segunda-feira, agosto 27, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

 
Dr. Dom Jacinto
(retrato robot)
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Pode ser encontrado em locais como a Granja ou no Náutico de Cascais.
Identifica-se mais facilmente pela qualidade dos tecidos do que pela dos alfaiates.
 
 


quarta-feira, agosto 15, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

As leituras, felizmente, como dizia há já muito tempo um amigo nosso a propósitos dos símbolos, são como a chuva, acabam sempre por passar.
E passam.
Os livros, a gente lê-os, faz que sim com a cabeça, «oh! como é verdadeiro!». Ficamos avisados. Logo a seguir esquecemos e fazemos as asneiras de sempre.
Se se tratar de literaturas menores, como a ficção científica ou a policial, pior ainda. Das histórias aos quadradinhos, então, nem é bom falar. Alguém lhes liga? Alguém ousa admitir que aprendeu fosse o que fosse com essas literaturas pouco sérias?
Para não irmos mais longe, já repararam que, quando nos levam de casa um livro policial, tipo, «pá, não tens aí uma merda que se leia?», ninguém se sente obrigado a devolvê-lo?
Foi assim que eu perdi uma data de coisas importantíssimas: por exemplo, um livro do Perry Mason, na edição da coleção Escravelho de Ouro que me teria permitido fazer agora um bombástico post sobre o suicídio de Hemingway.
Já viram o prejuízo?
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Mas adiante: o facto é que a culpa não é só dos amigos que nos levam os livritos num bolso e nunca mais se lembram de quem era o propritário quando os re-emprestam a terceiros. 
Nós próprios também os perdemos: são nossos, claro, mas ficaram lá para o fundo duma estante, entalados entre filas e filas deles, a ganhar pó, nicho ecológico ideal para gerações e gerações de aracnídeos de toda a espécie (ácaros incluídos).
Nas grandes arrumações, uma vez por outra, vamos dar com uma preciosodade:
- Olha! Um Freeling que já não lemos há anos sem fim!
Ou uma Le Guin, umVonnegut, um Chandler - a propósito, há que anos não leio O Imenso Adeus...
E, inferno e danação, mais um que se perdeu!
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Enfim, un de perdu, dix de retrouvés, da poeira das arrumações surgiu um Hammett, toca a relê-lo, porque reler é recordar, recordar é viver, e viver, tirando umas secas por outras (por exemplo, tenho de levar o meu jipinho à inspeção, já viram?), viver, dizia eu, e espero que concordem, é bem porreirinho.
E então quando encontramos os nossos próprios sublinhados?
É a ocasião impar para uma recherche du temps perdu, tipo Proust à procura de reencontros; sucedem-se os espantos, as exclamações:
- Que raio! Em que é que eu estaria a pensar quando sublinhei isto?
Ou então, com um toque de ternura:
- Pá! Que giro! Que ingénuo que eu era!
Uma vez por outra ficamos a pensar:
- Pois é. É isto mesmo.
Foi o que aconteceu com A chave de vidro, do Dashiell Hammett onde um breve traço na margem abrangia um par de parágrafos.
- Não sei por que continua a falar do senador como se ele fosse um ladrão de cavalos - tinha eu assinalado. - Ele é um cavalheiro e...
- Absolutamente. leia o que dizem a seu respeito no Post: é um dos poucos aristocratas que restam na política americana. E a filha, outra aristocrata. Mas é por isso que o previno: tome tento e garanta-se logo que o for visitar, ou sairá de mãos vazias, porque, para eles, você não passa de uma forma inferior de vida animal, para com a qual não há regras estabelecidas.
É claro, tatava-se de um senador e aristocrara made in Usa, mas eu quis lá saber dessas imensidades quase sobrenaturais: desatei a pensar pequenino, na nossa democraciazinha à portuguesa.
É verdade que toda a gente olha para nós como se fôssemos "formas inferiores de vida animal".
Lembram-se de um livro do Graham Greene chamado O Terceiro homem?
Eu lembro-me, claro, mas também não sei onde pára. Ora acontece que nesse livro havia uma personagem, Harry Lime, se bem recordo, que lá do alto duma roda gigante numa Feira Popular na Viena do pós-guerra, apontava as figurinhas minúsculas lá em baixo e perguntava:
- Se um daqueles pontinhos pretos, lá ao fundo, parasse de se mover de repente, que nos importava?
De facto, tão pequeninos e tão ao longe.
Infelizmente, somos nós, esses pontinhos pretos. 
Não há regras para tratar connosco: cortam nos ordenados, nos subsídios de doença, fecham hospitais e palácios da justiça; sobem impostos, taxas, portagens, o que lhes apetece. Vendem ao desbarato aquilo que nos custou milhares de milhões a pôr de pé, a REN, a EDP, o BPN, a TAP, Sines, o transporte de mercadorias, sei eu lá! E já se falou nas Águas de Portugal.
E é quando humildemente queremos protestar, mesmo baixinho, «olhem lá, a àguínha, que fazia tanto jeito...», é nessa altura que sentimos, cá bem fundo:
- Sou uma forma inferior de vida animal.  
Se não me acreditam, tentem apresentar uma reclamação às Finanças... perdão: à Autoridade Fiscal e Aduaneira.
Ou então, ir ao banco reclamar contra o aumento das vossas prestações...
O Caixa olhar-vos-á exactamente como o Chefe o olha a ele; e como o Director olha para o Chefe; e como o Chairman do Banco, do alto dos seus vencimentos, cartões de crédito e prémios, olha para os BMWs dos Directores enquanto espera que o motorista o venha buscar.
A prima Cecília
Nós, para não lhes ficar atrás, pumba! Do alto do nosso sofá comprado no Ikea, olhamos para esse Senhor Chairman, quando ele aparece no nosso plasma da Worten, do mesmo modo como nos olhou o seu próprio Caixa. 
E pronto. Fechou-se o círculo.
Se pensávamos que a democracia era mais do que isto, estávamos enganados.
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Ficou-me, no entanto, uma dúvida.
Ficaram mais, mas, de momento, esta já chega:
Onde estão e quem são esses aristocratas da nossa sociedade a quem nós pudéssemos chamar com algum grau de certeza, «formas superiores de vida animal»?
Ao olhar para as figuras públicas, nenhuma me parecia merecer esse epíteto. Nem Bavas, nem Mexias, muito menos os Relvas, os Cavacos Silva, os Majores e Meneses, os Pinto da Costa e os outros de quem não fixei os nomes.
E olhando para o passado, para as prateleiras poeirentas das minhas memórias, também não: certamente que não o Soares, nem o Guterres, nem o Barroso. Ninguém que eu tivesse visto no plasma.
Então, decidi-me. Que tal fazer assim uma espécie de retrato-robot e procurar por eles como se fossem foragidos e a justiça os reclamasse? 
Agarrei no lápis e zás.
A Sra. Dona Estefânia Alice Cecília do Menino Jesus é, quem sabe, o primeiro.
Quem a encontrar, cale-se muito bem calado e não diga nada a ninguém.

quarta-feira, julho 18, 2012

Doce de Ameixa

Nero, que era uma pessoa importante lá em Roma, tocava lira - e, claro, a culpa era dos cristãos, dos ciclistas e dos escravos que não queriam trabalhar.

A minha desculpa, que dela bem preciso, é que o raio do doce está a ficar um espetáculo.

segunda-feira, junho 25, 2012

E aos costumes disse LOL!

- Pá, companheiro!
Manda aí uns trocos para eu pagar a multa! (1) 
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1) Seguindo uma sugestão do Luciano de http://pequenosprazeresmusicais.blogspot.pt/.

segunda-feira, junho 18, 2012

Para fazer um cavalo feliz

No Domingo veio cá o meu primo Artur.
Parou o jipe em frente ao portão, como de costume, apeou-se e acenou de lá, o braço esticado a agitar um jornal que me pareceu o Finantial Times.  
«A Isaltina hoje não veio», explicou ele enquanto sacava da mala uma caixa de madeira com três garrafas e um embrulho tosco com o que parecia um paio. «Ficou com o puto, o Arturito, porra, o meu neto! Parece que tem uma virose ou uma merda assim que os médicos inventaram agora... Olha lá, tu quando eras pequeno tiveste alguma vez uma virose? Havia disso quando a gente andava a jogar à bola na rua? Havia era canelas esfoladas, nódoas negras e cabeças partidas! Isso é que era.»
Concordei, é claro.
O Artur, cada vez mais parecido com o Tio Zé Damião, ia entrando, já estava a partir rodelas do paio para um prato, eu tirava um queijo da Idanha de dentro do frigorífico e uma fatia de paté, e ele a comandar, «pá, vamos mas é lá para fora, olha lá, farto estou eu de estar dentro de casa.»
E já com o vinho aberto e os copos servidos, instalados debaixo da glicínia, ele declarou com ar de solene convicção que «vocês é que têm sorte, pá, aqui longe das merdas todas!»
Num gesto inconsciente com que pontuava a exclamação, agarrara no Finantial Times e fazia menção de atirar com ele.
- Pois - concordei eu.
Aquilo era uma estreia. Toda a vida o Artur troçara de nós por vivermos «longe de um cinema, pá,  dos restaurantes, quantos quilómetros é que tu tens de andar se quiseres ir a um centro comercial, hem? Uns quinze, ou mais, olha lá! E a praia, pá? Quarenta! P'ra cima!»
E, perante aquele ar de infelicidade genuina, acrescentei:
- É o meu bocadinho de corda mais comprida.
Não percebeu, claro.
- Pá, houve uma mulher, uma italiana assim meio anarquista, que escreveu uma coisa que dá que pensar, sabes? "Para fazer feliz um cavalo," diz ela, "basta amarrá-lo a uma corda mais comprida." Isto aqui é a minha corda mais comprida, como ela disse.
Ia a acrescentar que a frase era da Goliarda Sapienza, e que o livro se chamava L'Arte della gioia, mas ele não me deu tempo.
- E tu és um cavalo, pá, porra? Só se fores tu, olha lá, que és assim tipo burro!
- É. E tu? Tu fazes-te de mula a ver se disfarças.
Ficámos a olhar um para o outro e eu continuei:
- Deixam-me pastar por aqui, pelo menos enquanto não precisarem deste sítio para passar outra auto-estrada ou para fazerem um aterro sanitário. Depois expropriam tudo por dez réis de mel coado e arrastam-me daqui para fora; e se eu não quiser ir, dão-me um tiro e dizem que resisti à polícia. Estás a ver. Enquanto não me tirarem isto, carregam no Imi, levam-me os subsídios, aumentam o Iva e o gasóleo... E a ti? Também não estás grande coisa, pois não?
- Eh! 
 Bebeu um gole de vinho e voltou a servir-se. E eu aproveitei para carregar um bocadinho mais na ferida que a presença do Finantial Times me fazia adivinhar e que os seus silêncios confirmavam:
- Estás a ver, para amansar os cavalos, basta ir encurtando a corda, todos os dias mais um pouco, até chegar ao alcance da chibata.
Ele murmurou qualquer coisa incompreensível, tipo «isto é uma democracia, olha lá!», mas eu mandei-o lixar-se. 
- Pá, a democracia não tem nada a ver com a corda. A corda, não tenhas ilusões, existiu sempre e vai continuar a existir. Somos humanos: a espécie a que pertencemos deve ser a mais gregária de todas as espécies à face da Terra. Que outro bicho, formigas incluídas, estás a ver? Que outro bicho era capaz de viver  amarrado a vinte milhões de outras formigas? Pá, tu já foste a São Paulo, já viste o que é viver com mais vinte milhões de iguais a ti. Não passas de uma gota minúscula no meio de um lago maior que o Titicaca. E já andaste de metro. Que outra espécie seria capaz de viajar numa carruagem do metro à hora de ponta? E nota: sem deixar atrás de si um rasto de sangue e de destruição! Se fossem formigas eram um monte de patas e de cabeças arrancadas. Se fossem gatos, era tripas, era olhos, era tudo.
O Artur abanava a cabeça.
- Pá! Não é bem assim, olha lá. - tentava ele argumentar gesticulando perigosamaente com a faca de cortar o queijo. - Há a civilização e há tudo isso, pá. Lá que tu vivas aqui como um atrasado, é lá contigo.
- Está bem, pronto. Podemos dar nomes mais bonitos às coisas se tu quiseres. Falamos em «amor filial» ou em «patriotismo», por exemplo. São amarras que temos à nossa terra e à nossa família. E alguns como tu, demasiados, diria eu, ainda têm o clube! E sabes o que é um clube? É um sítio onde onze esforçados inúteis ganham a vida a pontapés.
- Não dizes mal do Glorioso, óvistes?
- Eu? Tem juízo. Quero lá saber do teu clube. Tu é que andas a gemer por aí que te encurtaram a corda e já sentes o chicote no lombo. É ou não é?
- Porra, pá, também não é tanto assim.
Levantou-se a abanar o peso da cabeça.

- Vou lá dentro à casinha - anunciou. - Mas, felizmente, pá, na Grécia, hem? Ganhámos as eleições, 'tá-z-óvir?

domingo, junho 10, 2012

segunda-feira, junho 04, 2012

Manifesto para uma Esquerda Livre

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Foram ontem as primeiras reuniões abertas dos subscritores do «Manifesto para uma Esquerda Livre».
Não se sabe ainda, é claro, nem o que é uma esquerda - a não ser no boxe - nem como pode ela ser livre.
Desde logo, porque ser de esquerda não é exactamente um lugar que se ocupe, uma coisa adquirida, como dantes se comprava à época um camarote em São Carlos; ia-se ou faltava-se, conforme os azeites, aplaudir ou vaiar as primas-donas.
E depois, porque a tradição nos diz coisas que já se tornaram absurdas: por exemplo, continua a dizer-se que o Partido Socialista «é» de esquerda, e a direita aproveita-se, não cessa de nos dizer que as maiores asneiras foram feitas por ela.
Pode ser que tenha razão, mas, então, para mim, é como se fosse o Dantas.
Se o Dantas é de esquerda, eu quero ser espanhol. Pim!
Antes de irmos mais adiante, devo dizer o seguinte:
Não penso que a um socialismo mais autêntido - aquele que reivindicava «a paz, o pão, a habitação, saúde, cultura e educação», tão simples como isto! - seja importante o problema da propriedade dos meios de produção, como era para os marxismos mais ortodoxos. Basta-lhe que esses meios estejam ao serviço da comunidade, o que, obviamente, não depende dos «proprietários», o mais das vezes meros accionistas com pouquíssimo voto nas matérias. Depende dos «decisores», uma classe que gere, que administra, que endivida, deslocaliza e faz falir aquilo que melhor lhe convém.
Não tenhamos medo de ressuscitar a luta de classes:
A classe dos «decisores» é uma classe que urge combater antes de chegarmos seja onde fôr.
Mas é importante saber caracterizá-la, saber quem faz parte dela e quais são os seus instrumentos de poder.
E, atenção: não basta conquistar esses instrumentos: já foram conquistados e perdidos vezes sem conto. Estamos fartos de saber que o poder corrompe; que atrás de classe, classe vem e que o que a outra fez, fará esta também.
A tarefa de uma esquerda que se queira livre consiste, antes de mais, em restringir o poder, desarmar-lhe os instrumentos:
Onde houver polícias, haverá sempre quem as mande contra quem se lhe opõe.
Onde houver dinheiro, alguém comprará as consciências dos outros homens.
Onde os fins forem mais importantes que os meios, não haverá liberdade, não haverá esquerda livre, nem direita livre, nem centro livre.
Livre, só a Goldman Sachs - ou lá como se chama. 

sexta-feira, maio 11, 2012

A visita da Cobra Rateira

Esta gentil senhora que aqui podemos ver numa bonita foto  rapinada da internet, é a Malpolon Monspessalanus. Mais em família, diz-se que é uma Cobra Rateira, e pronto.
Como visita, não posso dizer-vos que seja muito muito conversadora: tudo o que diz resume-se a um som asmático, prolongado, vindo lá do fundo da garganta. Quase esperaríamos que desatasse a tossir, com uma tosse cavernosa de fumadora inveterada, mas não. Aqueles «esses» expirados prolongam-se, interrompem-se por momentos e voltam com a mesma monotonia de sempre.
- Pá, olha lá que que com esta gaja não se aprende nada - diria o Primo Artur enfiando uma fatia de queijo da Idanha entre duas goladas de tinto.
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De facto, ao contrário do Artur que chega ali ao portão com o jeep e desata a businar, a Malpolon não é pessoa de grandes estardalhaços.
Quase nunca a vemos, entra e sai sem dizer nada, sem incomodar. Ontem, porém, foi diferente. 
Resolvida a participar das nossas refeições, veio fazer-nos uma visita, deslisou até ao quintal por entre as ervas que as últimas chuvas e agora este calorzinho transfomaram em matagal.
Deve-se dizer que, de há tempos para cá, quase deixámos de ter aquilo a que se chama «lixo comum». Se já separávamos os plásticos, o papel e o vidro para futura reciclagem sabe Deus por que longínquas instituições, porquê deitar para o contentor camarário os restinhos de pão que ganharam bolor e já nem para umas migas se aproveitam?
O mesmo para as cascas das batatas, para o talo das couves, o cascabulho das maçãs quando o nosso cão, vá-se lá saber porquê, o olha desdenhoso.
De modo que fizemos uma estrumeira.
É claro; agora está mais na moda ter um compostor, daqueles muito sofisticados, que se vendem nas grandes superfícies do «faça você mesmo».
Mas nós aqui em casa o que temos mesmo é o monte do estrume, à moda antiga.
E, uma vez por outra, mesmo se o tentamos evitar porque os tempos não estão para desperdícios, até uns restinhos de comida lá vão parar.
Os melros e os pardalitos são os nossos mais frequentes comensais.
Era para lá que a Rateira Malpolon se dirigia, ou, quem sabe, era de lá que vinha, já com a tripa forrada com o que encontrou.
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Infelizmente, aquela parte do quintal, como se calcula, está protegida por uma rede.
Não é nada que detenha um um gato sequer: uma simples redezinha de plástico a marcar uma fronteira, permeável aos insectos e aos ratitos que lhe passam por baixo se quiserem.
A Cobra, porém, ou por distração ou porque ia apressada, enfiou-se numa das malhas, a cabeça e um bom palmo conseguiram passar, o resto do corpo ficou entalado.
Sem atinar com a marcha à ré, fez o pior que era possível: enfiou a cabeça noutra malha e noutra ainda e lá ficou, nem para diante, nem para trás, sem se conseguir mexer sequer.
Só um ou outro estremecimento e a sua respiração de asmática nos mostraram que estava viva e, diga-se, não muito bem disposta.
Se fosse em casa do Tio Zé Damião, era sabido: «as cobras são bichos nojentos, dão cabo de tudo! Ter isso aí até é um perigo para as galinhas. Dá-se com a enxada, parte-se-lhe a espinha e já está, fica para aí a torcer-se que é para aprender.
Antigamente é que era: meti-se num saco, a Venatória pagava quize milréis por cada uma, sempre dava jeito. Agora, querem eles lá saber!» 

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Claro que não seguimos o conselho do Tio, nem o consultámos sequer.
Tentámos com a tesoura de podar, mas era muito larga e mal jeitosa. O ideal foi mesmo uma tesoura das unhas: a Malpolon estremecia de cada vez que os bicos fininhos se aproximavam para cortar os nós da rede, soprava de indignação, mas garanto, quando se apanhou à larga nas malhas, caramba!Parecia que levava fogo no rabo, nem ficou para posar para uma última fotografia.
Esperamos todos que, a estas horas, a nossa Rateira esteja a contar às amigas a grande aventura da sua vida: como, resistiu heroicamente àqueles enormes seres desnaturados que a tinham apanhado à traição e que a ameaçavam com uma espécie de mandíbulas cortantes que faziam clic! Clic!
E já agora, se não lhe fizesse muita diferença, a gente agradecia que ela passasse de largo pelo nosso quintal: não dá jeito nenhum andar sempre a ter de fazer buracos na pobre rede, como calculam.

terça-feira, abril 24, 2012

sábado, abril 21, 2012

In fine

Se se nos acabar o tempo
(que é a essência do fundamento)
Lamento,
Mas quero lá saber:
Já não vamos estar cá
Para ver.

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, abril 18, 2012

Mistérios

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Que será feito da nossa vocação marítima?

quarta-feira, abril 11, 2012

quinta-feira, abril 05, 2012

terça-feira, março 13, 2012

Tiro ao Cavaco!

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Segundo alguns comentaristas, abriu, na mediática feira, o stand de tiro ao Cavaco.
Tem sido um sucesso.
Só não nos juntamos ao valoroso grupo de atiradores porque não gostamos da companhia.
Quanto ao resto, diríamos como o Almada Negreiros:
Se o Cavaco é português,
eu quero ser espanhol.
Morra o Dantas!
Morra!
Pim!

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Melindres de Pedagogo e glórias de General

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Sérgio de Sousa, que tem colaborado com este blog, bem mais esporadicamente do que nós gostaríamos, acabou de publicar o seu Diário Póstumo de um Paraescritor (Anáfora, 2011).
Como afirma no Prefácio, "além do incontornável autor, mais quatro pessoas, pela assiduidade com que intervêm ao longo do Diário, tornaram-se também personagens dele."
São essas quatro, em primeiro lugar o seu editor, logo o seu filho mais velho, o Eugénio e o seu amigo Raúl Hestnes Ferreira, conhecido arquitecto, autor entre outras obras, do edifício da Escola Secundária de Benfica ou a Casa da Cultura e da Juventude de Beja.
Dado que a quarta personagem a intervir nesta narrativa diarística é Rui Costa Lopes, que também, conforme calha melhor, se assina como Tacci ou João Bessa, ou Bento Sequeira, ou qualquer outra coisa que venha a jeito, e como se dá o caso de ser o principal redactor deste blog, achámos conveniente apresentar o livro de Sérgio de Sousa com o devido destaque.
-
De Rui Costa Lopes se diz, ainda no prefácio:
"Penso que o Rui assumiu o papel daqueles escravos a quem incumbia seguir atrás dos generais nos desfiles da consagração das vitórias, para lhes lembrar que não deviam deslumbrar-se consigo próprios. Só que", acrescenta o autor, "felizmente, nem o Rui, apesar de pedagogo, é escravo, nem eu sou, nem me pretendo, general vitorioso." (pag. XV)
De facto, como diz mais tarde, numa entrada do seu Diário de 8 de Julho de 2003, Rui Costa Lopes cumpriu de forma cabal o papel que nesta narrativa lhe foi distribuído.
"De tudo quanto publiquei", escreve o autor, "o Rui não achou o primeiro livro aquilo a que se costuma chamar promissor, embora na altura lhe tenha encontrado um pormenor interessante. Digamos", continua, "que não quis logo demolir-me. Do resto, apenas ressalva de Na senda dos utopistas três textos, «A Tríade», a que se recusa chamar-lhe assim, nomeia-o «Palimpsesto» - enfim, não será exactamente, mas com boa vontade admito que pudesse ter esse título -, e de que diz não fazer a mínima ideia do que eu quis dizer com o texto, mas o que quer que fosse, está dito, literariamente dito, são palavras suas, «A crónica inventada no Portugal contemporâneo», porque acha piada à figura da protagonista, e o texto «Na senda dos utopistas», porque nele «se abordam algumas ideias», sic. O mais são trouvailles, sem realização literária.
"Claro que o Rui faz o favor de continuar a ser meu amigo, apesar de eu não escrever nada de jeito, e por isso me aconselha a que deveria não ser apressado na escrita, deveria cuidar do literário.
"Ora reconheço que tento escrever nos poucos intervalos de tempo de que disponho, e isso imprime à minha escrita um cariz provavelmente diferente do que teria se dispusesse de uma estabilidade material que me permitisse estar tranquilamente num local aprazível a ocupar-me quase exclusivamente de escrever.
"Mas também procuro uma escrita incisiva e não contemplativamente espraiada. Aprecio noutros virtudes de linguagem, para mim chega-me que a prosa resulte inteligível.
"O Rui acha que se não me disponho - por preguiça, precipitação, falta de domínio de eventuais capacidades - a escrever melhor, então não deveria publicar. Enfim, eu farei o que quiser, acrescenta. "Quanto a ele, o de eu não sair de uma pequena editora, significa que o que escrevo não tem qualidade e ando a ser explorado. [Se o que escrevi não presta," pergunta o autor entre parêntesis rectos a indicar que se trata de um comentário contemporâneo da preparação desta edição e não do Diário propriamente dito, "porque havia de ser bem remunerado?]
"O Rui vinca que quer dizer-me as coisas sem me magoar, paternalistamente.
"Eu sei que os meus escritos não têm a qualidade literária dos dos escritores. Mas serão tão maus que não devam ser publicados?
"Outros ecos de leitura dos últimos não me chegam, talvez só uns escassos e daqui a meses. Poderiam eventualmente ajudar-me.
"Estávamos já na esquina da minha rua, o Rui e eu, para nos separarmos, quando apareceu o Edgar, e o Rui apenas teve ainda tempo para simpaticamente me consolar, que não me ralasse, livros que não prestassem, era o que mais havia."
E conclui a anotação do dia: "É a opinião dele, provavelmente acertada, sinceramente expressa, do modo menos ferino que consegue." (Pags. 528, 529 e 530)
-
O escravizado pedagogo, pelo que se leu, cumpriu o dever de advertir o general dos riscos de se deixar levar pela ufania.
Mas, como todos os escravos em tais circunstâncias, com a coroa de louros erguida na mão e as frases a soltarem-se, «lembra-te César de que és pó e que ao pó hás-de tornar, lembra-te César: nasceste nu e a riqueza que conquistaste não te seguirá atá à cova... Lembra-te de que a plebe hoje te aclama e amanhã te condenará à morte» e por aí fora, bastante deve ter irritado o General que se sentiu amesquinhado no seu triunfo.
Não nos custa imaginar que, um tanto fora de si, tenha desatado a dar pontapés e bofetões no pobre escravo:
- Cala-te, imbecil! Cala-te ou levas mais.
E bem imagino o pobre pedagogo atirado da quadriga abaixo, a populaça a rir do escravo caído em desgraça.
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Foi, cremos, o que aconteceu à personagem Rui Costa Lopes na saga de Sérgio de Sousa. De vez em quando, zás, lá vem um estaladão, a propósito de qualquer coisa: «lá estava o Rui, com o pobre cão, o Rover fechado no jipe à espera» (pag. 512), por exemplo.
Pobre cão? Quererá Sérgio de Sousa sugerir que a sua personagem tratava mal o boxer que há longos anos lhe faz a melhor das companhias? O carro estava estacionado à sombra, claro, com as duas janelas da frente ligeiramente abertas. O Rover, como era seu costume, ocupara o lugar do dono mal ele saíra e sentara-se, muito direito, no banco atrás do volante, a olhar vigilante quem passava. A personagem, casualmente, lembra-se muito bem desse dia porque veio várias vezes com outros amigos e copos variados, cá fora para lhes apresentar o Rover.
O pobre cão é ainda motivo de outra entrada, essa escrita em Pedrógão, em plena serra D'Aire, num mês de Agosto.
"O Rui veio almoçar aqui trazendo o Rover, para quem cozi um osso com macarrão." (pag. 638)
Foi uma gentilíssima ideia do Sérgio: o Rover alambazou-se com o macarrão de que aproveitou até as migalhas que se espalhavam pelo chão de cimento e depois, de barriga mais do que cheia, deitou-se à sombra a roer o magnífico osso. E eu pude beneficiar de um lautíssimo banquete cozinhado pela Mãe do Sérgio - uma Senhora carinhosa na sua impecável hospitalidade.
O mal foi que, a seguir a esse almoço e à bica tomada no café, ao Sérgio lhe apeteceu um passeio digestivo - coisa aliás, natural num citadino como ele.
"Tentei levá-los depois à serra," escreve ele na continuação, "mas o Rover não aguentou nem o começo da subida. Obviamente o culpado é o dono, que lhe passou a «calaceirice».
O dono, claro, assumirá todas as culpas que pudessem caber ao «pobre cão», mas, efectivamente não terá sido responsável pela temperatura do ar, bem acima dos trinta graus, nem pela falta de água - não se preveniu por não saber que «íam à serra»: é claro que, pedindo muitas desculpas por ter estragado o passeio, optou por não deixar o Rover rebentar de sede.
Este tema «calaceirice» da personagem Rui Costa Lopes é glosada bastantes vezes. Por exemplo, na página 562 diz-se: "Não compreendo, falta-me o ânimo para fazer o que quer que seja.
"Engonho.
"À noite dei uma saltada a casa do Rui, que preguiçava."
É certo que o Rui não é nenhum hiperactivo; como se diz a páginas 406 "... se não se desse o caso de o meu Amigo ser um preguiçoso, que sempre se limitou ao que o obrigaram a fazer" e como se explicita na página 108, "Inteligente e frugal (ups, aqui ele tem de agradecer) o Rui não se esfalfa atrás do que não elegeu como essencial. Ele é filósofo, contempla, discorre e compraz-se."
E também: "O Rui, embora bem refastelado na vida, defende que só a Ideia o interessa. Um clerc, como escreve António Pedro Pita (quem será?), pretendendo que o seu reino não é deste mundo e, acrescento eu, que tudo quanto é social lhe é alheio, pior, o enfastia, pretende, o irrita, de facto."(a quem? ao António Pedro?)
Esta preguiça contemplativa acarreta, como se viu, uma outra característica talvez não muito invejável: a falta de sentido das realidades.
Sérgio de Sousa comenta: "é o cúmulo da falta de realismo!" a propósito de uma brincadeira acerca da nossa mania de pintarlucar umas telas pequeninas. Eu, com os acrílicos e as aguarelas, sou um tosco. E, de facto, o que eu estava nesse dia a sugerir era que ele devia arranjar um escritório, uma vez que passava a vida a dizer que em casa, por motivos que não compete ao pedagogo de serviço na quadriga dizer, não conseguia trabalhar.
Também, quando a Câmara Municipal de Sintra me premiou a novela A Siberiana, Sérgio de Sousa anota que assistiu à "cerimónia de comunicação da atribuição, não ainda da entrega, do prémio Ferreira de Castro de 1996, Literatura, ao Rui."
E conclui o seu relato: "O Rui pagou o jantar, dele e quatro acompanhantes, no Café de Paris, logo a gastar o valor do prémio que ficaram de lhe mandar." (pag. 68)
Que falta do sentido das realidades, de facto.
Mas mais:
"Reli há poucos dias A Siberiana, do Rui, agora editada em livro. [...] Gosto e desgosto desigualmente do livro. Acho-o literário, isto é, com o encanto de um arquétipo, sem reflexo na realidade." (pag. 190)
E antes, já tinha comentado que achava o "romance bem construído, socorrendo-se de uma estrutura policial" e que o Rui o tinha apurado "bastante." Porém, imagine-se, "Ele diz que não, e esta será mais uma das desavenças numa amizade de quase quarenta anos, como escreveu na dedicatória do exemplar que me ofereceu."
A entrada era de 1999 e a amizade, no fim de 2011 já vai nos cinquenta.
Talvez por isso Sérgio de Sousa se permite publicar agora um comentário de Março de 2000 em que diz o seguinte:
"Ao fim da tarde passo por casa do Rui, ocupado a rever a tese de mestrado - em que procura imputar determinado ideário filosófico a Eça de Queiroz - que a Imprensa Nacional publicará este ano, centenário da morte do escritor." (pag. 277)
O escravo que acompanha o General no seu triunfo tem de dizer que «imputar» não é uma palavra que lhe agrade neste contexto e que a toma por mais um empurrão para se ver livre da incómoda personagem que passa a vida a irromper pelo seu Diário.
Creio que lhe devo fazer a vontade e acabar de vez com essas desagradáveis desavenças.
Não convém a General nenhum, aspirante a um lugar entre os notáveis, que com eles constantemente se encontra e conversa, ter um chato de um amigo que não gosta da maioria das coisas que ele escreve, e que lhe aponta a dedo estendido o que de bom ele realmente tem escrito como um modelo que poderia seguir se escutasse os seus leitores, os seus amigos: «Tríade» (e não Palimpsesto, peço desculpa), por exemplo, «A Dona do Cachorro», «Nas férias», «Na senda dos utopistas», «Dr. Virgolino e as suas amigas» e pronto, coisas assim, a que se podia agarrar e desenvolver... se quisesse ou se tivesse tempo.
O Rui que o seguia na quadriga e lhe moderava as fanfarronices, apeou-se, atirou com a coroa de louros ao caraças e foi-se embora.
Deseja muitos sucessos e muito boa sorte ao Senhor General.
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segunda-feira, novembro 28, 2011

De amor e de sombra

- Mulher, queres ver que nos roubaram o nosso país?
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De amor e de sombra
Isabel Allende
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Comprar outra vez um livro que já se tivemos e que se perdeu, é como tropeçar um velho amigo. Ou melhor, reencontrar alguém que já fomos.
Nem imagino qual seria a minha surpresa se, um dia destes, acabadinho de acordar, a caminho da casa de banho, eu lançasse um olhar maquinal ao espelho e descobrisse o meu próprio rosto com vinte anos.
E, um pouco em choque pela surpresa, havia de perguntar, pela voz que me pareceria vir do espelho:
- Pá! Ainda és assim?
- Assim como? - respondia eu, a fingr-me desentendido.
O jovem de espelho abriria o De amor e de sombra.
- Lembras-te das últimas frases do livro? - e, sem esperar pela resposta lia: - «Sentiam-se pequenos, sós e vulneráveis, dois navegantes desolados num mar de cumes e núvens, num silêncio lunar...» Queres que continui?
- Hum-hum.
- «... mas sentiam também que o amor tinha ganho uma nova e formidável dimensão e seria a única fonte de ânimo e vigor no exílio. À luz dourada do amanhecer, pararam para ver a terra que era sua pela última vez. - Esqueceremos?, murmurou Irene. - Esqueceremos - respondeu Francisco.»
Ficaríamos em silêncio, a olhar uma para o outro. 
- Não é essa a palavra que está no livro - diria eu, por fim.
- Ainda te lembras?
- Lembro: o que lá está é «voltaremos? - murmurou Irene.» E o namorado responde: «voltaremos».
- Tive medo de que te tivesses esquecido.
- Enganaste-te - responderia eu.
Mas havia de sair da casa de banho assobiando em surdina uma passagem do Bolero, do Ravel: sinal, penso eu, de que não me estaria a sentir demasiado confortável. 
Felizmente têm estado uns dias de sol.

quinta-feira, novembro 24, 2011

o CADERNO de MAYA, ou os crimes da AVÓ Allende

 
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o CADERNO de MAYA
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Não é um grande livro.
Não que eu alguma vez soubesse o que quer dizer a expressão «grande livro».
De A Montanha Mágica, de Thomas Mann, as coisas mais importantes que recordo são os espantosos discursos de Mynheer Peeperkorn:
- Minha filha - disse ele. - Vai tudo bem. Mas que acha?... Por favor, não me interprete mal. A vida é breve, a nossa capacidade de satisfazer-lhe as exigências... É assim que... São factos, minha filha. Leis. Inexoráveis. Em resumo, minha filha, em resumo, perfeitamente.
E é tudo, julgo, do prémio Nobel de 1929.
De Isabel Allende tenho presentes muito mais coisas: primeiro que tudo, as suas espantosas avós, os seus espantosos avôs.
As diversas voragens das vidas que vamos sofrendo fizeram-me perder, de há muito, livros como A casa dos espíritos, De amor e de sombra, ou Eva Luna (que hei-de voltar a comprar: é o que mais vontade tenho de reler neste momento, pelo menos.) 
Mas julgo recordar uma longa fila de avós sempre presentes, nem sempre de forma discreta, mas acolhedoras, como o ninho a que é bom regressar quando se tem a asa ferida.
Desde a céptica Avó Cold d' A Cidade dos Deuses Selvagens até esta absurda avó Nini que criou Maya na confiança de que os milagres estão lá para nos salvar quando tudo o mais nos abandona, os avôs são os espíritos benfazejos que pairam à nossa volta.
Gunther Grass, em O tambor, também fala de uma avó acolhedora, debaixo de cujas saias o anãozinho Óscar se refugia. Mas trata-se de avós como as de antigamente: velhotas ainda enérgicas, mas tão só isso.
As avós de Isabel Allende são (quase todas) sexuadas e é por pouco que não as vemos de mini-saia.  Os avôs desejam-nas, mimam-nas, protegem-nas, como amam e protegem as netas.
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A segunda coisa que logo se me apresenta, quando penso Isabel Allende, é a amizade. A amizade fiel, eterna e desinteressada.
Maya, mesmo na mais negra miséria, encharcada em drogas, Maya tem um amigo, o subnutrido Freddy que lhe salva a vida por duas vezes - e o seu avatar, Juanito, outra. Eva Luna tem um fiel amigo transexual, a heroína de De amor e de sombra, faz amizade com um padre que a acompanha na desesperada busca pelos desaparecidos do regime de Pinochet.
Não há uma grande variedade nas personagens de Isabel Allende: vão-se parecendo umas com as outras, mas nós gostamos de as reencontrar, como gostávamos de reencontrar o Júlio, a Ana, a Zé e o David quando líamos os Famous Five. São humanas, são falíveis, pecadoras e aventureiras, mas há nelas, salvo quando lhes está destinado o papel de maus da fita, uma generosidade que escasseia, cada vez mais, nos nossos horizontes.
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Uma nota final: este livro é, de algum modo o reencontro de Isabel Allende com o Chile - mesmo se quase como se fosse uma mera turista na ilha Chiloé - e com as memórias do golpe vibrado por Kissinger nas esperanças dos anos sessenta: um mundo onde a felicidade era possível.
Cito apenas uma pequena passagem para não roubar a surpreza a quem quiser ler o livro:
"Aquela violência era tão inimaginável no Chile, orgulhoso da sua democracia e das suas instituições, que Manuel foi incapaz de avaliar a gravidade do que sucedera [...]. Levaram-no de olhos vendados até ao Estádio Nacional, que estava transformado em centro de detenção. Ali se encontravam pessoas que haviam sido presas durante aqueles dois dias, maltratadas e famintas, que dormiam deitadas no chão de cimento e passavam o dia sentadas nas bancadas, rezando em silêncio para não incluídas entre os desafortunados que conduzidos à enfermaria para interrogatório. Ouviam-se os gritos das vítimas e, à noite, os tiros das execuções."
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quinta-feira, outubro 06, 2011

Quinto aniversário

Faz hoje cinco anos que o «Portugal, Caramba!» por aqui apareceu.
Não primou sempre por uma linha de orientação demasiado coerente, mas quase nunca marcou presença apenas para cumprir calendário.
Há que desculpá-lo: divertiu-se sempre, indignou-se em algumas ocasiões, fez troça noutras.
Uma vez por outra mereceu parabéns.
E, volta e meia, mesmo se é pecado, sente-se um nadinha orgulhoso  de si mesmo.


terça-feira, setembro 27, 2011

Paradoxo, ou nem isso...


- Não, avô.
O Mundo está cada vez mais vasto e as coisas estão cada vez mais perto.
Não vejo o que queres dizer com essa coisa do paradoxo.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Não gosto

Não gosto. Não gosto e não gosto.
Não gosto. E não gosto mesmo.
Também não gosto e tenho raiva a quem gosta.
Disse.