quarta-feira, julho 16, 2014

Viagens com o Manuel António VIII [Debaixo da Tília]

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Pêro Negro e outras
Walther von der Vogelweide, «Under der Linden»
M. A. Pina,  idem, «O nome do cão»
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Debaixo da tília,
sobre as urzes
onde nós dois tínhamos o nosso leito,
aí jaz o jovem Werther,
lado a lado com o nosso cão
quando partiu em busca do seu nome,
o verdadeiro nome que os cães têm
e nós não sabemos adivinhar.
A Tia Olívia disse:
é assim a vida...

sábado, julho 12, 2014

Viagens com o Manuel António VII [O que se repete]

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Mafra
«Scienza Nuova», Ibid., p. 21
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terça-feira, julho 01, 2014

Viagens com o Manuel António VI [Fontes geralmente inconformadas]

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Pero Negro
Ibid., «Segundo Fontes geralmente bem», p. 48

segunda-feira, junho 30, 2014

Viagens com o Manuel António V [Um dia destes, zás!]


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Mira-Sintra
Ibid., «Um dia destes, zás!, morro!», p. 42 

sábado, junho 21, 2014

Viagens com o Manuel António IV [A pura luz pensante]


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Ibid., «A pura luz pensante», p. 67

segunda-feira, junho 16, 2014

Viagens com o Manuel António [Esplanada e Outro]

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Pero Negro
Ibid., «Esplanada», p. 155 e
«Na hora do silêncio supremo», p. 62

quinta-feira, junho 12, 2014

Viagens com o Manuel Atónio II [A Porta Estreita]

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«Pedra Furada»
Ibid., «A Porta Estreita», p. 80

quarta-feira, maio 28, 2014

Viagens com o Manuel António I [Os intrusos]

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"À chegada".
Todas as palavras, p. 109, "O intruso".

quarta-feira, abril 23, 2014

TURBAMULTA

 
 
Tome-se um ponto de vista ao acaso, uma cadeira de plástico hospitalar, por exemplo, de frente para a fila de espera e é quase fácil imaginar 
que aquele ali bate na mulher, e a mulher a quem ele bate é como aquela além, de ar amargurado, a quem ninguém respeita,
nem já os filhos, quando tiver netos pior será, tornada transparente como um móvel que só estorva, em que se tropeça,
por enquanto diz-se «mãe, mãe, não há leite» ou «não compraste cerveja, nesta casa nunca há nada...»
e ela vinga-se num marido tetraplégico
como aquele outro encostado além, impotente na sua cadeira de rodas por causa da escavadora ébria e do seguro que apodrece nas prateleiras do tribunal cível
e vai-se por aí fora, a cada um o seu vício, a sua mesquinhez, a sua crueldade,
distância, mesmo sem razão para os detestar, distância,
de muito muito longe já nem parecem gentes,
vistos lá em baixo no passeio, são o carreiro de formigas, pontinhos pretos sem ego, como dizia o Harry Lime (e o Graham Green)
"Look down there. Tell me. Would you really feel any pity if one of this dots stopped moving forever?"
E os pontinhos apertam-se além, no cais à espera do metro e depois, na carruagem, todos de olhos baixos, corpo contra corpo, são gentalha,
ao pé, mesmo ao pé, tudo se complica,
quando os víamos como multidão, comungávamos porque éramos nós e é o povo em marcha «os ricos que paguem a crise» e somos campeões,
ou enraivece, são eles, os comunas, os lagartos, os lampiões, a turba desordeira
«vai trabalhar, cabrão!»
ah, mas  depois vem um senhor, diz «com licença» e chama a senhora, ainda bonita, modestamente vestida como ele, «senta-te aqui», «não, senta-te tu», «não, vá, que eu já me sento ali adiante»
e dás contigo de pé, feito parvo, e ouvires-te dizer, «não, não, sente-se, sente-se, eu estava mesmo a ir lá fora ao bar beber um café...»
"Would you feel any pity", se eles ainda fossem pontinhos, lá longe?
 Sim, gaita. Sim, mesmo se personagens de ficções.
Cá fora, entre ti e o bar, atravessa-se uma réstia de Sol.

terça-feira, abril 01, 2014

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

quarta-feira, janeiro 29, 2014

sábado, janeiro 04, 2014

segunda-feira, dezembro 30, 2013

quarta-feira, novembro 13, 2013

Diamanda Galas - Supplica A Mia Madre

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domingo, novembro 10, 2013

domingo, outubro 20, 2013

sexta-feira, outubro 18, 2013

sábado, outubro 12, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (quarto episódio)

Tanto tempo se passou desde que aqui vim pela última vez para estar com a minha Senhorinha que não sei já onde íamos, nem onde, no episódio anterior, deixámos o seu Primo Carlinhos.
Quando digo «aqui», os Leitores já habituados sabem que me refiro à pequenina loja de fotocópias e informática da D. Fernanda. É sentado a esta mesa virada para a parede, com um teclado e um ecrã, que eu, a troco de uns dois ou três euritos, conforme vou arranjando, comunico com os meus Leitores. E sei que, ao tal ecrã onde as palavras que escrevo vão aparecendo, eu devia, para ser entendido, dar o verdadeiro nome que é o «monitor» se, por acaso, esse nome não tivesse sido dado já a tantas outras coisas tão diferentes.
E depois, vá-se lá saber de qual é que se está a falar. 
- Temos de prestar mais atenção ao contexto - diz-me tantas vezes a minha Senhorinha - Dois mais dois são sempre quatro, estejamos nós onde estivermos.
- Excepto quando eu estou lá atrás escondido a fazer batota - intromete-se um Diabrelho meu amigo, de quem hei-de falar muitas vezes, mesmo que não tenha tempo para isso neste momento.
Felizmente a minha Senhorinha não o ouviu:
- Mas ser como o Gulliver, o mais alto quando os outros são pigmeus e o mais baixo quando os outros são gigantes, faz com que «alto» e «baixo» dependam das outras coisas que estiverem à volta, quer dizer, do contexto. Não concorda, meu amigo?
Concordei, claro.
Concordo sempre com a minha Senhorinha, mesmo quando o Diabrelho, aqui ao lado me sussurra:
- Podemos sempre fazer como a Alice faz no País das Maravilhas. Umas vezes cresce até ficar com a cabeça por cima das nuvens, outras encolhe para poder entrar na toca dos ratinhos... Miúda esperta. Um dia destes apresento-te.
-
Mas enfim, tudo isto são conversas para outras alturas, ao canto da lareira, por exemplo, para os felizes que a tenham quando o frio aperta.
Mas o tempo que os euritos compram à D. Fernanda vai-se gastando e ainda nem comecei a falar-vos do Primo da minha Senhorinha.
Num momento de particular desânimo, estava ele sentado nos degraus da escada do quintal com a mochila dos livros ao lado, sem se atrever a entrar em casa, e o Sr. Julião a espreitar por cima do muro.
- Pá, hum? Prepara-te, pá. A tua Mãe já descobriu a gaiata que tu tinhas aí escondida.
-
O problema começara logo de manhãzinha, com o Carlinhos - um dia destes vou ter de passar a chamar-lhe Chuck, como ele gosta, mas ainda não me habituei, ele que me perdoe.  Com o Carlinhos, dizia eu, a ter de ir para a Escola e a Magrizela, farta de estar ali fechada, a querer ir com ele.
- Que mal é que faz? - indignava-se ela, sentada no tapete, a devorar as bolachas que o Primo da minha Senhorinha lhe tinha trazido para o pequeno almoço. - Eu deito-me num canto, ao pé de ti e vou ouvindo o teu professor. Ou então durmo.
E não entendia o festival que havia de ser uma sala de aula, cheia a abarrotar de gandulos, e uma garina deitada a um canto e a rosnar de cada vez que alguém se metesse com ela.
Por fim, meia vencida e menos de um terço convencida, amuara e voltara a enfiar-se lá para o fundo, debaixo da cama, de costas voltadas para o Carlinhos.
E foi a pensar nisso que, justamente na aula de História, nomeio da barulheira e com a pobre da Prof a tentar explicar o novo espírito trazido pelas Ordens Mendicantes, que ele contou ao Zé Nesgas o amuo da Magrizela.
- 'Tão, eu não te disse? E vamos fazer o quê? - tinha perguntado o Zé Nesgas depois, enquanto a Prof falava de São Francisco de Assis. - Meu, a gaja não é nenhuma prisioneira.
- Pois não. Prisioneira era ela lá no canil.
- Isso. E não a trouxeste para a prenderes outra vez.
- "Louvado sejas Tu, Senhor, pela nossa irmã, a Terra-Mãe, que nos suporta e nos conduz..." lia a professora, enquanto o Tavares, gritava:
- Hei! Alguém fez o têpêcê de matemática?
- "... e que produz os frutos diversos, com as flores coloridas e a erva..." - continuava ela.
- Chama-se como? - interrompeu, por seu turno o Carlinhos que, apesar de tudo, conseguira ouvir qualquer coisa da Irmã Água, e do Senhor Irmão Sol. 
- O quê, meu Filho?
- Isso do Irmão Sol.
- Está no quadro, Carlos. É o Cântico das Criaturas.
- Ah, obrigado, Stôra. - e passou ao Zé Nesgas, que passou ao Tavares, o caderno de matemática que já vinha lá de trás.
E a conversa ficou por ali.
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- A rapariga, hum, é um bocado desarranjada da cabeça, não é? - dizia entretanto o Sr. Julião. - Trouxeste-a para cá porquê, hum?
Num momento de fraqueza o Carlinhos disparou de um jacto só:
- Ela é uma cadela - foi o Deus dos Cães, está a ver - eu só queria um cão para jogar xadrez e depois o Deus dos Cães transformou-a e ela estava nua - eu não podia deixá-la ali sozinha, com os grandes da Alfredo Arroja, pois não?
Não posso jurar que o vizinho tenha percebido tudo. Mas as pessoas surpreendem, até a mim, que o conheço há tantos anos e que o tenho por um céptico inveterado:
- Parvoíces do Anúbis, hum? - resmungou ele.
- O Sr. Julião conhece-o? - espantou-se o Carlinhos.
- Ah. Mais ou menos. Somos parceiros da sueca uma vez por outra.
E acrescentou peremptório:
- Vá lá! Desanda! Vai lá ver da tua Mãe que deve estar a cortar o cabelo à miúda, antes que ela fique careca.
-
 
 
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