes, até é instrutivo vê-los.
Deles, dir-se-ia que são gente fina.
Vestem bem, boas roupas, muito clássicas, geralmente, de bom gosto, gravatas dignas de um Beau Brummell.
Frequentam, ia jurar, ginásios com personal trainers e tudo, massagistas privadas de vez em quando. Costumam ser pessoas amáveis, sobretudo nos contactos sociais, porque dos outros, que sei eu?
Para meu gosto, no entanto, têm um defeito: são demasiado direitos.
Eu explico:
Quando os vemos ali parados, em evidência, no meio das salas, com copo na mão, não podemos deixar de reparar nos ombros recuados, nas costas esticadas, a cabeça levantada.
Obviamente, ou não são assim tão velhos, ou envelheceram francamente bem.
-
Mas pronto: a que propósito vem isto tudo?
É que ontem ou talvez já anteontem, pronto, na terça-feira, dia 27, o Doutor (e Dom) Manuel Clemente, Bispo do Porto, esteve na Culturgest a receber o Prémio Pessoa.
Talvez não fosse único dos presentes a não fazer gala num porte desportivo, a não trazer as unhas manicuradas, a vestir o que veste todos os dias.
Mas era o que estava mais em evidência.
Subiu ao palco para receber o que lhe queriam dar e depois para nos dizer que o Padre António Vieira "é o caso acabado de como em Portugal [...] sempre nos desperdiçámos quando não consideramos o que cada um é e pode oferecer aos outros, do presente para o futuro."
E nós, eu pelo menos, ficámos a pensar: mas o que é que esta gente toda, eu incluído, tem para dar? E a que futuro?
Olhando em volta, não se via muito bem; estava ali a nata das natas, o futuro, nem por isso.
-
Lembrei-me daquela antiquíssima história passada algures lá para os confins do Celeste Império.
Conta-se que, há muito tempo, num cantão longínquo chamado Ba-pei ou coisa assim, o velho e sábio mandarim morreu.
E aconteceu o que acontece sempre: foi preciso nomear outro.
De recomendação em recomendação - porque essa coisa das cunhas e dos empenhos não foi inventada só para nós - lá foi proposto a exame um letrado dos seus quarenta e tais, cinquenta anos, o que, numa gerontocracia, já se vê, é a extrema juventude.
Falta dizer que, nesses tempos, como provavelmente ainda hoje por todo o lado, havia no Celeste Império um alto funcionário que tinha a seu cargo a balança de pesar as cunhas: punham-se as moedas de oiro ou os pergaminhos no prato e quem pesava mais passava nos exames e ficava com o cargo.
Ora, lá no distante e pobre Ba-pei as influências não pesavam muito, no fundo que importava? Era só um mandarinato de nono grau, uma borlazinha de prata no chapéu.
O funcionário da balança encolheu os ombros, o Imperador, no palácio da Cidade Proibida por onde bocejava de tédio, não viu razões para objectar e o decreto foi assinado.
Se nada disto chegou para perturbar a rota do Sol, o mesmo não aconteceu com o juízo do jovem letrado que, guindado ao mais alto posto da pequena província, resolveu logo mandar fazer a cabaia do cargo, com uma resplandescente ave do paraíso bordada no peito.
O alfaiate, porém, como acontece em muitas histórias, era sagaz. Não ousamos afirmá-lo, mas, em calhando, era ele o representante da própria esperteza sarcástica do Zé Povinho que não perdoa nem uma.
E lá da sua fingida humildade perguntou ao nóvel mandarim - como se o ignorasse - há quanto tempo ocupava ele o cargo.
- E que tens tu com isso? - perguntou enxofrado o cliente.
E o alfaiate, curvando-se ainda mais humilde, disse:
- Senhor, é só por causa da seda.
Mandarim de fresca data, explicou ele, anda impante pelas ruas, peito para fora, muito teso, muito esticado, quase se diria que andava sempre nos bicos dos pés para se fazer maior. Por isso, a cabaia levava muito mais pano à frente e menos nas costas.
Pelo contrário, mandarim de antiga nomeação, por jovem que seja, curva-se ao peso da responsabilidade, arqueiam-se-lhe as costas como que numa reverência às complexidades do mundo. O tecido que dantes lhe cobria o peito, sobrava, arrastava no chão. E o que tapava as costas ia faltando cada vez mais.
- Bem vês, Senhor, uma obra bem feita, precisa de conhecer aquele a quem se destina. Ganhaste esses ainda poucos cabelos brancos a cuidar do bem comum ou pertences a esta nova geração de gente elegante que cuida da aparência antes de mais?
-
A resposta que o mandarim deu ao alfaiate já não faz parte da história, claro.
Mas eu, cá para mim, iria jurar que foi mandado chicotear e despedido a seguir, porque é o que fazem os grandes.
Entretanto, o Manuel Clemente desceu vagarosamente as escadinhas do palco, um pouco curvado, como é seu hábito.
O alfaiate chinês, com a sua sagacidade, havia de lhe fazer uma cabaia com mais pano nas costas. Fazia sentido, não fazia?

terça-feira, abril 27, 2010

Tema para a meditação de hoje: Ricardo Sá Fernandes

Sabem?
Estamos em crer que ele não precisa do nosso apoio para nada.
Mas, para nós, aqui no Portugal, Caramba!, é muito importante dizer que ele o tem.
Nem que mais não seja,
para que um dia possamos olhar-nos no espelho e dizer,
com uma pontinha de vaidade:
nós estivemos lá.

segunda-feira, abril 26, 2010

Anjo papudo, com asas e tudo

Claro, por uma intenção particular, uma vez mais.

domingo, abril 18, 2010

Por falar em fumo...

- E pensar que não me deixam fumar o meu cachimbo em parte nenhuma...

quarta-feira, abril 07, 2010

Tema para a meditação de hoje

Não perguntes o que a iniciativa privada pode fazer por ti.
Pergunta antes o que podes tu fazer pela iniciativa privada!
-
Ouviste, ó palerma?

sábado, abril 03, 2010

Sem título

- Meu Deus, vai recomeçar...

sexta-feira, abril 02, 2010

Tema para a meditação de hoje





Os jornais estão cheios com a foto de uma jovem de dezassete anos que já era viúva quando faleceu, juntamente com as suas vítimas, no metro de Moscovo.
Tinham-lhe morto o marido, provavelmente com todas as razões do mundo, carimbo e benção oficial e não serei eu, ignorante como sou, quem atirará pedras ao executor.
Mas não posso deixar de pensar em Romeu e Julieta, no desesperado e violento amor dos treze anos, dos catorze, quinze, dos teenagers. Quem transformou Dzhennet Abdurakhamanova numa viúva negra, estava, receio eu, como sempre, a criar alguém capaz de quase tudo. Por amor, por ódio, por desespero.
Provavelmente ninguém o confessará:
Fosse Dzhennet feia, velha e com bigode, bah! Mais um terrorista, daqueles que se abatem sem dó nem piedade quando está na mira de uma pistola, de um helicanhão.
Mas ela era apenas uma menina, das que, no nosso país andam ainda no secundário; e era bonita. Faz-nos pensar na inocência, não faz?
Faz-nos pensar que Julieta, ao contrário do que é costume pensar-se, é uma ideia feita, não morreu de amor: morreu vítima de uma forma de bulliyng que aos jovens de Verona era permitida. Quem se não lembra, releia a cena do duelo entre Marcutio e Tybald e preste a atenção à insolência deste, à fanfarronice de todos, ao clima de violência instalado.
Mas a violência não se ficou pelas peças de Shakespere, não era só a de Verona.
Houve um brasileiro em Londres, lembram-se?
Foi abatido, assim, pás!
Azar! Era engano.
Houve protestos, claro, indemnizações e por aí fora. O atirador foi admoestado, certamente, são sempre.
Nós, neste cantinho da Europa, não podíamos ficar atrás. Também somos gente, não somos?
Há dias, um rapper que, se calhar, ia distraído a falar ao telemóvel, que talvez tivesse bebido um copo a mais, ou que, pura e simplesmente ia noutra, foi abatido pelas forças de segurança. Não ia, tanto quanto se soube, a fazer mal nenhum. Acontece que não parou quando lhe mandaram.
A autoridade perdoa tudo - sobretudo se houver uma pequena lembrança - menos a desobediência. É o que enfurece mais o bully: é que alguém lhe resista, que se esteja nas tintas para ele, que não lhe obedeça instantânea e submissamente. Multa. Bate. Dispara. O guarda, o que disparou - vai uma apostinha? - vai ser admoestado também.
É como as crianças que torturaram e afogaram uma pobre mulher doente, lá para as bandas do Porto. Foram admoestadas pelo sr. Dr. Juíz, se calhou, pelo sr. Padre Maia também, ia jurar, por toda a gente responsável.
E é como aquelas crianças que mandaram o Leandro Filipe para o hospital. E as que agora o empurraram para o Tua, mesmo se não foram elas, não, não! Ou prontos, foram, mas foi sem maldade, era só de brincadeira. Vão ser admoestados, podem ter a certeza!
E vão todos ter apoio psicológico porque estão muitíssimo transtornados.
As vítimas, essas morreram, como o jovem rapper, como o brasileiro de Londres, como a Gisberta.
Uma por outra recebeu, muitos anos depois, uma indemnizaçãozeca regateada que nem a símbolo chega. Foi o caso de uma rapariguita que só queria frequentar a universidade e se declarou anti-praxe, mas, hélas, foi torturada, violentada, humilhada.
Outros ainda, suicidaram-se.
É tão simples quanto isto: não quero este mundo, não quero esta gente, não quero! Vou-me embora!
A forma que escolhem para se despedirem é que faz a sua diferença.
Já aqui o disse: o Leandro Filipe era bom menino. Terá voltado a violência contra si próprio.
Dzhennet, de cultura muçulmana, escolheu ser bombista suicida.
Se fosse norte-americana, cristã de cultura, democrata e ocidental, teria escolhido entrincheirar-se numa torre da sua faculdade e disparar a esmo.
É uma vingança cega, injusta, mas é o único heroísmo julgado possível num mundo em que o poder se serve, ele próprio, dos bully, quer se chamem Bush, Blair, Aznar ou Barroso, para enforcar outros bully que se tornaram incómodos.
Um poder que precisa de guardas republicanos, de seguranças, de carcereiros para as abu garibes e as guantanamos que são a sua forma de domínio e, claro, não pode deixar de lhes tolerar os desmandos, os excessos, os erros.
O poder é assim mesmo: as forças armadas americanas, inglesas, russas, que sei eu, julgaram-se no direito de atacar, brutalizar, gritar, impôr.
As vítimas, às vezes, escolhem vingar-se.
Uma delas, por exemplo, chamava-se Dzhennet.
Tinha dezassete anos e fez mais vítimas que talvez tenham dezassete anos e que um dia farão - quem sabe? - mais vítimas...
Ninguém foi muito feliz e tiveram muitos filhos que foram devorados pela aviação inimiga.


segunda-feira, março 29, 2010

«Basta-me viver»?


Carlos Vale Ferraz,
Basta-me viver,
Edição da Casa das Letras,
Março de 2010, Alfragide







-
É aborrecido, mas estou a ficar sem autores favoritos.
Sabem como é: aqueles que, descoberto um livro, nós partimos imediatamente em duas opostas direcções: uma para o passado, é espantoso, ela (ou ele, claro) já tinha publicado tudo isto e eu nem o vi?
Ou vi, mas não liguei nenhuma?
Momento óptimo para uma fúria consumista e zás!
De repente ficamos com leitura para umas semanas.
Aconteceu-me com o Mário de Carvalho, por exemplo, creio já ter falado nisso algures. E com o Paulo Castilho e com o João Aguiar.
E claro, depois de lido o passado, ficamos à espera do futuro - que, diga-se, ao contrário dos actos dos ministros e das más notícias em geral, leva muito tempo a chegar.
Os autores, por motivos lá deles, parecem ter arrumado a caneta, e só pegam no computador para jogar free cell.
Eu, cansado de esperar, no meio da livraria, grito indignado:
- Mas o que é eles andam a fazer, caramba?
-
Carlos Vale Ferraz não pertencia a este grupo. Lido o Nó Cego, não me precipitei à procura de outras obras. Erro meu, quem sabe?
Há uns dias, porém, enquanto esperava por uma amiga e a fazer horas numa livraria, dei com Basta-me viver. A contra-capa parecia feita de propósito para pôr a milhas o mais pintado: "Uma história de amor absoluto de duas mães pelos seus filhos, dos sacrifícios em nome do amor e das contradições do dever."
Não conhecesse eu o nome do autor e julgaria que estávamos perante uma reedição de Corín Tellado.
Seria publicidade negativa? Se era, funcionou, porque eu trouxe o livro.
-
Afinal, era dos que se lêem de um fôlego quase até ao fim. E sublinho o «quase» dado que, infelizmente, o interesse foi morrendo à medida que José Maria Gonzaga Torres, narrador e personagem fulcral vai assumindo maior protagonismo.
A técnica narrativa não é inédita, mas é extremamente eficiente e isso é o mínimo que se pode dizer da escrita de Vale Ferraz que é límpida, sem rodriguinhos.
Como num inquérito policial, ou como numa investigação jornalística, o jovem José Maria, filho de um oficial miliciano, piloto de helicópteros do exército colonial e de Ana Paula, uma jovem pertencente ao clã dos Gonzaga, uma poderosa família crioula de Luanda, vai recolhendo os pedaços da sua própria história em conversas com os seus perdidos familiares, através do depoimento de próximos: a madrinha, uma freira que deu abrigo à sua mãe, o tio guerreiro das muitas guerras angolanas, a Avó paterna, um General Gaeiras comandante do Avô Torres na Legião Portuguesa, etc.
Lemos assim, com grande interesse, muita coisa sobre os últimos anos da ocupação portuguesa, sobre o papel da Pide nas colónias e sobre a vida numa base de guerrilheiros, sobre o próprio 25 de Abril, sobre o período da independência de Angola e a guerra pela sobrevivência do MPLA.
Nada de melhor para nós, portugueses que temos teimado em ignorar as derrotas militar e económica, o fracasso do colonialismo, a mais absoluta ausência de projecto nacional.
Vale Ferraz é um escritor informado e transmite-nos os factos com mestria e a leveza própria de um romance que nunca se assume como histórico, mas que, de facto, o é.
Infelizmente, à medida que José Maria, "o neto que", parafraseando o autor, "nenhuma das pátrias quis ter" começa a narrar a sua própria história, a partir do momento em que deixa Angola, percebemos que ele pertence a outra metáfora e que não se encaixa nas outras todas.
Macau, as tríades, o jogo, os últimos anos da administração portuguesa, serão temas fascinantes, mas, a nosso ver, como simples leitores, estão a mais neste romance.
Acreditamos que fosse essa a intenção do autor: esse filho de culturas tão diversas, gerado e parido na guerra, só pode tornar-se num exilado, batoteiro profissional - com um toque de realismo mágico aqui e alí, a nosso ver perfeitamente dispensável - ao serviço de uma tríade. Ponto. Assim termina a saga colonial dos portugueses.
É. Mas José Maria também tem sangue angolano. Não era esse o futuro que eu lhe auguraria.
No mais, e Vale Ferraz que me perdoe, o romance perde-se.
Deveria ser uma narrativa do amor cego de duas mães aos seus dois filhos e é uma narrativa da traição das mães:
Fernanda Torres, a avó paterna do jovem José Maria, trai o marido, o salazarista Augusto Torres, com o melhor amigo do filho falecido, ainda por cima.
A avó Gertrudes, do lado materno, essa trai a filha e trai o neto.
A própria Ana Paula, a mãe, trai o seu clã, trai os seus pais ao deitar-se com o inimigo e trai-os de novo quando se nega a assumir o seu lugar na complexa organização dos Gonzaga.
E o grande fio condutor do romance, no nosso demasiado ousado entender, é a traição da Pátria, de todas as pátrias, como já era em Nó Cego.
Ou talvez melhor, neste caso: de todas as mátrias.
-
Li o Nó cego na 4ª. edição, profundamente revista. Tenho pena de não ter conseguido arranjar um exemplar da primeira versão do romance. Por isso, limito-me a citar o que escreve Rui Azevedo Teixeira no prefácio:
"... As mudanças efectuadas tornam visíveis aspectos pertinentes da matéria negra do universo do romance. Assim, o reforço informativo, que nunca chega à cansativa minúcia que mata tantos romances históricos, ou os cortes, acrescentos, trocas e ajustes diversos ou, ainda, por exemplo, a demão dada ao episódio da Ilha de Moçambique, em nada retiram o vigor de Nó Cego. Pelo contrário, com as alterações introduzidas pelo autor, o livro ganhou ainda mais consistência sem ter perdido a frescura, o tom ou uma qualquer fatia essencial da história."
Como O crime do Padre Amaro, nas suas sucessivas edições.
Por isso, muito embora Basta-me Viver não tenha sido, de modo algum, uma desilusão, confesso que vou esperar por uma quarta edição e voltar a comprá-lo.

sexta-feira, março 26, 2010

sexta-feira, março 19, 2010

Qual Celecanto?

Se um ecozine acorda muita gente,
dois ecozines acordam muito mais!
Se dois ecozines...
-Foi ontem e havia mesmo uma baleia no Museu de História Natural, suspensa no ar, como quem nada displicentemente, a olhar por nós.
Estava lá muita gente.
O Celacanto, com os seus oitenta e tal colaboradores, já não é só um ecozine.
Começa a ser também um movimento.
Podem saber mais coisas no site da Qual Albatroz; porque é que não dão uma espreitadinha?

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Celacanto nº. 2

Se nunca esteve debaixo da barriga de uma baleia, aqui tem a sua oportunidade.
No dia 18 de Março, uma quinta feira, a Qual albatroz lança o nº. 2 do ecozine Celacanto.
O primeiro número foi sobre o albatrós - o patrono da editora.
Este agora vai ser sobre o lobo.

Vale bem a pena dar um saltinho à rua da Escola Politécnica 58, em Lisboa (1), passear uns minutos pelo Jardim Botânico e, às 18 horas dirigir-se ao Museu de História Natural. Só falta encontrar a dita baleia. Não nos parece que seja muito difícil.
Encontramo-nos lá.
-
(1) O Rui Rio tem razão: Lisboa açambarca tudo o que é importante.

segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
-
Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
-
A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
-
Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

quinta-feira, março 04, 2010

Ir à escola mata!

Tinha doze anos, mais mês menos mês e foi vítima de um fenómeno que agora se descobriu. Até já tem nome em inglês, é uma coisa séria, subiu à categoria dos maremotos que são tsunamis e tremores de terra. Chama-se bullying.
-
O meu dicionário começa por explicar que o «bully» é o «hired ruffian, blusterer, browbeater», ou seja: o rufião encartado, o vociferador, o ameaçador.
Também se aplica, em Eton, ao que parece, àquelas molhadas que se formam no rugby a que se chama também a mêlée e em que o desgraçado que sai lá de baixo, ou tem o caparro de um lutador de wrestling ou sai feito num oito.
-
O bully, portanto, é um atormentador. Mais: regra geral não age sozinho. Exibe-se para o seu grupo e, em caso de resistência do atormentado, não hesita em socorrer-se da ajuda dos outros todos. A mêlée, nem que mais não seja pelo número, raramente perde.
Se a memória me não falha, está aqui tudo o que falta para fazer delinquentes juvenis.
-
Claro, se assaltarem uma loja, se roubarem carros, chama-se a polícia, exigem-se medidas: atentou contra o património. É grave.
O cidadão comum indigna-se, exclama que «só neste país!», pergunta o que faz a polícia.
Os ministros anunciarão reforços às forças da ordem, o policiamento de proximidade, o bacalhau a pataco e que a semana vai ter nove dias.
Um ou outro desses jovens delinquentes será detido com grande estardalhaço e confiado mais ou menos em segredo á guarda dos mesmos tutores que não souberam socializá-lo.
-
Se o mesmo jovem se dedicar a tiranizar os mais novos, os mais pequenos, se lhes roubar o lanche, as canetas, os trocos, se com grande valentia distribuir porrada, se rasgar os livros de estudo, se insultar e bater, tudo bem, ninguém sabe, toda a gente estava a olhar para outro lado.
Os mais pequenos sofrem, mas não dizem nada, porque é o medo que guarda a vinha. Os pais não sabem porque os filhos não falam. Os professores não têm meios e os conselhos directivos garantem que na escola não foi.
-
Mas foi.
Não interessa se foi para lá do virar das esquinas, longe da vista e longe do coração, que a agressão se concretizou: foi na escola que se estabeleceram os domínios, se designaram as vítimas, se iniciaram as perseguições: primeiro com os risinhos, o desdém, logo o insulto, o empurrão, o pequeno roubo "a brincar", o estojo dos lápis atirado para longe, a mochila escondida.
Se as coisas forem mais longe, mais longe serão: fora da escola, longe das testemunhas.
-
Mas, como é um fenómeno, pronto, então está tudo bem. É como os ritos de iniciação, um homem não é homem se não partir sete vezes a cabeça, se não pegar um garraio de caras, se não for à tropa.
Os jornais escrevem em grandes títulos que um "estudo académico conclui que 13,5% dos estudantes do secundário são alvo de agressões sistemáticas". 13,5 é um número significativo: é como dizer-se que uma fatia importante dos adolescentes perdem a virgindade antes dos quinze anos, ou que a incidência das borbulhas faz parte do crescimento. O Dito bullying também.
Até há estudos académicos. A honra está salva.
Os reitores das universidades, quando recebem estes jovens delinquentes, já podem aceitar a existência de rituais de iniciação, de praxes violentas, do que for.
Se alguém faz perguntas, todos negam:
Que está garantido o direito a declarar-se contra a praxe, dizem.
Que sempre foi assim e que não tem havido queixas.
Não, não tem havido queixas.
-
Uma vez por outra morre um Leandro Filipe.
- Não pode ser! - gritam-nos logo. - As nossas instituições são perfeitas. Foi um azar! A culpa foi dele de certeza.
Talvez, talvez tenha sido. E minha, também.

domingo, fevereiro 28, 2010

Tema para a meditação de hoje

Lao-tsé disse que quem muito escolhe nunca acerta. Mas acrescentou que aquele a quem só é dado escolher o já escolhido, também não.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Tema para a meditação de hoje

Duas coisas, neste penoso momento, vos devem consolar, Irmãos, se meditardes nelas.
A Primeira é que é que já ninguém pensa em vender os bens da nossa Santa Igreja para pagar a crise, tão pequenos são uns e tão grande é a outra.
E a segunda é ainda mais importante, vede bem e pensai nisso quando fordes votar: é que desta vez, meus Irmãos, desta vez, Deus está inocente.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Maria de Lurdes Pintasilgo


















Chamava-se Maria de Lurdes e teria feito os oitenta anos no dia dezoito do passado mês de Janeiro.
Mas não resistiu tanto.
O Mundo, quando não os consegue quebrar, mata-os, escreveu Hemmingway, e Maria de Lurdes faleceu num dia de Camões, no dia 10 de Junho de 2004.
Tinha sido primeira ministra de Portugal durante uns cem dias. Depois correram com ela para o Parlamento Europeu, para a Unesco, para muito longe.
Não admiro muita gente, o defeito é meu, eu sei, e os políticos ainda menos. Mas esta Senhora fazia parte das excepções.
Não acreditávamos nas mesmas coisas, é claro, mas ambos tínhamos fé na Palavra. «A Palavra age», disse ela durante a campanha presidencial de 1986.
Nunca soube se esta «palavra» a que ela se referia era o Verbo bíblico, aquele de que fala S. João quando diz ao princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus... ou se era o logos dos gregos, razão do que existe, o princípio ordenador de Heraclito ou dos estóicos.
Nunca tive a oportunidade de lhe perguntar, nem sequer era importante. O que importava, isso sim, é que, quando ela falava, todos percebíamos que não era a palavra com que se escreve o Diário da República
Tenho saudades das pessoas como ela.
Ainda não sei, mas para o ano, em calhando, voto no Manuel João Vieira.

sábado, fevereiro 20, 2010

Desempanadora Ruço, Ldª.

Já toda a gente ouviu falar na depressão de Inverno: o frio, os dias cinzentos ou, pior, chuvosos, tudo isso contribui para uma quietude melancólica, para uma vaga tristeza que bloqueia criatividades e sentido crítico.
Depois, tudo se acumula, livros que demoram a ser lidos, cartas que têm de ser escritas, jornais intactos que vamos empilhando porque um dia havemos de ver aquele artigo muito importante, aquele peça de teatro que era imprescindível e que deixámos sair de cena...
Pois bem: connosco, aqui no Portugal, Caramba! não foi nada disso.
Uma pequena avaria, como pode acontecer mesmo aos melhores, quanto mais a nós; mas já chamámos o pronto-socorro.
Não sabemos quando chegará, mas que vem a caminho, isso vem.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Run rabbit, run!

Run rabbit - Run rabbit - Run! Run! Run!
Don't give the farmer his fun! Fun! Fun!

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Sem título

Já repararam?
Não há autorzeco nenhum, por mais de meia tijela que seja, que, nos seus momentos, não nos venha falar da ângústia do papel em branco, essa folha virgem que resiste, que esmaga, que rejeita.
Tudo bem: que fiquem com os seus papelinhos ansiogénicos.
Nós, aqui no Portugal, caramba! afirmamos de caras, veementemente, contra tudo e contra todos, que isso não se aproxima nem ao longe de uma outra, mais aflitiva, mais torturante: a angústia do blog em branco.
Acreditem: nós sabemos do que estamos a falar.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Dados empíricos



- Diz, Titi: tu não tens pipi.
- Disparate, João.
Toda a gente tem.
A Tia também.
- Não tens, não.
No outro dia,
na pia,
estavas a fazer xixi,
eu espreitei
e não vi.


João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Obediênciazinha, pois então! (II)






Todos os dias, logo pela manhã ou já a dobrar para a tarde, ou às horas que forem, repetimos os mesmos gestos, já viram?

Calçamos uma meia em cada pé, admitindo que ainda temos os dois da praxe; comemos umas tantas refeições, ouvimos as mensagens no telemóvel; compramos o jornal; ligamos a televisão, vemos os prós e os contras; amamos os prós quando são nossos, odiamos os contras quando são os outros. À socapa, fazemos zap e espreitamos um ou outro dos canais porno com que, gentilmente, a meo ou a zon mais próxima nos quiseram perverter.
Se nos perguntarmos, dizemos que é assim mesmo. Mas já fizemos as perguntas todas há tanto tempo e as respostas sempre imitaram as respostas, de que vale estar sempre a perguntar?
Lemos os mails, alguém nos mandou uma anedota sobre a ministra da educação; navegamos na net ao acaso.
Dormimos. Ao lado da esposa que já foi exaltante.
Sonhamos, mas não nos lembramos com quê.
Acordamos.
Repetimos.
Tomamos o café, tomamos o duche.
Calçamos meias lavadas. Convém.
Talvez outros sapatos.
Guiamos o carro. Não estamos sós, toda a gente vem connosco pela mesma estrada.
Trabalhamos.
Vamos beber um copo com o que chamarmos amigos. Falamos do mesmo que eles.
Esquecemo-nos de ler o jornal que trazia notícias do Haiti. Espreitamos outra vez o canal porno.
A boa esposa já dorme.
Se lermos umas páginas para adormecer também, há quem tenha hábitos desses, e se o livro que nos veio à mão tiver sido um qualquer Deleuse, poderemos tropeçar em conceitos como modulação, ou como ritornelo. E podemos começar a compreender que chegámos enfim, à sociedade de controlo. Os numerosos microchips dizem por que portagens passámos, que contas pagámos, a ADSE ou a Medis sabem que remédios tomamos os bancos sabem o que querem saber.
Mas depressa largamos esse livro: não haverá por aí algum Dan Brown, alguma Margarida Rebelo Pinto, algum imitador da receita de Flemming e do seu 007?
Sim, porque ai de nós se não formos bons imitadores: a receita para fazer um herói ou um bom cidadão existe, está sempre em actualização.
Lembram-se do Reinaldo Ferreira?
Agite-se um pendão.
Segue o teu chefe. O secretário-geral do teu partido. O teu colega com mais sucesso. Aqueles para quem as meninas mais bonitas sorriem.
Já nem são precisas as certezas irracionais. O senso comum basta.
Servem-nos mortos, claro.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Havai 2010, digo, Haiti 2010

- Se querem saber, parecia Deus a bater-nos com a porta na cara...
-
A primeira versão deste post está nos Urban Sketchers:
gosto mais dela, mas pronto, hoje calhou assim.

domingo, janeiro 10, 2010

Diários Gráficos, desenhos vários e por aí fora

A inauguração foi ontem, na galeria dos Paços do Concelho, em Torres Vedras, e foi bem simpática.
Seguiu-se o jantar, toda a gente desenhou, o polvo à lagareira foi muito elogiado, o vinho tinto deixou-se beber com galhardia e falou-se pelos cotovelos.
Quem quiser saber do que se irá seguir clique ali à direita, no blogue dos Urban Sketchers ou no Desenhador do Quotidiano.
Ficará a saber, em calhando, que no próximo sábado, aí pelas 15.00 horas, há-de haver um debate. Nós aqui no Portugal, caramba! estamos em crer que não vai haver debate nenhum porque estamos todos mais do que de acordo sobre as questões que mais importam. Mas há-de haver perguntas e respostas, muita conversa bem-humorada, troca de experiências e por aí fora.
E pronto. Vão até lá que logo vêem.

sábado, janeiro 09, 2010

Vida de Urso

Eu sei que há quem não acredite na metempsicose que é aquela coisa da transmigração das almas: morre-se e acabou-se. Nada de voltar a este ou outro mundo qualquer.
Tivemos a sorte de apanhar uma vida que andava por aí, vivêmo-la como podemos e pronto. Quando se tiver gasto, não há mais.
Mas isto são só os simplórios dos ateus.
Há quem acredite que a vida é um capital infinito, não se gasta nunca.
Passamos daqui para o Céu, se o tivermos merecido; direitinhos para o Inferno se tivermos sido como alguns que a gente vê na televisão, por exemplo. É a Vida Eterna.
Dantes, quando eu andei na catequese, havia mais alternativas, o Limbo para os pobres pretinhos a quem os missionários não tiveram tempo de baptizar e o Purgatório.
Este sim, é que foi uma invenção de génio.
Rendeu missas, capelas, heranças; era como que um banco, como que uma companhia de seguros: o defunto fazia umas doações, protegia uns pobrezinhos, amealhava para a eternidade. Quando morria tinha sempre, pelo menos, uns pecados veniais a pagar, quanto mais depressa os parentes amortizassem, mais depressa a alma, purgada das suas máculas, ia ver, finalmente, a face do Senhor.
Parece que já não é assim.
Não estou muito actualizado, mas creio que estes destinos foram eliminados do catecismo, como o apeadeiro aqui da minha terra: deitado ao desprezo pelos combóios que já deixaram há muito de por cá parar.
Nós no Portugal, caramba!, porém, acreditamos na reencarnação.
Morremos, passam-se uns tempos, achamos nós, dão-nos outro corpo novinho em folha - se for em segunda mão, olha, que se há-de fazer? - e mandam-nos de volta; para aqui ou para o outro lado da galáxia, onde houver vaga.
Mas quem sabe? Pode ser que nos perguntem o que queremos ser, como na história de Er que Platão narra na República. E então, se nos for dado escolher um destino, não queremos ser nem um Durão Barroso, nem um Belmiro de Azevedo, nem nada disso.
Queremos ser ursos.
Ursos! Nem mais.
Primeiro porque têm um casaco de peles, quentinho, de fazer inveja às senhoras mais Donas - e não tiveram de o ir arrancar a raposa nenhuma, pobres delas.
Depois, porque hibernam. Já viram, está a chover se Deus a dá, não precisam de sair de casa para ir ao emprego. Está um frio de congelar o bafo, não precisam de ir a compras: dormem mais um bocadinho.
Se os incomodam, grunhem. E ninguém acha que sejam malcriados só por isso.
Por fim, quando vem a Primavera, o senhor Sol aquece-lhes os humores, espreguiçam-se e saem para o ar livre à procura de uma comidinha, de uma namorada. Não precisam de ir ao ginásio nem de encolher a barriga quando avistam a prometida: durante o Inverno, sem esforços nem heroísmos, ficaram elegantíssimos.
Podem voltar a comer à fartazana, do melhor que encontrarem.
A rapariga, aliás, estará a fazer o mesmo e confessemos: redondinhas também têm o seu encanto, não é?
Por isso ficaram sabendo: o que nós queremos mesmo é ser ursos.
Já andamos a treinar há muito tempo. Só aquela história do emagrecer, isso é que ainda não conseguimos.
Mas pronto.
Não se pode ter tudo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Obediênciazinha, pois então! (I)


Do que vos quero falar, ou, dado que o Portugal, caramba! se tem vindo a transformar em mais um blogue do eu, o que eu quereria perceber, é:

Porque havemos de obedecer a uma ordem?

Mas, claro, tenho de começar por algum sítio e, portanto, aquele estranho acontecimento passado lá para os lados de St. Margarida, ou de Tancos, serve perfeitamente.
Lembram-se?
Eram umas sete da manhã, vem um condutor na sua carrinha, tinha andado a distribuir jornais e, a meio da estrada, a ocupar-lhe a faixa, ia um pelotão de futuros paraquedistas vestidos daquela cor chamada verde-tropa, escolhida justamente para não dar nas vistas. Cumpriu a sua função. O condutor não os viu realmente - ou só demasiado tarde.
Acidente, dezasseis atropelados, três muito graves.
Não interessa se houve ou não culpados, se foram castigados, se alguém indemnizou as vítimas ou se está tudo perdido na burocracia de um ex-tribunal militar.
Claro, as notícias falaram de um carro desgovernado, um motorista adormecido ao volante ou cansado ou qualquer outra coisa que justificasse o desastre. Tudo menos o óbvio: a tropa está-se nas tintas para as leis quando não lhe apetece cumpri-las. No caso eram as do trânsito, poderiam ser outras.
Não que a tropa não cultive a obediência.
Tem Nepes, tem Erredêémes, tem as suas bíblias e faz gala em que tudo seja by the book.
Excepto se aos sargentos e oficiais outra coisa não ocorrer, mas isso é outra conversa. Relevante é que não tenha havido muito mais informações sobre as necessárias sequelas do acidente. A obediência e o silêncio andam frequentemente juntos. A cegueira segue-as de muito perto.

2.

A obediência na tropa é engraçada: parece ter sido feita de propósito para nos mostrar a que ponto pode chegar a alienação ou, para ser claro, até que ponto alguém pode prescindir da sua própria vontade, dos seus instintos até, se a palavra tiver algum conteúdo.
A que outro conceito poderíamos recorrer para explicar, por exemplo, as cargas de baioneta nos assaltos às trincheiras inimigas, quando um general francês ou alemão, que importa, sacrificava três mil homens para recuperar cem ou duzentos metros da terra de ninguém, uma aldeia arrasada e deserta, um pedaço de bosque onde, de novo seria preciso cavar trincheiras, instalar metralhadoras?
Lembram-se do Hans Castorp, o jovem doente (mas de quê?) que desceu do sanatório, na encosta da Montanha Mágica, a cinco mil pés de altitude? Vista de lá de cima, a pátria «assemelhava-se a um formigueiro em pânico». E o Hans mergulhou no vale e depois num batalhão académico:
"Eis o nosso amigo, eis Hans Castrop! Já de longe o reconhecemos (...) Arde, ensopado pela chuva como os outros. Corre, os pés trôpegos, agarrando a espingarda. Vejam, pisou a mão de um camarada caído, a sua bota ferrada afundou essa mão no solo lamacento, crivado de estilhaços. E todavia é ele!"
(Thomas Mann, A montanha mágica)

O que levará alguém a seguir o seu oficial, o seu pendão, o seu clarim até à morte? Ou, se preferirmos, o que terá levado os carcereiros de Auschwitz, os Eichmann deste mundo a obedecer às ordens que alegam terem-lhes sido dadas?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Jingle bels, jingle bels, ta-ta-ri-tatá,,,


Um Auto de Natal
-
A cena passa-se na estrada para Belém.
Três camelos carregados com os Reis Magos vão conversando.
-
Zé Camelo (cansado) - Ainda temos de os carregar por muito tempo?
Camelo mais velho (pacientemente:) - Ná! Dizem que é só até ao dia seis ...
Zé Camelo (duvidoso) - Ah! ... E tu acreditas?
Camelo mais velho (pacientemente) - Claro! Todos os anos há um dia seis em Janeiro, não há?
Zé Camelo (com uma vaga esperança) - Mas é só no Natal, não é?
Camelo mais velho (pacientemente) - Bom, é também no Dia das bruxas, por exemplo. E no São Valentim, no Dia da Mãe, na Páscoa... Mas é sempre Natal. Nunca ouviste dizer que o Natal é sempre que os homens quiserem?
Zé Camelo (admirado)- E os homens são esses que vão lá em cima?
Camelo mais velho (pacientemente) - Conheces outros?
Zé Camelo (cabisbaixo) - Então e nós?
Camelo mais velho (pacientemente) - Nós? Nós somos os camelos.
Zé Camelo (meditativo) - Hum...
Terceiro Camelo - Oxalá nos dêem azevias. Das de grão. O Bolo Rei já não se aguenta...
(Cai o pano)
-
O Portugal, Caramba!
deseja a todos os seus amigos
um Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XXII)

Charles Foucault
1858-1916
-- Então? Gostaste!
Aka parou.
- Pardon?
- Esse livro. Gostaste?
Era um homenzinho moreno, mal vestido, com um sorriso de miúdo.
- Conheço-te? - perguntou ela.
Fez um gesto para sossegar o guarda-costas.
- Se calhar não. Mas eu vi-te anteontem. Vinhas do Jeu de Boules, ias sendo atropelada por causa desse livrinho.
Aka sorriu.
- Sim, o Mahamoud segurou-me a tempo.
- Não sei quem é esse Mahamoud, a menos que seja aquele tractor de desaterro que está aí atrás de ti. Mas quem te segurou fui eu.
- Tens a certeza?
- Não tenho muitas no mundo, confesso-te. Percebes, sou um nadinha como o São Tomé, mais assim para o céptico. Mas essa certeza julgo que sim.
Aka hesitou.
- Então devo-te um agradecimento - decidiu. - Mesmo se é muito inconveniente que uma mulher da minha tribo deva a vida a um homem de outra. Que te posso oferecer como recompensa?
- Não tem importância, esquece.
- Posso parecer-te arrogante, mas deixa que seja eu a avaliar a importância ou não da minha vida. Que te posso oferecer? Pede o que quiseres.
- Arrogância por arrogância: agradeço-te, mas não quero nada. Ou sim: oferece-me uma resposta. O que é que uma miúda muçulmana estará a ler com tanto interesse que ia morrendo por causa disso? Ia para te perguntar anteontem, mas esse quase guarda-fato que está aí olhou-me de tal maneira que nem tive coragem.
Aka não estava habituada a gente faladora.
Abanou a cabeça confusa.
- Quase o quê?
- Quase guarda-fato. São os dois do mesmo tamanho; a diferença é que num guarda-fato, a roupa pendura-se do lado de dentro, não tinhas reparado? Mas o que é que uma miúda...
- Não se deve emendar um mais velho, desculpa, mas não sou muçulmana.
- Eu também não, deixa lá. Mas o que é que uma miúda que não é muçulmana anda a ler há dois dias pelas ruas desta cosmopolita urbe?
Aka estendeu o livro.
- Ofereço-te.
- Poemas. Não conheço este Jerôme Margot. Que tem de especial?
- Teres-me salvo deu-te o direito de me interrogares... que de outro modo não terias.
Ficou a olhá-la um longo momento, com o livro na mão.
- Ofendes-te com facilidade - disse ele cautelosamente, a sombra do sorriso ingénuo a voltar-lhe aos olhos. - Ou, a lo mejor, sou eu quem não está a ser correcto.
Fez outra pausa.
- Mas não te estava a interrogar. Ou talvez sim, mas só como um aprendiz interroga um mestre que a sorte lhe pôs no caminho. E sei o que vais dizer, mas a vida já me ensinou que os mestres não têm idade, acreditas?
Aka baixou os olhos.
- O que eu ando à procura é de uma centelha de grandeza. Julguei entrevê-la aí, nesse livro, mas o autor está morto. Não haverá ninguém vivo que uma rapariga da minha idade possa admirar e respeitar?
- Deus. Deus está vivo.
- Eu sei. Mas é tão raro!
- Muito, muito raro. Mas temos de aceitar a condição humana, não temos?
Fez um sorriso mais largo e, com um «até um dia, obrigado pelo livro» juntou-se à multidão que não deixara de os acotovelar.
Aka continuou parada a ver-lhe as costas curvadas e o passo vivo.
- Não, não temos - murmurou ela, a pensar ainda na condição humana. - Se uma coisa nos sufoca, não temos de a aceitar. Eu, pelo menos, não tenho de aceitar nada.

sábado, dezembro 05, 2009

Se um avaliador incomoda muita gente...


Prof: Pá, havia de se fazer um congresso p'ra fazer um mais parvo do qu'a tu e n'haviam de conseguir!
Aluno: Ho-ho-ho! Pois não, professor!

-
Declaração
-
Pronto!
Declaro que gosto de pensar que fui um bom professor.
Não sei a quem hei-de pedir desculpas pela imodéstia. Aos alunos, claro, pareceria da mais elementar justiça, mas aos pais, nunca!
Mas não.
Aos alunos dei sempre o que tinha, o que roubava, o que inventava.
O que lia e o que escrevia, o que improvisava no meio da aula, com bonequinhos desenhados a giz no quadro preto.
(A propósito: sabem a história de Quonsumor, o Gordo? Estou a ver que não. Um dia hei-de procurá-la e mando-vos.)
Dei-lhes a oportunidade de pensar, de discordar, de discutir, de ser do contra ou do a favor, de me aceitarem ou me odiarem.
Pertencer, nas minhas turmas, passou pelo participar ou amuar num canto: a escolha era de cada um, em cada dia.
Muitos não aprenderam nada do que eu ensinei e atingiram o nível de excelência, como agora se diz, porque souberam pensar pela sua cabeça.
Mais do que aulas, quis que fossem foruns de liberdade.
Só houve sempre uma exigência absoluta: assumirem-se como gente, tratarem-se como gente uns aos outros.
Não sou romântico e sei que nem sempre consegui o que conseguia muitas vezes, que houve aulas preparadas ao milímetro que falharam completamente, estratégias mal pensadas que deram para o torto, turmas que não soube agarrar, que perdi alguns alunos e que, imagino, terei feito mal a outros.
Assumo que não sou modelo para ninguém.
E, para que conste, esclareço desde já:
Do que senti sempre mais a falta, foi da cooperação entre nós, professores das mesmas turmas e que rarissimamente conseguimos formar equipe.
O que mais odiei foram os exames, pré-formatados, cada vez mais preconceituosos, como se alguém soubesse de antemão como cada aluno vai responder, quais os seus erros, quais as interpretações que fazem sentido.
E percebo que nunca atingiria o nível de suficiente numa avaliação de desempenho como deve ser.
E gosto de pensar que me estaria nas tintas.
Mas atenção, não quero fingir que sou um herói: não garanto que a ameaça de os meus poderem vir a passar fome não tivesse o seu peso; talvez não conseguisse ser professor, talvez tivesse de me contentar em ser funcionário do Ministério da Educação.
Incomoda-me pensar nisso.
-
Bento Sequeira
(transcrito e adaptado por Tacci)

sexta-feira, dezembro 04, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Ó freguês, vai um sapatinho?

Quem não tem cão, caça com gato, não é o que se diz?
Eu, ainda bem que tenho cão, que essa história de andar aos tiros aos coelhos que andam lá na vida deles, nunca fez o meu género.
E não sendo eu um equilibrista, como o Dr. Barroso, essa coisa da Comissão Europeia também não me entusiasma muito.
O que me atrai, palavra, é o mundo dos negócios.
Já tenho meia dúzia cá na forja, vão ver se um dia destes não fico ainda mais milionário do que o Tio Belmiro.
Senão, veja-se: arranja-se uma tenda e vai-se de feira em feira com um monte de sapatos velhos (sugestão, para que conste, da autoria do Marreta e que podem encontrar nas caixas dos comentários algures lá para trás), fisgas e pedras, elásticos e bilhetinhos.
Por um euro, por exemplo, o cliente tinha direito a um sapato ou três pedradas num retrato à escolha.
Vinha um e dizia:
- Olhe, dê-me aí a Manelinha...
A gente, como qualquer bom negociante, acudia:
- Com certeza, tem V. Exª. muito bom gosto. E prefere a fisga, o sapato ou quer mandar bilhetinhos com recados?
- Bof... hoje vou pelo sapato. Já lhe mandei recados por causa do estatuto da carreira docente e viu-se!
E zás! Sapatada em cheio.
Vinha outro e pedia o Sócrates, o engenheiro.
- Ah! mas esse temos pena, só logo à tarde. É que sabe, tem tido muita procura, coitado ficou cheio de buracos. Estamos a pôr-lhe uns remendos, a ver se ainda se aguenta. É que é mau para o negócio, sabe? Se ele se vai abaixo, perdemos mais de 65% da clientela...
- Olhe, então dê-me aí uns bilhetinhos de amor.
- Muito boa escolha. Temos aqui a Penélope Cruz, a Maribel Verdú...
- Não, não. Eu quero é aquela, a Roseira...
- V. Exª. é que sabe... Mas olhe que bilhetinhos de amor a políticos, primeiro é muito mais caro. E depois, é que nunca se acerta.
E pronto. O negócio é este.
Aceitam-se sócios, de preferência com as duas coisas que a mim sempre me faltaram: o capital, que nunca houve. E a vontade de trabalhar, vamos lá que também nunca por cá abundou.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Post Scriptum



O Graza do "Arroios" (ligação ali ao lado) enviou-nos esta versão um pouco diferente da fisga digital, pelo que muito lhe agradecemos.
Aqui fica, para instrução e gáudio das gerações vindouras.

domingo, novembro 22, 2009

A Propósito de fisgas

Primeiro há que escrever uma mensagem num quadradinho de papel bem rijo.
Depois, começando num dos ângulos do quadrado, enrola-se apertando bem na direcção do canto oposto, e, quando tivermos um rolinho fino e comprido, dobra-se ao meio. A seguir, toma-se um elástico novinho em folha, prende-se a dois dedos bem afastados e colocando o rolo do papel de modo a que cada uma das pontas fique de seu lado do elástico, prende-se entre o indicador e o polegar da mão sobrante.
Depois é só esticar, apontar e zás! Larga-se.
Lá vai o papelinho direito ao alvo.
Têm alguma ideia do que querem escrever nos papelinhos?
Pois. Bem me parecia.
-
Este post foi-nos sugerido pelo comentário, algures aí para trás, de uma gentil Anónima a quem ficaremos eternamente gratos.