Não sei como anda o tempo aí pelas vossas paragens.
Aqui sopra um ventinho de se ir para a América só com a vela do estai de proa.
Para quem já tem que chegue dos nossos Dantas, é o ideal.
Já viram? Mar a fora, passar ali a Madeira e Alberto João o mais de largo que as correntes deixarem e só parar na Patagónia?
Que está frio, o mar tempestuoso e isso, dizem-me.
Queria eu lá saber.
Tivesse eu nem que fosse um Vaurienzito... mesmo o mar picado não mareia tanto como a televisão, a ver candidatos e comentadores, alguns dos quais, benza-te Deus.
Assim, olha!
Vou gastando o mais utilmente que posso o período de reflexão.
Mas talvez tenha sido o melhor Ministro da Educação que tivemos, da reforma da universidade pelo Senhor D. Sebastião José, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, até aos nossos dias.
brincara com as teclas num arremedo da Dansa Russa e,
com um alicate, entreteve-se por momentos a cortar-lhe as cordas.
Depois tinha-se ajoelhado no tapete, junto à mesa que fazia de palco à Petite danseuse de catorze ans. O olhar, como se fosse ainda menina, razava a nogueira polida do tampo, e o dedo estendido contra a base da estatueta empurrava devagarinho, como se a pudesse fazer dançar. A Petite danseuse erguia os olhos para lá,
para onde havia um lustre. «Não estás num verdadeiro palco com uma ribalta», disse Aka. «Nem aquilo ali em cima é a verdadeira luz.
É só um vidro, cristal de Veneza dizem, pingentes que cintilam, falsos brilhantes, cintilações... Banalidades. Palavras. Deus, se tivesse bom gosto nunca as usaria. Mas Ele só fala a linguagem dos dins cantores, a linguagem da glória.»
Uma volta mais leve deixou a Petite Danseuse à beira do seu tablado.
«Antes de cairmos, dei-te um dos meus nomes,
o que eu mais gosto por me lembrar o Petruska do bailado.
Perdoa-me, Petra, amanhã faço quinze anos.
Leva o meu nome e a minha alma contigo para que ninguém mais nos use.»
Do tapete, deitada de lado, com as pernas partidas,
a Petite Danseuse olhava-a enfim, de olhos nos olhos.
O inesperado caminho da morte de que todos falam, esse descampado percurso ao geográfico sol que nos impede de ver os felizes contornos da vida, chega sempre cedo demais.
Obstinados sem-abrigo, treinamos a sobrevivência, agarrando com os violentos punhos do amor, o vago fio que nos atrasa o fim. Protegemo-nos da prolongada e da diurna luz no aconchego clandestino do ginásio, que nos prepara o corpo da solidão.
Não há morte feliz ao ponto de como só a vida o poderia ser.
Cidadão anónimo surpreendido no acto de denunciar um caso grave de corrupção. -
Nós aqui no Portugal, caramba! sendo uns mentirosos natos, garantimos o nosso profundo respeito e adoração pelo Estado.
Às vezes, porém, há coisas verdadeiramente intrigantes.
É claro que um portal aberto pelos poderes instituídos (o DCIAP, caramba!) para combater a corrupção pode parecer assim, a modos que, uma contradição nos termos e até, se fosse nos Estados Unidos, era capaz de ser proibido por uma emenda qualquer. Mas admite-se, metade por masoquismo, quem sabe, metade por uma inofensiva manobrinha de propaganda. Por outro lado, fazer-se apelo à denúncia dos cidadãos uns pelos outros não é propriamente uma novidade aqui no burgo: par'aí desde a Contra-reforma, julgamos nós, já houve familiares do Santo Ofício, moscas, informadores da Pide, sabe-se lá mais quem. Sirva de exemplo o caso de um professor que contou uma anedota lá pela delegação do Norte do Ministério da educação que temos.
O que espanta, o que verdadeiramente espanta, é que se garanta o anonimato aos ditos denunciantes.
Anonimato? Num país onde um processo em segredo de justiça pode aparecer pespegado na primeira página de um jornal, onde escutas secretas são transcritas e dadas a público?
Ná!
Nós aqui no Portugal, caramba! queríamos ser tudo (ou quase, pronto!): anónimos é que nunca! Safa!