sábado, agosto 10, 2013

Os dias de Catarina

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- Porque é que as cotas ficam assim bonitas quando cantam todas juntas?

segunda-feira, julho 22, 2013

Leão Tolstoi

"Não foram, no entanto, os dogmas o que levantaram entre ele e a Igreja um muro intransponível, mas sim as questões práticas, - sobretudo duas: a intolerância raivosa e mútua das Igrejas, e a sanção, formal ou tácita, dada ao homicídio, - a guerra e a pena de morte."
Romain Rolland, Vie de Tolstoï, 1921.

quarta-feira, julho 17, 2013

Os dias de Catarina (dois)

- Ensinaram-me a ler em três anos. Mas, se tiver de entender isto tudo, quando é que eu vou brincar?

terça-feira, junho 18, 2013

Anjo da Guarda

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A intenção, como de costume, é particular.

sexta-feira, junho 14, 2013

Os Dias de Catarina

- Dizem que os Homens são capazes do melhor e do pior.
Porque é que a Mãe e o Pai escolhem sempre, tipo, o pior?

sexta-feira, maio 31, 2013

Quando os Domingos calham à Terça-feira.


Alguém no seu perfeito juízo gosta do mês de Março?
Excluindo o facto de que é nele que a Primavera começa, mas quase no fim, o que resta é que é o mês em que se tem de fazer a declaração do IRS. Eles, lá nas Finanças sabem tudo, cruzam os dados todos, mas a gente tem de lá ir à mesma declarar quanto ganhou, quanto nos retiveram por conta, o que gastámos na farmácia e nos juros da casa, quanto demos de pensão ao nosso filho - coisa que eles já sabem porque foi determinada no tribunal.
E nem penses em declarar aquilo que combinaste com a tua mulher, civilizadamente, sem ser preciso que a lei, por intermédio de um façanhudo tribunal te condene.
Não: assim não conta.
E já viram aqueles impressos?
Se preencheu a casa 716 preencha a 139.
Casa 830: Declaração de rendimentos obtidos no estrangeiro nos termos do artigo 26 do Decreto-Lei 206/1997, na redação do Decreto-Lei 928 de 1999.
Parecem feitos de propósito para algum amador de charadas ou, quem sabe, para aqueles serviços de criptografia que os exércitos acham indispensáveis.
Mas não para nós que padecemos sob o Março mais antipático de que há memória.   
Eu já não gostava muito do provérbio, o tal de «Março marçagão, de manhã cara de gente, à tarde focinho de cão».
É claro, «cara de gente» acho bem aplicado; se acharmos que o Gaspar e o Passos têm cara de gente, então sim, justifica-se a chuva continuada, o granizo e a ventania que tem soprado por aí. É como se a Natureza entristecida tivesse vestido o luto por nós, pobres diabos que nos arrastamos pelas esquinas sem dinheiro para ir beber uns copos e com lama até aos cotovelos.
À tarde, porém, onde foi parar o «focinho de cão»? O meu cão, pelo menos, tem um focinho bem simpático. As tardes deste malfadado mês, essas não: mais parecem, sei eu lá, a claque de um clube de futebol quando ele perde com o Belenenses.
Mas não é só mau tempo.
A política neste mês de Março também parece que descambou, não em tempestades, quem nos dera, mas em bátegas sucessivas, «ai vais às compras? Toma lá uma carga de água para aprenderes!» «Vais para Guimarães? Pois vai chover todo o caminho.» «Ias de férias? Eu se fosse a ti não ia.»
Na política tem sido mais ou menos a mesma coisa.
Voltou o Pinto de Sousa, vulgo o Sócrates que se licenciou ao Domingo, o Relvas disse outra das dele, Chipre abriu falência e o PS, depois de votar contra a recomendação do PCP, apresenta uma moção de censura ao Governo. O Banco de Portugal, para não lhes ficar atrás, fixa o défice do ano passado em 6,4 por cento.
Irra! Já chegava.
Mas não, nem pensem.
Repararam que o mês de Março acaba num Domingo,dia 31?
E que 30 é Sábado?
Ora, sendo 29 Sexta-feira Santa, feriado portanto, o prazo para apresentar a declaração do IRS acabou na Quinta-feira, 28, no quarto dia antes do fim do mês.
Quando reparei, apressei-me a preencher os quadrados todos, a casa 716 e a 821 e fui a correr, estrada acima, até ao balcão ali da vila.
E uff! Cheguei a tempo, mesmo com as contas feitas à pressa, com a vaga esperança de que sendo Domingo o último dia do prazo, este passasse para a Segunda-feira seguinte como eu sabia que a lei determina.
- Não! - declarou perentório o funcionário. - Isso é só quando o prazo é «até ao dia qualquer coisa». Se for «durante o mês de Março», acabou-se o mês, acabou-se o prazo.
- Então, mas os Marços têm todos trinta e um dias. Se o prazo é no mês de Março, é até ao dia trinta e um.
- Não senhor. É até ao último dia útil do mês. Mas se não quiser, pode apresentar pela Internet.
Eu deveria ter-lhe replicado rancorosamente que não, que a Internet era eu que a pagava e que ele, funcionário, era pago pelo Estado. E que se eu e outros como eu não fôssemos lá ao balcão uma vez por outra, ele ia parar à Mobilidade Especial, com 35% do ordenado a depois, zás: Requalificação em desempregado para aprender.
Mas não.
Em vez disso, fiquei ali parado, a odiar a boa educação que a Senhora minha Mãe me deu e a perguntar a mim mesmo:
- Mas, por onde raio andam os bombistas suicidas?
Infelizmente, concluí, essa gente é toda a mesma: nem bombistas, nem canalizadores, nem táxis em dia de chuva. Nunca aparecem quando fazem mais falta, não é?
 
 

sábado, maio 25, 2013

Avaros de todo o mundo

Falando com franqueza, não vale a pena sofismar: a Direita governa esta coisa a que chamamos Democracia desde o 25 de Novembro de 1975 - pelo menos.
O Mário Soares, aliado ao Carlucci, embaixador do Presidente Reagan, fez uma opção clara: as indemnizações às vítimas das nacionalizações, desocupações de herdades e empresas que tinham sido abandonadas pelos proprietários, a autorização para a reconstituição de grupos como os Melo, tudo isso, se expulsou definitivamente o Partido Comunista da área do poder, teve como contrapartida amarrar o Partido Socialista à direita mais oportunista.
Maçonarias, Opus Dei ou sabe-se lá o quê, Rotários, Associações de Ciclistas e a Mão Negra (para não falar da Cabala) foram fazendo o resto. A Direita é o «arco governativo», Regeneradores e Progressistas deste rotativismo parlamentar e governativo em que os grandes gestores e os grandes administradores vão sendo sempre os mesmos.
Obviamente, na direita nem tudo são rosas.
As diversas fações que se vão alternando no poder digladiam-se pelas razões lá dela própria, mas os golpes e contra golpes, as espadeiradas pela frente ou as punhaladas pelas costas, nunca vão demasiado fundo.
O arguido é condenado a um ano, com pena suspensa, aguarda com a pulseira eletrónica ou recorreu à espera da prescrição. No final acaba por se safar porque Direita não se esfrangalha a si própria: mesmo sem serem leais, as refregas têm árbitros.
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Para começar e porque vai a votos, tem como árbitro primeiro a opinião pública. As sondagens mudam os discursos e obrigam a disfarçar as obras. Encomendam-se entrevistas às televisões, a serem conduzidas pelos apresentadores mais mediáticos, mandam-se comunicados, em último caso muda-se um ou outro ministro.
A necessidade de se perpetuar no poder ou, pelo menos, adiar a queda e dar tempo aos apaniguados para ficarem menos mal na vida, obriga a contorções dignas do Plastic Man, o Borracha das histórias aos quadradinhos da nossa infância.
(Se não são desse tempo, não sabem o que perderam, digo eu.)
 
File:Plastic Man 17.jpg
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Mas, adiante.
Os árbitros segundos são as empresas.
Os seus administradores, que são ao mesmo tempo os Barões dos diversos partidos, porventura ex-governantes e conselheiros dos actuais ministros, estão sempre uns com os outros. Aproveitam alguns momentos de conversa à margem das reuniões dos concelhos a que pertencem, encontram-se em jantares em casa uns dos outros ou de uma Tia velha,  nos Spas ou em lugares de menos confessável natureza - mas que davam um romance ao Stieg Larson se ele não tivesse já falecido. E nesses encontros, as coisas vão sendo combinadas, distribuídas, os lugares tenentes e os testa-de-ferro recompensados.
A Direita partilha. A Esquerda não.
A Direita recebe o pão e dá as côdeas ao capataz que lho trouxe.
Mas partilha.
E mantem presa à esperança toda uma coorte de invejosos úteis a quem as côdeas entretêm enquanto esperam pelo jantar.
Umas vezes a comida vem.
Outras não.
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O poder e o dinheiro andam, na Direita, demasiado unidos, entrelaçados, no bolso um do outro, como se o conteúdo contivesse o continente que contem o conteúdo que contem...
E é assim que o dinheiro, a Banca e as grandes sociedades financeiras acabam por ser o último dos árbitros. Se uma coisa não dá dinheiro, se não dá o poder que dá o dinheiro, a espiral está em perigo, alto lá! Os meninos portam-se bem, se não, cartão vermelho e rua! Saem de jogo. 
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Na Esquerda não.
Primeiro porque não há dinheiro. Ou vai havendo, mas nunca tanto que possa ser partilhado. As estruturas partidárias ou sindicais, as acções de propaganda, os eventos consomem-no todo e ainda falta. Os militantes, em vez de receberem, contribuem.
O que a Esquerda tem é um pouco de poder, o poder que lhe conferem aqueles que não querem ou não podem aceder ao dinheiro: alguma influência eleitoral, meia dúzia de lugares aqui ou ali, cada vez menos, na Administração Pública, no Parlamento, em Escolas ou na Universidade, em Sindicatos.
E torna-se avara.
Cada capelinha, cada grupo de amigos ou tão só de cúmplices, intriga, elege e faz-se eleger, representa e abarbata o que pode desse poder que é, no mais das vezes, apenas o de negar, de parar, de encravar e não deixar andar para a frente. Como o do funcionário no guichet que nada mais pode senão servir de escolho aos mareantes.
Aos descontentes nada mais resta.
Separam-se, sectarizam-se e formam grupúsculos. Levam consigo os pedaços do poder que conseguiram amealhar e por lá ficam, seja onde for que foram ter. E divisionistas são sempre os outros.
Voltar a unir-se significaria partilhar o bocadinho de poder que se tem, juntá-lo ao bocadinho de outros, perder agora para participar num poder maior, mais amplo, mais eficiente, e quem sabe, ganhar no fim.
Avaros de todo o mundo, uni-vos!

quinta-feira, abril 11, 2013

O Gato e o Rato

INQUIETAÇÃO
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"Credibilidade, credibilidade,
é só credibilidade, credibilidade...
(há sempre qualquer coisa que está para acontecer,
qualquer coisa que eu devia perceber)
Credibilidade, credibilidade...
Porquê, não sei,
Porquê, não sei.
Porquê, não sei ainda...

segunda-feira, março 18, 2013

quarta-feira, março 06, 2013

Beppe Grillo e a água do banho

Há muito tempo, confesso para minha grande vergonha, que não seguia o blog do Beppe Grillo. 
O meu italiano não é grande coisa, por isso costumava preferir a edição em inglês onde lia frequentemente comentários algo contundentes às políticas europeias. Talvez porque nos idos de 2006, 2007, a Crise, esta malfadada Crise, era ainda uma ameaça longínqua, e porque tínhamos aqui mais ao pé coisas com que nos preocupar, uma direita cada vez mais agressiva e um partido que se dizia socialista e cada vez mais colado às mesmas políticas, esqueci-me do Beppe Grillo. 
A sério: esqueci-me.
Erros meus, má fortuna, e, suponho, infortúnio de muita gente.
Quando voltámos a ouvir falar dele, foi em grande. 
A Itália resolvera correr com o seu eurocrata de serviço - nós ainda não conseguimos livrar-nos dos nossos - e o Movimento Cinco Estrelas (raio de nome!), acusado de populismo por todos os lados, recusava-se a emprestar os seus 25% de votos às soluções tipo «mais do mesmo».
Beppe Grillo, que já era o «comediante» para toda a gente, sobretudo para quem nunca o tinha lido, foi promovido: passou a ser o «palhaço».  
E entretanto toda a gente se esquecia de que o movimento M5S, tem muito mais gente e que não é assim tão certo que sejam todos tão apalhaçados como se gosta de pensar que é o seu chefe: reuniram-se, elegeram por braço no ar os seus lideres no parlamento e no senado e declararam-nos cargos rotativos.
Será populismo, não tenho a certeza. 
O populismo é, diz o meu dicionário, um «movimento protagonizado por um chefe carismático e paternalista que apela à simpatia das bases populares». 
Quanto a «carisma», estamos conversados: estou farto dos moscas-mortas tipo Cavaco Silva, Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Prefiro as pessoas com o tal carisma - seja isso o que for - aos velhacos, aos sonsos, aos que dissimulam a sua mesquinhez e as suas ambiçõezinhas medíocres.
E quanto ao «paternalismo», francamente, qual é o político que se pode gabar de nunca a ele ter recorrido? O Gaspar, quando se põe a dizer que somos «o melhor povo do mundo»? O Soares? O Barroso? Os banqueiros, como o o João Salgueiro quando nos manda limpar as matas se perdermos o emprego?
Mas populista ou não, o M5S tem lá imensa gente muito, muito jovem. 
E a «revolução», escrevi eu próprio em 75, a um ano do 25 de Abril, «é quando os jovens enxotam os velhos e realizam, com a doce inconsciência de que são capazes, as coisas impossíveis». 
Quem sabe?
A esperança é como o bebé: não deve ser deitado fora com a água suja das políticas profissionais, pois não?

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O Número de contribuinte, o Topless e os Buracos negros


Calhou. Ou veio a propósito, tanto faz.
Eu sei que não é bonito falarmos assim de nós mesmos, mas as constipações, sobretudo aquelas que nos aprisionam num aquário de infelicidade e de mal estar, são propícias a estas recapitulações. E por estes dias lacrimejantes e de nariz entupido, a estante do corredor sempre nos vai fornecendo um ou outro livro, alternativa aos jornais da véspera onde o Pacheco Pereira nos adverte de que "num computador do fisco está toda a nossa vida já inventariada e cruzada através do número do contribuinte e dos poderes discricionários da Autoridade Tributária". E acrescenta que esse "verdadeiro número único dos portugueses [...] permite todos os cruzamentos de dados e uma violação sem limites da privacidade de cada cidadão" (Público de .16 de Fev.)
E de facto, qualquer Pide (ou pior do que isso, qualquer chefe de segurança de um Banco), subornando um funcionário ou, as leis dão para tudo, tendo acesso legal, pode saber que livros compro ali na Bertrand, o que costumo comer ao pequeno almoço e que prendas ofereço à minha amante.
É, como nota Pacheco Pereira, a realização do pesadelo Orwelliano retratado em 1984. E é curioso pensar que a personagem do Big Brother e a sociedade a que ele pertencia se inspiravam sobretudo no modelo soviético. Mas o pesadelo tornou-se realidade, pelo contrário, no mundo que nos diziam livre, sob o mais absoluto regime liberal de que há memória.
Irónico, não é?
Sentimo-nos como se nos tivessem roubado as próprias palavras: liberal, para não irmos mais longe, quis sempre dizer «generoso», «tolerante», «de espírito aberto»; era uma palavra que trazia implícita a ideia de liberdade, de oposição à tirania e ao poder absoluto dos Senhores Dons Miguéis e dos seus Salazares de serviço.
Agora, pelos vistos, traz consigo apenas a ideia de abandono: desenrasca-te, pá. Emigra! Rebenta para aí. Se fores demasiado pobre, anda cá que te damos uma sopa e agradece que já vais com sorte.
Nós que nos julgávamos homens livres e orgulhosos lá iremos, humildes, de boné na mão e os olhos baixos, à «sopa do Sidónio». 
Luis Spúlveda, no livro que a constipação me fez tirar da estante, narra que os que voltavam ao Chile post Pinochet, vindos do exílio, "andavam desorientados, a cidade não era a mesma, procuravam os seus bares e encontravam lojas de chineses, na farmácia da sua infância havia um bar de topless, a velha escola era agora um concessionário de automóveis, o cinema do bairro uma igreja dos irmãos pentecostais." (A sombra do que fomos, 2009, Porto Editora, p. 87)
A nós, mesmo sem sairmos de cá, mudaram-nos o país sem nos perguntarem nada. Em Lisboa, o Monumental, ali ao Saldanha foi abaixo, o Europa em Campo de Ourique também, o velho Império das sessões clássicas está nas mãos de uns outros irmãos que dão pelo nome de IURD.
Mas não foram só os cinemas: os cafés, os velhos e grandes cafés onde nos reuníamos, onde estudávamos, trocávamos livros e discutíamos sem fim, também deram de frosques: o Montecarlo, por exemplo, ou o Vává. Ou então, tranformaram-se em restaurantecos mixorucas, uma sopa, bica e nata ao balcão e fecham todos lá pelas dez horas quando tens sorte. Em compensação, vá lá que nem tudo é mau, barzinhos iam abrindo por tudo o que é lado.
E, de um dia para outro, zás! A cidade cobriu-se de parquímetros (que nós pagamos, mas que dão prejuízo) sem que o estacionamento tenha melhorado grande coisa e os táxis, esses mudaram de cor por causa de uma tal CEE de que éramos bons alunos.
Mas houve mais.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que, lá no emprego, nos começaram a exigir que andássemos com um cartão plastificado pendurado ao pescoço a dizer que nós éramos quem toda a gente sabia que nós éramos, excepto uns rapazes supostamente «seguranças», contratados a peso de oiro para substituir os velhos contínuos que faziam de porteiros e conheciam toda a gente.
Tal como no Chile de Pinochet e de Kissinger, a nossa vida "encheu-se de buracos negros que surgem em qualquer parte; alguém diz luz e é engolido pelas sombras..." Ibid, p. 62 (com a adaptação dos tempos verbais).
Claro, tudo isto quer dizer que envelhecemos, que o tempo - um dos mais implacáveis de todos os buracos negros - foi comendo os nossos amanhãs que cantavam, ó sim, se cantavam!
E até o Fidel Castro, quando aparece na Televisão, ou quando o vemos numa fotografia, tem o ar de um velho náufrago, encalhado na praia do comunismo - ligeiramente primário, é certo, mas, que alternativa tinha ele face ao poder das máfias de Chicago e do exército americano?
A guarda morre, mas não se rende, não é?
É o que dizem.
Mas que remédio tem ela senão poisar a arma de vez em quando e assoar o nariz congestionado pela constipação?
 
 

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

domingo, fevereiro 03, 2013

Ora Zico!

Já não há muito a dizer sobre o pittbull, actualmente a residir num canil em Beja, se ainda não morreu, que dá (ou dava) pelo nome de Zico.
Não foi, como só acontece ao Mário de Carvalho (onde é que eu já escrevi isto? nem me lembro...) o caso de um Bispo ter mordido o cão, mas foi quase.
Na falta de melhor, cortes de subsídios de doença, por exemplo, ou despedimentos em massa, a malta precipitou-se quando viu - num vídeo, suponho - o Zico a ser levado entre duas cordas. E, para mais, com aquele ar de parvo que os cães têm quando não percebem o que lhes está a acontecer.
Não faço a mais pequena ideia de quantos habitantes deste rectângulo esquecido por Deus têm conta aberta - e algumas delas bem chorudas - nesse BPN da banalidade que é o facebook.
Seja que número fôr, setenta mil dessas pessoas a assinar uma petição para que a vida do Zico fosse poupada, é obra. Sobretudo se pensarmos que sobre a cabeça do canídeo pesava a suspeita de ser um assassino e que a lei portuguesa, boa ou má, manda que os animais perigosos sejam abatidos, ponto final.
Se estas setenta mil assinaturas - e o chorrilho de asneiras e de insultos cruzados entre os assinantes e os que se recusaram a assinar - não são um sinal claríssimo do mal-estar da nossa cultura, não sei o que sejam.
Não tenhamos ilusões: em Portugal, na Espanha, na China, milhares e milhares de cães são mortos todos os anos. Até na filantrópica Inglaterra de onde nos vieram as primeiras preocupações com o bem-estar dos cavalos!
Porquê agora e porquê o Zico?
Que matou realmente uma criança de ano e meio, não oferece grandes dúvidas.
Argumentou-se, um pouco por todo o lado, que a criança não apresentava marcas das dentadas que não deixaria de apresentar caso tivesse sido morta pelo cão e, sim, tinha sofrido um traumatismo craneano. Mas o relatório da autópsia, a acreditar nos jornais, é bastante claro: há marcas do ataque, sim senhor, características, insofismáveis.
Se a palavra assassino tem significado, então o Zico é um cão assassino, e outro ponto final.
Mas alto!
«Merde! a guarda morre, mas não se rende!», como disse exemplarmente o general Cambronne. Os defensores do Zico têm mais argumentos.
Partindo do princípio sagrado de que o bicho é meigo, incapaz de actos violentos, só poderia ter sido trocado: um outro pittbull, esse sim, agressivo e bom para a luta seria o responsável pela morte da criança. Valia, porém, demasiado dinheiro em combates clandestinos. O Zico, bom e carinhoso, teria sido sacrificado em nome da ganância do dono que preferia perder um palerma sem préstimo a ficar sem o seu gladiador.
A dúvida metódica que tanto trouxe à cultura ocidental obriga-nos a levar a sério essa hipótese. Se uma coisa é possível, de certeza acontece, nem que seja na infinidade dos mundos - ou na infinidade do tempo, como pretendia Gell-Mann, o prémio Nobel da Física de 1969.
Terá acontecido justamente aqui e agora, neste mundo e no ano da graça de 2013? Será o Zico um outro Zico?
Talvez se possa ainda saber: se os defensores da tese do «Zico meigo» ainda forem a tempo e quiserem provar a sua (dele) inocência, que se prestem a pagar o teste de ADN, como vemos nas televisivas séries do CSI-Qualquer Coisa: há-de haver vestígios da saliva do cão em qualquer sítio, não?
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Os defensores do Zico têm-se dividido em dois grupos principais: os que afirmam a sua inocência a todo o custo - não, o cão não matou a criança - e os que, aceitando que tenha sido ele o autor das dentadas fatais, atiram as responsabilidades para os donos do animal.
E chegamos aqui à razão de ser deste post.
Nem uns nem outros têm razão.
A começar pelos que acham que um cão meigo não pode ter atitudes de uma extrema violência, são cegos ou nunca viram o caniche deles próprios atirar-se com os dentes todos de fora ao gato da vizinha. Podem, claro, como as crianças, como nós próprios: o caso é haver uma provocação que vá para lá dos limites da educação ou do medo. Um gato, por exemplo.
E os que acham que o cão, por ser um animal irracional, não pode ser responsabilizado, também não se mostram muito mais razoáveis.
Em primeiro lugar: irracional é o quê?
«Razão» nunca foi fácil de definir. Parece, no entanto pacífico que ser capaz de abstrair, de concluir acerca de coisas que não se vêem a partir dos dados percepcionados, é a capacidade fundamental da razão; e sabe-se, desde Crisipo (sec. III aC) que os cães são capazes deste tipo de raciocínios. Continuar a chamar-lhes, a eles e tantos outros, irracionais, diria eu, parece-se imenso com um preconceito, tanto mais que está solidamente estabelecido o uso da linguagem por espécies não humanas: chimpanzés, por exemplo, ou papagaios.
Porque não o cão? Tal como nós, humanos, também o cão é um animal social. E como todos os animais sociais, também ele necessita de uma linguagem que lhe permita ocupar um lugar na sociedade, interpretar sinais, dar a conhecer os seus estados interiores: com fome, amigável ou agressivo, aborrecido, interessado e curioso, desconfiado, com medo.
Que estes sinais são claramente interpretados pelos outros cães não parece oferecer grandes dúvidas:  cada um deles corresponde a um (chamemos-lhe assim:) protoconceito, a que correspondem comportamentos adequados, quer sejam inatos, quer adquiridos através dos mecanismos de inserção nas diferentes matilhas. E parece evidente que todos os cães aprendem a controlar, por exemplo, a fome enquanto esperam que os mais velhos, os mais acima na hierarquia, os donos, os deixem comer. O mesmo se passa com os outros impulsos, como é óbvio.
Também o Zico trouxe consigo, desde que nasceu, impulsos destes que a vida em sociedade lhe teria ensinado a controlar, moderando ou inibindo os seus esquemas básicos de comportamento. Quando nasceu, não era meigo ou agressivo: não dava afectuosas lambidelas nem mordia a torto e a direito; mas esses comportamentos faziam parte do seu equipamento de sobrevivência e ensaiou-os abundantemente enquanto bebé: mordiscou, lambeu, lutou e adormeceu aquietado junto dos seus irmãos de ninhada.
Teve de ser ensinado a que a sua agressividade é inútil porque na sua matilha - constituida geralmente pelos donos - não o agride; e que a «meiguice» lhe permite uma muito melhor integração. As escolas tentam fazer isso mesmo aos nossos filhos, mas raramente são bem sucedidas porque nós não os ensinámos de forma eficiente enquanto eram cachorrinhos.
E depois lá vem a desculpa:
- Pois, coitadinho do puto! Vem de uma família disfuncional ...
E são perdoados, como foram os assassinos da Gisberta, também eles institucionalizados porque as famílias de que vinham não os controlavam, não é?
E o Zico, veio de onde?
Alguma assistente social avaliou se alguém o mandava à escola, se estava bem alimentado, se fazia exercício, se, se, se?
Porque esses eram os seus direitos, e são os direitos o que lhe conferia deveres.
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Não tenhamos dúvida: um cão pode ser culpado e não apenas causador de um prejuízo. Ou pode estar inocente.
Quero dizer que ele tem capacidade para aprender normas, que interiorizou os seus deveres e que sabe quando os desrespeita.
A prova é que o faz justamente quando nós não estamos a olhar; tem medo de ser castigado, pois tem. É como eu: até hoje nunca entendi por que raio têm as câmaras municipais o direito de me alugar o espaço público (que, por ser público, já é meu) quando quero estacionar o carro. E se o fiscal da EMEL não fosse uma ameaça bem presente no meu espírito, eu bem vos digo quem é que lá metia as moedas.
Tal como o meu cão quando resolve trepar para o sofá e dormir lá uma sesta bem quentinha.
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Dizer que os animais, por serem irracionais não podem ser julgados ou que podem ser castigados sem julgamento, não se parece demasiado com afirmações do tipo «ah! os pretos não percebem nada de nada, são todos terroristas»? E que, portanto, a tropa portuguesa podia entrar por uma aldeia adentro e matar a torto e a direito? Não era semelhante a justificação da escravatura?
Não é essa a justificação das toiradas, dos ferros cravados, do animal torturado para gáudio dos espectadores?
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E para terminar, já agora, uma perguntinha só:
O leitor já leu O Mandarim, do Eça de Queiroz.
Se o leitor visse um homem a torturar um cão e tivesse uma campaínha, do género da que o Senhor Diabo deu ao amanuense Teodoro, ou vá lá: uma caçadeira - e a certeza de que não seria descoberto - a quem matava?
O homem ou o cão? 

quinta-feira, janeiro 17, 2013

O Gato e o Rato (fábula interminável)

O que raio se passa por aqui?

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O Gato e o Rato (fábula encravada)

O Blogger, simpático como é, volta e meia, pimba! Prega-me uma partida. De repente, sem avisos nem água vai, muda as regras do jogo.
Deve achar que é pecado ser assim como eu sou, conservador, apegado a costumes antiquados, apreciador de velhas fábulas e põe-me de castigo.
Não que o Blogger não tenha alguma razão. Eu mereço!
Mesmo sem ser contrário às mudanças (tenho várias no meu carro e até as uso a todas), há coisas que me irritam: por exemplo, porque diabo achou alguém que as velhas e boas Finanças, uma praga a que já estávamos acostumados, haviam de mudar de nome?
Chega um cidadão ali à vila e pergunta, «o senhor, fachavor, dizia-me onde é que é as finanças?» e o prestável transeunte aponta, «é logo ali, vocemecê corta ali à direita e é a primeira porta...»
E o cidadão, com ar triste diz que «pois, também ele pensava, as Finanças sempre tinha sido ali, mas agora estava lá uma coisa, a Autoridade Fiscal e Aduaneira... E agora, onde é que ele ia pagar o imposto de não sei quê, aquela coisa que dantes era o selo do carro, mas agora é só um papel...»
E a conversa podia não ficar por aqui.
Se o cidadão tivesse tempo e paciência bem podia ouvir dizer que um tal Vítor Gaspar até já tinha dado fazer cartões de visita novos:
Vítor Gaspar
Ministro da Autoridade
(Fiscal, Aduaneira e Correlativos)
Mas, enfim, parece ser um arraigado costume indígena que muito estranharia a um ser civilizado por aqui de visita (felizmente não veio nenhum com a Engenheira Merkl e os que cá havia já emigraram); o Marcelo Caetano, que em tempos ocupou o lugar do Sr. Passos Coelho, para dar um primeiro exemplo, mudou o nome ao Partido Único, a União Nacional e já ninguem se lembra como lhe chamou. E à Pide de má memória, chamou Direção Geral de Segurança, como se rebaptizar as coisas lhes apagassem os curriculo. Não sei mesmo porque é que o Obama não aproveita o exemplo deste velho aliado da Nato e não chama Acapulco à famigerada prisão de Guantanamo: dava para propagandear que uns quantos prisioneiros afinal estavam era de férias.
E não ficamos por aqui. Não bastava que o Terreiro do Paço em Lisboa tivesse passado a ser a Praça do Comércio e o Rossio Praça de D. Pedro IV: foi preciso que o Largo do Caldas passasse também a chamar-se Largo Adelino Amaro da Costa.
Já viram?
Era um endereço pequenino, duas palavrinhas, treze letras contando com o «do»; agora é preciso escrever vinte e quatro. Deve ser uma simplificação, mesmo se eu não vejo como. 
E lembram-se? No tempo do tal Marcelo, e antes dele, do Salazar, os jovens podiam frequentar uma escola comercial, uma industrial ou então ir para o liceu. Quando ser quis uniformizar os cursos, o que, quanto a mim era uma necessidade premente, algum génio achou que a palavra liceu evocava não sei que elitismos e resolveu chamar a esse ensino unificado e aos estabelecimentos onde era ministrado «secundário». Podia ter-lhe chamado Liceu, que era bonito, tinha um sabor clássico e escrevia-se com cinco letrinhas. Agora «escola secundária» escreve-se com dezasseis, mais um espaço e um acento.
Simplicidade, a quanto obrigas!
E, já que o Obama não aprendeu nada connosco, o Blogger podia ter-lhe seguido o altivo exemplo.
Mas não: também o Blogger deve ter querido simplificar qualquer coisa e agora para aqui estou eu às aranhas: é que o Portugal, caramba! foi, desde o início, um blog ilustrado.
Bem sei que não era lá grande coisa, mas eu divertia-me a escrever umas coisinhas e depois pintava uns bonequinhos, e pumba! Clicava ali em cima onde diz «inserir imagem» e procurava num dos meus arquivos o boneco que queria inserir. Depois era só «publicar».
Agora, se lá for clicar, manda-me seleccionar um ficheiro e dá-me como opções coisas como a minha webcam, este próprio blog ou «a partir dos Albuns Web Picasa» que não sei o que seja, mas onde me aparecem três o quatro dos meus próprios desenhos já antigos e só esses.
Como faço agora?
Publico outra vez o que já está no blog? Não me apetecia muito. Queria fazer coisas novas, brincar com elas no photoshop e pô-las depois por aqui.
Porque diabo havia o Blogger de mudar as regras do jogo?
E agora? O que é que eu faço, não me dizem?
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 E pronto: quando não os podes combater, junta-te a eles e escolhe uma coisa qualquer. Este desenhinho, por exemplo, chamava-se «Alice encontrou os ratos que roeram a rolha da garrafa do Rei da Rússia» e eu não desgosto dele. Sempre são uns ratitos. Os gatos que se lixem. 
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segunda-feira, dezembro 31, 2012

O Gato e o Rato (fábula interminável)

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O Portugal, Caramba! deseja-vos a todos - excepto ao governo, claro - um Ano Novo espetacular.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

quarta-feira, dezembro 12, 2012

O Gato e o Rato (fábula interminável)

Diga-se desde já que não devo à Drª. Isabel Jonet coisa nenhuma: limito-me, como sempre fiz, a corresponder o melhor que posso às frequentes presenças de escuteirinhos no supermercado e pousar no carrinho um saco com umas massas e uns feijões, as tradicionais conservas e umas latas de salsichas.
É facto que nunca me pediram bifes, nisso a Drª. Isabel tem razão, nem bilhetes para concertos de rock. Já me pediram radiografias, sim, mas velhas, com os meus ossos e uns pulmões em mau estado, mas isso é outra coisa, é mais a campanha para a reciclagem, entregue os seus medicamentos fora de prazo na farmácia e outras coisas dessas.
Mas, todo este aranzel de opiniões contra a pobre Senhora, dá-me que pensar: alguma coisa nela  oscila entre a militância ecológica (poupar água quando se lava os dentes, por exemplo), a disciplina conventual (nada de bifes, a carne estimula uma hormonas perigosas) e a moralidade rígida da pobreza envergonhada (não vás aos concertos, pá, não vês que os pobres não têm nada que se divertir?).
Eu sei que pensar nestas coisas me incomoda, é como uma comichão vagamente dolorosa, mas que está lá, como para me recordar que a solução pode não ser esta, tem mesmo de ser outra, mas tem de ser uma.
Ouvir a Drª. Isabel Jonet, para mim, foi um pouco como regressar a uma infância, nem por isso demasiado feliz, quando íamos todos na procissão com a capa da Irmandade do Senhor dos Passos (que ainda não era Coelho), quando as Senhoras davam aos necessitados desde que não bebessem vinho nem se rissem despropositadamente e quando as mulheres sem direito a maiúscula trabalhavam e cuidavam dos futuros necessitados.
Não juro que goste deste regresso de coisas tão velhas, com um tão intenso cheiro a bolor.
Mas a Drª. Isabel Jonet será a culpada?
E de quê?
De ter falado das suas convicções mais profundas e de ter dito umas inconveniências?
Ora! Que se lixe.
O Senhor Pinto da Costa, para não falar dos nossos ministros mais ministros, claro, diz bastantes mais e nem se rala com os pontapés na gramática! E nós perdemos o nosso precioso tempo (de desempregados até) a comentar estas coisas? 
Francamente!
Tenham tento e percebam que o que vos moveu foi a tristeza de ver que o Banco Alimentar contra a Fome não correspondia a nenhum ideal de solidariedade senão nas vossas cabeças. No mais, é o que os humanos conseguem fazer: uma organização que, quando não se dedica a tiranizar os outros, segue o seu caminha a manquejar, com risco de cair de vez em quando. 

O Gato e o Rato (fábula intermiável)


quinta-feira, novembro 08, 2012

segunda-feira, outubro 22, 2012

A Lei da Caça

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Há coisas, francamente, que eu não entendo.
Por que diabo a caça, os animaizinhos de Deus que andam aos pulos por aqui e por ali, a tratar das suas vidinhas, hão-de ser resnúlia.
«Resnúlia», expliquemo-nos, é uma palavra que eu, sem a certeza de a ter inventado, pelo menos adoptei, fiado no bom exemplo do nosso Luís Vaz.
Se bem se lembram, ele inventava as palavras de que sentia necessidade aportuguesando o latim. E o Eça não se livra da fama de ter feito o mesmo a partir do francês.
Eu, seguro de que os grandes espíritos são sempre melhor exemplo do que os encolhidos, fui-me também aos clássicos e aportuguesei a expressão do Direito Romano, res nullius. 
Res significa «coisa», objecto, qualquer que ele seja, terras, casas, alfaias, escravo ou cão de que se não possa afirmar que têm direitos, mas que podem ser objecto deles. E nullius pode traduzir-se por «de ninguém».
Há coisas, portanto, que não são de ninguém. 
Um escravo abandonado não é um homem livre: continua a não ter direitos, mas não tem dono. Pode, portanto, ser apropriado pelo primeiro que lhe deite a mão. O mesmo acontece com um barco abandonado pela tripulação e deixado à deriva. E a uma carteira perdida e não reclamada, aplica-se o provérbio «quem perdeu, perdeu, quem acha é seu». 
Em muitas culturas esta incapacidade para ser sujeito de direitos ainda abrange os filhos, abrange as mulheres: se o pater (o macho alfa daquela família) morrer, outro macho terá de lhe suceder, sem o que as esposas e os filhos desprotegidos poderão ser considerados res nullios e apropriados pelo primeiro que se apresentar, para os fins que lhe aprouver.
E, se não acreditam que esta mentalidade ainda por aí persiste, perguntem a qualquer jovem bonita: ela vos dirá que uma mulher sozinha num bar, num restaurante ou no cinema corre o risco de ser vista como «resnúlia» e que já está habituada a ser alvo das mais variadas tentativas de apropriação por tudo o que nas redondezas for candidato a macho.
Salvas as devidas proporções (e só porque a mulher, de há uns tempitos para cá foi aprendendo a defender-se) a caça, as perdizes e as rolas, os coelhos, as raposas e os saca-rabos são a mesma coisa.
Pelo simples facto de existirem, qualquer pinto calçudo se arroga o direito de os perseguir e matar: não têm direito a nada.
Experimentem as gentis Leitoras e os bondosos Leitores abordar um grupo de caçadores e, com a mais caridosa das intenções, falar-lhes nos direitos dos animais. Vão a ver como é engraçado.
Responderão, com a educação que a prudência lhes recomendar - mas nem mais um grama - que os animais não têm disso, que são bichos ruins e dão cabo de tudo, desde as hortas até às árvores novas, que transmitem doenças e que têm de ser caçados... por eles próprios, claro.
E vá de passar pelas terras das outras pessoas, pelo quintal se não estiver bem vedado. Cortam as redes ovelheiras e pisam o que lhes estiver no caminho porque a lei da caça lhes dá o direito de perseguição.
E a gente, a vê-los ali com ar de guerrilheiros do Sendero Luminoso, ou de jagunços de um livro do Jorge Amado: o melhor é sermos prudentes, digo eu.
Há um par de anos, dei com um deles empoleirado no muro do meu poço, a uns trinta metros aqui de casa, de arma em punho, à espera de que o cão lhe levantasse um coelhito numa moita, ao que parecia. 
Mandei-lhe um berro aqui de baixo, a cautelosa distância porque não sou parvo - enfim, espero que não muito, pelo menos - e lá se foi ele, vagaroso e gingão, caminho acima.
Vedámos o poço, que remédio, com uma rede alta.
Que mais havíamos de fazer?
Estão a ver porque é que eu sou contra a Lei da Caça, não estão?
Até por autodefesa.
Se me for permitido, acrescentarei ainda, mesmo se a despropósito, que de há tempos a esta parte me ando a sentir assim, tipo Resnúlio, perseguido pelo Gaspar e pelo seu bando de caçadores da Autoridade Fiscal e Aduaneira e tenho a impressão de que nem as comissões venatórias me protegem.
Acham que é delírio e que tenho de ir urgentemente ao meu psiquiatra?
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segunda-feira, outubro 08, 2012

domingo, outubro 07, 2012

Quanto do teu sal

 
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Ó Mar Salgado, quanto do seu sal voltou a ser lágrimas de Portugal!

quarta-feira, setembro 19, 2012

Ultraleve

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Ligeiro,
ligeiramente surdo,
desculpa, querida,
importas-te de repetir?
As lentes grossas, já aligeiradas,
e um ligeiro espessamento das mucosas
esqueci-me onde.
Um ligeiro coxear, claro, quando começo a andar,
uma ligeira calvície, sim, quando a luz incide de cima,
que queres,
é a idade
[mas pára! Pára de beber, pára de fumar, faz dieta, não comas, não bebas, vive sem viver]
Felizmente,
ainda é ligeiro o colesterol,
e ligeira acumulação de gordura no fígado e a ligeira obesidade,
apneia/hipopneia de grau ligeiro
ligeiro, ligeiro,
não sei que mais,
esqueci-me das
ligeiras perdas de memória,
[como se chamava aquele tipo, aquele António, estou a vê-lo, o rosto de cavalo ligeiramente torto e a barba por aparar, como se chama ele déja?]
É, talvez, uma ligeira a perda de leveza no ser,
quiçá por insustentável, como o crescimento nos países terceiros.
Grave, grave, 9,6 metros por segundo quadrado,
só a perda de uma  ligeireza que dantes vinha sem se fazer rogada.
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terça-feira, setembro 11, 2012

Hegel

 
 
Ao ilustre filósofo
Georges Wilhelm Friedrich Hegel
 
O Pavão
 
De tanto molhar as penas
No tinteiro da razão,
Entalou o ego em dilemas,
Furou com o aparo o tinteiro
E tratado que levou ao livreiro
Não passava de um borrão.
Não há belo sem senão.
 

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

terça-feira, setembro 04, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

Luís Januário
Casado com D. Margarida Inácia Blanco de Azevedo Côrte-Real Andrade e Sousa
Pode ser encontrado nas feiras da Golegã e de Sevilha e em São Martinho do Porto, em alguns fins de semana antes das vindimas.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

 
Dr. Dom Jacinto
(retrato robot)
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Pode ser encontrado em locais como a Granja ou no Náutico de Cascais.
Identifica-se mais facilmente pela qualidade dos tecidos do que pela dos alfaiates.
 
 


quarta-feira, agosto 15, 2012

Formas Superiores de Vida Animal

As leituras, felizmente, como dizia há já muito tempo um amigo nosso a propósitos dos símbolos, são como a chuva, acabam sempre por passar.
E passam.
Os livros, a gente lê-os, faz que sim com a cabeça, «oh! como é verdadeiro!». Ficamos avisados. Logo a seguir esquecemos e fazemos as asneiras de sempre.
Se se tratar de literaturas menores, como a ficção científica ou a policial, pior ainda. Das histórias aos quadradinhos, então, nem é bom falar. Alguém lhes liga? Alguém ousa admitir que aprendeu fosse o que fosse com essas literaturas pouco sérias?
Para não irmos mais longe, já repararam que, quando nos levam de casa um livro policial, tipo, «pá, não tens aí uma merda que se leia?», ninguém se sente obrigado a devolvê-lo?
Foi assim que eu perdi uma data de coisas importantíssimas: por exemplo, um livro do Perry Mason, na edição da coleção Escravelho de Ouro que me teria permitido fazer agora um bombástico post sobre o suicídio de Hemingway.
Já viram o prejuízo?
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Mas adiante: o facto é que a culpa não é só dos amigos que nos levam os livritos num bolso e nunca mais se lembram de quem era o propritário quando os re-emprestam a terceiros. 
Nós próprios também os perdemos: são nossos, claro, mas ficaram lá para o fundo duma estante, entalados entre filas e filas deles, a ganhar pó, nicho ecológico ideal para gerações e gerações de aracnídeos de toda a espécie (ácaros incluídos).
Nas grandes arrumações, uma vez por outra, vamos dar com uma preciosodade:
- Olha! Um Freeling que já não lemos há anos sem fim!
Ou uma Le Guin, umVonnegut, um Chandler - a propósito, há que anos não leio O Imenso Adeus...
E, inferno e danação, mais um que se perdeu!
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Enfim, un de perdu, dix de retrouvés, da poeira das arrumações surgiu um Hammett, toca a relê-lo, porque reler é recordar, recordar é viver, e viver, tirando umas secas por outras (por exemplo, tenho de levar o meu jipinho à inspeção, já viram?), viver, dizia eu, e espero que concordem, é bem porreirinho.
E então quando encontramos os nossos próprios sublinhados?
É a ocasião impar para uma recherche du temps perdu, tipo Proust à procura de reencontros; sucedem-se os espantos, as exclamações:
- Que raio! Em que é que eu estaria a pensar quando sublinhei isto?
Ou então, com um toque de ternura:
- Pá! Que giro! Que ingénuo que eu era!
Uma vez por outra ficamos a pensar:
- Pois é. É isto mesmo.
Foi o que aconteceu com A chave de vidro, do Dashiell Hammett onde um breve traço na margem abrangia um par de parágrafos.
- Não sei por que continua a falar do senador como se ele fosse um ladrão de cavalos - tinha eu assinalado. - Ele é um cavalheiro e...
- Absolutamente. leia o que dizem a seu respeito no Post: é um dos poucos aristocratas que restam na política americana. E a filha, outra aristocrata. Mas é por isso que o previno: tome tento e garanta-se logo que o for visitar, ou sairá de mãos vazias, porque, para eles, você não passa de uma forma inferior de vida animal, para com a qual não há regras estabelecidas.
É claro, tatava-se de um senador e aristocrara made in Usa, mas eu quis lá saber dessas imensidades quase sobrenaturais: desatei a pensar pequenino, na nossa democraciazinha à portuguesa.
É verdade que toda a gente olha para nós como se fôssemos "formas inferiores de vida animal".
Lembram-se de um livro do Graham Greene chamado O Terceiro homem?
Eu lembro-me, claro, mas também não sei onde pára. Ora acontece que nesse livro havia uma personagem, Harry Lime, se bem recordo, que lá do alto duma roda gigante numa Feira Popular na Viena do pós-guerra, apontava as figurinhas minúsculas lá em baixo e perguntava:
- Se um daqueles pontinhos pretos, lá ao fundo, parasse de se mover de repente, que nos importava?
De facto, tão pequeninos e tão ao longe.
Infelizmente, somos nós, esses pontinhos pretos. 
Não há regras para tratar connosco: cortam nos ordenados, nos subsídios de doença, fecham hospitais e palácios da justiça; sobem impostos, taxas, portagens, o que lhes apetece. Vendem ao desbarato aquilo que nos custou milhares de milhões a pôr de pé, a REN, a EDP, o BPN, a TAP, Sines, o transporte de mercadorias, sei eu lá! E já se falou nas Águas de Portugal.
E é quando humildemente queremos protestar, mesmo baixinho, «olhem lá, a àguínha, que fazia tanto jeito...», é nessa altura que sentimos, cá bem fundo:
- Sou uma forma inferior de vida animal.  
Se não me acreditam, tentem apresentar uma reclamação às Finanças... perdão: à Autoridade Fiscal e Aduaneira.
Ou então, ir ao banco reclamar contra o aumento das vossas prestações...
O Caixa olhar-vos-á exactamente como o Chefe o olha a ele; e como o Director olha para o Chefe; e como o Chairman do Banco, do alto dos seus vencimentos, cartões de crédito e prémios, olha para os BMWs dos Directores enquanto espera que o motorista o venha buscar.
A prima Cecília
Nós, para não lhes ficar atrás, pumba! Do alto do nosso sofá comprado no Ikea, olhamos para esse Senhor Chairman, quando ele aparece no nosso plasma da Worten, do mesmo modo como nos olhou o seu próprio Caixa. 
E pronto. Fechou-se o círculo.
Se pensávamos que a democracia era mais do que isto, estávamos enganados.
-  
Ficou-me, no entanto, uma dúvida.
Ficaram mais, mas, de momento, esta já chega:
Onde estão e quem são esses aristocratas da nossa sociedade a quem nós pudéssemos chamar com algum grau de certeza, «formas superiores de vida animal»?
Ao olhar para as figuras públicas, nenhuma me parecia merecer esse epíteto. Nem Bavas, nem Mexias, muito menos os Relvas, os Cavacos Silva, os Majores e Meneses, os Pinto da Costa e os outros de quem não fixei os nomes.
E olhando para o passado, para as prateleiras poeirentas das minhas memórias, também não: certamente que não o Soares, nem o Guterres, nem o Barroso. Ninguém que eu tivesse visto no plasma.
Então, decidi-me. Que tal fazer assim uma espécie de retrato-robot e procurar por eles como se fossem foragidos e a justiça os reclamasse? 
Agarrei no lápis e zás.
A Sra. Dona Estefânia Alice Cecília do Menino Jesus é, quem sabe, o primeiro.
Quem a encontrar, cale-se muito bem calado e não diga nada a ninguém.

quarta-feira, julho 18, 2012

Doce de Ameixa

Nero, que era uma pessoa importante lá em Roma, tocava lira - e, claro, a culpa era dos cristãos, dos ciclistas e dos escravos que não queriam trabalhar.

A minha desculpa, que dela bem preciso, é que o raio do doce está a ficar um espetáculo.

segunda-feira, junho 25, 2012

E aos costumes disse LOL!

- Pá, companheiro!
Manda aí uns trocos para eu pagar a multa! (1) 
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1) Seguindo uma sugestão do Luciano de http://pequenosprazeresmusicais.blogspot.pt/.

segunda-feira, junho 18, 2012

Para fazer um cavalo feliz

No Domingo veio cá o meu primo Artur.
Parou o jipe em frente ao portão, como de costume, apeou-se e acenou de lá, o braço esticado a agitar um jornal que me pareceu o Finantial Times.  
«A Isaltina hoje não veio», explicou ele enquanto sacava da mala uma caixa de madeira com três garrafas e um embrulho tosco com o que parecia um paio. «Ficou com o puto, o Arturito, porra, o meu neto! Parece que tem uma virose ou uma merda assim que os médicos inventaram agora... Olha lá, tu quando eras pequeno tiveste alguma vez uma virose? Havia disso quando a gente andava a jogar à bola na rua? Havia era canelas esfoladas, nódoas negras e cabeças partidas! Isso é que era.»
Concordei, é claro.
O Artur, cada vez mais parecido com o Tio Zé Damião, ia entrando, já estava a partir rodelas do paio para um prato, eu tirava um queijo da Idanha de dentro do frigorífico e uma fatia de paté, e ele a comandar, «pá, vamos mas é lá para fora, olha lá, farto estou eu de estar dentro de casa.»
E já com o vinho aberto e os copos servidos, instalados debaixo da glicínia, ele declarou com ar de solene convicção que «vocês é que têm sorte, pá, aqui longe das merdas todas!»
Num gesto inconsciente com que pontuava a exclamação, agarrara no Finantial Times e fazia menção de atirar com ele.
- Pois - concordei eu.
Aquilo era uma estreia. Toda a vida o Artur troçara de nós por vivermos «longe de um cinema, pá,  dos restaurantes, quantos quilómetros é que tu tens de andar se quiseres ir a um centro comercial, hem? Uns quinze, ou mais, olha lá! E a praia, pá? Quarenta! P'ra cima!»
E, perante aquele ar de infelicidade genuina, acrescentei:
- É o meu bocadinho de corda mais comprida.
Não percebeu, claro.
- Pá, houve uma mulher, uma italiana assim meio anarquista, que escreveu uma coisa que dá que pensar, sabes? "Para fazer feliz um cavalo," diz ela, "basta amarrá-lo a uma corda mais comprida." Isto aqui é a minha corda mais comprida, como ela disse.
Ia a acrescentar que a frase era da Goliarda Sapienza, e que o livro se chamava L'Arte della gioia, mas ele não me deu tempo.
- E tu és um cavalo, pá, porra? Só se fores tu, olha lá, que és assim tipo burro!
- É. E tu? Tu fazes-te de mula a ver se disfarças.
Ficámos a olhar um para o outro e eu continuei:
- Deixam-me pastar por aqui, pelo menos enquanto não precisarem deste sítio para passar outra auto-estrada ou para fazerem um aterro sanitário. Depois expropriam tudo por dez réis de mel coado e arrastam-me daqui para fora; e se eu não quiser ir, dão-me um tiro e dizem que resisti à polícia. Estás a ver. Enquanto não me tirarem isto, carregam no Imi, levam-me os subsídios, aumentam o Iva e o gasóleo... E a ti? Também não estás grande coisa, pois não?
- Eh! 
 Bebeu um gole de vinho e voltou a servir-se. E eu aproveitei para carregar um bocadinho mais na ferida que a presença do Finantial Times me fazia adivinhar e que os seus silêncios confirmavam:
- Estás a ver, para amansar os cavalos, basta ir encurtando a corda, todos os dias mais um pouco, até chegar ao alcance da chibata.
Ele murmurou qualquer coisa incompreensível, tipo «isto é uma democracia, olha lá!», mas eu mandei-o lixar-se. 
- Pá, a democracia não tem nada a ver com a corda. A corda, não tenhas ilusões, existiu sempre e vai continuar a existir. Somos humanos: a espécie a que pertencemos deve ser a mais gregária de todas as espécies à face da Terra. Que outro bicho, formigas incluídas, estás a ver? Que outro bicho era capaz de viver  amarrado a vinte milhões de outras formigas? Pá, tu já foste a São Paulo, já viste o que é viver com mais vinte milhões de iguais a ti. Não passas de uma gota minúscula no meio de um lago maior que o Titicaca. E já andaste de metro. Que outra espécie seria capaz de viajar numa carruagem do metro à hora de ponta? E nota: sem deixar atrás de si um rasto de sangue e de destruição! Se fossem formigas eram um monte de patas e de cabeças arrancadas. Se fossem gatos, era tripas, era olhos, era tudo.
O Artur abanava a cabeça.
- Pá! Não é bem assim, olha lá. - tentava ele argumentar gesticulando perigosamaente com a faca de cortar o queijo. - Há a civilização e há tudo isso, pá. Lá que tu vivas aqui como um atrasado, é lá contigo.
- Está bem, pronto. Podemos dar nomes mais bonitos às coisas se tu quiseres. Falamos em «amor filial» ou em «patriotismo», por exemplo. São amarras que temos à nossa terra e à nossa família. E alguns como tu, demasiados, diria eu, ainda têm o clube! E sabes o que é um clube? É um sítio onde onze esforçados inúteis ganham a vida a pontapés.
- Não dizes mal do Glorioso, óvistes?
- Eu? Tem juízo. Quero lá saber do teu clube. Tu é que andas a gemer por aí que te encurtaram a corda e já sentes o chicote no lombo. É ou não é?
- Porra, pá, também não é tanto assim.
Levantou-se a abanar o peso da cabeça.

- Vou lá dentro à casinha - anunciou. - Mas, felizmente, pá, na Grécia, hem? Ganhámos as eleições, 'tá-z-óvir?

domingo, junho 10, 2012

segunda-feira, junho 04, 2012

Manifesto para uma Esquerda Livre

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Foram ontem as primeiras reuniões abertas dos subscritores do «Manifesto para uma Esquerda Livre».
Não se sabe ainda, é claro, nem o que é uma esquerda - a não ser no boxe - nem como pode ela ser livre.
Desde logo, porque ser de esquerda não é exactamente um lugar que se ocupe, uma coisa adquirida, como dantes se comprava à época um camarote em São Carlos; ia-se ou faltava-se, conforme os azeites, aplaudir ou vaiar as primas-donas.
E depois, porque a tradição nos diz coisas que já se tornaram absurdas: por exemplo, continua a dizer-se que o Partido Socialista «é» de esquerda, e a direita aproveita-se, não cessa de nos dizer que as maiores asneiras foram feitas por ela.
Pode ser que tenha razão, mas, então, para mim, é como se fosse o Dantas.
Se o Dantas é de esquerda, eu quero ser espanhol. Pim!
Antes de irmos mais adiante, devo dizer o seguinte:
Não penso que a um socialismo mais autêntido - aquele que reivindicava «a paz, o pão, a habitação, saúde, cultura e educação», tão simples como isto! - seja importante o problema da propriedade dos meios de produção, como era para os marxismos mais ortodoxos. Basta-lhe que esses meios estejam ao serviço da comunidade, o que, obviamente, não depende dos «proprietários», o mais das vezes meros accionistas com pouquíssimo voto nas matérias. Depende dos «decisores», uma classe que gere, que administra, que endivida, deslocaliza e faz falir aquilo que melhor lhe convém.
Não tenhamos medo de ressuscitar a luta de classes:
A classe dos «decisores» é uma classe que urge combater antes de chegarmos seja onde fôr.
Mas é importante saber caracterizá-la, saber quem faz parte dela e quais são os seus instrumentos de poder.
E, atenção: não basta conquistar esses instrumentos: já foram conquistados e perdidos vezes sem conto. Estamos fartos de saber que o poder corrompe; que atrás de classe, classe vem e que o que a outra fez, fará esta também.
A tarefa de uma esquerda que se queira livre consiste, antes de mais, em restringir o poder, desarmar-lhe os instrumentos:
Onde houver polícias, haverá sempre quem as mande contra quem se lhe opõe.
Onde houver dinheiro, alguém comprará as consciências dos outros homens.
Onde os fins forem mais importantes que os meios, não haverá liberdade, não haverá esquerda livre, nem direita livre, nem centro livre.
Livre, só a Goldman Sachs - ou lá como se chama. 

sexta-feira, maio 11, 2012

A visita da Cobra Rateira

Esta gentil senhora que aqui podemos ver numa bonita foto  rapinada da internet, é a Malpolon Monspessalanus. Mais em família, diz-se que é uma Cobra Rateira, e pronto.
Como visita, não posso dizer-vos que seja muito muito conversadora: tudo o que diz resume-se a um som asmático, prolongado, vindo lá do fundo da garganta. Quase esperaríamos que desatasse a tossir, com uma tosse cavernosa de fumadora inveterada, mas não. Aqueles «esses» expirados prolongam-se, interrompem-se por momentos e voltam com a mesma monotonia de sempre.
- Pá, olha lá que que com esta gaja não se aprende nada - diria o Primo Artur enfiando uma fatia de queijo da Idanha entre duas goladas de tinto.
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De facto, ao contrário do Artur que chega ali ao portão com o jeep e desata a businar, a Malpolon não é pessoa de grandes estardalhaços.
Quase nunca a vemos, entra e sai sem dizer nada, sem incomodar. Ontem, porém, foi diferente. 
Resolvida a participar das nossas refeições, veio fazer-nos uma visita, deslisou até ao quintal por entre as ervas que as últimas chuvas e agora este calorzinho transfomaram em matagal.
Deve-se dizer que, de há tempos para cá, quase deixámos de ter aquilo a que se chama «lixo comum». Se já separávamos os plásticos, o papel e o vidro para futura reciclagem sabe Deus por que longínquas instituições, porquê deitar para o contentor camarário os restinhos de pão que ganharam bolor e já nem para umas migas se aproveitam?
O mesmo para as cascas das batatas, para o talo das couves, o cascabulho das maçãs quando o nosso cão, vá-se lá saber porquê, o olha desdenhoso.
De modo que fizemos uma estrumeira.
É claro; agora está mais na moda ter um compostor, daqueles muito sofisticados, que se vendem nas grandes superfícies do «faça você mesmo».
Mas nós aqui em casa o que temos mesmo é o monte do estrume, à moda antiga.
E, uma vez por outra, mesmo se o tentamos evitar porque os tempos não estão para desperdícios, até uns restinhos de comida lá vão parar.
Os melros e os pardalitos são os nossos mais frequentes comensais.
Era para lá que a Rateira Malpolon se dirigia, ou, quem sabe, era de lá que vinha, já com a tripa forrada com o que encontrou.
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Infelizmente, aquela parte do quintal, como se calcula, está protegida por uma rede.
Não é nada que detenha um um gato sequer: uma simples redezinha de plástico a marcar uma fronteira, permeável aos insectos e aos ratitos que lhe passam por baixo se quiserem.
A Cobra, porém, ou por distração ou porque ia apressada, enfiou-se numa das malhas, a cabeça e um bom palmo conseguiram passar, o resto do corpo ficou entalado.
Sem atinar com a marcha à ré, fez o pior que era possível: enfiou a cabeça noutra malha e noutra ainda e lá ficou, nem para diante, nem para trás, sem se conseguir mexer sequer.
Só um ou outro estremecimento e a sua respiração de asmática nos mostraram que estava viva e, diga-se, não muito bem disposta.
Se fosse em casa do Tio Zé Damião, era sabido: «as cobras são bichos nojentos, dão cabo de tudo! Ter isso aí até é um perigo para as galinhas. Dá-se com a enxada, parte-se-lhe a espinha e já está, fica para aí a torcer-se que é para aprender.
Antigamente é que era: meti-se num saco, a Venatória pagava quize milréis por cada uma, sempre dava jeito. Agora, querem eles lá saber!» 

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Claro que não seguimos o conselho do Tio, nem o consultámos sequer.
Tentámos com a tesoura de podar, mas era muito larga e mal jeitosa. O ideal foi mesmo uma tesoura das unhas: a Malpolon estremecia de cada vez que os bicos fininhos se aproximavam para cortar os nós da rede, soprava de indignação, mas garanto, quando se apanhou à larga nas malhas, caramba!Parecia que levava fogo no rabo, nem ficou para posar para uma última fotografia.
Esperamos todos que, a estas horas, a nossa Rateira esteja a contar às amigas a grande aventura da sua vida: como, resistiu heroicamente àqueles enormes seres desnaturados que a tinham apanhado à traição e que a ameaçavam com uma espécie de mandíbulas cortantes que faziam clic! Clic!
E já agora, se não lhe fizesse muita diferença, a gente agradecia que ela passasse de largo pelo nosso quintal: não dá jeito nenhum andar sempre a ter de fazer buracos na pobre rede, como calculam.

terça-feira, abril 24, 2012

sábado, abril 21, 2012

In fine

Se se nos acabar o tempo
(que é a essência do fundamento)
Lamento,
Mas quero lá saber:
Já não vamos estar cá
Para ver.

João Bessa, Poemas Metafísicos, Estremoz, 1967

quarta-feira, abril 18, 2012

Mistérios

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Que será feito da nossa vocação marítima?

quarta-feira, abril 11, 2012

quinta-feira, abril 05, 2012