quinta-feira, abril 21, 2011

Galinhas gordas


(Praça da Alegria, Lisboa)


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A memória prega-nos belas partidas, sobretudo quando já levamos uns anos de vida vivida.


Lembro-me de ter lido algures nos jornais da época qualquer coisa acerca de uma série de pequenas fraudes que se tornavam possíveis com a cumplicidade do sistema bancário ou, pelo menos, de algum gerente mais distraído.
Chamavam-lhe, se a memória me não falha, a rotação dos cheques.
A ideia era a de que um fabiano na vila A podia efectuar pagamentos com um cheque dos balcões da vila B. Dado que tudo isto levava algum tempo, o cheque que aguardava boa cobrança era coberto por um terceiro, este por um quarto e quinto e por aí fora. As dívidas e os desfalques iam sendo escondidos desta hábil maneira.
Toda a gente lucrava.


O tomador do empréstimo, o devedor em vias de incumprimento, o contabilista habilidoso, todos mostravam uma actividade bancária notável, muitos pagamentos, muitos levantamentos, grande capacidade empresarial o que lhes abria a possibilidade de novos empréstimos. As filiaias dos bancos, os seus balcões mostravam também grande volume de negócios. As quotas que os administradores, directores e sub-directores, gente dessa, impunham eram ultrapassadas, os gerentes podiam sonhar com promoções que deixariam os problemas de eventuais créditos mal-parados para quem os viesse substituir.


A coisa só se complicava quando o novo gerente com mau-feitio, resolvia desconfiar, quando alguém parava o cheque não aceitando a duvidosa cobertura.


Vista assim, sem as subtilezas que financeiros e advogados certamente inventaram, parece uma fraude grosseira.
Mas grosseiro pareceu também o caso da Dona Branca, lembram-se, depois do escândalo já rebentado. E, mais ao alcance da memória dos distraídos, quer pela dimensão, quer por ter vindo da mítica Wall Street, as do espantoso Bernie Madoff.


Por muito grosseiras que sejam as fraudes, como o bilhete premiado da lotaria, há sempre gente que cai, há sempre gente que as aceita porque tem vergonha da sua própria parvoíce.
- Não, garantem eles, até no tribunal se preciso fôr. - O investimento era bom. Correu mal, foi o que foi.


Outras calam-se: sempre souberam que os montes de dinheiro que iam recebendo enquanto durou, provinham das poupanças de outros.


Um nosso conhecido, para dar um exemplo, investidor da Dona Branca que «perdeu» dois mil contos - era dinheiro, nessa altura - contou numa roda de amigos que, só em juros já tinha tirado três mil e tal quando a velha senhora faliu.
- Vendo bem, acrescentava, descontando o dinheiro que lá ficou, ganhei mais de cinquenta por cento ao ano.
- E sabias que a Dona Branca tinha de ser aldrabice, pá? - perguntámos nós.
Ele hesitou.
- O meu Tio - acabou por dizer - trabalhou toda a vida, comprou, vendeu, ganhou bastante dinheiro. Mas uma das coisas que ele dizia é que não há galinhas gordas por pouco dinheiro. Se ta quiserem vender, é roubada. Lembrei-me dele montes de vezes, pá. Dez por cento ao mês, que era o que a velhota pagava, nem que ela tivesse uma máquina a imprimir notas de mil toda a noite.


Percebemos.


E percebemos também que estes esquemas funcionam na política... ou naquilo que passa por sê-lo.


A maioria dos eleitores dos partidos do governo detestam ter de admitir que foram levados pela simpatia ou pelo ar austero dos primeiros ministros. Os dos partidos da oposição, que se deixaram levar pelas promessas, pelas suas próprias esperanças. Os outros, mesmo reconhecendo a qualidade ranhosa das governações, defendem-nas porque, afinal, pessoalmente foram tirando bons proveito disso. E a má consciência fá-los proclamar alto e bom som que a política é mesmo assim, que é tudo uma choldra e que, «meu filho, a democracia e essas coisas, é tudo muito bonito, mas se não fores tu a safar-te, ninguém te safa.»


E o esquema da rotação dos cheques aí está.


Os bancos vivem dos empréstimos, o Estado, da obra feita. Os bancos emprestam ao Estado, assumem riscos que o Estado garante, o Estado vai inventando novas Otas, aeródromos, auto-estradas, o dinheiro gira, conta uma vez como dívida, outra como pagamentos, os cidadãos que receberam os seus dinheiritos fazem por sua vez dívidas, os pequenos empreiteiros a quem o Estado ainda não pagou fazem mais dívidas, a contabilidade de tudo isto é impressionante, o dinheiro parece jorrar.


Confesso: mesmo não percebendo nada de finanças nem de economia, dá para perceber que tudo isto assenta na palavra dos governantes e dos governadores. Os primeiros afirmam nas televisões que o país cresce, os segundos afirmam que os seus bancos estão florescentemente sólidos, o Estado garante a solidez das dívidas, a banca distribui lucros aos accionistas, prémios aos seus funcionários. Toda a gente está feliz, o utilizador das SCUT porque, enfim, tem uma estrada de jeito, o funcionário do banco troca de carro, a boutique vende mais um vestido, um jovem casal compra um T2 em prestações que lhe vão levar metade do que ganham.


É claro, nem tudo serão rosas: a gasolina aumenta. O IVA sobe. O IRS vai tendo cada vez menos descontos. As prestações sociais vão deminuindo, porque quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem.


E de onde senão do bolso do contribuínte? O tostãozinho do pobre é pouco, mas quem o perde é louco, pensam os ministros das Finanças.


E se alguém, por exemplo, a falência da Enron, do Lehman Brothers, uma crise internacional, uma coisa dessas, de repente parar esta cadeia de cheques sem cobertura?


A crise do petróleo, em 73, derrubou Marcello Caetano e o Estado Novo. Esta agora, sabe Deus o que fará.


Pois: mas são tudo coisas que se não podem prever.

terça-feira, abril 12, 2011

Info-excluído

Um dia destes conto as minhas aventuras com um PC presumivelmente alcoolizado, prometo. Agora... ainda não consigo.

quinta-feira, março 31, 2011

II centenário de Kleist


Pensar, reflectir

- o que lhe queiramos chamar quando,

partindo de imagens e esquemas,

perseguimos os conceitos -

é um hábito que tem tanto de absolutamente necessário

como de pernicioso.

(Eu, em dia não)

-

Transcrevo, com a vossa licença, de um caderno já muito antigo:


"Ouvido durante a conferência do [Professor Doutor] Carmo Ferreira no D. João de Castro:

1810 (1) - o sucídio de Kleist. Motivo: Não há verdades absolutas, só há verdades condicionadas à nossa intuição sensível.

A Metafísica como uma amante arisca para Kant.


A paixão move-nos para ela, não podemos viver sem a Metafísica e, no entanto, ela não nos gratifica, comporta-se como uma ingrata. A Metafísica é a ciência dos limites da Razão e, ao apaixonarmo-nos por ela, apaixonamo-nos pela fronteira do não-mais-além.


A Razão kanteana é, assim, sentimento.

Sente a carência de totalidade, capta a insuficiência, o interesse move-a, é a razão da razão que, no entanto, como uma outra traição, apenas se interessa por si própria. O interesse (ou a paixão, ou o sentimento) e, no entanto, o único acesso para o outro, para a alteridade. A razão reduz o outro a objecto submisso às condições a priori, ao espaço, ao tempo, às categorias, ao mundo, irremediavelmente aquilo fenoménico, númeno inatingível. O interesse, no entanto, instância última e fundamento, lugar do não-recuo, sentimento prático, leva-nos ao outro, indivíduo, identidade, gozo enquanto conhecimento e acção.

E a Metafísica? É a decepção, tripla decepção porque nada nos diz e nos reenvia à fé, porque a lei moral não é eficaz por si mesma e, enfim, porque o máximo que a Metafísica nos diz é que tudo se passa como se...

De onde a morte decepcionada de Kleist.

-

Que devemos então esperar?

A resposta é tautológica: devemos esperar a esperança, que é agir, arriscar.

A recompensa para isto é parca, respondeu Kleist. Para Kant, a recompensa, a plenitude, vem do Belo. E Belo, verdadeiramente Belo, é o rosto do outro quando age livremente."




(1) De facto em 1811. Erro meu, decerto, ao tomar os apontamentos.

sexta-feira, março 25, 2011

Um quê?

Pois. É um caucus, ao que dizem. Ainda não sabemos muito, só o que vamos lendo.

Por exemplo, aqui.

terça-feira, março 22, 2011

O Burro de Buridan ou Os preços dos combustíveis!


Vocês conhecem esses mails tremendistas que circulam na net, uns a dizer mal do Governo, outros com vistas de Paraty?
As vistas de Paraty é como o outro.
Pronto, a gente apaga logo se está com muita pressa. Se não, até passa uns minutos entretido - sem pensar que foi um tempo gasto sem grande proveito.
A dizer mal do Governo ou «desta choldra», isso já pode merecer uma atenção mais cuidada.
Hoje, por exeplo, recebi dois que me mereceram uns momentos de reflexão, não sei se inteiramente pela positiva...
-
Um deles era sobre a candidatura à carreira judicial de um réu no processo da Casa Pia de Lisboa.
Os crimes por que estes réus todos estão a responder é particularmente repugnante, talvez porque tudo o que envolve maus tratos às crianças incomoda particularmente quem é mãe ou pai, avó ou avô.
Eu próprio devo dizer aqui já: detesto pedófilos.
Mas reconheço: é um defeito meu porque sei que se trata de uma patologia de dificílimo contrôlo, tanto pelo próprio doente como pela sociedade. Que fazer com um pedófilo? Condená-lo à morte? Nunca, claro. Recuso uma sociedade que se arroga o direito de matar, seja em que caso for, não que o criminoso não o merecesse eventualmente: mas nós, cidadãos vulgares, ou eu, pelo menos, recusamo-nos a matar de volta.
À prisão perpétua?
Castrá-los quimicamente?
Há dados que permitam fazer a avaliação das consequências de cada uma destas opções? Duvido muito.
Dito isto, o que me espantou no dito mail foi o tom exaltado com que se condenava o Centro de Estudos Judiciais ou o que fosse, por admitir um desses réus no curso de formação para a carreira judicial.
Note-se, e o próprio mail o dizia, o dito réu, por ter um doutoramento reconhecido pelo estado português, tinha acesso automático ao dito curso de formação sem passar pelas provas de admissão que, de costume, são bem severas.
Que desejava o autor do mail que se fizesse?
Que se impedisse um cidadão que tem a sua candidatura de acordo com a exigências legais de ser admitido? Com base em quê?
A pedofilia - uma condenação moral fortíssima, concordo - não está ainda, de modo algum, estabelecida. Não há ainda, tanto quanto julgo, uma sentença definitiva. Até ao momento da condenação, com trânsito em julgado - ou coisa que se lhe assemelhe em linguagem de advogado - até à altura em que, já sem possibilidade de recurso, ou não o tendo exercido, o réu é declarado culpado, ele é um cidadão como outro qualquer, um presumível inocente.
E com que direito o Centro de Estudos Judiciários eliminaria um cidadão inocente dos seus concursos? Nenhum, não é?
Ou então, prescindiremos do Direito.
Provavelmente, o autor do exaltado mail é como o burro de Buridan: está indeciso.
Por um lado, a sua exaltada moral.
Por outro, o seu desejo de viver numa sociedade que não permita que ele próprio, um dia destes, seja condenado seja a que for com base em simples suspeitas ou até mesmo sem elas.
Ou não será assim?
-
O outro mail era igualmente interessante.
Todos nós estamos fartos de refilar por causa do preço dos combustíveis. E, quando o dito mail nos chama a atenção para os preços do gasóleo, por exemplo, no Egipto (14 cêntimos) ou na Arábia Saudita (7 cêntimos), sinceramente, eu fico impressionado.
Mas, logo reparo que, por exemplo, que no Brasil, segundo o mesmo mail, o mesmo gasóleo já custa 54 cêntimos e que na China, outro país dito emergente, a gasolina anda pelos 45, mais ou menos a par com os Estados Unidos.
Reparo também que não são os países mais famosos pelos seus mecanismos de protecção social, quem tem os preços mais baratos: veja-se a Swazilandia, por exemplo, onde se vende a super a 10 cêntimos, ou a própria Líbia onde, antes destas revoltas, supõe-se, o diesel custava 8 cêntimos: tudo informações do próprio mail, é claro.
Por cá, há algumas diferenças a considerar.
A Europa do pós guerra de 1939-45 apostou fortemente nas reformas dos trabalhadores, nos hospitais, na assistência na doença e no desemprego.
Foi uma opção que nós, portugueses, não só imitámos a partir do 25 de Abril, como temos validado em todas as eleições, desde que o pudémos fazer.
E a manifestação do dia 12 deste mês, lembram-se?
Mais coisa, menos coisa, foram 300.000 pessoas na rua, em apoio dessa opção.
Fica-nos a dúvida: que queriam provar os autores do dito mail?
Que preferiam eles?
O gasóleo ao preço da uva mijona e os nossos velhos a morrerem ao abandono? As nossas crianças sem escola? Os doentes à porta de um hospital que os não recebe porque não têm dinheiro?
Duvido.
São, também eles, como o burro do Buridan. Entre duas coisas igualmente boas, também não conseguem escolher.
Ou conseguem e, afinal, não passa de mais um ataquezinho sôfrego ao Estado Social?

terça-feira, março 15, 2011

E Almaraz aqui tão perto!

- Começo a perceber porque é que eles diziam que small is beautiful...



sexta-feira, março 11, 2011

Pois, tem razão...

O Portugal, caramba! compreende que nem toda a gente tem vontade de ir amanhã à manif, mas que não deixa de sentir um certo peso na consciência por causa disso.
Como não quer ver ninguém sofrer, decidiu oferecer aqui, de borla e sem necessitar de citar a fonte, quatro desculpas já prontas a usar.
Que as aproveitem e que gozem o seu sábado com saúde é o que o nosso blog lhes deseja.

quinta-feira, março 10, 2011

terça-feira, março 08, 2011

Dias internacionais...

- Como?


- Dia Internacional de quê?


- Meu. Nosso.
Só desejo às mais jovens que não percam nada do que a minha geração conquistou.
E que obtenham mais qualquer coisa, pelo menos.
A alegria, por exemplo...

quarta-feira, março 02, 2011

Kadaffi


Não tenho qualquer simpatia pelo Kadafi, confesso. Mas confirma-se: «quando o cão é danado, todos lhe atiram pedras».

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Bertrand Russell

Russell entrou nas nossas jovens vidas, quem sabe se pela pior das razões.
O seu livro Porque não sou cristão, lido às escondidas na edição brasileira, não terá tido o impacto que merecia e a razão é simples. Não o lemos como a defesa de um racionalismo coerente e algo radical, mas unicamente como uma contestação aos senhores padres de Religião e Moral, aos nossos pais, ao salazarismo tacanho que atabafava a nossa irreverência sem nada nos dar em troca.
As organizações de juventude estavam severamente controladas: os Escuteiros praticamente nas mãos da Igreja, a Mocidade Portuguesa que nos obrigava a uma preparação militarizante e a saudar de braço estendido, como as juventudes hitlerianas, era obrigatória nas escolas.
Por todo o lado era o discurso patriótico, anti-comunista, contra a dissolução dos costumes e pela virgindade das meninas que eram noivas e irmãs, puras como Nossas Senhoras.
Claro, o episódio da ilha dos amores tinha sido cortado na edição escolar d'Os Lusíadas e nós íamos lê-lo na edição de algum mais afortunado.
E depois começou a guerra.
A fé e o Império, as grandes navegações que fizeram os nossos maiores e, por isso, Angola é nossa e resto também.
Lá foi a nossa juventude, de espingarda às costas, para as colónias, com a benção da Igreja, para defender a civilização cristã e ocidental.
Estávamos fartos das grandes palavras.
-
A literatura «lá de fora», sobretudo a francesa, abriu-nos para outros pensares: lemos tudo, desde a Françoise Sagan ao Sartre, do Roger Martin du Gard até ao Claude Roy.
E o Bertrand Russell conduziu alguns de nós, pelo menos, ao pacifismo; compreendemos que uma civilização, por muito cristã e ocidental que fosse, se assentava a defesa dos seus valores na esquadra americana e nos arsenais nucleares, não valia grande coisa.
Orgulhosos, começámos a usar o emblema do seu movimento contra a bomba atómica. Era um círculo branco sobre fundo preto, com um diâmetro vertical, norte-sul, e as direções sudoeste e sudeste assinaladas a branco também.
Os mais velhos olhavam para nós com alguma melancolia.
Ao ver-me com o vistoso emblema, o Pai de um dos nossos amigos contou uma história dos tempos em que a Espanha estava em Guerra - dita civil porque o exército estava quase todo do lado dos revoltosos e do lado do Governo livremente eleito só estavam os civis. Daqui de Portugal ia todo o apoio para a causa dos generais: o major Botelho Moniz, com os seus viriatos, claro, mas a prisão e a entrega de refugiados na fronteira, a colaboração entre polícias, comida e armas, de todos os modos que o regime em Portugal podia apoiar a revolta.
Aos anti-franquistas portugueses, platónicos apoiantes da República Espanhola, restava o uso de um emblema da AEG quando o podiam arranjar.
Vale a pena recordar que a AEG era uma enorme multinacional alemã, ligada aos equipamentos eléctricos. Em 1936, quando eclodiu a revolta dos militares em Espanha, de certeza que estava a trabalhar para o Hitler, o mesmo que, de imediato, enviou a «divisão condor» a apoiar Franco.
Parecia contraditório.
Porém, para os iniciados, AEG não significava Allgemeine Elektricitäts-Gesellschaft, mas sim, em portunhol, Arriba Espanha Governamental. Para a polícia política de Salazar, valia o equívoco.
- Mas - concluiu o Pai - nós reconhecíamo-nos uns aos outros.



Muito mais tarde, na Faculdade, para lá das aulas e das orientações ideológicas, deparei-me com a obra de Russell.
O positivismo e depois o positivismo lógico tiveram um importante papel no pensamento filosófico em Portugal, pese embora aos integralistas e saudosistas. Porém, depois de Vieira de Almeida se ter reformado e de o curso de Filosofia em Lisboa ter levado a volta que levou, descobrir a escola de Viena, o empirismo lógico e coisas dessas, era uma lança em África para os alunos.
Conhecia já o livrinho - que de «inho» só tem o tamanho - de 1912, Os problemas da filosofia, editado em Coimbra, com tradução de António Sérgio.
Um dia porém, em 73, meses antes do 25 de Abril, encontrei, sei lá por que milagre, An inquiry on meaning and truth, na edição francesa da Flammarion, discretamente entalado nas estantes da Livraria Universitária, ali ao Campo Grande.
Toda esta época do meu percurso é confusa. Julgo que andava já às voltas com Wittgenstein, quando tentava escrever a tese de licenciatura e lembro-me de ter devorado o ensaio do Russell como um bulímico a engolir pastéis de nata.
Juro-vos que não consegui abarcar nem metade de metade.
Mas ficou-me a saudade de qualquer coisa que não tinha tido e que não poderia vir a ter nunca mais: gostaria de me ter sentado lá atrás, num anfiteatro, talvez em Cambridge, talvez nos States, escudado pelo meu caderno e pelos meus desenhos, a ouvir as aulas de Bertrand Russell.
-
O Guimarães Rosa, num dos contos de Sagarana, creio eu, diz uma coisa interessante, mais ou menos assim:
"Quem sabe se, algures, num país onde eu nunca fui, e onde não irei jamais, existe a mulher ideal, a minha alma gémea..."
E pimba! O narrador desse conto resolve casar-se com a prima.
Eu, modestamente e à minha maneira, confesso que discordo.
Um dos meus maiores pecados, digo eu, pelos quais terei de dar contas um dia, foi nunca ter partido à procura dessas coisas excepcionais, desse quadro, dessa pequena escultura, desse Maio de 68, dessas Brigadas Internacionais em que combateu o Orwell, desse professor que me poderia ter ensinado aquilo de que talvez nem faça a menor ideia.
Não é um verdadeiro desperdício?

sábado, fevereiro 19, 2011

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Que parvos que somos


Há quanto tempo não tínhamos assim uma canção de protesto, daquelas que vão direitas à mouche, quer dizer, canções que, de repente assumem o sentir colectivo?
Dantes iam surgindo umas que a gente cantava sentados nos degraus da faculdade, tipo:
«Canta, canta, amigo canta, vem cantar a tua canção, tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão...»
Ou então, acontecia, perguntarmos «ao vento que passa, notícias do meu país. E o vento cala a desgraça e o vento nada me diz...»

Agora que estamos entregues a
comentadores-mais-ou-menos-comendadores, à sua comenda e bebenda assentados, até corremos o risco de acreditar que a política do pleno emprego e a da educação universal foi errada e que num país de mão de obra escrava os escravos refilam tanto menos quanto menos estudarem e assim deve ser.

Sim, a culpa é dos Robertos Carneiros e dos Marçal Grilo - vá lá que são estes - alegadamente por esquecerem que a educação vai a par com os estudos de mercado.

Tomem lá, que a canção dos Deolinda é "a resposta, e uma boa resposta" à vossa "'prioridade das prioridades'" (VPV, em 5/2 dixit).

Ah, comendadores, comendadores!

Que parvos que somos...

Complemento circunstancial de lugar onde



Estávamos, os meus cães e eu, ali os três, sentados a apanhar sol e a bendizer a Primavera antecipada, e, num repente aí vão eles a ladrar direitos ao portão, num acesso de energia tão fulgurante que eu dei comigo a berrar «ena Pai, isso é que é bom estar vivo!»
O Tio Zé Damião, por exemplo, acha que eu tenho o pésimo costume de falar sozinho.
Enfim, é verdade de certo modo, mesmo se ele também afirma com aquele ar de autoridade que «a sala dos cães é rua».
Mas nunca estou não completamente só, sobretudo porque os meus cães andam sempre por aí, ao contrário do que diz o Tio, geralmente a meter-se-me debaixo dos pés a abanicar-se de descarada pedinchice.
- Que é que tu queres? Mostra lá ao dono! - digo eu.
Eles mostram, claro, seja o que for, nem que mais não seja, para me contentar. Um apetite súbito a atravessar-lhes o espírito, comida ou água, ou ir para o quintal, qualquer coisa que altere a identidade dos instantes e faça mover o tempo.
E eu respondo também, uma coisa oportuna:
- Logo! Agora não, que o dono está aqui a acabar este desenho.
O que escusava era de continuar com explicações:
- Não está a correr lá muito bem, percebes?
Se «vamos» é a palavra mágica, abre a porta a uma imenside de esperanças, a palavra «logo» é desilusão. Mesmo que o discurso prossiga por aí fora, já não ligam. Não querem saber dos meus desenhos, é verdade que não são Dürers nenhuns, mas um bocadinho de boa educação não lhes ficava mal, pois não?
Não querem saber.
Vão dormir mais um bocadinho porque sonhar é uma actividade nobre. Até passar mais um fabiano a pedalar, pelo menos.
-
É certo que as caravanas passam.
Mas os cães, esses não querem saber: ladram à mesma.
Correria, excitação, muito barulho, os rabos a abanar e ar contente de quem cumpriu o mais sagrado dos deveres.
Um gato, à falta de melhor, também serve. Mas as bicicletas, isso é que é!
São mais lentas, dão azo a correr de um lado para o outro ao longo da cerca e, às vezes, tem-se tempo para ir e voltar, dentes à mostra, num alarido eufórico.
-
Felizmente passam muitos ali em frente ao portão.
São ciclistas como deve ser, com aquela fardamenta própria dos ciclistas.
Dantes um cidadão pedalava nas pasteleiras com um fato qualquer, até mesmo o do domingo. Punha umas molas - às vezes da roupa - na baínha das calças para não prender na corrente e lá ia ele, todo pimpão.
Nos tempos que correm, com tudo mudado, a crise e o dólar, o Iraque e a revolta no norte de África a fazer lembrar a história do Bei de Túnis, ninguém se atreve a tamanha pinderiquice.
O cidadão não escapa.
Tem de ir à loja do chinês para ter tudo em ordem, de acordo com os figurinos, calções pretos, as camisolas a moldar os músculos, luvas sem dedos e aqueles espantosos capacetes de ciclista. Às vezes com uma pequena mochila às costas, lá vão eles, a pedalar pelos caminhos a fora.
São quase sempre homens, e digo «quase» apenas por precaução: pode ser que as haja, mas o facto é que, raparigas, nunca passa nenhuma.
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Fico a pensar no que terão elas contra as biclas de todo terreno.
Nem sei mesmo se há algum desporto que seja feminino por excelência. É claro que, como qualquer rapaz, elas nadam e jogam à bola, vão nas mais diversas modalidades competir umas com as outras nos Jogos Olímpicos. Mas não creio que o façam em modalidades em que sejam, por exemplo, recordistas mundiais.
-
Quando eu era jovenzinho, miúdo a brincar na praia, as meninas jogavam com o ringue, normalmente num círculo, atirando-o umas às outras e rindo-se quando alguma o deixava cair. Quando o grupo era grande, jogavam ao «piolho», um jogo que hoje é conhecido pelo «mata» e só se joga nas escolas, hélas, abastardado com uma bola em vez do ringue.
Não sei se ainda se fabricam: eram uns anéis ocos de borracha, com uns três centímetros de diâmetro na secção e cerca de vinte no diâmetro maior, ou seja, uns sessenta e três de perímetro se aproximarmos às décimas.
Sempre achei que era o desporto ideal para a praia e as raparigas tornavam-se exímias no lançamento do ringue e, a seguir, a apanhá-lo no ar quando ele vinha a descrever curvas fantasiosas.
A bola é masculina: importa o tamanho da mão e a força do braço.
No ringue era mais importante a habilidade a apanhá-lo no ar, deixá-lo deslisar pelo braço e logo o atirar antes que as adversárias tivessem tempo de se precaver; a velocidade, o golpe de vista e o efeito que se dava ao ringue no seu lançamento, eram fundamentais.
Mas claro, sendo fenminino, o ringue não teve nunca uma federação, campeonatos nacionais e muito menos representação olímpica.
-
Quando penso num desporto, assim caracteristicamente delas, a primeira coisa que me ocorre é a dança.
Claro, há também a ginástica rítmica e a aeróbica e tantas outras.
Mas explosões de energia como os meus cães são capazes quando correm ao longo da cerca, como eu era capaz quando tinha dez anos e corria pelas vinhas de encosta abaixo, a contornar as cepas, a romper as gavinhas e as vides com o corpo, essa exultação pertence à dança.
"Estar cheio de vida", escreveu Coetzee em The lives of animals, "é viver enquanto corpo e alma." E acrescenta: "Um nome para a experiência de vida completa é alegria."
Não consigo deixar de pensar que a vida completa é uma dança, é um pairar sem peso, um rodopiar sem fim.
Quando se cai, morre-se.
-
E explico aos meus dois cães que se vieram sentar arquejantes aqui ao pé:
- Vocês já repararam que estão vivos? Mas mesmo vivos? Mesmo, mesmo, mesmo?
É claro que os cães não me ligaram nenhuma. Um deles, a cadela, já se levantou e, pela barulheira, deve estar a beber água à maneira dela: metade pela goela abaixo, outra metade espalhada à volta da tijela.
E eu, desiludido com o auditório - embora não muito, confessemos - volto a correr aqui para o computador, para não perder o fio às ideias.
Acaba de me ocorrer uma coisa qualquer de sabor Heideggeriano: que a vida é a verdadeira «essência do fundamento», o «complemento circunstancial de lugar onde» de tudo o que é.
Que todas as coisas acontecem no tempo, é certo; mas o próprio tempo que vai correndo de cronão para cronão, não passa de intantes num contínuo de vida, num cogito que é.
Talvez por isso, vou eu aqui escrevendo, a morte é um absurdo. O não ser, dizia o Parménides, o não ser, não é. A não-vida não existe: viver é que é o Bem Supremo.
Já sabiam, não sabiam?
Eu, que sou assim, meio tosco, é que só agora me dei conta.
-
Não quero dizer, lá por a Vida ser o valor máximo, que se deva estar vivo a todo o custo.
lugares onde indignos.
O samurai, por exemplo, em desonra não pode viver. Suicida-se, ou melhor dito, executa o ritual do seppuku.
O nobre perante um conflito insuportável tem o direito de escolher uma morte qualquer, por exemplo, bater-se em duelo.
O escravo pode decidir que não quer ser escravo e enfrenta o pelotão de fuzilamento de olhos abertos.
Mesmo se é um dom de Deus, algo que só a Ele pertence, a vida, o Bem Supremo, não pode ser erigida num valor absoluto: por alguma porta o mal, o nada, a contradição, teria de aceder ao lugar onde e constituir-se em dor, em caos, em guerra, em narco-tráfico. Em escravatura, fome e doença.
Talvez o mundo, que não passa de uma ideia - transcendental, diria Kant - parte do meu pensar a própria vida, seja no fundo, lá bem no fundo, uma não-ideia, uma impossibilidade.
-
Os meus cães já andam por aqui a reclamar:
- Então? Ainda não são horas do almoço?
Ainda não; estou aqui a pensar:
- Rai's parta mais os ciclistas todos...

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Sem título


Podia ser uma fada dos bosques, uma personagem do Sonho de uma noite de Verão, um anjinho da guarda, ou qualquer outra coisa... De facto era para ser só um ensaio de cor, mais ou menos inspirado na Pipi das Meias Altas.

domingo, janeiro 23, 2011

Sem título

Pronto! Ganhou o crustáceo!

sábado, janeiro 22, 2011

Período de reflexão

Não sei como anda o tempo aí pelas vossas paragens.
Aqui sopra um ventinho de se ir para a América só com a vela do estai de proa.
Para quem já tem que chegue dos nossos Dantas, é o ideal.
Já viram? Mar a fora, passar ali a Madeira e Alberto João o mais de largo que as correntes deixarem e só parar na Patagónia?
Que está frio, o mar tempestuoso e isso, dizem-me.
Queria eu lá saber.
Tivesse eu nem que fosse um Vaurienzito... mesmo o mar picado não mareia tanto como a televisão, a ver candidatos e comentadores, alguns dos quais, benza-te Deus.
Assim, olha!
Vou gastando o mais utilmente que posso o período de reflexão.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Capitão Victor Alves

Não era, propriamente, um pedagogo.
Mas talvez tenha sido o melhor Ministro da Educação que tivemos, da reforma da universidade pelo Senhor D. Sebastião José, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, até aos nossos dias.