
-
-
O que é um casamento?
"Irmão Leão, mesmo que os Frades Menores dessem por todo o lado um grande exemplo de santidade e boa edificação, mesmo assim escreve e anota com cuidado que que não é aí que está a alegria perfeita."

- Acredite, Inspector: vejo em si o mais perfeito exemplar de funcionário que jamais me foi dado conhecer em vinte anos de auditorias. Os meus parabéns.






Sempre andaram por aí, desde o Senhor D. João III, creio, ou mesmo antes. Tiveram muitos nomes: sob o principado de El-Rei Junot, por exemplo, chamaram-se «moscas». Mas foram sempre iguais a si mesmos: invejosos, mesquinhos, de vistas curtas. 
Com a devida vénia à Hainnish que colaborou activamente na descoberta destas e de muitas outras espécies de quèobrensis.


"The Virgin started from her seat, & with a shriek"
-
- Como te chamas, jóia?, perguntou a Cartomante.
- Não sei, respondeu Aka. Tenho mais de mil nomes.
- Como Nosso Senhor, hem? Não és modesta. E como te chamava a tua mãe, além de minha bonequinha fofa?
- A Mãe foi morta quando eu tinha cinco meses, dizem. Mas a minha primeira ama, a que me deu de mamar, chamava-me Diniza.
- A tua Mãe foi morta? E por quem, minha preciosa?
Aka abanou a cabeça.
- Não lhe posso dizer.
- A mim podes dizer tudo, pequena. Mas não queres, não é assim? Bom! Diniza? Diniza, num dialecto muito antigo que aprendi num sonho, queria dizer «filho de Deus".
- No meu também. Mas «din» ou «djin» junto com «iza», que quer dizer pequenino, é o que se usa para os enjeitados, sabes? Cria de Deus, filhote. Alguém que foi deixado à porta do Pai mais velho.
- Hum-hum? E depois?
- Depois o Pai mais velho decide se a criança merece viver e dá-a a criar a uma ama, a uma mulher que esteja a amamentar. Ou decide que não... A mim podem ter decidido que eu vivesse.
- Que história triste, pequena. Tens a certeza do que contas?
- Não, sabe, «dinisa» também se usa para uma rapariguinha endiabrada, um diabinho em forma de gente. A diferença é que os letrados ocidentais escrevem com «s». Nós usamos a escrita antiga, que não é só fonética.
- E tu, eras um desses diabinhos?
- Ainda sou.
- Seja Diniza, então! Com «z» ou com «s», tanto faz.
Soletrou e foi espalhando cartas em polígono à medida que recitava as letras.
- Ui! Que violência, minha querida. Vês? Esta carta é o teu pai.
Colocou em rápida sucessão mais seis cartas ao lado das anteriores.
- Sim, vejo-te com uma coroa de rainha, diamantes, safiras... e uma espada sobre a tua cabeça. Pés descalços, sobre as silvas. Quem és tu, Diniza? Com esse rosto tapado deves ser muçulmana... Não, espera... és de uma seita que te condenou... que interessante, Deniza: estás condenada à morte! Não acredito que tenhas poderes suficientes para fazer mentir as cartas. Só o Demónio o consegue.
- Eu sou um diabinho, lembra-se?
- Mostra-me as tuas mãos! Consegue-se fazer mentir todo o corpo. Hás-de aprender isso um dia, talvez quando casares, se viveres até lá. Mas, não te esqueças! As linhas das mãos, nunca mentem porque a mentira fica gravada para sempre.
Aka estendeu ambas as mãos, com as palmas viradas para cima e fechou os olhos:
- Why cannot the Ear be closed to its own destruction? - perguntou ela. - Não se preocupe: foi qualquer coisa que aprendi nas aulas de Inglês. Um preto qualquer, como eu.
- Modesta, como sempre, hem? Eu também estudei inglês, rapariga. O William Black só era preto de nome. E tu nem issso. E agora cala-te. Quero ver o que dizem estas linhas.
