quinta-feira, julho 28, 2011

Medidas de austeridade

Para agilizar a economia e emagrecer o Estado, o Governo decidiu privatizar as mulheres públicas.
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- Concordo plenamente!
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segunda-feira, julho 25, 2011

Melro-preto comum, ao que dizem.

Turdus merula, v. L. 

O Guerra Junqueiro, não sem alguma soberba, afirmava que o tinha conhecido:
"O Melro, eu conheci-o: era negro, vibrante, luzidio..."
Mais ou menos como se eu chegasse aqui e escrevesse: «uma dia destes, em conversa com o Dalai-Lama...»
Ou mesmo pior: se numa roda de admiradores embasbacados eu atirasse: «Pois ainda o mês passado, a Amy, sim a Winehouse, me dizia: porreiro, pá... e pensar que a pobre rapariga já lá está, a dar contas ao Altíssimo... ah, vocês não sabiam que ela era muito religiosa?»
E pronto: lá ia eu por aí fora, inventando troca de mails, garrafas de Côtes du Rhône partilhadas noites fóra à mistura com risos e confidências.
Também o Guerra Junqueiro não se faz rogado, também ele era íntimo do Melro.
"Assim que o padre-cura abria a porta que dá para o passal" escreve ele, "repicando umas finas ironias, o melro, dentre a horta, dizia-lhe: «Bons dias!» E o velho padre-cura não gostava daquelas cortezias."
Tivesse ele ficado por aqui e, digo-o francamente, seria um soberbo poema, digno de um Alexandre O'Neill ou mesmo de um Mário-Henrique Leiria - e de mim, que não desdenharia de o assinar.
Mas não. Acrescenta-lhe mais uma centena, centena e meia de versos a puxar para o místico-sentimental e estraga tudo.
É como se eu, depois de insinuar uns mails trocados com a dita Winehouse e de acrescentar «mas pronto, coitada, não falemos mais dessas coisas íntimas, há que ter respeito pelos mortos», me pusesse para ali a acrescentar pormenores e historietas e mais pormenores e mais historietas até ninguém me poder ouvir, quanto mais acreditar.
Que eu, a bem dizer, também não acredito que o Guerra Junqueiro tivesse conhecido algum melro na vida. Viu-os a saltitar, ali na casa da Silva Carvalho, a Santa Isabel, que além das paredes e tectos pintados por um mestre francês tinha um frondoso jardim. Viu que era preto, achou que era "luzidio, madrugador, jovial" e pronto.
Sabia o mesmo que eu, que tenho aqui ao lado, numas silvas, uma família deles e os vejo aos pulinhos na erva lá para o fim da tarde.
Mas, ao contrário do poeta que só tinha umas sebentas lá de Coimbra e uns romances comprados em Paris, eu tenho a internet e, portanto, a wikipedia: e lá vou eu ver que o Melro, além de uma vasta parentela, também usa, para efeitos burocráticos, o nome de Turdos Merula.
Nada mau, tomara eu, o nome até tem ressonâncias aristocráticas, imaginem, por exemplo, Dom Rui de Turdos, marquês de Mérola. Os amigos sabedores destas coisa tratavam-me familiarmente por «o Mérola» como poderiam dizer «o Niza» ou «o Ficalho». 
Mas não: lá vêm as letrinhas pequeninas vL, para que não haja enganos. Tal como em Oxford, diz-se, se acrescentava a alguns nomes as abreviaturas s. nob. (sem nobreza, claro) para que nenhum aristocrata duvidasse de que se lhes podia pedir dinheiro emprestado e que não era preciso pagar, as ditas letrinhas querem dizer que o Merlo é um simples comum, que Lineu o considerava «vulgar».
E pronto, cá estou eu mais uma vez a embirrar! Há bocadinho era com o Guerra Junqueiro, agora é com o Lineu, vejam lá, pobres homens já tão falecidos.
Mas, que querem? Se um melro fosse assim tão vulgaris como ele diz, toda a gente os tinha (aos tais melros merula, claro), não era só a Ana Bacalhau dos Deolinda lá no quarto dela.
E sobre melros é tudo quanto eu quero dizer, excepto mais uma coisinha: mesmo snobe, mesmo sem Dom, acreditem, não me importava nada de ser um.

sábado, julho 16, 2011

Rui Tavares

Não é segredo nenhum que tenho sido eleitor do Bloco de Esquerda desde que ele apareceu.
Anos atrás já tinha contribuído para eleger um deputado, o primeiro que entrou em São Bento com o meu voto no bolso: chamava-se Acácio Barreiros e representava a União Democrática Popular.
A UDP, para os que não viveram estes eventos da pequena história (e, portanto, não conhecem as pequeninas histórias do que, na altura, eram os eventos) agregava um certo número de organizações políticas que se tinham tornado grupusculares.
Eram comunistas, claro, mas reivindicavam diferenças insanáveis com o PC de Álvaro Cunhal: acrescentavam às siglas dos seus partidos as letras M-L, regra geral entre parêntesis. Tipo, imaginem os mais jovens que não tiveram a dita de viver estas glórias, PPD-PSD (ML) ou mesmo o CDS-PP (M-L).
M-L queria dizer, naquelas cartilhas, «marxista-leninista», mesmo se nunca nos explicavam lá muito bem o que isto queria dizer. Ao que creio, rejeitavam as transformações por que passava a sociedade soviética na era que se seguiu à morte do Estaline. As suas bandeiras ostentavam orgulhosamente as efígies de Marx, Lenine, Estaline e Mao-Tsé-Tung e tomavam como modelo, já não a revolução russa, mas a chinesa.
Depois, as coisas vieram mudando, paulatinamente umas vezes, com estrondo outras.
Não sei se os tempos evoluiram, se involuiram, se a humanidade deu um passo em frente, se dois atrás.
O grande timoneiro da barca chinesa que já envelhecia muito retirado, morreu.
Em seu nome tinham-se feito coisas muito questináveis, e depois, contra ele fizeram-se outras.
Sem estes últimos grandes ideólogos, as nossas esquerdas vacilaram: caía o muro de Berlim, os Estados Unidos nomeavam um tal Boris Yeltsin para o Kremlin e Fukuyama achou que agora sim, o fim da História (coisa que se discutia desde o Hegel e do Marx) estava à vista.
Não houve cão nem gato que não declarasse mortas as ideologias.
Não sei se já por efeitos dessas orfandades, a UDP em que eu tinha votado fez um acordo com o PSR e com o Política XXI e formaram o Bloco de Esquerda.
Senti-me mais contente: esqueciam-se diferenças um tanto mesquinhas, eu sou marxista-leninista e grito vivas ao Estaline e tu levaste com uma picareta no toutiço porque és trotskista e por aí adiante...
Eu voltava a ter deputados.
Confesso: não esperava que eles representassem os meus ideais, porque tenho poucos e muitos simples e eles não têm de ser nenhuns Sãos Franciscos. Mas defendiam algumas coisas com que eu concordava, outras que não tanto, mas enfim, no mínimo mereciam que eu lhes confiasse o meu voto de protesto. E logo em 1999, com o século prestes a acabar, eu e, creio, muitos outros como eu, lá elegemos, pela primeira vez, o Luís Fazenda e o Francisco Louçã.
O resto do percurso é conhecido.
Chegámos a juntarmo-nos muitos e a ter dezasseis deputados. Agora alguns de nós optaram de modo diferente, só elegemos oito.
Não estou desiludido com o Bloco.
Esperava dele coisas acertadas, claro, mas também uma asneira por outra, a franca burrice de vez em quando. Foi o que aconteceu, obviamente.
Se algum de vocês pertence a um partido que sempre fez as coisas certinhas, que nunca errou e que, em calhando, nem dúvidas tem, então que lhe atire a primeira pedra.
Eu que não pertenço (nem pertenci, diga-se) a partido nenhum recuso-me a atirar nem que seja a última.
Não esperava, que estas minhas opções me conferissem quaisquer direitos.
Mas ando francamente intrigado.
Regressámos ao tempo do Estalinismo e das purgas internas?
Eu tinha um deputado de estimação no Parlamento Europeu. Não me importava que ele fosse independente porque, para mim e de mim, todos o são.
Leio com atenção o que escreve no Público e no seu blog. Considero sugestivas as suas propostas e gostava de as poder discutir uma vez por outra. Era activo, dava-nos parte do que ia fazendo, das pequeninas alianças em que entrava e por aí fora.
- Cá está, dizia eu para mim mesmo. - Um deputado assim é que eu gosto.
Li, já lá vai um mês pelo menos, que se desligara do Bloco em que eu costumava votar. E esperava que ao menos um dos seu dirigentes viesse a lume explicar-me, a mim, eleitor, que diabo se tinha passado:
Foi apanhado a conspirar para a compra de mais submarinos, a receber chorudos envelopes por baixo da mesa e, envergonhado, pediu a demissão?
Alguma jovem, tipo coelhinha do Playboy, inspirada pelos casos Dassange e Strauss-Kahn, apresentou queixas contra ele no Tribunal Internacional dos Direitos do Homem (das meninas, neste caso)?
Ou, caso muito mais grave ainda, esqueceu-se de alguma das obrigatórias vénias aos sacrossantos dirigentes e fundadores do Bloco?

segunda-feira, junho 20, 2011

Eram 137 irmãzinhas, todas vestidas de bronse...


- Está tudo parvo? A minha filha copiou o quê?




Palavra: se eu fosse o Pai de alguma das jovens estudantes no curso lá do Centro de Estudos Judiciários, já estava de advogado em punho a apresentar queixa por difamação, atentado ao bom nome, o que fosse.

Confesso: não é a possibilidade de uns quantos abusadores poderem virem a ser juízes o que mais me choca.

De há muito que estamos habituados a essa tolerância secretamente orgulhosa perante o «gajo que se desenrascou».

O que me choca é o desrespeito com que alguém estaria a tratar a minha filha.

Contra quem teria de apresentar queixa, logo se via, mas, por exemplo, contra o Expresso, que escrevia on line a seguinte coisa: "A Direcção do Centro de Estudos Judiciários atribuiu nota 10 aos 137 Auditores de Justiça que foram apanhados a copiar..."

"Aos 137 que foram apanhados", reparem.

Dir-se-ia, «tá bem, pá, é só uma notícia, que é que tem?»

Pois tem.

Se a minha filha estivesse entre eses 137 alegados auditores a fazer o exame, o meu advogado estaria a exigir ao Centro de Estudos a prova de que tinham sido exactamenete todos os 137 que realizaram o seu teste, nem menos um, a serem apanhados a copiar.

De facto, estarão os pedagogos do centro em condições de afirmar que não houve ao menos um que tivesse realizado honestamente o seu teste?

Não parece muito: fala-se em "copianço generalizado" - com uma impropriedade de termos realmente chocante vinda de quem vem - e afirma-se que a decisão foi tomada perante a "existência de respostas coincidentes em vários grupos". Noutro lado qualquer podia ler-se a espantosa declaração atribuída, erradamente, espero eu, a um tal Bravo Serra que, no mínimo mereceria o tratamento por Sr.: "desconhece-se ainda", terá ele declarado, "de que forma é que os alunos copiaram, se dentro ou fora da sala de aula..."

Dir-se-ia que o corpo docente daquela escola não sabe realmente grande coisa. Mas, pertencendo ao Ministério da Justiça, desgosta-me pensar que, sem provas, sem indícios fortes de que a minha filha tivesse de facto cometido essa indignidade, partissem logo para a afirmação peremptória de que "os alunos" copiaram. Em lógica nós aprendemos que «os alunos» é = «todos os alunos»; quando se quer dizer talvez não sejam todos - o que era uma dúvida, no mínimo, saudável - pode usar-se a expressão «pelo menos um», «uns» ou «alguns».

Ora eu não leio nada disso nos jornais.

Leio "os 137".

A minha filha, se lá estivesse, estaria irremediavelmente acusada de desonestidade, de ter cometido uma fraude num exame.

Alguém havia de a indemnizar: o CEJ, o Expresso, toda imprensa que cegamente escreveu «os 137».

Um euro simbólico para ela e para a família.

E um milhão que lhes ficasse de emenda a favor do Banco Alimentar Contra a Fome, por exemplo.

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Nota:

Para que conste: não tenho filha nenhuma a estudar no CEJ. Não tenho mesmo, está bem?

terça-feira, junho 14, 2011

A inveja dos Deuses


Eu sei que não é bonito contar estas coisas, mas eu e o meu computador, vivendo em união de facto, tínhamos a relação quase perfeita.

Trabalhávamos juntos horas a fio, divertíamo-nos com coisas tolas inventando variações aos jogos do Windows, bisbilhotando a wikipedia, pulando de blog em blog.

Fazíamos um belo par de jarras, o meu portátil e eu.

Porque é que não se casavam, pergunta-me toda a gente.

Não sei, se calhar foi por causa da lei portuguesa que ainda discrimina este tipo de casos.

Ou então, quem sabe, apenas porque não havia sexo entre nós: questões de pudor, ele era um jovem notebook, cheio de vigor e de capacidade; e eu insisto em admitir, até para mim mesmo, no segredo dos meus pensamentos mais recônditos, que já vou tendo a minha idade. Nada nos proibia de irmos juntos àqueles sites, vocês sabem a que é que eu me refiro, e, enfim... mas não. Não tínhamos segredos um para o outro, mas, confesso, não conseguia rever-me na imagem com que ele iria ficar, por muito verdadeira que se tivesse tornado. O homem tem destas contradições, não é?

Os gregos, porém, tinham razão quando nos preveniam contra a inveja dos Deuses.

A minha relação com o pequeno portátil era demasiado perfeita e o que tinha de acontecer, pois aconteceu.

Estávamos a trabalhar juntos, já nem sei em quê, não queríamos fazer uma pausa sequer para o almoço e zás: a imprudência ocorreu. Um sandes para aqui, uma cerveja para ali, começámos a ficar um nadinha entornados - sobretudo a garrafa que essa se lhe entorntornou completamente por cima do teclado.

Não vos conto da aflição, do pânico; o meu companheiro com um último estremecimento escreveu umas coisas sem sentido e entrou em coma alcoólico e eu corri como um desesperado para a clinica dos PCs mais próxima. Leveram um mês a constatar o óbito.

Como qualquer companheiro sobrevivo nestas coisas, passei as longas noites do luto a recuperar, a pouco e pouco, os seus desenhos, os seus programas, os escritos que só ele guardava.

Agora para aqui estou, com um novo companheiro, mas há-de passar muito tempo até que seja a mesma coisa.

Acreditem.

quinta-feira, abril 21, 2011

Galinhas gordas


(Praça da Alegria, Lisboa)


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A memória prega-nos belas partidas, sobretudo quando já levamos uns anos de vida vivida.


Lembro-me de ter lido algures nos jornais da época qualquer coisa acerca de uma série de pequenas fraudes que se tornavam possíveis com a cumplicidade do sistema bancário ou, pelo menos, de algum gerente mais distraído.
Chamavam-lhe, se a memória me não falha, a rotação dos cheques.
A ideia era a de que um fabiano na vila A podia efectuar pagamentos com um cheque dos balcões da vila B. Dado que tudo isto levava algum tempo, o cheque que aguardava boa cobrança era coberto por um terceiro, este por um quarto e quinto e por aí fora. As dívidas e os desfalques iam sendo escondidos desta hábil maneira.
Toda a gente lucrava.


O tomador do empréstimo, o devedor em vias de incumprimento, o contabilista habilidoso, todos mostravam uma actividade bancária notável, muitos pagamentos, muitos levantamentos, grande capacidade empresarial o que lhes abria a possibilidade de novos empréstimos. As filiaias dos bancos, os seus balcões mostravam também grande volume de negócios. As quotas que os administradores, directores e sub-directores, gente dessa, impunham eram ultrapassadas, os gerentes podiam sonhar com promoções que deixariam os problemas de eventuais créditos mal-parados para quem os viesse substituir.


A coisa só se complicava quando o novo gerente com mau-feitio, resolvia desconfiar, quando alguém parava o cheque não aceitando a duvidosa cobertura.


Vista assim, sem as subtilezas que financeiros e advogados certamente inventaram, parece uma fraude grosseira.
Mas grosseiro pareceu também o caso da Dona Branca, lembram-se, depois do escândalo já rebentado. E, mais ao alcance da memória dos distraídos, quer pela dimensão, quer por ter vindo da mítica Wall Street, as do espantoso Bernie Madoff.


Por muito grosseiras que sejam as fraudes, como o bilhete premiado da lotaria, há sempre gente que cai, há sempre gente que as aceita porque tem vergonha da sua própria parvoíce.
- Não, garantem eles, até no tribunal se preciso fôr. - O investimento era bom. Correu mal, foi o que foi.


Outras calam-se: sempre souberam que os montes de dinheiro que iam recebendo enquanto durou, provinham das poupanças de outros.


Um nosso conhecido, para dar um exemplo, investidor da Dona Branca que «perdeu» dois mil contos - era dinheiro, nessa altura - contou numa roda de amigos que, só em juros já tinha tirado três mil e tal quando a velha senhora faliu.
- Vendo bem, acrescentava, descontando o dinheiro que lá ficou, ganhei mais de cinquenta por cento ao ano.
- E sabias que a Dona Branca tinha de ser aldrabice, pá? - perguntámos nós.
Ele hesitou.
- O meu Tio - acabou por dizer - trabalhou toda a vida, comprou, vendeu, ganhou bastante dinheiro. Mas uma das coisas que ele dizia é que não há galinhas gordas por pouco dinheiro. Se ta quiserem vender, é roubada. Lembrei-me dele montes de vezes, pá. Dez por cento ao mês, que era o que a velhota pagava, nem que ela tivesse uma máquina a imprimir notas de mil toda a noite.


Percebemos.


E percebemos também que estes esquemas funcionam na política... ou naquilo que passa por sê-lo.


A maioria dos eleitores dos partidos do governo detestam ter de admitir que foram levados pela simpatia ou pelo ar austero dos primeiros ministros. Os dos partidos da oposição, que se deixaram levar pelas promessas, pelas suas próprias esperanças. Os outros, mesmo reconhecendo a qualidade ranhosa das governações, defendem-nas porque, afinal, pessoalmente foram tirando bons proveito disso. E a má consciência fá-los proclamar alto e bom som que a política é mesmo assim, que é tudo uma choldra e que, «meu filho, a democracia e essas coisas, é tudo muito bonito, mas se não fores tu a safar-te, ninguém te safa.»


E o esquema da rotação dos cheques aí está.


Os bancos vivem dos empréstimos, o Estado, da obra feita. Os bancos emprestam ao Estado, assumem riscos que o Estado garante, o Estado vai inventando novas Otas, aeródromos, auto-estradas, o dinheiro gira, conta uma vez como dívida, outra como pagamentos, os cidadãos que receberam os seus dinheiritos fazem por sua vez dívidas, os pequenos empreiteiros a quem o Estado ainda não pagou fazem mais dívidas, a contabilidade de tudo isto é impressionante, o dinheiro parece jorrar.


Confesso: mesmo não percebendo nada de finanças nem de economia, dá para perceber que tudo isto assenta na palavra dos governantes e dos governadores. Os primeiros afirmam nas televisões que o país cresce, os segundos afirmam que os seus bancos estão florescentemente sólidos, o Estado garante a solidez das dívidas, a banca distribui lucros aos accionistas, prémios aos seus funcionários. Toda a gente está feliz, o utilizador das SCUT porque, enfim, tem uma estrada de jeito, o funcionário do banco troca de carro, a boutique vende mais um vestido, um jovem casal compra um T2 em prestações que lhe vão levar metade do que ganham.


É claro, nem tudo serão rosas: a gasolina aumenta. O IVA sobe. O IRS vai tendo cada vez menos descontos. As prestações sociais vão deminuindo, porque quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem.


E de onde senão do bolso do contribuínte? O tostãozinho do pobre é pouco, mas quem o perde é louco, pensam os ministros das Finanças.


E se alguém, por exemplo, a falência da Enron, do Lehman Brothers, uma crise internacional, uma coisa dessas, de repente parar esta cadeia de cheques sem cobertura?


A crise do petróleo, em 73, derrubou Marcello Caetano e o Estado Novo. Esta agora, sabe Deus o que fará.


Pois: mas são tudo coisas que se não podem prever.

terça-feira, abril 12, 2011

Info-excluído

Um dia destes conto as minhas aventuras com um PC presumivelmente alcoolizado, prometo. Agora... ainda não consigo.

quinta-feira, março 31, 2011

II centenário de Kleist


Pensar, reflectir

- o que lhe queiramos chamar quando,

partindo de imagens e esquemas,

perseguimos os conceitos -

é um hábito que tem tanto de absolutamente necessário

como de pernicioso.

(Eu, em dia não)

-

Transcrevo, com a vossa licença, de um caderno já muito antigo:


"Ouvido durante a conferência do [Professor Doutor] Carmo Ferreira no D. João de Castro:

1810 (1) - o sucídio de Kleist. Motivo: Não há verdades absolutas, só há verdades condicionadas à nossa intuição sensível.

A Metafísica como uma amante arisca para Kant.


A paixão move-nos para ela, não podemos viver sem a Metafísica e, no entanto, ela não nos gratifica, comporta-se como uma ingrata. A Metafísica é a ciência dos limites da Razão e, ao apaixonarmo-nos por ela, apaixonamo-nos pela fronteira do não-mais-além.


A Razão kanteana é, assim, sentimento.

Sente a carência de totalidade, capta a insuficiência, o interesse move-a, é a razão da razão que, no entanto, como uma outra traição, apenas se interessa por si própria. O interesse (ou a paixão, ou o sentimento) e, no entanto, o único acesso para o outro, para a alteridade. A razão reduz o outro a objecto submisso às condições a priori, ao espaço, ao tempo, às categorias, ao mundo, irremediavelmente aquilo fenoménico, númeno inatingível. O interesse, no entanto, instância última e fundamento, lugar do não-recuo, sentimento prático, leva-nos ao outro, indivíduo, identidade, gozo enquanto conhecimento e acção.

E a Metafísica? É a decepção, tripla decepção porque nada nos diz e nos reenvia à fé, porque a lei moral não é eficaz por si mesma e, enfim, porque o máximo que a Metafísica nos diz é que tudo se passa como se...

De onde a morte decepcionada de Kleist.

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Que devemos então esperar?

A resposta é tautológica: devemos esperar a esperança, que é agir, arriscar.

A recompensa para isto é parca, respondeu Kleist. Para Kant, a recompensa, a plenitude, vem do Belo. E Belo, verdadeiramente Belo, é o rosto do outro quando age livremente."




(1) De facto em 1811. Erro meu, decerto, ao tomar os apontamentos.

sexta-feira, março 25, 2011

Um quê?

Pois. É um caucus, ao que dizem. Ainda não sabemos muito, só o que vamos lendo.

Por exemplo, aqui.

terça-feira, março 22, 2011

O Burro de Buridan ou Os preços dos combustíveis!


Vocês conhecem esses mails tremendistas que circulam na net, uns a dizer mal do Governo, outros com vistas de Paraty?
As vistas de Paraty é como o outro.
Pronto, a gente apaga logo se está com muita pressa. Se não, até passa uns minutos entretido - sem pensar que foi um tempo gasto sem grande proveito.
A dizer mal do Governo ou «desta choldra», isso já pode merecer uma atenção mais cuidada.
Hoje, por exeplo, recebi dois que me mereceram uns momentos de reflexão, não sei se inteiramente pela positiva...
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Um deles era sobre a candidatura à carreira judicial de um réu no processo da Casa Pia de Lisboa.
Os crimes por que estes réus todos estão a responder é particularmente repugnante, talvez porque tudo o que envolve maus tratos às crianças incomoda particularmente quem é mãe ou pai, avó ou avô.
Eu próprio devo dizer aqui já: detesto pedófilos.
Mas reconheço: é um defeito meu porque sei que se trata de uma patologia de dificílimo contrôlo, tanto pelo próprio doente como pela sociedade. Que fazer com um pedófilo? Condená-lo à morte? Nunca, claro. Recuso uma sociedade que se arroga o direito de matar, seja em que caso for, não que o criminoso não o merecesse eventualmente: mas nós, cidadãos vulgares, ou eu, pelo menos, recusamo-nos a matar de volta.
À prisão perpétua?
Castrá-los quimicamente?
Há dados que permitam fazer a avaliação das consequências de cada uma destas opções? Duvido muito.
Dito isto, o que me espantou no dito mail foi o tom exaltado com que se condenava o Centro de Estudos Judiciais ou o que fosse, por admitir um desses réus no curso de formação para a carreira judicial.
Note-se, e o próprio mail o dizia, o dito réu, por ter um doutoramento reconhecido pelo estado português, tinha acesso automático ao dito curso de formação sem passar pelas provas de admissão que, de costume, são bem severas.
Que desejava o autor do mail que se fizesse?
Que se impedisse um cidadão que tem a sua candidatura de acordo com a exigências legais de ser admitido? Com base em quê?
A pedofilia - uma condenação moral fortíssima, concordo - não está ainda, de modo algum, estabelecida. Não há ainda, tanto quanto julgo, uma sentença definitiva. Até ao momento da condenação, com trânsito em julgado - ou coisa que se lhe assemelhe em linguagem de advogado - até à altura em que, já sem possibilidade de recurso, ou não o tendo exercido, o réu é declarado culpado, ele é um cidadão como outro qualquer, um presumível inocente.
E com que direito o Centro de Estudos Judiciários eliminaria um cidadão inocente dos seus concursos? Nenhum, não é?
Ou então, prescindiremos do Direito.
Provavelmente, o autor do exaltado mail é como o burro de Buridan: está indeciso.
Por um lado, a sua exaltada moral.
Por outro, o seu desejo de viver numa sociedade que não permita que ele próprio, um dia destes, seja condenado seja a que for com base em simples suspeitas ou até mesmo sem elas.
Ou não será assim?
-
O outro mail era igualmente interessante.
Todos nós estamos fartos de refilar por causa do preço dos combustíveis. E, quando o dito mail nos chama a atenção para os preços do gasóleo, por exemplo, no Egipto (14 cêntimos) ou na Arábia Saudita (7 cêntimos), sinceramente, eu fico impressionado.
Mas, logo reparo que, por exemplo, que no Brasil, segundo o mesmo mail, o mesmo gasóleo já custa 54 cêntimos e que na China, outro país dito emergente, a gasolina anda pelos 45, mais ou menos a par com os Estados Unidos.
Reparo também que não são os países mais famosos pelos seus mecanismos de protecção social, quem tem os preços mais baratos: veja-se a Swazilandia, por exemplo, onde se vende a super a 10 cêntimos, ou a própria Líbia onde, antes destas revoltas, supõe-se, o diesel custava 8 cêntimos: tudo informações do próprio mail, é claro.
Por cá, há algumas diferenças a considerar.
A Europa do pós guerra de 1939-45 apostou fortemente nas reformas dos trabalhadores, nos hospitais, na assistência na doença e no desemprego.
Foi uma opção que nós, portugueses, não só imitámos a partir do 25 de Abril, como temos validado em todas as eleições, desde que o pudémos fazer.
E a manifestação do dia 12 deste mês, lembram-se?
Mais coisa, menos coisa, foram 300.000 pessoas na rua, em apoio dessa opção.
Fica-nos a dúvida: que queriam provar os autores do dito mail?
Que preferiam eles?
O gasóleo ao preço da uva mijona e os nossos velhos a morrerem ao abandono? As nossas crianças sem escola? Os doentes à porta de um hospital que os não recebe porque não têm dinheiro?
Duvido.
São, também eles, como o burro do Buridan. Entre duas coisas igualmente boas, também não conseguem escolher.
Ou conseguem e, afinal, não passa de mais um ataquezinho sôfrego ao Estado Social?

terça-feira, março 15, 2011

E Almaraz aqui tão perto!

- Começo a perceber porque é que eles diziam que small is beautiful...



sexta-feira, março 11, 2011

Pois, tem razão...

O Portugal, caramba! compreende que nem toda a gente tem vontade de ir amanhã à manif, mas que não deixa de sentir um certo peso na consciência por causa disso.
Como não quer ver ninguém sofrer, decidiu oferecer aqui, de borla e sem necessitar de citar a fonte, quatro desculpas já prontas a usar.
Que as aproveitem e que gozem o seu sábado com saúde é o que o nosso blog lhes deseja.

quinta-feira, março 10, 2011

terça-feira, março 08, 2011

Dias internacionais...

- Como?


- Dia Internacional de quê?


- Meu. Nosso.
Só desejo às mais jovens que não percam nada do que a minha geração conquistou.
E que obtenham mais qualquer coisa, pelo menos.
A alegria, por exemplo...

quarta-feira, março 02, 2011

Kadaffi


Não tenho qualquer simpatia pelo Kadafi, confesso. Mas confirma-se: «quando o cão é danado, todos lhe atiram pedras».

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Bertrand Russell

Russell entrou nas nossas jovens vidas, quem sabe se pela pior das razões.
O seu livro Porque não sou cristão, lido às escondidas na edição brasileira, não terá tido o impacto que merecia e a razão é simples. Não o lemos como a defesa de um racionalismo coerente e algo radical, mas unicamente como uma contestação aos senhores padres de Religião e Moral, aos nossos pais, ao salazarismo tacanho que atabafava a nossa irreverência sem nada nos dar em troca.
As organizações de juventude estavam severamente controladas: os Escuteiros praticamente nas mãos da Igreja, a Mocidade Portuguesa que nos obrigava a uma preparação militarizante e a saudar de braço estendido, como as juventudes hitlerianas, era obrigatória nas escolas.
Por todo o lado era o discurso patriótico, anti-comunista, contra a dissolução dos costumes e pela virgindade das meninas que eram noivas e irmãs, puras como Nossas Senhoras.
Claro, o episódio da ilha dos amores tinha sido cortado na edição escolar d'Os Lusíadas e nós íamos lê-lo na edição de algum mais afortunado.
E depois começou a guerra.
A fé e o Império, as grandes navegações que fizeram os nossos maiores e, por isso, Angola é nossa e resto também.
Lá foi a nossa juventude, de espingarda às costas, para as colónias, com a benção da Igreja, para defender a civilização cristã e ocidental.
Estávamos fartos das grandes palavras.
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A literatura «lá de fora», sobretudo a francesa, abriu-nos para outros pensares: lemos tudo, desde a Françoise Sagan ao Sartre, do Roger Martin du Gard até ao Claude Roy.
E o Bertrand Russell conduziu alguns de nós, pelo menos, ao pacifismo; compreendemos que uma civilização, por muito cristã e ocidental que fosse, se assentava a defesa dos seus valores na esquadra americana e nos arsenais nucleares, não valia grande coisa.
Orgulhosos, começámos a usar o emblema do seu movimento contra a bomba atómica. Era um círculo branco sobre fundo preto, com um diâmetro vertical, norte-sul, e as direções sudoeste e sudeste assinaladas a branco também.
Os mais velhos olhavam para nós com alguma melancolia.
Ao ver-me com o vistoso emblema, o Pai de um dos nossos amigos contou uma história dos tempos em que a Espanha estava em Guerra - dita civil porque o exército estava quase todo do lado dos revoltosos e do lado do Governo livremente eleito só estavam os civis. Daqui de Portugal ia todo o apoio para a causa dos generais: o major Botelho Moniz, com os seus viriatos, claro, mas a prisão e a entrega de refugiados na fronteira, a colaboração entre polícias, comida e armas, de todos os modos que o regime em Portugal podia apoiar a revolta.
Aos anti-franquistas portugueses, platónicos apoiantes da República Espanhola, restava o uso de um emblema da AEG quando o podiam arranjar.
Vale a pena recordar que a AEG era uma enorme multinacional alemã, ligada aos equipamentos eléctricos. Em 1936, quando eclodiu a revolta dos militares em Espanha, de certeza que estava a trabalhar para o Hitler, o mesmo que, de imediato, enviou a «divisão condor» a apoiar Franco.
Parecia contraditório.
Porém, para os iniciados, AEG não significava Allgemeine Elektricitäts-Gesellschaft, mas sim, em portunhol, Arriba Espanha Governamental. Para a polícia política de Salazar, valia o equívoco.
- Mas - concluiu o Pai - nós reconhecíamo-nos uns aos outros.



Muito mais tarde, na Faculdade, para lá das aulas e das orientações ideológicas, deparei-me com a obra de Russell.
O positivismo e depois o positivismo lógico tiveram um importante papel no pensamento filosófico em Portugal, pese embora aos integralistas e saudosistas. Porém, depois de Vieira de Almeida se ter reformado e de o curso de Filosofia em Lisboa ter levado a volta que levou, descobrir a escola de Viena, o empirismo lógico e coisas dessas, era uma lança em África para os alunos.
Conhecia já o livrinho - que de «inho» só tem o tamanho - de 1912, Os problemas da filosofia, editado em Coimbra, com tradução de António Sérgio.
Um dia porém, em 73, meses antes do 25 de Abril, encontrei, sei lá por que milagre, An inquiry on meaning and truth, na edição francesa da Flammarion, discretamente entalado nas estantes da Livraria Universitária, ali ao Campo Grande.
Toda esta época do meu percurso é confusa. Julgo que andava já às voltas com Wittgenstein, quando tentava escrever a tese de licenciatura e lembro-me de ter devorado o ensaio do Russell como um bulímico a engolir pastéis de nata.
Juro-vos que não consegui abarcar nem metade de metade.
Mas ficou-me a saudade de qualquer coisa que não tinha tido e que não poderia vir a ter nunca mais: gostaria de me ter sentado lá atrás, num anfiteatro, talvez em Cambridge, talvez nos States, escudado pelo meu caderno e pelos meus desenhos, a ouvir as aulas de Bertrand Russell.
-
O Guimarães Rosa, num dos contos de Sagarana, creio eu, diz uma coisa interessante, mais ou menos assim:
"Quem sabe se, algures, num país onde eu nunca fui, e onde não irei jamais, existe a mulher ideal, a minha alma gémea..."
E pimba! O narrador desse conto resolve casar-se com a prima.
Eu, modestamente e à minha maneira, confesso que discordo.
Um dos meus maiores pecados, digo eu, pelos quais terei de dar contas um dia, foi nunca ter partido à procura dessas coisas excepcionais, desse quadro, dessa pequena escultura, desse Maio de 68, dessas Brigadas Internacionais em que combateu o Orwell, desse professor que me poderia ter ensinado aquilo de que talvez nem faça a menor ideia.
Não é um verdadeiro desperdício?

sábado, fevereiro 19, 2011

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Que parvos que somos


Há quanto tempo não tínhamos assim uma canção de protesto, daquelas que vão direitas à mouche, quer dizer, canções que, de repente assumem o sentir colectivo?
Dantes iam surgindo umas que a gente cantava sentados nos degraus da faculdade, tipo:
«Canta, canta, amigo canta, vem cantar a tua canção, tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão...»
Ou então, acontecia, perguntarmos «ao vento que passa, notícias do meu país. E o vento cala a desgraça e o vento nada me diz...»

Agora que estamos entregues a
comentadores-mais-ou-menos-comendadores, à sua comenda e bebenda assentados, até corremos o risco de acreditar que a política do pleno emprego e a da educação universal foi errada e que num país de mão de obra escrava os escravos refilam tanto menos quanto menos estudarem e assim deve ser.

Sim, a culpa é dos Robertos Carneiros e dos Marçal Grilo - vá lá que são estes - alegadamente por esquecerem que a educação vai a par com os estudos de mercado.

Tomem lá, que a canção dos Deolinda é "a resposta, e uma boa resposta" à vossa "'prioridade das prioridades'" (VPV, em 5/2 dixit).

Ah, comendadores, comendadores!

Que parvos que somos...