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sexta-feira, julho 02, 2010

A volta do Concha Y Toro












"Sabe, no fundo
eu sou um sentimental .

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da síflis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar,

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora."


Fado Tropical, Chico Buarque, Rui Guerra

-
Querem saber?
Ando por aí, de supermercado em supermercado, de prateleira em prateleira, à procura.
Eu juro que já a vi, num daqueles dias em que devíamos bater em nós mesmos, de tão burros que estamos. Porque é que não a trouxe logo?
Era fim de mês, se calhar, o dinheiro já se fazia escasso?
Mesmo assim. Foi imperdoável.
Chamava-se Concha y Toro, Casillero del Diablo, era uma garrafa igualzinha, excepto na data, claro, a uma outra, de saudosa memória, trazida do Chile e que guardávamos para celebrar o derrube do general Augusto Pinochet.
Não chegámos a bebê-la: morreram ambos, o vinho, inocente, na sua garrafa, cansado de esperar, o Pinochas na cama, os pecados perdoados, quem sabe, por algum desses padres anti-operários, anti-comunistas, por causa de quem, ao cheiro dessa canela, Cristo se despovoa.
Mas se o Pinochas era um reles ditador, era também o símbolo de todas as reles ditaduras sul-americanas.
Culpa de Neruda? De Isabel Allende? De Spúlveda?
A Argentina e o Brasil tiveram, certamente, os seus escritores. Não terão alcançado a notoriedade, as suas denúncias ficaram, talvez, abafadas por livros como o De amor e de sombra.
Ou fomos nós que nos deixámos ofuscar.
Quase nos esquecíamos dos Videla, dos Castello Branco.
E mais.
Não passavam, todos eles, na sua empáfia condecorada, de testas de ferro, marionettes nos palcos da sul-américa. Mas de tal modo concitavam o ódio, quase nos faziam esquecer o Henry Kissinger, as secretarias de estado, os Nixon e os Ford.
Não chegámos a beber a Concha y Toro primeira.
Mas agora que o Videla, já condenado a prisão perpétua, indultado e novamente preso em prisão domiciliária, agora que vai novamente a julgamento, meu Deus!
Desta vez, não escapa. Quero uma Concha y Toro segunda para celebrar, pronto!
E, talvez não devesse dizê-lo, mas sei aí de um Porto, quase com cem anos.
Adivinhem quando é que a gente o vai beber.

sábado, outubro 13, 2007

Concha y Toro, 1981

Malvada garrafa! A culpa não foi tua, eu sei. Mas, com seiscentos mel diabos! Porque é que não duraste mais uns meses? Mais uns anitos? Havias de estar soberba, o teu néctar naquele castanho escuro-avermelhado, translúcido e aromático, delicado e poderoso, aveludado e com um corpo grácil e feminino que quase se pode tocar, com a ponta erótica da língua!

Teríamos erguido os nossos copos aos tribunais chilenos que, enfim, acusam de ladroagem e desvio de dólares, locupletação e aproveitamento, ao velho ditador que os caldeirões do Inferno o tenham em óleo rançoso a ferver.
Teríamos voltado a encher os copos e a brindar, desta vez aos tribunais argentinos que ousaram, sim, ousaram condenar a prisão perpétua - quer dizer, até que o diabo o carregue - o Padre Cristiano, torturador, assassino e, como o tribunal decidiu, sequestrador.
"Dios sabe que era para bien del país!", disse ele em tribunal.
Para bem do país? Mas como? O país não é também aquele gente que se torturou e se fez desaparecer?
A Igreja argentina já pediu "perdão com arrependimento".
Teríamos bebido à Igreja argentina pelo seu arrependimento. Mas ficaríamos à espera de uma lei canónica, dimanada do Vaticano, que dissesse claramente:
"Nenhum cristão, sob pena de excomunhão, banimento e desprezo mais completo, fará jamais mal algum ao seu irmão, seja qual for o pretexto, político, religioso, militar, étnico ou ético."
A esse canon, sim, teríamos despejado galhardamente toda a garrafa e mais que fosse. E já muito bêbados, se calhasse, entoaríamos muito sérios o
"Queremos Deus,
ao Pai Supremo!
Queremos Deus
ao Redentor...
Zombam da fé
os insensatos,
Erguem-se em vão
contr'ó Senhor...
Da nossa fé ó Virgem,
o brado abençoai.
Queremos Deus que é nossa fé,
Queremos deus
que é nosso Pai..."
Respeitaríamos a nossa divindade e os Seus representantes na Terra enquanto, balançando-nos ao som do Queremos Deus, exibíamos a nossa bebida, tu, Concha y Toro, 1981.
"taritata-ta-titata...
Taritati-ta-ta-tatáaa!"
Mas tu, pobre e honesta garrafa, Concha y Toro, 1981, preferiste morrer. Um bom vinho, tem, antes de mais, o horror à hipocrisia.
Que dizer, senão em respeitoso recolhimento, paz à tua alma? Que no Paraíso, onde os vinhos honestos serão acolhidos com as honras devidas aos benfeitores da humanidade, tu te multipliques em muitos e muitos barris para gáudio dos bem aventurados.
Amen.

terça-feira, agosto 28, 2007

Concha y Toro, 1981

Confesso aqui a minha mais profunda admiração pelos arqueólogos e sobretudo, pelos técnicos do laboratório que, a partir dos caquinhos quase invisíveis, conseguem reconstituir um vasinho romano completo ou o crânio de um Neandertal. É que eu nem um simples papel molhado consigo.

Mas convém explicar.

Antigamente os rótulos das garrafas descolavam-se facilmente. Punha-se a garrafa dentro de água e passada uma horinha iam-se encontrar flutuando descansadamente, os retângulos impressos e a garrafa, já despida dos seus pergaminhos, podia-se vender ao trapeiro que vinha gritar:

- Há jornai-zó-garrafach... queira-vender!

Ontem, porque queria aqui mostrar uma garrafa em especial e, como não me imaginava a passá-la pelo scanner (e afinal, teve de ser) experimentei descolar o rótulo. Bom, descobri que, se a cola não era solúvel na água, o papel do rótulo, esse era. Os pedacinhos mais minúsculos separavam-se, cheios de boa vontade, da cola subjacente, abandonando os seus irmãos sem quaisquer remorsos.

Tudo o que se aproveitou, paciente e desajeitadamente colado, foi a gravata vermelha e o colarinho.

A garrafa, claro, tinha história.

Um amigo, lá pelos anos oitenta e poucos, numa de «eu estou cá para ver tudo», viajou até à América do Sul e dessas turísticas andanças trouxe-me, generosa lembrança, uma garrafa de vinho tinto chileno, Concha y Toro, Casillero del Diablo de 81.

De esquerda como somos ambos desde que nos entendemos tant bien que mal neste mundo, logo ali combinámos que eu guardaria preciosamente o precioso líquido para o bebermos quando o Pinochas - vulgo, o ditador Augusto Pinochet, é escusado dizer - fosse derrubado com o estrondo devido e labéu de malfeitor.

O mal é que os anos foram passando. O torcionário, obrigado pelos amaricanos que não aguentavam já tanta má-consciência, deixou-se afastar com garantias de impunidades e de contas bancárias bem recheadas.

Não foi derrubado, como o muro de Berlim, não caiu com estrondo; deu um passo ao lado e recolheu-se a uma privacidade vigilante. Não achámos que houvesse motivos para celebrações. A garrafa do Casillero del Diablo lá ficou pacientemente, deitadinha em repouso. Mudou de casa, ao sabor de divórcios e separações, duas vezes.

Os ex-ditadores não confiam nos médicos dos seus países, et pour cause. Sabe-se lá quando é que, num hospital ou numa clínica, o enfermeiro de serviço ou a chefe da equipe médica, têm um pai ou uma mãe, torturados e mortos, para vingar!

O general Pinochas, sentindo-se envelhecer e já com alguma maleita, resolveu ir para Inglaterra tratar-se. A impunidade precedia-o na Loira Albion e tudo se teria passado pelo melhor se, entre os torturados, mortos e desaparecidos não houvesse uns quantos cidadãos espanhóis, pretexto suficiente para que a justiça de Espanha pedisse a sua extradição.

Rejubilámos e pensámos: «G'anda Baltazar, desta vez é que é!»

Eu fui espreitar a garrafa. O vinho mantinha a cor e o aspecto límpido, não parecia ter pé. Agendámos as comemorações.

Hélas! O Governo de Sua Majestade a Raínha Isabel II, por motivos humanitários, imagine-se, não concedeu a extradição e deixou-o voltar para casa à conta de que, pobre velhinho, já tão doentinho, agora já não seria justiça, apenas vingança!

Devíamos ter bebido o vinho nessa altura. Não se deve querer mais do que este baixo mundo tem para dar. O velho tinha sido tratado como devia, como um criminoso. Safara-se graças a um pretexto reles. Devíamos estar contentes, mas não estávamos. Lembravamo-nos de um Presidente, morto no exercício das suas funções. Tinhamos lido o livro da Isabel Allende, De amor e de sombra, os relatórios da Amnistia Internacional.

Mesmo reduzido a criminoso perseguido pela justiça, queríamos só mais um pouco: que fosse mesmo julgado. Que reconhecesse em tribunal umas culpazitas e que, em seu nome, um advogado pedisse misericórdia ao povo chileno na figura do seu Tribunal. A pena que lhe fosse aplicada nem era importante: para um velho como ele seria sempre simbólica. Mas nós, que ainda sonhamos com a Justiça, com maiúscula, acharíamos bem. Um euro de indemnização aos familiares dos desaparecidos, uns anos de prisão domiciliária... tanto fazia.

E a garrafa do tinto chileno continuou, imperturbável na sua pose de Grande Senhora, à espera do dia adequado.

Mas a esperança renascia. O Pinochas, no seu próprio país, com a imunidade levantada ou coisa assim, era acusado, ia ser réu de coisas passadas durante a ditadura.

Agora é que vai ser, pensámos nós.

Qual o quê. Paulatinamente, confortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja, o estafermo passou-se. Que terá ele dito ao seu confessor antes de receber a extrema-unção? Já não importa. Escapou, o crime compensa, pelo menos se for apoiado pelos camonas.

Há dias, sem grande entusiasmo, abrimos a celebrativa garrafa de Concha y Toro, tinto de 1981. Como o Pinochas, também ela tinha morrido: deu para provar, fazer uma saúde silenciosa, mas pusemo-la de parte. Esperara demasiado.

- Filho d'uma vaca d'um... - comentou o meu amigo poisando o copo. - Nem a porcaria de um vinho nos deixou beber!