sexta-feira, abril 10, 2009

Ai futebol, futebol... [2]




Se alguma coisa democratiza o futebol - e aqui o verbo leva toda a carga possível de vulgaridade - é o facto de a gente poder falar dela sem qualquer preparação.
Todos nós, os que somos já suficientemente antepassados, jogámos à bola na rua, à revelia das leis de então: ia-se comprar a «chincha», havia sempre uma vizinha ajudante de costura que as vendia por cinco tostões - o preço aproximado de um papo-seco na padaria. Era uma bolinha feita de restos de pano compactados no interior de uma meia velha e cosido à volta, uns oito centímetros de diâmetro irregular. Frequentemente não rolava muito bem, sobretudo quando começava a romper -se.
Ao grito «olhó'chuidesalvorávamos todos a correr. No liceu era a mesma coisa. Vinha o contínuo - «olhó Guerra!» e lá saltávamos o muro, fingíamos estar a jogar ao bilas, fazíamos o ar de «quem, eu? eu estava só a ver...»
Às vezes lá ia um pela orelha, a chincha apreendida; eram os azares da vida, a miudagem da rua aprendia depressa a viver com isso.
Quem não sabe identificar o inimigo, morre depressa. Ou então, torna-se inimigo por sua vez, quando crescer, o que é mil vezes pior.

Com o andar dos tempos, as coisas mudaram um tanto.
As ruas foram definitivamente ocupadas pelos automóveis, os putos já lá não cabem. As pessoas, como se fossem macacos em perigo de extinção, são remetidas para zonas protecção especial: um ou outro parque, umas coisas chamadas circuitos pedonais.
A miudagem já não dá cabo das botas a chutar na chincha. Usam ténis e têm belas bolas de plásticos vários que noutros tempos nos teriam feito arregalar os olhos de admiração.
E, pasme-se!
Até lhes arranjam campos de jogos lá na escola - embora, regra geral, os cubram de betão, que é para as quedas doerem à séria.
E é assim que todo o machinho, por esse mundo afora, tem pelo menos um mínimo de experiência do que é correr atrás da bola.
Acrescente-se a isso umas gordas de jornais ditos desportivos, um par de debates na televisão e aí está um entendido: treinador de bancada, árbitro competentíssimo, dirigente de café. Pode botar faladura, a sua opinião vale tanto como qualquer outra e o que disser, não importa realmente.

É uma banalidade quase escusável lembrar que, se ele fosse banqueiro ou grande industrial, ou advogado topo de gama, falaria de investimentos com gente da sua igualha, igualmente aptos a usar o código em que se exprime o mundo dos grandes negócios.
Se fosse físico, astrónomo ou médico, a conversar com outros físicos, astrónomos e médicos, usaria igualmente, é evidente, uma linguagem apropriada que supõe o conhecimento prévio dos conceitos. São linguagens prestigiantes, muitas vezes, guardadas ciosamente das intrusões dos leigos. Mas claro, se não querem ficar isolados toda a vida do resto do mundo, também eles terão de ter como que um jargão comunicacional.

O tempo que faz, a meteorologia, é um tema óptimo. Serve o tempo de um elevador.
Do quarto andar para o terceiro alguém comenta o calor que faz ("está de ananases!"), do terceiro para o segundo tossem ambos um momento de embaraço.
O pobre pé rapado, que só pode falar de juntas nas canalizações ou da diferença entre uma goiva e um formão, depois de concordar amavelmente ("sim, sim! de derreter os untos...") teria de remeter-se ao silêncio, admitir que faz parte do coro mudo, da claque enlevada de todos os que sabem falar.
A solução milagre é o futebol:
- Então, doutor, viu o Porto ontem?
- Uma vergonha, Lopes! Uma vergonha! Aquele Fonseca...
- Mas a arbitragem...
É quanto basta.
As mais escandalosas diferenças podem crescer, engordar, exibir-se. A democracia está salva.

quinta-feira, abril 09, 2009

Umas florinhas

Hoje, 9 de Abril, faz anos uma Senhora muito da estima do Portugal, Caramba!
Não se diz quantos porque não é bonito apregoar aos quatro ventos a idade de uma senhora, mesmo quando ainda é uma jovem.
E não se diz o nome porque ela prefere manter-se discretamente fora destes convívios.
Mesmo assim, se por aqui passar, talvez aceite umas florinhas...

terça-feira, abril 07, 2009

Ai futebol, futebol... [1]



Pronto: confesso.

O futebol é um dos meus ódios de estimação.

E quando digo «de estimação», não pensem que esta expressão contém alguma cordialidade para o dito futebol. No fundo é só uma auto-estima: como eu gosto de mim mesmo por odiar aquela coisa.
Pelo futebol em si mesmo, creiam, nutro e acalento um profundíssimo desprezo.
Para terem uma ideia: As carraças e as pulgas dos cães combatem-se com umas coleiras próprias. Palavra: se houvesse uma coleira anti-futebol, eu usava-a com o mesmo orgulho belicoso com que os adeptos do futebol clube do Porto ou do sporting clube de Portugal enrolam ao pescoço um cachecol azul ou verde, conforme, e vão em grande grita para os estádios.

Não é que eu próprio não tenha jogado à bola quando era miúdo, apanhado caneladas, esfolado joelhos. E até, para que vejam, ousei uma vez meter o peito à bola, mas como era nabo, foi a boca do estômago quem levou com ela.
Dá para ver: respiração cortada, o lesionado arrasta-se até ao muro e encosta-se, os companheiros olham, «isso não é nada» e o jogo continua com um inútil a menos, mais novo e magrinho, só estorvava. Mas, pronto. Aguentei-me à bronca, nunca se dá parte de fraco. Passado um par de minutos, lá regressei, o mais galhardamente possível, a atrapalhar toda a gente.
O facto de ser um provinciano assumido, de preferir as botas caneleiras e os coletes com muitos bolsos, de nunca ter vestido um fato de treino, provavelmente ajudou.
Nasci numa vila, nesse tempo ainda relativamente pequena.
Tínhamos a impressão tola, é óbvio, de conhecer toda a gente: não era verdade. Conhecíamos apenas gentes do nosso grupo, umas poucas dezenas e sabíamos, por vezes muito vagamente, quem eram umas centenas.

Estudos de sociologia mostraram já que o círculo onde nos movemos oscila bastante, mas, em média consta de uma trinta pessoas. As mais sociáveis têm grupos um pouco maiores, os tímidos e os conflituosos grupos menores, mas não é por acaso que uma turma que ultrapasse este número de alunos funciona mal. E uma escola com mais de novecentas pessoas entre alunos, funcionários e professores será um quartel, um campo de concentração, o que quiserem, mas uma escola não.

O povoamento guiava-se por normas não escritas, mas da mesma obediência.
As aldeias, por norma, não chegavam ao milhar de habitantes. Se chegavam, dividiam-se sem dar por isso. Havia os Freixões de Cima e os Freixões de Baixo e desenvolviam rivalidades porque os rapazes de um lado vinham namorar as raparigas do outro, exogamia manda e a erva é sempre muito mais verde do lado de lá das fronteiras. E claro, não faltavam as duas tabernas, duas sociedades, dum lado a Recreativa, do outro a musical, dois grupos fosse do que fosse.

A nossa vila não era diferente, era só maior.
Tinha bairros, famílias e tinha castas.
Havia Grémios, Assembleias, Tunas e Clubes variados, os de uns, normalmente, claro, não frequentavam os outros.
Quando havia cinema, lá se misturavam todos, no mesmo edifício, mas em zonas distintas. Uns iam para o primeiro balcão, ou, se iam em família, para um camarote ou, vá lá, para uma frisa. Havia ainda, como alternativa, o segundo balcão.
A plateia era a zona da plebe.

Nem a Igreja escapava a estas distinções: ao domingo havia uma missa que era a da gente fina. Os senhores tinham cadeira e genuflexório próprios numa nave lateral e à saída dominavam o adro com os seus grupos, a beleza das senhoras, a riqueza dos trajares. Os outros formavam grupinhos mais pequenos, mais encostados às paredes, circulavam pela periferia.

O fuebol, aparentemente, era a excepção não porque não houvesse também separações. Havia. No nosso campo da bola, chão de saibro vermelho e riscas brancas, só havia uma bancada que corria todo o lado poente do campo. Nela tinham direito a sentar-se, em cadeiras, os sócios com lugar reservado. No cimento sentavam-se os outros. E claro, nas cabeceiras ou no lado oriental, de caras para o sol e a mão direita em pala para não perder pitada, era o peão.
Alternando com o vendedor de «bolachámaricana, idicanela!», o cauteleiro percorria as nossas ruas, a gritar «é prá'mañhã!, olhó cinquenta e oito!» ou «anda hoje, anda hoje!». Semana sim, semana não, quando chegava o sábado mudava de estribilho:
«Peão prá bola, peão prá bola. Olh'é o peão prá bola!» O clube da nossa terra, nessa semana, jogava em casa.

No domingo, pois, com o comércio fechado, era o ritual do levantar mais tarde, do banho semanal, depois a missa e, a seguir, era o cozido à portuguesa ou o bacalhau com todos. Regaladamente repletos, os senhores levantavam-se da mesa um tanto pesadotes e abalavam para o café a juntar-se em pequenos grupos, a dar palpites sobre o jogo. E em grupo lá se iam encaminhando para o campo. Parar em cada esquina para mais uma sentença, mais um argumento, era parte do prazer.Parecia a mais pacífica das gentes.
Uma hora depois era vê-los.
Perdida a compostura, os casacos caídos algures, a camisa desprendia-se dos cintos e as gravatas pendiam amaxucadas. O honesto e generoso pai de família, de rosto púrpura atirava perdigotos para todo o lado enquanto berrava a sua exaltação:
- Partam-me um braço a esse filho da puta, cabrão!
No outro lado, no peão, empoleirado sabe Deus onde, um homem de fato de macaco puído e manchas de óleo que as lavagens não conseguiam apagar, berrava exactamente o mesmo.
Era desta massa que se faziam depois os patriotas e nela as uniões nacionais recrutaram desde sempre os seus apoiantes mais fiéis.

Não acreditam?
Mal o vosso.

domingo, abril 05, 2009

O Portugal, Caramba! também gostava de ter um emprego e de acumular umas reformazinhas...

Claro que o Engenheiro Sócrates é engenheiro.
Civil. E civilizado.
E Mestre.
E que não fosse?
-
Claro que é impoluto.
Claro que é transparente.
Se dizem mal dele, é só invejas.
E que não fossem?
-
É só porque ele é bom.
E ele é bonito.
E é inteligente.
E é honesto.
E que não fosse?
-
E não é Pinóquio nenhum.
E se se lembrarem de mais alguma coisa boa e interessante, ele também é.
E se não fosse, não era. Ponto.

segunda-feira, março 30, 2009

E que temos nós com isso?

O facto em si, tal como o relatava o El País de ontem, não tem grande interesse: Estefania, que nasceu rapariga, transformou o seu corpo de acordo com o género a que desejava pertencer e tornou-se no Rubén.
Até aqui, nada de novo.
Como é próprio dos jovens, o Rubén, apaixonou-se por Esperanza, uma senhora um pouco mais velha e, de casa e pucarinho, decidiram ter um filho, tal e qual como qualquer outro casal que por aí ande.
O invulgar da história é que Esperanza, que é já mãe de dois filhos, não pode ter mais. E bom, como em qualquer casal, quem engravida, é aquele cujos órgãos femininos se encontram funcionais - num casal tradicional é a mulher e pronto, não se fala mais nisso.
No caso vertente, porém, quem tem um útero funcional é o Rubén que, por via da mudança de género, desempenha um papel masculino, ou seja, é um homem.
Não sendo muito usual, no fundo, se pensarmos bem, é lógico.
O que levanta algum problema, são as declarações de um tal Dr. Ballescà, ginecologista e responsável, diz-se, por uma unidade de Andrologia reprodutiva em Barcelona.
"Pelo facto de que esta gravidez seja tecnicamente realizável" diz o médico, "não se segue que seja eticamente aceitável."
E nós concordamos. De "A" ser possível, não se pode concluir o seu valor ético. A bomba atómica é um bom exemplo. E uma menina de doze anos ou mesmo de onze pode «tecnicamente», se a palavra aqui tiver cabimento, engravidar. O que segue é que essa gravidez possível é altamente indesejável e eticamente inaceitável.
Porém, continua o ginecologista: "A intervenção de mudança de sexo deve ser total, o que acarreta a extirpação dos ovários!" E acrescenta: "És una contradiction".
De facto: um homem é um homem e um gato é um bicho. Mãe há só uma e, por definição, um pai não tem ovários.
Ora, neste caso insólito, a figura paternal vai ser a mãe. E o cônjuge da mãe (que costuma ser o pai, mas não sempre) vai ser a figura maternal. É confuso, não é?
Imaginem o pobre conservador do registo civil lá do sítio:
- Mas, então...? E eu escrevo o quê? ... E escrevo aonde?
Se for um daqueles que também por aí andam, há-de deitar as mãos à cabeça e sair pela porta fora aos gritos:
- Contradição! Contradição!
Já não havia estações, chove e faz frio em Agosto; nas estâncias de Inverno, em vez de esqui, tomam-se banhos de sol. Os bancos que costumavam emprestar dinheiro às pessoas e viviam disso, agora pedem dinheiro ao Estado e não se percebe de que é que tencionam viver quando a economia for para as urtigas.
E, para cúmulo, os pais armam-se em mães e decidem ser eles a ter os filhos.
Eu, por mim acho que é um escândalo! O Dr. Ballescà, se calhar também. E o Sr. Papa, mesmo se ainda não se pronunciou, vai uma apostinha em como também vai gritar «contradição, contradição?»
E porquê? Alguém nos deu o direito de nos metermos onde não somos chamados?

domingo, março 22, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIV)

- O essencial, sabes, continua a ser invisível para os olhos - disse a raposa. - O problema é saber como podemos torná-lo visível.
Aka fez que sim com a cabeça.
- Os cientistas, por vezes, usam os microscópios.
- Pois. Mas encontram essências muito, muito pequeninas.

O Nó cego, o Nó górdio e as cortinas piedosas

Carlos Vale Ferraz,
Nó Cego, 1982
4ª. Ed., Casa das Letras, 2008

-


1.
Nó cego é um romance perturbador.
Desde logo, porque se lê de um fôlego. E depois, porque, caso raro na literatura portuguesa que eu conhço, se trata de uma epopeia a que não falta sequer o episódio da ilha dos amores (Cap. 6, Na ilha do sonho).
N'Os Lusíadas, ensinavam-nos os mestres, o herói, ao contrário da Eneida, é colectivo. (Com as maiúsculas obrigatórias:) é o Povo Português. Em Nó cego, mais discretamente, é apenas uma companhia de Comandos.
Numa linguagem de cuidadosa simplicidade, o que se narra são as aventuras e desventuras daquilo a que se chamará, creio, o seu «espírito de corpo».
Um Capitão, uns quantos Alferes, cento e poucos homens que a uní-los tinham apenas frases: o comando não tem fome nem sede, o comando não deixa os seus para trás, o comando mata em silêncio...
Nem todos eram anjos, decerto, e Carlos Vale Ferraz não o tenta disfarçar. As referências ao passado de jovens milicianos, de soldados provenientes de meios muito diversos, dão-nos o retrato dessa diversidade bastante menos do que inocente.
Uma «puta de companhia!», como a define o próprio Capitão, a consciência do colectivo. «Paneleiros, chulos, ladrões, seminaristas, filhos-de-família, vadios e ando eu a bater-me para manter esta merda junta!» (pag. 311)
Gente normalíssima, no fundo, num país que se pretende de brandos costumes, mas que, deixada à solta, mata velhos e crianças, viola mulheres e tortura prisioneiros antes de os matar também.
Vale Ferraz narra como se foram tornando num bando de criminosos de guerra para quem, a começar pelos oficiais superiores, e a acabar nos soldados, «a Convenção [de Genebra] não passa de uma hitória de fadas», como explica o Capitão a um guerrilheiro capturado: «Para o meu Governo vocês são terroristas, e eu sou o senhor absoluto da tua vida.» (pag. 323)
2.
As epopeias guerreiras costumam ser trágicas: o guerreiro que enfrentou com bravura a morte em combate parte para o Valholl de Odin onde o espera o combate final e o fim do mundo.
Também Nó cego acaba com a morte do herói.
A companhia de comandos é desfeita no fim do romance, os soldados, após o combate pela tomada da Base Gungunhana da Frelimo, estavam «de rastos», já não era possível levá-los «a lado nenhum».
"- Não são peças velhas de um motor que gripou", argumentava o Capitão. "- Ao menos, deixem-nos juntos a jogar às cartas ou à pesca, não nos espalhem cada um por seu lado..." (pag. 345)
Mas eram.
A Companhia foi desmantelada como se não passasse de uma Berliet avariada, reduzida a um esqueleto à beira do aquartelamento. Canibalizaram-se as peças que ainda podiam servir, uma condecoração aqui, uma promoção acolá.
Significativamente, a sua consciência, espírito de corpo ou alma, como se queira, representada pelo seu Capitão, termina num apartamento no Algarve, o paraíso possível para os guerreiros dos nossos tempos. Lá esperarão pelos novos combates porque não há outro destino para eles.
3.
Nó cego é uma parábola incómoda.
Primeiro porque como que nos culpa da morte daquele corpo.
Não importa se o «General K», «comandante-chefe de Moçambique» tinha sido ou não um responsável daquelas guerras. Assumindo que se tratava de Kaulza, um dos homens que denunciou a tentativa de golpe de estado ou de pronunciamento militar, como se queira, de Botelho Moniz, então ele foi um dos grandes responsáveis pelo desencadear de todos aqueles massacres que ficaram por julgar e que Vale Ferraz, discretamente embora, não oculta. «K», no romance representa a sinuosidade do político que usa os seus homens exclusivamente para os seus próprios objectivos extra-militares e que os trai logo que, como um velho motor, deixam de ser manejáveis. Não representará «K», para o autor, a própria Pátria?
E a parábola incomoda ainda, em segundo lugar, pelos valores que apresenta. Nós sabemos que a traição não é bonita; mas a Companhia que foi traída, também não o era.
Para recordar um só exemplo, a pags. 211 e 212, Vale Ferraz narra um episódio provavelmente verdadeiro, porque, com variações ainda menos dignificantes, à altura foi contado por todo o lado, pelos soldados que iam voltando. Trata-se da emboscada do soldado Lopes:
"Atirou-se de faca de mato na mão, «o comando mata silenciosamente», sobre um novelo de gente caída no chão. Exibiu diante dos olhos o punhal com a lâmina vermelha de sangue, «um punhal de comando», voltou a enfiá-lo no corpo de uma negra, depois no «manacho» de quatro ou cinco meses que chorava agarrado à mãe morta.
- Que estás a fazer?
O Lopes fitou, espantado, o capitão. Baixou os olhos para o cabo da faca, ainda espetado nas costas da criança, e respondeu:
- Estou à procura do coração, a mãe está morta e ele berra muito alto, meu capitão."
4.
Aqui, no Portugal, Caramba! somos pacifistas quêbê, anti-militaristas tanto e tão militantemente quanto podemos.
Sabemos que, como diziam as canções de antigamente,
tant qu'il y aura des militaires, soit ton fils, soit le mien,
il y aura jamais sur terre pas grand chose de bien,
pas grand chose de bien ... (1).
Infelizmente, poucos anos depois de composta esta canção, a II Guerra mundial, como ficou a ser conhecida, havia de provar à saciedade que os pacifistas sabiam do que falavam. A Guerra de Espanha, ali mesmo ao lado, com os seus viva la muerte, era um bem triste exemplo.
Infelizmente, ter razão não serve para nada.
A maioria dos anti-militaristas, dos opositores aos planos bélicos quer de um lado, quer do outro, acabou mal. Fuzilados uns, em Belsen ou Dachau outros, podemos supor que bastantes, atirados para a Sibéria e muitos, muitos fugidos, exilados, perseguidos nos empregos, nas suas vidas.
A guerra é o mal absoluto.
Mas há sempre alguém, um militar armado em político, um político que se julga militar, pessoalmente muito boa pessoa até, que finge ignorá-lo. Chorará a necessidade imperiosa, o dever de consciência de a desencadear. E os demónios da guerra serão soltos. Seguir-se-á o habitual cortejo das destruições, da violência gratuita, dos danos colaterais.
Se for o chefe de um país vencido, ou pequeno, ou pobre, poderá ser acusado perante um tribunal qualquer, politicamente correcto que perseguirá Sérvios e esquecerá Bósnios. Se for de um país grande e rico, concederá a imunidade às empresas de segurança que lhe fornecem mercenários, ignorará massacres e desmandos dos seus próprios soldados.
Portugal, que não era grande nem rico, apenas como um capataz defendia riquezas de que não beneficiava, envolveu-se em várias guerras simultâneas, contra os povos de quatro das suas colónias: Angola, Moçambique e, embora com uma frente única na Guiné, os Caboverdeanos também ali lutaram pela sua independência.
Mas ninguém foi julgado.
É ao Capitão da companhia que cabe, uma vez mais, em conversa com o médico, tirar a moral da parábola:
"- O mal é esta ser a guerra do vocês. Ninguém a considera sua. É filha de pai incógnito.
O médico riu-se.
- É uma guerra filha da puta." (pag. 138)
-
(1) Não foi exactamente assim que Rosa Holt, poetiza alemã anti-nazi, a escreveu em 1935. Mas foi assim que eu a aprendi trinta anos mais tarde. Como há quem considere uma perda de tempo saber francês, aqui fica uma tradução mais ou menos aproximada:
Enquanto houver militares, seja o teu filho, seja o meu,
Nunca há-de haver na terra coisa alguma de jeito.
-

sexta-feira, março 20, 2009

Nuno Bragança, Obra Incompleta

"Ah, tio Nietzsche: a duplicidade profunda e desprezível do «cristianismo» histórico - que tentou, tenta e tentará, meter o Rossio do Sagrado na Betesga do Poder mundano: Canossa abriu caminho aos católicos deicidas. Tio Nietzsche: tu só passaste a certidão de óbito."
(Nuno Bragança, Directa, Obra Completa,
Dom Quixote, 2009, pag. 379)


"O homem experimentou o funcionar do V0lkswagen encarnado fazendo slaloms por entre os outros veículos. Ele sente a cidade a apertá-lo como um polvo. [...] Pensa: «Nasceste sozinho como todo o puto, vais morrer sozinho como todo o homem. Qual é a novidade?»

Ib, p. 354

Não é, visivelmente, a obra completa, mesmo considerando que se restringe aos anos que vão de 69, ano da publicação de A noite e o riso até à morte do Nuno Bragança.

Estou firmemente convencido de que estará para sair um segundo volume, talvez com o restante da obra literária se, por exemplo, no Jornal Encontro, da então Juventude Católica, houver outros textos a pedirem urgentemente para serem recolhidos.

Mas, o Nuno Bragança foi ainda colaborador de jornais, escreveu crónicas, por exemplo, para o Jornal do Fundão. E os textos com que colaborou na revista O Tempo e o Modo, de que foi um dos fundadores? Certamente que merecem publicação aos olhos da renovada Dom Quixote. Não posso crer que a Editora, que pertence agora a um mega-grupo editorial (daqueles de que fala o João Aguiar em O priorado do cifrão?) se limite a aproveitar o que está mais acessível para fazer um lucrozinho fácil.

Se está encommendado estudo sério sobre todas essas escritas e se a Dom Quixote tenciona publicar esse livro - pelo qual nós lhe ficaríamos eternamente gratos - então porque não decidiu a editora escrever honestamente que neste primeiro volume se coligia apenas a obra literária? E porque não se anuncia desde já o adiantamento que leva já esse estudo e, vá lá, uma estimativa do tempo que demorará?

Posto isto: já foi bom que alguém se tenha lembrado de reeditar aquilo que já não era fácil encontrar pelas livrarias e alfarrabistas. O resto, paciência, irmãos: um dia há-de chegar.

quinta-feira, março 19, 2009

sexta-feira, março 06, 2009

Still looking for Aka II

Aka achou engraçada a instalação feita de pequenas peças de mármore, vidro e metais e deu um piparote numa bolinha que partiu pelo tabuleiro fora fazendo vários plins.
- Desculpa ter-te estragado a teia - disse ela à aranha pequenina que fugia espavorida das peças em movimento.

terça-feira, março 03, 2009

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XIII)


- Aia - chamou Aka, em voz baixa, meditativa. - Podemos ir Nova Iorque?
- Não. Porquê?
Aka não respondeu.
Em vez disso, argumentou:
- Podíamos ficar em casa da Tia Louella. Mesmo que fosse só por dois ou três dias. O Tio Abraham ainda é representante no FMI, acho eu. Era quase só o dinheiro para o avião e para os taxis.E podíamos ir naquela classe, tu sabes, a menos cara.
- Seríamos um embaraço para o pobre Abraham, Aka.
- Mesmo que fosse só ir e voltar no voo seguinte? Cinco ou seis horas bastavam, Aia.
- Aka! Bastavam para quê?
- Para irmos ao Metropolitan Museum.
- Não me parece mal. Mas em cinco horas é um disparate, Aka. Se queres, para o ano que vem podemos passar um par de semanas a visitá-lo.
- Mas Aia, depois podemos pensar em ver tudo o que tu quiseres. Agora era só ver uma coisa e voltar.
- O que é que tu queres ir ver?
- A Petite danseuse de quatorze ans.
Este livro idiota conta a história de um jovem poeta que vai passear ao Jeu de Paume e apaixona-se pela Danseuse.
Fui ao Jeu de Paume e os Degas já lá não estavam.
Fui ao Orsai e a escultura não está lá, não sei porquê.
De qualquer maneira é só a porcaria de uma cópia.
Em Nova Iorque há outra um bocadinho diferente.
O original, foi um asiático qualquer que o comprou há pouco tempo .
Achas que foi aqule amigo do Pai, o Georges Eduard Fu?
Há dois anos comprou um Rembrant e já tinha outros quase tão caros.
- Aka, não faço ideia nenhuma.
De qualquer maneira, se não temos dinheiro para ir a Nova Iorque, a Hong Kong ainda menos. Vamos lá para o ano, se daqui até lá não te esqueceres.
- Para o ano já não quero ir.
Já não tenho catorze anos.
O tempo não pára, Aia.
Não é estúpido?
-
- Sabes, Aia? Afinal já não é preciso ir a Nova Iorque.
Podiamos ir só a Londres, à Tate.
- Talvez. Não vejo porque não.
De qualquer modo, telefonei ao marchand do teu pai que é um homem amável.
A escultura que tu queres ver está de volta ao Orsai no fim do mês que vem.
Esteve emprestada no Brasil, acho eu.
Não sei bem onde é São Paulo.
Mas são tudo cópias, Aka.
Podes ter uma se quiseres, disse ele.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Quem pensa não casa (I)

Se me perguntassem - mas neste país ninguém pergunta nada; já toda a gente sabe tudo - eu diria que não tenho nada com isso. E acrescentaria que, apesar de tudo, não desgosto, uma vez por outra, de meter a foice na seara alheia.
Honestamente, tenho de declarar desde já: acho um disparate as pessoas quererem casar-se. Apaixonar-se, amar, estar de casa e pucarinho com as pessoas de quem se gosta, tudo bem. Cuidar dos filhos quando os haja, claro. Eu diria que é assim mesmo, se a expressão «assim mesmo» significasse alguma coisa. Aqui na minha terra diz-se que «é o que pertence».
Mas casar?
Francamente, eu acho que é como as mulheres poderem ir à tropa. Têm todo o direito.
Mas, como eu sou um anti-militarista convicto, custa-me a perceber porque diabo hão-de as raparigas desejar exercê-lo.
Com os homossexuais é o mesmo. Concordo que têm direito a casar. Se o devem exercer, é outra conversa, mas cada um é que sabe de si.
E pronto: vamos até que sejam todos heterossexuais.
Porque não hão-de casar com uma pessoa do mesmo sexo? Não terão relações sexuais, não lhes apetecerá, talvez. Mas cozinharão belas refeições juntos, discutirão livros que leram, os filmes que viram e podem ir para os copos, adoptar um puto, educá-lo, responsabilizar-se por ele. Afinal, não é a própria Igreja que afirma destinarem-se as relações sexuais apenas à procriação? Ora se eles não tencionam procriar...
E nada obsta, também, a que cada um por seu lado tenha uma amiguinha... ou tenham todos a mesma. E até podem convidá-la para casar com eles. Porque não? Era só criar uma figura nova nessa coisa de fazer leis: partilhar um casamento já existente, como se admite um sócio novo numa empresa já constituída.
Salta aos olhos, claro, que essas pessoas, heterossexuais ou não, dispõem já de instrumentos jurídicos para se juntarem e para resolverem as questões que sobrevenham. Para quê, então, produzir legislação especial?
Não sabendo nada de direito, julgo que, reguladas as relações mais banais, os legisladores tenham de acautelar as situações em que um ou mesmo ambos os contratantes se encontram numa situação, digamos, perturbada.
O casamento moderno assenta numa forte emocionalidade que vai, frequentemente até à paixão.
Do mesmo modo - ou semelhante - as pessoas com perturbações mentais ou de alguma forma diminuidas na capacidade de se determinarem mereceram a protecção da lei.
Os casamentos, portanto, de há anos para cá, foram alvo da atenção dos legisladores que consideraram insuficiente a tradição religiosa e a autoridade dos pais.
Por isso, por muito que me custe admiti-lo, acho que as uniões homossexuais e todas as outras formas de, por razões emocionais, viver de casa e pucarinho, têm de ser consideradas casamentos e defendidas pela lei.
Disse.

sábado, fevereiro 21, 2009

O Carnaval do Magalhães

- Isto agora dói um bocadinho.
Mas vocemecês nem queiram saber o carro alegórico que vai dar para o ano.

sábado, fevereiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XII)

- Psst! Miúda! Avia aí os trocos.
Aka olhou para ele, sem amenidade.
Era branco e não tinha o ar muito limpo.
Mas ali, sentado numa caixa, com um copo e um livro, não parecia ameaçador.
- Estás a ler o quê? - perguntou ela, sentando-se nos calcanhares em frente dele.
- Tens alguma coisa a ver com isso?
Aka mostrou-lhe uma nota de dez euros.
- Os trocos, lembras-te? O pedinte és tu, não sou eu.
- Só tens isso?
- Se o livro valer a pena pode ser que eu volte... E pode ser que tu me mostres outros livros e pode ser que vá havendo mais uns trocos...
- Ah bom. Queres fazer de mim um investidor, é?
- Não. Um mestre? O meu preceptor dizia que temos de escolher os nossos mestres. Mas não és obrigado...
- E em em que é que eu me pareço com um mestre?
Aka pensou.
- Em nada, acho eu. Achas que é por isso?
Ficou a olhar para ela, muito tempo até que mostrou a capa do livro.
- Ouve. É um gajo muito antigo, chamado Gide, André Gide, que já ninguém lê. Chama-se La porte étroite. Começa assim:
Outros poderiam fazer um romance; mas, eu consumi todas as minhas forças e virtudes a viver a história que vou contar...
Passou uma série de páginas e voltou a ler:
- A minha alma está hoje ligeira e alegre como um passarinho que tivesse feito o seu ninho no céu. É hoje que ele deve vir; sinto-o, sei-o; quisera gritá-lo a todos ... Não posso esconder por mais tempo a minha alegria... Interessa-te?
Aka fez que sim com a cabeça.
- Quem é ela? E quem é que vai chegar?
- Ela? Como é que sabes que é uma ela? Pode ser um ele. Ou um maricas. Ou um marciano. Os marcianos não têm sexo, sabias?
- Não. E tu, já viste muitos?
- Espertinha! Vendo-te o livro por esses dez euros. Mas com uma condição. Aceitas?
- Qual?
Ele percorreu as folhas do livro e rasgou as últimas duas ou três.
- Juras sobre o Corão que nunca tentarás saber o fim da história que ele vai contar?
- Não sou muçulmana. Mas tenho muito respeito pelo Corão. Juro.
- Toma. Deves-me dez euros.
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa em caracteres latinos.
Acompanhada pela Aia e seguida à distância pelo Mahamoud, Aka voltou à ilha de Saint Louis.
O pórtico em obras lá estava.
Mas o ocupante era outro: gordo, a barba por fazer, a garrafa do vinho tinto.
- Le pettit con? Vieram buscá-lo, les flics ou les bleus, des comme ça.
Falou para a Aia que se mantinha distante:
- Vou-z-auriez-pa-z-une piéce, vous, la grand-dame? J'ai jamais toué personne, hê?
Mais não sabia.
O «pettite tête» não «pertencia», era um passante, não entrava na festa la fête com toda a gente.
- Ele era toc-toc. -concluiu e estendeu o boné para encerrar a conversa.
- Porque não compras outro exemplar desse livro e não o lês até ao fim? - sugeriu a Aia.- Esse, de qualquer modo, tens de o deitar fora, está sebento.
- Fiz um juramento - respondeu Aka.
E não explicou mais.
-
Ou:
Dois dias passaram.
Aka não lia muito depressa da esquerda para a direita.
O pórtico em obras lá estava, com o sem abrigo encolhido no seu anoraque enxovalhado.
Mas sem livro.
Parecia ter-se ido embora e esquecido ali o corpo.
Da boca aberta escorria um pequeno fio de baba.
Aka, ajoelhada ao seu lado, ficou uns minutos quieta.
- Talvez tenha de ser assim com os meus mestres - murmurou.
Não sabia como chamar uma ambulância, mas, do outro lado do telemóvel alguém havia de saber.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XI)

Aka andava pela Ilha de São Louis quando encontrou o Senhor.
Vinha a rir-se porque, depois da seriedade de uma Ecole de garçons a ter feito pensar pela milésima vez «mas porque é que eu fui nascer rapariga?», os olhos depararam-se com um restaurante com o nome L'Ilot Vache.
Aka não sabia francês suficiente para conhecer os múltiplos sentidos que a palavra «vache» pode ter, para além dos mais evidentes. Mas já tinha aprendido que dizer de qualquer coisa que «c'est vache» ou «c'est vachement con», não é propriamente um elogio.
Foi então que tropeçou n'Ele.
Vinha absorto, a ler um livrinho.
Quase chocaram. E sorriram-se.
Diga-se:
Os fiéis das grandes religiões, os cristãos, os islamitas ou os judeus, já não sabem sorrir a Deus. Os sacerdotes proclamam que é um Pai bondoso e justo; porém, só eles têm a chave dos tabernáculos onde O encerraram.
Talvez haja mais do que um Deus único, pensa Aka, porque o seu é ao contrário dos outros:
vive com o seu povo.
Como toda a gente.
É por isso que os antropólogos acham que a religião dela é um animismo.
Por isso, e por não precisar de sacerdotes.
O Tio Mais Velho orienta a oração da noite quando estão todos juntos.
De resto, Aka reza quando a alma lhe pede.
- Com que então a rir do restaurante onde eu almocei. -disse Ele interrompendo a leitura.
Aka fez um sorrisinho mais largo a que juntou um pequenino encolher dos ombros.
- E o que fazes aqui sozinha? Não é costume, pois não?
Aka, com os olhos, indicou o guarda-costas que se aproximara, a mão dentro do anoraque, no bolso do peito.
- É um chato, nem sequer Te reconheceu. - riu-se ela. - Não podemos pregar-lhe uma partida?
- Não. Não seria justo. Está a fazer pela vida, da única maneira que sabe.
- Pois. É o que me diz a Aia.
- Então deve ser verdade, não é?
Riram-se de novo.
E depois, não havia muito a dizer, foi a despedida.
O Senhor seguiu os Seus caminhos mergulhado no livrinho e Aka, pela rua de Saint Louis afora, de alma cheia, com o andar saltitante e uma canção desafinada nos lábios.
- Não era simpático perguntar-lhe porque existe, pois não? - interrogou-se ela.
E concluiu que não.
Há coisas que não se deve perguntar, mesmo que se saiba já a resposta.

sábado, fevereiro 07, 2009

No bird has the heart of singing but in absolute silence

"I gladly consent to be silent. But then, alas, I'm unlikely to know anything. To renouce literature, I would have to be really sure that I could know. A certainty that crassly prove my ignorance."
Susan Sontag, I, etcetera,
«Project for a trip to China» (1972), 1978

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (X)

-
Aka estava encantada com o livrinho pequeno e gorducho,
meias páginas, meios poemas,
meio outra coisa que Aka não soube definir.
O que primeiro a tinha atraído, no tabuleiro do bouquiniste, fora a encadernação vistosa,
bastante oiro, grandes letras gravadas em cabedal.
E logo depois, a dedicatória:
«À mon ami, mon amor, source de mes envoûtements...»
numa letrinha muito parecida com a da própria Aka.
- Foi decerto muito infeliz - pensou.
- Senão este livro nunca estaria aqui à venda.
-

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

domingo, janeiro 25, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (IX)


Aka, com os lábios apertados, sem prestar atenção ao que estava a fazer, deixava os dedos correr pelas teclas do clavicórdio, suavemente por vezes, brusca, quase violenta noutras.
- Aia?
Os dedos insistiram no mesmo acorde, repetido uma vez e outra e outra.
A Aia cortou a linha com os dentes e examinou o bordado:
- Hum? - fez ela.
- A igreja é uma associação de pedófilos homossexuais?
- Igreja? Qual igreja?
- Esta. - com um gesto do queixo indicou as revistas abertas, espalhadas pelo tapete.
- Claro que não, Aka. Como podes dizer uma coisa dessas?
- Não sei. - os dedos interromperam o acorde e ficaram como que a tocar o ar e as suas teclas invisíveis. - Não sei nada, Aia. O que é um homossexual? Aqui diz que os surdos mudos foram sodomizados num colégio de padres. Eu tenho um irmão que é surdo mudo, sabes? Não sei como se chama, é o filho mais velho da segunda concubina do meu Pai, lembras-te, aquela que é mahori e tem o rosto tatuado? Quando nós vivíamos em Florença e ele vinha brincar connosco para o terraço grande, do lado do Arno, nós dizíamos «sschiu.... agora ninguém fala: quem ele entender primeiro, ganha!» Chamávamos-lhe o Shiu-biu e ele nunca nos disse se tinha outro nome.
Os dedos voltaram às teclas para as primeiras frases de Limelight.
- E o que é sodomizar?
- Aka, nada disso é da tua conta. Esquece essas revistas, por favor. Se o teu Pai soubesse das porcarias que tu lês, não te tinha mandado aprender. A culpa é minha que te deixo trazer isso tudo para casa.
- Estou a pensar...
- Aka! Chega! Proíbo-te de pensares mais seja o que for.
- Achas que o Papa desta vez lhe vai enviar um pedido de desculpas?
- Desculpas? A quem?
Só os acordes do clavicórdio lhe responderam.
A Aia atirou a caixa de costura para o chão.
- Estás a ficar insuportável, Aka.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Letra e Música

Paulo Castilho,
Letra e Música,
Oceanos, 2008


-
Se calhar já o disse algures: os meus escritores favoritos (entre os portugueses nossos comtemporâneos, acrescente-se, dado que o Nuno Bragança e o Cootzee não preenchem um destes requisitos pelo menos) são o Mário de Carvalho, o João Aguiar e o Paulo Castilho. E, durante o passado 2008, todos eles me deram a alegria de publicar um livro.
Não é uma figura de retórica: foi mesmo com alegria que me precipitei para as livrarias à procura de qualquer coisa que fosse legível e que nos dissese respeito, a nós que, até ver e na falta de alternativa, vamos fazendo parte da lusa gente.
O Lobo Antunes será um autor muito estimável. Voto sinceramente a favor de que lhe dêem o Nobel, mas, ele que me perdoe: não me obriguem a lê-lo.
A Agostina, idem.
Dos Miguéis Sousa Tavares e das Margaridas Rebelo Pinto, nem falar: assumo que o defeito seja meu. Mas, por isso mesmo: é uma das manchas no meu carácter que mais prezo, que, como o Huck Finn, posso apertar ao peito e chamar irmã.
A Maria Velho da Costa, essa desarma-me. Lembro-me particularmente de Lucialima, um romance tão irregular que dei comigo a adorar a história da Lucinha, a menina ceguinha, e a detestar quase tudo o resto, sobretudo a cena erótica entre o Lima-Limão e a menina-patroa com quem ele ia brincar fardado da Mocidade Portuguesa. Não tenho instintos pedófilos, mas oh!, se os tivesse...
Myra (Outubro, de 2008 também, da Assírio e Alvim) está aqui ao lado, há meses num pego-lhe, não pego, leio, não leio que me irrita e me incomoda. Não me perguntem ainda porquê. É uma questão que tenho comigo mesmo e que, provavelmente, acaberei por resolver.
E, entrementes que é uma palavra interessantíssima, outros livros que me caíram no prato, e esses devorei-os.
Do Mário de Carvalho e da Sala Magenta, do João Aguiar e do Priorado do Cifrão, já falei, estamos conversados.
E quanto ao Letra e Música, do Paulo Castilho, tenho andado a adiá-lo.
Não porque não se leia de jacto. Não porque não seja um romance bem construido. Não porque a sua trama não seja interessante: uma jovem nascida em Sintra, numa casa com nome próprio, emigra nos idos de sessenta e seis, primeiro para a pérfida Albion e depois para os States, em busca de um som, uma forma de fazer música, de a tocar e a cantar, impossível ou, pelo menos, improvável em Portugal.
Creio ter sido Dinis Machado (ó Glória da nossa Terra, que tens salvado mil vezes...) o primeiro escritor a usar de um método narrativo de segundo, terceiro e, por vezes, quarto grau. É um conta-se que Fulano disse que Sicrano viu Beltrano fazer...
«Contam-se hitórias do Ângelo», disse Austin, acendendo um cigarro, «que ele era, segundo a expressão que Molero diz ter recolhido em fonte idónea, danado para a porrada. Que uma vez, isto contava o Zeferino Torrão de Alicante, e o Chinês que vendia gravatas confirmava com a cabeça...»
(O que diz Molero, 1977. 21ª ed., Bertrand, 2007, pag. 48)
Só me lembro de ter voltado a ver alguma coisa parecida numa obra que teve algum êxito: Austerlitz, de Sebald, creio que 2001: «Austerlitz conta que...» (não tenho o livro que me foi emprestado por um amigo e não encontro o caderno onde anotei a citação completa, sorry).
É provavelmente falta de atenção da minha parte.
O próprio Paulo Castilho usara já este artifício literário em Por outras palavras (2000) onde a narrativa mais ou menos autobiográfica de um escritor em mal de inspiração é, por sua vez, narrada pelo Filipe, um jovem escritor também, que o secretaria, enquanto nos vai narrando as peripécias da sua relação com a Rita, a outra secretária.
O mesmo recurso é retomado em Letra e Música.
Mónica Mendes, a jovem cantora emigrante, deixa os diários da sua aventura anglo-americana. Cabe ao Filipe, agora um pouco mais velho, a sentir por sua vez dificuldades criativas como o seu antigo patrão, fazer o apanhado desses testemunhos, reconstituindo a vida da cantora. Infelizmente, já se separou da Rita que, como o autor explica em nota de rodapé, «pertence a outra história» (e isto podia, talvez, explicar a sua crise criativa).
Em Por outras palavras, era da relação entre a Rita e o Filipe que surgia a tonalidade céptica, sarcástica por vezes, que dava espessura às personagens e vida às diferenças geracionais. Em Letra e Música, se calhar é essa tonalidade o que falta. Será defeito meu, mas não consegui ler na Mónica Mendes uma personagem credível - ou terá sido o Filipe vagamente deprimido que não a soube transmitir?
A Isabel e a Cláudia, as duas irmãs sobrinhas da cantora, pelo contrário, seguem a tradição de Paulo Castilho: como a Rita que é de outra história, são personagens muito vivas e, como dizer? Simpáticas, é pouco. Amáveis? Gostáveis? Talvez.
E ainda bem.
Estou farto de autores que detestam as personagens femininas dos seus próprios romances.
-


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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Obamocepticismo 2

- E agora? Metemo-los onde?
-

O nosso Obamocepticismo está um bom bocado menos céptico: Guantanamo vai fechar.
Praise the Lord!

domingo, janeiro 18, 2009

I don't believe in angels...

Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Já que a Ti me confiou
A Piedade Divina:
Hoje e sempre, governa-me,
Reje, guarda e ilumina.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII) - cont.

- Aka! - gritou a Aia, já exasperada: - Já chega. Se não sais daí, rebento a porta.
«Aí» era um closet, meio armário, meio quarto de vestir.
Mas não foi preciso: a maçaneta de porcelana girou tranquila, com se nunca tivesse estado trancada.
As roupas lá estavam, levemente agitadas por uma brisa que vinha da parede de fundo, de uma porta antes encoberta por paineis de madeira.
Num hotel antigo, tantas vezes adaptado, com tantas crescenças, nada daquilo era para admirar.
Aka era um diabinho esperto, uma verdadeira Peri quando crescesse, sabia-se lá por onde andava agora.
A Aia não era timorata e ainda recordava os livros da Enid Blyton, cheios de passagens secretas. Um pouco embaraçada pela longa capa, desceu a escadinha íngreme. Acordes metálicos de guitarra enchiam o ar quando chegou a um corredor largo e atapetado, uma longa curva para a direita, lado onde estavam as portas numeradas.
- Parecem camarotes de um teatro - pensou a Aia. E entrou.
Vultos indecisos na penumbra voltaram-se para lhe dar as boas-vindas.
- Também foste abusada, irmã? - perguntou alguém num murmúrio. - Podes tirar o niqab. Sabes, aqui ninguém precisa de ter vergonha e muito menos sentimentos de culpa.
A Aia inclinou-se para espreitar o palco.
Por um instante pareceu-lhe reconhecer Aka na cantora magra e de cabelos rapados, mas, claro, não podia ser ela.
- É a Sinhead O'Connor - explicou a mesma voz murmurada. - Veio cantar o War, sabes, aquele cântico em que ela grita: «child abuse, yeah!»
- Nós estamos aqui para a proteger se for preciso - disse outra voz.
- Who'll dig his grave? - perguntou a Aia, com um sorriso melancólico.
- I, with my pick and shovel, I'll dig her grave.
Voltaram-se para ver quem tinha falado, mas era apenas mais um vulto na sombra.
-

terça-feira, janeiro 13, 2009

... e outros lugares muitos ...

- Aquilo, Senhor Deus, é a aldeia.
E aqui era a nossa casa.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Sem título

Rui Azul
(sax tenor)
-

Wolfram Mineman
(piano)

sábado, janeiro 03, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VIII)


O homem não soube como começar. Olhou o gerente que, com um sorriso desdenhoso, o mirava uma vez por outra.
A Aia não se dignava olhá-lo.
- Porque trouxe aqui esse indivíduo? - perguntou ela.
O gerente pensou que os olhos, do fundo do niqab, se riam deles.
- Quem me dera poder resistir a uma ordem da administração. - respondeu.
Era um filósofo.
A Aia, numa voz suave como uma lixa muito fina, ordenou:
- Diga tudo o que tem a dizer. Poupe-me os detalhes.
O homem, atabalhoadamente, falou em assinaturas, compras exorbitantes, dezenas de milhar de euros, falta de garantias.
- A menina em questão - explicou ele - ultrapassou os limites todos do crédito. Vossa Excelência compreenderá que tenhamos de tomar algumas precauções, ter a certeza de que não se trata de um abuso... ou mesmo uma fraude! Até para protecção dos próprios clientes...
- Que nome?
- Repare, não digo que haja...
- Que nome?
- Petra von Goethe ibn Sadar ibn Sadham, é o nome que a menina assinou. Mas não sabemos, verdadeiramente não sabemos, pode tratar-se de uma falsificação, compreende, ou assim...
- Se é o nome da princesa Petra que aí está, todas as facturas serão pagas. Falsas ou não falsas, não interessa. Pode retirar-se.
Abalado, mas com visível alívio, o homem deixou-se empurrar.
Quando a porta se cerrou nas costas dos intrusos, a Aia dirigiu-se à sala onde Aka, de djilahba negra e o rosto coberto, a olhava inquieta.
- Compreendes o que fizeste, minha pequenina?
- Ó Aia! Os meus irmãos podem partir bordéis inteiros, gastar reinos em Monte Carlo e o meu pai não diz nada. Não podes fingir que nada disto aconteceu?
- Sabes que não, Aka. Se não mostrarmos que sou capaz de te disciplinar, não podemos ficar
em Paris. Queres voltar para casa?
- Não, Aia, voltar não.
- Sabes que vintes chicotadas é o mínimo que os teus tutores aceitarão?
- Ó Aia, com muita força não...
- Não, com muita força não. Mas quanto mais depressa, melhor. Levanta o vestido.
O segurança de serviço ao circuito video, rebobinou vezes sem conto as imagens do chicote e do rabito de Aka enquanto se masturbava.
-
Ou, por exemplo:
- O meu nome hoje é Liddell, Aia, - disse Aka assim que os intrusos saíram.
- Alice Liddell.
Bebeu um gole de um licor doirado e voltou a poisar o frasquinho de cristal em cima da consola, antes de começar a diminuir de tamanho.
- Acreditaste verdadeiramente que aceitaríamos seguranças do sexo masculino a vigiar os nossos quartos, minha tolinha?
Mas Aka, com poucos centímetros, já se tinha sumido no interir da gaveta aberta e não respondeu.
-
Ou ainda:
- Aka! - chamou a Aia - Já chega! Sai desse armário imediatamente!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (VII)

As horas correram num ápice: Aka saltitou de boutique em boutique.
Ignorou as joalharias.
Quando sentiu fome sentou-se num banco alto do bar e comeu um gelado enjoativo, mas com umas óptimas bolachinhas espetadas.
Saiu sem pensar na conta.
Antiquários e porcelanas interessaram-na.
Parou a ver um relógio de mesa, com uma pastorinha em esmalte, de longo vestido e um pequenino fauno com uns pequeninos chifres e minúsculos pés de cabra e que giravam vagarosos num bailado solene, de mãos dadas, dentro de uma redoma.
Depois, demorou-se a contemplar as T-shirts Monica Hikikomori.
A assistente aproximou-se cautelosa, para tocar muito ao de leve o tecido do niqab, observar as escravas que Aka se esquecera de tirar dos braços: na profissão aprende-se muito cedo a não confundir os guardanapos com os esfregões.
- São modelos únicos, pintados à mão e assinados - esclareceu ela.
- Talvez me deixem usá-las - murmurou Aka. E em voz alta, porque lhe tinham dito que não devia ser açambarcadora: - Há problema se eu levar estas todas?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Handle gently

Cuidado!
Bebé Ano Novo Armadilhado!

2009

Cuidado!
O Ano Novo vem aí!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

- Grande arrelia, caramba!

O «Portugal, Caramba!» tem estado ligeiramente empanado. Talvez seja de uns vapores festivos que lhe saem do motor, quem sabe?

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Pantaleão em rima livre


José Manuel Pedroso,
Pantaleão é nome de Capitão,
Chiado Editora, 2008
-
É claro que os livros não se medem aos palmos e que não seria por ser magrinho que este deixaria de ser interessante.
Mas, setenta e e duas páginas para falar do exército português em tempos de guerra colonial, da província de Moçambique com os seus colonos, o seus estilos de vida, setenta e duas páginas para falar de um aristocrático militar de carreira que recebe os camaradas de armas com "pratas, cristais e Mozart", que cita Os Maias ou O Estrangeiro do Camus, setenta e duas páginas, enfim, não são nenhum exagero de prolixidade.
E mesmo assim, algumas dessas páginas ainda se perdem em coisas inúteis, como a história do corvo, picada de O despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e que serve de prelúdio aos amores «até à náusea» entre o Alferes Soares e uma liberada Pitinha.
Diga-se desde já: este Pantaleão não é grande literatura, não inova na escrita, os recursos narrativos são pobrezinhos: circunstâncias merecedoras de algum fôlego são abreviadas com o recurso a relatórios, directivas, papeladas militares que só a concisão recomendaria. Os antecedentes do Capitão Pantaleão, natural de Loulé, a sua Mãe esquizofrénica e o seu Pai que bebe «copázios de aguardente de medronho ao pequeno-almoço e anda nu pelas ruas da aldeia a aterrorizar as poucas crincinhas», são despachados em menos de vinte linhas (pag. 16). E, no entanto, este Pantaleão está no cerne da intriga: serve-se do seu posto de oficial do exército para traficar diamantes e promove um massacre no interior do seu próprio aquartelamento para proteger o seu pequeno comércio.
De importante, o que este livro tem é a memória.
Primeiro, a memória de um clima, o de uma tropa colonial sem grande garbo, mais desenrascada do que patriótica, o de uma sociedade a viver a queda do império sem querer realmente saber do que se passa nas suas fronteiras.
E logo, o clima de todos os aproveitamentos em que, só dificilmente alguém escapava às mescambilhas: como se conta no livro, «um camião carregado de fardos para o Natal, tombou na estrada e o bacalhau desapareceu. "Acção terrorista da Frelimo (...), segundo o relatório." - Mas eis que todos os supermercados de Lourenço Marques a Nampula, viram as prateleiras vazias encherem-se de toneladas de bacalhau. Milagre? Nem por isso. As investigações conduziram ao saldo da conta pessoal do Major da Intendência, substancialmente aumentado."
E as investigações do Alferes Soares, dos serviços de Justiça Militar, irão conduzir-nos à rede de tráfico de diamantes sul-africanos, aos crimes do capitão Pantaleão.
Na contracapa, entre outras apreciações, encontra-se o testemunho do Alferes Miliciano de Cavalaria Carlos Vieira: "... eu estava lá, assisti e confirmo." Também ele esteve no Tete, em Moçambique, por alturas dos acontecimentos que dão corpo à narrativa. E confirma.
Que fique para memória futura.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (VI)

As oportunidades e as enxaquecas, às vezes, aparecem a quem delas precisa.
Aka não precisava da enxaqueca propriamente dita, mas achou oportuno que a Aia tivesse uma e preparou-se para o momento em que ela, completamente desesperada e cega de dor, tomasse o blister inteiro dos comprimidos e adormecesse no quarto completamente às escuras.
Então, pé ante pé, Aka ousou:
Tirou rápida o kain panjang com que disfarçava as calças compridas roubadas do vestiário do hotel, atirou-o para debaixo da própria cama e conseguiu sair sem bater a porta.
No corredor enrolou ao pescoço o lenço que lhe servia de niqab e procurou impaciente o elevador onde havia um espelho numa grande moldura doirada e onde poude ver uma rapariguita modestamente vestida, o cabelo depenteado, o rosto sem sombra de pintura.
- Mademoiselle deseja... - perguntou o ascensorista com uma pequenina vénia.
- Nunca. - respondeu Aka, sem desfitar o espelho. - Por razões religiosas, entre outras, percebe?
- Pardon? - disse o ascensorista, já sem vénia.
Aka reparou no tom da voz e corou. Corava com muita facilidade, nos últimos tempos.
- Descemos ao lobby - disse no tom áspero que aprendera com o Pai.
- Bien, Mademoiselle.
- É verdade que não devo desejar, - explicou Aka, já num tom mais gentil, enquanto desciam. - Mas nada me proíbe de ser voluntariosa. A vontade e o desejo são coisas diferentes, como sabe.
- Curioso. - comentou o ascensorista com o boné na mão direita, enquanto lhe abria a porta com a esquerda. - Nunca teria pensado nisso.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Mal amar


60º. aniversário da
Declaração universal dos direitos do Homem



Por iniciativa do Fenix ad eternum, neste dia em que se comemora a declaração pela ONU dos direitos do Homem, formou-se uma cadeia de solidariedade entre blogues de todo o mundo. Esta é a nossa minúscula contribuição; mas, como disse o ratinho, qualquer pequena gota conta... O nosso obrigado também ao Arroios pela dica.


...


O Homem é um animal estranho.
Soube dizer que Direitos tem e proclamou-os há já sessenta anos numa Declaração Universal. Soube, desde os seus primeiros filósofos, desde os primeiros guias espirituais, que deve amar o seu próximo como a si mesmo. Ou, na formulação de Kant, que deve agir de tal modo que a máxima da sua acção possa ser erigida em lei universal.

Sabe-o.

Mas não sabe quem é o seu próximo, não sabe que vai desde a formiga e o pardal até ao rio de terras distantes e à floresta tropical onde habitam gorilas.

Não sabe que o seu próximo é a Terra, com tudo e todos os que podem, mas não devem sofrer.

Nem sabe como amar esse próximo, mesmo que soubesse quem é, onde encontrá-lo.

Não sabe e tem medo de ter de saber: receia o dia em que já não lhe seja possível esconder-se atrás da retórica, que as palavras já não sirvam de balas, os microfones de cassetêtes. a surdez de escudo. Tem medo do dia em que alguém lhe peça contas dos bebés-foca assassinados à paulada, das raposas esfoladas vivas para fazer casacos de peles, das populações vítimas de danos colaterais em guerras absurdas.

Que fazer, hélas, quando o homem não quer a si mesmo, quando secretamente se odeia? Declarar o que queremos que venha a ser pode não passar de um começo. Mas então, comecemos, caramba!

terça-feira, dezembro 09, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (V)

- Odeio o nicab. - protestou Aka.
- Porque é que não me deixam tirá-lo, ao menos no quarto?
- Porque o teu pai exigiu câmaras de vigilância em todo o hotel
- repondeu a aia cheia de paciência.
- E nunca se sabe quem te está a ver.
Aka mordiscou o lábio inferior.
- Espero que quem quer que lá esteja aprecie o striptease.
Vou tomar um duche.
Felizmente que ainda não é interdito.
- Não - concordou a Aia.
- Só fazes quinze anos no ano que vem.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

sábado, dezembro 06, 2008

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Subsídios para o Livro de Aka (IV)

- As pregas do seu trajo
têm um cair muito sensual
- disse o cortejador.
Aka baixou os olhos e fez um meio sorriso, o que nela signifacava:
"Nem mereces que te mande abater pelo meu guarda-costas."
O cortejador achou que ela estava no papo.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Subsídios para o livro de Aka (III)

Havia gravuras ao longo das paredes dos longos corredores.
Algumas eram de Goya, Aka nunca descobriu se eram originais ou cópias de cópias.
Quando o Núncio fazia os seus discursos, copiados, esses sim, de cópias já antigas,
e todos concordavam que sim,
que cada vida humana era única, preciosa e irrepetível,
Aka lembrava-se dos mortos e das violações encaixilhadas,
dos pássaros de pesadelo,
dos fuzilamentos, dos canhões, dos corpos estilhaçados
em molduras doiradas e vidros anti-reflexo.
Pensava:
- Ninguém devia poder dizer que a vida é um dom precioso
antes de ter tentado vender preservativos furados em Covent Garden.
E recitava, de si para si:
- A pound dear father is the sum that clears the wicket.
Mas, claro, não dizia nada.
Não era suposto que uma virgem,
real ou suposta também,
soubesse das coisas que ela tinha para dizer.
O mundo, achava Aka, abusava dos supostos.