quinta-feira, janeiro 17, 2013

O Gato e o Rato (fábula interminável)

O que raio se passa por aqui?

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O Gato e o Rato (fábula encravada)

O Blogger, simpático como é, volta e meia, pimba! Prega-me uma partida. De repente, sem avisos nem água vai, muda as regras do jogo.
Deve achar que é pecado ser assim como eu sou, conservador, apegado a costumes antiquados, apreciador de velhas fábulas e põe-me de castigo.
Não que o Blogger não tenha alguma razão. Eu mereço!
Mesmo sem ser contrário às mudanças (tenho várias no meu carro e até as uso a todas), há coisas que me irritam: por exemplo, porque diabo achou alguém que as velhas e boas Finanças, uma praga a que já estávamos acostumados, haviam de mudar de nome?
Chega um cidadão ali à vila e pergunta, «o senhor, fachavor, dizia-me onde é que é as finanças?» e o prestável transeunte aponta, «é logo ali, vocemecê corta ali à direita e é a primeira porta...»
E o cidadão, com ar triste diz que «pois, também ele pensava, as Finanças sempre tinha sido ali, mas agora estava lá uma coisa, a Autoridade Fiscal e Aduaneira... E agora, onde é que ele ia pagar o imposto de não sei quê, aquela coisa que dantes era o selo do carro, mas agora é só um papel...»
E a conversa podia não ficar por aqui.
Se o cidadão tivesse tempo e paciência bem podia ouvir dizer que um tal Vítor Gaspar até já tinha dado fazer cartões de visita novos:
Vítor Gaspar
Ministro da Autoridade
(Fiscal, Aduaneira e Correlativos)
Mas, enfim, parece ser um arraigado costume indígena que muito estranharia a um ser civilizado por aqui de visita (felizmente não veio nenhum com a Engenheira Merkl e os que cá havia já emigraram); o Marcelo Caetano, que em tempos ocupou o lugar do Sr. Passos Coelho, para dar um primeiro exemplo, mudou o nome ao Partido Único, a União Nacional e já ninguem se lembra como lhe chamou. E à Pide de má memória, chamou Direção Geral de Segurança, como se rebaptizar as coisas lhes apagassem os curriculo. Não sei mesmo porque é que o Obama não aproveita o exemplo deste velho aliado da Nato e não chama Acapulco à famigerada prisão de Guantanamo: dava para propagandear que uns quantos prisioneiros afinal estavam era de férias.
E não ficamos por aqui. Não bastava que o Terreiro do Paço em Lisboa tivesse passado a ser a Praça do Comércio e o Rossio Praça de D. Pedro IV: foi preciso que o Largo do Caldas passasse também a chamar-se Largo Adelino Amaro da Costa.
Já viram?
Era um endereço pequenino, duas palavrinhas, treze letras contando com o «do»; agora é preciso escrever vinte e quatro. Deve ser uma simplificação, mesmo se eu não vejo como. 
E lembram-se? No tempo do tal Marcelo, e antes dele, do Salazar, os jovens podiam frequentar uma escola comercial, uma industrial ou então ir para o liceu. Quando ser quis uniformizar os cursos, o que, quanto a mim era uma necessidade premente, algum génio achou que a palavra liceu evocava não sei que elitismos e resolveu chamar a esse ensino unificado e aos estabelecimentos onde era ministrado «secundário». Podia ter-lhe chamado Liceu, que era bonito, tinha um sabor clássico e escrevia-se com cinco letrinhas. Agora «escola secundária» escreve-se com dezasseis, mais um espaço e um acento.
Simplicidade, a quanto obrigas!
E, já que o Obama não aprendeu nada connosco, o Blogger podia ter-lhe seguido o altivo exemplo.
Mas não: também o Blogger deve ter querido simplificar qualquer coisa e agora para aqui estou eu às aranhas: é que o Portugal, caramba! foi, desde o início, um blog ilustrado.
Bem sei que não era lá grande coisa, mas eu divertia-me a escrever umas coisinhas e depois pintava uns bonequinhos, e pumba! Clicava ali em cima onde diz «inserir imagem» e procurava num dos meus arquivos o boneco que queria inserir. Depois era só «publicar».
Agora, se lá for clicar, manda-me seleccionar um ficheiro e dá-me como opções coisas como a minha webcam, este próprio blog ou «a partir dos Albuns Web Picasa» que não sei o que seja, mas onde me aparecem três o quatro dos meus próprios desenhos já antigos e só esses.
Como faço agora?
Publico outra vez o que já está no blog? Não me apetecia muito. Queria fazer coisas novas, brincar com elas no photoshop e pô-las depois por aqui.
Porque diabo havia o Blogger de mudar as regras do jogo?
E agora? O que é que eu faço, não me dizem?
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 E pronto: quando não os podes combater, junta-te a eles e escolhe uma coisa qualquer. Este desenhinho, por exemplo, chamava-se «Alice encontrou os ratos que roeram a rolha da garrafa do Rei da Rússia» e eu não desgosto dele. Sempre são uns ratitos. Os gatos que se lixem. 
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segunda-feira, dezembro 31, 2012

O Gato e o Rato (fábula interminável)

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O Portugal, Caramba! deseja-vos a todos - excepto ao governo, claro - um Ano Novo espetacular.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

quarta-feira, dezembro 12, 2012

O Gato e o Rato (fábula interminável)

Diga-se desde já que não devo à Drª. Isabel Jonet coisa nenhuma: limito-me, como sempre fiz, a corresponder o melhor que posso às frequentes presenças de escuteirinhos no supermercado e pousar no carrinho um saco com umas massas e uns feijões, as tradicionais conservas e umas latas de salsichas.
É facto que nunca me pediram bifes, nisso a Drª. Isabel tem razão, nem bilhetes para concertos de rock. Já me pediram radiografias, sim, mas velhas, com os meus ossos e uns pulmões em mau estado, mas isso é outra coisa, é mais a campanha para a reciclagem, entregue os seus medicamentos fora de prazo na farmácia e outras coisas dessas.
Mas, todo este aranzel de opiniões contra a pobre Senhora, dá-me que pensar: alguma coisa nela  oscila entre a militância ecológica (poupar água quando se lava os dentes, por exemplo), a disciplina conventual (nada de bifes, a carne estimula uma hormonas perigosas) e a moralidade rígida da pobreza envergonhada (não vás aos concertos, pá, não vês que os pobres não têm nada que se divertir?).
Eu sei que pensar nestas coisas me incomoda, é como uma comichão vagamente dolorosa, mas que está lá, como para me recordar que a solução pode não ser esta, tem mesmo de ser outra, mas tem de ser uma.
Ouvir a Drª. Isabel Jonet, para mim, foi um pouco como regressar a uma infância, nem por isso demasiado feliz, quando íamos todos na procissão com a capa da Irmandade do Senhor dos Passos (que ainda não era Coelho), quando as Senhoras davam aos necessitados desde que não bebessem vinho nem se rissem despropositadamente e quando as mulheres sem direito a maiúscula trabalhavam e cuidavam dos futuros necessitados.
Não juro que goste deste regresso de coisas tão velhas, com um tão intenso cheiro a bolor.
Mas a Drª. Isabel Jonet será a culpada?
E de quê?
De ter falado das suas convicções mais profundas e de ter dito umas inconveniências?
Ora! Que se lixe.
O Senhor Pinto da Costa, para não falar dos nossos ministros mais ministros, claro, diz bastantes mais e nem se rala com os pontapés na gramática! E nós perdemos o nosso precioso tempo (de desempregados até) a comentar estas coisas? 
Francamente!
Tenham tento e percebam que o que vos moveu foi a tristeza de ver que o Banco Alimentar contra a Fome não correspondia a nenhum ideal de solidariedade senão nas vossas cabeças. No mais, é o que os humanos conseguem fazer: uma organização que, quando não se dedica a tiranizar os outros, segue o seu caminha a manquejar, com risco de cair de vez em quando. 

O Gato e o Rato (fábula intermiável)


quinta-feira, novembro 08, 2012

segunda-feira, outubro 22, 2012

A Lei da Caça

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Há coisas, francamente, que eu não entendo.
Por que diabo a caça, os animaizinhos de Deus que andam aos pulos por aqui e por ali, a tratar das suas vidinhas, hão-de ser resnúlia.
«Resnúlia», expliquemo-nos, é uma palavra que eu, sem a certeza de a ter inventado, pelo menos adoptei, fiado no bom exemplo do nosso Luís Vaz.
Se bem se lembram, ele inventava as palavras de que sentia necessidade aportuguesando o latim. E o Eça não se livra da fama de ter feito o mesmo a partir do francês.
Eu, seguro de que os grandes espíritos são sempre melhor exemplo do que os encolhidos, fui-me também aos clássicos e aportuguesei a expressão do Direito Romano, res nullius. 
Res significa «coisa», objecto, qualquer que ele seja, terras, casas, alfaias, escravo ou cão de que se não possa afirmar que têm direitos, mas que podem ser objecto deles. E nullius pode traduzir-se por «de ninguém».
Há coisas, portanto, que não são de ninguém. 
Um escravo abandonado não é um homem livre: continua a não ter direitos, mas não tem dono. Pode, portanto, ser apropriado pelo primeiro que lhe deite a mão. O mesmo acontece com um barco abandonado pela tripulação e deixado à deriva. E a uma carteira perdida e não reclamada, aplica-se o provérbio «quem perdeu, perdeu, quem acha é seu». 
Em muitas culturas esta incapacidade para ser sujeito de direitos ainda abrange os filhos, abrange as mulheres: se o pater (o macho alfa daquela família) morrer, outro macho terá de lhe suceder, sem o que as esposas e os filhos desprotegidos poderão ser considerados res nullios e apropriados pelo primeiro que se apresentar, para os fins que lhe aprouver.
E, se não acreditam que esta mentalidade ainda por aí persiste, perguntem a qualquer jovem bonita: ela vos dirá que uma mulher sozinha num bar, num restaurante ou no cinema corre o risco de ser vista como «resnúlia» e que já está habituada a ser alvo das mais variadas tentativas de apropriação por tudo o que nas redondezas for candidato a macho.
Salvas as devidas proporções (e só porque a mulher, de há uns tempitos para cá foi aprendendo a defender-se) a caça, as perdizes e as rolas, os coelhos, as raposas e os saca-rabos são a mesma coisa.
Pelo simples facto de existirem, qualquer pinto calçudo se arroga o direito de os perseguir e matar: não têm direito a nada.
Experimentem as gentis Leitoras e os bondosos Leitores abordar um grupo de caçadores e, com a mais caridosa das intenções, falar-lhes nos direitos dos animais. Vão a ver como é engraçado.
Responderão, com a educação que a prudência lhes recomendar - mas nem mais um grama - que os animais não têm disso, que são bichos ruins e dão cabo de tudo, desde as hortas até às árvores novas, que transmitem doenças e que têm de ser caçados... por eles próprios, claro.
E vá de passar pelas terras das outras pessoas, pelo quintal se não estiver bem vedado. Cortam as redes ovelheiras e pisam o que lhes estiver no caminho porque a lei da caça lhes dá o direito de perseguição.
E a gente, a vê-los ali com ar de guerrilheiros do Sendero Luminoso, ou de jagunços de um livro do Jorge Amado: o melhor é sermos prudentes, digo eu.
Há um par de anos, dei com um deles empoleirado no muro do meu poço, a uns trinta metros aqui de casa, de arma em punho, à espera de que o cão lhe levantasse um coelhito numa moita, ao que parecia. 
Mandei-lhe um berro aqui de baixo, a cautelosa distância porque não sou parvo - enfim, espero que não muito, pelo menos - e lá se foi ele, vagaroso e gingão, caminho acima.
Vedámos o poço, que remédio, com uma rede alta.
Que mais havíamos de fazer?
Estão a ver porque é que eu sou contra a Lei da Caça, não estão?
Até por autodefesa.
Se me for permitido, acrescentarei ainda, mesmo se a despropósito, que de há tempos a esta parte me ando a sentir assim, tipo Resnúlio, perseguido pelo Gaspar e pelo seu bando de caçadores da Autoridade Fiscal e Aduaneira e tenho a impressão de que nem as comissões venatórias me protegem.
Acham que é delírio e que tenho de ir urgentemente ao meu psiquiatra?
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segunda-feira, outubro 08, 2012

domingo, outubro 07, 2012

Quanto do teu sal

 
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Ó Mar Salgado, quanto do seu sal voltou a ser lágrimas de Portugal!

quarta-feira, setembro 19, 2012

Ultraleve

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Ligeiro,
ligeiramente surdo,
desculpa, querida,
importas-te de repetir?
As lentes grossas, já aligeiradas,
e um ligeiro espessamento das mucosas
esqueci-me onde.
Um ligeiro coxear, claro, quando começo a andar,
uma ligeira calvície, sim, quando a luz incide de cima,
que queres,
é a idade
[mas pára! Pára de beber, pára de fumar, faz dieta, não comas, não bebas, vive sem viver]
Felizmente,
ainda é ligeiro o colesterol,
e ligeira acumulação de gordura no fígado e a ligeira obesidade,
apneia/hipopneia de grau ligeiro
ligeiro, ligeiro,
não sei que mais,
esqueci-me das
ligeiras perdas de memória,
[como se chamava aquele tipo, aquele António, estou a vê-lo, o rosto de cavalo ligeiramente torto e a barba por aparar, como se chama ele déja?]
É, talvez, uma ligeira a perda de leveza no ser,
quiçá por insustentável, como o crescimento nos países terceiros.
Grave, grave, 9,6 metros por segundo quadrado,
só a perda de uma  ligeireza que dantes vinha sem se fazer rogada.
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terça-feira, setembro 11, 2012

Hegel

 
 
Ao ilustre filósofo
Georges Wilhelm Friedrich Hegel
 
O Pavão
 
De tanto molhar as penas
No tinteiro da razão,
Entalou o ego em dilemas,
Furou com o aparo o tinteiro
E tratado que levou ao livreiro
Não passava de um borrão.
Não há belo sem senão.
 

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

terça-feira, setembro 04, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

Luís Januário
Casado com D. Margarida Inácia Blanco de Azevedo Côrte-Real Andrade e Sousa
Pode ser encontrado nas feiras da Golegã e de Sevilha e em São Martinho do Porto, em alguns fins de semana antes das vindimas.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

 
Dr. Dom Jacinto
(retrato robot)
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Pode ser encontrado em locais como a Granja ou no Náutico de Cascais.
Identifica-se mais facilmente pela qualidade dos tecidos do que pela dos alfaiates.
 
 


quarta-feira, agosto 15, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

As leituras, felizmente, como dizia há já muito tempo um amigo nosso a propósitos dos símbolos, são como a chuva, acabam sempre por passar.
E passam.
Os livros, a gente lê-os, faz que sim com a cabeça, «oh! como é verdadeiro!». Ficamos avisados. Logo a seguir esquecemos e fazemos as asneiras de sempre.
Se se tratar de literaturas menores, como a ficção científica ou a policial, pior ainda. Das histórias aos quadradinhos, então, nem é bom falar. Alguém lhes liga? Alguém ousa admitir que aprendeu fosse o que fosse com essas literaturas pouco sérias?
Para não irmos mais longe, já repararam que, quando nos levam de casa um livro policial, tipo, «pá, não tens aí uma merda que se leia?», ninguém se sente obrigado a devolvê-lo?
Foi assim que eu perdi uma data de coisas importantíssimas: por exemplo, um livro do Perry Mason, na edição da coleção Escravelho de Ouro que me teria permitido fazer agora um bombástico post sobre o suicídio de Hemingway.
Já viram o prejuízo?
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Mas adiante: o facto é que a culpa não é só dos amigos que nos levam os livritos num bolso e nunca mais se lembram de quem era o propritário quando os re-emprestam a terceiros. 
Nós próprios também os perdemos: são nossos, claro, mas ficaram lá para o fundo duma estante, entalados entre filas e filas deles, a ganhar pó, nicho ecológico ideal para gerações e gerações de aracnídeos de toda a espécie (ácaros incluídos).
Nas grandes arrumações, uma vez por outra, vamos dar com uma preciosodade:
- Olha! Um Freeling que já não lemos há anos sem fim!
Ou uma Le Guin, umVonnegut, um Chandler - a propósito, há que anos não leio O Imenso Adeus...
E, inferno e danação, mais um que se perdeu!
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Enfim, un de perdu, dix de retrouvés, da poeira das arrumações surgiu um Hammett, toca a relê-lo, porque reler é recordar, recordar é viver, e viver, tirando umas secas por outras (por exemplo, tenho de levar o meu jipinho à inspeção, já viram?), viver, dizia eu, e espero que concordem, é bem porreirinho.
E então quando encontramos os nossos próprios sublinhados?
É a ocasião impar para uma recherche du temps perdu, tipo Proust à procura de reencontros; sucedem-se os espantos, as exclamações:
- Que raio! Em que é que eu estaria a pensar quando sublinhei isto?
Ou então, com um toque de ternura:
- Pá! Que giro! Que ingénuo que eu era!
Uma vez por outra ficamos a pensar:
- Pois é. É isto mesmo.
Foi o que aconteceu com A chave de vidro, do Dashiell Hammett onde um breve traço na margem abrangia um par de parágrafos.
- Não sei por que continua a falar do senador como se ele fosse um ladrão de cavalos - tinha eu assinalado. - Ele é um cavalheiro e...
- Absolutamente. leia o que dizem a seu respeito no Post: é um dos poucos aristocratas que restam na política americana. E a filha, outra aristocrata. Mas é por isso que o previno: tome tento e garanta-se logo que o for visitar, ou sairá de mãos vazias, porque, para eles, você não passa de uma forma inferior de vida animal, para com a qual não há regras estabelecidas.
É claro, tatava-se de um senador e aristocrara made in Usa, mas eu quis lá saber dessas imensidades quase sobrenaturais: desatei a pensar pequenino, na nossa democraciazinha à portuguesa.
É verdade que toda a gente olha para nós como se fôssemos "formas inferiores de vida animal".
Lembram-se de um livro do Graham Greene chamado O Terceiro homem?
Eu lembro-me, claro, mas também não sei onde pára. Ora acontece que nesse livro havia uma personagem, Harry Lime, se bem recordo, que lá do alto duma roda gigante numa Feira Popular na Viena do pós-guerra, apontava as figurinhas minúsculas lá em baixo e perguntava:
- Se um daqueles pontinhos pretos, lá ao fundo, parasse de se mover de repente, que nos importava?
De facto, tão pequeninos e tão ao longe.
Infelizmente, somos nós, esses pontinhos pretos. 
Não há regras para tratar connosco: cortam nos ordenados, nos subsídios de doença, fecham hospitais e palácios da justiça; sobem impostos, taxas, portagens, o que lhes apetece. Vendem ao desbarato aquilo que nos custou milhares de milhões a pôr de pé, a REN, a EDP, o BPN, a TAP, Sines, o transporte de mercadorias, sei eu lá! E já se falou nas Águas de Portugal.
E é quando humildemente queremos protestar, mesmo baixinho, «olhem lá, a àguínha, que fazia tanto jeito...», é nessa altura que sentimos, cá bem fundo:
- Sou uma forma inferior de vida animal.  
Se não me acreditam, tentem apresentar uma reclamação às Finanças... perdão: à Autoridade Fiscal e Aduaneira.
Ou então, ir ao banco reclamar contra o aumento das vossas prestações...
O Caixa olhar-vos-á exactamente como o Chefe o olha a ele; e como o Director olha para o Chefe; e como o Chairman do Banco, do alto dos seus vencimentos, cartões de crédito e prémios, olha para os BMWs dos Directores enquanto espera que o motorista o venha buscar.
A prima Cecília
Nós, para não lhes ficar atrás, pumba! Do alto do nosso sofá comprado no Ikea, olhamos para esse Senhor Chairman, quando ele aparece no nosso plasma da Worten, do mesmo modo como nos olhou o seu próprio Caixa. 
E pronto. Fechou-se o círculo.
Se pensávamos que a democracia era mais do que isto, estávamos enganados.
-  
Ficou-me, no entanto, uma dúvida.
Ficaram mais, mas, de momento, esta já chega:
Onde estão e quem são esses aristocratas da nossa sociedade a quem nós pudéssemos chamar com algum grau de certeza, «formas superiores de vida animal»?
Ao olhar para as figuras públicas, nenhuma me parecia merecer esse epíteto. Nem Bavas, nem Mexias, muito menos os Relvas, os Cavacos Silva, os Majores e Meneses, os Pinto da Costa e os outros de quem não fixei os nomes.
E olhando para o passado, para as prateleiras poeirentas das minhas memórias, também não: certamente que não o Soares, nem o Guterres, nem o Barroso. Ninguém que eu tivesse visto no plasma.
Então, decidi-me. Que tal fazer assim uma espécie de retrato-robot e procurar por eles como se fossem foragidos e a justiça os reclamasse? 
Agarrei no lápis e zás.
A Sra. Dona Estefânia Alice Cecília do Menino Jesus é, quem sabe, o primeiro.
Quem a encontrar, cale-se muito bem calado e não diga nada a ninguém.