quarta-feira, agosto 15, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

As leituras, felizmente, como dizia há já muito tempo um amigo nosso a propósitos dos símbolos, são como a chuva, acabam sempre por passar.
E passam.
Os livros, a gente lê-os, faz que sim com a cabeça, «oh! como é verdadeiro!». Ficamos avisados. Logo a seguir esquecemos e fazemos as asneiras de sempre.
Se se tratar de literaturas menores, como a ficção científica ou a policial, pior ainda. Das histórias aos quadradinhos, então, nem é bom falar. Alguém lhes liga? Alguém ousa admitir que aprendeu fosse o que fosse com essas literaturas pouco sérias?
Para não irmos mais longe, já repararam que, quando nos levam de casa um livro policial, tipo, «pá, não tens aí uma merda que se leia?», ninguém se sente obrigado a devolvê-lo?
Foi assim que eu perdi uma data de coisas importantíssimas: por exemplo, um livro do Perry Mason, na edição da coleção Escravelho de Ouro que me teria permitido fazer agora um bombástico post sobre o suicídio de Hemingway.
Já viram o prejuízo?
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Mas adiante: o facto é que a culpa não é só dos amigos que nos levam os livritos num bolso e nunca mais se lembram de quem era o propritário quando os re-emprestam a terceiros. 
Nós próprios também os perdemos: são nossos, claro, mas ficaram lá para o fundo duma estante, entalados entre filas e filas deles, a ganhar pó, nicho ecológico ideal para gerações e gerações de aracnídeos de toda a espécie (ácaros incluídos).
Nas grandes arrumações, uma vez por outra, vamos dar com uma preciosodade:
- Olha! Um Freeling que já não lemos há anos sem fim!
Ou uma Le Guin, umVonnegut, um Chandler - a propósito, há que anos não leio O Imenso Adeus...
E, inferno e danação, mais um que se perdeu!
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Enfim, un de perdu, dix de retrouvés, da poeira das arrumações surgiu um Hammett, toca a relê-lo, porque reler é recordar, recordar é viver, e viver, tirando umas secas por outras (por exemplo, tenho de levar o meu jipinho à inspeção, já viram?), viver, dizia eu, e espero que concordem, é bem porreirinho.
E então quando encontramos os nossos próprios sublinhados?
É a ocasião impar para uma recherche du temps perdu, tipo Proust à procura de reencontros; sucedem-se os espantos, as exclamações:
- Que raio! Em que é que eu estaria a pensar quando sublinhei isto?
Ou então, com um toque de ternura:
- Pá! Que giro! Que ingénuo que eu era!
Uma vez por outra ficamos a pensar:
- Pois é. É isto mesmo.
Foi o que aconteceu com A chave de vidro, do Dashiell Hammett onde um breve traço na margem abrangia um par de parágrafos.
- Não sei por que continua a falar do senador como se ele fosse um ladrão de cavalos - tinha eu assinalado. - Ele é um cavalheiro e...
- Absolutamente. leia o que dizem a seu respeito no Post: é um dos poucos aristocratas que restam na política americana. E a filha, outra aristocrata. Mas é por isso que o previno: tome tento e garanta-se logo que o for visitar, ou sairá de mãos vazias, porque, para eles, você não passa de uma forma inferior de vida animal, para com a qual não há regras estabelecidas.
É claro, tatava-se de um senador e aristocrara made in Usa, mas eu quis lá saber dessas imensidades quase sobrenaturais: desatei a pensar pequenino, na nossa democraciazinha à portuguesa.
É verdade que toda a gente olha para nós como se fôssemos "formas inferiores de vida animal".
Lembram-se de um livro do Graham Greene chamado O Terceiro homem?
Eu lembro-me, claro, mas também não sei onde pára. Ora acontece que nesse livro havia uma personagem, Harry Lime, se bem recordo, que lá do alto duma roda gigante numa Feira Popular na Viena do pós-guerra, apontava as figurinhas minúsculas lá em baixo e perguntava:
- Se um daqueles pontinhos pretos, lá ao fundo, parasse de se mover de repente, que nos importava?
De facto, tão pequeninos e tão ao longe.
Infelizmente, somos nós, esses pontinhos pretos. 
Não há regras para tratar connosco: cortam nos ordenados, nos subsídios de doença, fecham hospitais e palácios da justiça; sobem impostos, taxas, portagens, o que lhes apetece. Vendem ao desbarato aquilo que nos custou milhares de milhões a pôr de pé, a REN, a EDP, o BPN, a TAP, Sines, o transporte de mercadorias, sei eu lá! E já se falou nas Águas de Portugal.
E é quando humildemente queremos protestar, mesmo baixinho, «olhem lá, a àguínha, que fazia tanto jeito...», é nessa altura que sentimos, cá bem fundo:
- Sou uma forma inferior de vida animal.  
Se não me acreditam, tentem apresentar uma reclamação às Finanças... perdão: à Autoridade Fiscal e Aduaneira.
Ou então, ir ao banco reclamar contra o aumento das vossas prestações...
O Caixa olhar-vos-á exactamente como o Chefe o olha a ele; e como o Director olha para o Chefe; e como o Chairman do Banco, do alto dos seus vencimentos, cartões de crédito e prémios, olha para os BMWs dos Directores enquanto espera que o motorista o venha buscar.
A prima Cecília
Nós, para não lhes ficar atrás, pumba! Do alto do nosso sofá comprado no Ikea, olhamos para esse Senhor Chairman, quando ele aparece no nosso plasma da Worten, do mesmo modo como nos olhou o seu próprio Caixa. 
E pronto. Fechou-se o círculo.
Se pensávamos que a democracia era mais do que isto, estávamos enganados.
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Ficou-me, no entanto, uma dúvida.
Ficaram mais, mas, de momento, esta já chega:
Onde estão e quem são esses aristocratas da nossa sociedade a quem nós pudéssemos chamar com algum grau de certeza, «formas superiores de vida animal»?
Ao olhar para as figuras públicas, nenhuma me parecia merecer esse epíteto. Nem Bavas, nem Mexias, muito menos os Relvas, os Cavacos Silva, os Majores e Meneses, os Pinto da Costa e os outros de quem não fixei os nomes.
E olhando para o passado, para as prateleiras poeirentas das minhas memórias, também não: certamente que não o Soares, nem o Guterres, nem o Barroso. Ninguém que eu tivesse visto no plasma.
Então, decidi-me. Que tal fazer assim uma espécie de retrato-robot e procurar por eles como se fossem foragidos e a justiça os reclamasse? 
Agarrei no lápis e zás.
A Sra. Dona Estefânia Alice Cecília do Menino Jesus é, quem sabe, o primeiro.
Quem a encontrar, cale-se muito bem calado e não diga nada a ninguém.

quarta-feira, julho 18, 2012

Doce de Ameixa

Nero, que era uma pessoa importante lá em Roma, tocava lira - e, claro, a culpa era dos cristãos, dos ciclistas e dos escravos que não queriam trabalhar.

A minha desculpa, que dela bem preciso, é que o raio do doce está a ficar um espetáculo.

segunda-feira, junho 25, 2012

E aos costumes disse LOL!

- Pá, companheiro!
Manda aí uns trocos para eu pagar a multa! (1) 
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1) Seguindo uma sugestão do Luciano de http://pequenosprazeresmusicais.blogspot.pt/.

segunda-feira, junho 18, 2012

Para fazer um cavalo feliz

No Domingo veio cá o meu primo Artur.
Parou o jipe em frente ao portão, como de costume, apeou-se e acenou de lá, o braço esticado a agitar um jornal que me pareceu o Finantial Times.  
«A Isaltina hoje não veio», explicou ele enquanto sacava da mala uma caixa de madeira com três garrafas e um embrulho tosco com o que parecia um paio. «Ficou com o puto, o Arturito, porra, o meu neto! Parece que tem uma virose ou uma merda assim que os médicos inventaram agora... Olha lá, tu quando eras pequeno tiveste alguma vez uma virose? Havia disso quando a gente andava a jogar à bola na rua? Havia era canelas esfoladas, nódoas negras e cabeças partidas! Isso é que era.»
Concordei, é claro.
O Artur, cada vez mais parecido com o Tio Zé Damião, ia entrando, já estava a partir rodelas do paio para um prato, eu tirava um queijo da Idanha de dentro do frigorífico e uma fatia de paté, e ele a comandar, «pá, vamos mas é lá para fora, olha lá, farto estou eu de estar dentro de casa.»
E já com o vinho aberto e os copos servidos, instalados debaixo da glicínia, ele declarou com ar de solene convicção que «vocês é que têm sorte, pá, aqui longe das merdas todas!»
Num gesto inconsciente com que pontuava a exclamação, agarrara no Finantial Times e fazia menção de atirar com ele.
- Pois - concordei eu.
Aquilo era uma estreia. Toda a vida o Artur troçara de nós por vivermos «longe de um cinema, pá,  dos restaurantes, quantos quilómetros é que tu tens de andar se quiseres ir a um centro comercial, hem? Uns quinze, ou mais, olha lá! E a praia, pá? Quarenta! P'ra cima!»
E, perante aquele ar de infelicidade genuina, acrescentei:
- É o meu bocadinho de corda mais comprida.
Não percebeu, claro.
- Pá, houve uma mulher, uma italiana assim meio anarquista, que escreveu uma coisa que dá que pensar, sabes? "Para fazer feliz um cavalo," diz ela, "basta amarrá-lo a uma corda mais comprida." Isto aqui é a minha corda mais comprida, como ela disse.
Ia a acrescentar que a frase era da Goliarda Sapienza, e que o livro se chamava L'Arte della gioia, mas ele não me deu tempo.
- E tu és um cavalo, pá, porra? Só se fores tu, olha lá, que és assim tipo burro!
- É. E tu? Tu fazes-te de mula a ver se disfarças.
Ficámos a olhar um para o outro e eu continuei:
- Deixam-me pastar por aqui, pelo menos enquanto não precisarem deste sítio para passar outra auto-estrada ou para fazerem um aterro sanitário. Depois expropriam tudo por dez réis de mel coado e arrastam-me daqui para fora; e se eu não quiser ir, dão-me um tiro e dizem que resisti à polícia. Estás a ver. Enquanto não me tirarem isto, carregam no Imi, levam-me os subsídios, aumentam o Iva e o gasóleo... E a ti? Também não estás grande coisa, pois não?
- Eh! 
 Bebeu um gole de vinho e voltou a servir-se. E eu aproveitei para carregar um bocadinho mais na ferida que a presença do Finantial Times me fazia adivinhar e que os seus silêncios confirmavam:
- Estás a ver, para amansar os cavalos, basta ir encurtando a corda, todos os dias mais um pouco, até chegar ao alcance da chibata.
Ele murmurou qualquer coisa incompreensível, tipo «isto é uma democracia, olha lá!», mas eu mandei-o lixar-se. 
- Pá, a democracia não tem nada a ver com a corda. A corda, não tenhas ilusões, existiu sempre e vai continuar a existir. Somos humanos: a espécie a que pertencemos deve ser a mais gregária de todas as espécies à face da Terra. Que outro bicho, formigas incluídas, estás a ver? Que outro bicho era capaz de viver  amarrado a vinte milhões de outras formigas? Pá, tu já foste a São Paulo, já viste o que é viver com mais vinte milhões de iguais a ti. Não passas de uma gota minúscula no meio de um lago maior que o Titicaca. E já andaste de metro. Que outra espécie seria capaz de viajar numa carruagem do metro à hora de ponta? E nota: sem deixar atrás de si um rasto de sangue e de destruição! Se fossem formigas eram um monte de patas e de cabeças arrancadas. Se fossem gatos, era tripas, era olhos, era tudo.
O Artur abanava a cabeça.
- Pá! Não é bem assim, olha lá. - tentava ele argumentar gesticulando perigosamaente com a faca de cortar o queijo. - Há a civilização e há tudo isso, pá. Lá que tu vivas aqui como um atrasado, é lá contigo.
- Está bem, pronto. Podemos dar nomes mais bonitos às coisas se tu quiseres. Falamos em «amor filial» ou em «patriotismo», por exemplo. São amarras que temos à nossa terra e à nossa família. E alguns como tu, demasiados, diria eu, ainda têm o clube! E sabes o que é um clube? É um sítio onde onze esforçados inúteis ganham a vida a pontapés.
- Não dizes mal do Glorioso, óvistes?
- Eu? Tem juízo. Quero lá saber do teu clube. Tu é que andas a gemer por aí que te encurtaram a corda e já sentes o chicote no lombo. É ou não é?
- Porra, pá, também não é tanto assim.
Levantou-se a abanar o peso da cabeça.

- Vou lá dentro à casinha - anunciou. - Mas, felizmente, pá, na Grécia, hem? Ganhámos as eleições, 'tá-z-óvir?

domingo, junho 10, 2012

segunda-feira, junho 04, 2012

Manifesto para uma Esquerda Livre

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Foram ontem as primeiras reuniões abertas dos subscritores do «Manifesto para uma Esquerda Livre».
Não se sabe ainda, é claro, nem o que é uma esquerda - a não ser no boxe - nem como pode ela ser livre.
Desde logo, porque ser de esquerda não é exactamente um lugar que se ocupe, uma coisa adquirida, como dantes se comprava à época um camarote em São Carlos; ia-se ou faltava-se, conforme os azeites, aplaudir ou vaiar as primas-donas.
E depois, porque a tradição nos diz coisas que já se tornaram absurdas: por exemplo, continua a dizer-se que o Partido Socialista «é» de esquerda, e a direita aproveita-se, não cessa de nos dizer que as maiores asneiras foram feitas por ela.
Pode ser que tenha razão, mas, então, para mim, é como se fosse o Dantas.
Se o Dantas é de esquerda, eu quero ser espanhol. Pim!
Antes de irmos mais adiante, devo dizer o seguinte:
Não penso que a um socialismo mais autêntido - aquele que reivindicava «a paz, o pão, a habitação, saúde, cultura e educação», tão simples como isto! - seja importante o problema da propriedade dos meios de produção, como era para os marxismos mais ortodoxos. Basta-lhe que esses meios estejam ao serviço da comunidade, o que, obviamente, não depende dos «proprietários», o mais das vezes meros accionistas com pouquíssimo voto nas matérias. Depende dos «decisores», uma classe que gere, que administra, que endivida, deslocaliza e faz falir aquilo que melhor lhe convém.
Não tenhamos medo de ressuscitar a luta de classes:
A classe dos «decisores» é uma classe que urge combater antes de chegarmos seja onde fôr.
Mas é importante saber caracterizá-la, saber quem faz parte dela e quais são os seus instrumentos de poder.
E, atenção: não basta conquistar esses instrumentos: já foram conquistados e perdidos vezes sem conto. Estamos fartos de saber que o poder corrompe; que atrás de classe, classe vem e que o que a outra fez, fará esta também.
A tarefa de uma esquerda que se queira livre consiste, antes de mais, em restringir o poder, desarmar-lhe os instrumentos:
Onde houver polícias, haverá sempre quem as mande contra quem se lhe opõe.
Onde houver dinheiro, alguém comprará as consciências dos outros homens.
Onde os fins forem mais importantes que os meios, não haverá liberdade, não haverá esquerda livre, nem direita livre, nem centro livre.
Livre, só a Goldman Sachs - ou lá como se chama. 

sexta-feira, maio 11, 2012

A visita da Cobra Rateira

Esta gentil senhora que aqui podemos ver numa bonita foto  rapinada da internet, é a Malpolon Monspessalanus. Mais em família, diz-se que é uma Cobra Rateira, e pronto.
Como visita, não posso dizer-vos que seja muito muito conversadora: tudo o que diz resume-se a um som asmático, prolongado, vindo lá do fundo da garganta. Quase esperaríamos que desatasse a tossir, com uma tosse cavernosa de fumadora inveterada, mas não. Aqueles «esses» expirados prolongam-se, interrompem-se por momentos e voltam com a mesma monotonia de sempre.
- Pá, olha lá que que com esta gaja não se aprende nada - diria o Primo Artur enfiando uma fatia de queijo da Idanha entre duas goladas de tinto.
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De facto, ao contrário do Artur que chega ali ao portão com o jeep e desata a businar, a Malpolon não é pessoa de grandes estardalhaços.
Quase nunca a vemos, entra e sai sem dizer nada, sem incomodar. Ontem, porém, foi diferente. 
Resolvida a participar das nossas refeições, veio fazer-nos uma visita, deslisou até ao quintal por entre as ervas que as últimas chuvas e agora este calorzinho transfomaram em matagal.
Deve-se dizer que, de há tempos para cá, quase deixámos de ter aquilo a que se chama «lixo comum». Se já separávamos os plásticos, o papel e o vidro para futura reciclagem sabe Deus por que longínquas instituições, porquê deitar para o contentor camarário os restinhos de pão que ganharam bolor e já nem para umas migas se aproveitam?
O mesmo para as cascas das batatas, para o talo das couves, o cascabulho das maçãs quando o nosso cão, vá-se lá saber porquê, o olha desdenhoso.
De modo que fizemos uma estrumeira.
É claro; agora está mais na moda ter um compostor, daqueles muito sofisticados, que se vendem nas grandes superfícies do «faça você mesmo».
Mas nós aqui em casa o que temos mesmo é o monte do estrume, à moda antiga.
E, uma vez por outra, mesmo se o tentamos evitar porque os tempos não estão para desperdícios, até uns restinhos de comida lá vão parar.
Os melros e os pardalitos são os nossos mais frequentes comensais.
Era para lá que a Rateira Malpolon se dirigia, ou, quem sabe, era de lá que vinha, já com a tripa forrada com o que encontrou.
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Infelizmente, aquela parte do quintal, como se calcula, está protegida por uma rede.
Não é nada que detenha um um gato sequer: uma simples redezinha de plástico a marcar uma fronteira, permeável aos insectos e aos ratitos que lhe passam por baixo se quiserem.
A Cobra, porém, ou por distração ou porque ia apressada, enfiou-se numa das malhas, a cabeça e um bom palmo conseguiram passar, o resto do corpo ficou entalado.
Sem atinar com a marcha à ré, fez o pior que era possível: enfiou a cabeça noutra malha e noutra ainda e lá ficou, nem para diante, nem para trás, sem se conseguir mexer sequer.
Só um ou outro estremecimento e a sua respiração de asmática nos mostraram que estava viva e, diga-se, não muito bem disposta.
Se fosse em casa do Tio Zé Damião, era sabido: «as cobras são bichos nojentos, dão cabo de tudo! Ter isso aí até é um perigo para as galinhas. Dá-se com a enxada, parte-se-lhe a espinha e já está, fica para aí a torcer-se que é para aprender.
Antigamente é que era: meti-se num saco, a Venatória pagava quize milréis por cada uma, sempre dava jeito. Agora, querem eles lá saber!» 

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Claro que não seguimos o conselho do Tio, nem o consultámos sequer.
Tentámos com a tesoura de podar, mas era muito larga e mal jeitosa. O ideal foi mesmo uma tesoura das unhas: a Malpolon estremecia de cada vez que os bicos fininhos se aproximavam para cortar os nós da rede, soprava de indignação, mas garanto, quando se apanhou à larga nas malhas, caramba!Parecia que levava fogo no rabo, nem ficou para posar para uma última fotografia.
Esperamos todos que, a estas horas, a nossa Rateira esteja a contar às amigas a grande aventura da sua vida: como, resistiu heroicamente àqueles enormes seres desnaturados que a tinham apanhado à traição e que a ameaçavam com uma espécie de mandíbulas cortantes que faziam clic! Clic!
E já agora, se não lhe fizesse muita diferença, a gente agradecia que ela passasse de largo pelo nosso quintal: não dá jeito nenhum andar sempre a ter de fazer buracos na pobre rede, como calculam.

terça-feira, abril 24, 2012

sábado, abril 21, 2012

In fine

Se se nos acabar o tempo
(que é a essência do fundamento)
Lamento,
Mas quero lá saber:
Já não vamos estar cá
Para ver.

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, abril 18, 2012

Mistérios

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Que será feito da nossa vocação marítima?

quarta-feira, abril 11, 2012

quinta-feira, abril 05, 2012

terça-feira, março 13, 2012

Tiro ao Cavaco!

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Segundo alguns comentaristas, abriu, na mediática feira, o stand de tiro ao Cavaco.
Tem sido um sucesso.
Só não nos juntamos ao valoroso grupo de atiradores porque não gostamos da companhia.
Quanto ao resto, diríamos como o Almada Negreiros:
Se o Cavaco é português,
eu quero ser espanhol.
Morra o Dantas!
Morra!
Pim!

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Melindres de Pedagogo e glórias de General

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Sérgio de Sousa, que tem colaborado com este blog, bem mais esporadicamente do que nós gostaríamos, acabou de publicar o seu Diário Póstumo de um Paraescritor (Anáfora, 2011).
Como afirma no Prefácio, "além do incontornável autor, mais quatro pessoas, pela assiduidade com que intervêm ao longo do Diário, tornaram-se também personagens dele."
São essas quatro, em primeiro lugar o seu editor, logo o seu filho mais velho, o Eugénio e o seu amigo Raúl Hestnes Ferreira, conhecido arquitecto, autor entre outras obras, do edifício da Escola Secundária de Benfica ou a Casa da Cultura e da Juventude de Beja.
Dado que a quarta personagem a intervir nesta narrativa diarística é Rui Costa Lopes, que também, conforme calha melhor, se assina como Tacci ou João Bessa, ou Bento Sequeira, ou qualquer outra coisa que venha a jeito, e como se dá o caso de ser o principal redactor deste blog, achámos conveniente apresentar o livro de Sérgio de Sousa com o devido destaque.
-
De Rui Costa Lopes se diz, ainda no prefácio:
"Penso que o Rui assumiu o papel daqueles escravos a quem incumbia seguir atrás dos generais nos desfiles da consagração das vitórias, para lhes lembrar que não deviam deslumbrar-se consigo próprios. Só que", acrescenta o autor, "felizmente, nem o Rui, apesar de pedagogo, é escravo, nem eu sou, nem me pretendo, general vitorioso." (pag. XV)
De facto, como diz mais tarde, numa entrada do seu Diário de 8 de Julho de 2003, Rui Costa Lopes cumpriu de forma cabal o papel que nesta narrativa lhe foi distribuído.
"De tudo quanto publiquei", escreve o autor, "o Rui não achou o primeiro livro aquilo a que se costuma chamar promissor, embora na altura lhe tenha encontrado um pormenor interessante. Digamos", continua, "que não quis logo demolir-me. Do resto, apenas ressalva de Na senda dos utopistas três textos, «A Tríade», a que se recusa chamar-lhe assim, nomeia-o «Palimpsesto» - enfim, não será exactamente, mas com boa vontade admito que pudesse ter esse título -, e de que diz não fazer a mínima ideia do que eu quis dizer com o texto, mas o que quer que fosse, está dito, literariamente dito, são palavras suas, «A crónica inventada no Portugal contemporâneo», porque acha piada à figura da protagonista, e o texto «Na senda dos utopistas», porque nele «se abordam algumas ideias», sic. O mais são trouvailles, sem realização literária.
"Claro que o Rui faz o favor de continuar a ser meu amigo, apesar de eu não escrever nada de jeito, e por isso me aconselha a que deveria não ser apressado na escrita, deveria cuidar do literário.
"Ora reconheço que tento escrever nos poucos intervalos de tempo de que disponho, e isso imprime à minha escrita um cariz provavelmente diferente do que teria se dispusesse de uma estabilidade material que me permitisse estar tranquilamente num local aprazível a ocupar-me quase exclusivamente de escrever.
"Mas também procuro uma escrita incisiva e não contemplativamente espraiada. Aprecio noutros virtudes de linguagem, para mim chega-me que a prosa resulte inteligível.
"O Rui acha que se não me disponho - por preguiça, precipitação, falta de domínio de eventuais capacidades - a escrever melhor, então não deveria publicar. Enfim, eu farei o que quiser, acrescenta. "Quanto a ele, o de eu não sair de uma pequena editora, significa que o que escrevo não tem qualidade e ando a ser explorado. [Se o que escrevi não presta," pergunta o autor entre parêntesis rectos a indicar que se trata de um comentário contemporâneo da preparação desta edição e não do Diário propriamente dito, "porque havia de ser bem remunerado?]
"O Rui vinca que quer dizer-me as coisas sem me magoar, paternalistamente.
"Eu sei que os meus escritos não têm a qualidade literária dos dos escritores. Mas serão tão maus que não devam ser publicados?
"Outros ecos de leitura dos últimos não me chegam, talvez só uns escassos e daqui a meses. Poderiam eventualmente ajudar-me.
"Estávamos já na esquina da minha rua, o Rui e eu, para nos separarmos, quando apareceu o Edgar, e o Rui apenas teve ainda tempo para simpaticamente me consolar, que não me ralasse, livros que não prestassem, era o que mais havia."
E conclui a anotação do dia: "É a opinião dele, provavelmente acertada, sinceramente expressa, do modo menos ferino que consegue." (Pags. 528, 529 e 530)
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O escravizado pedagogo, pelo que se leu, cumpriu o dever de advertir o general dos riscos de se deixar levar pela ufania.
Mas, como todos os escravos em tais circunstâncias, com a coroa de louros erguida na mão e as frases a soltarem-se, «lembra-te César de que és pó e que ao pó hás-de tornar, lembra-te César: nasceste nu e a riqueza que conquistaste não te seguirá atá à cova... Lembra-te de que a plebe hoje te aclama e amanhã te condenará à morte» e por aí fora, bastante deve ter irritado o General que se sentiu amesquinhado no seu triunfo.
Não nos custa imaginar que, um tanto fora de si, tenha desatado a dar pontapés e bofetões no pobre escravo:
- Cala-te, imbecil! Cala-te ou levas mais.
E bem imagino o pobre pedagogo atirado da quadriga abaixo, a populaça a rir do escravo caído em desgraça.
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Foi, cremos, o que aconteceu à personagem Rui Costa Lopes na saga de Sérgio de Sousa. De vez em quando, zás, lá vem um estaladão, a propósito de qualquer coisa: «lá estava o Rui, com o pobre cão, o Rover fechado no jipe à espera» (pag. 512), por exemplo.
Pobre cão? Quererá Sérgio de Sousa sugerir que a sua personagem tratava mal o boxer que há longos anos lhe faz a melhor das companhias? O carro estava estacionado à sombra, claro, com as duas janelas da frente ligeiramente abertas. O Rover, como era seu costume, ocupara o lugar do dono mal ele saíra e sentara-se, muito direito, no banco atrás do volante, a olhar vigilante quem passava. A personagem, casualmente, lembra-se muito bem desse dia porque veio várias vezes com outros amigos e copos variados, cá fora para lhes apresentar o Rover.
O pobre cão é ainda motivo de outra entrada, essa escrita em Pedrógão, em plena serra D'Aire, num mês de Agosto.
"O Rui veio almoçar aqui trazendo o Rover, para quem cozi um osso com macarrão." (pag. 638)
Foi uma gentilíssima ideia do Sérgio: o Rover alambazou-se com o macarrão de que aproveitou até as migalhas que se espalhavam pelo chão de cimento e depois, de barriga mais do que cheia, deitou-se à sombra a roer o magnífico osso. E eu pude beneficiar de um lautíssimo banquete cozinhado pela Mãe do Sérgio - uma Senhora carinhosa na sua impecável hospitalidade.
O mal foi que, a seguir a esse almoço e à bica tomada no café, ao Sérgio lhe apeteceu um passeio digestivo - coisa aliás, natural num citadino como ele.
"Tentei levá-los depois à serra," escreve ele na continuação, "mas o Rover não aguentou nem o começo da subida. Obviamente o culpado é o dono, que lhe passou a «calaceirice».
O dono, claro, assumirá todas as culpas que pudessem caber ao «pobre cão», mas, efectivamente não terá sido responsável pela temperatura do ar, bem acima dos trinta graus, nem pela falta de água - não se preveniu por não saber que «íam à serra»: é claro que, pedindo muitas desculpas por ter estragado o passeio, optou por não deixar o Rover rebentar de sede.
Este tema «calaceirice» da personagem Rui Costa Lopes é glosada bastantes vezes. Por exemplo, na página 562 diz-se: "Não compreendo, falta-me o ânimo para fazer o que quer que seja.
"Engonho.
"À noite dei uma saltada a casa do Rui, que preguiçava."
É certo que o Rui não é nenhum hiperactivo; como se diz a páginas 406 "... se não se desse o caso de o meu Amigo ser um preguiçoso, que sempre se limitou ao que o obrigaram a fazer" e como se explicita na página 108, "Inteligente e frugal (ups, aqui ele tem de agradecer) o Rui não se esfalfa atrás do que não elegeu como essencial. Ele é filósofo, contempla, discorre e compraz-se."
E também: "O Rui, embora bem refastelado na vida, defende que só a Ideia o interessa. Um clerc, como escreve António Pedro Pita (quem será?), pretendendo que o seu reino não é deste mundo e, acrescento eu, que tudo quanto é social lhe é alheio, pior, o enfastia, pretende, o irrita, de facto."(a quem? ao António Pedro?)
Esta preguiça contemplativa acarreta, como se viu, uma outra característica talvez não muito invejável: a falta de sentido das realidades.
Sérgio de Sousa comenta: "é o cúmulo da falta de realismo!" a propósito de uma brincadeira acerca da nossa mania de pintarlucar umas telas pequeninas. Eu, com os acrílicos e as aguarelas, sou um tosco. E, de facto, o que eu estava nesse dia a sugerir era que ele devia arranjar um escritório, uma vez que passava a vida a dizer que em casa, por motivos que não compete ao pedagogo de serviço na quadriga dizer, não conseguia trabalhar.
Também, quando a Câmara Municipal de Sintra me premiou a novela A Siberiana, Sérgio de Sousa anota que assistiu à "cerimónia de comunicação da atribuição, não ainda da entrega, do prémio Ferreira de Castro de 1996, Literatura, ao Rui."
E conclui o seu relato: "O Rui pagou o jantar, dele e quatro acompanhantes, no Café de Paris, logo a gastar o valor do prémio que ficaram de lhe mandar." (pag. 68)
Que falta do sentido das realidades, de facto.
Mas mais:
"Reli há poucos dias A Siberiana, do Rui, agora editada em livro. [...] Gosto e desgosto desigualmente do livro. Acho-o literário, isto é, com o encanto de um arquétipo, sem reflexo na realidade." (pag. 190)
E antes, já tinha comentado que achava o "romance bem construído, socorrendo-se de uma estrutura policial" e que o Rui o tinha apurado "bastante." Porém, imagine-se, "Ele diz que não, e esta será mais uma das desavenças numa amizade de quase quarenta anos, como escreveu na dedicatória do exemplar que me ofereceu."
A entrada era de 1999 e a amizade, no fim de 2011 já vai nos cinquenta.
Talvez por isso Sérgio de Sousa se permite publicar agora um comentário de Março de 2000 em que diz o seguinte:
"Ao fim da tarde passo por casa do Rui, ocupado a rever a tese de mestrado - em que procura imputar determinado ideário filosófico a Eça de Queiroz - que a Imprensa Nacional publicará este ano, centenário da morte do escritor." (pag. 277)
O escravo que acompanha o General no seu triunfo tem de dizer que «imputar» não é uma palavra que lhe agrade neste contexto e que a toma por mais um empurrão para se ver livre da incómoda personagem que passa a vida a irromper pelo seu Diário.
Creio que lhe devo fazer a vontade e acabar de vez com essas desagradáveis desavenças.
Não convém a General nenhum, aspirante a um lugar entre os notáveis, que com eles constantemente se encontra e conversa, ter um chato de um amigo que não gosta da maioria das coisas que ele escreve, e que lhe aponta a dedo estendido o que de bom ele realmente tem escrito como um modelo que poderia seguir se escutasse os seus leitores, os seus amigos: «Tríade» (e não Palimpsesto, peço desculpa), por exemplo, «A Dona do Cachorro», «Nas férias», «Na senda dos utopistas», «Dr. Virgolino e as suas amigas» e pronto, coisas assim, a que se podia agarrar e desenvolver... se quisesse ou se tivesse tempo.
O Rui que o seguia na quadriga e lhe moderava as fanfarronices, apeou-se, atirou com a coroa de louros ao caraças e foi-se embora.
Deseja muitos sucessos e muito boa sorte ao Senhor General.
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segunda-feira, novembro 28, 2011

De amor e de sombra

- Mulher, queres ver que nos roubaram o nosso país?
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De amor e de sombra
Isabel Allende
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Comprar outra vez um livro que já se tivemos e que se perdeu, é como tropeçar um velho amigo. Ou melhor, reencontrar alguém que já fomos.
Nem imagino qual seria a minha surpresa se, um dia destes, acabadinho de acordar, a caminho da casa de banho, eu lançasse um olhar maquinal ao espelho e descobrisse o meu próprio rosto com vinte anos.
E, um pouco em choque pela surpresa, havia de perguntar, pela voz que me pareceria vir do espelho:
- Pá! Ainda és assim?
- Assim como? - respondia eu, a fingr-me desentendido.
O jovem de espelho abriria o De amor e de sombra.
- Lembras-te das últimas frases do livro? - e, sem esperar pela resposta lia: - «Sentiam-se pequenos, sós e vulneráveis, dois navegantes desolados num mar de cumes e núvens, num silêncio lunar...» Queres que continui?
- Hum-hum.
- «... mas sentiam também que o amor tinha ganho uma nova e formidável dimensão e seria a única fonte de ânimo e vigor no exílio. À luz dourada do amanhecer, pararam para ver a terra que era sua pela última vez. - Esqueceremos?, murmurou Irene. - Esqueceremos - respondeu Francisco.»
Ficaríamos em silêncio, a olhar uma para o outro. 
- Não é essa a palavra que está no livro - diria eu, por fim.
- Ainda te lembras?
- Lembro: o que lá está é «voltaremos? - murmurou Irene.» E o namorado responde: «voltaremos».
- Tive medo de que te tivesses esquecido.
- Enganaste-te - responderia eu.
Mas havia de sair da casa de banho assobiando em surdina uma passagem do Bolero, do Ravel: sinal, penso eu, de que não me estaria a sentir demasiado confortável. 
Felizmente têm estado uns dias de sol.

quinta-feira, novembro 24, 2011

o CADERNO de MAYA, ou os crimes da AVÓ Allende

 
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o CADERNO de MAYA
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Não é um grande livro.
Não que eu alguma vez soubesse o que quer dizer a expressão «grande livro».
De A Montanha Mágica, de Thomas Mann, as coisas mais importantes que recordo são os espantosos discursos de Mynheer Peeperkorn:
- Minha filha - disse ele. - Vai tudo bem. Mas que acha?... Por favor, não me interprete mal. A vida é breve, a nossa capacidade de satisfazer-lhe as exigências... É assim que... São factos, minha filha. Leis. Inexoráveis. Em resumo, minha filha, em resumo, perfeitamente.
E é tudo, julgo, do prémio Nobel de 1929.
De Isabel Allende tenho presentes muito mais coisas: primeiro que tudo, as suas espantosas avós, os seus espantosos avôs.
As diversas voragens das vidas que vamos sofrendo fizeram-me perder, de há muito, livros como A casa dos espíritos, De amor e de sombra, ou Eva Luna (que hei-de voltar a comprar: é o que mais vontade tenho de reler neste momento, pelo menos.) 
Mas julgo recordar uma longa fila de avós sempre presentes, nem sempre de forma discreta, mas acolhedoras, como o ninho a que é bom regressar quando se tem a asa ferida.
Desde a céptica Avó Cold d' A Cidade dos Deuses Selvagens até esta absurda avó Nini que criou Maya na confiança de que os milagres estão lá para nos salvar quando tudo o mais nos abandona, os avôs são os espíritos benfazejos que pairam à nossa volta.
Gunther Grass, em O tambor, também fala de uma avó acolhedora, debaixo de cujas saias o anãozinho Óscar se refugia. Mas trata-se de avós como as de antigamente: velhotas ainda enérgicas, mas tão só isso.
As avós de Isabel Allende são (quase todas) sexuadas e é por pouco que não as vemos de mini-saia.  Os avôs desejam-nas, mimam-nas, protegem-nas, como amam e protegem as netas.
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A segunda coisa que logo se me apresenta, quando penso Isabel Allende, é a amizade. A amizade fiel, eterna e desinteressada.
Maya, mesmo na mais negra miséria, encharcada em drogas, Maya tem um amigo, o subnutrido Freddy que lhe salva a vida por duas vezes - e o seu avatar, Juanito, outra. Eva Luna tem um fiel amigo transexual, a heroína de De amor e de sombra, faz amizade com um padre que a acompanha na desesperada busca pelos desaparecidos do regime de Pinochet.
Não há uma grande variedade nas personagens de Isabel Allende: vão-se parecendo umas com as outras, mas nós gostamos de as reencontrar, como gostávamos de reencontrar o Júlio, a Ana, a Zé e o David quando líamos os Famous Five. São humanas, são falíveis, pecadoras e aventureiras, mas há nelas, salvo quando lhes está destinado o papel de maus da fita, uma generosidade que escasseia, cada vez mais, nos nossos horizontes.
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Uma nota final: este livro é, de algum modo o reencontro de Isabel Allende com o Chile - mesmo se quase como se fosse uma mera turista na ilha Chiloé - e com as memórias do golpe vibrado por Kissinger nas esperanças dos anos sessenta: um mundo onde a felicidade era possível.
Cito apenas uma pequena passagem para não roubar a surpreza a quem quiser ler o livro:
"Aquela violência era tão inimaginável no Chile, orgulhoso da sua democracia e das suas instituições, que Manuel foi incapaz de avaliar a gravidade do que sucedera [...]. Levaram-no de olhos vendados até ao Estádio Nacional, que estava transformado em centro de detenção. Ali se encontravam pessoas que haviam sido presas durante aqueles dois dias, maltratadas e famintas, que dormiam deitadas no chão de cimento e passavam o dia sentadas nas bancadas, rezando em silêncio para não incluídas entre os desafortunados que conduzidos à enfermaria para interrogatório. Ouviam-se os gritos das vítimas e, à noite, os tiros das execuções."
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quinta-feira, outubro 06, 2011

Quinto aniversário

Faz hoje cinco anos que o «Portugal, Caramba!» por aqui apareceu.
Não primou sempre por uma linha de orientação demasiado coerente, mas quase nunca marcou presença apenas para cumprir calendário.
Há que desculpá-lo: divertiu-se sempre, indignou-se em algumas ocasiões, fez troça noutras.
Uma vez por outra mereceu parabéns.
E, volta e meia, mesmo se é pecado, sente-se um nadinha orgulhoso  de si mesmo.


terça-feira, setembro 27, 2011

Paradoxo, ou nem isso...


- Não, avô.
O Mundo está cada vez mais vasto e as coisas estão cada vez mais perto.
Não vejo o que queres dizer com essa coisa do paradoxo.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Não gosto

Não gosto. Não gosto e não gosto.
Não gosto. E não gosto mesmo.
Também não gosto e tenho raiva a quem gosta.
Disse.

terça-feira, agosto 23, 2011

Jejum contra a corrupção

Anna Hazare
(em fundo:página do jornal Público)
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"Juntar a mais firme das resistências ao mal
com a maior benevolência para com o malfeitor:
não há mais maneira nenhuma de purificar o Mundo",
disse Gandhi.
E depois mataram-no.
Dá que pensar, não dá?

segunda-feira, agosto 08, 2011

Domínio público, Mil e uma noites frágeis e O homem do turbante verde

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1.
Quem visse assim, sem mais, o título deste post, havia de achar que se tratava do início de um conto do Jarry, ou, no mínimo, de um apontamento deixado por um desses poetas que dantes publicavam nas páginas literárias.
Mas não: são os títulos dos três livros que mais recentemente por aqui andaram, curiosamente, a velocidades muito desiguais.
Explicando: 
Como toda a gente já reparou, as pessoas que lêem, não importa se são amantes de música pimba ou se reviram os olhos a ouvir Kodály, lêem de maneiras diferente.
Umas são grandes leitoras, levam um livro de duzentas e vinte páginas debaixo do braço quando vão para o emprego de manhã. À hora do almoço já se passeiam meditativamente pela Bertrand ou pela Fnac, petisca aqui, petisca ali, e, ao fim do dia, durante a viagem de combóio para Mem Martins, devorado o último capítulo, só lhes resta espreitar o jornal do vizinho.
Há também os que preferem as leituras saboreadas, reflectidas. O Stig Larsen, nos seus três tomos volumosos, dá-lhes para um ano e meio e ainda sobra; um Gonçalo Tavares, para um semestre.
Outros ainda, arrastam o livro pela mesa de cabeceira, levam-no para o restaurante e para as esplanadas em fim de tarde; acabam por o perder sem a vista lhes ter alcançado mais do que alguns parágrafos.
Esquecê-lo no Metro, foi uma bem-vinda arrelia, um inconfessado alívio.
Nós aqui no Portugal, Caramba! acumulamos esses três modos de ler e ainda lhes juntamos mais alguns que agora não nos ocorrem. Ou sim: os livros da má consciência, já ouviram falar?
Compramo-los, às vezes só por dever, mas arrastam-se por aí; passamos por eles da cozinha para a sala de estar e fazemos vista grossa não vá ele gritar-nos «então? fale à gente e guarde o seu dinheiro!»
2. 
O Domínio Público, do Paulo Castilho (LeYa, D. Quixote, 2011), foi um exemplo do primeiro caso.
Note-se que se trata de um dos nossos autores favoritos, portanto, é um daqueles que nos fazem precipitar-nos para a livraria mal nos damos conta de que um novo livro saiu do prelo. Infelizmente não é muito célere a informação: já o Domínio Público andava pelos escaparates desde Junho e eu só no fim de Julho me dei conta disso. A Leya não deve ter investido muito na exposição do livro porque, mesmo à procura dele, não foi fácil encontrá-lo, escondido como estava entre os que o tempo já obscureceu.
Enfim: tardou, mas arrecadou!
Domínio Público, como todos os livros de Paulo Castilho, lê-se de um trago.
Primeiro porque voltamos a encontrar a Rita e o Filipe, gente que conhecemos novinhos em Por outras palavras. Tínhamos já reencontrado o Filipe em Letra e Música,  agora vêmo-lo novamente reunido com a Rita.
Paulo Castilho, ele que nos perdoe, tem em comum com a Enid Blyton uma tendência para a série: Novas aventuras de Rita e Filipe, Rita e Filipe partem para outra, etc., seriam títulos bem-vindos a seguir ao Domínio Público se os editores fossem todos como o Honorato - outra das personagens reincidentes de Paulo Castilho. 
O Honorato é o sarcástico - e cínico q. b. - editor do Filipe com quem, de longe, vai dialogando, regra geral por mail. Nunca, que nos lembremos, aparece nas histórias, senão por interposta correspondência, toda no estilo "gosto muito de intelectuais obscuros. Alguns dos meus amigos são intelectuais obscuros. Mas o problema dos intelectuais obscuros é que só outros intelectuais obscuros fingem que os lêem." (Letra e música, p. 22)
Também a Rita é reincidente, mas quem sabe se não está ali para representar um tipo quando a própria aceita definir-se pelas palavras do seu ex-namorado Filipe?
"... Só quero o teu bem," diz ela, "portanto, conselho gratuito da Rita, arranja uma menina boazinha, é mais o teu género. Eu não estou disponível e, além disso, achas que sou difícil e imprevisível e cansativa e não se pode contar comigo - como tiveste em tempos a amabilidade de me explicar, mas felizmente nunca me chateio." (Domínio Público, pp. 66, 67)
A personagem aparecia-nos já esboçada na Patrícia de Sinais exteriores, por exemplo, e desdobra-se neste Domínio Público. A Sofia e a Filomena ["Na minha sala vive-se e portanto estão lá os objectos com que eu vivo. Não estão desarrumados. Estão a viver comigo." (D.P. p. 81)]  são variações de um mesmo espírito improvisador e desarrumado, que, aliás, partilham com muitas das personagens masculinas, como se, para Paulo Castilho, Portugal fosse esta desarrumação indolente em que um ou outro rasgo acaba às vezes por emergir, para nos salvar da banalidade.
Enquanto esse rasgo vem e não vem, a família da Sofia, da Filomena e do Tiago - que namora a nossa conhecida Rita - projecta uma Fundação que perpetue a memória e o legado do avô Póvoa - mas com o dinheiro que ele tinha herdado do sogro e depois do cunhado. Infelizmente, tudo irá soçobrar em mais improvisações: habituada a gastar até à delapidação do património, com o àvontade de quem não depende do seu próprio trabalho, a Família Póvoa (também dita Alves) recorre a um corretor da Wall Steet e a investimentos ilegais para ir mantendo o rendimento anterior. Acaba, azares da vida, por cair nas malhas da justiça americana: computadores apreendidos, acções confiscadas, multas.
O resultado está à vista: verdadeira imagem do nosso país, a supérflua Fundação é a primeira coisa a desaparecer no urgente downsizing da família.
A Rita e o Filipe perdem o emprego e, num final digno da corrida no Aterro, dos Maias, decidem que vão emigrar para a Irlanda, para a Bélgica; entram numa pastelaria; ela come uma brisa, ele um pastel de nata.  
"Isto é que me reconcilia com a vida", remata a Rita.
E sim, se o Domínio Público não nos reconcilia com a vida, pelo menos faz-nos sorrir à custa dela.
Se estivessemos em Inglaterra, havia a possibilidade de uma BBC agarrar nesta novela e fazer uma série, quatro episódios de quarenta e cinco minutos cada, já imaginaram? Com actores escolhidos a dedo, cenários de encanto e o argumento devidamente trabalhado para não se saber ao certo, até ao último momento, quem era o responsável pelo descalabro económico da Fundação.
Talvez os maus fossem castigados para se salvar a moral, mas isso, está bem de ver, só acontece na televisão. Não propriamente na realidade e ainda menos nos romances de Paulo Castilho.  
3.
Outro livro dos que queríamos falar custou-nos a ler, mas não pensem que a culpa foi nossa; nem, diga-se desde já, da novela Mil e uma noites frágeis de Beatrriz Lamas de Oliveira (LuLu, 2010).
Mas acontece que nem tudo dá jeito a toda a gente.
O telemóvel sim, normalmente, mas se quisermos andar por aí no mais severo anonimato, o melhor é deixá-lo em casa, desligado e escondido com o cartão de crédito, na mais funda das gavetas, debaixo das camisolas de inverno. As portagens na auto-estrada também se pagam com umas moedinhas - foi para isso que o dinheiro foi inventado, muito antes da Via Verde, lembram-se? E telefonar, só das cabines públicas. 
A nós, no entanto, o que mais nos encanita nesta coisa das tecnologias novas são os livros.
Habituámo-nos, defeitos de educação, a ler na cama, nem que seja umas linhas, antes de nos rendermos ao sono.
Sabemos que faz mal à vista, que incomoda as nossas companheiras, não só porque mantemos a luz acesa quando elas querem dormir, mas até porque, sem dar por isso, adormecemos, o calhamaço desprende-se-nos das mãos e tomba fragorosamente! Acordam elas com a disposição que se imagina, o pobre cão que dormia pacificamente no tapete apanha com a lombada em cima e desperta ele também com um salto e um ganido: cena completa!
Quando o livro nos chega pela net, em formato PDF, então os problemas tornam-se graves. Para o ler tem de se ficar sentado aqui a esta secretária, com o ecrã na frente, a tecla do PgDn em vez do tranquilo molhar com cuspo o indicador e voltar a página. Nem pensar em levar o portátil para o quarto. Já imaginaram o estrondo que o pobre aparelho fazia se nos caísse das mãos? E em que estado ficaria o pobre cachorro, que olhar de espanto e censura não nos deitaria?
Havia outros recursos, claro. 
Uma tablet, por exemplo. Ou a impressora.
Mas a tablet pesa pelo menos meio quilo e não se recomenda deixá-la cair muitas vezes.
Imprimir as cento e quarenta e três páginas da novela da Beatriz Lamas de Oliveira, isso sim, era uma alternativa, mesmo se o formato A4 não é nada cómodo e também obriga a um peso nada despiciendo.
Aqui há tempos quisemos ler a tese de mestrado de uma amiga e, catástrofe: pesava um quilo e tresentos, as páginas desataram a soltar-se umas das outras, pareciam loucas a enfiar-se para baixo dos móveis. 
- Que Diabo? - praguejámos. - Porque não hão-de os editores exercer as funções a que Deus os destinou e não imprimem eles  próprios - por interposto tipógrafo, está bem de ver - aquelas coisas que nós gostamos de ler?
4.
Mas, adiante!
Temos estado a ler, em PDF, é certo, o livro de Beatriz Lemas de Oliveira que já referimos, Mil e uma noites frágeis, e por mais de uma vez tivemos de interromper a leitura, desligar o computador, com grave prejuízo das nossas pequenas manias: sublinhar, voltar atrás, rabiscar um comentário nas margens, levá-lo connosco para o consultório do dentista, ler umas linhas enquanto se espera que abra a passagem de nível ou mude o sinal vermelho. 
Da autora, já tínhamos lido O Insecto Imperfeito, publicado em 1999 pela a Gradiva, editora que desperdiçou a oportunidade de publicar também esta segunda novela.
Insecto Imperfeito retratava-nos a relação entre uma mulher jovem, da classe média-superior e um «estranjeiro», "amputado de ressonância interna, curto-circuitado entre o desejar e acto imediato de cumprir o desejo na pele, na boca, nas mãos, no sexo, quase sempre hirto." (p. 19) O estranjeiro, cuja única habilidade parece ser um desporto radical - a pentacolada - cola-se económica e sentimentalmente à sua nova conquista e permite-se chamar "estupidezes" às tarefas domésticas (e não só) que tornam possível o viver comum.
Não é um livro ameno, mesmo se a dor da protagonista quase se não deixa surpreender.
Em Mil e uma noites frágeis, pelo contrário, é ela o tema dominante, primeiro como tristeza, luto por um amor trágico, só depois como aceitação de si própria, abertura para a possibilidade de um renovado êxtase.
Na narrativa, misturam-se, aparentemente ao acaso, o percurso interior da narradora, Teresa de seu nome, com os episódios de uma excursão à Tunísia em que ela se inscreveu como quem compra um parentesis no tempo.
Viaja tão anónima quanto possível, escondendo a sua identidade de médica psiquiatra e fazendo-se passar por uma menos comprometedora assistente de consultório: evita estabelecer laços com os companheiros de viagem, absorve-se na leitura de si mesma, do diário que escreveu em tempos de crise emocional.
As rotinas destas excursões, as pausas para o espanto ou para a gula, os momentos livres que se abrem ao convívio e aos namoricos mais ou menos inconsequentes, os longos percursos entre cidades e monumentos, horas em autocarros com ar condicionado, tudo isso permite um recolher-se a si mesmo, uma fuga ao seu eu habitual, à sua história, num sentido muito amplo, ao seu currículo. 
Também a alienígena narradora de  O insecto imperfeito recorria a um inner-space, "uma vastidão de silêncio onde nos podemos recolher sempre que o espaço exterior seja sentido como desagradável ou opressivo." (O Insecto..., p. 6)
De modo semelhante, Teresa descreve-se como recolhida nesse inner-space, mas numa longa espera: 
"Eu, é um pouco como se estivesse há muito, muito tempo, com a mala tão cheia e pesada, uma mala cheia de perplexidade, procurando a estação, a estação do ano, da camioneta, do metro, do combóio, do navio, onde há-de estar escrito o lugar do meu destino." (Mil e uma noites frágeis, p. 81)
Esta espera, este longo arrastar de perplexidades é, primeiramente, a zona de refúgio, de recusa, como era o inner-space para a alienígena de O Insecto:
"Vi-lhe o brilho de triunfo no olhar quando [...] o deixei avançar para os botões da minha blusa.
Fechei os olhos e comecei a recuar para o meu silencioso inner-space. Lá fora, Uriel, triunfante, exercia uma imaginária, mas milenar, exibição de poder masculino." (O Insecto..., p. 36)
Mas esse refúgio, que pode ser apenas o banco da retaguarda de um autocarro onde se vai fumar um transgressor cigarro,  é também a zona da espera e do acolhimento.
"Enamoro-me" escrevera Teresao, a narradora  de As mil e uma noites, no seu diário, "quando no outro pressinto (ou imagino?) a igualdade no uso de sinais e de símbolos que permitem o acesso ao meu mundo interno."
E conclui:
"Entrego-me num desejo de absoluto e de fusão. A fragilidade da entrega reside na lucidez de a saber impossível." (Mil e uma noites..., pp. 82, 83)
Mas, como a novela irá mostrar, ao menos por momentos, a fusão acontece.
5. 
Em vez de lermos os livro de fio a pavio, como nos aconteceu com Guerra e Paz ou com  A Montanha mágica, agora pegamos e largamos meia dúzia deles ao mesmo tempo: sacrifica-se a Anna Arendt ao Irmão Cadfael, e este abandona-se a favor do Afonso Cruz - de quem, um destes dias, em Deus querendo, se há-de falar neste blog.
São os sinais do tempo, da velhice que já vai espreitando ou, se calhar, apenas da fartura: quando o dinheirinho, o vil metal era ainda mais escasso nos nossos jovens bolsos, comprava-se com sacrifício um volumezito da Coleção Miniatura ou da Argonauta, e quinze tostões de uma bica e três e quinhentos de um maço de Porto davam para uma tarde inteira, as aulas que se lixassem.
O livro acabava-se enquanto o diabo esfrega um olho e, no resto do mês, se um amigo não tivesse a generosidade de nos emprestar a Ana Karenina ou A Mãe do Gorki, só restava reler o que lá por casa houvesse.
A ilha do tesouro, por exemplo, pela quarta ou pela vigésima vez.
Agora vai-se ao supermercado e, à mistura com a alface e os camarões congelados, compra-se um Joseph Ratzinger ou um Miguel Sousa Tavares, assim reduzidos à dimensão das hortaliças.
Não foi o caso do Mário de Carvalho, mas quase.
Não demos por este O homem do turbante verde (Caminho, 2011) senão quando, ainda a digerir A arte de morrer longe (Caminho, 2010), deparámos com ele num centro comercial.
Lemos os dois primeiros contos, «O homem do turbante verde» e «Na terra dos Makalueles» e, francamente, o entusiasmo não foi grande. Admitimos perfeitamente que o Mário de Carvalho se divertiu a escrevê-los. Os mais sagrados deveres de um escritor, cremos, são para consigo mesmo e divertir-se, em calhando não é o menor.
Mas só com «A rua dos Remolares» ou «A secção de campo», para começar, nos sentimos a aderir - mesmo se com um travozinho a castigar-nos o riso.
E, entre o divertimento de «O celacanto» e o tal travo amargo de «A longa marcha», a decisão impôs-se: O homem do turbante verde é um livro para andar por aí, por cima das mesas, para pegar e ler umas páginas sempre que os discursos ministeriais ou o último Dan Brown nos agoniarem um pouco para além do costume.
6.
E pronto: ata est.
Nunca um post foi tão comprido neste blog. Safa!

quinta-feira, julho 28, 2011

Medidas de austeridade

Para agilizar a economia e emagrecer o Estado, o Governo decidiu privatizar as mulheres públicas.
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- Concordo plenamente!
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segunda-feira, julho 25, 2011

Melro-preto comum, ao que dizem.

Turdus merula, v. L. 

O Guerra Junqueiro, não sem alguma soberba, afirmava que o tinha conhecido:
"O Melro, eu conheci-o: era negro, vibrante, luzidio..."
Mais ou menos como se eu chegasse aqui e escrevesse: «uma dia destes, em conversa com o Dalai-Lama...»
Ou mesmo pior: se numa roda de admiradores embasbacados eu atirasse: «Pois ainda o mês passado, a Amy, sim a Winehouse, me dizia: porreiro, pá... e pensar que a pobre rapariga já lá está, a dar contas ao Altíssimo... ah, vocês não sabiam que ela era muito religiosa?»
E pronto: lá ia eu por aí fora, inventando troca de mails, garrafas de Côtes du Rhône partilhadas noites fóra à mistura com risos e confidências.
Também o Guerra Junqueiro não se faz rogado, também ele era íntimo do Melro.
"Assim que o padre-cura abria a porta que dá para o passal" escreve ele, "repicando umas finas ironias, o melro, dentre a horta, dizia-lhe: «Bons dias!» E o velho padre-cura não gostava daquelas cortezias."
Tivesse ele ficado por aqui e, digo-o francamente, seria um soberbo poema, digno de um Alexandre O'Neill ou mesmo de um Mário-Henrique Leiria - e de mim, que não desdenharia de o assinar.
Mas não. Acrescenta-lhe mais uma centena, centena e meia de versos a puxar para o místico-sentimental e estraga tudo.
É como se eu, depois de insinuar uns mails trocados com a dita Winehouse e de acrescentar «mas pronto, coitada, não falemos mais dessas coisas íntimas, há que ter respeito pelos mortos», me pusesse para ali a acrescentar pormenores e historietas e mais pormenores e mais historietas até ninguém me poder ouvir, quanto mais acreditar.
Que eu, a bem dizer, também não acredito que o Guerra Junqueiro tivesse conhecido algum melro na vida. Viu-os a saltitar, ali na casa da Silva Carvalho, a Santa Isabel, que além das paredes e tectos pintados por um mestre francês tinha um frondoso jardim. Viu que era preto, achou que era "luzidio, madrugador, jovial" e pronto.
Sabia o mesmo que eu, que tenho aqui ao lado, numas silvas, uma família deles e os vejo aos pulinhos na erva lá para o fim da tarde.
Mas, ao contrário do poeta que só tinha umas sebentas lá de Coimbra e uns romances comprados em Paris, eu tenho a internet e, portanto, a wikipedia: e lá vou eu ver que o Melro, além de uma vasta parentela, também usa, para efeitos burocráticos, o nome de Turdos Merula.
Nada mau, tomara eu, o nome até tem ressonâncias aristocráticas, imaginem, por exemplo, Dom Rui de Turdos, marquês de Mérola. Os amigos sabedores destas coisa tratavam-me familiarmente por «o Mérola» como poderiam dizer «o Niza» ou «o Ficalho». 
Mas não: lá vêm as letrinhas pequeninas vL, para que não haja enganos. Tal como em Oxford, diz-se, se acrescentava a alguns nomes as abreviaturas s. nob. (sem nobreza, claro) para que nenhum aristocrata duvidasse de que se lhes podia pedir dinheiro emprestado e que não era preciso pagar, as ditas letrinhas querem dizer que o Merlo é um simples comum, que Lineu o considerava «vulgar».
E pronto, cá estou eu mais uma vez a embirrar! Há bocadinho era com o Guerra Junqueiro, agora é com o Lineu, vejam lá, pobres homens já tão falecidos.
Mas, que querem? Se um melro fosse assim tão vulgaris como ele diz, toda a gente os tinha (aos tais melros merula, claro), não era só a Ana Bacalhau dos Deolinda lá no quarto dela.
E sobre melros é tudo quanto eu quero dizer, excepto mais uma coisinha: mesmo snobe, mesmo sem Dom, acreditem, não me importava nada de ser um.

sábado, julho 16, 2011

Rui Tavares

Não é segredo nenhum que tenho sido eleitor do Bloco de Esquerda desde que ele apareceu.
Anos atrás já tinha contribuído para eleger um deputado, o primeiro que entrou em São Bento com o meu voto no bolso: chamava-se Acácio Barreiros e representava a União Democrática Popular.
A UDP, para os que não viveram estes eventos da pequena história (e, portanto, não conhecem as pequeninas histórias do que, na altura, eram os eventos) agregava um certo número de organizações políticas que se tinham tornado grupusculares.
Eram comunistas, claro, mas reivindicavam diferenças insanáveis com o PC de Álvaro Cunhal: acrescentavam às siglas dos seus partidos as letras M-L, regra geral entre parêntesis. Tipo, imaginem os mais jovens que não tiveram a dita de viver estas glórias, PPD-PSD (ML) ou mesmo o CDS-PP (M-L).
M-L queria dizer, naquelas cartilhas, «marxista-leninista», mesmo se nunca nos explicavam lá muito bem o que isto queria dizer. Ao que creio, rejeitavam as transformações por que passava a sociedade soviética na era que se seguiu à morte do Estaline. As suas bandeiras ostentavam orgulhosamente as efígies de Marx, Lenine, Estaline e Mao-Tsé-Tung e tomavam como modelo, já não a revolução russa, mas a chinesa.
Depois, as coisas vieram mudando, paulatinamente umas vezes, com estrondo outras.
Não sei se os tempos evoluiram, se involuiram, se a humanidade deu um passo em frente, se dois atrás.
O grande timoneiro da barca chinesa que já envelhecia muito retirado, morreu.
Em seu nome tinham-se feito coisas muito questináveis, e depois, contra ele fizeram-se outras.
Sem estes últimos grandes ideólogos, as nossas esquerdas vacilaram: caía o muro de Berlim, os Estados Unidos nomeavam um tal Boris Yeltsin para o Kremlin e Fukuyama achou que agora sim, o fim da História (coisa que se discutia desde o Hegel e do Marx) estava à vista.
Não houve cão nem gato que não declarasse mortas as ideologias.
Não sei se já por efeitos dessas orfandades, a UDP em que eu tinha votado fez um acordo com o PSR e com o Política XXI e formaram o Bloco de Esquerda.
Senti-me mais contente: esqueciam-se diferenças um tanto mesquinhas, eu sou marxista-leninista e grito vivas ao Estaline e tu levaste com uma picareta no toutiço porque és trotskista e por aí adiante...
Eu voltava a ter deputados.
Confesso: não esperava que eles representassem os meus ideais, porque tenho poucos e muitos simples e eles não têm de ser nenhuns Sãos Franciscos. Mas defendiam algumas coisas com que eu concordava, outras que não tanto, mas enfim, no mínimo mereciam que eu lhes confiasse o meu voto de protesto. E logo em 1999, com o século prestes a acabar, eu e, creio, muitos outros como eu, lá elegemos, pela primeira vez, o Luís Fazenda e o Francisco Louçã.
O resto do percurso é conhecido.
Chegámos a juntarmo-nos muitos e a ter dezasseis deputados. Agora alguns de nós optaram de modo diferente, só elegemos oito.
Não estou desiludido com o Bloco.
Esperava dele coisas acertadas, claro, mas também uma asneira por outra, a franca burrice de vez em quando. Foi o que aconteceu, obviamente.
Se algum de vocês pertence a um partido que sempre fez as coisas certinhas, que nunca errou e que, em calhando, nem dúvidas tem, então que lhe atire a primeira pedra.
Eu que não pertenço (nem pertenci, diga-se) a partido nenhum recuso-me a atirar nem que seja a última.
Não esperava, que estas minhas opções me conferissem quaisquer direitos.
Mas ando francamente intrigado.
Regressámos ao tempo do Estalinismo e das purgas internas?
Eu tinha um deputado de estimação no Parlamento Europeu. Não me importava que ele fosse independente porque, para mim e de mim, todos o são.
Leio com atenção o que escreve no Público e no seu blog. Considero sugestivas as suas propostas e gostava de as poder discutir uma vez por outra. Era activo, dava-nos parte do que ia fazendo, das pequeninas alianças em que entrava e por aí fora.
- Cá está, dizia eu para mim mesmo. - Um deputado assim é que eu gosto.
Li, já lá vai um mês pelo menos, que se desligara do Bloco em que eu costumava votar. E esperava que ao menos um dos seu dirigentes viesse a lume explicar-me, a mim, eleitor, que diabo se tinha passado:
Foi apanhado a conspirar para a compra de mais submarinos, a receber chorudos envelopes por baixo da mesa e, envergonhado, pediu a demissão?
Alguma jovem, tipo coelhinha do Playboy, inspirada pelos casos Dassange e Strauss-Kahn, apresentou queixas contra ele no Tribunal Internacional dos Direitos do Homem (das meninas, neste caso)?
Ou, caso muito mais grave ainda, esqueceu-se de alguma das obrigatórias vénias aos sacrossantos dirigentes e fundadores do Bloco?

segunda-feira, junho 20, 2011

Eram 137 irmãzinhas, todas vestidas de bronse...


- Está tudo parvo? A minha filha copiou o quê?




Palavra: se eu fosse o Pai de alguma das jovens estudantes no curso lá do Centro de Estudos Judiciários, já estava de advogado em punho a apresentar queixa por difamação, atentado ao bom nome, o que fosse.

Confesso: não é a possibilidade de uns quantos abusadores poderem virem a ser juízes o que mais me choca.

De há muito que estamos habituados a essa tolerância secretamente orgulhosa perante o «gajo que se desenrascou».

O que me choca é o desrespeito com que alguém estaria a tratar a minha filha.

Contra quem teria de apresentar queixa, logo se via, mas, por exemplo, contra o Expresso, que escrevia on line a seguinte coisa: "A Direcção do Centro de Estudos Judiciários atribuiu nota 10 aos 137 Auditores de Justiça que foram apanhados a copiar..."

"Aos 137 que foram apanhados", reparem.

Dir-se-ia, «tá bem, pá, é só uma notícia, que é que tem?»

Pois tem.

Se a minha filha estivesse entre eses 137 alegados auditores a fazer o exame, o meu advogado estaria a exigir ao Centro de Estudos a prova de que tinham sido exactamenete todos os 137 que realizaram o seu teste, nem menos um, a serem apanhados a copiar.

De facto, estarão os pedagogos do centro em condições de afirmar que não houve ao menos um que tivesse realizado honestamente o seu teste?

Não parece muito: fala-se em "copianço generalizado" - com uma impropriedade de termos realmente chocante vinda de quem vem - e afirma-se que a decisão foi tomada perante a "existência de respostas coincidentes em vários grupos". Noutro lado qualquer podia ler-se a espantosa declaração atribuída, erradamente, espero eu, a um tal Bravo Serra que, no mínimo mereceria o tratamento por Sr.: "desconhece-se ainda", terá ele declarado, "de que forma é que os alunos copiaram, se dentro ou fora da sala de aula..."

Dir-se-ia que o corpo docente daquela escola não sabe realmente grande coisa. Mas, pertencendo ao Ministério da Justiça, desgosta-me pensar que, sem provas, sem indícios fortes de que a minha filha tivesse de facto cometido essa indignidade, partissem logo para a afirmação peremptória de que "os alunos" copiaram. Em lógica nós aprendemos que «os alunos» é = «todos os alunos»; quando se quer dizer talvez não sejam todos - o que era uma dúvida, no mínimo, saudável - pode usar-se a expressão «pelo menos um», «uns» ou «alguns».

Ora eu não leio nada disso nos jornais.

Leio "os 137".

A minha filha, se lá estivesse, estaria irremediavelmente acusada de desonestidade, de ter cometido uma fraude num exame.

Alguém havia de a indemnizar: o CEJ, o Expresso, toda imprensa que cegamente escreveu «os 137».

Um euro simbólico para ela e para a família.

E um milhão que lhes ficasse de emenda a favor do Banco Alimentar Contra a Fome, por exemplo.

-


Nota:

Para que conste: não tenho filha nenhuma a estudar no CEJ. Não tenho mesmo, está bem?

terça-feira, junho 14, 2011

A inveja dos Deuses


Eu sei que não é bonito contar estas coisas, mas eu e o meu computador, vivendo em união de facto, tínhamos a relação quase perfeita.

Trabalhávamos juntos horas a fio, divertíamo-nos com coisas tolas inventando variações aos jogos do Windows, bisbilhotando a wikipedia, pulando de blog em blog.

Fazíamos um belo par de jarras, o meu portátil e eu.

Porque é que não se casavam, pergunta-me toda a gente.

Não sei, se calhar foi por causa da lei portuguesa que ainda discrimina este tipo de casos.

Ou então, quem sabe, apenas porque não havia sexo entre nós: questões de pudor, ele era um jovem notebook, cheio de vigor e de capacidade; e eu insisto em admitir, até para mim mesmo, no segredo dos meus pensamentos mais recônditos, que já vou tendo a minha idade. Nada nos proibia de irmos juntos àqueles sites, vocês sabem a que é que eu me refiro, e, enfim... mas não. Não tínhamos segredos um para o outro, mas, confesso, não conseguia rever-me na imagem com que ele iria ficar, por muito verdadeira que se tivesse tornado. O homem tem destas contradições, não é?

Os gregos, porém, tinham razão quando nos preveniam contra a inveja dos Deuses.

A minha relação com o pequeno portátil era demasiado perfeita e o que tinha de acontecer, pois aconteceu.

Estávamos a trabalhar juntos, já nem sei em quê, não queríamos fazer uma pausa sequer para o almoço e zás: a imprudência ocorreu. Um sandes para aqui, uma cerveja para ali, começámos a ficar um nadinha entornados - sobretudo a garrafa que essa se lhe entorntornou completamente por cima do teclado.

Não vos conto da aflição, do pânico; o meu companheiro com um último estremecimento escreveu umas coisas sem sentido e entrou em coma alcoólico e eu corri como um desesperado para a clinica dos PCs mais próxima. Leveram um mês a constatar o óbito.

Como qualquer companheiro sobrevivo nestas coisas, passei as longas noites do luto a recuperar, a pouco e pouco, os seus desenhos, os seus programas, os escritos que só ele guardava.

Agora para aqui estou, com um novo companheiro, mas há-de passar muito tempo até que seja a mesma coisa.

Acreditem.