sábado, maio 25, 2013

Avaros de todo o mundo

Falando com franqueza, não vale a pena sofismar: a Direita governa esta coisa a que chamamos Democracia desde o 25 de Novembro de 1975 - pelo menos.
O Mário Soares, aliado ao Carlucci, embaixador do Presidente Reagan, fez uma opção clara: as indemnizações às vítimas das nacionalizações, desocupações de herdades e empresas que tinham sido abandonadas pelos proprietários, a autorização para a reconstituição de grupos como os Melo, tudo isso, se expulsou definitivamente o Partido Comunista da área do poder, teve como contrapartida amarrar o Partido Socialista à direita mais oportunista.
Maçonarias, Opus Dei ou sabe-se lá o quê, Rotários, Associações de Ciclistas e a Mão Negra (para não falar da Cabala) foram fazendo o resto. A Direita é o «arco governativo», Regeneradores e Progressistas deste rotativismo parlamentar e governativo em que os grandes gestores e os grandes administradores vão sendo sempre os mesmos.
Obviamente, na direita nem tudo são rosas.
As diversas fações que se vão alternando no poder digladiam-se pelas razões lá dela própria, mas os golpes e contra golpes, as espadeiradas pela frente ou as punhaladas pelas costas, nunca vão demasiado fundo.
O arguido é condenado a um ano, com pena suspensa, aguarda com a pulseira eletrónica ou recorreu à espera da prescrição. No final acaba por se safar porque Direita não se esfrangalha a si própria: mesmo sem serem leais, as refregas têm árbitros.
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Para começar e porque vai a votos, tem como árbitro primeiro a opinião pública. As sondagens mudam os discursos e obrigam a disfarçar as obras. Encomendam-se entrevistas às televisões, a serem conduzidas pelos apresentadores mais mediáticos, mandam-se comunicados, em último caso muda-se um ou outro ministro.
A necessidade de se perpetuar no poder ou, pelo menos, adiar a queda e dar tempo aos apaniguados para ficarem menos mal na vida, obriga a contorções dignas do Plastic Man, o Borracha das histórias aos quadradinhos da nossa infância.
(Se não são desse tempo, não sabem o que perderam, digo eu.)
 
File:Plastic Man 17.jpg
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Mas, adiante.
Os árbitros segundos são as empresas.
Os seus administradores, que são ao mesmo tempo os Barões dos diversos partidos, porventura ex-governantes e conselheiros dos actuais ministros, estão sempre uns com os outros. Aproveitam alguns momentos de conversa à margem das reuniões dos concelhos a que pertencem, encontram-se em jantares em casa uns dos outros ou de uma Tia velha,  nos Spas ou em lugares de menos confessável natureza - mas que davam um romance ao Stieg Larson se ele não tivesse já falecido. E nesses encontros, as coisas vão sendo combinadas, distribuídas, os lugares tenentes e os testa-de-ferro recompensados.
A Direita partilha. A Esquerda não.
A Direita recebe o pão e dá as côdeas ao capataz que lho trouxe.
Mas partilha.
E mantem presa à esperança toda uma coorte de invejosos úteis a quem as côdeas entretêm enquanto esperam pelo jantar.
Umas vezes a comida vem.
Outras não.
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O poder e o dinheiro andam, na Direita, demasiado unidos, entrelaçados, no bolso um do outro, como se o conteúdo contivesse o continente que contem o conteúdo que contem...
E é assim que o dinheiro, a Banca e as grandes sociedades financeiras acabam por ser o último dos árbitros. Se uma coisa não dá dinheiro, se não dá o poder que dá o dinheiro, a espiral está em perigo, alto lá! Os meninos portam-se bem, se não, cartão vermelho e rua! Saem de jogo. 
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Na Esquerda não.
Primeiro porque não há dinheiro. Ou vai havendo, mas nunca tanto que possa ser partilhado. As estruturas partidárias ou sindicais, as acções de propaganda, os eventos consomem-no todo e ainda falta. Os militantes, em vez de receberem, contribuem.
O que a Esquerda tem é um pouco de poder, o poder que lhe conferem aqueles que não querem ou não podem aceder ao dinheiro: alguma influência eleitoral, meia dúzia de lugares aqui ou ali, cada vez menos, na Administração Pública, no Parlamento, em Escolas ou na Universidade, em Sindicatos.
E torna-se avara.
Cada capelinha, cada grupo de amigos ou tão só de cúmplices, intriga, elege e faz-se eleger, representa e abarbata o que pode desse poder que é, no mais das vezes, apenas o de negar, de parar, de encravar e não deixar andar para a frente. Como o do funcionário no guichet que nada mais pode senão servir de escolho aos mareantes.
Aos descontentes nada mais resta.
Separam-se, sectarizam-se e formam grupúsculos. Levam consigo os pedaços do poder que conseguiram amealhar e por lá ficam, seja onde for que foram ter. E divisionistas são sempre os outros.
Voltar a unir-se significaria partilhar o bocadinho de poder que se tem, juntá-lo ao bocadinho de outros, perder agora para participar num poder maior, mais amplo, mais eficiente, e quem sabe, ganhar no fim.
Avaros de todo o mundo, uni-vos!

quinta-feira, abril 11, 2013

O Gato e o Rato

INQUIETAÇÃO
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"Credibilidade, credibilidade,
é só credibilidade, credibilidade...
(há sempre qualquer coisa que está para acontecer,
qualquer coisa que eu devia perceber)
Credibilidade, credibilidade...
Porquê, não sei,
Porquê, não sei.
Porquê, não sei ainda...

segunda-feira, março 18, 2013

quarta-feira, março 06, 2013

Beppe Grillo e a água do banho

Há muito tempo, confesso para minha grande vergonha, que não seguia o blog do Beppe Grillo. 
O meu italiano não é grande coisa, por isso costumava preferir a edição em inglês onde lia frequentemente comentários algo contundentes às políticas europeias. Talvez porque nos idos de 2006, 2007, a Crise, esta malfadada Crise, era ainda uma ameaça longínqua, e porque tínhamos aqui mais ao pé coisas com que nos preocupar, uma direita cada vez mais agressiva e um partido que se dizia socialista e cada vez mais colado às mesmas políticas, esqueci-me do Beppe Grillo. 
A sério: esqueci-me.
Erros meus, má fortuna, e, suponho, infortúnio de muita gente.
Quando voltámos a ouvir falar dele, foi em grande. 
A Itália resolvera correr com o seu eurocrata de serviço - nós ainda não conseguimos livrar-nos dos nossos - e o Movimento Cinco Estrelas (raio de nome!), acusado de populismo por todos os lados, recusava-se a emprestar os seus 25% de votos às soluções tipo «mais do mesmo».
Beppe Grillo, que já era o «comediante» para toda a gente, sobretudo para quem nunca o tinha lido, foi promovido: passou a ser o «palhaço».  
E entretanto toda a gente se esquecia de que o movimento M5S, tem muito mais gente e que não é assim tão certo que sejam todos tão apalhaçados como se gosta de pensar que é o seu chefe: reuniram-se, elegeram por braço no ar os seus lideres no parlamento e no senado e declararam-nos cargos rotativos.
Será populismo, não tenho a certeza. 
O populismo é, diz o meu dicionário, um «movimento protagonizado por um chefe carismático e paternalista que apela à simpatia das bases populares». 
Quanto a «carisma», estamos conversados: estou farto dos moscas-mortas tipo Cavaco Silva, Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Prefiro as pessoas com o tal carisma - seja isso o que for - aos velhacos, aos sonsos, aos que dissimulam a sua mesquinhez e as suas ambiçõezinhas medíocres.
E quanto ao «paternalismo», francamente, qual é o político que se pode gabar de nunca a ele ter recorrido? O Gaspar, quando se põe a dizer que somos «o melhor povo do mundo»? O Soares? O Barroso? Os banqueiros, como o o João Salgueiro quando nos manda limpar as matas se perdermos o emprego?
Mas populista ou não, o M5S tem lá imensa gente muito, muito jovem. 
E a «revolução», escrevi eu próprio em 75, a um ano do 25 de Abril, «é quando os jovens enxotam os velhos e realizam, com a doce inconsciência de que são capazes, as coisas impossíveis». 
Quem sabe?
A esperança é como o bebé: não deve ser deitado fora com a água suja das políticas profissionais, pois não?

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O Número de contribuinte, o Topless e os Buracos negros


Calhou. Ou veio a propósito, tanto faz.
Eu sei que não é bonito falarmos assim de nós mesmos, mas as constipações, sobretudo aquelas que nos aprisionam num aquário de infelicidade e de mal estar, são propícias a estas recapitulações. E por estes dias lacrimejantes e de nariz entupido, a estante do corredor sempre nos vai fornecendo um ou outro livro, alternativa aos jornais da véspera onde o Pacheco Pereira nos adverte de que "num computador do fisco está toda a nossa vida já inventariada e cruzada através do número do contribuinte e dos poderes discricionários da Autoridade Tributária". E acrescenta que esse "verdadeiro número único dos portugueses [...] permite todos os cruzamentos de dados e uma violação sem limites da privacidade de cada cidadão" (Público de .16 de Fev.)
E de facto, qualquer Pide (ou pior do que isso, qualquer chefe de segurança de um Banco), subornando um funcionário ou, as leis dão para tudo, tendo acesso legal, pode saber que livros compro ali na Bertrand, o que costumo comer ao pequeno almoço e que prendas ofereço à minha amante.
É, como nota Pacheco Pereira, a realização do pesadelo Orwelliano retratado em 1984. E é curioso pensar que a personagem do Big Brother e a sociedade a que ele pertencia se inspiravam sobretudo no modelo soviético. Mas o pesadelo tornou-se realidade, pelo contrário, no mundo que nos diziam livre, sob o mais absoluto regime liberal de que há memória.
Irónico, não é?
Sentimo-nos como se nos tivessem roubado as próprias palavras: liberal, para não irmos mais longe, quis sempre dizer «generoso», «tolerante», «de espírito aberto»; era uma palavra que trazia implícita a ideia de liberdade, de oposição à tirania e ao poder absoluto dos Senhores Dons Miguéis e dos seus Salazares de serviço.
Agora, pelos vistos, traz consigo apenas a ideia de abandono: desenrasca-te, pá. Emigra! Rebenta para aí. Se fores demasiado pobre, anda cá que te damos uma sopa e agradece que já vais com sorte.
Nós que nos julgávamos homens livres e orgulhosos lá iremos, humildes, de boné na mão e os olhos baixos, à «sopa do Sidónio». 
Luis Spúlveda, no livro que a constipação me fez tirar da estante, narra que os que voltavam ao Chile post Pinochet, vindos do exílio, "andavam desorientados, a cidade não era a mesma, procuravam os seus bares e encontravam lojas de chineses, na farmácia da sua infância havia um bar de topless, a velha escola era agora um concessionário de automóveis, o cinema do bairro uma igreja dos irmãos pentecostais." (A sombra do que fomos, 2009, Porto Editora, p. 87)
A nós, mesmo sem sairmos de cá, mudaram-nos o país sem nos perguntarem nada. Em Lisboa, o Monumental, ali ao Saldanha foi abaixo, o Europa em Campo de Ourique também, o velho Império das sessões clássicas está nas mãos de uns outros irmãos que dão pelo nome de IURD.
Mas não foram só os cinemas: os cafés, os velhos e grandes cafés onde nos reuníamos, onde estudávamos, trocávamos livros e discutíamos sem fim, também deram de frosques: o Montecarlo, por exemplo, ou o Vává. Ou então, tranformaram-se em restaurantecos mixorucas, uma sopa, bica e nata ao balcão e fecham todos lá pelas dez horas quando tens sorte. Em compensação, vá lá que nem tudo é mau, barzinhos iam abrindo por tudo o que é lado.
E, de um dia para outro, zás! A cidade cobriu-se de parquímetros (que nós pagamos, mas que dão prejuízo) sem que o estacionamento tenha melhorado grande coisa e os táxis, esses mudaram de cor por causa de uma tal CEE de que éramos bons alunos.
Mas houve mais.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que, lá no emprego, nos começaram a exigir que andássemos com um cartão plastificado pendurado ao pescoço a dizer que nós éramos quem toda a gente sabia que nós éramos, excepto uns rapazes supostamente «seguranças», contratados a peso de oiro para substituir os velhos contínuos que faziam de porteiros e conheciam toda a gente.
Tal como no Chile de Pinochet e de Kissinger, a nossa vida "encheu-se de buracos negros que surgem em qualquer parte; alguém diz luz e é engolido pelas sombras..." Ibid, p. 62 (com a adaptação dos tempos verbais).
Claro, tudo isto quer dizer que envelhecemos, que o tempo - um dos mais implacáveis de todos os buracos negros - foi comendo os nossos amanhãs que cantavam, ó sim, se cantavam!
E até o Fidel Castro, quando aparece na Televisão, ou quando o vemos numa fotografia, tem o ar de um velho náufrago, encalhado na praia do comunismo - ligeiramente primário, é certo, mas, que alternativa tinha ele face ao poder das máfias de Chicago e do exército americano?
A guarda morre, mas não se rende, não é?
É o que dizem.
Mas que remédio tem ela senão poisar a arma de vez em quando e assoar o nariz congestionado pela constipação?
 
 

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

domingo, fevereiro 03, 2013

Ora Zico!

Já não há muito a dizer sobre o pittbull, actualmente a residir num canil em Beja, se ainda não morreu, que dá (ou dava) pelo nome de Zico.
Não foi, como só acontece ao Mário de Carvalho (onde é que eu já escrevi isto? nem me lembro...) o caso de um Bispo ter mordido o cão, mas foi quase.
Na falta de melhor, cortes de subsídios de doença, por exemplo, ou despedimentos em massa, a malta precipitou-se quando viu - num vídeo, suponho - o Zico a ser levado entre duas cordas. E, para mais, com aquele ar de parvo que os cães têm quando não percebem o que lhes está a acontecer.
Não faço a mais pequena ideia de quantos habitantes deste rectângulo esquecido por Deus têm conta aberta - e algumas delas bem chorudas - nesse BPN da banalidade que é o facebook.
Seja que número fôr, setenta mil dessas pessoas a assinar uma petição para que a vida do Zico fosse poupada, é obra. Sobretudo se pensarmos que sobre a cabeça do canídeo pesava a suspeita de ser um assassino e que a lei portuguesa, boa ou má, manda que os animais perigosos sejam abatidos, ponto final.
Se estas setenta mil assinaturas - e o chorrilho de asneiras e de insultos cruzados entre os assinantes e os que se recusaram a assinar - não são um sinal claríssimo do mal-estar da nossa cultura, não sei o que sejam.
Não tenhamos ilusões: em Portugal, na Espanha, na China, milhares e milhares de cães são mortos todos os anos. Até na filantrópica Inglaterra de onde nos vieram as primeiras preocupações com o bem-estar dos cavalos!
Porquê agora e porquê o Zico?
Que matou realmente uma criança de ano e meio, não oferece grandes dúvidas.
Argumentou-se, um pouco por todo o lado, que a criança não apresentava marcas das dentadas que não deixaria de apresentar caso tivesse sido morta pelo cão e, sim, tinha sofrido um traumatismo craneano. Mas o relatório da autópsia, a acreditar nos jornais, é bastante claro: há marcas do ataque, sim senhor, características, insofismáveis.
Se a palavra assassino tem significado, então o Zico é um cão assassino, e outro ponto final.
Mas alto!
«Merde! a guarda morre, mas não se rende!», como disse exemplarmente o general Cambronne. Os defensores do Zico têm mais argumentos.
Partindo do princípio sagrado de que o bicho é meigo, incapaz de actos violentos, só poderia ter sido trocado: um outro pittbull, esse sim, agressivo e bom para a luta seria o responsável pela morte da criança. Valia, porém, demasiado dinheiro em combates clandestinos. O Zico, bom e carinhoso, teria sido sacrificado em nome da ganância do dono que preferia perder um palerma sem préstimo a ficar sem o seu gladiador.
A dúvida metódica que tanto trouxe à cultura ocidental obriga-nos a levar a sério essa hipótese. Se uma coisa é possível, de certeza acontece, nem que seja na infinidade dos mundos - ou na infinidade do tempo, como pretendia Gell-Mann, o prémio Nobel da Física de 1969.
Terá acontecido justamente aqui e agora, neste mundo e no ano da graça de 2013? Será o Zico um outro Zico?
Talvez se possa ainda saber: se os defensores da tese do «Zico meigo» ainda forem a tempo e quiserem provar a sua (dele) inocência, que se prestem a pagar o teste de ADN, como vemos nas televisivas séries do CSI-Qualquer Coisa: há-de haver vestígios da saliva do cão em qualquer sítio, não?
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Os defensores do Zico têm-se dividido em dois grupos principais: os que afirmam a sua inocência a todo o custo - não, o cão não matou a criança - e os que, aceitando que tenha sido ele o autor das dentadas fatais, atiram as responsabilidades para os donos do animal.
E chegamos aqui à razão de ser deste post.
Nem uns nem outros têm razão.
A começar pelos que acham que um cão meigo não pode ter atitudes de uma extrema violência, são cegos ou nunca viram o caniche deles próprios atirar-se com os dentes todos de fora ao gato da vizinha. Podem, claro, como as crianças, como nós próprios: o caso é haver uma provocação que vá para lá dos limites da educação ou do medo. Um gato, por exemplo.
E os que acham que o cão, por ser um animal irracional, não pode ser responsabilizado, também não se mostram muito mais razoáveis.
Em primeiro lugar: irracional é o quê?
«Razão» nunca foi fácil de definir. Parece, no entanto pacífico que ser capaz de abstrair, de concluir acerca de coisas que não se vêem a partir dos dados percepcionados, é a capacidade fundamental da razão; e sabe-se, desde Crisipo (sec. III aC) que os cães são capazes deste tipo de raciocínios. Continuar a chamar-lhes, a eles e tantos outros, irracionais, diria eu, parece-se imenso com um preconceito, tanto mais que está solidamente estabelecido o uso da linguagem por espécies não humanas: chimpanzés, por exemplo, ou papagaios.
Porque não o cão? Tal como nós, humanos, também o cão é um animal social. E como todos os animais sociais, também ele necessita de uma linguagem que lhe permita ocupar um lugar na sociedade, interpretar sinais, dar a conhecer os seus estados interiores: com fome, amigável ou agressivo, aborrecido, interessado e curioso, desconfiado, com medo.
Que estes sinais são claramente interpretados pelos outros cães não parece oferecer grandes dúvidas:  cada um deles corresponde a um (chamemos-lhe assim:) protoconceito, a que correspondem comportamentos adequados, quer sejam inatos, quer adquiridos através dos mecanismos de inserção nas diferentes matilhas. E parece evidente que todos os cães aprendem a controlar, por exemplo, a fome enquanto esperam que os mais velhos, os mais acima na hierarquia, os donos, os deixem comer. O mesmo se passa com os outros impulsos, como é óbvio.
Também o Zico trouxe consigo, desde que nasceu, impulsos destes que a vida em sociedade lhe teria ensinado a controlar, moderando ou inibindo os seus esquemas básicos de comportamento. Quando nasceu, não era meigo ou agressivo: não dava afectuosas lambidelas nem mordia a torto e a direito; mas esses comportamentos faziam parte do seu equipamento de sobrevivência e ensaiou-os abundantemente enquanto bebé: mordiscou, lambeu, lutou e adormeceu aquietado junto dos seus irmãos de ninhada.
Teve de ser ensinado a que a sua agressividade é inútil porque na sua matilha - constituida geralmente pelos donos - não o agride; e que a «meiguice» lhe permite uma muito melhor integração. As escolas tentam fazer isso mesmo aos nossos filhos, mas raramente são bem sucedidas porque nós não os ensinámos de forma eficiente enquanto eram cachorrinhos.
E depois lá vem a desculpa:
- Pois, coitadinho do puto! Vem de uma família disfuncional ...
E são perdoados, como foram os assassinos da Gisberta, também eles institucionalizados porque as famílias de que vinham não os controlavam, não é?
E o Zico, veio de onde?
Alguma assistente social avaliou se alguém o mandava à escola, se estava bem alimentado, se fazia exercício, se, se, se?
Porque esses eram os seus direitos, e são os direitos o que lhe conferia deveres.
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Não tenhamos dúvida: um cão pode ser culpado e não apenas causador de um prejuízo. Ou pode estar inocente.
Quero dizer que ele tem capacidade para aprender normas, que interiorizou os seus deveres e que sabe quando os desrespeita.
A prova é que o faz justamente quando nós não estamos a olhar; tem medo de ser castigado, pois tem. É como eu: até hoje nunca entendi por que raio têm as câmaras municipais o direito de me alugar o espaço público (que, por ser público, já é meu) quando quero estacionar o carro. E se o fiscal da EMEL não fosse uma ameaça bem presente no meu espírito, eu bem vos digo quem é que lá metia as moedas.
Tal como o meu cão quando resolve trepar para o sofá e dormir lá uma sesta bem quentinha.
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Dizer que os animais, por serem irracionais não podem ser julgados ou que podem ser castigados sem julgamento, não se parece demasiado com afirmações do tipo «ah! os pretos não percebem nada de nada, são todos terroristas»? E que, portanto, a tropa portuguesa podia entrar por uma aldeia adentro e matar a torto e a direito? Não era semelhante a justificação da escravatura?
Não é essa a justificação das toiradas, dos ferros cravados, do animal torturado para gáudio dos espectadores?
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E para terminar, já agora, uma perguntinha só:
O leitor já leu O Mandarim, do Eça de Queiroz.
Se o leitor visse um homem a torturar um cão e tivesse uma campaínha, do género da que o Senhor Diabo deu ao amanuense Teodoro, ou vá lá: uma caçadeira - e a certeza de que não seria descoberto - a quem matava?
O homem ou o cão? 

quinta-feira, janeiro 17, 2013

O Gato e o Rato (fábula interminável)

O que raio se passa por aqui?

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O Gato e o Rato (fábula encravada)

O Blogger, simpático como é, volta e meia, pimba! Prega-me uma partida. De repente, sem avisos nem água vai, muda as regras do jogo.
Deve achar que é pecado ser assim como eu sou, conservador, apegado a costumes antiquados, apreciador de velhas fábulas e põe-me de castigo.
Não que o Blogger não tenha alguma razão. Eu mereço!
Mesmo sem ser contrário às mudanças (tenho várias no meu carro e até as uso a todas), há coisas que me irritam: por exemplo, porque diabo achou alguém que as velhas e boas Finanças, uma praga a que já estávamos acostumados, haviam de mudar de nome?
Chega um cidadão ali à vila e pergunta, «o senhor, fachavor, dizia-me onde é que é as finanças?» e o prestável transeunte aponta, «é logo ali, vocemecê corta ali à direita e é a primeira porta...»
E o cidadão, com ar triste diz que «pois, também ele pensava, as Finanças sempre tinha sido ali, mas agora estava lá uma coisa, a Autoridade Fiscal e Aduaneira... E agora, onde é que ele ia pagar o imposto de não sei quê, aquela coisa que dantes era o selo do carro, mas agora é só um papel...»
E a conversa podia não ficar por aqui.
Se o cidadão tivesse tempo e paciência bem podia ouvir dizer que um tal Vítor Gaspar até já tinha dado fazer cartões de visita novos:
Vítor Gaspar
Ministro da Autoridade
(Fiscal, Aduaneira e Correlativos)
Mas, enfim, parece ser um arraigado costume indígena que muito estranharia a um ser civilizado por aqui de visita (felizmente não veio nenhum com a Engenheira Merkl e os que cá havia já emigraram); o Marcelo Caetano, que em tempos ocupou o lugar do Sr. Passos Coelho, para dar um primeiro exemplo, mudou o nome ao Partido Único, a União Nacional e já ninguem se lembra como lhe chamou. E à Pide de má memória, chamou Direção Geral de Segurança, como se rebaptizar as coisas lhes apagassem os curriculo. Não sei mesmo porque é que o Obama não aproveita o exemplo deste velho aliado da Nato e não chama Acapulco à famigerada prisão de Guantanamo: dava para propagandear que uns quantos prisioneiros afinal estavam era de férias.
E não ficamos por aqui. Não bastava que o Terreiro do Paço em Lisboa tivesse passado a ser a Praça do Comércio e o Rossio Praça de D. Pedro IV: foi preciso que o Largo do Caldas passasse também a chamar-se Largo Adelino Amaro da Costa.
Já viram?
Era um endereço pequenino, duas palavrinhas, treze letras contando com o «do»; agora é preciso escrever vinte e quatro. Deve ser uma simplificação, mesmo se eu não vejo como. 
E lembram-se? No tempo do tal Marcelo, e antes dele, do Salazar, os jovens podiam frequentar uma escola comercial, uma industrial ou então ir para o liceu. Quando ser quis uniformizar os cursos, o que, quanto a mim era uma necessidade premente, algum génio achou que a palavra liceu evocava não sei que elitismos e resolveu chamar a esse ensino unificado e aos estabelecimentos onde era ministrado «secundário». Podia ter-lhe chamado Liceu, que era bonito, tinha um sabor clássico e escrevia-se com cinco letrinhas. Agora «escola secundária» escreve-se com dezasseis, mais um espaço e um acento.
Simplicidade, a quanto obrigas!
E, já que o Obama não aprendeu nada connosco, o Blogger podia ter-lhe seguido o altivo exemplo.
Mas não: também o Blogger deve ter querido simplificar qualquer coisa e agora para aqui estou eu às aranhas: é que o Portugal, caramba! foi, desde o início, um blog ilustrado.
Bem sei que não era lá grande coisa, mas eu divertia-me a escrever umas coisinhas e depois pintava uns bonequinhos, e pumba! Clicava ali em cima onde diz «inserir imagem» e procurava num dos meus arquivos o boneco que queria inserir. Depois era só «publicar».
Agora, se lá for clicar, manda-me seleccionar um ficheiro e dá-me como opções coisas como a minha webcam, este próprio blog ou «a partir dos Albuns Web Picasa» que não sei o que seja, mas onde me aparecem três o quatro dos meus próprios desenhos já antigos e só esses.
Como faço agora?
Publico outra vez o que já está no blog? Não me apetecia muito. Queria fazer coisas novas, brincar com elas no photoshop e pô-las depois por aqui.
Porque diabo havia o Blogger de mudar as regras do jogo?
E agora? O que é que eu faço, não me dizem?
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 E pronto: quando não os podes combater, junta-te a eles e escolhe uma coisa qualquer. Este desenhinho, por exemplo, chamava-se «Alice encontrou os ratos que roeram a rolha da garrafa do Rei da Rússia» e eu não desgosto dele. Sempre são uns ratitos. Os gatos que se lixem. 
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segunda-feira, dezembro 31, 2012

O Gato e o Rato (fábula interminável)

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O Portugal, Caramba! deseja-vos a todos - excepto ao governo, claro - um Ano Novo espetacular.

quinta-feira, dezembro 27, 2012